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IGREJA / SOCIEDADE
O mundo vive sob uma nova revolução
como a Francesa e só a Igreja Católica
ainda não deu por isso
José Comblin (Teólogo)
Trata-se de um Documento que se estende ao longo de oito páginas. Nem que o tentem ler de um fôlego (é tão fecunda a lucidez do seu autor, presbítero católico residente em Paraíba, Brasil, que apetece começar e não parar), deverão depois regressar a ele com tempo e muita ponderação. Melhor será que façam dele uma sessão de trabalho/debate. Foi escrito para a REB-Revista Eclesiástica Brasileira 265, de Janeiro 2007 (p. 36-58). Transcrevemo-lo com vénia e pública gratidão ao Autor e ao Redactor da REB, Fr. Elói Dionísio Piva.
1. O facto básico
O facto fundamental é que Igreja ainda não percebeu ou não reconheceu ou não quis aceitar a grande revolução da sociedade ocidental que se manifestou nos anos 70 do século passado e se estendeu rapidamente ao mundo inteiro. O que acontece actualmente na China e nos “tigres asiáticos” é altamente significativo. Povos que tinham uma longa tradição de civilização adoptam com entusiasmo e quase com fúria a nova sociedade ocidental nascida da revolução dos anos 70. A Igreja vive ainda na ilusão do mundo do tempo de Vaticano II, como se não tivesse havido uma revolução tão radical como a Revolução Francesa, logo depois do Concílio. Quem hoje em dia lê certos textos conciliares, por exemplo, da Gaudium et Spes, não pode deixar de ficar impressionado pela ingenuidade da concepção do mundo que se fazia naquele tempo. O Vaticano II falou para um mundo que hoje já não existe mais. Entrou na história, mas não fornece orientações para o mundo de hoje.
A partir dos anos 70, começou o desmoronamento da Cristandade. Nos tempos do Vaticano II alguns apressados tinham proclamado o fim da cristandade. Mas ainda não era o fim. Pelo contrário, o Concílio viveu num ambiente de neocristandade. Poucos anos depois, começou a grande revolução da sociedade ocidental que se repercutiu também dentro da Igreja como um furacão. Muitos católicos separaram-se da instituição, inclusive muitos padres e muitos religiosos. Os conservadores intransigentes atribuíram esse facto ao Concílio, mas o Concílio não tinha nada a ver com isso. O que aconteceu foi a grande revolução total da sociedade ocidental: revolução na ciência, na economia, na política, na cultura; revolução total e profunda com consequências de uma revolução na ética e na religião.
Esta revolução abalou todas as instituições: a família, a empresa, a escola, a universidade, o Estado e, naturalmente, as instituições religiosas. Antigos poderes desapareceram e apareceram novos poderes. Agora sim, estamos a chegar ao fim da cristandade. Mas ainda não é o fim da consciência de cristandade dentro da Igreja. Pelo contrário, toda a instituição continua funcionando como se nada tivesse mudado e como se a Igreja ainda tivesse o mesmo poder social de sempre. Há movimentos poderosos que acham que podem refazer uma neocristandade, como aconteceu depois da Revolução Francesa. Pura ilusão. Faltam os elementos sociais para recomeçar esta operação.
Porém, esta consciência de cristandade numa situação de esvaziamento dessa cristandade gera um sentimento bastante generalizado de mal-estar. Compare-se a psicologia dos católicos e mesmo do clero com a psicologia dos evangélicos! Entre os evangélicos prevalece um sentimento de euforia, de confiança, de vitória. Os evangélicos sentem-se vitoriosos e os católicos têm a consciência dos derrotados que procuram manter o passado sem muita convicção. Ora, o fim da cristandade significa que a evangelização e a pastoral já não podem ser feitas a partir de uma posição de poder.
Desde Constantino, a pastoral fez-se a partir da posição de poder dos bispos e do clero. Eles ensinam, administram os sacramentos, governam as comunidades. Cada pároco é papa na sua paróquia: ele é infalível, com plena jurisdição. Os leigos são objecto de obrigações: os leigos devem ir para a paróquia, devem obedecer e, sobretudo, sustentar financeiramente uma instituição na qual não têm poder nenhum. E o poder do clero apresenta-se como se fosse o poder de Deus. A paróquia é a imagem do poder. O pároco é enviado pelo bispo sem nenhuma consulta aos leigos. Ele manda, não porque é reconhecido pelo seu povo como a pessoa mais capacitada, mas simplesmente por imposição do bispo. De repente, chega e pode mandar em tudo. O único limite ao seu poder é a resistência do povo, a indiferença da maioria e uma atitude de defesa, tão frequente entre os católicos que faz com que somente uma pequena minoria participe da paróquia.
Quanto à evangelização do mundo, ela fez-se quase sempre por imposição. A evangelização acompanhou a conquista pelos poderes da cristandade do Ocidente, por guerras de religião ou conquista de colonização. A América Latina é o exemplo mais completo dessa evangelização pela conquista e conversão forçada. Houve excepções. Houve missionários que protestaram contra a conquista. Mas eles não tiveram nenhuma influência. Os seus escritos não foram publicados antes do século XIX, quando os impérios de Espanha e Portugal já tinham desaparecido. Os povos conquistados receberam o cristianismo pela pressão do poder político e militar associado à missão.
Hoje em dia, a Igreja não tem mais poder ou somente fica com algumas ilusões de poder. Já não pode evangelizar a partir do poder. Isto deixa a Igreja desconcertada, com um sentimento de impotência. Eu mesmo ouvi um núncio dizer que sem apoio do poder civil a Igreja não consegue evangelizar. Os que ficam apegados à tradição ficam desconcertados. Acostumados à ideia de que o padre é uma pessoa de poder, de repente ficam desorientados, quando percebem que ninguém mais aceita o seu poder, salvo algumas senhoras piedosas que cuidam da igreja paroquial. Monsenhor Expedito, de São Paulo do Potengi, contava as palavras do bispo de Natal que o fez pároco. Dizia o bispo: “Expedito, nunca se esqueça de que você é autoridade. Procure ter boas relações com o prefeito, com o delegado e com o juiz. Quanto ao resto, faça o que puder”.
O problema entre todos os problemas, e que está na base de todos eles, é a necessidade de evangelizar sem poder, a partir de uma relação de igualdade: um ser humano com outro ser humano, como modo de relacionamento entre pessoas iguais e não num relacionamento de superior e inferior. É o drama de muitos jovens sacerdotes que foram formados para o poder num ambiente de poder e descobrem, de repente, que não existe mais esse poder. Mas não foram preparados para um relacionamento de pessoa a pessoa, como irmãos iguais.
No linguajar do Vaticano II os leigos foram promovidos. Desde então foram publicados muitos documentos excelentes sobre os leigos na Igreja. Os documentos da CNBB são particularmente excelentes e mostram a qualidade dos assessores que assistem os bispos. Porém, na prática, nada mudou. Os leigos não têm mais poder, mais autonomia do que antes. Tudo ficou nas palavras, porque nada mudou na instituição. Durante o pontificado anterior, foi publicado um Catecismo católico. Qual foi a participação do povo de Deus na preparação desse catecismo? Nenhuma. Nem se sabia quem eram as pessoas que estavam elaborando esse catecismo. Foi publicado um novo Código de Direito Canónico. Qual foi a participação do povo cristão na redacção desse código? Nenhuma. Os leigos não valem nada; na prática, não têm o Espírito Santo. Eles são ignorantes e, como ignorantes, devem aceitar tudo sem reclamar. Antes disso, houve reformas litúrgicas. O povo cristão foi consultado? Não. O povo é ignorante, os leigos são ignorantes. Tudo isso, como se o Espírito de Deus estivesse somente na hierarquia. O que dizem os documentos fica nas palavras. Na prática, tudo continua como sempre: um relacionamento de poder e uma pastoral de poder. É isso que deve mudar, se quisermos evangelizar este mundo novo em que ora estamos mergulhados.
Pois estamos num mundo novo. A grande maioria dos baptizados já nem conhece o Pai-nosso e ignora tudo da Igreja. A vida é um corre-corre, de uma actividade para outra, para sobreviver. A desorganização social é tal, que as pessoas vivem como indivíduos solitários, isolados, sem confiança nos outros, sem relação humana firme: às vezes, nem sequer entre esposos. A cristandade tradicional, com seu modo de viver, sobrevive em algumas famílias tradicionais. Sempre haverá alguns representantes do passado. Porém, eles não exercem mais influência na sociedade e constituem refúgios eclesiásticos. Para os 5 milhões de habitantes dos condomínios de São Paulo, por exemplo, o que significa a Igreja? Para os 3 milhões de favelados, o que significa a Igreja? Qual é seu poder? O que vale são os missionários que conseguiram formar pequenas comunidades vivas, a partir de uma relação de irmãos, relação de igualdade, sem invocar nenhum poder eclesiástico.
Este é o desafio prático ainda não assumido colectivamente pela Igreja: reconhecer que não se pode mais evangelizar a partir de uma posição de poder, mas apenas numa relação de seres humanos com seres humanos iguais. Na teoria, ninguém contesta, mas na prática, tudo continua como se a Igreja ainda tivesse na sociedade o poder que teve até os anos 70 do século XX.
2. A grande revolução cultural
Existe uma abundante e excelente literatura sobre a revolução da economia e da política depois dos anos 70. Houve uma transferência de poderes com repercussões imensas na vida diária das pessoas como na vida social. Queria apenas aqui chamar a atenção para a revolução cultural, ou, melhor dito, para alguns de seus aspectos.
Um elemento importante dessa revolução foi, e ainda é, a crítica sistemática de todas as instituições, denunciadas como máquinas de poder e de repressão da liberdade e da personalidade individual. A primeira instituição criticada foi a família, e está claro que a família tradicional se desintegra. Mesmo nos Estados Unidos onde a ortodoxia capitalista sempre tinha postulado que as relações de competitividade e de busca da maior vantagem na vida pública não afectariam a vida privada das famílias, os mais conservadores, como Francis Fukuyama, devem reconhecer que a família está em plena crise. Quem provoca a crise são os jovens que se sentem oprimidos pela cultura antiquada de seus pais, cujos valores eles já não reconhecem.
A segunda crise tem por objecto todo o sistema de educação, desde a universidade até a escola de ensino básico. O sistema foi denunciado como opressor, tanto pela maneira de impor e exercer autoridade sobre os jovens, como pelo vazio de conteúdo que quer impor, e não prepara os jovens para a vida real. Esta crítica provocou, de facto, um enfraquecimento do sistema escolar e educativo no mundo inteiro. Em todos os países reconhece-se uma diminuição dos resultados do sistema escolar, cada vez mais improdutivo, de tal modo que a escola aparece como escola de analfabetismo. As estatísticas oficiais são enganosas, porque fornecem índices elevados de alfabetização, mas não referem o número de analfabetos funcionais que são incapazes de ler um texto e de entender seu conteúdo.
A crise do Estado é geral. Ela provoca um desprestígio crescente da democracia e a indiferença política dos jovens, de modo geral. A crise política é objecto de comentários permanentes, desde os anos 70. Na América Latina, a luta contra as ditaduras militares escondeu o que estava sucedendo nos países dominantes do Ocidente: o desprestígio crescente do Estado. Quando se voltou ao regime democrático, muitos tiveram ilusões, porque não sabiam o que estava acontecendo com a democracia.
Todas as outras instituições foram vítimas da mesma crítica e ficaram desprestigiadas: decadência dos partidos políticos, dos sindicatos, das associações de bairro e de quase todos os tipos de associação. Muitas entraram no caminho da corrupção, a ponto de a corrupção atingir também os próprios clubes de futebol e todo o sistema empresarial. Falta repressão à corrupção, que se tornou a nova instituição social.
A crítica a todas as instituições abriu a porta para uma nova institucionalização. Abriu a porta para as entidades económicas e para a prioridade da economia na sociedade. Hoje em dia, cada vez mais, o poder pertence às multinacionais que se concentram cada vez mais e adquirem cada vez mais poder. Em nome da liberdade do mercado, vão adquirindo cada vez mais poder, constituindo uma pequena rede de megaempresas que impõem as suas leis. Conseguem colocar ao seu serviço o Estado, o sistema de educação - começando pelas universidades -, o trabalho científico, e corromper, comprar ou subordinar, cada vez mais, toda a rede de instituições privadas. Dirigem todo o sistema de informação e de comunicação, todo o sistema de publicações e de transmissão de mensagens. Transformam a cultura em comércio, isto é, numa fonte de capital. Tudo isso foi muito bem analisado. Aproveitam o vazio de instituições fortes e transformam-se num só poder total, que consegue dominar a vida, sem que a maioria dos habitantes possa dar-se conta. Graças à manipulação dos media conseguem fazer com que os cidadãos se transformem em consumidores, aumentando assim o seu poder.
Acontece algo semelhante ao que aconteceu com a Revolução Francesa. Esta suprimiu todos os sistemas de constrangimento do comércio e de circulação de mercadorias e abriu o caminho para o capitalismo. A revolução cultural da actualidade abriu o caminho para uma nova forma de capitalismo, muito mais poderosa, porque invade todos os sectores da vida e pode contar com um imenso progresso tecnológico e científico. Como lutar contra os abusos deste novo poder? Será tarefa de um século.
3. A Igreja frente à revolução cultural
Globalmente, durante o pontificado de João Paulo II, podemos dizer que a Igreja tomou uma atitude negativa com relação à revolução cultural. Assim tinha acontecido também depois da Revolução Francesa. Claro está que há aspectos negativos na nova cultura: ela destrói valores que tiveram muita importância no passado, que eram parte do património da cristandade.
No entanto, há também valores positivos, e, sobretudo, valores definitivos contra os quais é em vão lutar. Sem dúvida, há, desde os anos 70, um despertar da liberdade pessoal, da vontade de conquistar mais liberdade, uma denúncia e rejeição de todas as formas de repressão. Ainda que apareçam novas formas de dependência, a consciência já não é a mesma.
Esta consciência de liberdade despertou, sobretudo, nas mulheres. O que mais mudou foi justamente a consciência das mulheres que querem ser reconhecidas como seres humanos completos e autênticos, com o mesmo valor dos homens. Pela primeira vez foi uma revolução dirigida por mulheres para a emancipação das mulheres. Mas há também um despertar de consciência de liberdade nos jovens.
Há uma vontade de viver plenamente a vida, ainda que esta vontade possa ser contaminada pelo consumismo. Há uma vontade de viver plenamente a vida com o desenvolvimento máximo de todas as capacidades. Para muitos, o cristianismo perdeu valor, porque ensina uma maneira penitencial de viver a vida. O cristianismo tem fama de ser uma força de repressão de todos os movimentos vitais, um freio à libertação humana.
É preciso reconhecer que, na cristandade, o clero ensinava aos cristãos que a vida cristã era uma vida de sacrifícios, que era necessário não somente aceitar as mortificações que Deus mandava, mas também acrescentar outras, facultativas, para aumentar os méritos. Havia o que Jean Delumeau chamou de pastoral do medo, que consistia em manter vivo um sentimento permanente de pecado, acompanhado pelo medo da condenação final e, por isso, da necessidade de obras de expiação. As mulheres andavam vestidas de preto e cobrindo o corpo inteiro. A revolução cultural libertou dessas coisas que não pertencem ao Evangelho, mas foram introduzidas na cristandade na Idade Média.
Depois da revolução cultural, milhões de homens e, sobretudo, de mulheres saíram da Igreja, não por motivos de doutrina ou de crenças, mas porque não aceitavam mais o estilo penitencial da espiritualidade que se ensinava. Deixaram de ter medo do inferno e dos castigos de Deus. O que rejeitam na Igreja não são os dogmas, menos ainda o Evangelho, mas a austeridade de vida, a preocupação constante pelo pecado e o medo que se infundia na consciência do pecador. Os jovens fogem disso como da peste. Não querem nem saber. Os movimentos integristas, como o Opus Dei e os Legionários de Cristo, devem praticar uma lavagem cerebral radical, para que os seus membros aceitem essa volta ao passado.
Cristo não veio criar um movimento penitencial, mas anunciar a alegria da chegada do reino de Deus. O centro do cristianismo é a proclamação da ressurreição, que é promessa de vida e de vida abundante.
Precisamos mudar o eixo fundamental da espiritualidade. Durante a cristandade ocidental o eixo foi a Sexta-feira Santa, a maior festa celebrada pelo povo. A espiritualidade estava concentrada ao redor da expiação pelos pecados. A própria eucaristia foi entendida durante toda essa época como oração de sufrágio pelas almas do purgatório. No centro da figura de Jesus estão a paixão e a cruz, então os grandes símbolos da cristandade. Isto penetrou profundamente na mente e no coração do povo católico, e ainda foi acentuado pelas Igrejas da Reforma.
Doravante, o eixo da espiritualidade deverá ser a ressurreição, a vitória da vida, apesar da morte e do pecado. Ainda não sabemos qual será o eixo da espiritualidade do novo Papa. Não sabemos se entrará na mentalidade da nova cultura ou se procurará restaurar a espiritualidade medieval.
Por outro lado, com relação ao nascimento de um novo poder, o poder económico das multinacionais, do sistema financeiro mundial e da formação de uma nova burguesia, o magistério mostrou-se bastante tímido e reservado. Ninguém se sentiu atingido por suas condenações muito vagas. Deu-se, e ainda se dá a impressão de que a Igreja não quer entrar em conflito com os novos poderes e prefere uma aliança com eles, embora de modo discreto, para não escandalizar os fiéis. Acha que poderá acomodar-se à economia, embora rejeite o conjunto da nova cultura.
4. A crítica da instituição eclesiástica
A crítica das instituições não podia deixar de lado as instituições eclesiásticas. A crítica das instituições que se manifesta claramente desde os anos 70 obriga-nos a fazer uma distinção que não tinha sido feita antes dessa data. Ela ainda está ausente no Concílio Vaticano II. Quando este fala da Igreja, fala ao mesmo tempo da instituição católica romana e da Igreja como mistério de Deus, como realização presente do reino de Deus. Não faz a distinção. Fala como se todo o aparelho institucionalizado e burocratizado da instituição eclesiástica pertencesse à essência da Igreja. Ora, tanto a história, como as ciências humanas, especialmente a sociologia, mostram que todo esse aparelho é uma construção histórica, que variou bastante no decorrer dos tempos e que foi definido a partir de empréstimos feitos junto de outras instituições que pertenciam às culturas nas quais a cristandade tinha entrado. A instituição mudou e ainda pode mudar, inclusive deve mudar, porque já não constitui uma ajuda para a evangelização, mas, muitas vezes, um obstáculo.
Começaram a manifestar-se movimentos críticos, sobretudo a partir dos anos 70. Antes dessa data, prevaleceu a ideia de que o Concílio Vaticano II tinha trazido as respostas às preocupações do povo de Deus. A partir dos anos 70, a revista Concilium mudou sua orientação: fez-se cada vez mais crítica, sendo porta-voz do pensamento de vários movimentos e de muitas pessoas na Igreja católica em contacto com a nova cultura. A essas críticas feitas à instituição, a hierarquia respondeu até agora com um silêncio completo. Ela ignora ou finge ignorar essas reivindicações.
Diante da crítica à instituição, João Paulo II respondeu voltando à grande disciplina. A resposta dele foi restaurar tradições, usos, costumes, devoções anteriores ao Vaticano II e que tinham perdido prestígio ou caído em desuso. O Papa quis restaurar o sacramento da penitência por confissão auricular ao sacerdote, embora essa disciplina tivesse sido introduzida já numa fase bem adiantada da Idade Média e tivesse sido ignorada na Igreja durante quase 12 séculos. Tudo isso, num ambiente de rigor na doutrina tradicional, na liturgia e em toda a organização institucional, declarando terminada a fase da experimentação.
Desta maneira, João Paulo II reiterou o que aconteceu no século XIX depois da Revolução Francesa. A Igreja restaurou o passado a partir da classe dos camponeses. Muitos missionários dedicaram-se a evangelizar o campo e os camponeses ainda eram a grande maioria da população. No meio rural foi possível reconstituir um fragmento de cristandade, ainda que sempre em conflito com a sociedade dominante. A atitude da instituição para com a modernidade foi sempre mais de rejeição, até atingir um ponto culminante no pontificado de Pio X.
Esta nova cristandade não podia deixar de ser frágil, ainda que não se soubesse naquele tempo. Não se podia prever a imensa migração do campo para a cidade. No entanto, era previsível que era perigoso concentrar a Igreja numa classe social que começava a diminuir, e alguns católicos avisaram, porque tinham visto o perigo que havia em rejeitar toda a modernidade. Havia nela valores positivos, que era perigoso atacar. Durante todo o século XIX a atitude dominante foi de rejeição. O preço foi a perda de toda a classe intelectual e das pessoas que tinham estudado, e a perda da classe operária. Quando, finalmente, com João XXIII a Igreja aceitou os princípios da declaração dos direitos humanos, já era tarde demais. A imensa maioria dos católicos já tinha saído.
Até aos anos 50 do século XX, a América Latina viveu na dependência cultural da Europa. Foi assimilando a luta contra a modernidade nos seus diversos aspectos, e uma pequena classe operária nasceu quase sem presença da Igreja. Também na América Latina a classe letrada afastou-se da Igreja. As mulheres permaneceram fiéis, porque elas não podiam estudar. Quando se lhes abriu a porta das universidades, elas reagiram como os homens. Acharam a Igreja uma instituição respeitável e poderosa entre a classe dirigente, mas sem valor para a sua vida pessoal e sem relevância para o seu pensamento. Embora menos profunda do que na Europa, a separação entre a Igreja e a classe letrada ainda tem repercussões fortes no mundo universitário e intelectual actual: predomina uma atitude de indiferença. Poucos e poucas acham que poderiam encontrar na Igreja algo importante para a sua vida. São cristãos fiéis à mensagem evangélica, mas sem contacto com a instituição.
Hoje em dia, a estratégia que consiste em condenar a nova cultura não tem mais o apoio de uma classe de camponeses, porque os camponeses foram para as cidades e os que ainda ficam estão em contacto permanente com a cultura urbana mediante a TV. João Paulo II proclamou que os agentes da nova evangelização seriam os chamados movimentos, isto é: Opus Dei, Legionários de Cristo, Focolarinos, Comunhão e Libertação e outros semelhantes. Estes constituiriam uma tropa de choque, mas sem massa para seguir. É uma base muito estreita para fundar uma nova cristandade.
Quais são as críticas que se fazem à instituição?
Em primeiro lugar, há a crítica da burocratização. Em todos os níveis, o clero ficou burocratizado. A agenda dos padres, dos bispos e da Cúria Romana está cheia de reuniões, seminários, congressos, programação, relatórios, documentos, assessoria, projectos. Naturalmente, tudo isso fica no papel. A burocracia enuncia tudo o que deveria ser feito, mas sem nunca dizer quem vai fazer. Por isso, tudo fica no papel. Isto não importa para a burocracia. Pois a burocracia procura atender e agradar ao chefe, muito mais do que aos “clientes”. O que importa com toda essa actividade feita de palavras é que se digam coisas que agradem ao chefe. É preciso esconder os problemas, fazer demonstração de optimismo, mostrar que os problemas estão sendo resolvidos. Qual é a finalidade de qualquer burocracia? Sobreviver, crescer, garantir o seu futuro e aumentar o seu poder. Uma burocracia tem a sua finalidade em si mesma. O que acontece lá fora, no mundo, no meio dos homens e das mulheres, não importa muito. Basta evitar que as críticas cheguem até os ouvidos do chefe. Cresce na Igreja a impressão de que tudo o que o clero faz, desde a Cúria Romana até à casa paroquial, é totalmente irrelevante e artificial, e permanece longe da realidade humana. A burocracia constituiu-se num corpo autónomo e independente. A burocracia eclesiástica tornou-se o seu próprio fim.
Um publicista francês do século XX, Charles Maurras, fundador do movimento direitista chamado L’Action Française, era agnóstico. Mas um dia declarou que felicitava a Igreja romana, que tinha sido capaz de purificar o cristianismo do perigoso fermento do Evangelho. Na prática, há casos em que, de facto, a burocracia eclesiástica serve para evitar que o fermento perigoso do Evangelho possa penetrar.
Em segundo lugar, apesar da concessão feita no novo Código de Direito Canónico, a Igreja mantém nas cidades a estrutura obsoleta da paróquia. O clero está a ser preparado para actuar dentro do quadro paroquial. Os próprios religiosos estão integrados em paróquias. Ora, estruturalmente, a paróquia é feita para conservar, ajudar, promover os que participam do culto, as pessoas que pertencem à pequena minoria dos que já estão no templo. A paróquia vive em função do templo, ainda que diga o contrário. Em lugar de preparar os cristãos para evangelizar a sociedade, ela se fecha sobre a minoria fiel às instituições do passado.
A paróquia não assume as fábricas nem os supermercados, nem as escolas, nem os colégios, nem as universidades, nem os hospitais, as instituições desportivas, culturais, de diversão, nem os meios de comunicação da cidade. Ela está organizada ao redor dos sacramentos e das festas litúrgicas. Nem sequer consegue organizar a catequese dos adultos, menos ainda a sua formação missionária. Ela concentra as energias dos fiéis no próprio templo, em si própria. A Igreja está claramente ao serviço de si própria. Não se pode negar as excelentes intenções de muitos párocos, toda a imaginação para fazer uma paróquia missionária. O problema é estrutural. Já foi denunciado por Santo Tomás de Aquino. Depois de oito séculos ainda não se deu a solução. A consequência é um povo passivo, incapaz de dar testemunho na sociedade, fechado em si mesmo, numa espiritualidade de pura interioridade.
No entanto, na América Latina, houve uma experiência básica que podia ter dado uma resposta. Foi a experiência das CEBs-Comunidades Eclesiais de Base. A experiência continua, mas não foi adoptada oficialmente pela Igreja. Não se lhe deu nenhum estatuto oficial, e as CEBs permanecem como algo estranho e frágil, porque qualquer pároco ou qualquer bispo pode desfazer um trabalho fecundo de dezenas de anos.
As CEBs que ainda subsistem permanecem subordinadas às paróquias, na dependência dos párocos. Acontece com elas o que aconteceu com a Acção Católica em muitos países: a subordinação à paróquia é uma esterilização de facto. Os movimentos de Acção Católica, ou não se submeteram à ordem paroquial e foram condenados, como no caso da JUC, ou se integraram e foram absorvidos, ou permaneceram como grupos pequenos semiclandestinos. As comunidades devem adoptar o programa paroquial e acabam a dedicar-se primeiramente ao culto e às festas religiosas, embora conservando o discurso das origens. O modelo inicial de comunidades inseridas no mundo popular e comprometidas com o mundo popular foi desfigurado. O novo clero não o adopta. No entanto, a autonomia das pequenas comunidades integradas numa pastoral da cidade e não da paróquia é o único caminho. Não adianta determinar que doravante a paróquia seja missionária. Estruturalmente, ela não pode ser missionária, porque não está organizada em função da cidade, mas em função de seu próprio crescimento.
Em terceiro lugar, a crítica que se faz à Igreja como instituição é que ela mantém um sistema de poder obsoleto e ineficaz. É o famoso problema do clero. O clero monopoliza todos os poderes e manda de modo absoluto, unicamente porque foi enviado pelo bispo sem que os leigos pudessem intervir em nada. A cada 5 anos, eles têm que se subordinar aos humores do novo pároco. A razão é administrativa. O bispo faz as nomeações em função dos problemas do clero e não em função da sua capacidade evangelizadora. O padre luta para conquistar uma autoridade que se vai perdendo.
O padre não foi preparado para estar no meio do mundo, dando testemunho do Evangelho. Foi preparado para administrar uma paróquia conforme as tradições religiosas. Alguns conseguem ir além da formação recebida, mas a maioria fica com o que aprendeu no seminário. Já escrevi muito sobre o problema do clero. Não vou repetir o que já disse muitas vezes. Também não creio que o novo Papa tenha a menor disposição para mudar alguma coisa no clero e na estrutura de poder na Igreja.
Há muitos leigos e leigas, que trabalham efectivamente como missionários e missionárias, geralmente sem mandato, sem reconhecimento oficial, sem poder, e gratuitamente. São heróis que conseguem tempo e energia e se dedicam à missão com muita generosidade e gratuidade. Haveria muito mais homens e mulheres, se se lhes fizesse um apelo, oferecendo-lhes reconhecimento, confiança, autonomia, porque muitos não querem ser simplesmente auxiliares do padre. Quantos milhares de pastores evangélicos surgiram no Brasil ultimamente que se dedicam à pregação, à missão, com entusiasmo, sacrifício e dedicação! São mais de 100.000. Muitos teriam podido ser missionários na Igreja católica, se se lhes tivesse oferecido essa missão, confiando neles.
No futuro, os ministros serão reconhecidos e identificados pelas comunidades, graças às suas qualidades de profeta e aos seus dons espirituais. Em cada cidade haverá um núcleo de pessoas permanentes, conhecedoras dos diversos aspectos da vida da cidade, que poderão aconselhar e organizar actividades públicas comuns, reunindo a grande comunidade.
Uma quarta crítica tem por objecto a estratégia, que consiste em educar os cristãos quando são crianças. A catequese é dirigida às crianças. Desde o século XIX a pastoral da Igreja concentrou-se nas crianças. Por isso se deu prioridade absoluta às escolas católicas e à catequese infantil. Desta maneira, os adultos cristãos parecem infantilizados. Do cristianismo eles sabem o que lhes foi ensinado quando eram crianças. Nunca aprenderam o que significa ser cristão como trabalhador, cidadão, pai ou mãe de família dentro das circunstâncias e dos obstáculos reais da vida.
O resultado é que os meninos educados na catequese católica tornam-se evangélicos quando ficam adultos, porque a mensagem dos evangélicos é para os adultos e não para as crianças. A pastoral concentrada nas crianças não tem eficiência na nova sociedade. Já fracassou no século XX.
5. O Evangelho e a instituição
A tarefa principal da teologia vai consistir em identificar o que é do Evangelho, o que foi proposto por Jesus e em que se tornou na instituição actual, em função de desenvolvimentos históricos. Jesus nunca pensou na Igreja na sua forma actual. Isto não quer dizer que o que existe agora seja bom ou mau. Mas muitos elementos se devem à influência de movimentos culturais e de religiões não-cristãs, porque as religiões não-cristãs tiveram uma influência profunda durante toda a cristandade. No mesmo sentido escreveu Hans Küng, quando propôs que se destacasse o núcleo básico do cristianismo. Esse núcleo somente pode ser o que nos vem do próprio Jesus.
Durante 1000 anos, sobretudo desde o século XIV, a teologia foi apologética e dedicou-se a demonstrar a identidade entre todo o aparelho institucional da Igreja, os dogmas, a moral, a liturgia, a organização eclesiástica com o Evangelho. Mostrou a continuidade. Procurou demonstrar primeiro que tudo estava no Evangelho e, quando os estudos históricos tornaram essa posição insustentável, defendeu o tema da homogeneidade, ou seja, do desenvolvimento homogéneo. A teologia oficial procurou mostrar que todo o sistema institucional tinha por finalidade e por efeito um melhor entendimento do Evangelho. Teria sido um esclarecimento do Evangelho que ainda era confuso.
Ora, todas essas explicações são puramente gratuitas. Serviram para manter a continuidade na cristandade. Mas hoje em dia devemos constatar que o Evangelho é mais claro do que todo o sistema que se construiu sobre ele com a pretensão de explicitá-lo melhor. Esta teologia apologética esteve ao serviço da hierarquia, para defender o status quo da cristandade, mas impediu que a Igreja desse uma resposta adequada aos desafios da modernidade. Essa apologética, que prevaleceu até o Concílio Vaticano II, ainda não desapareceu, sobretudo nas inumeráveis faculdades de teologia situadas em Roma. Para a evangelização do mundo e mesmo do povo cristão, essa teologia foi estéril. Mais ainda: está condenada a ser estéril. Não vai converter nenhum pagão, nem sequer os católicos. Foi a base dos catecismos, mas os catecismos não formaram cristãos adultos e maduros.
Essa apologética forneceu o material que permitiu que o magistério desse resposta negativa aos gritos que surgiram do meio da cristandade durante 1000 anos, pedindo reforma. Em cada geração houve católicos que não puderam aceitar a instituição, porque viam nela uma contradição com o Evangelho. Esse debate deu origem às chamadas “heresias”, que, no fundo, eram todas formas de contestação da instituição. Houve muitos cismas e muita repressão, mas nunca houve aceitação unânime das posições defendidas pela teologia oficial.
Uma vez que a nossa tarefa será anunciar o Evangelho a todos os seres humanos sem posição de força, sem poder contar com uma imposição, essa teologia está completamente fora de foco. Não conseguiremos com ela conquistar novos membros para a instituição. Evangelizar é provocar a iluminação dos corações e das mentes, não pela força de uma instituição, mas pela revelação divina que se manifestou em Jesus.
O princípio da nova teologia é que a Igreja está subordinada ao Evangelho e não o Evangelho subordinado à Igreja. Durante a cristandade o poder eclesiástico sustentou que o sistema institucional era a interpretação fiel e a expressão actual do Evangelho. Na prática, a teologia serviu para demonstrar que a Bíblia apoiava o sistema eclesiástico católico, para subordinar o Evangelho à instituição. Agora, a tarefa é diferente. Trata-se de descobrir o que é realmente revelação divina, separando-a de todos os elementos que foram acrescentados.
Tudo o que foi acrescentado teve um papel histórico, positivo ou negativo. Muitos elementos entraram por influência de outras religiões, ou por razões políticas ou culturais do tempo. Podem ter tido em efeito positivo ou negativo e provavelmente algo de positivo e algo de negativo. O problema é que as circunstâncias mudaram e muitos acréscimos que foram úteis no passado aparecem como incompreensíveis e inassimiláveis na actualidade
Quando falamos do Evangelho, queremos pensar naquilo que vem realmente de Jesus. Há nos próprios evangelhos acréscimos que procedem das comunidades, e há dentro da cultura judaica em que Jesus se expressa vários elementos de mitologia. Não podemos conservar essas mitologias dentro do núcleo central.
Claro está que o povo cristão precisa de instituições: precisa de crenças definidas, de ritos e celebrações, de comunidades e de organização das comunidades. Precisa de ministérios organizados. Podemos inclusive pensar que precisa de mitologia. O desafio é que essas instituições ajudem efectivamente a introduzir o Evangelho na vida. Não podem ser consideradas como definitivas, irreformáveis, mas devem deixar lugar para outras expressões institucionais quando os tempos mudaram.
Da mesma maneira os cristãos precisam de sinais de identificação. Precisam realizar gestos significativos, pronunciar palavras significativas, o que lhes permite renovar a consciência de pertencerem a um povo, o povo de Deus. Todos os povos têm sinais de identidade e o povo de Deus também. Ora, esses sinais devem ser compreensíveis e ter um conteúdo, não ser puramente gestos mecânicos.
Na realidade, as grandes linhas de uma reforma da instituição já foram explicitadas muitas vezes nos últimos 30 anos. O problema é a vontade de mudança. Toda burocracia tem repugnância a qualquer tipo de mudança, porque poderia provocar mudanças na própria burocracia e questionar a carreira dos funcionários. Todos desejam que não mude nada. Ora, a burocracia vaticana adquiriu uma força inaudita durante o pontificado de João Paulo II que não manifestou nenhum desejo de mudar qualquer coisa, a não ser acrescentar novos serviços burocráticos.
Há no povo cristão, em todos os níveis, uma aspiração a uma descentralização do poder romano. Porém, é justamente essa reforma que a Cúria vai impedir por todos os meios à sua disposição. Porque seria para ela uma perda de poder e uma supressão de empregos. No entanto, o desafio está aí e não vai desaparecer. O sistema burocrático actual impede a evangelização dos povos e desestimula as Igrejas locais. Provocou a saída de milhões de católicos, sobretudo na Europa e na América Latina. Somente o Evangelho de Jesus Cristo pode converter.
6. A Igreja e o mundo
O Concílio Vaticano II proclamou que a Igreja está ao serviço do mundo e não é um fim em si mesma. Sua finalidade é a salvação de todos os povos, da humanidade inteira. Ele reconhece a autonomia do mundo e reconhece que já não é a Igreja que dirige o mundo, como nos tempos da cristandade. Na Gaudium et Spes renuncia-se ao projecto de cristandade. No entanto, as palavras dizem uma coisa e a realidade é diferente. Na prática, grande parte da Igreja age como se ainda houvesse ou como se se pudesse refazer uma nova cristandade semelhante àquela que havia na primeira parte do séc. XX.
Quando se fez a separação da Igreja e do Estado no Brasil, os bispos não seguiram as recomendações do padre Júlio Maria, mas elaboraram um programa de reconquista do poder perdido, aproveitando as estruturas da sociedade republicana, de tal modo que a Igreja pudesse, na prática, refazer uma cristandade. Adoptaram como prioridade a estratégia de sempre: evangelizar por meio das crianças e das instituições de educação. De facto, em pouco mais de 50 anos e sob a batuta do Cardeal Leme, grande admirador da nova cristandade da Europa, a Igreja reconstituiu no Brasil um grande poder. Diziam que 80% das elites brasileiras tinham sido educadas em colégios católicos. De novo, a Igreja tinha uma fachada impressionante. Houve, de novo, um entrosamento entre a Igreja e o Estado. A classe dirigente sentia que precisava da Igreja para manter o povo na submissão, e não poupava nos favores e até nos privilégios, dos quais foram beneficiárias as instituições católicas.
Quase todos os países latino-americanos tiveram uma evolução semelhante. O modelo era o Estado de Bem-estar da Europa Ocidental, um capitalismo limitado por uma legislação social protectora dos trabalhadores e a conservação dos valores éticos tradicionais, sobretudo na família. É verdade que havia uma diferença no campo. Essa nova cristandade não questionou a estrutura do campo e os camponeses permaneceram ignorados e sem influência na vida das nações. O plano da CEPAL combinava com esse modelo porque impedia que o grande capital mundial tomasse conta da economia nacional, embora já tivesse realizado algumas entradas. Tudo parecia estar em paz. Os acordos entre os bispos e Juscelino Kubitschek eram o símbolo das harmoniosas relações dentro de uma neocristandade de facto, em que oficialmente a Igreja não tinha poder político, mas tinha-o na realidade, graças a relações cordiais entre o poder religioso e o poder civil, nacional, estadual ou municipal.
Vieram os regimes militares. Salvo no Chile, onde Pinochet introduziu o novo modelo de globalização neoliberal desde os anos 70, os outros governos militares não mudaram basicamente a estrutura da sociedade. No Brasil, a Igreja assumiu a defesa das liberdades civis e dos direitos dos cidadãos, com um certo êxito. Pois, se comparamos os países, a repressão foi muito menor do que na Argentina ou no Chile ou nos países da América Central. Mas não houve muito conflito com relação à estrutura social e económica. Na prática, os governos militares, salvo no Chile, permaneciam de alguma maneira fiéis à concepção social da doutrina social da Igreja, prolongando a fase anterior. Praticavam um nacionalismo que os protegia contra a contaminação pelo modelo neoliberal. Os governos militares concordavam com a doutrina social da Igreja globalmente tomada. Por isso, os episcopados que colaboraram com os governos militares invocavam esse argumento.
Depois dos regimes militares, muitos, entre eles o clero e o episcopado, pensaram que se ia voltar ao sistema anterior, tão harmonioso, de relações pacíficas em que a doutrina social poderia fornecer a ideologia de regimes de Bem-estar social. Como novidade, o Estado de Bem-estar poderia inclusive integrar outros sectores da população, por exemplo, os camponeses. Achavam que tinha chegado o tempo da reforma agrária. Um olhar sobre o Chile podia ter despertado mais desconfiança. Pois, no Chile, a democratização manteve o modelo neoliberal sem questionamento real, e a Igreja ficou calada: o partido democrata cristão era o governo e ficou responsável pela continuidade do modelo neoliberal.
Entrou o novo modelo de sociedade que se chama globalização, ou neoliberalismo - não importam os nomes. Tudo isso aconteceu na década de 90, a “década vergonhosa” depois da “década perdida” de 80. Os países latino-americanos abriram-se para o modelo neoliberal e integraram-se no império do neocapitalismo das grandes multinacionais. Tudo isso é bem conhecido.
O que tinha acontecido no Primeiro Mundo desde os anos 70 e, sobretudo, nos anos 80, entrou na América Latina nos anos 90 (no Chile nos anos 70), sem efeitos sensíveis sobre a relação Igreja-mundo. Sob as aparências democráticas, o poder foi transferido dos Estados para os grandes complexos financeiros e as multinacionais. Os governos ainda se proclamam fiéis à doutrina social da Igreja, mas o novo poder económico mundial ignora completamente essa doutrina. Seus critérios são diferentes. Entre o projecto da Igreja e o projecto do grande capital não há mais contacto. O modelo económico invoca a autoridade da ciência. E contra a ciência não se pode fazer nada. Isto significa que a doutrina social da Igreja perdeu toda sua força. Ela se tornou irrelevante, porque ineficaz, sem efeito real na sociedade. É como se não existisse.
Por isso, estamos numa situação nova: uma Igreja do silêncio no meio de uma sociedade guiada pelo valor supremo do dinheiro em que as normas são a competitividade e o aumento do poder. Ninguém lê a doutrina social da Igreja, porque todos sabem, consciente ou inconscientemente, que ela perdeu toda a vigência. A Gaudium et Spes tornou-se irrelevante, sem conteúdo real, porque não tem aplicação.
Então a Igreja deve expressar seu testemunho de outra maneira. Hoje em dia, publicar documentos ou fazer discursos é irrelevante. Ninguém lê esses documentos, proclamações, apelos e assim por diante. Para o FMI, isso é irrelevante. O mundo actual precisa receber mensagens mais concretas, mais fortes, que consigam mobilizar os media e despertar a atenção e a emoção das massas. O que faz um testemunho hoje em dia não são as palavras, mas os gestos. O gesto de Daniel bíblico que se nega a adorar a estátua de ouro. Onde está a estátua de ouro? Está em Davos, no Clube de Paris, no FMI, na OMC. Está nas multinacionais. Os efeitos são inumeráveis: mercantilização do trabalho, redução do trabalhador a escravo da empresa, exclusão social da metade da população, favelização das grandes cidades e assim por diante. Não são pequenos escândalos isolados, mas factos imensos. No entanto, esses factos dizem respeito aos seres humanos.
O que se espera são acções proféticas de grande visibilidade que manifestem a palavra de Deus na humanidade, de modo que ela possa, de facto, atingir multidões. Um exemplo pode iluminar essa necessidade. Quando o bispo de Barra, Dom Luís Flávio Cáppio, faz a greve de fome para chamar a atenção sobre as mentiras e as injustiças do projecto de transferência das águas do Rio São Francisco, todos os media comunicaram a notícia e essa simples acção conseguiu provocar um debate na opinião pública nacional, suspender, e possivelmente para sempre, o projecto. Se a CNBB tivesse publicado um documento ninguém teria tomado conhecimento.
Nos tempos dos regimes militares houve muitos actos proféticos semelhantes, por exemplo, por parte de bispos de grande personalidade, no Brasil, no Chile e em muitos países. A morte de Dom Óscar Romero foi um sinal extraordinário. Naquele tempo os sinais destinavam-se aos povos dominados por ditadores militares. Hoje em dia, o problema não são mais os militares. Pelo contrário, há militares que podem voltar à tradição nacionalista muito forte na história latino-americana. O inimigo é o sistema económico ditatorial mundial centrado nos países do Primeiro Mundo.
Desde a entrada do novo sistema de comunicação na Igreja, toda a atenção dos media foi orientada para a pessoa do Papa João Paulo II, que monopolizou o poder das imagens, porque era o único católico conhecido por eles. O Papa tinha o dom da comunicação e, consciente ou inconscientemente, queria ser a única estrela. O Papa conseguiu dar à Igreja uma visibilidade muito expressiva. Porém, globalmente, a sua mensagem estava orientada e de modo bastante unilateral. Não era possível que uma só pessoa concentrasse em si mesma toda a missão de testemunho da Igreja.
A neocristandade criada depois da Revolução Francesa suscitou a criação de muitas obras católicas. Estas conseguiram manter no seio da Igreja os antigos camponeses de cultura rural tradicional. Não conseguiram integrar os operários, nem os intelectuais. Hoje em dia, também aparecem muitas obras “católicas”. Elas têm as suas vantagens e os seus efeitos positivos. As obras católicas já não são sinais fortes no mundo de hoje. Antes, parecem ilhas, refúgios, entidades que permanecem desconhecidas do resto do mundo. Servem para os cristãos tradicionais, mas não constituem um anúncio do Evangelho para a grande massa. Não existe mais nem sequer uma massa de camponeses de cultura tradicional. Não faltam casos em que a mensagem difundida por essas obras é que “a Igreja é rica”.
Além disso, elas fazem com que não haja presença católica nas instituições e na sociedade civil. Elas consomem as energias dos católicos mais preparados. Quem vai dar testemunho no meio do mundo? Em lugar de serem enviados como missionários, os católicos vivem juntos numa sociedade paralela sem contacto com a grande sociedade. Se a Igreja continuar reservando para si mesma as melhores forças dos religiosos e dos leigos, quem estará presente e quem dará testemunho nas empresas, nos conjuntos habitacionais, nas favelas, nas universidades, nos colégios e assim por diante?
Hoje em dia existem milhares de associações e organizações de luta contra a sociedade neoliberal. Há espaço para os católicos. Pois em todos esses movimentos há necessidade de uma ideologia, de projectos concretos e de dirigentes honestos. Há espaço para que os católicos se manifestem como os servidores mais desinteressados, mais dedicados, mais honestos. Podem ser o sal da terra, a luz que na montanha atrai os olhares.
As exortações oficiais dizem que os leigos devem dar testemunho no mundo, mas como podem fazê-lo, se são mobilizados ao serviço das instituições católicas? A Igreja prende muitas pessoas que poderiam estar no mundo. Há uma contradição entre o discurso oficial sobre os leigos e a prática institucional que não se interessa pelo mundo. A hierarquia deveria tomar uma atitude mais clara e dar orientações não contraditórias.
O desafio dos cristãos no mundo é hoje muito mais difícil do que antes. Pois o sistema é muito forte, muito autoritário. Dentro das empresas a vigilância é total. Ninguém pode contestar, ninguém pode protestar, ninguém pode criticar. Quem não se submete como escravo é suspeito e pode ser eliminado. Por isso, dar testemunho cristão supõe heroísmo. Ao mesmo tempo é preciso ser prudente como as serpentes. Não existe liberdade de expressão. Ao mesmo tempo há uma campanha de lavagem cerebral para manipular as mentes e conseguir que todos se convençam que é preciso obedecer, que não há alternativa e que são muito felizes por estar na empresa. Todas as ciências humanas concorrem para submeter as mentes. Os media, as instituições, o ambiente global da sociedade: tudo serve para desencorajar qualquer tentativa de mudança. Por isso, somente personalidades fortes, com convicção muito forte, poderão dar testemunho. A maioria ficará calada. A economia neoliberal tem a mesma força dos imperadores romanos. A pressão psicológica é forte. Na prática e de facto, a maioria cede e perde sua própria convicção. Daí a necessidade de uma preparação e de um apoio muito forte. Sem formação muito profunda ninguém poderá abrir a boca na sociedade e todos repetirão as mentiras divulgadas pelos media.
A paróquia não dá essa formação. Se quisermos evangelizar o mundo, precisamos tomar como prioridade a formação de leigos em todos os ambientes. Os melhores sacerdotes, os melhores religiosos e as melhores religiosas devem ser reservados para essa formação. Basta de formação para crianças. É melhor deixar paróquias sem pároco, pois leigos podem assumir quase todas as tarefas. Também uma primeira geração de leigos formados pode ser formadora. Mas isto exige 10 anos. Se não se tem a coragem de formar leigos que vão ter que lutar contra uma estrutura mais dura do que o Império Romano, porque submete as mentes, não haverá presença da Igreja no mundo, apesar de todos os textos e de todos os discursos bonitos.
Para tomar somente um exemplo, a corrupção existe em todos os níveis em todas as empresas. Este é um facto mundial e não tipicamente brasileiro. Os media falam dos casos de corrupção na vida política, porque podem fazê-lo sem temer a repressão. Mas ninguém se atreve a denunciar os casos de corrupção nas empresas, na indústria, no comércio, no transporte, nas prisões, nas escolas, nos hospitais, nas administrações públicas, e até no futebol que agora é uma grande empresa. A regra é que todo mundo pratica corrupção. Como mudar isso? As leis não se aplicam porque todo mundo dá cobertura. Ninguém sabe de nada, ninguém viu nada nem ouviu falar de nada. Quem vai poder ser honesto e negar-se a entrar na corrupção? Precisa ser de uma energia sem par.
A vida actual é uma preocupação permanente para não perder o emprego, para quem já tem, ou para buscar um emprego para quem não tem, ou para achar biscates para sobreviver para quem já desistiu de buscar emprego. Entre todos existe uma competição. Para ter emprego é preciso agradar, bajular, e, sobretudo, ter boas relações. Nesse ambiente como manter o equilíbrio? Como viver serenamente com tais ameaças? Somente heróis.
A pressão social é tão forte que sem uma profunda mística não há maneira de se salvar. O clero não participa de tudo o que acontece na sociedade; está morando num lugar privilegiado e, por isso, não sabe o que acontece. A hierarquia não está consciente dos desafios da sociedade actual. Não adianta pensar que com o desenvolvimento essas coisas vão melhorar por si mesmas, pois no mundo desenvolvido esses problemas são mais fortes ainda. Por isso, sem mística não se pode agir como cristão no mundo. Rahner já dizia que no século XXI a Igreja será mística ou não será. A formação paroquial não basta. Por sinal, quem vai ao culto, são justamente as pessoas que não vivem nessa pressão permanente.
Não há uma forma única de mística. Há uma grande variedade de místicas que vão surgindo. Sem uma vida em permanente presença de Deus, ninguém aguenta. Hoje em dia a mística não pode ser vivida num refúgio longe do mundo, se não quiser ser um privilégio e salvo algumas vocações muito excepcionais. Deve ser vivida na sociedade, como nos primeiros tempos, isto é, numa sociedade contrária ao Evangelho, alheia aos valores morais, numa sociedade sem amor e em que todos são rivais e todos podem ser machucados, despedidos, abandonados.
A economia neoliberal, a forma como se faz a globalização, não é inevitável. A superação deste sistema é a grande meta do século XXI. Não se fará em poucos anos. Há um despertar, mas ainda falta a participação dos cristãos nesse despertar. Os homens e as mulheres que ali estão já praticam vida evangélica. São da Igreja, mas precisam reconhecer-se, conhecer-se e mutuamente solidarizar-se em vista de mútuo apoio. Este será o papel das pequenas comunidades. Sem pequenas comunidades os heróis irão cansar-se e desanimar. Com uma Igreja viva, os heróis podem multiplicar-se e mudar este mundo.
Há uma terrível contradição entre a aspiração à liberdade que nasce na revolução cultural dos anos 70 e o sistema de economia mundial que exerce uma ditadura nos corpos e nas mentes. Quem estiver na frente da luta para superar essa contradição dará um sinal. A mensagem de Jesus não será difundida a partir do poder, mas a partir de pessoas heróicas que se põem à frente do combate somente com a força de Deus.
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Papa decretou e missa
em latim já está de novo aí
1. Ponto de vista de MARCELO BARROS, monge beneditino
Muitas pessoas, cristãs e não cristãs, andam espantadas com as recentes intervenções do Vaticano, como o Motu próprio do papa a favor do antigo rito romano em latim. Muitos se perguntam sobre o que isso significa para o mundo do século XXI e, principalmente, para a própria Igreja. Pressentem que, nesta medida, está em jogo mais do que apenas um problema de rito e de idioma. O destinatário da decisão não é Deus a quem é dirigido o culto, já que este compreende muito bem as línguas actuais, talvez melhor do que o latim. Afinal, a Bíblia diz que ele é o Deus que escuta o clamor dos oprimidos.
No mundo antigo, a Igreja deixou de usar o grego em seus cultos e passou a falar latim que era a língua das massas mais pobres. Aí, certamente, Deus também falava latim. Agora, a volta ao latim serve apenas a grupos conservadores que fazem questão de separar bem o sagrado e o profano, a Igreja e o povo. É de se perguntar se Deus conseguirá compreender este latim.
Muitos bispos, padres e fiéis católicos sofrem porque percebem que, por trás desta decisão do papa, o que está em jogo é, como se dizia no Brasil das comunidades eclesiais de base, “um modo de ser Igreja e um modo da Igreja ser”. O problema não é recuperar o rito romano usado antes do Concilio Vaticano II, nem apenas a volta ao latim. É sepultar de vez um modelo de Igreja, ensaiada no Concílio e que se dispunha a viver em diálogo com a humanidade e mais como povo de Deus do que como um governo central de assuntos religiosos.
Todo mundo sabe que, na realidade, desde o inicio do pontificado de João Paulo II, as propostas mais profundas do Concilio Vaticano II e o seu modo de compreender a Igreja já não eram aceites. Em diversas ocasiões, o actual papa, quando ainda prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, revelou-se contrário ao pensamento de que as Igrejas locais são plenamente Igrejas, do mesmo modo como nega a plena eclesialidade das Igrejas evangélicas e afirma que só a Igreja Católica é a verdadeira. Especificamente, desde 2003, quando o conclave que o elegeu começou a ser preparado, ele sempre deixou claro o que pensa e que proposta de Igreja, no caso de eleito, iria executar fielmente. Todos os que nele votaram sabiam disso e optaram por esta direcção. Mesmo os que não votaram, mas fortalecem este sistema sabem perfeitamente o que estão fazendo e não têm por que estranhar agora. O facto do rito ser celebrado em latim ou português, ou com gestos mais arcaicos ou modernos, não muda muito se, mesmo no rito actual em vigor depois do Concilio, os índios da Amazónia, as comunidades negras da Nigéria e os aborígenes da Austrália são obrigados a ler as mesmas leituras, dizer as mesmas orações e realizar os mesmos gestos pensados e decididos em Roma.
Para o Concílio Vaticano II, o importante era a participação activa e consciente da comunidade local em uma celebração que fosse fonte e expressão da vida de cada Igreja, reunida aqui e agora, em comunhão com a Igreja Universal. À medida que o carácter específico de cada Igreja local é negado e a maioria dos bispos parece conivente com isso, pouco importam a língua e o rito em que se celebra a liturgia ou por quais caminhos decidirão realizar o sonho de reconstituir a cristandade medieval romana em pleno século XXI.
A humanidade leiga que pouco se importa se uma determinada Igreja usa esta ou aquela língua ou cumpre estes ou aqueles gestos cultuais escandaliza-se com as noticias oriundas do Vaticano, porque percebe nestas querelas eclesiásticas que, novamente, as religiões falharão em sua missão de se unirem ao serviço da paz do mundo e da defesa do planeta Terra. Provavelmente, o rito latino não se referirá mais aos judeus como pérfidos ou aos não católicos como ímpios. Entretanto, por trás das palavras e da linguagem, continuará o mesmo triunfalismo pouco amoroso.
Quando o papa João XXIII mandou retirar do rito estas expressões, o que estava por trás de sua decisão era a decisão de abrir-se ao diálogo e ao acolhimento de todo ser humano. No dia 11 de outubro de 1962, ele abriu o Concilio Vaticano II, convidando toda a Igreja a se alegrar porque chegava uma primavera nova para a Igreja e para a humanidade. Naquela noite de lua cheia, o papa olhou de sua janela no Vaticano e viu, na praça, uma multidão com velas nas mãos. No céu, a lua parecia se extasiar com aquele espectáculo. O papa bom aparece na janela e diz à multidão ali reunida que a lua tinha vindo festejar com eles a nova abertura da Igreja. Propõe que cada pessoa ali presente, ao voltar para casa, dê um beijo em quem lhe é mais próximo. Faça isso em nome do papa como sinal do seu carinho.
Esta língua, Deus entende e não precisa de Motu próprio para ser explicada. À medida que esta linguagem do diálogo se tornou estranha para muitos hierarcas, é normal que o papa prefira a missa em latim e uma forma de orar auto-centrada e pouco amorosa.
Para não perder a fé no ser humano e no futuro da vida, a humanidade precisa saber que, apesar de tudo, a Igreja Católica tem muitos missionários e missionárias que, em todos os países, estão doando suas vidas ao serviço dos mais empobrecidos, como acontece nas Comunidades Eclesiais de Base CEBs - e nas Pastorais Sociais. O povo de Deus, constituído de comunidades, cada vez mais maduras e dignamente autónomas, não se deixa abalar por essas coisas e testemunha que Deus não está preocupado se a missa é em latim ou neste ou naquele rito e sim se a vida da humanidade e do planeta está sendo protegida e se estamos engravidando um mundo novo possível.
2. Ponto de vista de P, Mário, director do Fraternizar
A missa em latim está desde 14 de Setembro último outra vez em vigor em toda a Igreja católica do Ocidente. O papa Bento XVI assim o quer e assim o decretou. E quando o papa quer e decreta uma coisa, é lei para todos os católicos, elas e eles. E lei na Igreja católica romana é para se cumprir...
Mas será que é? Não é sobretudo para se ultrapassar? Sou Igreja e por isso posso, devo dissentir do papa de turno. A minha obediência, em Igreja, não é ao papa. Em última instância, é exclusivamente à minha consciência.
Se eu não tiver a audácia de ser homem assim, deixarei de ser Igreja, comunidade de comunidades de mulheres/homens livres e sororais/fraternos.
Nem o papa, nem os bispos gostam de nos lembrar, muito menos, sublinhar estas coisas essenciais do nosso ser Igreja. Preferem lidar com súbditos, vassalos, subalternos, iletrados em eclesiologia. Eles sabem que mulheres/homens livres, indomáveis, nunca serão pau para toda a colher. Mas é de mulheres/homens assim que Deus gosta e trabalha dia e noite para que sejamos e cresçamos nessa dimensão.
Saibam que, em Igreja, não há só o papa e os bispos. Há sobretudo Jesus e o Espírito Santo, o de Jesus. E há Deus vivo, nossa Mãe/nosso Pai, que nem gosta de papas, nem de bispos, nem de clérigos. Apenas de filhas suas, filhos seus, mulheres e homens constituídos na liberdade/maioridade e por isso protagonistas da História, como se Ele não existisse. E, finalmente, há a consciência de cada membro da Igreja, mulher ou homem, que Deus Vivo é o primeiro a respeitar e a potenciar desde dentro, para que o seja cada vez mais.
Sou Igreja e é assim que vejo as coisas. Não fossem as coisas assim e ser Igreja seria uma indignidade para os seres humanos que a constituem. Pelos vistos, hoje chega a parecer que o papa e os bispos e os párocos o que mais cultivam em Igreja é a indignidade. Vejam como fazem tudo para que nos comportemos como súbditos seus, contribuintes calados, executores dos seus caprichos, alguns deles, os mais absurdos e pueris. Parece que o que eles mais temem é que sejamos livres e responsáveis. Saudavelmente dissidentes.
Pois bem, sou Igreja e não gosto de missas. De nenhuma espécie de missas. Menos ainda das missas em latim, uma língua que hoje nenhum povo do mundo fala. E se hoje nenhum povo do mundo fala latim, para quem então falam os párocos, os bispos e o papa, quando rezarem a missa em latim? Para Deus? Mas quem lhes disse que Deus fala as línguas que nós, os humanos, falamos? E será que ainda pensamos que, quando o papa, os bispos e os párocos falam em latim ou em vernáculo na missa e na liturgia em geral, é para Deus que eles falam? Então ainda pensamos que Deus Vivo carece de palavras, de frases, de fórmulas rituais e de discursos, para cúmulo, proferidos por pretensos intermediários nossos, para saber de nós, nomeadamente, o que necessitamos, o que sentimos e o que desejamos? Esquecemos que Deus Vivo é mais íntimo a nós do que nos próprios? E que somos, porque Ele é e nos faz ser?
Por isso pergunto com oportunidade: para onde nos quer levar o papa Bento XVI, com esta sua decisão? E os bispos que infantilmente acatam os seus decretos, os executam e fazem executar nas respectivas dioceses? Acham que somos Igreja para obedecer infantilmente aos caprichos do papa? E dos bispos? E dos párocos? Não é para lhes resistirmos e para dissentirmos deles? Resistir e dissentir não são posturas próprias de mulheres, homens adultos, livres, responsáveis? Ou será que ignoramos que somos Igreja para sempre nos deixarmos conduzir pelo Espírito de Deus Vivo, tal como fez Jesus, o ser humano por antonomásia? E os seres humanos assim não são Eucaristias vivas, vidas históricas concretas que salvam/humanizam/sororizam o mundo e, por isso, dão glória a Deus?
Deixemos o latim e as missas em latim na paz dos cemitérios, para onde a História já remeteu um e outras. E, em lugar de continuarmos infantilmente a ir à missa dos párocos, dos bispos e do papa, ousemos duma vez por todas crescer em sabedoria e em graça e ser mulheres, homens eucarísticos, melhor, Eucaristias vivas no mundo e na História. Porque tudo o que não tender para aqui é pecado!
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Já reza o Salmos versão séc. XXI?
Já conhece e já reza os Salmos Versão Século XXI, do Pe. Mário, editados pela Campo das Letras? Sabe que esta versão que o Pe. Mário conseguiu dar aos primeiros 50 Salmos da Bíblia pode ser rezada até por ateus e agnósticos? E que os padres católicos tradicionais e freiras chegam a tê-la na conta de uma versão blasfema e, por isso, aconselham vivamente os fiéis que os/as frequentam a evitar qualquer contacto com o livro e com o autor? E, no entanto, trata-se de um livro, em cujas páginas, espiritualidade rima sempre com dignidade humana e o Nome de Deus nossa Mãe/Pai nunca chega a dar cobertura à Perversão e à Mentira da presente Ordem Mundial do Dinheiro, do Templo e do Império, pelo contrário, sempre anda aliado a todas as suas inúmeras vítimas.
Fica aqui, como elucidativo exemplo, um extracto do Salmo 42:
1 Como os condenados pelo Império a caminhar / quilómetros e quilómetros a pé através do deserto / sem poderem ingerir qualquer líquido anseiam pelas / águas caudalosas, assim todo o meu ser anseia / por Ti ó Deus da Ternura e da Liberdade.
2 Todo o meu ser de ateu de todos os deuses / e deusas que se alimentam de gente tem sede / de Deus fonte de Ternura e de Liberdade. Mas / as Igrejas e as Religiões só nos dão cruéis / imagens de Deus em tudo semelhantes / ao Império que as pariu.
3 Os grandes media agridem-me regularmente / com reportagens de multidões a caminho de Fátima / de Meca e de outros santuários de nomeada; / do mais fundo do seu Obscurantismo e do seu Medo / todas elas parecem perguntar-me com a arrogância / própria do grande número: Onde está o teu Deus?
4 Porém todo o meu ser estremece de paz / e de humanidade sempre que me faço próximo / do Oprimido e do Pobre; os seus corpos crucificados / são outros tantos lugares teológicos onde Tu / misteriosamente me sais ao encontro / e me convertes em fonte de actos concretos / de Serviço libertador e de Dignidade.
5 Visto-me de tristeza e de vergonha ao ver / as multidões oprimidas e empobrecidas rastejar / como bichos nos santuários; e depois ainda / se despojam dos poucos bens que possuem / a favor do bezerro de ouro que lá é sadicamente / adorado como um Deus.
6 E só não desfaleço de vez porque Te conheço / como o Deus da Ternura e da Liberdade [...]
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Que fazer com tantos s. roques?
O negócio do pároco de Merelim São Paio é de bradar aos céus
Vejam só com que coisas se entretêm certos párocos do nosso país e da generalidade dos países do Ocidente. Conta a Agência Ecclesia, num dos meses de verão tradicionalmente mais grávidos em incêndios de matas e florestas e em festas populares em honra de santas-santos/ídolos de madeira ou de gesso, nossas senhoras disto e daquilo, fabricadas com iguais materiais aos dos santos-santas, que o pároco de Merelim São Paio, na arquidiocese de Braga, benzeu, duma assentada, 200 imagens de s. roque.
Não conta a Agência quem foi o fabricante de tanto s. roque e a que preço saíram os ditos. Mas que foi uma fornada de s. roques foi. A fábrica que recebeu a encomenda só pode ter esfregado as mãos. Falta saber se é uma fábrica em que o pároco em causa ou familiares seus têm interesses. Porque quem ia ter tão genial ideia de mandar fabricar 200 s. roques duma só vez, se não houvesse pelo meio interesses menos santos, impuros, como impura é a ideia de os mandar fabricar?
O pároco, desconfiado das apregoadas virtudes destes 200 s. roques de madeira ou de gesso, apesar de todos terem sido fabricados com o seu aval e por encomenda sua, tomou a prudente (!) e sábia (!) decisão de os benzer. E à hora marcada, paramentado a rigor, lá leu o que está escrito no Ritual (nem para benzer uns s. roques novinhos em folha, o pároco de Merelim São Paio já agora, porque não Merelim São Roque?! deu mostras de ser capaz de descortinar as palavras mais certeiras; teve de recorrer ao Ritual das benzeduras eclesiáticas, não vá a bênção sair furada ou diabolizada!). E aspergiu os ditos com água benta também por ele. Prova provada de que os s. roques, estes e outros como estes, não servem para nada, a não ser para dar dinheiro a ganhar, caso ainda haja católicos paganizados que os comprem. Se os s. roques, novinhos em folha, tivessem alguma virtude, daquelas muitas que lhes são atribuídas pela fábrica da Igreja de Merelim São Paio, também teriam a capacidade de expulsar dos seus próprios corpos, salvo seja, os diabos e os maus olhados que, pelos vistos, só saem com as palavras do Ritual das benzeduras católicas e a água benta pelo pároco. Mas não. O pároco sabe que eles não passam de aldrabice, a mais pintada e de engana-católicos-iletrados-paganizados-papa-lhes-o-dinheiro. E, por isso, prefere jogar pelo seguro.
As nossas populações católicas é que ainda estão com consciência de Idade Média mais do que de século XXI que é o século em que elas hoje vivem, embora nem pareça, assim como os párocos católicos que as enganam e exploram. Porque, se assim não fosse, as populações mandavam o pároco de Merelim São Paio pentear macacos, que era o que ele no mínimo precisava, já que, em vez de fazer acontecer no meio delas o Evangelho libertador de Jesus - levá-las-ia a correr com estas e outras mentiras sem pés nem cabeça - prefere vender s. roques, com os quais elas acabam ainda mais tolhidas, paganizadas, oprimidas e atrofiadas.
O mais espantoso é que nem os membros da Comissão de festas do s. roque da freguesia foram capazes de resistir ao pároco. Mal ele propôs aquele negócio, eles disseram que sim. E disponibilizaram a verba necessária que havia sobrado das festas do dito. Poderia a Comissão ter organizado uma ou mais ceias sororais com a população mais carenciada e mais fragilizada da freguesia. Poderia ter orientado o dinheiro para melhorar a casa de alguma família em apuros e mal alojada. Poderia ter pensado nos Invernos habitualmente rigorosos que fustigam as populações do Minho. Mas não teve ideias “revolucionárias”, que isto de Revolução não rima nada com o Paganismo católico em que são useiras e vezeiras a generalidade das nossas paróquias. E por isso o dinheiro que sobrou das festas lá se foi para fabricar s. roques.
Dias virão em que um tsunami do Espírito Santo, com sabor a Pentecostes, há-de varrer aquela paróquia da Arquidiocese de Braga e toda a Arquidiocese, a começar pelo Bispo que vive de costas voltadas para a realidade e desconhece que a sua missão prioritária é Evangelizar os pobres, é expulsar das oprimidas mentes e consciências das populações minhotas todas essas tretas com o nome de s. roque ou de outros bonecos quaisquer, numa promiscuidade de bradar aos céus. Deixar que as coisas prossigam como este exemplo claramente revela é um crime. E faz do arcebispo de Braga um cúmplice. Parece um crime de pouca monta, mas não é. Porque que importa que a prisão que não deixa as populações crescer em sabedoria e em graça, em liberdade e em protagonismo político seja um mero s. roque de gesso ou de madeira, facilmente quebrável ou facilmente convertido em lenha para aquecer as pessoas no Inverno, se ele, efectivamente, acaba a funcionar como prisão e como impedimento para elas darem o salto qualitativo que não chegam nunca a dar entre o nascer e o morrer?
Diz a lenda que os s. roques de Merelim de São Paio e os de todas as muitas outras paróquias católicas do Ocidente que os cultuam nas respectivas capelas, geridas pelos párocos, como quem gere um banco ou uma casa comercial conheço algumas do nosso país e posso dizer que são antros de indignidade, buracos para humilhar as populações, espaços acanhados e insalubres, verdadeiros símbolos de opressão, com tudo de demoníaco têm a virtude curar as populações da peste. Mas a verdade é que se as populações embarcarem nessa aldrabice e não forem ao médico, quando estão doentes, verão o que lhes acontece, sobretudo, se a doença for perigosa e de morte.
De resto, do s. roque da lenda pagã católica, muito mais importante e digno de apreço do que ele é o cão que o tratou e lhe cuidou das chagas com a sua língua e diariamente lhe transportou a comida de que ele necessitava. De santo e de milagreiro, S. roque não tem nada. Porque santo, à luz de Jesus, é ser-se integralmente humano e contribuir para tornar humanas as populações.
Neste particular, ainda está para aparecer um santo desses apresentados aí ao culto público das populações católicas, que as torne humanas e solidárias. Todos, elas e eles, servem apenas para humilhar as populações e mantê-las na ignorância, no medo, na treva, no obscurantismo. Levam-lhes o dinheiro e atrofiam-nas até mais não. Fazem-lhes exactamente ao contrário do que o Espírito Santo fez em Jesus, que crescia em idade, estatura, sabedoria e em graça.
Escutem, pois, párocos católicos do meu país e dos países do Ocidente: As populações pedem Pão, também o da Palavra que as liberte e faça delas protagonistas na História, e vós, em lugar de lho dardes, continuais a dar-lhes s. roques e quejandos, ópio a rodos, santuários onde elas vão regularmente abastecer-se de estúpida droga religiosa. Sabei que isso que fazes é um crime. Um pérfido negócio. Um pecado contra a Verdade, contra o Evangelho, contra o Espírito Santo. Acerca do qual Jesus chega a dizer que não tem perdão! E tanto pior para vós, meus irmãos, se depois de lerdes isto, ainda vos ficais a rir. Porque então sois contumazes. Peço-vos, pois, em nome de Deus Vivo: Convertei-vos ao Evangelho, o de Jesus. E experimentar-vos-eis humanos, livres, fraternos, profetas da alegria.
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Madre Teresa de Calcutá
Acham que se pareceu com Jesus?
Viram a numa das primeiras noites de Setembro último, no canal 1, o filme sobre a vida/intervenção social de Madre Teresa de Calcutá, falecida há dez anos e logo pouco tempo depois beatificada por João Paulo II, o papa mais fatimista e mais milagreiro de todos os tempos? E escandalizaram-se como eu me escandalizei com aquele tipo pouco ou nada jesuânico de santidade que ela protagonizou em vida, nomeadamente, no meio daquelas fedorentas ruas e daqueles inumanos bairros de lata da grande cidade de Calcutá, na Índia? Ou, pelo contrário, gostaram muito desse tipo de santidade e desse jeito de se ser mulher?
Só vi a última parte do filme, mas foi o suficiente para me confirmar na impressão que sempre tive acerca do jeito pouco ou nada jesuânico que Madre Teresa teve de ser mulher, na sua assumida dimensão de cristã católica. Serei por isso das poucas pessoas que não me revejo naquele seu jeito de ser mulher. E nunca canonizaria, isto é, nunca apresentaria como exemplar para os demais seres humanos, aquele seu jeito de ser ser humano. Francamente, acho que fica a milhas de distância de Jesus, o de Nazaré.
Viram, por exemplo, toda aquela cumplicidade e promiscuidade existentes entre ela e os homens fortes do sistema eclesiástico católico? Viram até onde ela foi em subserviência e em reconhecimento efectivo desse poder? Viram como ela conseguiu sempre o que quis deles, pela simples razão de que nunca se atreveu a pô-los em causa, muito menos, prescindiu deles e do poder que eles são e têm dentro do Poder global do mundo que continua aí a oprimir e a matar sem dó nem piedade os seres humanos?
Ou será que somos ainda tão ingénuos que pensamos que a existência de inumanos bairros e de fedorentas ruas como os bairros e as ruas da cidade de Calcutá e de outras grandes cidades da Índia e do resto do mundo - dez anos depois da morte de Madre Teresa, ainda hoje eles lá permanecem, como se ela nunca lá tivesse actuado! - são mesmo uma fatalidade que havemos de suportar e de integrar como coisa natural? Ou - o que é ainda pior - pensamos que a sua existência resulta da insensibilidade e da crueldade de Deus que, embora continue a ser apresentado pelos seus crentes como infinitamente bom e todo-poderoso, a verdade é que não faz nada para alterar semelhante situação?
Alguma vez viram, por exemplo, no filme e na vida real, aquela mulher enfrentar, determinada, os poderosos e desmascarar com audácia martirial os seus nefandos crimes de lesa-humanidade? Alguma vez a ouviram perguntar, perante tanta pobreza estrutural e tantos pobres em massa, tanta miséria estrutural e tantos miseráveis em massa, porque há pobres e tantos pobres, porque há miseráveis e tantos miseráveis? Ou ouviram-na perguntar quem e o quê fabricam tanta pobreza e tantos pobres, tanta miséria e tantos miseráveis?
Não! Nunca viram nem ouviram, porque ela nunca o fez! Por isso os reais fabricadores de pobres e de pobreza em massa, de miseráveis e de miséria em massa, bem como os eclesiásticos que habitualmente os abençoam, são unânimes em gostar desta mulher e de mulheres e de homens do mesmo jeito, porque, depois de tudo, não só não são desmascarados, denunciados e responsabilizados pelos seus crimes estruturais de lesa-humanidade, como ainda têm a oportunidade de passarem por benfeitores perante as suas vítimas!
Por mim, prefiro mil vezes o Crucificado e maldito Jesus de Nazaré à beata Madre Teresa de Calcutá. No seu tempo e país, também havia muitos leprosos e ele nunca correu a criar leprosarias para eles. Havia muitos famintos e ele nunca correu a criar padarias para lhes matar a fome. Havia muitos doentes e ele nunca correu a criar hospitais.
Em vez disso, teve a inteligência e a audácia de ir à raiz do mal e de pôr a descoberto Aquilo que causava todas essas situações de inumanidade estrutural. E depois não hesitou em enfrentar os responsáveis, nos santuários e nos palácios, com que eles sempre se protegem e com que sempre se disfarçam. Ao mesmo tempo, ainda soube ser presença misericordiosa e maiêutica, de parteira, junto das vítimas para que elas abrissem os olhos e os ouvidos, soltassem as línguas, se levantassem sobre os próprios pés e utilizassem as próprias mãos, expulsassem de si a ideologia e a religião dos poderosos - um verdadeiro demónio - que os mantinham oprimidos e no Medo e se assumissem como protagonistas das suas próprias vidas e da vida do mundo.
Obviamente, em lugar de o canonizarem, como fizeram a correr com Madre Teresa de Calcutá, mataram-no na Cruz como o maldito dos malditos, para que nunca mais ninguém queira ir pela via libertadora e salvadora que ele abriu e percorreu até ao fim e em que se constituiu para todo o sempre.
E não é que conseguiram o seu desígnio? Não é que até a generalidade dos ateus hoje acha que Jesus está ultrapassado e que a sua via não interessa a ninguém? Não é que quase toda a gente prefere pessoas como Madre Teresa de Calcutá, a Jesus de Nazaré?
Mas a mim jamais eles me ganharão para as suas fileiras, nem para as suas cadeiras de poder e de privilégio. Porque só Jesus, que eles mataram, anda carregado de Futuro, uma vez que foi, é o único que, no seu corpo e na sua prática histórica, levou a Humanidade até ao limite e até para lá do limite. Por isso, ou vamos lúcida e corajosamente por ele e pelo caminho que ele é, ou continuaremos ingenuamente, como Madre Teresa de Calcutá, a fazer o jogo do Poder que é mentiroso, pai de mentira e assassino desde o princípio.
Mas então não nos queixemos. Nem tentemos justificar com pseudo-filosofias o ateísmo pragmático que seguimos, porque, afinal, o Deus que negamos, bem vistas as coisas, não passa de um ídolo! Alerta!
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Dalai Lama
Dois momentos
Primeiro Momento
Nunca estive olhos nos olhos com ele. E provavelmente, nunca estarei. Não me atrai o seu sorriso. Nem a sua figura. Acho tudo demasiado artificial. Folclórico. Pueril. Sem plena verdade. Como sucede aliás com o nosso Papa de Roma.
Dalai Lama é, pode dizer-se que é o papa do Budismo. Como tal, o homem que ele antes era como que desapareceu para, em seu lugar, ficar um artifício, uma marionete, um fantasma que o Poder e outros obscuros interesses hoje manipulam à vontade. Tornou-se, há anos, Nobel da Paz e nem assim me atrai a sua paz. Acho-o demasiado integrado no Sistema e na Ordem Económica Mundial do Império, do Dinheiro e do Templo. Aquela Paz revolucionária e conspirativa que resulta do beijo entre a Justiça e a Misericórdia e que, lá onde existir, erradica de vez a pobreza em massa da face da Terra, nunca chegará a ser premiada com o Nobel da Paz, porque os senhores que mexem nesses cordelinhos estão, obviamente, mais empenhados em conservar a Ordem Económica Mundial que lhes é favorável, como a todos os demais ricos e poderosos, do que em subvertê-la.
De Dalai Lama, já li alguns textos que lhe são atribuídos e não me comovi. Tão pouco, senti o apelo a sair ao seu encontro. Soube - quem não soube?! - que ele esteve pela segunda vez em Portugal, mas não dei um passo para ir ao seu encontro. Os media andaram atrás dele, captaram as suas palavras e difundiram imagens dele. Pelos vistos, a sua agenda está sempre sobrecarregadíssima e foram muitos os milhares de pessoas que correram a escutá-lo numa única sessão pública em Lisboa. Não estivei lá.
Acho que tudo o que é feito com esta exótica figura não tem verdade, soa a falso, a oco. Ora, eu gosto de seres humanos íntegros, inteiros. Não gosto de marionetes, de robots, de funcionários, de vedetas, de estrelas, de personalidades. Quando alguém necessita de guarda-costas, para qualquer parte do mundo que vá, ainda é um ser humano? Um irmão universal? Não se tornou outra coisa?
O Poder do que mais tem medo é de seres humanos. Por isso, tudo faz para converter aqueles com que tropeça em outra coisa. Pelos vistos, são poucos os seres humanos que resistem ao Poder e que permanecem seres humanos simplesmente, até ao fim. O Poder sabe que só se perpetua, se tiver minorias de funcionários de luxo e exércitos de funcionários anónimos que o sirvam. Quando conhece indivíduos incondicionalmente dispostos a servi-lo, não olha ao preço a pagar. Paga o que for preciso para os ter a todos nas mãos. A sua Ordem Económica Mundial nunca chegará a ser ameaçada. Só reforçada. E cada vez mais.
O Poder sabe que é com papas, com dalai lamas, com presidentes da república, com bispos, párocos, primeiros-ministros, administradores disto e daquilo, com presidentes de banco mundial e de banco central e muitos outros do género, que tudo continuará a correr sobre rodas. De geração em geração. Indefinidamente. Vejam como todos esses privilegiados se entendem entre si. E como cooperam. Mesmo quando parece que estão em desacordo, como sucedeu nos dias que Dalai Lama permaneceu em Portugal.
Os dois funcionários de topo do Estado recusaram recebê-lo, mas ainda foi para, desse modo, todos eles levarem a água ao seu moinho. São pequenos atritos bem publicitados que têm o condão de os unir entre si e reforçá-los ainda mais nos seus lugares de topo. Abramos os olhos. Não nos deixemos cegar. Só a Luz nos pode manter humanos. Mas nunca esqueçam que a Luz é incompatível com o Poder. O Poder é Treva. Holofote que encandeia e cega.
"Eu sou a Luz do Mundo. Quem me segue não anda na Treva". Só podem ser de Jesus estas palavras. Sabemos que o Poder também o tentou durante toda a vida. Mas ele resistiu-lhe sempre. Até ao sangue. Por isso, o Poder matou-o. Não suporta tropeçar com seres humanos integrais. Só com venais que negoceiam com ele e se submetem às suas ordens.
É por Jesus que vou. Ele é o Caminho que, se for percorrido por mim até ao fim, me fará ser humano integral, por isso, salvo. Também querem vir daí comigo? Perceberão, como Paulo de Tarso acabou por perceber, que tudo o que não é Jesus é esterco. Nem que brilhe como o ouro ou como o diamante mais polido!
Segundo Momento
Não lhes deu vómitos, à hora de jantar, toda aquela hipocrisia e todo aquele bando de hipócritas, na Assembleia da República, quando a reportagem da recepção oficial ao Dalai Lama passou nos telejornais? E acham que um homem que pretenda mudar o mundo, como nos querem fazer crer que Dalai Lama pretende, deva frequentar lugares e instituições de Poder onde todos os dias se pratica a mentira e se assassinam os pobres com leis e decisões que sistematicamente visam promover e defender os privilégios dos poderosos e os macabros interesses do grande capital e das suas multinacionais? Quem pretenda mudar o mundo pode frequentar assim, sem um mínimo de verdade nas palavras e nos gestos, os poderosos e os grandes ricos, cujos privilégios são o que falta de mais essencial/vital às maiorias pobres? E, se os frequenta, não há-de ser para lhes dizer, olhos nos olhos, com ternura, mas também com o vigor duma espada de dois gumes, o seu pecado, a sua fealdade, o seu crime, a sua perversão, de modo que eles percam o sono, abram-se à Verdade, pratiquem-na e iniciem o percurso de vida que os leve a ser, finalmente, pessoas humanas livres e sororais? A hipocrisia alguma vez mudou o mundo?
Eu sei que é muito difícil a frontalidade e a luz, nomeadamente, na casa dos poderosos e dos grandes ricos. Sei que a profecia não é prática que se assuma todos os dias com facilidade. E nem será de esperar encontrá-la em todas as pessoas. Mas quem quer mudar o mundo tem de ser capaz de estar nele sem nunca chegar a ser dele. Não pode viver a fazer de conta. Muito menos recorrer aos mesmos processos dos poderosos e dos grandes ricos, nem ter os seus tiques. Conhecerá por isso o ódio e o desprezo deles, em lugar dos aplausos, sobretudo se eles já tiverem desistido de vez de ser humanos e sororais. Nunca chegará certamente a ser convidado para entrar nos seus palácios, nem frequentará os seus banquetes. Será tratado como louco e objecto de riso. E quando morrer, a sua morte será festejada por eles. Mas a Humanidade, enquanto tal, terá conhecido um ser humano a sério, cujas mãos não estão sujas de sangue dos pobres e cuja cabeça sempre trabalhou em uníssono com o coração e por isso jamais foi capaz de conceber projectos, doutrinas, economias e políticas sem entranhas de misericórdia.
Escandalizo ao escrever estas coisas? É provável. Porque estamos todas, todos tão metidos na lógica deste mundo, desta Ordem Económica Mundial do Dinheiro, do Templo e do Império, que já nem somos capazes de perceber toda a sua Perversão, toda a sua Mentira e todo o seu poder assassino. Pelo contrário, encaramos e tratamos como benfeitores da Humanidade aqueles que vivem sistematicamente para a roubar, matar e destruir. E ainda corremos a juntar as nossas pedras às deles, quando eles decidem passar do desprezo ao apedrejamento até à morte dos profetas, sempre, é claro, ao abrigo das suas perversas leis. Como paradigmaticamente fizeram/fizemos com Jesus, o de Nazaré, o Homem por antonomásia. E com tantos outros, mulheres e homens, que têm tido a audácia de viver na sua peugada e de prosseguir as suas mesmas Causas.
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LIVROS DO TRIMESTRE
Edicon / Manuel Reis
Despaulinizar o Novo Testamento
Sob o signo do jesuanismo
Não é de leitura fácil, exige uma boa base filosófica e muita abertura de espírito para encaixar dados eventualmente chocantes. Mas é um livro de leitura obrigatória, ponto de partida para suculentos e polémicos debates, tertúlias que muito contribuirão para nos fazer livres e humanos. Por isso, não se deixem assustar diante das suas 467 densas páginas. E, lá para o final do livro, terão a agradável surpresa de que também se opina sobre o nosso Fraternizar.
"Despaulinizar significa e implica: desconstruir e eliminar o paulinismo no Novo Testamento; em suma, desmistificar, desmitificar e desmitologizar toda a mitologia paulina, presente em quase todo o Novo Testamento canónico. Os chamados Escritos gnósticos ou apócrifos podem e devem ajudar; como de resto, toda a literatura dos «Dead Sea Scrolls». Sem esquecer, como é óbvio, a literatura subterrânea que, ao longo dos últimos dois milénios da Civilização/Cultura Ocidental, foi emergindo para logo ser censurada, proibida e ocultada pela Autoridade dogmática da Igreja Romana e pelos Poderes estabelecidos."
É assim que abre o Pórtico do livro. E logo adverte: "Não vamos em demanda de tropos ou figuras de estilo, de hipóstases ideológicas ou de ficções substantivadas; vamos, antes, e criticamente, em busca de personagens cénico-culturais reais e, no seu núcleo duro, até de pessoas vivas e reais (Sujeitos individuais-pessoais), as quais, só pelo Diálogo dialéctico autêntico, podem comunicar sem equívocos e, de seguida, tomar iniciativas e empreender acções em comum, num Mundo, que - não esquecer - é de todos."
Ainda no Pórtico, diz-se sumariamente o que no livro se entende por Novo Testamento. "O Novo Testamento (com os seus 27 livros canónicos, estabelecidos como tal no Concílio de Niceia/325, sob a égide do Imperador Constantino, ainda nem sequer bpatizado...), tal como o conhecemos e é interpretado tradicionalmente, faculta-nos a Mensagem de Paulo e do paulinismo (ou seja, o Cristianismo doutrinal e histórico, que nos tem sido debitado no Ocidente de geração em geração...); não a vera e autêntica Mensagem (revolucionária) de Jesus, o nazorêu, e do que podemos chamar o Jesuanismo."
O livro faz-se em três partes, com seus múltiplos capítulos e subcapítulos, e dois apêndices. I Parte: Despaulinizando o Novo Testamento (em demanda do jesuanismo). II Parte: Hermenêutica e Pesher: uma introdução crítica e um painel exemplificativo do Novo Testamento em várias frentes filosófico-culturais. III Parte: Dezasseis epigramas como estaleiro da despaulinização.
Facilmente se reconhecerá, ao ler o livro, que se trata de uma obra marcadamente erudita e saudavelmente polémica. Utiliza fontes menos habituais sobre Jesus e a sua vida privada, que autores de renome na investigação sobre ele, têm manifestamente rejeitado. Mas isso é um aliciante mais para nos levar a ler o livro. Atrevam-se.
Sal Terrae / Peter Spiegel
Muhammad Yunus,
O banqueiro dos pobres
"A esmola é a pior ofensa aos pobres. Como um microcrédito pode mudar a vida". O título, provocativo, encabeça o terceiro capítulo deste fascinante livro de 154 páginas. Só pode ser lido de uma assentada e depois haveremos de regressar a ele, sempre que precisarmos de encher-nos de esperança e de audácia para mudarmos a vida das pessoas, tantas vezes, instaladas na sua miséria, porque alimentadas pela caridadezinha dos demais. Ninguém se atrase a adquiri-lo.
"Sabem? No Banco Grameen [fundado por Yunus para conceder microcréditos aos pobres] aprendemos que os problemas são o combustível mais precioso para as inovações. Não temos medo dos problemas; os problemas não são para nós problemas, mas amigos. São a porta de acesso a um processo criativo que nos conduz a soluções cada vez melhores. Enfim, cada problema ajuda-nos simplesmente a melhorar passo a passo."
Esta é uma das revelações que o banqueiro dos pobres fez a uma plateia de 100 banqueiros tradicionais que, há uns dez anos atrás, se juntaram, pela primeira vez, cheios de curiosidade para o ouvir e interpelar. Trata-se de um homem e de um economista muito ao contrário da generalidade dos outros homens e dos outros economistas, pois vive, pensa e trabalha quase só para tentar tirar os pobres da sua pobreza e fazer deles pessoas realizadas, felizes, autónomas, úteis à sociedade em que vivem.
"As minhas novas professoras são as pobres", é o título do primeiro capítulo do livro. Remete-nos de imediato para a infância e o ambiente familiar de Yunus. Nascido no Bangladesh, nunca se viu obrigado a experimentar a pobreza na sua própria carne. Experimentou-a no corpo dos milhões de pobres do seu país, das mulheres pobres, antes de mais. Concebeu e criou então um banco para tirar os pobres, mulheres e homens, da pobreza e isso mudou para sempre a sua vida. E está a mudar a vida de milhares de pessoas pobres que, em lugar de se resignarem às esmolas e aos subsídios, têm a audácia de recorrer aos microcréditos que o seu banco lhes proporciona.
Entretanto, não se pense que está encontrada a solução mágica para acabar com a pobreza no mundo. Porque o sistema capitalista que tudo domina com os seus tentáculos de polvo assassino, até consegue dominar muitas das mentes dos próprios pobres e impede-os de aceitarem o desafio a saírem da sua pobreza. A esmagadora maioria continua a comportar-se como se a sua situação de pobreza fosse uma fatalidade da natureza. E só muito poucos é que têm a força e a dignidade de aceitar microcréditos em lugar de esmolas.
Editorial Trotta / Montserrat Abumalham
O Islão
De religião dos árabes a religião universal
A autora é professora titular no Departamento de Estudos Árabes e Islão, da Faculdade de Filologia da Universidade Complutense de Madrid, especialista em língua e literatura judeo-árabes, literatura árabe comparada e literatura e pensamento árabe-muçulmanos. O livro, de 269 páginas, é uma óptima iniciação ao Islão, numa abordagem que chega a ser cativante sem deixar de ser objectiva. A não perder.
"Para compreender o islão é preciso situá-lo nas circunstâncias do seu nascimento, que são as que resultam verdadeiramente reveladoras, e examinar as suas transformações, reformas e contra-reformas provocadas pelo devir histórico e pela intervenção de ambições, expectativas e planos puramente humanos que, em muitos casos, nada têm que ver com o espiritual nem com a transcendência."
São palavras da autora, na introdução. Ainda na introdução, avança esta advertência: "O ponto de partida que nos propomos é, por um lado, o da empatia que acompanha a objectividade e, por outro lado, o de oferecer uma análise e uma descrição do islão como o que ele é fundamentalmente: uma religião que procede duma profunda procura pessoal e duma experiência da presença da divindade, incardinadas ambas numa larga tradição monoteísta compartilhada por outros povos que, além do mais, coincidem no mesmo espaço geográfico. Trata-se, portanto, de apresentar as bases históricas e dogmáticas do islão, situando-o no seu contexto, avaliando toda a sua complexidade e assinalando os seus desenvolvimentos mais notáveis."
Para a autora, "o islão, além da base de uma das mais amplas, ricas e criativas civilizações humanas, é o motor de criação de múltiplas linguagens simbólicas que se exprimem através das artes e do artesanato de numerosos lugares. Essa capacidade para a geração simbólica coloca o islão, como aos grandes sistemas de pensamento, no centro da identidade individual e colectiva de muitos seres humanos e, portanto, também converte-o num elemento que pode ser manipulado eficazmente para movimentar e mobilizar grupos humanos e povos. A utilização ideológica de partes da mensagem do islão não deve contudo confundir-nos nem levar-nos a pensar que no islão existe uma exigência de aniquilação espiritual e uma forte dose de violência."
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Bispo António Zati
A minha crise
Quando colocou a questão de casar canonicamente e prosseguir no exercício do ministério, (quase) todos o desprezaram e "excomungaram" das suas vidas. Seria então a Igreja Vetero-Católica a aproximar-se dele e a reconhecê-lo. Ordenou-o Bispo em Angola. D. António Zati faleceu recentemente. E, no dia do funeral, aconteceu a surpresa maior: Por sua expressa vontade, alguém se levantou e leu, em seu nome, na catedral a carta que ele próprio havia escrito em 31 de Julho de 1997, onde conta o que lhe fizeram. É essa carta que Jornal Fraternizar publica aqui na íntegra.
Alguns meses antes da minha ordenação diaconal, vivi uma crise que, graças a Deus, consegui superar. O meu colega João Maria Futi, tendo-lhe eu confidenciado o que se passava em mim, deu-me na ocasião muito bons conselhos. Sublimada a crise, fui ordenado Diácono (1 Agosto 1988, em Kinshasa) e Sacerdote (8 Janeiro 1989, em Cabinda) sem quaisquer problemas, sem sobressaltos. Consciente das minhas obrigações sacerdotais. Muito feliz pela bênção que o Senhor derramou sobre o Seu rebanho, ao me conceder a graça de ser “Sacerdote de Cristo ao serviço do Povo de Deus”, tal como deixei gravado nas imagens da minha ordenação sacerdotal. E dei o melhor de mim mesmo, obedecendo ao meu Bispo e servindo o povo cristão, tanto quanto a graça de Deus me permitiu fazer.
Em Maio de 1990, ressurge a crise com a morte de meu irmão mais novo, pai de três filhos. As circunstâncias do seu falecimento deixaram-me, na verdade, profundamente abalado. Com a ajuda do Senhor, pude, uma vez mais, controlar a situação.
O tempo foi passando. Ao reflectir sobre a outra face da vida do clero, dos sacerdotes, religiosos e religiosas suas virtudes e suas fraquezas, mormente no tocante à castidade muito me preocupava, a começar por mim próprio, a importância fundamental do testemunho de vida nessa matéria. Ora, eu já era sacerdote e, pondo de parte a falsa modéstia, com um trabalho missionário plausível, digno de prémio (tal como o meu Bispo o chegou a reconhecer publicamente numa Reunião Missionária). Por outro lado, ia-se reforçando em mim a convicção de não haver incompatibilidade entre o estado clerical e a vida matrimonial. Daí a conclusão de que seria melhor, a bem da Igreja e das almas, que fosse liberalizada a questão do celibato obrigatório, de tal modo que o que acontecia no seio do clero e de pessoas consagradas, em toda a parte, em todo o mundo, não continuasse a ser simplesmente justificado como sendo consequências decorrentes da própria lei do celibato ou da castidade (in)voluntária.
Ciente do que a minha vida sacerdotal exigia e esforçando-me por ser sincero e honesto para com Deus, comigo próprio e com os fiéis, achei por bem fazer um pedido ao Santo Padre: conceder-me a autorização de me casar canonicamente, permanecendo, no entanto, ligado ao meu ministério sacerdotal. Entre Maio e Junho de 1993 e enquanto nos debatíamos com a procura de uma saída para a crise, gerou-se um tumulto tal em torno do meu problema na Diocese situação criada deliberadamente pelos colegas no sacerdócio de quem esperava melhor compreensão e caridade cristã naquele delicado momento que tudo se precipitou. O meu Bispo e os colegas em geral faltaram-me no momento em que mais precisei deles. Ordens estritas foram dadas aos sacerdotes para que me evitassem, para que não me fossem visitar; colegas no sacerdócio fizeram da minha crise o tema principal das suas homilias dominicais e feriais, denegrindo-me como melhor lhes aprouve; difamaram-me; etc, etc. Aliás, muitas das atitudes do meu próprio Bispo deixaram muito, mas muito, a desejar, e isto desde a primeira hora. Tal foi o caso do envio do Chanceler e do Sacristão da Sé Catedral para receberem a paróquia, sem alguma explicação, pelo menos por ter sido o próprio Bispo quem me nomeou e empossou (1992) naquela função eclesiástica, numa das mais importantes paróquias da diocese, e em substituição do último pároco espiritano, o Pe. Camboa. Reconheço a eficácia do apoio moral que um colega me deu. Outros distinguiram-se na transformação da ajuda moral e/ou financeira que me proporcionaram nas mais sujas pregações (que, infelizmente, os comprometia a eles próprios pela sua atitude para com um colega aflito, bem como à Igreja). Outros, certamente por serem jovens no sacerdócio, visitaram-me logo que puderam. Há ainda os que, até hoje, me evitam, talvez por obediência ao nosso Bispo.
Em suma, uma crítica situação de que resultou a precipitação do evoluir dos acontecimentos. Falei com o meu Bispo; entreguei-lhe uma carta escrita por mim mesmo. Escrevi para o Sumo Pontífice em 1993, expondo a minha questão, tal como o meu Bispo mo tinha recomendado. E, nesse mar tempestuoso em que me encontrava, uma coisa me restava fazer: casar-me com a viúva que tinha conhecido no ano anterior na Paróquia da Imaculada Conceição de Cabinda, de que era pároco. Assim sucedeu a 2 de Outubro 1993.
Cabinda, aos 31 de Julho de 1997
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Domingo, 21 de Outubro, em S. Pedro da Cova
10.º Encontro de Espiritualidade
O 10.º Encontro de Espiritualidade com o ateísmo e a idolatria generalizados em fundo, a realizar dia 21 de Outubro 2007, domingo, entre as 10 horas e as 17 horas, tem, como temática principal a debater por todas, todos nós que fizermos por participar nele as chamadas Bem-aventuranças de Jesus, nas duas versões conhecidas: a de Mateus 5, 1-16 e a de Lucas 6, 20-36. Dizem-nos ambas quem são e com que Espírito hão-de viver as, os que, como Jesus, já decidimos fazer do Reino a opção de fundo das nossas vidas.
Entre a manhã e a tarde, há o Almoço Partilhado e Eucarístico, conseguido a partir do que cada uma, cada um trouxer de casa para a Mesa Comum.
Da parte da tarde procuraremos abrir-nos a práticas alternativas às da actual Ordem Mundial do Dinheiro, do Templo e do Império. Sem esquecermos a Acção/Missão que o Reino precisa que realizemos, em comunhão com Jesus, para que ele possa continuar a crescer na História. E façamo-nos acompanhar de cantos e de poemas para partilharmos.
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