Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 165, de Abril/Junho 2007 (Continuação)

Com Abbé Pierre definitivamente vivo

A UNICEPE, Cooperativa Livreira, no Porto, decidiu que o seu 83.º Jantar de Amizade, seguido de tertúlia, fosse comido e saboreado "em comunhão com Abbé Pierre definitivamente vivo”. A acção, com sabor a Eucaristia secular, aconteceu na noite do dia 16 de Fevereiro. Convidados para animar a tertúlia, o Pe. Mário e o Pe. Serafim Ascensão. O primeiro a intervir foi o Pe. Serafim, sobre quem o folheto-convite para o jantar recordava que passou já por diversas paróquias da diocese do Porto, numa das quais, a paróquia de S. Martinho do Campo, concelho de Valongo, onde quase acabou “crucificado”. Os grandes interesses da região não lhe perdoaram que ele sistematicamente extravasasse os ritos e as missas dominicais sem profecia; muito menos que tivesse uma prática pastoral que abria os olhos às populações mais empobrecidas. E fizeram-lhe a vida negra, até que conseguiram que o Bispo da Diocese o retirasse de lá, com escândalo para muitas, muitos, sobretudo, os pobres. É por isso um padre muito próximo do Abbé Pierre, agora definitivamente vivo. Como Abbé Pierre, também o Pe. Serafim gosta de olhar nos olhos as pessoas e é incapaz de passar adiante, quando nos olhos delas decifra solidões e muitas dores ainda não escutadas, muito menos acompanhadas e curadas. Um padre/presbítero assim, com tanta simpatia (= sofrer com) pelos Ninguém, só poderia acabar a trocar de vez os privilégios e as seguranças das paróquias católicas e das suas rotinas eclesiásticas pela Comunidade Emaús, na Rua do Almada, Porto, na condição de companheiro-animador entre companheiros. A tempo inteiro! Depois do Pe. Serafim, falou o Pe. Mário. É o texto integral da sua reflexão teológica, escutada e escrita por ele durante a tarde desse mesmo dia, que aqui partilhamos. Vejam se conseguem não tropeçar na sua Mensagem libertadora. Eis.

Este é um encontro com Abbé Pier­re definitivamente vivo. Tem de ser por isso um encontro fecundamente pertur­bador. Subversivo. Não pode ser um encontro de homenagem. “Depois de fazerdes tudo o que devíeis, dizei: So­mos servos inúteis”. É de Jesus, o Ho­mem que jamais havemos de homena­gear e que nunca homenageámos. A­pe­nas nos reunimos em seu Nome e em sua Memória. Em assembleias/Me­sas Partilhadas que têm de ser sempre conspirativas, coisa que, infelizmente, ninguém vê acontecer por aí nessas mis­sas rotineiras, realizadas semana após semana no país e no resto do mun­do ocidental e que mais não são do que ritos vazios, sem profecia, con­ce­bidos e realizados para sossegar cons­ciências atormentadas de pesso­as co-responsáveis por uma Ordem Eco­nómica Mundial feita de Mentira e de Homicídio. À porta de cada templo, igreja paroquial e catedral, havia de es­tar afixado em grandes letras, para ser lido por quem vai entrar: “Onde está a tua irmã/o teu irmão? Que fizeste da tua irmã/do teu irmão? O seu sangue der­ramado, a sua fome, a sua humilha­ção, o seu grito de dor, o seu desem­pre­go, a sua miséria clamam do chão, da rua, por Mim. Que fizeste?” (Géne­sis 4)

Não se trata de homenagear Abbé Pierre, porque ele, como ser humano consciente e ilustrado, mais não fez do que devia. Do que se trata é de nos dei­­xarmos encontrar, como ele deixou, por Jesus definitivamente vivo nos nos­sos diversos caminhos de Emaús, e de nos deixarmos contagiar pela sua Pala­vra prenhe de Espírito libertador e in­ter­pelador, presente sobretudo nas víti­mas da História, ora como a brisa de Ternura duma festa nos cabelos ou dum beijo, ora como o tsunami duma Ac­ção Política Violenta, estilo 11 de Se­tembro, em Nova Iorque, ou 11 de Mar­ço, em Madrid. E, depois, à luz dessa Pa­lavra com Espírito, e empurrados/es­picaçados por ela, vermos este nosso Mundo onde nascemos e vivemos na sua verdade nua e crua, sem os habi­tu­ais disfarces das cínicas ideologias do­minantes e sem os moralismos fari­saicos das religiões em geral e das igre­jas em particular. Se tal suceder, ve­remos então acender-se a nossa Men­te e inflamar-se o nosso querer em Insurreição, em combate político; sen­tiremos o Coração bater acelerado e, a partir daí, já não conseguiremos pensar nem querer outra coisa na vida que não seja tornarmo-nos mulheres/ho­mens do jeito desse mesmo Jesus definitivamente vivo que nos sai ao ca­minho, e prosseguirmos, incansáveis e imaginativos, as suas Causas maiores, os seus Combates, as suas Lutas, os seus Conflitos, os seus duélicos Enfren­tamentos teológicos, até que todos os fabricadores de vítimas, os seus siste­mas, as suas religiões e as suas igre­jas, mais os seus grandes media nos detestem, nos caluniem, nos maltratem, nos excluam, nos persigam, tratem o nosso nome como infame/maldito, numa palavra, nos excomunguem definitiva­mente do seu mundo de privilégios e de crimes sem perdão, de Mentira e de Homicídio em massa. E nós deixe­mos irreversivelmente de ser deles e pas­semos a viver ao lado das suas víti­mas e com elas, muitas vezes, até in­com­preendidos por elas, nomea­da­men­te, aquelas cujo sonho maior é, não destruir as fábricas de produzir vítimas aos milhões, mas passar-se para o mun­do dos privilégios, nem que seja para tornar-se verdugo às ordens das Administrações e dos Executivos que estão à frente dessas fábricas…

“Que fizeste da tua irmã/do teu ir­mão?” Num mundo assim, como este nosso que Abbé Pierre conheceu por dentro como poucos e quis mudar/sal­var/humanizar, onde é que temos hoje os nossos pés, a nossa cabeça, o nos­so coração? A que classe pertence­mos? Que grupo social integramos? Em que grupo ou classe nascemos e esta­mos neste momento, em 2007? Em que grupo ou classe vamos um dia morrer/explodir?

É manifesto que não integramos a minoria dos grandes ricos, como aquele grande rico da parábola evan­gé­lica de Lucas. Eram tantos e tais os seus luxos e privilégios e as suas ri­que­zas, que ele nem via o pobre Láza­ro que jazia à sua porta na companhia dos cães e em condições abaixo das deles. Não temos estômago para seme­lhante crueldade, para semelhante inu­mani­dade (não temos estômago, ou apenas nunca tivemos oportunidade para che­gar­mos tão longe, para subir­mos tanto na vida em solidão, para cres­cermos tanto em riquezas e em po­der, em in­sen­sibilidade e em inumani­dade? Sim, porque muitas vezes só não estamos aí, porque nunca tivemos oportunidade. Desejo/ambição/sonhos para isso não faltaram. Não seremos, por isso, gran­des ricos frustrados? Não gos­taríamos de ser um Gates, um Bel­miro de Azeve­do, nem que seja a pre­tex­to de que, se o fôssemos, seríamos bons grandes ricos?!)

É igualmente manifesto que tam­bém não integramos a multidão incon­tá­vel dos Lázaros, mulheres, homens e povos do mundo, nossos contempo­râ­neos, condenados a ter de viver hoje abaixo de cão. Nem sequer Abbé Pierre alguma vez integrou. Ele foi sempre, como o próprio reconhece, um filho de família, um abbé (abade/padre), uma vedeta, uma personalidade, votada e re­conhecida, ano após ano, pelos fran­ceses. E na hora final do seu per­cur­so histórico, até pôde contar no fu­neral do seu cadáver com a presença de grandes personalidades, entre as quais o próprio chefe de Estado fran­cês, um cardeal a presidir, juntamente com vários bispos da Igreja católica. Tão pouco os media de França e do Mun­do puderam titular em manchete: MORREU UM MALDITO! Mas foi exacta­mente isso o que disseram de Jesus, o de Nazaré, ao crucificá-lo entre ou­tros dois subversivos políticos! (é por isso que o nosso carinho e o nosso afe­cto podem ser e são muito grandes para com Abbé Pierre, até ao ponto de estremecermos perante o exemplo da sua vida fraterna e solidária, mas pre­cisamente porque ele nos faz sentir ainda mais saudades de Jesus, o Ho­mem por antonomásia, a quem o Tem­plo e o Império do seu tempo e país cru­ci­ficaram como o Maldito dos maldi­tos!). E quem são hoje os Lázaros, cuja in­contável multidão de seres humanos não integramos? São os muitos muito po­bres, melhor, empobrecidos, os opri­­­mi­­dos, os escorraçados, os sem eira nem beira, os Ninguém. Todos os do Ter­ceiro Mundo, do Quarto Mundo e do Quinto Mundo!...

É então manifesto que os que aqui estamos neste jantar de amizade e nes­ta tertúlia, só podemos estar no enor­me grupo ou classe que fica entre os dois gru­pos extremos que não se co­mu­ni­cam, como se entre eles houvesse um abismo intransponível, por isso, mui­to justa­mente chamada classe média – mé­dia baixa, média ou alta. É aqui, nesta classe média que nós os que aqui estamos nascemos; ou que, mais cedo ou mais tarde, acabámos por vir parar. Somos dos que abriram os olhos, dos que subiram mais ou menos na vida, dos que arranjaram emprego estável, dos que estudaram, quando era difícil consegui-lo, dos que têm tido saúde e meios para a tratar, dos que evoluíram, dos que vivem dotados de consciência ilustrada, dos que têm conta bancária, dos que têm casa, dos que têm carro, um curso, bom nome na praça, crédito, influência, amigos, afe­ctos, família, be­le­za, boa apresentação, educação, boas maneiras. E até viemos a este jantar/ter­túlia, onde a incomensu­rável multi­dão dos muitos muito pobres nunca se atreveria a entrar, tão pouco chega a saber que ele está aqui agora a decor­rer…

“Onde está a tua irmã/o teu irmão? Que fizeste?” Os grandes ricos não ou­vem esta pergunta, por mais que ela es­teja a ser ininterruptamente formula­da! “Têm Moisés e os profetas: que os oiçam!”, responde a personagem Abra­ão, da parábola evangélica de Lucas, quando o grande rico, do seu abismo de Solidão e de Inumanidade, se lhe di­rige a pedir que mande Lázaro aos pa­lácios onde vivem todos os outros muito ricos, para que caiam na real e se convertam em seres humanos. Mas o dramático é que eles não ouvem se­quer os profetas que falam em nome das vítimas, muito menos ouvem/vêem as vítimas. Nunca as olham nos olhos. São cegos, surdos, insensíveis, numa pa­lavra, inumanos, monstros! “Nem que um morto ressuscite e lhes fale, nem assim eles mudarão, eles converter-se-ão em seres humanos. Continuarão a ser o que são: monstros!” É o que Abra­ão, a referida personagem da parábola de Lucas, responde ao grande rico defi­nitivamente perdido na sua Solidão e na sua Inumanidade. Isto quer dizer que, da parte dos grandes ricos e dos seus sistemas/religiões/igrejas não po­deremos esperar nunca a libertação/sal­vação/humanização do mundo. De­les, só vem perdição/opressão/humi­lha­ção/solidão/vítimas/morte. Eles e os seus sistemas, as suas religiões, as su­as igrejas/ideologias são Mentira e Ho­mi­cídio/Genocídio.

“Onde está a tua irmã/o teu irmão? Que fizeste?” Jesus, no mesmo Evange­lho de Lucas (capítulo 6), diz isto mes­mo, logo nas suas palavras programá­ticas: “Felizes vós, os pobres, porque é vosso o Reino de Deus”; e: “ai de vós, [grandes] ricos, porque já tendes a vossa consolação!” Não se refere à clas­se média (baixa, média, alta), onde estamos todas/todos os que aqui nos encontramos nesta sala. Quer dizer que Jesus sabe que não pode contar con­nosco na primeira linha do Combate, da Revolução, que há-de mudar/salvar/humanizar este nosso mundo concebi­do e edificado segundo o sopro des­cria­dor que atravessa a actual Ordem Mundial do Dinheiro, da Mentira/Poder e da Religião. Por isso é que não se re­fe­re a esta classe ou grupo social nas suas palavras programáticas de Ac­ção Política Revolucionária/Criadora/Libertadora. O Evangelho chega a di­zer que ele ainda terá pensado em al­guns deste grupo ou classe social na pri­meira linha desse Combate político, mas depressa percebeu que não seria viável. Foi quando escolheu o Grupo dos Doze para andarem com ele e coo­perarem com ele na libertação/salva­ção/humanização do mundo. A verdade é que todos vieram a falhar redonda­mente! Depois de escolhidos, um a um, co­me­çaram logo a sonhar com lugares cimeiros, de poder, uns à sua direita e outros à sua esquerda, exactamente como os grandes ricos. E é também as­sim que ainda hoje procedem os que se reclamam de seus sucessores (!), os bispos da Igreja, que o são mais na sede de privilégios e de Poder sa­gra­do, do que na disposição de entre­gar/doar incondicionalmente a própria vida!... (As excepções, que as há, só confirmam a regra).

Com quem Jesus conta para liber­tar/salvar/humanizar o mundo é com os muitos muito pobres. Lá está: “por­que é vosso o Reino de Deus”. Isto é, aos muitos muito pobres pertence dar corpo na História ao Reino de Deus, à Ordem Mundial alternativa, concebida e edificada segundo o Sopro/Espírito de Deus vivo e criador de filhas/filhos à sua imagem e semelhança, por isso, livres, autónomos, responsáveis, de mai­o­ridade, sororais/fraternos, em rela­ção/partilha/comunhão de vida e de bens uns com os outros. Ou, por outras palavras, ainda mais políticas: A vós, os muitos muito pobres pertence fazer a Páscoa/Passagem deste mundo cruel e inumano, fabricador de vítimas aos mi­lhões, para o mundo da Sororidade/Fra­ternidade, da Liberdade, da Digni­dade, da Responsabilidade, da Justiça, da Paz.

“Onde está a tua irmã/o teu irmão? Que fizeste?” E então nós, os que inte­gramos a classe média (baixa, média ou alta), não temos missão política a fazer na História? Por sinal, é isso que pre­tendem os grandes ricos, as suas igrejas e religiões que tudo fazem para nos distrair, entreter, adormecer, desmo­bilizar politicamente. Mas é aqui que o exemplo de Abbé Pierre definitiva­men­te vivo nos fala e se nos revela fe­cun­damente paradigmático. Porque se não tivermos a audácia de descermos, até nos fazermos voluntariamente po­bres em comunhão com os muitos muito pobres e passarmos a integrar a multi­dão dos sem-tecto, sem-família, sem-afectos, sem-salário, sem-mesa, numa palavra, a multidão dos excluídos, dos escorraçados, dos malditos, ao menos, coloquemos todas as nossas capacida­des, a nossa inteligência, o nosso sa­ber, o nosso querer, o nosso ser e o nos­so ter, numa palavra, o nosso viver ao serviço da Revolução que os empo­brecidos do mundo têm que realizar, na primeira linha do combate político. Em lugar de colocarmos todas as nos­sas capacidades, a nossa inteligência, o nosso saber, o nosso querer, o nosso ser e o nosso ter, numa palavra, o nosso viver ao serviço do Sistema, das Reli­giões, das Igrejas. Façamos pelo me­nos como Abbé Pierre. E ainda muito mais do que ele, como o bispo salva­dorenho Óscar Romero, o Bispo francês Jacques Gaillot, felizmente, ainda a vi­ver entre nós, Che Guevara, Martin Lu­ther King, Ignacio Ellacuría e os seus companheiros, todos barbaramente mas­­sa­crados pelas tropas salvadore­nhas ao serviço do Império ianque. Se­ja­mos, como todos estes e muitos ou­tros, elas e eles, foram, verdadeiros “in­telectuais orgânicos” no meio dos mui­tos muito pobres do mundo e com eles. Parteiras/parteiros junto deles e com eles. Sem nunca os substituirmos. Sem nunca nos arvorarmos em seus líderes. Maiêuticos sempre, para que eles sejam Cristo=Messias=Libertadores. Porque, se nos atrevermos a ser ainda mais ra­di­cais que Abbé Pierre, talvez acabemos na Cruz como Jesus, o de Nazaré. E malditos quanto ele.


Manuel Clemente é o novo Bispo do Porto

Quando abrir a boca em público, faça-o como verdadeiro profeta

A diocese do Porto tem novo bispo residencial. Manuel Clemente deixou o Patriarcado de Lisboa, onde foi bispo auxiliar, e acaba de entrar na diocese do Porto, como seu bispo titular e residencial. O papa Bento XVI assim decidiu e assim passou canonicamente a ser. Sem que a Igreja que está no Porto fosse tida ou achada em todo este processo.

Por aqui se vê que a nossa Igreja católica teima em manter-se hierárqui­ca e piramidal, em lugar de ministerial e sororal/fra­ternal. E, enquanto assim for, os bispos aparecem à frente das dio­ceses totalmente à revelia da Igreja local que é, deve ser cada uma delas. Esta prática eclesiástica é uma aberra­ção de peso, nomeadamente, nestes tempos que já não podem deixar de ser de eleições e até de referendos, no que respeita ao funcionamento da so­ciedade civil, assim como da gene­ra­lidade das associações e instituições particulares. Só na nossa Igreja cató­li­ca é que os tempos ainda não são as­sim. Basta esta aberração, para a Igreja já não ser mais o sinal levanta­do que está chamada a ser no mundo e na História. E, se deixa de ser sinal levantado, no meio do mundo, só pode ser contra-sinal levantado no meio de­le. Pedra de tropeço. Sal que perde a força. Presença que corrompe os seres humanos e a sociedade. Mais perigo público do que salvação. Mais vírus do que vacina. Mais massa do que fermento. Mais Treva do que Luz.

Estão hoje cada vez mais longe os tempos em que os que dirigiam as nações caíam do céu, sem que os res­pe­ctivos povos fossem tidos e achados. Dizia-se então, com a pompa e a cir­cunstância das grandes Mentiras, que os reis eram escolhidos directamente por Deus e impostos por Ele aos respe­ctivos povos. Foi uma crassa mentira que demorou séculos a ser desmasca­ra­da e a cair. Mas foi desmascarada e caiu. Em seu lugar, vigora, hoje, cada vez mais generalizado na sociedade ci­vil, o princípio eleitoral. Sabemos que o processo de o exercer é pervertido de mil e uma maneiras, mas o princípio em si representa um avanço qualitativo na humanidade, um avanço civilizacio­nal. Só na nossa Igreja católica é que as coisas continuam ainda como nos tem­pos das velhas monarquias absolu­tas. Não porque Deus, o de Jesus, assim queira, mas porque os homens de cú­pula da Igreja assim o entendem e determinam.

Tudo seria já diferente, se os no­me­a­dos por Roma para bispos residen­ci­ais recusassem, um a um, entrar neste vi­ciado processo e exigissem ser eleitos pela respectiva Igreja local, à qual hão-de presidir no amor mais desinteres­sado, sempre como aqueles que ser­vem e não como os que mandam. Infe­liz­mente, cada bispo que é nomeado pelo papa apressa-se logo a aceitar o lugar, sem querer saber para nada do pro­cesso utilizado na sua eleição e, por isso, este infantilizado estado de coisas mantém-se, ano após ano, geração após geração. É um estado de coisas que não tem, não pode ter a marca do Es­pírito Santo, mas, para o poder ecle­si­ástico, isso é um pormenor sem impor­tância. O Poder, todo o poder é surdo e cego. E insensível. Muito mais o po­der eclesiástico, que se pensa sagrado e procedente directamente de Deus.

O dramático é que nada pode estar bem e respirar saúde nas instituições hu­manas, quando é feito contra a verda­de. Porque agir contra a verdade é agir contra o Espírito Santo. E agir contra o Espírito Santo é agir contra os seres hu­ma­nos e os povos. No caso em pre­sen­ça, é, antes de mais, agir contra a Igreja que assim deixa de o ser, para se tornar numa multinacional mais, da religião católica que vem dos tempos de Constantino e do seu Império roma­no, não, evidentemente, de Jesus, o de Nazaré.

Não se pode, pois, dizer que o Bis­po Manuel Clemente começa bem o seu ministério episcopal na Igreja que está no Porto. Não se pode dizer que ele entra pela verdadeira porta que é Je­sus, o bom Pastor (cf. Jo 10). Não en­tra. Digo-o, obviamente, ao nível do ins­titucional, não ao nível do pessoal, do individual. As intenções do Bispo Ma­nuel Clemente são, certamente, as melhores. O processo que acaba de o colocar à frente da Igreja do Porto é que está inquinado. E bom será que o Bispo Manuel Clemente esteja consci­ente disso, desde a primeira hora. E se defenda do vírus mortal que, se não for neutralizado e isolado, acabará por matar a sua alegria e a sua generosi­da­de de Bispo. E matará igualmente os sete dons do Espírito Santo, absolu­tamente indispensáveis para alguém poder ser Bispo, no seio duma Igreja local concreta.

Aliás, as palavras com que o Bispo Manuel Clemente acaba de saudar a Igreja que está no Porto, revelam já, preocupantemente, um homem mais eclesiástico do que jesuânico Vejam só. Nessa mensagem, confessa-se dispos­to a “entregar-se a Deus, à Virgem san­tíssima e à comunhão dos santos”. Esta afirmação é certamente um vulgar lu­gar comum católico, repetido até à e­xaus­tão por gente eclesiástica. Mas, por mim, não posso deixar de ficar per­ple­xo, ao ver o Bispo Manuel Clemente misturar Deus com a Virgem santíssima e com a comunhão dos santos. Que Deus é este que ele aqui invoca? Ainda é o Deus de Jesus, ou é outro Deus bem mais eclesiástico e católico roma­no, indissociável da mítica deusa vir­gem e mãe e dos santos que parecem fazer de corte celestial em redor dEle e, nessa circunstância, têm a função de lhe meter cunhas a favor dos seres humanos que a eles recorram, à seme­lhança do que costumam fazer quando pretendem obter certos favores dos gran­des senhores deste mundo? Preo­cu­pante é também que o Bispo Manuel Clemente, na mesma saudação à Dio­ce­se do Porto, anuncie que tem como “programa”, “um só propósito, total e absoluto: conhecer, amar e servir a Dio­cese do Porto”. Para um bispo da Igreja de Jesus, é manifestamente insuficien­te. Porque o Bispo tem que ter um cora­ção jesuânico do tamanho do coração de Deus Criador e Libertador, e não um coração meramente eclesiástico, muito menos do tamanho duma dioce­se. Tem de sentir as dores de parto pela humanidade no seu todo e dar a vida por ela, em particular a mais opri­mi­da e empobrecida, independente­men­te dela ser Igreja ou não, ser bapti­zada/crismada ou não. Tem que fazer seu e prosseguir aqui e agora o progra­ma de Jesus de Evangelizar os pobres, libertar os oprimidos, mandar em liber­dade os cativos, fazer ver os cegos e andar os paralíticos, ao mesmo tempo que há-de ser capaz de anunciar, opor­tuna e inoportunamente, por onde está a PASSAR a Acção de Deus Vivo na His­tória. O eclesiástico, por si só, nunca foi bom conselheiro. Sempre acabará, se não nos pusermos em guarda, por trans­formar as pessoas mais genero­sas da Igreja em funcionários, porventu­ra, generosos funcionários eclesiásti­cos. Mas não é para isso que alguém é ordenado Bispo da Igreja. Muito pelo contrário. No entanto, é o que a Cúria Romana, presidida pelo Papa, parece pretender em exclusivo ou, pelo me­nos, prioritariamente, dos bispos que nomeia. Em concreto, que cada Bispo residencial seja, na respectiva Igreja local, uma espécie de alter ego [outro eu] do papa de turno. E que converta a Igreja local a que preside numa espé­cie de Estado do Vaticano e de Cúria Romana em ponto pequeno. Nada de mais aberrante!

Não foi para isso que o Espírito Santo fez acontecer o Concílio Vaticano II na Igreja. Mas, pelos vistos, é para isso que existe a Cúria romana e o pa­pa em Roma. Cada Igreja local é Igreja completa, segundo o Concílio Vaticano II. Mas a Cúria romana e o papa preten­dem que cada Igreja local seja sobretu­do uma sucursal eclesiástica, na de­pen­dê­ncia da Cúria Romana. Não uma Igreja na comunhão com a Igreja de Ro­ma e com as outras Igrejas locais do mundo, mas uma sucursal na de­pen­dên­cia de Roma, à semelhança de todas as outras Igrejas locais que também o deverão ser. O facto do Bispo residencial ser nomeado pelo papa de turno, totalmente à revelia da Igreja lo­cal à qual é chamado a presidir, é já re­ve­lador desta dependência. Se, depois, a prática episcopal vai nessa direcção, então nunca chegará a haver Igreja de Jesus a sério, mas apenas mais do mesmo do que se faz e diz em Roma. Deste modo, a Igreja comu­nhão de Igrejas que o Espírito Santo e o Concílio Vaticano II quiseram que acon­tecesse, terceiro milénio além, em alternativa à Igreja Cristandade Oci­den­tal de má memória que esteve em vigor nos dezasseis séculos anteriores, não chegará a acontecer. E ficaremos condenados a ter mais do mesmo, nu­ma apagada e vil tristeza.

Temo bem que seja mais do mes­mo que o Bispo Manuel Clemente ve­nha ajudar a fazer, quando é imperioso e urgente que a Igreja que está no Porto se liberte do férreo controlo da Cúria romana e do papa chefe de Esta­do, para ser Igreja obediente ao Espí­ri­to Santo em comunhão com a Igreja que está em Roma e em tantas outras partes do mundo. Conseguirá o Bispo Ma­nuel Clemente esta proeza? Ou vai comportar-se como súbdito da Cúria ro­mana e do seu papa-chefe-de-esta­do, sob o olhar mais policial do que eclesial do Núncio apostólico que está em Lisboa? A opção é martirial. Mas, ou ele tem a audácia de a fazer, desde a primeira hora do seu ministério epis­copal no Porto, ou não passará de um Bispo residencial sob tutela, vassalo da Cúria romana e do seu papa imperial, infalível e dotado de poder absoluto, ao qual, pelos vistos, até Deus terá que se submeter!…

Melhor do que ninguém o Bispo Ma­nuel Clemente sabe deste real peri­go. Ou não fosse ele formado em Histó­ria e, até agora, professor de História da Igreja na Universidade católica. Bom será que o historiador que ele é o seja na fidelidade à Verdade que nos faz livres, o mesmo é dizer, na fidelida­de ao Espírito Santo. Tudo vai depen­der da concepção que o Bispo Manuel Clemente tenha do exercício do seu mi­nis­tério episcopal. Através dos séculos, houve bispos, inclusive na Igreja do Por­to, que prometeram muito e, depressa, acabaram súbditos e vassalos da Cúria romana e do seu papa, em lugar de ir­mãos na comunhão com o Bispo de Ro­ma, a quem compete o humilde ser­viço de presidir no amor mais gratuito e criador à Igreja universal. O que os te­rá levado a isso? Todos terão cometi­do um erro gravíssimo, um grave peca­do mortal. Uma vez no lugar, acharam que tinham de servir os interesses da ins­ti­tuição, em lugar de servirem o E­vangelho de Jesus, em comunhão real e de corpo com o seu Espírito. Caíram no grave pecado mortal de confundir os interesses eclesiásticos com os inte­resses de Deus e do seu Evangelho que são - imaginem vocês - os interes­ses da Humanidade e do Universo. A par­tir daí, ficaram reféns da Cúria de Roma, por isso, quase sempre mais pa­pistas do que o papa. Tornaram-se bispos residenciais em estado de me­no­ridade, em estado de pecado mortal. Nunca mais fizeram acontecer a Igreja de Jesus, só a Igreja eclesiástica, em­pre­sa multinacional de religião, em lu­gar de Sinal levantado no coração da Humanidade.

O que, neste momento, mais posso desejar ao meu irmão Bispo Manuel Clemente é que ele resista a esta tenta­ção e evite cair neste grave pecado mor­tal. O ideal será que, ao chegar à Igreja do Porto, comece por trocar o mastodôntico e opressivo paço episco­pal, onde fizeram questão de viver os seus antecessores, por uma casa sim­ples e acessível às mulheres e aos ho­mens da rua, sem a mediação de ne­nhum porteiro. Na medida do possível, continue a viver do seu trabalho profis­sional, em lugar de se assumir como Bispo a tempo inteiro. Mais do que pôr-se a fazer sozinho na Igreja, faça a Igre­ja toda fazer. Não hesite em dis­pensar os três bispos auxiliares e, se não houver Igrejas locais disponíveis para cada um, que eles passem a viver o ministério episcopal numa paróquia ou num conjunto de paróquias da dio­ce­se, não a administrar sacramentos do Crisma a torto e a direito e a cele­brar ritos litúrgicos em série, mas a es­cu­tar as populações e a comer com elas em redor de Mesas Partilhadas, onde o Evangelho de Jesus seja anunciado e escutado no que ele tem de mais es­sen­cial. Recuse, logo de início, as cha­ma­das visitas pastorais às paróquias, coisa mais mentirosa e mais contrária à simplicidade do Evangelho e à práti­ca pastoral de Jesus, o de Nazaré. Em vez dessa mentira organizada, ocasião de hipocrisia e de promiscuidade políti­ca e católica de pôr os cabelos em pé, te­le­fone pessoalmente ao pároco aon­de deseja intervir e apareça com algu­mas mudas de roupa e os seus objectos pessoais e fique uns dias com ele como irmão e companheiro, numa afirmação de proximidade e de comunhão de me­sa que valerá, certamente, mais do que todos os ritos litúrgicos que pudesse vir a realizar no templo paroquial, no de­curso de uma visita pastoral tradicio­nal. Do mesmo modo, avance sem aviso prévio até às fábricas e às empresas espalhadas pela diocese e peça para se encontrar com as trabalhadoras, os trabalhadores, nem que seja apenas du­rante a hora do almoço. Coma com elas, com eles e oiça as suas dores, os seus dramas, as suas expectativas. Frequente com regularidade e com na­tu­ralidade os espaços culturais e con­ver­se descontraidamente com quem também tiver aparecido nessas mes­mas ocasiões. Jamais distinga entre ca­tólicos e não católicos, pelo contrário, veja sempre os seres humanos que to­das, todos somos. Deixe-se evangeli­zar por todos, para poder evangelizar a todos. E àqueles que a Igreja do Porto, nestes últimos anos, mais tem hu­milhado e ostracizado, ou que até con­denou à não-existência oficial, corra a abraçá-los e a sentar-se às suas sin­gelas mesas, como quem pede perdão e faz questão de reconhecer os caris­mas que o Espírito Santo aí tem conse­guido desenvolver para bem da Huma­ni­dade, no seu todo. Finalmente, quan­do abrir a boca em público, faça-o co­mo verdadeiro e despretensioso profe­ta, sem moralismos eclesiásticos de qual­quer espécie, e sempre para dizer/tes­temunhar o Evangelho de Deus que é Jesus Cristo Crucificado pelos sacer­dotes e pelos poderosos do Império, aí sacra­mentalmente presente e em in­terminável agonia nos milhões de opri­mi­dos e empobrecidos do mundo, a quem, por isso, há-de também ajudar a tirar maieuticamente da cruz. Para que eles vivam e vivam em abundância.


Sacramentum Caritatis, do Papa Bento XVI: Por este andar, ainda voltaremos a ver os padres a rezar a missa de costas para o povo

Nos mesmos dias em que a Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Santo Ofício, de má memória) espalhava a má notícia eclesiástica sobre a censura do Vaticano ao maior e mais martirizado teólogo vivo da Teologia da Libertação, o Pe. jesuíta Jon Sobrino, o Papa Bento XVI assinava e fazia publicar o documento Sacramentum Caritatis (Sacramento do Amor), no qual arrasa ainda mais a Missa/Eucaristia, já hoje reduzida a pouco mais do que um rito litúrgico, presidido por funcionários eclesiásticos celibatários mais ou menos à força e sem convicção. O texto-reflexão que se segue tem a assinatura do pe. Mário e começou por aparecer no seu Diário Aberto, na net. Não se façam rogados e mergulhem na leitura. Com esperança.

1. Decididamente, a Cúria romana e o papa Bento XVI parecem apostados em resistir ao Espírito Santo e em pecar sistematicamente contra Ela/Ele. Prova cabal disso é o extenso documento Sa­cra­mentum Caritatis (Sacramento do Amor) que o papa acaba de assinar e pu­blicar como doutrina oficial da Igreja católica sobre a Eucaristia, para ser aca­tada e praticada por todas as Igre­jas locais espalhadas pelo mundo.

O documento, se vier a ser acata­do e praticado pela generalidade das Igrejas locais, o que é mais do que du­vi­­doso e de desejar que não suceda, con­verterá ainda mais a Eucaristia num museu, porventura, muito respeitável, mas totalmente estéril, porque comple­ta­mente à margem do ritmo da História e da caminhada da Humanidade para a plenitude da sua criação que, como fa­cilmente se depreende, está toda no futuro e não no passado.

O documento ainda chega a falar na implementação da justiça no mun­do, nomeadamente no tocante à repar­tição por todos os povos da riqueza pro­duzida, como um dos frutos maiores da celebração da Eucaristia, mas até essa oportuna referência não passará de mera retórica papal, se a Eucaristia for, ainda mais do que já é, concebida e celebrada segundo as regras que este documento cegamente pretende im­por, daqui para a frente, a toda a Igreja.

Na verdade, a preocupação maior e quase exclusiva do documento do pa­pa esgota-se toda nas normas litúrgicas a respeitar e a executar, o que reduz ain­da mais a Missa católica romana a um rito obsoleto, dito de novo, a partir de agora, preferencialmente numa lín­gua mais do que morta que é o latim, a­companhado ao som do canto grego­riano de outras épocas de má memória que, felizmente, já não voltam mais, pre­sidido exclusivamente por ministros or­de­nados, os presbíteros e os bispos, to­dos absolutamente celibatários (nada de mulheres católicas neste ministério, nem homens casados), em altares pre­pa­rados para o efeito, perante assem­bleias-faz-de-conta, porque sempre sem voz nem vez.

Numa palavra, o documento do pa­pa faz a Igreja católica regredir, a pas­sos largos, para a situação anterior ao Con­cílio Vaticano II. Não é ainda o re­gres­so completo ao pré-Concílio, mas é um grande passo nessa direcção. Um pouco mais de tempo e ainda volta­remos às missas com o padre de costas para a assembleia e a falar sozinho uma língua que ninguém entenderá.

Só que por este andar, nem os cer­ca de 20 por cento de católicos que, em Portugal, ainda têm pachorra para sair de casa ao domingo e ir participar num rito eclesiástico cada vez mais mu­mi­ficado, aflitivamente esvaziado do fecundo e libertador Sopro de Jesus e por isso sem o mínimo de profecia, se manterão por muito mais tempo fiéis a esta estéril e rotineira prática social ti­pi­ca­mente católica.

As novas gerações, hoje já a crescer fora da Igreja, encontrarão neste docu­mento de Bento XVI mais um argumento para radicalizarem as suas posições de distanciamento e de indiferença, o que constituirá, não um sinal de alarme, mas um sinal de saúde da parte delas, ainda que, objectivamente, constitua um de­sas­tre completo para a Igreja católica en­quanto tal.

Deste modo, a Igreja cató­lica confir­mar-se-á cada vez mais como uma Igreja completamente fora do tempo, fora da História, porventura, uma refe­rência museológica interessante, mas sem nada que faça dela, aqui e agora, a Maria Madalena-irmã-companheira-esposa-de-Jesus que a Igreja simboli­ca­mente/sacramentalmente sempre de­ve ser, através dos tempos, capaz, por isso, de suscitar generosidades e dedi­cações, as mais fecundas, entre os se­res humanos que continuam a vir a este mundo.

Pelo contrário, ao insistir na via im­posta por este documento de Bento XVI, o mais que a Igreja católica pode­rá suscitar nos seres humanos que con­tinuam a vir a este mundo é um es­té­ril e inofensivo espanto, à seme­lhança do que as notícias dos dinos­sauros hoje suscitam em nós, seres hu­manos do século XXI.

2. Para cúmulo, o documento papal acabou por ser distribuído ao mesmo tempo que estava a ser difundida em todo o mundo a má notícia eclesiástica de mais uma vítima da famigerada Con­gregação para a Doutrina da Fé, do Vaticano, essa mesma que, durante o pontificado de João Paulo II, foi ad­ministrada pela mão de ferro do então cardeal Ratzinger, hoje papa Bento XVI.

A vítima, desta vez, é o teólogo da libertação mais conhecido e mais estu­dado no mundo das Igrejas cristãs, o pa­dre jesuíta Jon Sobrino, por sinal, um amigo do Jornal Fraternizar e do seu director, um basco de quatro costa­dos, por nascimento, mas há muitos anos radicado e naturalizado salvado­re­nho, na cidade capital de El Salva­dor, na empobrecida e violentada A­mé­rica Central.

Nem o facto de se tratar de um mártir vivo (estava ele então em di­gressão pelos Estados Unidos da Amé­rica, a proferir várias conferências, e só isso impediu que fosse massacrado juntamente com o padre Ellacuría e to­dos os outros seus irmãos jesuítas que leccionavam e residiam nas instalações da UCA, a Universidade centro-ameri­ca­na mais conhecida em todo o mun­do) impediu a Cúria Romana de sair ao seu caminho como Caim contra A­bel.

Deveriam os cardeais da Cúria ro­mana descalçar as sandálias e despo­jar-se das suas vestes de príncipes da Igreja, em sinal de respeito e de comu­nhão, mas está visto que eles não co­nhe­cem o Evangelho de Jesus, muito menos estão empenhados em ser discí­pulos de Jesus, apenas sucessores do governador do defunto Império Romano que o matou na cruz e agora, através deles, mata os discípulos, as discípulas dele, nomeadamente, os mais notórios.

De resto, a sua simples existência como cardeais da Igreja constitui a ne­gação pura e simples do Evangelho e de Jesus. Por isso, acabam sempre a fa­zer o que mais sabem, que só pode ser o contrário de Jesus.

Como tal, não perdoam a Jon So­brino que ele ainda esteja vivo e con­tinue aí, aos 69/70 anos, a fazer Teo­logia com a força do Espírito de Jesus, como só ele, na sua humildade e po­bre­za, sabe tão bem fazer.

Pelos vistos, há já uns anos a esta parte, têm-lhe dirigido, através da sua Cúria romana, sucessivas advertências para tentar perturbá-lo e desencorajá-lo. Em vão. E, agora, precisamente nes­tes dias que antecedem a Semana San­ta da Páscoa 2007, decidiram ironica­mente silenciá-lo por completo (vá lá, os seus antecessores, os sumos sacer­dotes e os príncipes dos sacerdotes do Templo de Jerusalém fizeram pior a Je­sus, pois mataram-no na cruz!), pelo me­nos, naqueles espaços eclesiásticos ainda controlados por eles, felizmente, cada vez em menor número.

Resta, por isso, ao insigne teólogo Pe. Jon Sobrino, depois desta sanção eclesiástica, todo o nosso vasto mundo, a humanidade no seu todo. O que, bem vistas as coisas, nem será assim tão negativo para ele e para a Teologia de libertação que ele tão bem vive, reflecte e capta, a partir das vítimas.

É até de crer que esta censura ecle­siástica acabe por ter um efeito con­trário ao pretendido pelos cardeais da Cúria Romana. Se assim for, a Teo­logia da libertação que Sobrino vive, reflecte, diz e escreve passará a ser muito mais lida e escutada pela Huma­nidade que, hoje, na sua esmagadora maioria, já não se revê nas posições mu­seológicas provenientes dos carde­ais de Roma.

Contudo, a decisão da Cúria roma­na não deixa de constituir objectiva­mente mais um pecado contra o Espírito Santo, um pecado que contribuirá para a descredibilizar ainda mais e à nossa Igreja católica, já de si tão descredibili­zada.

3. Por mim, director do Jornal Fra­ternizar, prosseguirei com mais entu­sias­mo ainda no caminho que estou a trilhar desde há muitos anos, como presbítero da Igreja que está no Porto. Um caminho que tem muito mais a ver com o Caminho ou a Via que Jesus a­briu e em que acabou por se constituir para todos os seres humanos que o queiram ser em plenitude.

Concretamente, prosseguirei como presbítero definitivamente longe dos templos e dos altares, longe dos ritos obsoletos que não têm a marca de Je­sus, o de Nazaré, nem do seu Espírito, apenas a marca das religiões do Paga­nis­mo e do Judaísmo, nomeadamente, do livro do Levítico. Sempre em redor de Mesas comuns e partilhadas, nas quais se sentam pessoas de carne e osso, mulheres e homens, com as suas esperanças e as suas dores, as suas alegrias e as suas mágoas, os seus en­tu­siasmos e as suas desilusões. Em re­fei­ções/assembleias conspirativas, nas quais os interesses dos poderosos e dos privilégios não têm entrada, nem sequer como ameaça que nos assuste e desmobilize.

São Eucaristias assim, em nome e em memória de Jesus, o Crucificado pelo Templo e pelo Império e o Ressus­citado pelo Deus Vivo, que é sempre o Deus das vítimas, que acabam por alimentar-nos como seres humanos, va­cinam-nos contra as tentações do Tem­plo e do Império, tornam-nos resistentes às suas seduções, ao mesmo tempo que frágeis mas fecundos sacramentos vivos de Jesus que, sem que ninguém dê por isso, fecundamente contestam/subvertem/enfraquecem a Ordem Mun­dial dos ricos poderosos e dos seus sa­cerdotes, e estimulam as suas inúme­ras vítimas a distanciar-se cada vez mais deles, dos seus espectáculos, das suas religiões, das suas leis e das suas ordens.


Jon Sobrino

Querido Jon Sobrino

Daqui de Portugal, mais concreta­mente do Jornal Fraternizar, vai o meu abraço de total comunhão e de compa­nheirismo fraternal na Mesa de Jesus.

Os cardeais da Cúria romana, sem coragem para se despojarem das suas vestes imperiais romanas e fazerem-se discípulos de Jesus e das vítimas que tu tão vigorosamente defendes e iden­tificas teologicamente com o Cruci­ficado/Ressuscitado, preferem denegrir o teu nome e o teu insigne labor teoló­gico.

Felizmente, não te rendes, nem te deixas assustar. Continuarás a ver o In­visível e a escutar o que o Espírito San­to nos está a querer dizer a partir das vítimas da História.

Conto contigo e com a tua fidelida­de até ao limite, na fidelidade de Je­sus, o de Nazaré que foi insultado/odia­do/es­car­rado/assassinado pelos se­nho­res do Templo e do Império.

Recebe o meu afecto fraternal e a minha paz revolucionária. Mário


Carta de uma leiga a uma virgem casada com NSJC

A carta é acutilante. Foi escrita com a indignação do amor sororal, que nunca pode ser vivido na Mentira, só na Verdade. Leiam-na com a mesma indignação do amor com que foi escrita. E, se forem do número das "virgens" aqui referidas, em vez de se indignarem contra a leiga casada e contra o Fraternizar, indignem-se contra quem lhes meteu essa falsa doutrina na cabeça. Haja modos, irmãs/freiras!

"Gosto dos seus escritos sobre as alminhas consagradas. Sabe que parte delas afirma ser casada com Nosso Se­nhor Jesus Cristo?”

Sempre embirrei com esta frase e tinha uma vontade danada de pôr os pontos nos iis, mas reprimi-me sempre, até que um dia "disparatei" com uma re­li­giosa.

Era moça nova e entrou de falar com tal ardor da sua vocação, do ideal abra­çado, da sua entrega ao Senhor, que pela boca dela fiquei a saber que era das tais casadas com Nosso Senhor Jesus Cristo. Nessa altura, profetizei:

- Olha, menina, casada sou eu. Re­ce­bi o grande sacramento do matrimó­nio. Quer queiras, quer não, tens um sacramento a menos do que eu! Mas, ficando na tua de que és casada com Jesus, só te digo que escolheste um partidão, fizeste um casamento de se­da. Arranjaste um marido que, já sa­bias, não é rabugento, não te mói de pan­cada nem te dá peúgas para lavar, não gasta o ordenado todo na jogatina ou nas boites, não te invade a casa bê­bedo como um carro, não te põe um par de chavelhos e foge com outra, dei­xando-te a criar meia dúzia de filhos. Não andas de vestido coçado nem de sapatos cambados e chegas ao final do mês sem as preocupações inerentes a uma pobre pecadora, leiga, que tem de pagar a renda de casa, água, luz, alimentação, roupa, calçado, livros. Não corres o risco de dar à luz filhos de­ficientes, nem te consomes de dor por­que são marginais, drogados, la­drões. Nós, as mães leigas é que esta­mos sujeitas a isso.

Claro que o Senhor trata mal os seus amigos, por isso, tem tão poucos. A ti, casada e amiga dele, trata-te mal… E a nós, leigas, julgas que nos poupa? Se te desfiasse a minha vida, santo Deus!...

Há tempos, falei com uma freira que estivera nas antigas colónias e agora vive roída de saudades, porque deixou lá 60 filhos! Sessenta, calcula tu. Eu, pe­cadora, só tenho três! Mas ela não era mãe de verdade. Ser pai, ser mãe é coisa diferente. Um primo meu tam­bém estava em África, quando deflagrou a guerra colonial. Tinha três filhas. Uma de­las fugira com um grupo de hipis não sei para onde, andava metida lá nos ma­tos. A mãe veio embora com as ou­tras duas, enquanto o pai ficou lá à es­pera que a fugitiva aparecesse. Me­teu-se pelos sítios aonde ela poderia estar, correu enorme perigo de pisar uma mina, de ser baleado. Para quê? Para reaver a filha. E ela um dia chegou a casa, magra, amarela de fome, carre­gada de piolhos. Ele lavou-a, asseou-a, pô-la em ordem e veio com ela no pri­meiro avião para Portugal. Era pai a sério! Não havia Madre superiora, não havia ninguém que o fizesse vir e dei­xar lá a filha, quanto mais 60 filhos! Não digo isto para ofender a vossa “ma­ternidade”, mas odeio embrulhadas…

Falas com tanto entusiasmo da tua virgindade, que te sentes a maior. Isso dá-te uma categoria, uma relação es­pe­cial com o Senhor que nós, as leigas não temos. Eu, por exemplo, que até dur­mo com um homem. Parece que vi­ves só para guardar a tua virgindade, sem te perguntares onde reside o valor da mesma. Sim, porque a integridade pela integridade não vale nada. A vir­gindade não se reduz a um pormenor ana­tómico. A verdadeira virgindade está no coração. Não é virgem quem tem o co­ração atolado de invejas, de intrigas, de calúnias e se esquece de amar os ou­­tros, porque anda muito ocupada em guardar a sua virgindade.

Olha, menina, mais pele menos pele não é coisa que cria novos céus e nova terra. Quando um dia chegares ao pa­raí­so e o Senhor te perguntar: “Quem está lá?” Tu dirás: “Senhor, não me co­nhe­ces? Eu sou uma das tuas vir­gens!...” O Senhor replicará: “Isso não in­teressa. Diz-me: Amaste? Não tenho aqui no céu um médico ginecologista para te observar. Sei que és virgem, se amaste, se te deste aos outros. A vir­gindade só vale se fecundaste algo de jeito, se cometeste feitos que me agradem muito.”

Não podes, menina, guardar a tua virgindade como quem guarda um obje­cto de luxo, porque se tornaria aliena­ção e desvio do essencial. De que vale a virgindade que não suscita comu­nhão? Como se pode chamar íntegra uma pessoa sem braços para estender a mão, sem pernas para ir ao encontro dos outros? Uma pessoa que se rodeia de arame farpado e cuja virgindade não introduz no sexo uma ânsia de integra­ção, uma força reconciliadora? A virgin­dade, menina, só tem valor se constitui um compromisso entre dois – Cristo e a pessoa – capaz de produzir amor, de criar relação, Igreja, Reino de Deus.

Há tempos, um jovem padre deixou-se ir na conversa duma moça. Ele que vivia lá no alto, considerando-se o mai­or, só porque guardava a sua castidade, caiu do cavalo. Veio a minha casa, desgostoso, humilhado como um esfre­gão. Meses depois, voltou a passar pa­ra me dizer, sabes o quê? “Eu que me julgava tão limpo, tão santo, antes de me acontecer aquilo, afinal andava en­gana­do. Foi preciso adquirir o meu estatuto de pecador, para então, pe­queno, frágil, empreender o êxodo, a caminhada para Deus e para os irmãos”.

Tens de te perguntar, por isso, le­al­mente, se a virgindade operou ou está a operar em ti essa integração de toda a tua pessoa – corpo e alma – projectando-a para o mundo. Ou se não viverás porventura ao nível dos libertinos, dos adúlteros, das prostitu­tas, de quantos separam irremediavel­mente o sexo do amor, do seu papel de fazer comunhão, que tal é o fim pri­mário do Evangelho.

Porque isto de ser virgem e não amar redobradamente, para que diabo serve?


Jacques Gaillot em Lisboa

5 de Maio Convento São Domingos (Lisboa

“O Povo de Deus num mundo em mudança” é o tema do Seminário que o Movimento Nós Somos Igreja promove dia 5 de Maio em Lisboa, Convento de São Domingos, à Rua João de Freitas Branco, e que conta com a participação ao vivo de Jacques Gaillot, o Bispo de Parténia (ex-Bispo de Évreux).

O programa inicia-se com as conferências do Bispo Jacques Gaillot e da teóloga Teresa Martinho Toldy, moderados por Jorge Wemans.

Hugo Castelli e Evaristo Villar, da Igreja de Base de Madrid, apresentam depois o II Fórum Mundial de Teologia que se realizou em Nairobi em Janeiro 2007 (ver páginas centrais desta edição).

Após almoço no Convento, há mais duas conferências proferidas pela Dra. Manuela Silva e Frei Bento Domingues, moderados Maria Flor Pedroso.

Os trabalhos encerram pelas 18 horas com a Eucaristia na capela do Convento. Aceitam-se inscrições até 2 de Maio. Custo por pessoa 30 euros, almoço incluído (22 euros para jovens até 25 anos). Sem almoço, 20 euros. inscrições até 2 de maio 2007 para carina henriques nossomosigrejaportugal@gmail.com ou maria joão sande lemos tlm. 914602336


LIVROS DO TRIMESTRE

Campo das Letras / Paul Preston

Pombas de Guerra

São duas inglesas e duas espanholas. Pip Scott-Ellis é uma aristocrata inglesa apaixonada por um príncipe espanhol. Nan Green é uma comunista inglesa que deixou para trás os filhos menores e viajou em 3.ª classe ao abrigo da solidariedade internacionalista. Margarita Nelken é uma intelectual, crítica de arte e escritora que acabou uma política radical. Mercedes Sanz-Bachiller é uma fascista que abortou ao ouvir a notícia da morte do marido em combate e acabou a fundar uma organização de beneficência que mudaria a face de Espanha. Ao todo, são 460 páginas de vidas reais que mais parecem um romance com quatro protagonistas, cada qual a mais invulgar. Com elas, a Guerra tornou-se menos inumana. Só perde quem não ler este livro.

"Este livro não possui pretensões teóricas. O seu objectivo é muito simples - contar a história de quatro mulheres in­vulgares cujas vidas foram drastica­men­te alteradas pelas suas experiências na Guerra Civil de Espanha. Todas elas são relativamente desconhecidas. Ne­nhuma das duas mulheres inglesas que prestaram serviço nas unidades médicas de cada zona tiveram qualquer proemi­nên­cia política. As duas mulheres espa­nho­las que tiveram uma invulgar presen­ça pública, uma na zona republicana e a outra na zona na­cionalista, estive­ram envolvidas em tarefas bem distin­tas das de decisão política dos gran­des líderes de gu­er­­ra de ambos os lados do conflito. E mais, tanto naquela altura como subse­quen­te­mente, elas desenvolveram o seu trabalho na som­bra de rivais de maior proeminên­cia e fama. Não obs­tante, este facto é, devido à verdadeira intenção deste livro, uma vantagem. Os detalhes po­líticos ficam assim subjacentes, ou se­rão, quando muito, considerados no con­texto das suas outras relações pes­soais - com amantes, maridos e filhos. Neste sentido, este trabalho é de histó­ria emocional. Segue-as desde a nas­cen­ça à morte, numa tentativa de mos­trar como, enquanto mulheres, es­po­sas e mães, foram afectadas pelas lutas políticas dos anos 30, como as suas vidas foram alteradas para sem­pre pelos conflitos políticos dos mes­mos anos 30, pela Guerra Civil de Es­pa­nha e pelas suas consequências."

São palavras do próprio autor, no Prólogo. É uma citação longa, mas jus­tifica-se. Vale como a melhor apresen­tação do livro. Percebe-se de imediato que não aborda a Guerra Civil de Es­pa­nha, enquanto tal, mas acaba sem­pre por ilu­minar "alguns dos recantos pouco conhecidos deste conflito."

Em certos momentos, o livro tam­bém fala de Portugal, país por onde al­guma destas quatro mulheres aca­bou por passar e permenecer algum tempo. Todas estas páginas "fazem" um monumento de humanidade, com as suas contradições, os seus amores, os seus encontros e desencontros. É por isso uma obra inesquecível para quem mergulhar nas suas páginas. Se começaram, só param no fim!

Sal Terrae / Jurgen Moltmann / Elisabet

Paixão por Deus

Uma teologia a duas vozes

Os autores são teólogos já com mais de 50 anos de vida matrimonial. Os textos com que ambos "fazem" este livro de 118 páginas são de leitura e compreensão bastante acessíveis. Embora casados, cada qual mantém a sua autonomia teológica, o que enriquece ainda mais o livro. O volume é precedido duma Introdução, assinada por M. Douglas Meeks que nos introduz no pensamento e no itinerário teológico de ambos. Não percam.

"Tanto Elisabeth como Moltmann - pode ler-se na Introdução - contribuí­ram em grande medida para uma teolo­gia da criação que faz fincapé na en­car­na­ção e na vida com a natureza. As suas teologias criticam o distancia­men­to de Deus e desenvolvem o tema de que Deus mora na terra. Elisabeth mos­tra (...) como as mulheres querem ver como se desenvolve a realidade de Deus na terra, para tornar este real no mundo. A teologia feminista procura um amplo espectro de experiências de Deus nos âmbitos das relações pesso­ais, da política e da ecologia. A teologia da amizade de Elisabeth trata da encar­nação, falando duma nova maneira so­bre a encarnação e a corporeidade de Deus".

São seis os temas abordados, três por cada um dos autores. Elisabeth escreve os três primeiros temas: "Ex­pe­rimentar Deus fi­sicamente"; "A ami­za­de, uma categoria esquecida dentro da fé e da comuni­da­de cristãs"; "Nós, as mulheres, cre­mos de modo dife­ren­te?".

Já Moltmann prefere outras te­má­ticas: "Orar com os olhos abertos"; "O Deus crucificado ontem e hoje"; Glo­ba­lização, terroris­mo e o começo da vi­da".

No tema, "Nós, as mulheres, cremos de maneira dife­rente", Elisabeth sublinha com oportu­nidade: "Para muitas mulheres é impor­tante ver o comportamento das mulhe­res bíblicas de maniera nova: as mulhe­res não fugiram quando Jesus foi pre­so, arriscaram a ficar junto à cruz para a­companhar o inimigo do Estado até ao túmulo e ocupar-se devidamente do seu corpo. Devia tratar-se duma relação erótica, duma amizade entre as mulhe­res e Jesus que se prolongou para lá da morte. Esta relação foi apaixonada por parte da primeira líder da Igreja, Ma­ria Madalena."

Por sua vez, escreve Moltmann no tema, "Orar com os olhos abertos":

"O que pretendemos quando ora­mos? Quando oramos, estamos à pro­cu­ra da realidade de Deus e a tentar sair da sala de espelhos dos nossos de­sejos e das ilusões em que vivemos pri­sioneiros. (...) Se na oração procura­mos a realidade do mundo de Deus - recordemos a primeira linha da Oração do Senhor: «Santificado seja o teu no­me, venha o teu reino...» - então é jus­ta­mente o oposto ao «ópio do povo». A oração assemelha-se mais ao começo da cura das insensibilizadoras excre­cên­cias do mundo secular." Eis o livro. Falta apenas mergulhar nele.

Sal Terrae / J. Ignacio González Faus

Exercitar a Liberdade

Meditações dos Exercícios de St.º Inácio

Quem quiser aproveitar e fazer os Exercícios de St.º Inácio de Loyola junto com o eminente teólogo ibérico González Faus basta que adquira este seu novo livro. No mesmo volume de 230 páginas (ao livro, o autor juntou mais uns 8 apêndices, todos eles oportunos) encontra-se assim o essencial dos antigos Exercícios, mas aqui teologicamente actualizado. Atrevam-se, que não se arrependerão.

O livro abre com o tema fundamen­tal dos Exercícios, titulado "Princípio e fundamento". Para Inácio de Loyola era indiscutivelmente Deus. Vejam como o "nosso" Inácio G. Faus, amigo e  com­panheiro de Fé, inicia a sua "actuali­za­­ção". Assim: "Para começar, temos que dizer que de Deus não sabemos nada nem podemos dizer praticamente nada. É o totalmente Outro. Uma forma de ser tão real que não tem nada que ver com o que nós chamamos realida­de, aqui, nem com o nosso tempo, nem com o nosso espaço... S. Tomás subli­nhava que de Deus podemos saber que existe, porém, não podemos saber o que é (coisa que costumamos esque­cer, porque nos tenta demasiado isso de um «deus manejável»). Mas o que acon­tece é que essa Realidade «ou­tra», esse «totalmente outro», deu-se-nos, comunicou-se-nos."

Entretanto - acrescenta de imediato  o autor - "Deus deu-se-nos de uma ma­neira muito diferente do que nós espe­raríamos". E esse é o belo e o dramá­ti­co. Belo, porque só assim é que Deus não ésempre uma inven­ção dos seres humanos. Dramáti­co, porque nunca saberemos de for­ma absoluta se o Deus em que cre­mos é já o total­mente Outro, ou se é ainda inventado por nós.

Por isso é que o segundo capítulo do livro (segunda semana,  nos Exer­cí­cios) é tão decisi­vo. Abre-nos a Je­sus, o de Nazaré, a revelação integral e definitiva de Deus. E também, obvia­mente, ao seu Espírito.

Com Jesus, podemos chegar a co­nhecer Deus, o totalmente Outro, ao mesmo tempo que nos conhecemos a nós próprios, como seres humanos.

"A paternidade de Deus converte Deus em boa notícia. Muitos de vós co­nhe­cereis o livrito de René Luneau, um belga que esteve em África muito tem­po, titulado Jesus, o homem que evan­ge­lizou Deus. Jesus converteu Deus em boa notícia, sem por isso o deformar num "Deus a la carta" que é o que hoje parece estar na moda e o que muitas pes­soas gostariam que Ele fosse. E o Reino, a presença da paternidade de Deus, já não é agora uma dimensão me­ramente vertical, mas uma dimensão em que a vertical se horizontaliza, se so­cializa. (...) O que significa, portanto, que Yahveh reine? Pois tão só isto: ju­stiça para os oprimidos, liberdade para os cativos, pão para os famintos, vista para os cegos, amparo para o que não se tem de pé, acolhimento do estra­nho... O Reino é uma situação tremen­da­mente humana, horizontal, social."

Bom seria que católicos e não cató­licos, elas e eles, se "perdessem" nas pá­ginas deste livro, nuns dias de Retiro ou não. Quem sabe se não se encon­tra­riam com o Deus boa notícia que Je­sus, o de Nazaré, nos deu a co­nhecer. Até o mundo mudaria!...

El Almendro / J. Luis Herrero del Pozo

A religião sem magia

Testemunho e reflexão de um cristão livre

Dentro, o título do livro é mais completo e elucidativo. Tem um ante-título esclarecedor: "A Igreja que queremos". Disso se trata, ao longo das 257 páginas com que o livro se tece. Páginas cheias de lucidez e de audácia. Contra o obscurantismo que as Igrejas cultivam e alimentam, numa clara traição à sua missão de sal da terra e de luz do mundo. Obrigatório ler.

"A meus amigos agnósticos e cris­tãos sem Igreja". A dedicatória já diz tudo. O livro pode não agradar sobre­ma­neira aos profissionais eclesiásticos da religião, mas dirá bastante aos que já desistiram de frequentar esses locais e o que neles ainda se faz. Mas por is­so é um livro polemicamente saudável e saudavelmente polémico.

"Tens entre mãos não um livro de teologia [ainda que também o seja, diz o Fraternizar], mas de reflexão crítica, mais livre do que normalizada, quanto ao método e conteúdo, sobre as cren­ças cristãs, as populares e as eruditas". O esclarecimento é do autor, logo a abrir o primeiro capítulo, "Contexto bio­grá­fico".

"De algo não podemos duvidar os seres humanos, crentes ou não, e é da nossa própria valia como espécie. Com todos os matizes e sombras que se queira, somos a maravilha do cos­mos. Todo o nosso organismo, e mais ain­da, a luz mental que o anima. Num com­plexíssi­mo cérebro funcio­nam umas faculda­des aními­cas que são o cu­me da evolução cós­mica e, por is­so, o supremo dom de Deus. É desa­gra­decido e ridí­cu­lo andar a pôr po­réns ao dom. É cer­to que as nossas fa­culdades por ve­zes avariam, são ca­pa­zes do melhor e do pior. Em qual­quer caso é o que te­mos, potente e gran­dioso, de mo­do indiscutível e ao alcance de to­dos. É insensato desvalorizar ou olhar por princípio com suspeita a inteligência humana. Por que desconfia tanto dela a Igreja? Sem dúvida, porque não há na­da mais refractário ao poder do que a capacidade crítica. Entre os dois o­pos­tos, «racionalismo» e «fideísmo», o primeiro é exagero, o segundo, per­ver­são".

A primeira parte do livro, "A religião tradicional superada", tem mais 9 capí­tulos: Igrejas e mundo em mudança de é­poca; Na pista duma intuição; A ciên­cia, crisol da religião; O seísmo religioso da Ilustração; Secularidade versus cre­dulidade; O pensamento mágico; «Re­cu­perar a Criação»; Da abstracção à vida libertada; Transição: Fé revelada ou pensamento crítico?"

A segunda parte, "Depois da reli­gião, o quê?", tem 4 capítulos: Deus  «re­velou-se»?; Jesus, homem e Deus?; Do último túmulo da Igreja... ressuscita­rá Jesus?; Depois da Igreja... uma es­pi­ritualidade política?

"Em sentido estrito, Deus não elege um povo, não predestina, não se revela ao profeta, não envia o seu Filho, não funda nem cauciona uma igreja, não faz de alquimista sobre os altares... Deus é sempre fundamento ôntico, po­rém não intervém por entre cortinados no curso das coisas

Desclée de Brauwer / Marciano VIDAL

Orientações éticas para tempos incertos

Entre a Cila do relativismo e a Caribes do fundamentalismo

De renome internacional, o autor é professor ordinário no Instituto Superior de Ciências Morais de Madrid e inscreve-se na corrente libertadora do grande e inesquecível B. Haring que arrancou a Teologia Moral do Moralismo eclesiástico que fazia dela uma mortífera arma ideológica de terrorismo contra as populações. O livro, de 420 páginas, é um tratado que dignifica o autor e dignificará as leitoras, os leitores. ImperdÍvel.

As questões de moral encontram-se no primeiro plano tanto da vida pú­blica como da vida eclesial", começa por reconhecer o autor, no texto de apre­sentação do livro.

"As vezes, dá a impressão de que as tensões entre o Estado e a Igreja ca­tó­lica situam-se no terreno moral, quer da bioética, quer da ética sexual ou da moral matrimonial, além dos clás­sicos lugares de conflito do ensino reli­gioso na escola e do financiamento eco­nómico do clero."

"O meu objectivo, esclarece o au­tor, não é dizer a últi­ma palavra sobre os temas abordados". Ainda assim, cons­tata-se com satisfação que ele não se inibe de dar a sua opinião sobre os te­mas em refle­xão. "Ofereço-a co­mo estímulo para sus­citar a criativida­de teoló­gica e pas­toral daquelas pes­soas que, através da lei­tura, queiram so­nhar novos ca­mi­nhos na sua com­preensão cris­tã."

O livro tem 7 par­tes e 14 capítu­los:

I parte, Situa­ção (1. O «mal-es­tar moral na Igreja pós-conciliar; 2. En­tre a Cila do fundamentalismo e a Caribes do relativismo).

II parte, Critérios (3. O ethos do amor: a orientação básica da moral cris­tã; 4. A comunhão trinitária e o diá­lo­go ético na sociedade secular).

III parte, Categorias e vias (5. Cate­gorias éticas para discernir os desafios da ciência e da técnica; 6. É possível a­ctu­alizar, de forma inteligente e inova­dora, a «ética da virtude»?).

IV parte, Bioética (7. Bioética cristã: identidade teológica e presença públi­ca; 8. Questões éticas e jurídicas à volta do morrer humano).

V parte, Ética sexual (9. O que tem de «cristã» a moral sexual católica?; 10. Os quatro pontos críticos da posição católica sobre a homossexualidade).

VI parte, Ética matrimonial (11. Pro­postas para uma «normalização» ecle­sial dos casais católicos «recasa­dos»).

VII parte, Ética social (12. Honradez perante a corrupção: transformação mo­ral do sujeito social; 13. Para uma eco­nomia alternativa; 14. A globali­za­ção: perspectivas descritivas e orienta­ções éticas).


ÚLTIMA PÁGINA

Domingo, 27 Maio 07

9.º Encontro de Espiritualidade

A Igreja ou

o Reino de Deus?

É já no dia 27 de Maio 2007 que se realiza na Casa-sede do Jornal Fra­ter­nizar, em São Pedro da Cova (Gondomar) o 9.º Encontro de Espiritualida­de com o Ateísmo e a Ido­la­tria generalizados em fun­do. Tema em debate/conversa: Jesus, o de Nazaré, anunciou e fez presente com a sua prática libertadora/curadora o Reino de Deus. E nós, Igreja, o que fazemos?

O resto já sabem: o Encontro ini­cia-se pelas 10 h e en­cer­ra pelas 17 h. Momento forte do dia é o Almoço Par­tilhado em Memória e em Nome de Jesus, e conseguido com o que cada pessoa levar para pôr na Mesa Comum. A Associação Pe. Maximi­no garante uma sopa de legumes bem quente, a abrir.

Como habitualmente, o debate/conversa é feito por todas as pessoas que par­ti­cipam no Encontro. Nin­guém vá sem fazer o tra­ba­lho de casa. E se qui­se­rem, tenham presente o que, a propósito, testemunha  o Evangelho de Lucas 4, 14-44). Sobretudo, escutemos o seu Espírito.


Dia 17 de Maio, 21 horas, no Clube Literário

(junto à Alfândega-Porto)

Leilão de pintura

Para o Barracão de Cultura

Está já marcado para o dia 17 de Maio, a partir das 21 horas, no Clube Literário do Porto, junto ao Edifício da Alfândega, um leilão de pintura que reverte integralmente a favor da construção do Barracão de Cultura, da Associação AS FORMIGAS DE MACIEIRA. A iniciativa está a ser dinamizada na primeira linha pelo Jornal O ARRIFANA e o seu director Armando Fernandes, e tem como patrono maior o conhecido director do Museu de Arte Contemporânea da Bienal de Vila Nova de Cerveira, Henrique Silva.

Neste momento, a iniciativa tem já garantida a oferta integral de quadros de vários pintores, uns menos conhecidos, outros mais, com destaque para o próprio Henrique Silva, Casal Aguiar, Carlos Barreira, Jaime Isidoro, José Rodrigues e Dad.

Prosseguem os contactos junto de outros pintores, para que se disponham a partilhar pelo menos um dos seus quadros para o leilão. Decisivo, também, é garantir a presença no leilão de pessoas com poder de compra amantes de pintura, coleccionadores, empresários, médicos, advogados, que adquiram as obras que vão a leilão.

O actor António Reis, da Seiva Trupe, será o leiloeiro de serviço, o que só por si é garantia de qualidade e de isenção. Espalhem a notícia, p. f.


Edição Campo das Letras-Porto

SALMOS

Versão séc. XXI

O  livro mais

jesuanicamente “blasfemo”

do Pe. Mário de Oliveira

(já em distribuição nas livrarias)


Início Livros Publicados Diário Dados Biográficos

e-mail de contacto
© Página criada 24 de Abril de 2007