Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 167, de Outubro/Dezembro 2007 (Continuação)

IGREJA / SOCIEDADE

O mundo vive sob uma nova revolução

como a Francesa e só a Igreja Católica

ainda não deu por isso

José Comblin (Teólogo)

Trata-se de um Documento que se estende ao longo de oito páginas. Nem que o tentem ler de um fôlego (é tão fecunda a lucidez do seu autor, presbítero católico residente em Paraíba, Brasil, que apetece começar e não parar), deverão depois regressar a ele com tempo e muita ponderação. Melhor será que façam dele uma sessão de trabalho/debate. Foi escrito para a REB-Revista Eclesiástica Brasileira 265, de Janeiro 2007 (p. 36-58). Transcrevemo-lo com vénia e pública gratidão ao Autor e ao Redactor da REB, Fr. Elói Dionísio Piva.

1. O facto básico

O facto fundamental é que Igreja ainda não percebeu ou não reconheceu ou não quis aceitar a grande revolução da sociedade ocidental que se mani­fes­tou nos anos 70 do século passado e se estendeu rapidamente ao mundo inteiro. O que acontece actualmente na China e nos “tigres asiáticos” é alta­men­te significativo. Povos que tinham uma longa tradição de civilização ado­ptam com entusiasmo e quase com fúria a nova sociedade ocidental nascida da revolução dos anos 70. A Igreja vive ain­da na ilusão do mundo do tempo de Vaticano II, como se não tivesse ha­vido uma revolução tão radical como a Revolução Francesa, logo depois do Con­cílio. Quem hoje em dia lê certos textos conciliares, por exemplo, da Gaudium et Spes, não pode deixar de ficar impressionado pela ingenuidade da concepção do mundo que se fazia naquele tempo. O Vaticano II falou para um mundo que hoje já não existe mais. Entrou na história, mas não fornece orientações para o mundo de hoje.

A partir dos anos 70, começou o des­moronamento da Cristandade. Nos tempos do Vaticano II alguns apressados tinham proclamado o fim da cristan­dade. Mas ainda não era o fim. Pelo con­trário, o Concílio viveu num ambien­te de neocristandade. Poucos anos de­pois, começou a grande revolução da sociedade ocidental que se repercutiu também dentro da Igreja como um fura­cão. Muitos católicos separaram-se da instituição, inclusive muitos padres e mui­tos religiosos. Os conservadores in­transigentes atribuíram esse facto ao Concílio, mas o Concílio não tinha nada a ver com isso. O que aconteceu foi a grande revolução total da sociedade ocidental: revolução na ciência, na eco­no­mia, na política, na cultura; revolu­ção total e profunda com consequências de uma revolução na ética e na religi­ão.

Esta revolução abalou todas as ins­tituições: a família, a empresa, a es­cola, a universidade, o Estado e, natu­ral­mente, as instituições religiosas. An­ti­gos poderes desapareceram e apare­ceram novos poderes. Agora sim, esta­mos a chegar ao fim da cristandade. Mas ainda não é o fim da consciência de cristandade dentro da Igreja. Pelo contrário, toda a instituição continua funcionando como se nada tivesse mu­dado e como se a Igreja ainda tivesse o mesmo poder social de sempre. Há mo­vimentos poderosos que acham que podem refazer uma neocristandade, como aconteceu depois da Revolução Francesa. Pura ilusão. Faltam os ele­men­tos sociais para recomeçar esta ope­ração.

Porém, esta consciência de cristan­dade numa situação de esvaziamento dessa cristandade gera um sentimento bastante generalizado de mal-estar. Com­pare-se a psicologia dos católicos e mesmo do clero com a psicologia dos evangélicos! Entre os evangélicos pre­va­lece um sentimento de euforia, de confiança, de vitória. Os evangélicos sentem-se vitoriosos e os católicos têm a consciência dos derrotados que pro­cu­ram manter o passado sem muita con­vicção. Ora, o fim da cristandade si­gnifica que a evangelização e a pasto­ral já não podem ser feitas a partir de uma posição de poder.

Desde Constantino, a pastoral fez-se a partir da posição de poder dos bis­pos e do clero. Eles ensinam, admi­nistram os sacramentos, governam as comunidades. Cada pároco é papa na sua paróquia: ele é infalível, com plena ju­ris­dição. Os leigos são objecto de obrigações: os leigos devem ir para a pa­róquia, devem obedecer e, sobretu­do, sustentar financeiramente uma ins­tituição na qual não têm poder nenhum. E o poder do clero apresenta-se como se fosse o poder de Deus. A paróquia é a imagem do poder. O pároco é envi­a­do pelo bispo sem nenhuma consulta aos leigos. Ele manda, não porque é re­conhecido pelo seu povo como a pes­soa mais capacitada, mas simples­mente por imposição do bispo. De repente, chega e pode mandar em tudo. O único limite ao seu poder é a resis­tên­cia do povo, a indiferença da maio­ria e uma atitude de defesa, tão fre­quente entre os católicos que faz com que somente uma pequena minoria par­ticipe da paróquia.

Quanto à evangelização do mundo, ela fez-se quase sempre por imposição. A evangelização acompanhou a con­quis­ta pelos poderes da cristandade do Ocidente, por guerras de religião ou con­quista de colonização. A América Latina é o exemplo mais completo dessa evangelização pela conquista e conver­são forçada. Houve excepções. Houve mis­sionários que protestaram contra a conquista. Mas eles não tiveram nenhu­ma influência. Os seus escritos não fo­ram publicados antes do século XIX, quando os impérios de Espanha e Por­tugal já tinham desaparecido. Os povos conquistados receberam o cristianismo pela pressão do poder político e militar associado à missão.

Hoje em dia, a Igreja não tem mais po­der ou somente fica com algumas ilu­sões de poder. Já não pode evangeli­zar a partir do poder. Isto deixa a Igreja des­concertada, com um sentimento de impotência. Eu mesmo ouvi um núncio dizer que sem apoio do poder civil a Igreja não consegue evangelizar. Os que ficam apegados à tradição ficam desconcertados. Acostumados à ideia de que o padre é uma pessoa de po­der, de repente ficam desorientados, quando percebem que ninguém mais aceita o seu poder, salvo algumas se­nho­ras piedosas que cuidam da igreja paroquial. Monsenhor Expedito, de São Paulo do Potengi, contava as palavras do bispo de Natal que o fez pároco. Dizia o bispo: “Expedito, nunca se es­que­ça de que você é autoridade. Pro­cu­re ter boas relações com o prefeito, com o delegado e com o juiz. Quanto ao resto, faça o que puder”.

O problema entre todos os proble­mas, e que está na base de todos eles, é a necessidade de evangelizar sem poder, a partir de uma relação de igual­dade: um ser humano com outro ser hu­mano, como modo de relacionamen­to entre pessoas iguais e não num rela­cionamento de superior e inferior. É o drama de muitos jovens sacerdotes que foram formados para o poder num am­bi­ente de poder e descobrem, de re­pente, que não existe mais esse poder. Mas não foram preparados para um re­la­cionamento de pessoa a pessoa, como irmãos iguais.

No linguajar do Vaticano II os lei­gos foram promovidos. Desde então fo­ram publicados muitos documentos ex­ce­lentes sobre os leigos na Igreja. Os documentos da CNBB são particular­mente excelentes e mostram a qualida­de dos assessores que assistem os bis­pos. Porém, na prática, nada mudou. Os leigos não têm mais poder, mais autonomia do que antes. Tudo ficou nas palavras, porque nada mudou na insti­tuição. Durante o pontificado anterior, foi publicado um Catecismo católico. Qual foi a participação do povo de Deus na preparação desse catecismo? Ne­nhu­ma. Nem se sabia quem eram as pessoas que estavam elaborando esse catecismo. Foi publicado um novo Có­di­go de Direito Canónico. Qual foi a par­ti­cipação do povo cristão na redac­ção desse código? Nenhuma. Os leigos não valem nada; na prática, não têm o Espírito Santo. Eles são ignorantes e, como ignorantes, devem aceitar tudo sem reclamar. Antes disso, houve refor­mas litúrgicas. O povo cristão foi con­sul­tado? Não. O povo é ignorante, os leigos são ignorantes. Tudo isso, como se o Espírito de Deus estivesse somente na hierarquia. O que dizem os docu­men­tos fica nas palavras. Na prática, tudo continua como sempre: um relacio­namento de poder e uma pastoral de poder. É isso que deve mudar, se qui­ser­mos evangelizar este mundo novo em que ora estamos mergulhados.

Pois estamos num mundo novo. A grande maioria dos baptizados já nem conhece o Pai-nosso e ignora tudo da Igreja. A vida é um corre-corre, de uma actividade para outra, para sobreviver. A desorganização social é tal, que as pessoas vivem como indivíduos solitá­rios, isolados, sem confiança nos ou­tros, sem relação humana firme: às ve­zes, nem sequer entre esposos. A cris­tan­dade tradicional, com seu modo de viver, sobrevive em algumas famílias tradicionais. Sempre haverá alguns re­pre­sentantes do passado. Porém, eles não exercem mais influência na socie­dade e constituem refúgios eclesiásticos. Para os 5 milhões de habitantes dos condomínios de São Paulo, por exem­plo, o que significa a Igreja? Para os 3 milhões de favelados, o que signi­fica a Igreja? Qual é seu poder? O que vale são os missionários que conse­guiram formar pequenas comunidades vivas, a partir de uma relação de ir­mãos, relação de igualdade, sem invo­car nenhum poder eclesiástico.

Este é o desafio prático ainda não assumido colectivamente pela Igreja: reconhecer que não se pode mais e­van­gelizar a partir de uma posição de poder, mas apenas numa relação de seres humanos com seres humanos igu­ais. Na teoria, ninguém contesta, mas na prática, tudo continua como se a Igreja ainda tivesse na sociedade o po­der que teve até os anos 70 do século XX.

2. A grande revolução cultural

Existe uma abundante e excelente literatura sobre a revolução da econo­mia e da política depois dos anos 70. Houve uma transferência de poderes com repercussões imensas na vida diá­ria das pessoas como na vida social. Queria apenas aqui chamar a atenção para a revolução cultural, ou, melhor dito, para alguns de seus aspectos.

Um elemento importante dessa re­vo­lução foi, e ainda é, a crítica sistemá­tica de todas as instituições, denuncia­das como máquinas de poder e de re­pres­são da liberdade e da personali­dade individual. A primeira instituição criticada foi a família, e está claro que a família tradicional se desintegra. Mes­mo nos Estados Unidos onde a ortodo­xia capitalista sempre tinha postulado que as relações de competitividade e de busca da maior vantagem na vida pública não afectariam a vida privada das famílias, os mais conservadores, como Francis Fukuyama, devem reco­nhecer que a família está em plena crise. Quem provoca a crise são os jo­vens que se sentem oprimidos pela cultura antiquada de seus pais, cujos valores eles já não reconhecem.

A segunda crise tem por objecto to­do o sistema de educação, desde a universidade até a escola de ensino bá­sico. O sistema foi denunciado como opressor, tanto pela maneira de impor e exercer autoridade sobre os jovens, como pelo vazio de conteúdo que quer impor, e não prepara os jovens para a vida real. Esta crítica provocou, de facto, um enfraquecimento do sistema escolar e educativo no mundo inteiro. Em todos os países reconhece-se uma diminuição dos resultados do sistema escolar, cada vez mais improdutivo, de tal modo que a escola aparece como escola de analfabetismo. As estatísticas oficiais são enganosas, porque forne­cem índices elevados de alfabetização, mas não referem o número de analfa­be­tos funcionais que são incapazes de ler um texto e de entender seu conteú­do.

A crise do Estado é geral. Ela pro­voca um desprestígio crescente da de­mocracia e a indiferença política dos jovens, de modo geral. A crise política é objecto de comentários permanentes, desde os anos 70. Na América Latina, a luta contra as ditaduras militares es­condeu o que estava sucedendo nos países dominantes do Ocidente: o des­pres­tígio crescente do Estado. Quando se voltou ao regime democrático, mui­tos tiveram ilusões, porque não sabiam o que estava acontecendo com a de­mocracia.

Todas as outras instituições foram vítimas da mesma crítica e ficaram des­pres­tigiadas: decadência dos partidos políticos, dos sindicatos, das associa­ções de bairro e de quase todos os ti­pos de associação. Muitas entraram no caminho da corrupção, a ponto de a corrupção atingir também os próprios clubes de futebol e todo o sistema em­presarial. Falta repressão à corrupção, que se tornou a nova instituição social.

A crítica a todas as instituições a­briu a porta para uma nova institucio­na­li­za­ção. Abriu a porta para as enti­dades económicas e para a prioridade da economia na sociedade. Hoje em dia, cada vez mais, o poder pertence às multinacionais que se concentram cada vez mais e adquirem cada vez mais poder. Em nome da liberdade do mer­cado, vão adquirindo cada vez mais po­der, constituindo uma pequena rede de megaempresas que impõem as suas leis. Conseguem colocar ao seu serviço o Estado, o sistema de educação - co­me­çando pelas universidades -, o tra­balho científico, e corromper, comprar ou subordinar, cada vez mais, toda a rede de instituições privadas. Dirigem todo o sistema de informação e de co­mu­nicação, todo o sistema de publica­ções e de transmissão de mensagens. Transformam a cultura em comércio, isto é, numa fonte de capital. Tudo isso foi muito bem analisado. Aproveitam o vazio de instituições fortes e transfor­mam-se num só poder total, que conse­gue dominar a vida, sem que a maioria dos habitantes possa dar-se conta. Gra­ças à manipulação dos media conse­guem fazer com que os cidadãos se trans­formem em consumidores, aumen­tando assim o seu poder.

Acontece algo semelhante ao que aconteceu com a Revolução Francesa. Esta suprimiu todos os sistemas de cons­trangimento do comércio e de cir­cu­lação de mercadorias e abriu o ca­mi­nho para o capitalismo. A revolução cultural da actualidade abriu o caminho para uma nova forma de capitalismo, muito mais poderosa, porque invade todos os sectores da vida e pode con­tar com um imenso progresso tecnoló­gico e científico. Como lutar contra os abu­sos deste novo poder? Será tarefa de um século.

3. A Igreja frente à revolução cultural

Globalmente, durante o pontifica­do de João Paulo II, podemos dizer que a Igreja tomou uma atitude negativa com relação à revolução cultural. Assim tinha acontecido também depois da Re­volução Francesa. Claro está que há as­pectos negativos na nova cultura: ela destrói valores que tiveram muita im­portância no passado, que eram parte do património da cristandade.

No entanto, há também valores po­si­tivos, e, sobretudo, valores definitivos contra os quais é em vão lutar. Sem dú­vida, há, desde os anos 70, um des­pertar da liberdade pessoal, da vontade de conquistar mais liberdade, uma de­núncia e rejeição de todas as formas de repressão. Ainda que apareçam no­vas formas de dependência, a consci­ên­cia já não é a mesma.

Esta consciência de liberdade des­pertou, sobretudo, nas mulheres. O que mais mudou foi justamente a consciên­cia das mulheres que querem ser re­conhecidas como seres humanos com­ple­tos e autênticos, com o mesmo valor dos homens. Pela primeira vez foi uma revolução dirigida por mulheres para a emancipação das mulheres. Mas há também um despertar de consciência de liberdade nos jovens.

Há uma vontade de viver plena­mente a vida, ainda que esta vontade possa ser contaminada pelo consumis­mo. Há uma vontade de viver plena­men­te a vida com o desenvolvimento máximo de todas as capacidades. Para muitos, o cristianismo perdeu valor, porque ensina uma maneira peniten­cial de viver a vida. O cristianismo tem fama de ser uma força de repressão de todos os movimentos vitais, um freio à libertação humana.

É preciso reconhecer que, na cris­tandade, o clero ensinava aos cristãos que a vida cristã era uma vida de sacri­fícios, que era necessário não somente aceitar as mortificações que Deus man­dava, mas também acrescentar outras, facultativas, para aumentar os méritos. Havia o que Jean Delumeau chamou de pastoral do medo, que consistia em manter vivo um sentimento permanente de pecado, acompanhado pelo medo da condenação final e, por isso, da ne­cessidade de obras de expiação. As mu­lheres andavam vestidas de preto e cobrindo o corpo inteiro. A revolução cultural libertou dessas coisas que não pertencem ao Evangelho, mas foram in­tro­duzidas na cristandade na Idade Média.

Depois da revolução cultural, mi­lhões de homens e, sobretudo, de mu­lhe­res saíram da Igreja, não por moti­vos de doutrina ou de crenças, mas porque não aceitavam mais o estilo pe­nitencial da espiritualidade que se en­sinava. Deixaram de ter medo do infer­no e dos castigos de Deus. O que rejei­tam na Igreja não são os dogmas, me­nos ainda o Evangelho, mas a austeri­dade de vida, a preocupação constante pelo pecado e o medo que se infundia na consciência do pecador. Os jovens fogem disso como da peste. Não que­rem nem saber. Os movimentos inte­gris­tas, como o Opus Dei e os Legio­ná­rios de Cristo, devem praticar uma lavagem cerebral radical, para que os seus membros aceitem essa volta ao pas­sado.

Cristo não veio criar um movimento penitencial, mas anunciar a alegria da che­gada do reino de Deus. O centro do cristianismo é a proclamação da res­surreição, que é promessa de vida e de vida abundante.

Precisamos mudar o eixo funda­mental da espiritualidade. Durante a cris­tandade ocidental o eixo foi a Sexta-feira Santa, a maior festa celebrada pelo povo. A espiritualidade estava con­centrada ao redor da expiação pe­los pecados. A própria eucaristia foi entendida durante toda essa época como oração de sufrágio pelas almas do purgatório. No centro da figura de Jesus estão a paixão e a cruz, então os grandes símbolos da cristandade. Isto penetrou profundamente na mente e no coração do povo católico, e ainda foi acentuado pelas Igrejas da Reforma.

Doravante, o eixo da espiritualida­de deverá ser a ressurreição, a vitória da vida, apesar da morte e do pecado. Ainda não sabemos qual será o eixo da espiritualidade do novo Papa. Não sabemos se entrará na mentalidade da nova cultura ou se procurará restaurar a espiritualidade medieval.

Por outro lado, com relação ao nas­cimento de um novo poder, o poder económico das multinacionais, do sis­tema financeiro mundial e da forma­ção de uma nova burguesia, o magis­tério mostrou-se bastante tímido e re­servado. Ninguém se sentiu atingido por suas condenações muito vagas. Deu-se, e ainda se dá a impressão de que a Igreja não quer entrar em conflito com os novos poderes e prefere uma ali­ança com eles, embora de modo dis­creto, para não escandalizar os fiéis. Acha que poderá acomodar-se à eco­nomia, embora rejeite o conjunto da nova cultura.

4. A crítica da instituição eclesiástica

A crítica das instituições não podia deixar de lado as instituições eclesiás­ticas. A crítica das instituições que se ma­nifesta claramente desde os anos 70 obriga-nos a fazer uma distinção que não tinha sido feita antes dessa data. Ela ainda está ausente no Concílio Vati­cano II. Quando este fala da Igreja, fala ao mesmo tempo da instituição católica romana e da Igreja como mistério de Deus, como realização presente do rei­no de Deus. Não faz a distinção. Fala como se todo o aparelho instituciona­lizado e buro­cratizado da instituição eclesiástica pertencesse à essência da Igreja. Ora, tanto a história, como as ci­ên­cias hu­manas, especialmente a so­ci­o­logia, mostram que todo esse apa­relho é uma construção histórica, que variou bastante no decorrer dos tempos e que foi definido a partir de emprésti­mos feitos junto de outras instituições que pertenciam às culturas nas quais a cristandade tinha entrado. A insti­tui­ção mudou e ainda pode mudar, inclu­sive deve mudar, porque já não cons­ti­tui uma ajuda para a evangelização, mas, muitas vezes, um obstáculo.

Começaram a manifestar-se movi­mentos críticos, sobretudo a partir dos anos 70. Antes dessa data, prevaleceu a ideia de que o Concílio Vaticano II ti­nha trazido as respostas às preocupa­ções do povo de Deus. A partir dos anos 70, a revista Concilium mudou sua orientação: fez-se cada vez mais crítica, sendo porta-voz do pensamento de vá­rios movimentos e de muitas pessoas na Igreja católica em contacto com a nova cultura. A essas críticas feitas à instituição, a hierarquia respondeu até agora com um silêncio com­pleto. Ela ign­ora ou finge ignorar essas reivindi­ca­ções.

Diante da crítica à instituição, João Paulo II respondeu voltando à grande dis­ciplina. A resposta dele foi restaurar tradições, usos, costumes, devoções anteriores ao Vaticano II e que tinham per­dido prestígio ou caído em desuso. O Papa quis restaurar o sacramento da pe­nitência por confissão auricular ao sacerdote, embora essa disciplina tivesse sido introduzida já numa fase bem adiantada da Idade Média e tives­se sido ignorada na Igreja durante quase 12 séculos. Tudo isso, num am­bi­ente de rigor na dou­trina tradicional, na liturgia e em toda a organização institucional, declarando terminada a fase da experimentação.

Desta maneira, João Paulo II rei­terou o que aconteceu no século XIX depois da Revolução Francesa. A Igre­ja restaurou o passado a partir da clas­se dos camponeses. Muitos missi­o­nários dedicaram-se a evangelizar o campo e os camponeses ainda eram a grande maioria da população. No meio rural foi possível reconstituir um fragmento de cristandade, ainda que sempre em conflito com a sociedade dominante. A atitude da instituição pa­ra com a modernidade foi sempre mais de rejeição, até atingir um ponto cul­mi­nante no pontificado de Pio X.

Esta nova cristandade não podia deixar de ser frágil, ainda que não se sou­besse naquele tempo. Não se po­dia prever a imensa migração do cam­po para a cidade. No entanto, era pre­visível que era perigoso concentrar a Igreja numa classe social que come­çava a diminuir, e alguns católicos avi­sa­ram, porque tinham visto o perigo que havia em rejeitar toda a moder­ni­dade. Havia nela valores positivos, que era perigoso atacar. Durante todo o século XIX a atitude dominante foi de rejeição. O preço foi a perda de to­da a classe intelectual e das pessoas que tinham estudado, e a perda da clas­se operária. Quando, finalmente, com João XXIII a Igreja aceitou os prin­cípios da declara­ção dos direitos hu­ma­nos, já era tarde demais. A imensa maioria dos católicos já tinha saído.

Até aos anos 50 do século XX, a América Latina viveu na dependência cultural da Europa. Foi assimilando a luta contra a modernidade nos seus di­versos aspectos, e uma pequena clas­se operária nasceu quase sem pre­sença da Igreja. Também na Amé­rica Latina a classe letrada afastou-se da Igreja. As mulheres permanece­ram fiéis, porque elas não podiam es­tu­dar. Quando se lhes abriu a porta das uni­versidades, elas reagiram como os ho­mens. Acharam a Igreja uma ins­ti­tuição respeitável e poderosa entre a classe dirigente, mas sem valor para a sua vida pessoal e sem relevância para o seu pensamento. Embora menos profunda do que na Europa, a separação entre a Igreja e a classe letrada ainda tem repercussões fortes no mundo uni­versitário e intelectual actual: predomi­na uma atitude de indiferença. Poucos e poucas acham que poderiam encon­trar na Igreja algo importante para a sua vida. São cristãos fiéis à mensagem evangélica, mas sem contacto com a instituição.

Hoje em dia, a estratégia que con­siste em condenar a nova cultura não tem mais o apoio de uma classe de cam­poneses, porque os camponeses foram para as cidades e os que ainda ficam estão em contacto permanente com a cultura urbana mediante a TV. João Pau­lo II proclamou que os agentes da nova evangelização seriam os chama­dos movimentos, isto é: Opus Dei, Legio­nários de Cristo, Focolarinos, Comu­nhão e Libertação e outros semelhan­tes. Estes constituiriam uma tropa de choque, mas sem massa para seguir. É uma base muito estreita para fundar uma nova cristandade.

Quais são as críticas que se fazem à instituição?

Em primeiro lugar, há a crítica da burocratização. Em todos os níveis, o clero ficou burocratizado. A agenda dos padres, dos bispos e da Cúria Romana está cheia de reuniões, seminários, con­gressos, programação, relatórios, docu­men­tos, assessoria, projectos. Natural­men­te, tudo isso fica no papel. A buro­cracia enuncia tudo o que deveria ser feito, mas sem nunca dizer quem vai fazer. Por isso, tudo fica no papel. Isto não importa para a buro­cracia. Pois a bu­rocracia procura atender e agradar ao chefe, muito mais do que aos “clien­tes”. O que importa com toda essa acti­vidade feita de palavras é que se digam coisas que agradem ao chefe. É preciso esconder os problemas, fazer demons­tra­ção de optimismo, mostrar que os pro­blemas estão sendo resolvidos. Qual é a finalidade de qualquer burocracia? Sobreviver, crescer, garantir o seu futu­ro e aumentar o seu poder. Uma buro­cracia tem a sua finalidade em si mes­ma. O que acontece lá fora, no mundo, no meio dos homens e das mulheres, não importa muito. Basta evitar que as críticas cheguem até os ouvidos do che­fe. Cresce na Igreja a impressão de que tudo o que o clero faz, desde a Cúria Ro­mana até à casa paroquial, é total­mente irrelevante e artificial, e perma­ne­ce longe da realidade humana. A bu­ro­cracia constituiu-se num corpo autó­nomo e independente. A burocracia e­cle­siástica tornou-se o seu próprio fim.

Um publicista francês do século XX, Charles Maurras, fundador do movi­men­to direitista chamado L’Action Fran­çaise, era agnóstico. Mas um dia decla­rou que felicitava a Igreja romana, que tinha sido capaz de purificar o cristia­nismo do perigoso fermento do Evan­gelho. Na prática, há casos em que, de facto, a burocracia eclesiástica ser­ve para evitar que o fermento perigoso do Evangelho possa penetrar.

Em segundo lugar, apesar da con­cessão feita no novo Código de Direito Canónico, a Igreja mantém nas cidades a estrutura obsoleta da paróquia. O cle­ro está a ser preparado para actuar den­tro do quadro paroquial. Os pró­pri­os religiosos estão integrados em pa­róquias. Ora, estruturalmente, a pa­ró­quia é feita para conservar, ajudar, promover os que participam do culto, as pessoas que pertencem à pequena minoria dos que já estão no templo. A paróquia vive em função do templo, ainda que diga o contrário. Em lugar de preparar os cristãos para evangeli­zar a sociedade, ela se fecha sobre a mi­noria fiel às instituições do passado.

A paróquia não assume as fábricas nem os supermercados, nem as esco­las, nem os colégios, nem as universi­da­des, nem os hospitais, as instituições desportivas, culturais, de diversão, nem os meios de comunicação da cidade. Ela está organizada ao redor dos sacra­mentos e das festas litúrgicas. Nem se­quer consegue organizar a catequese dos adultos, menos ainda a sua forma­ção missionária. Ela concentra as ener­gias dos fiéis no próprio templo, em si própria. A Igreja está claramente ao ser­viço de si própria. Não se pode ne­gar as excelentes intenções de muitos párocos, toda a imaginação para fazer uma paróquia missionária. O problema é estrutural. Já foi denunciado por San­to Tomás de Aquino. Depois de oito séculos ainda não se deu a solução. A consequência é um povo passivo, in­capaz de dar testemunho na sociedade, fechado em si mesmo, numa espirituali­dade de pura interioridade.

No entanto, na América Latina, hou­ve uma experiência básica que po­dia ter dado uma resposta. Foi a expe­riência das CEBs-Comunidades Eclesi­ais de Base. A experiência continua, mas não foi adoptada oficialmente pela Igreja. Não se lhe deu nenhum estatuto ofi­cial, e as CEBs permanecem como algo estranho e frágil, porque qualquer pároco ou qualquer bispo pode desfa­zer um trabalho fecundo de dezenas de anos.

As CEBs que ainda subsistem per­ma­necem subordinadas às paróquias, na dependência dos párocos. Acontece com elas o que aconteceu com a Acção Católica em muitos países: a subordina­ção à paróquia é uma esterilização de facto. Os movimentos de Acção Católica, ou não se submeteram à ordem paro­quial e foram condenados, como no caso da JUC, ou se integraram e foram absorvidos, ou permaneceram como gru­pos pequenos semiclandestinos. As comunidades devem adoptar o progra­ma paroquial e acabam a dedicar-se pri­meiramente ao culto e às festas reli­giosas, embora conservando o discurso das origens. O modelo inicial de comu­ni­dades inseridas no mundo popular e comprometidas com o mundo popular foi desfigurado. O novo clero não o ado­pta. No entanto, a autonomia das pe­que­nas comunidades integradas numa pastoral da cidade e não da paróquia é o único caminho. Não adianta deter­minar que doravante a paróquia seja missionária. Estruturalmente, ela não pode ser missionária, porque não está organizada em função da cidade, mas em função de seu próprio crescimento.

Em terceiro lugar, a crítica que se faz à Igreja como instituição é que ela mantém um sistema de poder obsoleto e ineficaz. É o famoso problema do cle­ro. O clero monopoliza todos os pode­res e manda de modo absoluto, unica­mente porque foi enviado pelo bispo sem que os leigos pudessem intervir em nada. A cada 5 anos, eles têm que se subordinar aos humores do novo pá­roco. A razão é administrativa. O bispo faz as nomeações em função dos pro­ble­mas do clero e não em função da sua capacidade evangelizadora. O pa­dre luta para conquistar uma autoridade que se vai perdendo.

O padre não foi preparado para es­­tar no meio do mundo, dando teste­munho do Evangelho. Foi preparado pa­ra administrar uma paróquia confor­me as tradições religiosas. Alguns con­seguem ir além da formação recebida, mas a maioria fica com o que aprendeu no seminário. Já escrevi muito sobre o problema do clero. Não vou repetir o que já disse muitas vezes. Também não creio que o novo Papa tenha a me­nor disposição para mudar alguma coisa no clero e na estrutura de poder na Igreja.

Há muitos leigos e leigas, que tra­ba­lham efectivamente como missio­nários e missionárias, geralmente sem mandato, sem reconhecimento oficial, sem poder, e gratuitamente. São heróis que conseguem tempo e energia e se de­dicam à missão com muita genero­sidade e gratuidade. Haveria muito mais homens e mulheres, se se lhes fizesse um apelo, oferecendo-lhes reconheci­men­to, confiança, autonomia, porque muitos não querem ser simplesmente au­xiliares do padre. Quantos milhares de pastores evangélicos surgiram no Bra­sil ultimamente que se dedicam à pre­gação, à missão, com entusiasmo, sacrifício e dedicação! São mais de 100.000. Muitos teriam podido ser mis­sio­nários na Igreja católica, se se lhes ti­ves­se oferecido essa missão, confian­do neles.

No futuro, os ministros serão reco­nhe­cidos e identificados pelas comuni­dades, graças às suas qualidades de profeta e aos seus dons espirituais. Em cada cidade haverá um núcleo de pes­soas permanentes, conhecedoras dos diversos aspectos da vida da cidade, que poderão aconselhar e organizar a­cti­vidades públicas comuns, reunindo a grande comunidade.

Uma quarta crítica tem por objecto a estratégia, que consiste em educar os cristãos quando são crianças. A ca­te­quese é dirigida às crianças. Desde o século XIX a pastoral da Igreja con­centrou-se nas crianças. Por isso se deu prioridade absoluta às escolas católi­cas e à catequese infantil. Desta ma­nei­ra, os adultos cristãos parecem in­fan­ti­lizados. Do cristianismo eles sabem o que lhes foi ensinado quando eram cri­anças. Nunca aprenderam o que si­gni­fica ser cristão como trabalhador, cidadão, pai ou mãe de família dentro das circunstâncias e dos obstáculos reais da vida.

O resultado é que os meninos edu­ca­dos na catequese católica tornam-se evangélicos quando ficam adultos, porque a mensagem dos evangélicos é para os adultos e não para as crian­ças. A pastoral concentrada nas crian­ças não tem eficiência na nova socie­dade. Já fracassou no século XX.

5. O Evangelho e a instituição

A tarefa principal da teologia vai con­sistir em identificar o que é do E­van­gelho, o que foi proposto por Jesus e em que se tornou na instituição actual, em função de desenvolvimentos histó­ricos. Jesus nunca pensou na Igreja na sua forma actual. Isto não quer dizer que o que existe agora seja bom ou mau. Mas muitos elementos se devem à influência de movimentos culturais e de religiões não-cristãs, porque as re­li­­giões não-cristãs tiveram uma influên­cia profunda durante toda a cristanda­de. No mesmo sentido escreveu Hans Küng, quando propôs que se destacas­se o núcleo básico do cristianismo. Esse núcleo somente pode ser o que nos vem do próprio Jesus.

Durante 1000 anos, sobretudo des­de o século XIV, a teologia foi apo­lo­gética e dedicou-se a demonstrar a identidade entre todo o aparelho ins­ti­tucional da Igreja, os dogmas, a moral, a liturgia, a organização eclesiástica com o Evangelho. Mostrou a continuida­de. Procurou demonstrar primeiro que tudo estava no Evange­lho e, quando os estudos históricos tornaram essa posição insustentável, defendeu o tema da homogeneidade, ou seja, do desen­volvimento homogé­neo. A teologia ofi­cial procurou mostrar que todo o siste­ma institucional tinha por finalidade e por efeito um melhor entendimento do Evangelho. Teria sido um esclareci­men­to do Evangelho que ainda era con­fuso.

Ora, todas essas explicações são puramente gratuitas. Serviram para manter a continuidade na cristandade. Mas hoje em dia devemos constatar que o Evangelho é mais claro do que todo o sistema que se construiu sobre ele com a pretensão de explicitá-lo melhor. Esta teologia apologética esteve ao ser­viço da hierarquia, para defender o status quo da cristandade, mas impe­diu que a Igreja desse uma resposta ade­quada aos desafios da moderni­da­de. Essa apologética, que prevaleceu até o Concílio Vaticano II, ainda não de­sa­pareceu, sobretudo nas inumerá­veis faculdades de teologia situadas em Roma. Para a evangelização do mundo e mesmo do povo cristão, essa teologia foi estéril. Mais ainda: está condenada a ser estéril. Não vai con­verter nenhum pagão, nem sequer os católicos. Foi a base dos catecismos, mas os catecis­mos não formaram cristãos adultos e ma­duros.

Essa apologética forneceu o mate­rial que permitiu que o magistério des­se resposta negativa aos gritos que sur­giram do meio da cristandade du­rante 1000 anos, pedindo reforma. Em cada geração houve católicos que não puderam aceitar a instituição, porque viam nela uma contradição com o E­vangelho. Esse debate deu origem às chamadas “heresias”, que, no fundo, eram todas formas de contestação da ins­tituição. Houve muitos cismas e mui­ta repressão, mas nunca houve aceitação unânime das posições defendidas pela teologia oficial.

Uma vez que a nossa tarefa será anunciar o Evangelho a todos os seres humanos sem posição de força, sem poder contar com uma imposição, essa teologia está completamente fora de fo­co. Não conseguiremos com ela con­quis­­tar novos membros para a institui­ção. Evangelizar é provocar a ilumina­ção dos corações e das mentes, não pela força de uma instituição, mas pela revelação divina que se manifestou em Jesus.

O princípio da nova teologia é que a Igreja está subordinada ao Evangelho e não o Evangelho subordinado à Igre­ja. Durante a cristandade o poder ecle­siástico sustentou que o sistema insti­tucional era a interpretação fiel e a ex­pressão actual do Evangelho. Na prá­tica, a teologia serviu para demonstrar que a Bíblia apoiava o sistema eclesi­ástico católico, para subordinar o Evan­gelho à instituição. Agora, a tarefa é di­ferente. Trata-se de descobrir o que é realmente revelação divina, separan­do-a de todos os elementos que foram acrescentados.

Tudo o que foi acrescentado teve um papel histórico, positivo ou negativo. Muitos elementos entraram por influên­cia de outras religiões, ou por razões po­líticas ou culturais do tempo. Podem ter tido em efeito positivo ou negativo e provavelmente algo de positivo e algo de negativo. O problema é que as cir­cuns­tâncias mudaram e muitos acrésci­mos que foram úteis no passado apare­cem como incompreensíveis e inassimi­lá­veis na actualidade

Quando falamos do Evangelho, que­re­mos pensar naquilo que vem re­al­mente de Jesus. Há nos próprios e­van­ge­lhos acréscimos que procedem das comunidades, e há dentro da cultu­ra judaica em que Jesus se expressa vá­rios elementos de mitologia. Não po­demos conservar essas mitologias den­tro do núcleo central.

Claro está que o povo cristão pre­ci­sa de instituições: precisa de crenças definidas, de ritos e celebrações, de comunidades e de organização das co­munidades. Precisa de ministérios orga­nizados. Podemos inclusive pensar que precisa de mitologia. O desafio é que es­sas instituições ajudem efectivamente a introduzir o Evangelho na vida. Não po­dem ser consideradas como definiti­vas, irreformáveis, mas devem deixar lu­gar para outras expressões institucio­nais quando os tempos mudaram.

Da mesma maneira os cristãos pre­cisam de sinais de identificação. Preci­sam realizar gestos significativos, pro­nun­ciar palavras significativas, o que lhes permite renovar a consciência de pertencerem a um povo, o povo de Deus. Todos os povos têm sinais de i­den­tidade e o povo de Deus também. Ora, esses sinais devem ser compreen­síveis e ter um conteúdo, não ser pura­mente gestos mecânicos.

Na realidade, as grandes linhas de uma reforma da instituição já foram explicitadas muitas vezes nos últimos 30 anos. O problema é a vontade de mu­dança. Toda burocracia tem repu­gnân­cia a qualquer tipo de mudança, porque poderia provocar mudanças na própria burocracia e questionar a car­reira dos funcionários. Todos desejam que não mude nada. Ora, a burocracia vaticana adquiriu uma força inaudita durante o pontificado de João Paulo II que não manifestou nenhum desejo de mudar qualquer coisa, a não ser acres­centar novos serviços burocráticos.

Há no povo cristão, em todos os ní­veis, uma aspiração a uma descen­tralização do poder romano. Porém, é justamente essa reforma que a Cúria vai impedir por todos os meios à sua disposição. Porque seria para ela uma perda de poder e uma supressão de em­pregos. No entanto, o desafio está aí e não vai desaparecer. O sistema bu­rocrático actual impede a evangeli­za­ção dos povos e desestimula as I­gre­jas locais. Provocou a saída de mi­lhões de católicos, sobretudo na Euro­pa e na América Latina. Somente o E­van­gelho de Jesus Cristo pode conver­ter.

6. A Igreja e o mundo

O Concílio Vaticano II proclamou que a Igreja está ao serviço do mundo e não é um fim em si mesma. Sua fina­lidade é a salvação de todos os povos, da humanidade inteira. Ele reconhece a autonomia do mundo e reconhece que já não é a Igreja que dirige o mun­do, como nos tempos da cristandade. Na Gaudium et Spes renuncia-se ao projecto de cristandade. No entanto, as palavras dizem uma coisa e a realidade é diferente. Na prática, grande parte da Igreja age como se ainda houvesse ou como se se pudesse refazer uma nova cristandade semelhante àquela que havia na primeira parte do séc. XX.

Quando se fez a separação da Igre­ja e do Estado no Brasil, os bispos não seguiram as recomendações do padre Júlio Maria, mas elaboraram um pro­gra­ma de reconquista do poder perdido, aproveitando as estruturas da socieda­de republicana, de tal modo que a Igre­ja pudesse, na prática, refazer uma cris­­tandade. Adoptaram como priorida­de a estratégia de sempre: evangelizar por meio das crianças e das instituições de educação. De facto, em pouco mais de 50 anos e sob a batuta do Cardeal Le­me, grande admirador da nova cris­tan­dade da Europa, a Igreja reconsti­tuiu no Brasil um grande poder. Diziam que 80% das elites brasileiras tinham sido educadas em colégios católicos. De novo, a Igreja tinha uma fachada im­pressionante. Houve, de novo, um en­tro­samento entre a Igreja e o Estado. A classe dirigente sentia que precisava da Igreja para manter o povo na submis­são, e não poupava nos favores e até nos privilégios, dos quais foram benefi­ciárias as instituições católicas.

Quase todos os países latino-ame­ricanos tiveram uma evolução seme­lhan­te. O modelo era o Estado de Bem-estar da Europa Ocidental, um capitalis­mo limitado por uma legislação social protectora dos trabalhadores e a con­ser­vação dos valores éticos tradicio­nais, sobretudo na família. É verdade que havia uma diferença no campo. Essa nova cristandade não questionou a es­tru­tura do campo e os camponeses per­ma­neceram ignorados e sem influência na vida das nações. O plano da CEPAL combinava com esse modelo porque impedia que o grande capital mundial to­masse conta da economia nacional, embora já tivesse realizado algumas en­tradas. Tudo parecia estar em paz. Os acordos entre os bispos e Juscelino Kubitschek eram o símbolo das harmo­ni­osas relações dentro de uma neocris­tan­dade de facto, em que oficialmente a Igreja não tinha poder político, mas tinha-o na realidade, graças a relações cordiais entre o poder religioso e o po­der civil, nacional, estadual ou munici­pal.

Vieram os regimes militares. Salvo no Chile, onde Pinochet introduziu o novo modelo de globalização neolibe­ral desde os anos 70, os outros gover­nos militares não mudaram basicamen­te a estrutura da sociedade. No Brasil, a Igreja assumiu a defesa das liberda­des civis e dos direitos dos cidadãos, com um certo êxito. Pois, se compara­mos os países, a repressão foi muito menor do que na Argentina ou no Chile ou nos países da América Central. Mas não houve muito conflito com relação à estrutura social e económica. Na prá­tica, os governos militares, salvo no Chi­le, permaneciam de alguma maneira fiéis à concepção social da doutrina so­cial da Igreja, prolongando a fase an­terior. Praticavam um nacionalismo que os protegia contra a contaminação pelo modelo neoliberal. Os governos mi­litares concordavam com a doutrina social da Igreja globalmente tomada. Por isso, os episcopados que colabora­ram com os governos militares invoca­vam esse argumento.

Depois dos regimes militares, mui­tos, entre eles o clero e o episcopado, pensaram que se ia voltar ao sistema an­terior, tão harmonioso, de relações pacíficas em que a doutrina social po­de­ria fornecer a ideologia de regimes de Bem-estar social. Como novidade, o Estado de Bem-estar poderia inclu­sive integrar outros sectores da popu­la­ção, por exemplo, os camponeses. Achavam que tinha chegado o tempo da reforma agrária. Um olhar sobre o Chi­le podia ter despertado mais des­con­fiança. Pois, no Chile, a democrati­za­ção manteve o modelo neoliberal sem questionamento real, e a Igreja ficou calada: o partido democrata cris­tão era o governo e ficou responsável pela continuidade do modelo neolibe­ral.

Entrou o novo modelo de sociedade que se chama globalização, ou neoli­beralismo - não importam os nomes. Tudo isso aconteceu na década de 90, a “década vergonhosa” depois da “dé­ca­da perdida” de 80. Os países latino-americanos abriram-se para o modelo neoliberal e integraram-se no império do neocapitalismo das grandes multi­na­cionais. Tudo isso é bem conhecido.

O que tinha acontecido no Pri­mei­ro Mundo desde os anos 70 e, sobretu­do, nos anos 80, entrou na América La­tina nos anos 90 (no Chile nos anos 70), sem efeitos sensíveis sobre a rela­ção Igreja-mundo. Sob as aparências democráticas, o poder foi transferido dos Estados para os grandes comple­xos financeiros e as multinacionais. Os governos ainda se proclamam fiéis à doutrina social da Igreja, mas o novo poder económico mundial ignora com­ple­ta­mente essa doutrina. Seus critérios são diferentes. Entre o projecto da Igre­ja e o projecto do grande capital não há mais contacto. O modelo económico invoca a autoridade da ciência. E contra a ciência não se pode fazer nada. Isto significa que a doutrina social da Igreja perdeu toda sua força. Ela se tornou ir­re­levante, porque ineficaz, sem efeito real na sociedade. É como se não exis­tisse.

Por isso, estamos numa situação no­va: uma Igreja do silêncio no meio de uma sociedade guiada pelo valor supremo do dinheiro em que as nor­mas são a competitividade e o aumento do poder. Ninguém lê a doutrina social da Igreja, porque todos sabem, consci­en­te ou inconscientemente, que ela per­deu toda a vigência. A Gaudium et Spes tornou-se irrelevante, sem conteú­do real, porque não tem aplicação.

Então a Igreja deve expressar seu testemunho de outra maneira. Hoje em dia, publicar documentos ou fazer dis­cur­sos é irrelevante. Ninguém lê esses documentos, proclamações, apelos e assim por diante. Para o FMI, isso é ir­relevante. O mundo actual precisa re­ceber mensagens mais concretas, mais fortes, que consigam mobilizar os media e despertar a atenção e a emoção das massas. O que faz um testemunho hoje em dia não são as palavras, mas os gestos. O gesto de Daniel bíblico que se nega a adorar a estátua de ouro. On­­de está a estátua de ouro? Está em Davos, no Clube de Paris, no FMI, na OMC. Está nas multinacionais. Os efeitos são inumeráveis: mercantiliza­ção do trabalho, redução do trabalha­dor a escravo da empresa, exclusão social da metade da população, faveli­zação das grandes cidades e assim por diante. Não são pequenos escândalos isolados, mas factos imensos. No entan­to, esses factos dizem respeito aos se­res humanos.

O que se espera são acções profé­ticas de grande visibilidade que mani­fes­tem a palavra de Deus na humanida­de, de modo que ela possa, de facto, atingir multidões. Um exemplo pode ilu­minar essa necessidade. Quando o bispo de Barra, Dom Luís Flávio Cáppio, faz a greve de fome para chamar a aten­ção sobre as mentiras e as injustiças do projecto de transferên­cia das águas do Rio São Francisco, todos os media comunica­ram a notícia e essa simples acção conseguiu provocar um debate na opinião pública nacional, suspen­der, e possivelmente para sempre, o projecto. Se a CNBB tivesse publicado um documento ninguém teria tomado conhecimento.

Nos tempos dos regimes militares houve muitos actos proféticos seme­lhan­tes, por exemplo, por parte de bis­pos de grande personalidade, no Brasil, no Chile e em muitos países. A morte de Dom Óscar Romero foi um sinal ex­traordinário. Naquele tempo os sinais destinavam-se aos povos dominados por ditadores militares. Hoje em dia, o problema não são mais os militares. Pelo contrário, há militares que podem voltar à tradição nacionalista muito forte na história latino-americana. O ini­migo é o sistema económico ditato­rial mundial centrado nos países do Primeiro Mundo.

Desde a entrada do novo sistema de comunicação na Igreja, toda a aten­ção dos media foi orientada para a pessoa do Papa João Paulo II, que monopolizou o poder das imagens, por­que era o único católico conhecido por eles. O Papa tinha o dom da comu­n­i­cação e, consciente ou inconsciente­men­te, queria ser a única estrela. O Papa conseguiu dar à Igreja uma visi­bilidade muito expressiva. Porém, glo­balmente, a sua mensagem estava ori­en­tada e de modo bastante unilateral. Não era possível que uma só pessoa concentrasse em si mesma toda a mis­são de testemunho da Igreja.

A neocristandade criada depois da Revolução Francesa suscitou a criação de muitas obras católicas. Estas conse­gui­ram manter no seio da Igreja os an­ti­gos camponeses de cultura rural tra­di­cional. Não conseguiram integrar os operários, nem os intelectuais. Hoje em dia, também aparecem muitas o­bras “católicas”. Elas têm as suas van­ta­gens e os seus efeitos positivos. As obras católicas já não são sinais fortes no mundo de hoje. Antes, parecem i­lhas, refúgios, entidades que permane­cem desconhecidas do resto do mun­do. Servem para os cristãos tradicio­nais, mas não constituem um anúncio do Evangelho para a grande massa. Não existe mais nem sequer uma mas­sa de camponeses de cultura tradicio­nal. Não faltam casos em que a mensa­gem difundida por essas obras é que “a Igreja é rica”.

Além disso, elas fazem com que não haja presença católica nas institui­ções e na sociedade civil. Elas conso­mem as energias dos católicos mais pre­parados. Quem vai dar testemunho no meio do mundo? Em lugar de serem en­viados como missionários, os católi­cos vivem juntos numa sociedade para­le­la sem contacto com a grande socie­dade. Se a Igreja continuar reservando para si mesma as melhores forças dos religiosos e dos leigos, quem estará presente e quem dará testemunho nas empresas, nos conjuntos habitacionais, nas favelas, nas universidades, nos co­lé­gios e assim por diante?

Hoje em dia existem milhares de associações e organizações de luta con­tra a sociedade neoliberal. Há espaço para os católicos. Pois em todos esses mo­vimentos há necessidade de uma ide­ologia, de projectos concretos e de dirigentes honestos. Há espaço para que os católicos se manifestem como os servidores mais desinteressados, mais dedicados, mais honestos. Podem ser o sal da terra, a luz que na monta­nha atrai os olhares.

As exortações oficiais dizem que os leigos devem dar testemunho no mun­do, mas como podem fazê-lo, se são mo­bi­lizados ao serviço das instituições católicas? A Igreja prende muitas pes­soas que poderiam estar no mundo. Há uma contradição entre o discurso oficial sobre os leigos e a prática institucional que não se interessa pelo mundo. A hie­rarquia deveria tomar uma atitude mais clara e dar orientações não con­traditórias.

O desafio dos cristãos no mundo é hoje muito mais difícil do que antes. Pois o sistema é muito forte, muito auto­ri­tário. Dentro das empresas a vigilância é total. Ninguém pode contestar, nin­guém pode protestar, ninguém pode cri­ticar. Quem não se submete como escra­vo é suspeito e pode ser eliminado. Por isso, dar testemunho cristão supõe he­roísmo. Ao mesmo tempo é preciso ser prudente como as serpentes. Não existe liberdade de expressão. Ao mesmo tem­po há uma campanha de lavagem cerebral para manipular as mentes e conseguir que todos se convençam que é preciso obedecer, que não há alter­nativa e que são muito felizes por estar na empresa. Todas as ciências huma­nas concorrem para submeter as men­tes. Os media, as instituições, o ambien­te global da sociedade: tudo serve para desencorajar qualquer tentativa de mu­dança. Por isso, somente personalida­des fortes, com convicção muito forte, po­derão dar testemunho. A maioria fi­cará calada. A economia neoliberal tem a mesma força dos imperadores roma­nos. A pressão psicológica é forte. Na prática e de facto, a maioria cede e per­de sua própria convicção. Daí a ne­ces­sidade de uma preparação e de um apoio muito forte. Sem formação muito profunda ninguém poderá abrir a boca na sociedade e todos repetirão as men­tiras divulgadas pelos media.

A paróquia não dá essa formação. Se quisermos evangelizar o mundo, pre­cisamos tomar como prioridade a for­mação de leigos em todos os ambi­en­tes. Os melhores sacerdotes, os me­lho­res religiosos e as melhores religio­sas devem ser reservados para essa formação. Basta de formação para cri­anças. É melhor deixar paróquias sem pároco, pois leigos podem assumir qua­se todas as tarefas. Também uma pri­meira geração de leigos formados pode ser formadora. Mas isto exige 10 anos. Se não se tem a coragem de for­mar leigos que vão ter que lutar contra uma estrutura mais dura do que o Impé­rio Romano, porque submete as men­tes, não haverá presença da Igreja no mundo, apesar de todos os textos e de todos os discursos bonitos.

Para tomar somente um exemplo, a corrupção existe em todos os níveis em todas as empresas. Este é um facto mundial e não tipicamente brasileiro. Os media falam dos casos de corrupção na vida política, porque podem fazê-lo sem temer a repressão. Mas nin­guém se atreve a denunciar os casos de corrupção nas empresas, na indús­tria, no comércio, no transporte, nas pri­sões, nas escolas, nos hospitais, nas administrações públicas, e até no fute­bol que agora é uma grande empresa. A regra é que todo mundo pratica cor­rupção. Como mudar isso? As leis não se aplicam porque todo mundo dá cobertura. Ninguém sabe de nada, nin­guém viu nada nem ouviu falar de nada. Quem vai poder ser honesto e negar-se a entrar na corrupção? Precisa ser de uma energia sem par.

A vida actual é uma preocupação permanente para não perder o empre­go, para quem já tem, ou para buscar um emprego para quem não tem, ou para achar biscates para sobreviver para quem já desistiu de buscar em­pre­go. Entre todos existe uma compe­tição. Para ter emprego é preciso agra­dar, bajular, e, sobretudo, ter boas re­la­ções. Nesse ambiente como manter o equilíbrio? Como viver serenamente com tais ameaças? Somente heróis.

A pressão social é tão forte que sem uma profunda mística não há ma­neira de se salvar. O clero não participa de tudo o que acontece na sociedade; está morando num lugar privilegiado e, por isso, não sabe o que acontece. A hierarquia não está consciente dos desafios da sociedade actual. Não a­dianta pensar que com o desenvolvi­mento essas coisas vão melhorar por si mesmas, pois no mundo desenvolvi­do esses problemas são mais fortes ainda. Por isso, sem mística não se po­de agir como cristão no mundo. Ra­hner já dizia que no século XXI a Igreja será mística ou não será. A formação paroquial não basta. Por sinal, quem vai ao culto, são justamente as pessoas que não vivem nessa pressão perma­nente.

Não há uma forma única de mís­tica. Há uma grande variedade de místi­cas que vão surgindo. Sem uma vida em permanente presença de Deus, nin­guém aguenta. Hoje em dia a mística não pode ser vivida num refúgio longe do mundo, se não quiser ser um privi­lé­gio e salvo algumas vocações muito excepcionais. Deve ser vivida na socie­dade, como nos primeiros tempos, isto é, numa sociedade contrária ao Evan­ge­lho, alheia aos valores morais, numa sociedade sem amor e em que todos são rivais e todos podem ser machuca­dos, despedidos, abandonados.

A economia neoliberal, a forma co­mo se faz a globalização, não é inevitá­vel. A superação deste sistema é a gran­de meta do século XXI. Não se fará em poucos anos. Há um despertar, mas ainda falta a participação dos cristãos nesse despertar. Os homens e as mu­lhe­res que ali estão já praticam vida evangélica. São da Igreja, mas preci­sam reconhecer-se, conhecer-se e mu­tu­a­mente solidarizar-se em vista de mú­tuo apoio. Este será o papel das peque­nas comunidades. Sem pequenas co­mu­ni­dades os heróis irão cansar-se e desanimar. Com uma Igreja viva, os he­róis podem multiplicar-se e mudar este mundo.

Há uma terrível contradição entre a aspiração à liberdade que nasce na re­volução cultural dos anos 70 e o sis­te­ma de economia mundial que exerce uma ditadura nos corpos e nas mentes. Quem estiver na frente da luta para superar essa contradição dará um si­nal. A mensagem de Jesus não será di­fun­dida a partir do poder, mas a partir de pessoas heróicas que se põem à fren­te do combate somente com a força de Deus.


Papa decretou e missa

em latim já está de novo aí

1. Ponto de vista de MARCELO BARROS, monge beneditino

Muitas pessoas, cristãs e não cris­tãs, andam espantadas com as recentes intervenções do Vaticano, como o Motu próprio do papa a favor do antigo rito romano em latim. Muitos se perguntam sobre o que isso significa para o mundo do século XXI e, principalmente, para a própria Igreja. Pressentem que, nesta medida, está em jogo mais do que ape­nas um problema de rito e de idio­ma. O destinatário da decisão não é Deus a quem é dirigido o culto, já que este compreende muito bem as línguas actuais, talvez melhor do que o latim. Afinal, a Bíblia diz que ele é o Deus que escuta o clamor dos oprimidos.

No mundo antigo, a Igreja deixou de usar o grego em seus cultos e pas­sou a falar latim que era a língua das massas mais pobres. Aí, certamente, Deus também falava latim. Agora, a vol­ta ao latim serve apenas a grupos con­ser­va­dores que fazem questão de se­parar bem o sagrado e o profano, a Igre­ja e o povo. É de se perguntar se Deus conseguirá compreender este latim.

Muitos bispos, padres e fiéis católi­cos sofrem porque percebem que, por trás desta decisão do papa, o que está em jogo é, como se dizia no Brasil das comunidades eclesiais de base, “um modo de ser Igreja e um modo da Igreja ser”. O problema não é recuperar o rito romano usado antes do Concilio Vati­cano II, nem apenas a volta ao latim. É sepultar de vez um modelo de Igreja, ensaiada no Concílio e que se dispu­nha a viver em diálogo com a humani­da­de e mais como povo de Deus do que como um governo central de as­suntos religiosos.

Todo mundo sabe que, na realida­de, desde o inicio do pontificado de João Paulo II, as propostas mais pro­fun­­das do Concilio Vaticano II e o seu modo de compreender a Igreja já não eram aceites. Em diversas ocasiões, o actual papa, quando ainda prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, reve­lou-se contrário ao pensamento de que as Igrejas locais são plenamente Igre­jas, do mesmo modo como nega a plena eclesialidade das Igrejas evangélicas e afirma que só a Igreja Católica é a ver­dadeira. Especificamente, desde 2003, quando o conclave que o elegeu começou a ser preparado, ele sempre deixou claro o que pensa e que pro­posta de Igreja, no caso de eleito, iria executar fielmente. Todos os que nele votaram sabiam disso e optaram por esta direcção. Mesmo os que não vota­ram, mas fortalecem este sistema sabem perfeitamente o que estão fazendo e não têm por que estranhar agora. O fa­cto do rito ser celebrado em latim ou português, ou com gestos mais arcaicos ou modernos, não muda muito se, mes­mo no rito actual em vigor depois do Con­cilio, os índios da Amazónia, as co­munidades negras da Nigéria e os abo­rígenes da Austrália são obrigados a ler as mesmas leituras, dizer as mesmas orações e realizar os mesmos gestos pensados e decididos em Roma.

Para o Concílio Vaticano II, o impor­tante era a participação activa e cons­ciente da comunidade local em uma ce­le­bração que fosse fonte e expressão da vida de cada Igreja, reunida aqui e agora, em comunhão com a Igreja Uni­ver­sal. À medida que o carácter especí­fico de cada Igreja local é negado e a maioria dos bispos parece conivente com isso, pouco importam a língua e o rito em que se celebra a liturgia ou por quais caminhos decidirão realizar o so­nho de reconstituir a cristandade medie­val romana em pleno século XXI.

A humanidade leiga que pouco se importa se uma determinada Igreja usa esta ou aquela língua ou cumpre estes ou aqueles gestos cultuais escandali­za-se com as noticias oriundas do Vati­cano, porque percebe nestas querelas eclesiásticas que, novamente, as reli­giões falharão em sua missão de se uni­­rem ao serviço da paz do mundo e da defesa do planeta Terra. Provavel­mente, o rito latino não se referirá mais aos judeus como pérfidos ou aos não católicos como ímpios. Entretanto, por trás das palavras e da linguagem, con­ti­nu­ará o mesmo triunfalismo pouco amoroso.

Quando o papa João XXIII mandou retirar do rito estas expressões, o que estava por trás de sua decisão era a de­cisão de abrir-se ao diálogo e ao acolhimento de todo ser humano. No dia 11 de outubro de 1962, ele abriu o Concilio Vaticano II, convidando toda a Igreja a se alegrar porque chegava uma primavera nova para a Igreja e para a humanidade. Naquela noite de lua cheia, o papa olhou de sua janela no Vaticano e viu, na praça, uma multi­dão com velas nas mãos. No céu, a lua parecia se extasiar com aquele es­pe­ctáculo. O papa bom aparece na ja­nela e diz à multidão ali reunida que a lua tinha vindo festejar com eles a nova abertura da Igreja. Propõe que cada pessoa ali presente, ao voltar pa­ra casa, dê um beijo em quem lhe é mais próximo. Faça isso em nome do papa como sinal do seu carinho.

Esta língua, Deus entende e não precisa de Motu próprio para ser expli­cada. À medida que esta linguagem do diálogo se tornou estranha para mui­tos hierarcas, é normal que o papa prefira a missa em latim e uma forma de orar auto-centrada e pouco amoro­sa. 

Para não perder a fé no ser huma­no e no futuro da vida, a humanidade precisa saber que, apesar de tudo, a Igreja Católica tem muitos missionários e missionárias que, em todos os paí­ses, estão doando suas vidas ao ser­viço dos mais empobrecidos, como acon­tece nas Comunidades Eclesiais de Base – CEBs - e nas Pastorais So­ciais. O povo de Deus, constituído de comunidades, cada vez mais maduras e dignamente autónomas, não se dei­xa abalar por essas coisas e teste­munha que Deus não está preocupado se a missa é em latim ou neste ou na­que­le rito e sim se a vida da humani­dade e do planeta está sendo prote­gida e se estamos engravidando um mun­do novo possível.

2. Ponto de vista de P, Mário, director do Fraternizar

A missa em latim está desde 14 de Setembro último outra vez em vigor em toda a Igreja católica do Ocidente. O papa Bento XVI assim o quer e assim o decretou. E quando o papa quer e decreta uma coisa, é lei para todos os ca­tólicos, elas e eles. E lei na Igreja ca­tólica romana é para se cumprir...

Mas será que é? Não é sobretudo para se ultrapassar? Sou Igreja e por isso posso, devo dissentir do papa de turno. A minha obediência, em Igreja, não é ao papa. Em última instância, é exclusivamente à minha consciência.

Se eu não tiver a audácia de ser ho­mem assim, deixarei de ser Igreja, comunidade de comunidades de mu­lheres/homens livres e sororais/frater­nos.

Nem o papa, nem os bispos gostam de nos lembrar, muito menos, subli­nhar estas coisas essenciais do nosso ser Igreja. Preferem lidar com súbditos, vas­salos, subalternos, iletrados em eclesiologia. Eles sabem que mulheres/homens livres, indomáveis, nunca se­rão pau para toda a colher. Mas é de mulheres/homens assim que Deus gos­ta e trabalha dia e noite para que seja­mos e cresçamos nessa dimensão.

Saibam que, em Igreja, não há só o papa e os bispos. Há sobretudo Jesus e o Espírito Santo, o de Jesus. E há Deus vivo, nossa Mãe/nosso Pai, que nem gosta de papas, nem de bispos, nem de clérigos. Apenas de filhas suas, filhos seus, mulheres e homens consti­tuí­dos na liberdade/maioridade e por isso protagonistas da História, como se Ele não existisse. E, finalmente, há a consciência de cada membro da Igreja, mulher ou homem, que Deus Vivo é o pri­meiro a respeitar e a potenciar des­de dentro, para que o seja cada vez mais.

Sou Igreja e é assim que vejo as coisas. Não fossem as coisas assim e ser Igreja seria uma indignidade para os seres humanos que a constituem. Pelos vistos, hoje chega a parecer que o papa e os bispos e os párocos o que mais cultivam em Igreja é a indignida­de. Vejam como fazem tudo para que nos comportemos como súbditos seus, contribuintes calados, executores dos seus caprichos, alguns deles, os mais absurdos e pueris. Parece que o que eles mais temem é que sejamos livres e responsáveis. Sau­davelmente dissi­den­tes.

Pois bem, sou Igreja e não gosto de missas. De nenhuma espécie de mis­sas. Menos ainda das missas em latim, uma língua que hoje nenhum po­vo do mundo fala. E se hoje nenhum povo do mundo fala latim, para quem então falam os párocos, os bispos e o papa, quando rezarem a missa em la­tim? Para Deus? Mas quem lhes disse que Deus fala as línguas que nós, os humanos, falamos? E será que ainda pen­samos que, quando o papa, os bis­pos e os párocos falam em latim ou em vernáculo na missa e na liturgia em geral, é para Deus que eles falam? En­tão ainda pensamos que Deus Vivo carece de palavras, de frases, de fór­mu­las rituais e de discursos, para cú­mulo, proferidos por pretensos interme­diá­rios nossos, para saber de nós, no­me­a­damente, o que necessitamos, o que sentimos e o que desejamos? Es­que­cemos que Deus Vivo é mais íntimo a nós do que nos próprios? E que so­mos, porque Ele é e nos faz ser?

Por isso pergunto com oportunida­de: para onde nos quer levar o papa Ben­to XVI, com esta sua decisão? E os bispos que infantilmente acatam os seus decretos, os executam e fazem exe­cutar nas respectivas dioceses? A­cham que somos Igreja para obedecer infantilmente aos caprichos do papa? E dos bispos? E dos párocos? Não é para lhes resistirmos e para dissentir­mos deles? Resistir e dissentir não são posturas próprias de mulheres, homens adultos, livres, responsáveis? Ou será que ignoramos que somos Igreja para sempre nos deixarmos conduzir pelo Espírito de Deus Vivo, tal como fez Jesus, o ser humano por antonomásia?  E os seres humanos assim não são Eu­caristias vivas, vidas históricas con­cretas que salvam/humanizam/sorori­zam o mundo e, por isso, dão glória a Deus?

Deixemos o latim e as missas em latim na paz dos cemitérios, para onde a História já remeteu um e outras. E, em lugar de continuarmos infantilmente a ir à missa dos párocos, dos bispos e do papa, ousemos duma vez por todas crescer em sabedoria e em graça e ser mu­lheres, homens eucarísticos, melhor, Eucaristias vivas no mundo e na Histó­ria. Porque tudo o que não tender para aqui é pecado!


Já reza o Salmos versão séc. XXI?

Já conhece e já reza os Salmos Versão Século XXI, do Pe. Mário, editados pela Campo das Letras? Sabe que esta versão que o Pe. Mário con­seguiu dar aos primeiros 50 Salmos da Bíblia pode ser rezada até por ateus e agnósticos? E que os padres católicos tra­dicionais e freiras chegam a tê-la na conta de uma versão blasfema e, por isso, aconselham vivamente os fiéis que os/as frequentam a evitar qualquer contacto com o livro e com o autor? E, no entanto, trata-se de um livro, em cu­jas páginas, espiritualidade rima sem­pre com dignidade humana e o Nome de Deus nossa Mãe/Pai nunca chega a dar cobertura à Perversão e à Menti­ra da presente Ordem Mundial do Di­nheiro, do Templo e do Império, pelo con­trário, sempre anda aliado a todas as suas inúmeras vítimas.

Fica aqui, como elucidativo exem­plo, um extra­cto do Salmo 42:

1 Como os condenados pelo Império a caminhar / quilómetros e quilómetros a pé através do deserto / sem poderem ingerir qualquer líquido anseiam pelas / águas caudalosas, assim todo o meu ser anseia / por Ti ó Deus da Ternura e da Liberdade.

2 Todo o meu ser de ateu de todos os deuses / e deusas que se alimentam de gente tem sede / de Deus fonte de Ternura e de Liberdade. Mas / as Igre­jas e as Religiões só nos dão cruéis / ima­gens de Deus em tudo semelhantes / ao Império que as pariu.

3 Os grandes media agridem-me regu­lar­mente / com reportagens de mul­tidões a caminho de Fátima / de Meca e de outros santuários de nomeada; / do mais fundo do seu Obscurantismo e do seu Medo / todas elas parecem perguntar-me com a arrogância / pró­pria do grande número: Onde está o teu Deus?

4 Porém todo o meu ser estremece de paz / e de humanidade sempre que me faço próximo / do Oprimido e do Pobre; os seus corpos crucificados / são ou­tros tantos lugares teológicos onde Tu / misteriosamente me sais ao encontro / e me convertes em fonte de actos con­cretos / de Serviço libertador e de Di­gni­dade.

5 Visto-me de tristeza e de vergonha ao ver / as multidões oprimidas e empo­bre­cidas rastejar / como bichos nos san­tuários; e depois ainda / se despo­jam dos poucos bens que possuem / a favor do bezerro de ouro que lá é sadi­camente / adorado como um Deus.

6 E só não desfaleço de vez porque Te conheço / como o Deus da Ternura e da Liberdade [...]


Que fazer com tantos s. roques?

O negócio do pároco de Merelim São Paio é de bradar aos céus

Vejam só com que coisas se entre­têm certos párocos do nosso país e da generalidade dos países do Ocidente. Conta a Agência Ecclesia, num dos me­ses de verão tradicionalmente mais grá­vidos em incên­dios de matas e florestas e em festas populares em honra de san­tas-santos/ídolos de madeira ou de gesso, nossas senhoras disto e daquilo, fabricadas com iguais materiais aos dos santos-santas, que o pároco de Merelim São Paio, na arquidiocese de Braga, benzeu, duma assentada, 200 imagens de s. roque.

Não conta a Agência quem foi o fa­bricante de tanto s. roque e a que preço saíram os ditos. Mas que foi uma forna­da de s. roques foi. A fábrica que rece­beu a encomenda só pode ter esfrega­do as mãos. Falta saber se é uma fábri­ca em que o pároco em causa ou fami­li­a­res seus têm interesses. Porque quem ia ter tão genial ideia de mandar fabricar 200 s. roques duma só vez, se não houvesse pelo meio in­teresses me­nos santos, impuros, como impura é a ideia de os mandar fabri­car?

O pároco, desconfiado das apregoa­das virtudes destes 200 s. roques de madeira ou de gesso, apesar de todos terem sido fabricados com o seu aval e por encomenda sua, tomou a pruden­te (!) e sábia (!) decisão de os benzer. E à hora marcada, paramentado a rigor, lá leu o que está escrito no Ritual (nem para benzer uns s. roques novinhos em folha, o pároco de Merelim São Paio – já agora, porque não Merelim São Roque?! – deu mostras de ser capaz de descortinar as palavras mais cer­teiras; teve de recorrer ao Ritual das ben­zeduras eclesiáticas, não vá a bên­ção sair furada ou diabolizada!). E as­per­giu os ditos com água benta tam­bém por ele. Prova provada de que os s. roques, estes e outros como estes, não servem para nada, a não ser para dar dinheiro a ganhar, caso ainda haja católicos paganizados que os comprem. Se os s. roques, novinhos em folha, ti­ves­sem alguma virtude, daquelas mui­tas que lhes são atribuídas pela fábrica da Igreja de Merelim São Paio, tam­bém teriam a capacidade de expulsar dos seus próprios corpos, salvo seja, os diabos e os maus olhados que, pe­los vistos, só saem com as palavras do Ritual das benzeduras católicas e a água benta pelo pároco. Mas não. O pároco sabe que eles não passam de al­drabice, a mais pintada e de engana-católicos-iletrados-paganizados-papa-lhes-o-dinheiro. E, por isso, prefere jo­gar pelo seguro.

As nossas populações católicas é que ainda estão com consciência de Idade Média mais do que de século XXI que é o século em que elas hoje vivem, embora nem pareça, assim como os pá­rocos católicos que as enganam e ex­ploram. Porque, se assim não fosse, as po­pulações mandavam o pároco de Me­relim São Paio pentear macacos, que era o que ele no mínimo precisava, já que, em vez de fazer acontecer no meio de­las o Evangelho libertador de Je­sus - levá-las-ia a correr com estas e ou­tras mentiras sem pés nem cabeça - pre­fere vender s. roques, com os quais elas acabam ainda mais tolhi­das, pa­ga­nizadas, oprimidas e atrofia­das.

O mais espantoso é que nem os mem­bros da Comissão de festas do s. roque da freguesia foram capazes de re­sistir ao pároco. Mal ele propôs aque­le negócio, eles disseram que sim. E disponibilizaram a verba necessária que havia sobrado das festas do dito. Poderia a Comissão ter organizado uma ou mais ceias sororais com a população mais carenciada e mais fragilizada da freguesia. Poderia ter orientado o di­nhei­ro para melhorar a casa de alguma fa­mília em apuros e mal alojada. Pode­ria ter pensado nos Invernos habitual­mente rigorosos que fustigam as popula­ções do Minho. Mas não teve ideias “revolucionárias”, que isto de Revolu­ção não rima nada com o Paganismo católico em que são useiras e vezeiras a generalidade das nossas paróquias. E por isso o dinheiro que sobrou das festas lá se foi para fabricar s. roques.

Dias virão em que um tsunami do Es­pírito Santo, com sabor a Pentecostes, há-de varrer aquela paróquia da Arqui­dio­cese de Braga e toda a Arquidiocese, a começar pelo Bispo que vive de cos­tas voltadas para a realidade e des­co­nhece que a sua missão prioritária é E­van­gelizar os pobres, é expulsar das opri­midas mentes e consciências das po­pulações minhotas todas essas tretas com o nome de s. roque ou de outros bo­ne­cos quaisquer, numa promiscui­da­de de bradar aos céus. Deixar que as coi­sas prossigam como este exemplo claramente revela é um crime. E faz do arcebispo de Braga um cúmplice. Pa­rece um crime de pou­ca monta, mas não é. Porque que im­por­ta que a prisão que não deixa as po­pulações crescer em sabedoria e em graça, em liber­dade e em protagonismo político seja um mero s. roque de gesso ou de ma­dei­ra, facilmente quebrável ou facil­men­te convertido em lenha para aque­cer as pessoas no Inverno, se ele, efe­ctivamente, acaba a funcionar como pri­são e como impedimento para elas da­rem o salto qualitativo que não che­gam nunca a dar entre o nascer e o morrer?

Diz a lenda que os s. roques de Merelim de São Paio e os de todas as muitas outras paróquias católicas do Ocidente que os cultuam nas respecti­vas capelas, geridas pelos párocos, como quem gere um banco ou uma ca­sa comercial – conheço algumas do nos­so país e posso dizer que são an­tros de indignidade, buracos para hu­milhar as populações, espaços acanha­dos e insalubres, verdadeiros sím­bolos de opressão, com tudo de demo­ní­aco – têm a virtude curar as popula­ções da peste. Mas a verdade é que se as populações embarcarem nessa aldrabice e não forem ao médico, qu­an­do estão doentes, verão o que lhes acontece, sobretudo, se a doença for perigosa e de morte.

De resto, do s. roque da lenda pa­gã católica, muito mais importante e digno de apreço do que ele é o cão que o tratou e lhe cuidou das chagas com a sua língua e diariamente lhe trans­portou a comida de que ele ne­ces­sitava. De santo e de milagreiro, S. roque não tem nada. Porque santo, à luz de Jesus, é ser-se integralmente humano e contribuir para tornar huma­nas as populações.

Neste particular, ainda está para aparecer um santo desses apresenta­dos aí ao culto público das populações católicas, que as torne humanas e soli­dá­rias. Todos, elas e eles, servem ape­nas para humilhar as populações e man­tê-las na ignorância, no medo, na treva, no obscurantismo. Levam-lhes o dinheiro e atrofiam-nas até mais não. Fazem-lhes exactamente ao contrário do que o Espírito Santo fez em Jesus, que crescia em idade, estatura, sabe­do­ria e em graça.

Escutem, pois, párocos católicos do meu país e dos países do Ocidente: As populações pedem Pão, também o da Palavra que as liberte e faça delas protagonistas na História, e vós, em lu­gar de lho dardes, continuais a dar-lhes s. roques e quejandos, ópio a ro­dos, santuários onde elas vão regular­mente abaste­cer-se de estúpida droga religiosa. Sabei que isso que fazes é um crime. Um pérfido negócio. Um pe­ca­do contra a Verdade, contra o Evan­gelho, contra o Espírito Santo. Acerca do qual Jesus chega a dizer que não tem perdão! E tanto pior para vós, meus irmãos, se depois de lerdes isto, ainda vos ficais a rir. Porque então sois con­tu­mazes. Peço-vos, pois, em nome de Deus Vivo: Convertei-vos ao Evange­lho, o de Jesus. E experimentar-vos-eis humanos, livres, fraternos, profetas da alegria.


Madre Teresa de Calcutá

Acham que se pareceu com Jesus?

Viram a numa das primeiras noites de Setembro último, no canal 1, o filme sobre a vida/intervenção social de Ma­dre Teresa de Calcutá, falecida há dez anos e logo pouco tempo depois beati­fi­ca­da por João Paulo II, o papa mais fa­timista e mais milagreiro de todos os tempos? E escandalizaram-se como eu me escandalizei com aquele tipo pou­co ou nada jesuânico de santidade que ela protagonizou em vida, nomeada­men­te, no meio daquelas fedorentas ruas e daqueles inumanos bairros de la­ta da grande cidade de Calcutá, na Índia? Ou, pelo contrário, gostaram mui­to desse tipo de santidade e desse jeito de se ser mulher?

Só vi a última parte do filme, mas foi o suficiente para me confirmar na impressão que sempre tive acerca do jeito pouco ou nada jesuânico que Ma­dre Teresa teve de ser mulher, na sua assumida dimensão de cristã católica. Serei por isso das poucas pessoas que não me revejo naquele seu jeito de ser mulher. E nunca canonizaria, isto é, nunca apresentaria como exemplar para os demais seres humanos, aquele seu jeito de ser ser humano. Franca­men­te, acho que fica a milhas de distân­cia de Jesus, o de Nazaré.

Viram, por exemplo, toda aquela cum­pli­ci­dade e promiscuidade existen­tes entre ela e os homens fortes do sis­tema eclesiástico católico? Viram até onde ela foi em subserviência e em re­co­nhecimento efectivo desse poder? Viram como ela conseguiu sempre o que quis deles, pela simples razão de que nunca se atreveu a pô-los em cau­sa, muito menos, prescindiu deles e do poder que eles são e têm dentro do Po­der global do mundo que continua aí a oprimir e a matar sem dó nem pie­da­de os seres humanos?

Ou será que somos ainda tão ingé­nuos que pensamos que a existência de inumanos bairros e de fedorentas ruas como os bairros e as ruas da cida­de de Calcutá e de outras grandes ci­dades da Índia e do resto do mundo - dez anos depois da morte de Madre Teresa, ainda hoje eles lá permanecem, como se ela nunca lá tivesse actuado! - são mesmo uma fatalidade que have­mos de suportar e de integrar como coi­sa natural? Ou - o que é ainda pior - pen­samos que a sua existência resulta da insensibilidade e da crueldade de Deus que, embora continue a ser apre­sen­tado pelos seus crentes como infini­tamente bom e todo-poderoso, a verda­de é que não faz nada para alterar se­melhante situação?

Alguma vez viram, por exemplo, no filme e na vida real, aquela mulher en­fren­tar, determinada, os poderosos e des­mascarar com audácia martirial os seus nefandos crimes de lesa-humani­dade? Alguma vez a ouviram perguntar, perante tanta pobreza estrutural e tan­tos pobres em massa, tanta miséria es­trutural e tantos miseráveis em massa, por­que há pobres e tantos pobres, por­que há miseráveis e tantos miseráveis? Ou ouviram-na perguntar quem e o quê fabricam tanta pobreza e tantos pobres, tanta miséria e tantos miseráveis?

Não! Nunca viram nem ouviram, por­que ela nunca o fez! Por isso os reais fa­bricadores de pobres e de pobreza em massa, de miseráveis e de miséria em massa, bem como os eclesiásticos que habitualmente os abençoam, são unânimes em gostar desta mulher e de mulheres e de homens do mesmo jeito, porque, depois de tudo, não só não são desmascarados, denunciados e responsabilizados pelos seus crimes estruturais de lesa-humanidade, como ainda têm a oportunidade de passa­rem por benfeitores perante as suas ví­timas!

Por mim, prefiro mil vezes o Crucifi­ca­do e maldito Jesus de Nazaré à bea­ta Madre Teresa de Calcutá. No seu tempo e país, também havia mui­tos leprosos e ele nunca correu a criar leprosarias para eles. Havia muitos fa­mintos e ele nunca correu a criar pada­rias para lhes matar a fome. Havia mui­tos doentes e ele nunca correu a criar hospitais.

Em vez disso, teve a inteligência e a audácia de ir à raiz do mal e de pôr a descoberto Aquilo que causava todas essas situações de inumanidade estrutural. E depois não hesitou em en­frentar os responsáveis, nos san­tuários e nos palácios, com que eles sempre se protegem e com que sempre se disfarçam. Ao mesmo tempo, ainda soube ser presença misericordiosa e maiêutica, de parteira, junto das vítimas para que elas abrissem os olhos e os ou­vidos, soltassem as línguas, se levan­tassem sobre os próprios pés e utili­zassem as próprias mãos, expulsassem de si a ideologia e a religião dos po­de­rosos - um verdadeiro demónio - que os mantinham oprimidos e no Medo e se assumissem como protagonistas das suas próprias vidas e da vida do mun­do.

Obviamente, em lugar de o cano­nizarem, como fizeram a correr com Madre Teresa de Calcutá, mataram-no na Cruz como o maldito dos malditos, para que nunca mais ninguém queira ir pela via libertadora e salvadora que ele abriu e percorreu até ao fim e em que se constituiu para todo o sempre.

E não é que conseguiram o seu de­sígnio? Não é que até a generalidade dos ateus hoje acha que Jesus está ul­trapassado e que a sua via não in­teressa a ninguém? Não é que quase toda a gente prefere pessoas como Madre Teresa de Calcutá, a Jesus de Nazaré?

Mas a mim jamais eles me ganharão para as suas fileiras, nem para as suas cadeiras de poder e de privilégio. Por­que só Jesus, que eles mataram, anda carregado de Futuro, uma vez que foi, é o único que, no seu corpo e na sua prá­tica histórica, levou a Humanidade até ao limite e até para lá do limite. Por isso, ou vamos lúcida e corajosa­mente por ele e pelo caminho que ele é, ou continuaremos ingenuamente, co­mo Madre Teresa de Calcutá, a fazer o jogo do Poder que é mentiroso, pai de mentira e assassino desde o prin­cípio.

Mas então não nos queixemos. Nem tentemos justificar com pseudo-filosofias o ateísmo pragmático que seguimos, por­que, afinal, o Deus que negamos, bem vistas as coisas, não passa de um ídolo! Alerta!


Dalai Lama

Dois momentos

Primeiro Momento

Nunca estive olhos nos olhos com ele. E provavelmente, nunca estarei. Não me atrai o seu sorriso. Nem a sua figura. Acho tudo demasiado artificial. Folclórico. Pueril. Sem plena verdade. Como sucede aliás com o nosso Papa de Ro­ma.

Dalai Lama é, pode dizer-se que é o papa do Budismo. Como tal, o ho­mem que ele antes era como que desa­pareceu para, em seu lugar, ficar um ar­tifício, uma marionete, um fantasma que o Poder e outros obscuros interes­ses hoje manipulam à vontade. Tornou-se, há anos, Nobel da Paz e nem assim me atrai a sua paz. Acho-o demasiado integrado no Sistema e na Ordem Eco­nómica Mundial do Império, do Dinhei­ro e do Templo. Aquela Paz revolucio­ná­ria e conspirativa que resulta do bei­jo entre a Justiça e a Misericórdia e que, lá onde existir, erradica de vez a pobreza em massa da face da Terra, nunca chegará a ser premiada com o Nobel da Paz, porque os senhores que mexem nesses cordelinhos estão, obviamente, mais empenhados em conser­var a Ordem Económica Mundial que lhes é favorável, como a todos os de­mais ricos e poderosos, do que em sub­ver­tê-la.

De Dalai Lama, já li alguns textos que lhe são atribuídos e não me como­vi. Tão pouco, senti o apelo a sair ao seu encontro. Soube - quem não sou­be?! - que ele esteve pela segunda vez em Por­tugal, mas não dei um passo para ir ao seu encontro. Os media an­da­ram atrás dele, captaram as suas pa­lavras e difundiram imagens dele. Pelos vistos, a sua agenda está sempre so­bre­carregadíssima e foram muitos os mi­lha­res de pessoas que correram a escutá-lo numa única sessão pública em Lisboa. Não estivei lá.

Acho que tudo o que é feito com esta exótica figura não tem verdade, soa a falso, a oco. Ora, eu gosto de se­res humanos íntegros, inteiros. Não gosto de marionetes, de robots, de fun­cionários, de vedetas, de estrelas, de per­sonalidades. Quando alguém ne­ces­sita de guarda-costas, para qual­quer parte do mundo que vá, ainda é um ser humano? Um irmão universal? Não se tornou outra coisa?

O Poder do que mais tem medo é de seres humanos. Por isso, tudo faz para converter aqueles com que trope­ça em outra coisa. Pelos vistos, são pou­cos os seres humanos que resistem ao Poder e que permanecem seres hu­ma­nos simplesmente, até ao fim. O Po­der sabe que só se perpetua, se tiver mi­norias de funcionários de luxo e exér­citos de funcionários anónimos que o sirvam. Quando conhece indiví­duos incondicionalmente dispostos a servi-lo, não olha ao preço a pagar. Pa­ga o que for preciso para os ter a todos nas mãos. A sua Ordem Econó­mi­ca Mundial nunca chegará a ser ame­a­çada. Só reforçada. E cada vez mais.

O Poder sabe que é com papas, com dalai lamas, com presidentes da república, com bispos, párocos, pri­meiros-ministros, administradores disto e daquilo, com presidentes de banco mundial e de banco central e muitos ou­tros do género, que tudo continuará a correr sobre rodas. De geração em ge­ração. Indefinidamente. Vejam como todos esses privilegiados se entendem entre si. E como cooperam. Mesmo qu­an­do parece que estão em desacordo, como sucedeu nos dias que Dalai La­ma permaneceu em Portugal.

Os dois funcionários de topo do Estado recusaram recebê-lo, mas ain­da foi para, desse modo, todos eles le­varem a água ao seu moinho. São pe­quenos atritos bem publicitados que têm o condão de os unir entre si e re­forçá-los ainda mais nos seus lugares de topo. Abramos os olhos. Não nos dei­­xemos cegar. Só a Luz nos pode manter humanos. Mas nunca esqueçam que a Luz é incompatível com o Poder. O Poder é Treva. Holofote que encan­deia e cega.

"Eu sou a Luz do Mundo. Quem me segue não anda na Treva". Só podem ser de Jesus estas palavras. Sabemos que o Poder também o tentou durante toda a vida. Mas ele resistiu-lhe sem­pre. Até ao sangue. Por isso, o Poder matou-o. Não suporta tropeçar com se­res humanos integrais. Só com venais que negoceiam com ele e se submetem às suas ordens.

É por Jesus que vou. Ele é o Ca­minho que, se for percorrido por mim até ao fim, me fará ser humano integral, por isso, salvo. Também querem vir daí comigo? Perceberão, como Paulo de Tarso acabou por perceber, que tudo o que não é Jesus é esterco. Nem que brilhe como o ouro ou como o diamante mais polido!

Segundo Momento

Não lhes deu vómitos, à hora de jantar, toda aquela hipocrisia e todo aquele bando de hipócritas, na Assem­bleia da República, quando a reporta­gem da recepção oficial ao Dalai Lama passou nos telejornais? E acham que um homem que pretenda mudar o mun­do, como nos querem fazer crer que Da­lai Lama pretende, deva frequentar lugares e instituições de Poder onde todos os dias se pratica a mentira e se assassinam os pobres com leis e de­ci­sões que sistematicamente visam promover e defender os privilégios dos poderosos e os macabros interesses do grande capital e das suas multina­cionais? Quem pretenda mudar o mun­do pode frequentar assim, sem um mí­ni­mo de verdade nas palavras e nos ges­tos, os poderosos e os grandes ri­cos, cujos privilégios são o que falta de mais essencial/vital às maiorias po­bres? E, se os frequenta, não há-de ser para lhes dizer, olhos nos olhos, com ternura, mas também com o vigor duma espada de dois gumes, o seu pecado, a sua fealdade, o seu crime, a sua perversão, de modo que eles per­cam o sono, abram-se à Verdade, pra­tiquem-na e iniciem o percurso de vida que os leve a ser, finalmente, pessoas humanas livres e sororais? A hipocrisia alguma vez mudou o mundo?

Eu sei que é muito difícil a fronta­lidade e a luz, nomeadamente, na casa dos poderosos e dos grandes ricos. Sei que a profecia não é prática que se assuma todos os dias com facilidade. E nem será de esperar encontrá-la em to­das as pessoas. Mas quem quer mu­dar o mundo tem de ser capaz de estar nele sem nunca chegar a ser dele. Não pode viver a fazer de conta. Muito me­nos recorrer aos mesmos processos dos poderosos e dos grandes ricos, nem ter os seus tiques. Conhecerá por isso o ódio e o desprezo deles, em lugar dos aplausos, sobretudo se eles já ti­verem desistido de vez de ser humanos e sororais. Nunca chegará certamente a ser convidado para entrar nos seus palácios, nem frequentará os seus ban­quetes. Será tratado como louco e obje­cto de riso. E quando morrer, a sua mor­te será festejada por eles. Mas a Hu­manidade, enquanto tal, terá conhe­cido um ser humano a sério, cujas mãos não estão sujas de sangue dos pobres e cuja cabeça sempre trabalhou em uníssono com o coração e por isso ja­mais foi capaz de conceber projectos, doutrinas, economias e políticas sem entranhas de misericórdia.

Escandalizo ao escrever estas coi­sas? É provável. Porque estamos todas, todos tão metidos na lógica deste mun­do, desta Ordem Económica Mundial do Dinheiro, do Templo e do Império, que já nem somos capazes de perceber to­da a sua Perversão, toda a sua Mentira e todo o seu poder assassino. Pelo con­trário, encaramos e tratamos como ben­feitores da Humanidade aqueles que vi­vem sistematicamente para a roubar, matar e destruir. E ainda corremos a juntar as nossas pedras às deles, quan­do eles decidem passar do desprezo ao apedrejamento até à morte dos pro­fetas, sempre, é claro, ao abrigo das suas perversas leis. Como paradigma­ticamente fizeram/fizemos com Jesus, o de Nazaré, o Homem por antonomá­sia. E com tantos outros, mulheres e homens, que têm tido a audácia de viver na sua peugada e de prosseguir as suas mesmas Causas.


LIVROS DO TRIMESTRE

Edicon / Manuel Reis

Despaulinizar o Novo Testamento

Sob o signo do jesuanismo

Não é de leitura fácil, exige uma boa base filosófica e muita abertura de espírito para encaixar dados eventualmente chocantes. Mas é um livro de leitura obrigatória, ponto de partida para suculentos e polémicos debates, tertúlias que muito contribuirão para nos fazer livres e humanos. Por isso, não se deixem assustar diante das suas 467 densas páginas. E, lá para o final do livro, terão a agradável surpresa de que também se opina sobre o nosso Fraternizar.

"Despaulinizar significa e implica: desconstruir e eliminar o paulinismo no Novo Testamento; em suma, desmis­ti­ficar, desmitificar e desmitologizar toda a mitologia paulina, presente em quase todo o Novo Testamento canónico. Os cha­mados Escritos gnósticos ou apó­crifos podem e devem ajudar; como de resto, toda a literatura dos «Dead Sea Scrolls». Sem esquecer, como é óbvio, a literatura subterrânea que, ao longo dos últimos dois milénios da Civilização/Cultura Ocidental, foi emergindo para lo­go ser censurada, proibida e ocultada pela Autoridade dogmática da Igreja Ro­mana e pelos Poderes estabeleci­dos."

É assim que abre o Pórtico do livro.  E logo adverte: "Não vamos em deman­da de tropos ou figuras de estilo, de hi­póstases ideológicas ou de ficções sub­stantivadas; vamos, antes, e criti­camente, em busca de personagens cé­nico-culturais reais e, no seu núcleo duro, até de pes­so­as vivas e reais (Su­­jeitos individu­ais-pessoais), as quais, só pelo Diá­logo dialéctico au­têntico, podem co­mu­nicar sem equí­vocos e, de segui­da, tomar iniciativas e empreender ac­ções em comum, num Mundo, que - não esquecer - é de todos."

Ainda no Pór­tico, diz-se suma­ria­mente o que no livro se entende por Novo Testamento. "O Novo Testamento (com os seus 27 livros canónicos, esta­belecidos como tal no Concílio de Ni­ceia/325, sob a égide do Imperador Constantino, ainda nem sequer bpati­zado...), tal como o conhecemos e é in­terpretado tradicionalmente, faculta-nos a Mensagem de Paulo e do pauli­nismo (ou seja, o Cristianismo doutrinal e histórico, que nos tem sido debitado no Ocidente de geração em geração...); não a vera e autêntica Mensagem (re­vo­lucionária) de Jesus, o nazorêu, e do que podemos chamar o Jesuanis­mo."

O livro faz-se em três partes, com seus múltiplos capítulos e subcapítulos, e dois apêndices. I Parte: Despaulini­zan­do o Novo Testamento (em deman­da do jesuanismo). II Parte: Hermenêu­ti­ca e Pesher: uma introdução crítica e um painel exemplificativo do Novo Tes­tamento em várias frentes filosófico-cul­turais. III Parte: Dezasseis epigramas como estaleiro da despaulinização.

Facilmente se reconhecerá, ao ler o livro, que se trata de uma obra marca­damente erudita e saudavelmente po­lé­mica. Utiliza fontes menos habituais sobre Jesus e a sua vida privada, que autores de renome na investigação so­bre ele, têm manifestamente rejeitado. Mas isso é um aliciante mais para nos levar a ler o livro. Atrevam-se.

Sal Terrae / Peter Spiegel

Muhammad Yunus,

O banqueiro dos pobres

"A esmola é a pior ofensa aos pobres. Como um microcrédito pode mudar a vida". O título, provocativo, encabeça o terceiro capítulo deste fascinante livro de 154 páginas. Só pode ser lido de uma assentada e depois haveremos de regressar a ele, sempre que precisarmos de encher-nos de esperança e de audácia para mudarmos a vida das pessoas, tantas vezes, instaladas na sua miséria, porque alimentadas pela caridadezinha dos demais. Ninguém se atrase a adquiri-lo.

"Sabem? No Banco Grameen [fun­dado por Yunus para conceder micro­cré­ditos aos pobres] aprendemos que os problemas são o combustível mais pre­cioso para as inovações. Não temos medo dos problemas; os problemas não são para nós problemas, mas ami­gos. São a porta de acesso a um pro­cesso criativo que nos conduz a solu­ções cada vez melhores. Enfim, cada proble­ma ajuda-nos simplesmente a me­lhorar passo a passo."

Esta é uma das revelações que o ban­queiro dos pobres fez a uma plateia de 100 banqueiros tradicionais que, há uns dez anos atrás, se juntaram, pela primeira vez, cheios de curiosidade pa­ra o ouvir e interpelar. Trata-se de um homem e de um economista muito ao contrário da gene­ralidade dos outros homens e dos ou­tros economistas, pois vive, pensa e trabalha quase só para tentar tirar os pobres da sua po­bre­za e fazer de­les pessoas realiza­das, felizes, autó­no­­mas, úteis à so­cie­dade em que vi­vem.

"As minhas novas professoras são as pobres", é o título do primeiro ca­pítulo do livro. Re­mete-nos de ime­diato para a in­fân­cia e o ambiente familiar de Yunus. Nascido no Bangladesh, nunca se viu obrigado a experimentar a pobreza na sua própria carne. Experimentou-a no corpo dos milhões de pobres do seu país, das mulheres pobres, antes de mais. Concebeu e criou então um ban­co para tirar os pobres, mulheres e homens, da pobreza e isso mudou para sempre a sua vida. E está a mudar a vi­da de milhares de pessoas pobres que, em lugar de se resignarem às es­molas e aos subsídios, têm a audácia de recorrer aos microcréditos que o seu banco lhes proporciona.

Entretanto, não se pense que está encontrada a solução mágica para aca­bar com a pobreza no mundo. Por­que o sistema capitalista que tudo domi­na com os seus tentáculos de polvo assassino, até consegue dominar mui­tas das mentes dos próprios pobres e im­pede-os de aceitarem o desafio a saí­rem da sua pobreza. A esmagadora maioria continua a comportar-se como se a sua situação de pobreza fosse uma fatalidade da natureza. E só muito pou­cos é que têm a força e a dignidade de aceitar microcréditos em lugar de esmolas.

Editorial Trotta / Montserrat Abumalham

O Islão

De religião dos árabes a religião universal

A autora é professora titular no Departamento de Estudos Árabes e Islão, da Faculdade de Filologia da Universidade Complutense de Madrid, especialista em língua e literatura judeo-árabes, literatura árabe comparada e literatura e pensamento árabe-muçulmanos. O livro, de 269 páginas, é uma óptima iniciação ao Islão, numa abordagem que chega a ser cativante sem deixar de ser objectiva. A não perder.

"Para compreender o islão é pre­ciso situá-lo nas circunstâncias do seu nascimento, que são as que resultam verdadeiramente reveladoras, e exa­minar as suas transformações, reformas e contra-reformas provocadas pelo devir histórico e pela intervenção de ambi­ções, expectativas e planos puramente humanos que, em muitos casos, nada têm que ver com o espiritual nem com a transcendência."

São palavras da autora, na intro­dução. Ainda na introdução, avança es­ta advertência: "O ponto de partida que nos propomos é, por um lado, o da em­pa­tia que acompanha a objectividade e, por outro lado, o de oferecer uma análise e uma des­crição do islão co­mo o que ele é fun­da­mentalmente: uma religião que pro­cede duma pro­­funda procura pessoal e duma ex­periência da pre­sença da divin­da­de, incardinadas am­bas numa larga tradição monoteísta compartilhada por outros povos que, além do mais, coin­cidem no mesmo espaço geográfi­co. Trata-se, portanto, de apresentar as bases históricas e dogmáticas do islão, situando-o no seu contexto, avaliando toda a sua complexidade e assinalando os seus desenvolvimentos mais notá­veis."

Para a autora, "o islão, além da base de uma das mais amplas, ricas e criativas civilizações humanas, é o mo­tor de criação de múltiplas linguagens simbólicas que se exprimem através das artes e do artesanato de numerosos lugares. Essa capacidade para a gera­ção simbólica coloca o islão, como aos grandes sistemas de pensamento, no centro da identidade individual e cole­ctiva de muitos seres humanos e, por­tan­to, também converte-o num elemento que pode ser manipulado eficazmente para movimentar e mobilizar grupos hu­manos e povos. A utilização ideoló­gica de partes da mensagem do islão não deve contudo confundir-nos nem levar-nos a pensar que no islão existe uma exigência de aniquilação espiritual e uma forte dose de violência."


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Bispo António Zati

A minha crise

Quando colocou a questão de casar canonicamente e prosse­guir no exercício do ministé­rio, (quase) todos o despreza­ram e "excomungaram" das suas vidas. Seria então a Igre­ja Vetero-Católica a aproximar-se dele e a reconhecê-lo. Orde­nou-o Bispo em Angola. D. António Zati fale­ceu recente­men­te. E, no dia do funeral, aconteceu a surpresa maior: Por sua expressa vontade, al­guém se levantou e leu, em seu nome, na catedral a carta que ele próprio havia escrito em 31 de Julho de 1997, onde conta o que lhe fizeram. É ess­a carta que Jornal Fraterni­zar publica aqui na íntegra.

Alguns meses antes da minha or­de­nação diaconal, vivi uma crise que, gra­ças a Deus, consegui superar. O meu colega João Maria Futi, tendo-lhe eu confidenciado o que se passava em mim, deu-me na ocasião muito bons con­selhos. Sublimada a crise, fui ordenado Diácono (1 Agosto 1988, em Kinshasa) e Sacerdote (8 Janeiro 1989, em Cabinda) sem quaisquer problemas, sem sobressaltos. Consciente das minhas obrigações sacerdotais. Muito feliz pela bênção que o Senhor derramou sobre o Seu rebanho, ao me conceder a graça de ser “Sacerdote de Cristo ao serviço do Povo de Deus”, tal como deixei gravado nas imagens da minha ordenação sacerdotal. E dei o melhor de mim mesmo, obedecendo ao meu Bispo e servindo o povo cristão, tanto quanto a graça de Deus me permitiu fazer.

Em Maio de 1990, ressurge a crise com a morte de meu irmão mais novo, pai de três filhos. As circunstâncias do seu falecimento deixaram-me, na verdade, profundamente abalado. Com a ajuda do Senhor, pude, uma vez mais, controlar a situação.

O tempo foi passando. Ao reflectir sobre a outra face da vida do clero, dos sacerdotes, religiosos e religiosas – suas virtudes e suas fraquezas, mormente no tocante à castidade – muito me preocupava, a começar por mim próprio, a importância fundamental do testemunho de vida nessa matéria. Ora, eu já era sacerdote e, pondo de parte a falsa modéstia, com um trabalho missionário plausível, digno de prémio (tal como o meu Bispo o chegou a reconhecer publicamente numa Reunião Missionária). Por outro lado, ia-se reforçando em mim a convicção de não haver incompatibilidade entre o estado clerical e a vida matrimonial. Daí a conclusão de que seria melhor, a bem da Igreja e das almas, que fosse liberalizada a questão do celibato obrigatório, de tal modo que o que acontecia no seio do clero e de pessoas consagradas, em toda a parte, em todo o mundo, não continuasse a ser simplesmente justificado como sendo consequências decorrentes da própria lei do celibato ou da castidade (in)voluntária.

Ciente do que a minha vida sacerdotal exigia e esforçando-me por ser sincero e honesto para com Deus, comigo próprio e com os fiéis, achei por bem fazer um pedido ao Santo Padre: conceder-me a autorização de me casar canonicamente, permanecendo, no entanto, ligado ao meu ministério sacerdotal. Entre Maio e Junho de 1993 e enquanto nos debatíamos com a procura de uma saída para a crise, gerou-se um tumulto tal em torno do meu problema na Diocese – situação criada deliberadamente pelos colegas no sacerdócio de quem esperava melhor compreensão e caridade cristã naquele delicado momento – que tudo se precipitou. O meu Bispo e os colegas em geral faltaram-me no momento em que mais precisei deles. Ordens estritas foram dadas aos sacerdotes para que me evitassem, para que não me fossem visitar; colegas no sacerdócio fizeram da minha crise o tema principal das suas homilias dominicais e feriais, denegrindo-me como melhor lhes aprouve; difamaram-me; etc, etc. Aliás, muitas das atitudes do meu próprio Bispo deixaram muito, mas muito, a desejar, e isto desde a primeira hora. Tal foi o caso do envio do Chanceler e do Sacristão da Sé Catedral para receberem a paróquia, sem alguma explicação, pelo menos por ter sido o próprio Bispo quem me nomeou e empossou (1992) naquela função eclesiástica, numa das mais importantes paróquias da diocese, e em substituição do último pároco espiritano, o Pe. Camboa. Reconheço a eficácia do apoio moral que um colega me deu. Outros distinguiram-se na transformação da ajuda moral e/ou financeira que me proporcionaram nas mais sujas pregações (que, infelizmente, os comprometia a eles próprios pela sua atitude para com um colega aflito, bem como à Igreja). Outros, certamente por serem jovens no sacerdócio, visitaram-me logo que puderam. Há ainda os que, até hoje, me evitam, talvez por obediência ao nosso Bispo.

Em suma, uma crítica situação de que resultou a precipitação do evoluir dos acontecimentos. Falei com o meu Bispo; entreguei-lhe uma carta escrita por mim mesmo. Escrevi para o Sumo Pontífice em 1993, expondo a minha questão, tal como o meu Bispo mo tinha recomendado. E, nesse mar tempestuoso em que me encontrava, uma coisa me restava fazer: casar-me com a viúva que tinha conhecido no ano anterior na Paróquia da Imaculada Conceição de Cabinda, de que era pároco. Assim sucedeu a 2 de Outubro 1993.

Cabinda, aos 31 de Julho de 1997


Domingo, 21 de Outubro, em S. Pedro da Cova

10.º Encontro de Espiritualidade

O 10.º Encontro de Espiritualidade com o ateísmo e a idolatria generalizados em fundo, a realizar dia 21 de Outubro 2007, domingo, entre as 10 horas e as 17 horas, tem, como temática principal a debater por todas, todos nós que fizermos por participar nele as chamadas Bem-aventuranças de Jesus, nas duas versões conhecidas: a de Mateus 5, 1-16 e a de Lucas 6, 20-36. Dizem-nos ambas quem são e com que Espírito hão-de viver as, os que, como Jesus, já decidimos fazer do Reino a opção de fundo das nossas vidas.

Entre a manhã e a tarde, há o Almoço Partilhado e Eucarístico, conseguido a partir do que cada uma, cada um trouxer de casa para a Mesa Comum.

Da parte da tarde procuraremos abrir-nos a práticas alternativas às da actual Ordem Mundial do Dinheiro, do Templo e do Império. Sem esquecermos a Acção/Missão que o Reino precisa que realizemos, em comunhão com Jesus, para que ele possa continuar a crescer na História. E façamo-nos acompanhar de cantos e de poemas para partilharmos.



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