Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 166, de Julho/Setembro 2007 (Continuação)

9.º Encontro de Espiritualidade em S. Pedro

da Cova, promovido pelo Jornal Fraternizar

Igreja ou Reino/Reinado de Deus?

Decorreu no passado dia 27 de Maio, em S. Pedro da Cova mais um Encontro de Espiritualidade com o ateísmo e a idolatria em fundo, promovido pelo Jornal Fraternizar. Entre as 10 e as 17 horas, as pessoas que se dispuseram a deixar a rotina dos domingos e foram viver o dia no Cenáculo/sede da Associação Padre Maximino, proprietária e editora do Jornal, não deram o tempo por perdido. Tivemos todas, todos, uma intensa experiência do Espírito Santo que nos sacudiu e atirou para a missão que mais não é do que prosseguir, hoje e aqui a mesma Causa de Jesus, que é a Causa do Reino/Reinado de Deus em construção na História. Ficou claro para nós que, ou a Igreja, nas múltiplas Igrejas em que se corporiza, é para isto que vive na História, ou então é melhor não existir, porque se converte em Tentação, em Demónio para as populações. Igrejas/templo para alimentar a Religião do Povo e para dar religião ao povo não têm a marca do Espírito Santo, por mais que O invoquem nas suas fórmulas ritualizadas, no decurso de liturgias dominicais mais ou menos solenes.

A abrir o Encontro, coube-me a mim, director do Jornal, proferir umas palavras de saudação e de criação de ambiente favorável ao diálogo sororal/fraterno. São essas palavras que aqui partilho. Juntamente com as palavras da minha primeira intervenção no diá­logo sobre o tema que esteve em de­ba­te, durante a manhã e a tarde: "Igre­ja ou Reino de Deus? Com o que se devem ocupar as discípulas, os discí­pulos de Jesus do século XXI e do ter­ceiro milénio?

Entre as duas partes do dia, acon­teceu a refeição partilhada, a partir do que cada pessoa levou de casa para a Mesa comum. Nenhum rito se fez, mas todas, todos sabíamos que estávamos a comer e a beber com Jesus, a co­mun­gar o seu Corpo e o seu Sangue, isto é, a fazer nossos o seu Projecto, a sua Causa, a sua Militância.

Assim alimentados, viveremos até ao próximo encontro, dia 21 de Outu­bro 2007. Tomem nota na agenda e fa­­çam tudo para protagonizar esta aven­tura e conhecer/viver esta via libertado­ra que nos faz ser-viver em estado de maioridade no mundo e na História, nun­ca mais como menores. Eis.

Saudação

Este 9.º Encontro de Espiritualida­de com o ateísmo e a idolatria em fundo acontece ao 24.º dia sobre o desapare­ci­mento da menina inglesa no Algarve, um drama humano que está a ser ver­gonhosamente aproveitado por certa Igreja católica para tentar colocar de novo a Religião católica e a senhora de Fátima no centro da vida das popu­la­ções, nomeadamente, das popula­ções em aflição. Poderia e deveria ser ocasião para a Igreja evangelizar os po­bres e os povos e libertar as popula­ções da tentação religiosa, mas é ma­nifesto que ela própria está ainda longe de ser uma Igreja suficientemente ilus­tra­da e evangelizada. O que perfaz um desastre de todo o tamanho, pois está dito por quem conhece bem o íntimo do ser humano que quando um cego – no caso, uma Igreja cega – guia outro cego – no caso, as populações do país e do mundo – ambos cairão no barran­co.

Só uma Igreja evangelizada pode evangelizar as populações. Mas uma Igreja evangelizada é uma Igreja per­ma­nentemente habitada pelo Espírito de Jesus. Como ele, também ela dirá: O Espírito do Senhor está sobre mim, enviou-me a evangelizar os pobres, a libertar os oprimidos, a mandar em li­berdade os prisioneiros e a anunciar/fa­zer presente um Tempo novo de gra­ça e de verdade, quer dizer, um Tempo de Maioridade humana.

Este 9.º Encontro de Espiritualida­de acontece também no dia em que as Igrejas cristãs celebram o que elas cha­mam de Festa do Pentecostes, ou manifestação/descida do Espírito Santo no cenáculo em Jerusalém e que é in­ter­pretado por elas como o dia do nas­cimento da Igreja! Até agora, temo-nos limitado a reproduzir este ponto de vis­ta eclesiástico de geração em geração. E se este ponto de vista não correspon­de à verdade dos factos? Se este pon­to de vista não passa de uma interpre­ta­ção interesseira, corporativa, e por isso não verdadeira? Pensemos por ins­tantes:

Se Jesus não fundou nenhuma Igre­ja; se, em vez disso, anunciou e fez presente o Reino/Reinado de Deus na terra (hoje, diríamos República de Deus ou, ainda melhor, uma Ordem Mun­dial outra, ao jeito e ao gosto de Deus Criador), como se explica que a co­municação do Espírito que o habitou em plenitude e em permanência e fez dele o Homem que conhecemos, polí­tico até ao extremo da perda/entrega da própria vida, tenha sido para fun­dar a Igreja com as suas discípulas, os seus discípulos? Não teria de ser, não terá de ser para que a mesma Cau­sa de Jesus, a causa do Reino de Deus, prossiga no tempo e no espaço, não seja interrompida, apesar da morte violenta que ele conheceu e sofreu? Não terá de ser para que as suas discí­pulas, os seus discípulos, assustados e desmobilizados pela morte violenta e humilhante do seu mestre, se refa­çam e levem por diante sem medo e com audácia a mesma Causa do Reino de Deus que havia sido a sua razão de ser e de viver e por causa do que ele mesmo acabou crucificado? Aliás, não é isto que o próprio Lucas, no re­ferido livro dos Actos, põe Jesus ressus­citado a dizer-lhes, sob a forma de a­nún­­cio antecipado? “O Espírito Santo descerá sobre vós e dele recebereis força para serdes as minhas testemu­nhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até aos extremos da ter­ra”.

Disto se trata: ser testemunha. Não de fundar Igreja. E ser testemunha por acção do Espírito Santo é prosseguir a mesma Causa do Testemunhado, no caso, de Jesus. É ocuparmo-nos por inteiro com o que ele se ocupou; é as­su­mirmos até ao limite a sua Missão his­tórica. E fazê-la nossa. Para isso nos é dado o Espírito Santo: para pros­se­guirmos a Causa de Jesus, para a­nun­ciarmos e fazermos presente na His­tória o Reino/Reinado de Deus. Também para isto é a Espiritualidade cristã jesuânica. O que não for assim não tem o Espírito de Jesus, o Cristo crucificado/Ressuscitado.

Neste início do século XXI e do ter­ceiro milénio, havemos como cristãs cristãos jesuânicos, de ter a audácia de não continuarmos a fazer mais do mesmo. Havemos de romper com sé­cu­los e séculos de desvios do essen­cial. E atenção: Se não vamos a bem, vamos a mal. Porque o Espírito Santo, se não pode contar com as chamadas Igrejas cristãs, entretidas e ocupadas con­sigo próprias, com os seus ritos e os seus cultos, mai-las suas catequeses e as suas festinhas infantis e populares (= pagãs), numa palavra, com a religião do povo e para o povo (paganismo re­li­gi­oso), avançará então com as pró­prias pedras, isto é, com os ateus de boa vontade e com os “terrorismos” de toda a ordem. Porque uma coisa é cer­ta: O Espírito Santo não suporta esta Or­dem Mundial que é pecado organi­zado, que é anti-Reino/Reinado de Deus, assente numa economia e numa política de mentira e assassina que o­pri­me e mata antes de tempo, ou man­tém em regime de sub-vida cerca de cinco das seis partes da população mun­dial. Trata-se duma Ordem Mundial incompatível com o Reino/Reinado de Deus, organizada de acordo com os in­teresses do deus Dinheiro contra o Deus Criador de filhas e de filhos em es­tado de maioridade e constituídos na liberdade.

Igreja ou Reino/Reinado de Deus a construir na História? Quem vive habi­tado pelo Espírito Santo é para quê? Para fundar/alimentar Igrejas, ou para mu­dar/transformar o mundo e levar à ple­nitude a criação dos seres humanos como filhas filhos em estado de maiori­dade num mundo nossa casa comum? Eis a questão central que nos vai ocu­par durante a manhã e parte da tarde deste dia. Junto-lhe outra que decorre des­ta e a complementa: E como fazer para permanecermos fiéis a esta mis­são/acção, sem desfalecermos, muito menos passarmos a fazer o jogo do Ini­migo, o jogo da Religião? Como é que fez Jesus? Como é que ele fez para se aguentar na missão e ser fiel a ela até ao fim, apesar de ter de viver sem­pre em deserto? Como vamos também nós conseguir sermos fiéis a esta mis­são até ao fim?

A minha contribuição no debate

Havemos de reconhecer que há uma traição eclesiástica a esta missão, praticamente desde o princípio do Cris­tianismo, excepção feita às primeiras comunidades, nomeadamente, as co­mu­nidades que estão na origem dos tex­tos-testemunho do Novo Testamen­to, com destaque maior para os quatro Evangelhos canónicos, em especial o Evangelho de Marcos e o Evangelho de João.

A tentação da Religião é muito for­te e permanente nos seres humanos. Ataca-nos sobretudo nos momentos de gran­des crises individuais e colectivas. Nem Jesus escapou a ela e teve de a enfrentar e de lhe resistir: “Atira-te da­qui abaixo e Deus enviará os seus an­jos para te proteger”. “Diz a estas pe­dras que se transformem em pão”. “Faz milagres para resolver os problemas das populações oprimidas e empobreci­das e doentes”. “Confia em Deus, multi­plica as tuas orações e Deus virá e solu­cionará!...”

Quem de nós não se viu já assedia­do por tentações destas? Pois bem, é le­gítimo pensar que as Comunidades que escrevem os Evangelhos o fazem, porque caíram na conta de que, alguns anos depois da morte violenta e humi­lhante de Jesus, as suas discípulas, os seus discípulos começam a abandonar os combates dele pelo Reino/Reinado de Deus e passam a ocupar-se prefe­ren­cial ou exclusivamente com os pro­ble­mas corporativos, da organização co­munitária, concretamente, quem dirige, quem chefia, quem manda, quem é o primeiro, quem é o maior. Com o passar dos anos, a tendência é de instituciona­lizar o movimento de Jesus. E fazem-no à maneira da sinagoga do tempo de Jesus e das muitas assembleias (= igrejas) ou associações espalhadas pe­lo Império romano. O que deveria ser meio, passou a ser fim. De momentos de alimento para a missão/acção do anún­cio/realização do Reino/Reinado de Deus (= a transformação da socie­da­de na direcção da partilha dos bens e da sororidade/fraternidade universal), passou-se depressa a cuidar da organi­za­ção eclesiástica, em franca expan­são. O movimento de Jesus, politica­men­te subversivo e conspirativo deu lu­gar a igrejas cada vez mais acomoda­das e institucionalizadas, com funcioná­rios ao seu serviço, retirados dos com­bates pelo Reino/Reinado de Deus. De­pressa passou o tempo do martírio (= testemunho), veio o tempo da orga­ni­zação da instituição com cada vez maior número de aderentes.

Contra esta tendência/corrente, foram escritos os Evangelhos. Voltam a fazer presente a memória subversiva e conspirativa de Jesus, o Homem do Es­pírito Santo por antonomásia, o mili­tante do Reino/Reinado de Deus, ao ponto de ter acabado crucificado pelos do Templo e do Império, coligados en­tre si. O primeiro a ser escrito foi o E­van­gelho de Marcos, por volta do ano 42/44, depois os de Mateus e de Lucas, pelo ano 70/75 e, finalmente, o de João, pelo ano 90. E é o Evangelho de João, como já o havia feito o Evan­gelho de Marcos, aquele que mais faz questão de nos apresentar Jesus em conflito quase permanente com as insti­tuições sagradas de Israel e os seus di­rigentes maiores. Um conflito sem tré­guas, à maneira de um duelo, que só se dá por terminado quando um dos dois protagonistas é morto.

As Igrejas posteriores acolheram estes quatro relatos e reconheceram-nos como canónicos, mas têm-nos trata­do quase como objectos de museu. Meteram-nos em contextos religiosos, para reforçar a religião dominante, em contextos litúrgicos e de celebração re­li­giosa/pagã, longe do contexto político em que a missão/acção de Jesus sem­pre havia ocorrido. Com isto, castraram-nos, tiraram-lhes a Memória subversiva e conspirativa própria do Espírito Santo e leram-nos/interpretaram-nos em cha­ve moralista, como livros de devoção para fazer pessoas piedosas, retiradas do mundo e da intervenção política, dos conflitos e das lutas duélicas pelo Rei­no/Reinado de Deus.

E 20 séculos depois, o quê? Mais do mesmo, ou uma revolução coperni­ca­na? O Concílio Vaticano II já balbu­ciou o início duma mudança copernica­na, mas os do poder eclesiástico e dos privilégios não alinharam e tudo fize­ram e fazem para o abortar. Não estão disponíveis para mudanças que os pro­mova à condição de seres humanos simplesmente. O que pretendem é ape­nas mais do mesmo, onde eles são figuras de proa. E como têm a faca e o queijo na mão… cortam, riscam, deci­dem por onde mais lhes convém.

Temos, como cristãs, cristãos je­suâ­nicos, de erguer-nos, lúcida e cora­josamente, contra esta tendência/cor­rente eclesiástica, contra esta tentação. E regressarmos ao Cristianismo de Je­sus, ao seu movimento sororal/fraterno, inclusivo e igualitário. Temos de regres­sar aos Evangelhos e lê-los em chave po­lítica, subversiva e conspirativa. Te­mos de ser outros Jesus, neste nosso sé­culo XXI e terceiro milénio além.

As Igrejas/paróquias existem aí pa­ra alimentar a religião popular/pagã/fa­ti­mita das populações. Não evangeli­zam as populações, porque nem elas próprias estão verdadeiramente evan­ge­li­za­das. São mais do mesmo. Alimen­tam a religião/o paganismo religioso que deveriam denunciar e combater. São pedra de tropeço, demónio/tenta­ção para as populações, ocasião de queda. Não só não as libertam da reli­gi­ão, como ainda lhes fornecem over­do­ses de religião. Não trabalham para fazer as populações chegar à maiori­da­de de filhas, filhos de Deus Vivo e criador no mundo e na História. Tudo o que fazem é para as manter no infan­tilismo, desde o nascer ao morrer. São mais sinagoga e templo do tempo e do país de Jesus, do que actualização do movimento de Jesus que anuncia e faz presente o Reino/Reinado de Deus no mundo e na História, mediante acções/inter­venções/debates político-teoló­gi­cos fecundamente subversivos e conspi­rativos. Por isso, não são espaços que as discípulas, os discípulos de Jesus des­te século XXI devam frequentar. A estas, a estes, resta-lhes, se não quise­rem ficar no vazio e em completo deser­to, constituir-se em pequenas comuni­da­des de duas ou três pessoas que se reúnem em nome de Jesus e em sua me­mória, e se alimentam do seu Pão/Corpo e do seu Vinho/Sangue derra­ma­do e da sua Palavra/Prática para, assim alimentados, prosseguirem, hoje e aqui, e sem descanso a sua mesma Causa subversiva e conspirativa do Reino/Reinado de Deus.

Quem se dispõe a avançar por esta via?


Jesus segundo Filipe La Féria

A partir da segunda quinzena de Junho último, Jesus segundo Filipe La Féria, está em cartaz na cidade do Por­to. Por mim, gostava mais que fosse Je­sus, o de O outro Evangelho segun­do Jesus Cristo, que eu próprio publi­quei na Editora Campo das Letras. Não por ser o meu livro, evidentemente, mas por ser o Jesus que está mais pró­xi­mo do Jesus histórico. Mas para este Jesus dificilmente haverá alguma vez lugar numa sala de espectáculos. O Jesus de La Féria, sim, porque é um Je­sus inofensivo, como foi inofensivo o filme Jesus Cristo Superstar em que se baseia o espectáculo. Na altura em que o filme passou nas salas de cine­ma, também eu fui ver. E já então per­cebi que não ia além de um Jesus light, para distrair consciências pesadas e entreter pessoas desocupadas.

Hoje, depois do escandaloso su­ces­so edito­rial que foi o livro “Código da Vinci”, este espectáculo está mais do que ultra­passado, no que respeita a possí­veis escândalos à volta de Je­sus, da­queles escândalos que vendem e ain­da são patologicamente aceites/co­men­ta­dos pelas pessoas como se fos­­sem a realidade, e não puro negó­cio. À beira do romance de Dan Brown, os pequenos escândalos à volta de Jesus, aflorados no espectáculo de La Féria mais parecem coisa de crianças. Por isso, o show no Rivoli do Porto va­le­rá pelo espectacular da encenação à La Féria. E pouco mais.

Muito se tem dito e escrito sobre Jesus, ao longo dos dois mil anos de cris­tianismo e de igreja. Mas poucas pessoas terão conseguido até hoje “apa­nhar” o essencial de Jesus. Quase tudo o que se tem dito e escrito é inte­resseiro. Por isso, mentiroso. Diz-se e escreve-se não para revelar Jesus, tal e qual ele é, mas para o esconder. Fa­bri­ca-se e difunde-se um Jesus se­gundo os interesses corporativos de quem escreve. Um Jesus contra o ver­da­deiro Jesus da História. Um Jesus que nos desvie do Jesus da História, demasiado chocante, incómodo, provo­cador, blasfemo, sacrílego.

Chego a pensar que ninguém na História terá sido tão atraiçoado como Jesus. Escrever sobre ele é quase sem­pre traí-lo. Incomoda-nos tanto a sua originalidade, a sua humanidade integral, que nós instintivamente o de­for­mamos, inventamos outro, mais conforme aos nossos interesses. E, no entanto, Jesus é património da Humani­da­de, o nosso maior património. Apete­ce-me até escrever que sem Jesus não há Humanidade. Jesus é a Humanidade que ainda não somos, a não ser nele. Tal­vez por isso, não conseguimos pas­sar ao lado de Jesus, ignorar Jesus. Nem mesmo os que se dizem ateus. Mas, depois, para que o Jesus da Histó­ria não nos perturbe, nem perturbe os nos­sos privilégios e as nossas mesqui­nhas ambições, logo corremos a produ­zir um outro Jesus à nossa medida. E isso só tem uma classificação: traição.

Desde o princípio da Igreja, que as coisas têm sido assim. E o nosso tempo não é excepção. Aliás, poucas vezes, teremos tido tanto atrevimento na desfi­guração de Jesus, como nestes anos que foram os últimos do século XX e os primeiros do século XXI. Digamos que hoje a Ordem Económica Mundial é tão perversa e tão inumana que nós, os que vivemos enquadrados por ela, não podemos suportar Jesus, tal e qual ele é, a sua plena Humanidade, a Luz que ele é. E temos logo necessidade de o denegrir, de o conspurcar, de o ni­velar pela nossa mesquinhez e pela nossa mediocridade, pela nossa inuma­nidade. Para podermos continuar sem quem nos sirva de confronto e de refe­rência.

As Igrejas deveriam por isso estar mais atentas a esta desfiguração de Je­sus e intervir a denunciá-la e a desacre­ditá-la. Não que Jesus precise que nós o defendamos. Somos nós, seres huma­nos, que precisamos de o defender, para sermos mais seres humanos. De­fen­dê-lo, é defendermo-nos como seres humanos, nomeadamente, os seres hu­manos que ainda não somos, mas que estamos chamados a ser. A desfiguração de Jesus não pode deixar-nos indife­ren­tes. Porque se a consentimos, ela sempre abrirá caminho à desfiguração de todas, todos nós. Desfigurar Jesus é ficar com as portas escancaradas pa­ra desfigurarmos todos os seres hu­ma­nos. Impunemente. Como se fosse uma coisa natural. E não um crime de lesa-humanidade.

Mas como hão-de as Igrejas intervir neste combate, se elas próprias são as primeiras a desfigurar Jesus? Então não é que elas, depois que se consti­tuíram, correram logo a fazer de Jesus, Deus, só para que ele não chegue a ser entre nós verdadeiro homem? De­ve­riam saber as Igrejas que a dificul­dade maior no que respeita a Jesus não é nós negarmos que ele seja Deus. É nós negarmos que ele seja Homem, o ser humano por antonomásia. Sem­pre foi assim, desde o início. Digamos que as Igrejas não descansaram enqu­anto não definiram dogmaticamente que Jesus é Deus. Eu sei que também di­zem que ele é homem. Mas se o apre­sen­tamos como Deus e Homem, inevita­velmente, o Deus que dizemos que Je­sus é, logo “come” o Homem que dize­mos que Jesus também é. Deus absorve por completo o Homem e este, na prá­tica, desaparece de cena. Porque se Jesus é Deus e Homem, então nunca chegaremos aos seus calcanhares. Porque nós só somos seres humanos, mulheres ou homens, não somos Deus. E com esta maneira de apresentar as coisas, lá deitamos tudo a perder. Men­ti­mos. E nunca crescemos em humani­dade até alcançarmos a estatura de Je­sus, quando para isso é que ele nos foi dado!

O que sempre haveremos de dizer é que Jesus é o Homem integral, o Ser Humano completo, tal e qual como to­dos os demais seres humanos havemos de ser. Ele é a nossa fonte que há-de tornar-se rio e o nosso oceano aonde finalmente mergulharemos. O nosso nas­cente e o nosso poente. O nosso al­fa e o nosso ómega. Dizer que ele é Deus é, de certo modo, traí-lo. Não é por Jesus ser Deus que nos salva, isto é, que é o nosso paradigma, aquele em quem havemos de pôr os olhos. É por ser Homem, o Homem! Em tudo i­gual a nós, excepto no pecado. E por­quê excepto no pecado? Porque o pe­ca­do é próprio do ser humano ainda a caminho, ainda em vias de criação. O Homem integral já não conhece pe­ca­do. E esse é Jesus, o de Nazaré.

Se repararem, as Igrejas não gos­tam de Jesus. Gostam mais de Cristo. De Jesus, simplesmente, não gostam. Quando muito, gostam de Jesus Cristo. E quando falam de Jesus Cristo, é sem­pre mais de Cristo do que de Jesus que elas falam. As Igrejas preferem Cris­to a Jesus. Porque Cristo tem uma di­men­são mítica que fica fora da História e transporta-nos ao imaginado âmbito de Deus, melhor dos deuses do Paga­nismo, das Religiões, por isso, uma di­mensão inventada/imaginada pelos nos­sos medos e pelas nossas fragili­da­des. Também pelas nossas ambições e pelas nossas inumanidades.

O medo criou os deuses. É cien­tífico. O medo criou também os Cristos. Deuses, eles próprios, ou intermediá­rios entre os deuses e nós, os seres hu­manos. Vêm depois os sacerdotes, como profissionais do sagrado que vi­vem à parte dos demais, e a quem cabe a quotidiana tarefa de cuidar dos cultos com que nós os seres humanos have­mos de amansar/adorar/agradar/apa­ziguar os deuses. É assim, pelo menos desde que existe o homo sapiens, o patamar mais desenvolvido a que os seres humanos já chegamos na Evo­lução.

Ora, quando entre nós aconteceu Jesus, o ser humano integral, a Huma­nidade pôde perceber, como num re­lâm­pago, à luz da sua prá­tica política e sororal/fraterna que a Verdade dos seres humanos não é assim como di­zem as Religiões e os nossos medos. O que dizem as Religiões e os nossos medos é Mentira. E só a Verdade nos fará livres, quer dizer plenamente hu­ma­nos. Ao contrário do que constante­mente nos repetem as Religiões e os nossos medos, para que sejamos mu­lheres e homens submissos aos deuses e cumpramos com os nossos deveres para com eles, Jesus atreveu-se a viver no mundo e na História como se Deus não existisse. E, no entanto, manteve como ninguém com Deus, a quem ele experimentava como “o seu Pai” ou “o seu Abbá/a sua Mammá, uma relação de intimidade total e ininterrupta que, em lugar de o diminuir, o guindou à con­dição de Filho muito amado de Deus, ele próprio Deus entre nós e con­nos­co, o Homem! Até hoje, ninguém mais alcançou semelhante patamar de humanidade. Digo humanidade, não digo divindade. E com isso revelou que era mentira tudo o que dizem os nossos medos, as Reli­giões e os sacerdo­tes que a elas presidem.

Mas, porque Jesus revelou que era Mentira a condição em que vivemos, ditada pelos nossos medos, mais as re­ligiões e os sacerdotes, os cultos aos deuses e às deusas, os templos e os al­tares, foi logo rotulado de sacrílego e de blasfemo e também de subversivo e de conspirativo. A sua morte foi decre­tada e ele rapidamente executado. Num género de morte, que não deixou dúvidas a ninguém que este Homem era um perigo público. De modo que nin­guém mais, em tempo algum e em lugar algum, quisesse ser como ele, ou sequer pensasse nele como algo de bom para a Humanidade. O seu nome tão pouco deveria ser alguma vez mais pronunciado. Assim decretaram os que o mataram. E assim deveria ser para todo o sempre.

Foi então que aconteceu o inespe­rado. Um punhado de mulheres, entre aquelas que haviam sido suas discípu­las, deram-se conta de que o Espírito de Jesus prosseguia presente e actuan­te na História. Afinal, a morte de Jesus na cruz não tinha tido a última palavra. A sentença dos sacerdotes e dos repre­sentantes do Império não teve valor de­finitivo. Foi mesmo desautorizada e re­vo­gada! E a prova é que elas próprias experimentavam-se agora seres huma­nos como ele, do mesmo jeito dele. Se assim era, então a História não tinha que ser sempre e apenas mais do mes­mo. Tudo podia e devia ser diferente, como agora era claro aos olhos delas. Na sua morte/explosão, Jesus acabou por dar ao mundo e à História o seu pró­­prio Espírito, para que outras mu­lhe­res, outros homens se atrevam a ser como ele, outros Jesus, no seu aqui e agora. Desde então para cá, sempre tem sido assim. E ainda hoje é assim. Embora menos. Porque, infelizmente, as Igrejas preferem Cristo, mítico, a Jesus, o de Nazaré. Ora, só Jesus, o ser humano integral, nos humaniza. E do que nós precisamos é de nos huma­nizarmos, não de nos divinizarmos. Divinizar-se é desumanizar-se. É subir, em lugar de descer. É tornar-se Poder e Privilégio perante os demais. É per­ver­ter-se. E não há ser humano mais completo que aquele que um dia se des­cobre irmã, irmão dos demais e as­sim vive a todo o instante.

Curiosamente, foi Pilatos, o prefeito do Império de Roma em Jerusalém, quem, no dizer do Evangelho de João, se referiu a Jesus como o Homem. Eis o Homem! Para cúmulo, fê-lo, quando Jesus havia acabado de ser açoitado por ordem dele, o que o tinha deixado num lastimoso estado. Era uma chaga só. Um corpo de sangue. Um ninguém. E é assim, como um ninguém, que Pi­la­tos o apresenta à multidão que pedia a sua morte na cruz. Apresenta-o com essas palavras: Eis o Homem! Como a significar que mais ninguém ali o era. Muito menos o próprio Pilatos, o carras­co maior de Jesus. Nem os chefes dos sacerdotes do Templo de Jerusalém, com o sumo-sacerdote à frente, que tudo fizeram para que Jesus caísse nas mãos de Pilatos e acabasse crucifica­do. Eis o Homem! Como quem diz: Fora de Jesus, não há seres humanos. Só carrascos. Lobos. Feras. Selva. Tanto pior, se eles vestem de sacerdote, ou de chefes de governo e de estado, nu­ma palavra, se vestem de Privilégio!

A comunidade de discípulas, discí­pulos de Jesus que reunia na casa de Maria, mãe de Marcos, terá sido aquela que mais conseguiu “apanhar” o essen­cial de Jesus, o Homem, tal e qual ele foi no seu pequeno país. É desse ambi­ente familiar e íntimo de liberdade e de sororidade/fraternidade sem frontei­ras étnicas ou outras que nos vem o E­vangelho de Marcos, esse mesmo que eu trabalhei para o século XXI e pu­bliquei com o título O outro Evange­lho segundo Jesus Cristo. Mergulhar com tempo nestas páginas é descobrir/en­contrar Jesus, o Homem, o ser humano. E, ao mesmo tempo, descobrir como havemos de ser até sermos como ele. Mergulhem, pois, nessas páginas. E se, num destes dias, forem ao Teatro Ri­voli, no Porto, ver Jesus segundo La Fé­ria, mais necessidade deverão sentir de mergulhar depois no Jesus do E­van­gelho de Marcos que o meu livro apresenta para o nosso hoje e aqui. Em comunhão com ele e com o seu Es­pírito, perderemos todos os medos. Nas­ceremos de novo, do Alto, do Es­pírito de Jesus. Deixaremos de vez a mentira das religiões, o medo dos deu­ses e das deusas. E viveremos no mun­do e na História como se Deus não existisse, isto é, como filhas adultas, filhos adultos do Pai/Mãe que nos está ainda a criar, e cuja alegria maior é ver-nos crescer todos os dias em res­pon­sabilidade e em criatividade no mun­do e na História. Como irmãs, ir­mãos dos demais. E da própria Nature­za. Numa palavra, ver-nos ser outros Jesus.


Pedro Casaldáliga,

Bispo emérito de São Félix de Araguaia

O grande pecado do mundo

hoje é o capitalismo neoliberal

"O grande pecado do mundo hoje é o capitalismo neoliberal", afirma o Bispo Pedro Casaldáliga, Brasil, em en­trevista a Alandar, jornal irmão do nosso Fraternizar, que se publica em Madrid. O Bispo que por duas vezes foi candidato ao Prémio Nobel da Paz e que em toda a sua vida nunca usou as insígnias episcopais, por achar que elas "não fazem nenhum bem à Igreja", confessa também: "Tudo é relativo, ex­cepto Deus e a fome".

Instado a revelar quais são para ele os três grandes desafios que se co­locam à Igreja do terceiro milénio, res­pon­de: "O ecumenismo e o macroe­cume­nismo; a pobreza estrutural das suas próprias instituições; a profecia contra sistemas, estruturas que matam, que excluem, que proíbem. Em síntese: a união das próprias igrejas e a profe­cia diária que denuncia, anuncia e con­sola."

Outra revelação do Bispo que nunca quis ter um paço episcopal e sempre viveu pobre entre os pobres: "As pessoas que mais iluminaram o meu caminhar foram Jesus de Nazaré, Fran­cisco de Assis, Teresa de Lisieux, Car­los de Foucauld, e formadores que tive ao longo dos estudos eclesiásticos e companheiros de episcopado, aqui na América Latina."

Finalmente, quatro respostas bre­ves para outras tantas perguntas: Áfri­ca? "A maior dívida da humanidade". Injustiça? "A negação do amor". Ter­ceiro mundo? "Um escândalo na his­tória humana. Porque terceiro mundo por definição significa um mundo proi­bido, marginalizado, explorado, infe­rior". Primeiro mundo? "A prepotência, o lucro, o egoísmo, o consumismo, o im­perialismo".


Os Salmos do Padre Mário de Oliveira

O novo livro do Pe. Mário foi apresentado no Porto e em Lisboa, no decorrer da Feira do Livro. No Porto, a sessão contou com a presença e a intervenção do Pe. Anselmo Borges, professor de Filosofia da Universidade de Coimbra e amigo do autor. E também com a presença do actor-encenador Júlio Cardoso, da Companhia de Teatro Seiva Trupe, do Porto, que disse, com visível emoção na voz, alguns Salmos. Desta vez, Anselmo Borges não escreveu previamente o texto da sua intervenção. Por isso não podemos divulgá-lo aqui. Duas foram as ideias que desenvolveu: a)O livro é muito bonito, está escrito com muita ternura e, por isso, chega a ser violento. b)Os salmos reproduzem bem o duélico combate teológico que atravessa todos os livros da Bíblia por parte dos profetas contra os sacerdotes e seus cultos. Como exemplo deste combate, Anselmo Borges leu pedaços do salmo 50, o último do livro. Os dois textos que aqui se reproduzem na íntegra representam duas outras opiniões sobre o livro. A do director de VP-Voz Portucalense, Pe. M. Correia Fernandes, foi publicada no próprio semanário da Diocese do Porto. A do Prof. Manuel Sérgio foi enviada por mail ao Jornal Fraternizar, como uma primeira e espontânea reacção à leitura do livro. Em ambas as sessões, também se pronunciou o autor do livro. "Porque orar não é actividade de beatos, nem de religiosos. Isso fazem os pagãos. É escutar Deus Vivo no clamor do Empobrecido e Humilhado"

Ponto de vista de Prof. Manuel Sérgio

Das minhas leituras, no campo da filosofia, encontrei dois ateus que, ain­da hoje, muito admiro: Feuerbach e Marx. Aquele fez o traço-de-união entre Hegel e Marx. Enquanto Hegel aplicava o conceito de alienação ao Es­pírito Absoluto, Feuerbach (1804-1872) de­no­minava alienado todo aquele que se despoja do que lhe pertence, em pro­veito de uma realidade ilusória, como afinal Deus de que lhe falavam  o era. Muito próximo à lei dos três estados de Augusto Comte, ele escreveu, na Essência do Cristianismo: “O meu pri­meiro pensamento foi Deus; o segundo, a razão; e o terceiro, o Homem”. E che­gou mesmo a afirmar: “O ser absoluto, o Deus do Homem, é o próprio ser do Homem”.

Engels salientou a enorme sensa­ção de liberdade que os rapazes da sua geração sentiram, ao ler a Essência do Cristianismo. Bakhounine, em 1843, referiu que o marxismo não é outra coi­sa, no domínio social, que o humanismo de Feuerbach. Cito, agora, um trecho do opúsculo Deus e o Estado deste autor: “O céu da religião não passa de uma miragem em que o homem, excita­do pela ignorância e pela fé, encontra a sua própria imagem (...) divinizada. O cristianismo é a religião por excelên­cia, visto expor e manifestar, em toda a sua plenitude, a natureza, a própria essência de qualquer sistema religioso, que é o empobrecimento, a escraviza­ção da humanidade, em favor da divin­dade. Deus surge e o homem aniquila-se; e quanto maior se torna a divindade, mais miserável se torna a humanidade”.

Voltemos ainda à Essência do Cris­tianismo: “O que se atribui a Deus nega-se ao Homem e vice-versa, o que se dá ao Homem rouba-se a Deus. Afirmar Deus significa negar o Homem”. E, nou­tro passo: “O princípio essencial deste meu livro (referia-se à Essência do Cristi­a­nismo) consiste em que só o amor in­condicional e total do Homem pelo Ho­mem (...) é a verdadeira religião; não ter religião significa pensar só em si mesmo; ter religião significa pensar nos outros também”.

O ateismo de Feuerbach resultava da ideia de Deus que a Igreja Católica e Romana defendia, dogmaticamente, e que não tinha em conta o bem co­mum. O conluio trono-altar afastava a mensagem evangélica dos problemas reais da humanidade. O teólogo era um áulico, exprimia-se em latim, en­con­tra­va-se ao serviço, não do Evan­ge­lho, mas dos interesses da classe dominante. Por outro lado, o progresso das ci­ên­cias experimentais levava os intelectuais a considerá-la como o sis­te­ma absoluto de todas as referências, como o conhecimento (o único) onde a certeza despontava.

Foi devastadora a crítica filosófica da religião que Feuerbach iniciou. Marx, no entanto, n’O Capital foi, a este respeito, um mestre excepcional: “O reflexo religioso do mundo real só pode desaparecer para sempre, quan­do as condições práticas da vida quoti­diana ofereçam ao ser humano rela­ções perfeitamente inteligíveis e razoá­veis com os seus semelhantes e com a natureza”. Noutro passo, ele é bem ex­plícito: “a crítica da religião é o prin­cípio de toda a crítica”.

A crítica de Marx (1818-1883) à re­ligião não era outra que uma crítica frontal às Igrejas Cristãs que, adiantan­do o nome de Jesus, potenciavam a reacção, a manipulação, no processo histórico; era uma crítica ainda ao cris­tianismo, como ideologia, que alienava os crentes, afastando-os de uma práti­ca revolucionária; era uma crítica por fim à religião que fornecia ao poder a ideologia que mais lhe convinha, no pro­cesso da luta de classes.

Com a publicação do seu livro Sal­mos – versão século XXI, o Padre Mário de Oliveira, ressoando criticamente Feu­erbach e Marx, é um humanista de sinal diferente, fazendo do Jesus de Nazaré o homem livre e libertador, por excelência.

Vejamos o que ele canta, no Sal­mo 12: “O que nos vale a nós pobres e oprimidos/ é que Tu jamais alinhas com a minoria dos que/ fazem da Men­tira a sua catequese e do Assassínio/ das maiorias empobrecidas o seu sá­dico culto./ Eles bem tentam convencer-nos de que habitam/ a Tua Casa e que os seus Palácios são casa/ de Justiça. É a sua maior mentira”.

E no Salmo 17: “Vens sempre em meu auxílio mesmo quando/ não te sin­to; és a minha rocha viva mesmo quan­do/ tudo se desmorona dentro de mim./ Escutas os meus gritos ainda antes de­les me saírem/ da garganta e estendes-me a tua mão ainda antes/ de eu te estender a minha./ (...) Aprendi a tradu­zir os Teus silêncios sem resposta/ aos meus sobressaltos como outros tantos apelos/ a assumir-me como se Tu não existisses”.

Há, na poesia (como na obra toda) do Padre Mário de Oliveira um sopro de renovação evangélica, de acordo com o que de mais actual se encontra nas aspirações das mulheres e dos ho­mens do nosso tempo. Por isso, ele canta, no Salmo 32: “Reconheci que o meu pecado é que deu origem/ ao Po­bre e encarei de frente a minha culpa. Disse:/ Confessarei ao Pobre cujo cla­mor é escutado/ pelo Senhor todo o meu Cinismo e toda/ a minha Indiferen­ça./ Vi-me então nascer do Sopro que vem do Pobre./ E todo o meu Cinismo e toda a minha Indiferença/ faleceram num ápice”.

Nasceu, pois, na língua portugue­sa, um poeta do sagrado, na linha de Teixeira de Pascoais e de Jorge de Li­ma e de José Régio, mas iluminado por um humanismo para o século XXI. O sagrado, em Mário de Oliveira, é uma forma constitutiva, ôntica do ser huma­no, que funciona na relação com o Ho­mem-Deus que Jesus de Nazaré reve­lou e, portanto, que não é um Deus dis­tante, mas o Deus que nos interpela, através do pobre e do necessitado.

Aliás, para mim, a revelação do sa­grado é poesia. Como Mário de Oliveira que faz da poesia um convite a todas as audácias e originalidades, que têm em Jesus a sua expressão máxima! Fa­zer poesia é amar. E ninguém nos a­mou mais do que Jesus de Nazaré: “A­mai-vos uns aos outros, como eu vos amei!”.

Só poderia ser poeta alguém, como o autor do livro Salmos – versão século XXI, onde a dimensão artística é uma dimensão de amor. Melhor: é uma di­men­são política, para que o amor se ma­terialize, na vida de todos os dias e de todos os homens e mulheres. Re­pi­to-me: nasceu um poeta do sa­grado, tão ateu como Feuerbach e Marx, por­que profundamente crente naquele Ho­mem-Deus que nos amou até à morte da cruz e continua vivo em todos os mar­ginais e marginalizados e em todos os que se encontram per­meáveis às ra­zões dos marginais e marginalizados.

No magistério crítico que o Padre Mário de Oliveira vem exercendo, a sua poesia apresenta a novidade de não pre­o­cupar-se demasiado com os pro­ces­sos literários e estilísticos, porque se trata de uma instância dialéctica que vai do político ao sagrado e do sagrado ao político. Mesmo fazendo política, é bom não esquecer-se que o humano é sagrado, porque nele se manifesta Je­sus de Nazaré que, através de todos os que sofrem, estará em agonia até ao fim dos tempos...


Os Salmos de Mário

Ponto de vista de M. Correia Fernandes

Mário de Oliveira acaba de publicar mais um volume, agora na editora Cam­po das Letras. Intitula-se Salmos: versão século XXI.

A imitação dos salmos bíblicos não é novidade, tantos foram e são os au­to­res que por muitas formas o fizeram, mais ou menos decalcados sobre a for­ma ou o conteúdo do original.

Estes salmos na versão deste sé­culo são apenas 50, um terço dos origi­nais inspiradores.

Este corte na forma é também a­companhado de um corte nas dimen­sões do seu sentido.

De facto, se podemos encontrar nos textos expressões de louvor e hu­mildade, e mesmo de uma espirituali­dade e consciência da relação filial com Deus, tudo parece diluir-se numa cons­tante atitude de desilusão, de de­sencanto, da incapacidade de supera­ção das contradições. Ao contrário do salmista original, que reconhecia a sua pequenez, nestes salmos parece emer­gir expressões de orgulho e auto-sufi­ci­ên­cia humana e uma certeza de jul­ga­mento que parece usurpada aos deu­ses terrenos.

Se por um lado encontramos ex­pres­sões bíblicas, como “Indizível é o Teu Nome em toda a terra!” (s. 8), ou “Ale­gra-se o pobre ao ouvir pronunciar o teu Nome” (s. 21), ou “Tu és a minha luz e a minha salvação” (s. 27), “é de Ti, ó Deus da Ternura e da Liberdade que tenho fome” (s. 43), por outro lado en­contramos expressões em que so­bressai uma certa sensação de julga­mentos condenatórios bem pouco bí­blicos: “Os arrogantes que presidem à Administração do templo e do Império não Te conhecem: Tudo o que dizem é Mentira e tudo o que fazem é Explo­ração e Homicídio” (s. 5), ou “A língua dos detentores de privilégios cospe ve­neno...” (s. 12), “os poderosos subme­tem toda a gente pelo medo” (s. 7) e tantas outras.

Mais estranhas são expressões co­mo esta: “Do Pobre é a terra e o que nela existe...” (s. 24) , desviando o po­der de Deus para a condição humana. O “felizes os pobres” não pretendeu transformá-los em senhores: deixariam de ser pobres, e portanto bem-aven­turados.

No entanto perpassa pelo livro um evidente sopro de espiritualidade e mui­tos dos dramas relatados são den­sos e eternos. Nesta linha, vale a pena ler o livro.

Mas é fácil que uma espiritualidade demasiado pessoal possa ter a densi­dade de comunhão e partilha. Fica-nos muito a sensação de uma centralidade excessiva do “eu”, geralmente contra­pos­to ao Poder, mesmo quando legiti­ma­mente instituído ou exercido como o serviço que o legitima.

Parecem detectar-se algumas ro­ta­ções espirituais que importa promo­ver. Nota-se muito a presença dos sal­mos que denunciam e a falta da temá­tica dos salmos penitenciais.

Isto não impede que seja de acon­selhar a sua leitura. Expurgados de umas quantas praganas persistentes e renitentes, eles podem ajudar o leitor orante a abrir-se ao sentido espiritual da vida.

Por isso, não apoiamos as palavras do contraditório prefácio: “É um livro por demais chocante. Não o abram. Mui­to menos o leiam”. Por mim diria: leiam-no e expurguem-no da moinha per­sistente que envolve os grãos. Tal­vez possa ficar bom o trigo remanes­cente. (CF)

Padre Mário de Oliveira, Sal­mos, versão século XXI. Porto, Campo das Letras, 2007. 126 p. Com uma ilustração de José Ro­dri­gues.


Papa no Brasil: Manchetes e realidade

Escreve: Frei Betto

Pelas manchetes dos media, a visita de Bento XVI ao Brasil resultou em con­de­nações ao aborto, divórcio, fim do ce­libato sacerdotal, e à Teologia da Li­bertação, actuação da Igreja na política e nos movimentos sociais. De facto, a pre­sença do pontífice entre nós mobi­li­zou multidões e fê-lo experimentar a calorosa acolhida do povo brasileiro. Porém, muitos não foram às ruas por serem católicos, e sim por estarem di­ante de uma celebridade alvo de todos os media e imantada pela aura divina. Basta conferir a missa de domingo em Aparecida, na qual eram esperados, no mínimo, 500 mil fiéis. Compareceram no máximo 150 mil.

Bento XVI considera-se um cruzado investido da missão de salvar a Igreja diante desse mundo “secularista, hedo­nista, relativista”, termos repetitivos em seus pronunciamentos. Sua óptica do mundo actual é pessimista, ao contrário do apóstolo Paulo, que via a graça di­vina sobrepor-se ao pecado (Romanos 5,20).

Sua visão de Igreja é pré-conciliar, centrada na prática individual das vir­tudes, refém de um moralismo capaz de condenar o sexo antes do casamen­to e, contudo, manter-se quase indife­rente ao que os bispos do Continente, reunidos em Medellín (1968), qualifi­ca­ram de “pecados estruturais”, como a exploração económica, o latifúndio, o desemprego e o neocolonialismo.

O papa decepcionou aqueles que esperavam dele uma condenação explí­cita da Teologia da Libertação. Se o fi­zesse, estaria contradizendo João Pa­ulo II, que em carta dirigida aos bis­pos brasileiros, a 9 de Abril de 1986, de­clarou: “Estamos convencidos, nós e os senhores, de que a Teologia da Li­bertação é não só oportuna, mas útil e necessária. Ela deve constituir uma nova etapa – em estreita conexão com as anteriores – daquela reflexão teoló­gica iniciada com a tradição apostólica e continuada com os grandes padres e doutores, com o magistério ordinário e extraordinário e, na época mais re­cen­te, com o rico património da doutri­na social da Igreja expressa em docu­mentos que vão da Rerum Novarum a Laborem Exercens.”

Ao falar aos 170 bispos latino-ame­ricanos e caribenhos, na abertura do encontro que os reuniu em Aparecida até ao passado dia 31 de Maio, Bento XVI alertou que “cresce a distância entre pobres e ricos” e reafirmou que “a op­ção pelos pobres está implícita na fé cris­tológica”, ou seja, não se pode con­siderar cristão quem não se pauta por priorizar a defesa dos direitos dos opri­midos e excluídos, com os quais Jesus se identificou (Mateus 25, 31-44). Fri­sou que a Igreja é “advogada da Justiça e dos pobres”.

O carácter laico da sociedade mo­der­na incomoda o papa. Ele gostaria que as escolas públicas do Brasil ensi­nas­sem catolicismo. Felizmente o presi­dente Lula rejeitou a proposta e reafir­mou a laicidade do Estado brasileiro.

Porém, não deveria o papa pergun­tar-se como as escolas católicas for­mam na fé os seus alunos? Por que tan­tos políticos corruptos e criminosos de colarinho branco são ex-alunos de colégios católicos?

Ao mencionar a esfera política, o pa­pa mostrou-se confinado à teologia liberal europeia, em especial à alemã. É preciso esclarecer que, no país natal de Ratzinger, todos os pastores, cató­li­cos e protestantes, são funcionários do Estado, ou seja, remunerados com di­nheiro público. Daí o silêncio das Igre­jas frente às mazelas do governo alemão.

Como pretender que a Igreja seja apolítica? Se silencia, aprova, legitima o poder vigente, como foram os casos dos bispos na Espanha sob a ditadura de Franco e no Chile sob a de Pino­chet. E ao denunciar, estaria fugindo de sua missão? Ora, clamar contra as injustiças, como faz no Brasil a CNBB, é exigência profética da fé cristã. Con­vém não esquecer que todos nós, cris­tãos, somos discípulos de um prisio­nei­ro político. Jesus não morreu enfer­mo na cama, mas preso, torturado e con­denado à pena capital por dois po­deres políticos!

Diante das injustiças, se a Igreja se calar, disse Jesus, “as pedras gritarão” (Lucas 19,40). Não se trata de a Igreja assumir este ou aquele partido, incen­sar ou excomungar o capitalismo ou o so­cialismo. O papel da Igreja é estar ao serviço e em comunhão com o povo, so­bretudo os mais pobres. Se o sistema e o governo estiverem também próximos ao povo, haverão de manter boas rela­ções com a Igreja. Mas se forem contra os interesses populares, terão de enca­rar a Igreja como uma pedra no sapato.

É sintomático que, no dia seguinte à despedida do papa, o fazendeiro Vi­tal­miro Bastos de Moura, o Bida, um dos mandantes do assassinato da irmã Dorothy Stang, tenha sido levado a jul­ga­mento em Belém (PA). A religiosa, que dedicou sua vida aos sem-terra, foi morta com seis tiros, em Anapu (PA), a 12 de Fevereiro de 2005. Tivesse ousa­dia profética, Bento XVI teria unido a santidade de frei Galvão, primeiro bra­si­leiro canonizado por ele, ao martírio de irmã Dorothy. E não duvido que os fazendeiros do consórcio latifundiário que mandaram matá-la se consideram todos católicos... Bida foi condenado a 30 anos de prisão no dia 15 de Maio.


O limbo acabou!

O limbo acabou! Decidiu o papa Bento XVI. A verdade é que o limbo nun­ca existiu. Não passou duma inven­ção de certos teólogos que aceitaram o terrorismo teológico de St.º Agos­tinho, o inventor do “pecado original”. A boa notícia de Deus é: Nem pecado original, nem limbo. A invenção do lim­bo tentou amenizar as consequências da doutrina do pecado original. O bispo de Hipona não hesitou, em seu tempo, em mandar para o inferno todas as cri­an­ças que morressem sem baptismo. E muitas foram, quer antes dele, quer de­pois dele. A esmagadora maioria. En­quanto as pessoas não recebessem a água do baptismo, faziam parte da mul­­tidão condenada ao inferno. Seme­lhante terrorismo fez o seu caminho na Igreja católica. Ainda hoje as mães e os pais que pedem o baptismo para as suas filhas, os seus filhos, fazem-no sobretudo por essa razão. Pensam que, se o não fizerem, estão a conde­ná-los ao inferno eterno. Vejam só o que o bispo Agostinho fez do Evangelho de Jesus. E, mesmo assim, ainda foi ca­no­nizado pela Igreja e declarado “Dou­tor da Igreja”. Uma barbaridade sem nome. Uma ignomínia. Uma vergo­nha. O anti-Evangelho como doutrina oficial da Igreja.

Felizmente, nem pecado original, nem limbo. Nem inferno. Vem agora a Igreja, tarde e a más horas, declarar que a existência do limbo não faz sen­tido e que choca com a postura de Je­sus para com as crianças. O documento recém-publicado em Roma não é uma de­finição dogmática. É a opinião de uma Comissão de peritos em teologia, reconhecida pelo papa Bento XVI e pu­blicada, para que faça também o seu caminho na Igreja. Não se pense que é um documento ousado. Nada disso. Chega a dizer que quem quiser pode continuar a pensar e a admitir que o lim­bo existe.

Enquanto a Igreja não se atrever a desdizer St.º Agostinho sobre o pecado original, sempre haverá lugar para que al­guns teólogos sejam levados a pen­sar no limbo como uma possibili­dade. Pensam que a Igreja vai algum dia che­gar tão longe? No dia em que a Igreja admitir que não houve nem há pecado original (enquanto o não fizer é uma Igre­ja caída no erro e na mentira e por isso como aquele cego que guia ou­tro cego), morre como Cristandade e nascerá como Igreja Comunidade de comunidades. Mas então já nem lugar haverá para papas-chefes de estado. Só para irmãs, irmãos que se amam e acolhem na diferença.

Está, pois, na hora de a Igreja se converter à Humanidade, em lugar de a Humanidade se converter à Igreja. Avancemos por aí. Porque de Roma con­tinuam a soprar ventos de Poder e de Privilégio, em vez do Sopro ou Es­pírito de Jesus crucificado/ressusci­tado. E passemos do terrorismo teoló­gico de Roma ao Evangelho de Jesus.


LIVROS DO TRIMESTRE

Editorial Trotta / José Maria Castillo

Espiritualidade para insatisfeitos

O autor, jesuíta até há poucas semanas atrás, acaba de abandonar a Companhia fundada por Inácio de Loyola. Ninguém o expulsou. Foi ele quem quis sair. Não suportou mais que se intrometessem na sua consciência de cristão adulto e por isso responsável, muito para lá da criança que carece de tutores. A irrevogável decisão de publicar o livro pode ter sido a gota de água que fez extravasar o copo, já que os "tutores" terão tentado tudo para que ele não fosse publicado, pelo menos, com o aval da Companhia de Jesus. São 200 páginas fecundamente demolidoras e alternativas, totalmente na linha da Espiritualidade de Jesus. Obviamente imperdível.

Os textos do livro aparecem agrupa­dos em 11 capítulos que, por sua vez, se abrem em vários subtítulos. São estes os respectivos títulos: 1. Os «perigos» da espiritualidade. 2. O centro da es­pi­ritualidade cristã. 3. O Deus da alegria e a alegria dos cristãos. 4. Felicidade e alegria na vida dos cristãos. 5. A fé cristã numa teologia de fronteira. 6. Je­sus: pessoa e projecto. 7. O medo aos po­bres. 8. Novos desafios, novas espe­ran­ças. 9. A utopia de Jesus. 10. Glo­balizar a utopia do reino. 11. A utopia sequestrada.

"Confesso que recolhi estes mate­ri­ais movido por três ideias fundamen­tais. Em primeiro lu­gar, o centro da es­piritualidade cristã não está na renún­cia a tudo o que de bom e gozoso Deus colocou no mundo, mas na vida, na ple­nitude da vida, na dignidade da vida e também no gozo e no desfrute da vida. Em segundo lugar, a espiritualidade cris­tã comporta u­mas exigências éti­cas que arrancam da mensagem de Jesus sobre o reino de Deus, o que não significa reduzir o critianismo a um projecto ético, porque a ética de Cristo não se pode levar à prática, a não ser a partir duma profunda expe­riência mística. E em terceiro lugar, a espiritualidade cristã não se pode vi­ver senão a partir duma verdadeira pai­xão pela utopia. De modo que a uto­pia tem de ser o motor de toda a pes­soa que pretenda tomar a sério a es­piritualidade que brota do Evan­gelho."

Espiritualidade para insatisfeitos, porquê? Porque só neles há ainda lu­gar para Deus, o de Jesus e para a en­trega pessoal às causas do Reino.

ArtEscrita / Manuel Maria

Contas de um outro rosário

O autor é professor de Português na Escola Secundária de Gondomar. Este seu segundo romance (o primeiro, "Checa é pior que turra", 1996) revela-nos já um autor amadurecido que trata por tu a arte da escrita e da ficção. A figura do padre povoa todo o enredo, como é timbre do romance português. Impossível, ao lê-lo, não nos lembrarmos de "O crime do padre Amaro", do nosso grande Eça de Queirós, só que aqui o padre já não peca por desrespeitar a lei do celibato; é a lei do celibato que é pecado, sempre que é acatada/respeitada por algum padre contra a própria consciência. Obrigatório ler.

"A sala de audiências estava a es­toirar de gente e havia mais de meia hora que o juiz, numa voz arrastada e mo­nocórdica, lia os considerandos que haveriam de ditar a sentença. A meu lado, o cónego Luís cochilava e, de quando em quando, arregalava o olho esquerdo a perguntar se ainda demo­ra­ria muito. De súbito, um grito deses­perado rompe aquele quase silêncio. Era o grito de uma mulher a quem con­denavam o pai dos seus filhos: - Eu ain­da conto tudo, eu juro que ainda con­to tudo, que o meu homem está ino­cente! Instintivamente, Custódio voltou-se para trás e, acto contínuo, mergulhou a cara nas mãos para es­conder da mulher alguma lágrima não contida. - O réu que se com­por­te com digni­da­de! - admoes­tou o juiz. O vere­dicto estava profe­rido. - O meu ho­mem está inoceee­en­te! - grita a po­bre mulher, es­gue­de­lhando-se com gestos brus­cos e desordena­dos de mãos como gadanhas. Estar­reci."

É assim o início do romance, o que desde logo nos diz que estamos peran­te um crime que o autor vai dissecar e investigar ao longo de quase 200 pági­nas e que consegue prender a leitora, o leitor da primeira à última, num misto de prazer literário perante a arte de bem narrar e de ansiedade perante a incerteza do desfecho.

Perceberemos, depois, que não se trata de uma estória apenas, mas de várias que se entrecruzam, cada qual a mais picante, como de resto acontece na vida de todos os dias. De todas as es­tórias com que se tece o enredo, nun­ca mais esqueceremos a figura do Pe. João e de Maria do Carmo que, um dia se lhe apresentou a pedir para ser sua catequista. Leiam o livro e logo verão porquê. Igualmente, nunca mais nos esqueceremos de Carioca, um homem sem pergaminhos, a quem o autor sabi­a­mente recorre para dizer o que mais ninguém teria autoridade nem estofo para dizer. Porque há uma grandeza humana que só os pequenos e os ile­tra­dos ou quase transportam. Cabe aos es­critores de fibra e de génio descobri-los e dar-lhes protagonismo, o que mui­to bem faz aqui Manuel Maria.

Sal Terrae / Johann Baptist Metz

Memoria passionis

É uma obra de grande densidade teológica e de grande actualidade. Um pequeno-grande monumento teológico de 370 páginas, distribuídas por 18 capítulos, cada qual o mais oportuno. Pode dizer-se que é Metz no seu melhor, com uma teologia que tem tudo a ver com o nosso mundo e com a nossa actualidade, nomeadamente, com o sofrimento das vítimas humanas, hoje cada vez em maior número.

"Que sentido tem a determinação de levar a um mundo com frequência tão terrivelmente profano uma catego­ria que, para o cristianismo, pertence a todas as luzes à cristologia e ao cen­tro da liturgia? Que sentido tem a deter­minação de investir de memória o cla­mor dos seres humanos e de pôr a pra­zo a sua duração? Estas perguntas afe­ctam as raízes da identidade e da mis­são do cristianismo no nosso mundo. Ao fim e ao cabo, os cristãos iniciaram a sua caminhada como uma pequena comunidade de memória e de narrativa comprometida no seguimento de Jesus, uma comunidade que se pôs em marcha com a consciência de que tinha algo a dizer a todos os seres humanos, isto é, ao «mundo». E na actualidade? Não é certo que hoje os cristãos, embora presentes no mundo inteiro, há muito tempo que não querem dizer nada ao   conjunto da humanidade?"

São duas as partes vertebrais do livro. A primeira - Memória passionis: com o olhar posto no mundo - abrange os primeiros 13 ca­pítulos. A segunda - Memoria passio­nis: perspectivas à volta do procedi­men­to de funda­men­tação - abran­ge os restantes ca­pítulos, num total de 18.

É no capítulo 11 que se encontra "o programa do cristianismo para o mundo no meio do pluralismo de reli­giões e de cultu­ras". Esse progra­ma, o autor resu­me-o numa simples palavra: "Compai­xão".

"As tradições bíblicas do discurso so­bre Deus e das narrativas neotesta­mentárias sobre Jesus conhecem uma forma indeclinável de responsabilidade global. Nelas, o universalismo de tal res­ponsabilidade não se orienta antes de mais para o universalismo do pe­ca­do do ser humano, mas para o uni­ver­salismo do sofrimento no mundo. O pri­meiro olhar de Jesus não se dirige ao pecado, mas ao sofrimento dos ou­tros. Para ele, «pecado» era, sobretu­do, renúncia a participar no sofrimento dos outros, recusa a transcender o obs­curo horizonte da própria história de so­frimento."

Que ao menos as Igrejas mergu­lhem nestas páginas. E se convertam.

El Almendro / Gerrad P. Luttikhuizen

A pluriformidade do Cristianismo primitivo

O autor é catedrático emérito de Novo Testamento e Cristianismo primitivo na Universidade de Groninga, Países Baixos. Nesta sua obra, de 174 páginas, os primeiros seis capítulos abordam as diversas formas de cristianismo judaico, a grande influência de Paulo e a importância capital de um livro descoberto no século passado, o Evangelho de Tomé; os quatro últimos capítulos abordam o problema da primeira gnose. Um livro fundamental.

São estes os títulos principais dos 10 capítulos da obra: 1. Introdução. 2. A diversidade dentro e fora do cánon do Novo Testamento. 3. O Evangelho de Tomé: Uma nova fonte com ditos de Jesus? 4. O que pretendia Paulo? 5. O judaísmo no cristianismo primitivo. 6. O cristianismo primitivo em Alexan­dria. 7. A origem do mal segundo os cris­tãos gnósticos. 8. A crítica dos gnós­ticos ao Antigo Testamento e ao seu Deus. 9. O Jesus da paixão e o Cristo invulnerável. 10. O ideal do homem com­pleto segundo o Evangelho de To­mé.

"Não é exagerado afirmar - começa por se ler na Introdução - que a diver­si­dade de concepções e de crenças en­tre os seguidores de Jesus das primei­ras gerações era inclusive maior que a que existe no cristianismo actual. Durante os primei­ros séculos havia cristãos que criam não num Deus, mas em dois: por um lado estava o Deus altíssimo e perfeito que Jesus havia revelado; por outro, um deus in­fe­rior, imperfeito e inclusive maligno que era responsá­vel pela criação do mundo material e efé­mero e que com frequência se iden­tificava com o Deus vetero-testa­mentário". Mas não só. Também a pes­soa e a missão de Jesus eram interpre­tadas de formas muito diferentes. "Os cristãos do ambiente pagão-helenístico, por exemplo, não podiam conceber que o corpo adoptado pelo redentor divino du­rante a sua vinda ao mundo sublu­nar tivesse algo a ver com a sua verda­deira identidade. Outros, pelo contrá­rio, pensavam que era blasfemo atribuir a Jesus uma origem e poder divinos, pois viam nele o filho de José, o último profeta que Deus tinha enviado ao seu povo e o salvador messiânico de Is­rael."

Entre as diversas tradições sobre Je­sus, o livro destaca, no capítulo 2: Pe­dro e a tradição apostólica; O discí­pulo amado; Tiago, o irmão de Jesus; Tomé o Dídimo; Judas Iscariotes; e Ma­ria Madalena.

"Desde os anos 50, profetas, mes­tres e dirigentes das comunidades cris­tãs produziram textos para todo o tipo de fins e alguns deles começaram a ser considerados autoritativos e a al­can­çar pouco a pouco o estatuto de "texto sagrado".

Campo das Letras / Múltiplos autores

Padre Manuel Antunes (1915-1985)

Interfaces da cultura oirtuguesa e europeia

"O conjunto principal do presente livro é constituído pelos textos das conferências proferidas no acontecimento que coroou a homenagem nacional do ano antuniano de 2005: o Congresso Internacional Padre Manuel Antunes: Interfaces da Cultura Portuguesa e Europeia. Com prefácio de Eduardo Lourenço, este livro reúne contributos notáveis para o conhecimento da vida e obra do Padre Manuel Antunes."

"Ele sabia que a nossa humana his­tória não tem em si o seu segredo nem o seu fim. Que talvez - e mesmo certa­mente - Cristo e Marx não eram os anta­gonistas implacáveis, mas duas expres­sões em dois planos diferentes - do que Ernst Bloch chamou então «o prin­cípio esperança»". As palavras são de Eduardo Lourenço, no Prefácio da o­bra, um tomo de 759 páginas. "Não é fá­cil - prossegue ainda e conclui - tema­tizar o pensamento filosófico de Manuel Antunes, sempre atento às expressões históricas dele, ao mesmo tempo paixão do Absoluto que se define como Verda­de e aceitação do relativo que impede a Verdade de se transformar numa rea­li­dade que ofusca, mas não salva. Creio que lhe convém co­mo a poucos a frase de Pascal (a quem dedicou um dos seus mais lumi­nosos e sentidos en­saios): «A Ver­da­de sem caridade não é a Verdade». Entenda-se: em to­das as Ordens. A sua escolha de vi­da e de pensa­men­to foi essa, da ordem do coração."

São múltiplos os autores de tex­tos que "fazem" es­te volume de homenagem. Na im­possibilidade de os nomear a todos, a­qui ficam alguns como pequena amos­tragem e como convite à leitura do livro: Aires A. Nascimento, Alfredo Dinis, Carlos Santos Pererira, Edgar Morin, Guilherme d'Oliveira Martins, Guy Coq, João Bénard da Costa, José Augusto Mourão, José Barata-Moura, José Pacheco Pereira, Manuel Clemen­te, Maria de Fátima Meneses, Maria He­lena da Rocha Pereira, Peter Stilwell, Vasco Graça Moura.

Não é, obviamente, um livro para ler de um fôlego. Vale sobretudo para nos estimular a procurar o homenagea­do e fazer comunhão com ele, agora definitivamente vivo!


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XXVI Congresso de Teologia de Madrid

Fui emigrante e acolhestes-me

O conhecido teólogo salvadore­nho, Jon Sobrino, recentemente castigado pela Cúria romana, será objecto de um acto público de reconhecimento, no de­curso do XXVII Congresso de Teologia, subordinado ao tema "Fui emigrante e acolhestes-me", a realizar nos dias 6-7-8-9 de Setembro 2007, em Madrid, no Salão de Actos de Comisiones Obreras.

A apresentação do Congresso está a cargo de Enrique de Castro, pároco de Entrevías, uma das mais recentes ví­ti­mas do arcebispo de Madrid.

São estas as seis conferências a pro­ferir no Congresso: "O fenómeno da imigração", por Carlos Jiménez, da Uni­versidade Autónoma de Madrid; "Mu­lhe­res e Imigração", por Lola López Ca­nin­go, investigadora do Observató­rio das Migrações; "Imigração, inter­cultu­ra­­li­­dade e diálogo inter-religioso", por Fran­cesc Torradeflot; "Imigração e Á­frica", por Santine Matungulu, teó­logo da República Democrática do Congo; "Imigração e América Latina: o Cristianismo do ir do voltar", por Ma­ry­se Brisson, Directora do Departa­men­to Ecuménico de Investigações (DEI), de Costa Rica; "Imigração, solidarie­dade e cristianismo", por François Hou­tart, dou­tor do Centro Tricontinental de Lo­vai­na, Bélgica.

Entre as conferências, haverá tam­bém lugar para duas mesas redondas: "Acolhimento dos imigrantes nas co­mu­­ni­dades cristãs" (Máximo García, María José Castejón, Rafael Calonge e Rosa­rio Jiménez) e "Imigração e inte­gração" (Carlos Pereda, Pablo López e Vladimir Paspuel).


Barracão de Cultura: mais um passo

Depois do leilão de obras de arte, realizado no dia 17 de Maio 2007, no Clube Literário do Porto (venderam-se cerca de metade das 70 obras de arte oferecidas por pintores e escultores), a Associação AS FORMIGAS DE MACIEIRA prepara-se para dar mais um passo em frente, ainda este verão, na construção do Barracão de Cultura: Vão ser enchidas as paredes, forradas a chapas de duas cores no exterior, bem como portas e janelas. Com ofertas vindas daqui e dali, mais o leilão, conseguimos juntar mais uns 30.000 euros. É com essa verba que vamos dar mais este passo em frente.

Entretanto, a Associação continua a confiar na generosidade e na partilha das pessoas, para poder levar ao seu termo o que começou e prossegue com grande entusiasmo.

Se puder, venha até Macieira da Lixa ver a obra. E deixe-nos a sua partilha. Para levarmos ao fim este Sinal.


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