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Com Abbé Pierre definitivamente vivo
A UNICEPE, Cooperativa Livreira, no Porto, decidiu que o seu 83.º Jantar de Amizade, seguido de tertúlia, fosse comido e saboreado "em comunhão com Abbé Pierre definitivamente vivo”. A acção, com sabor a Eucaristia secular, aconteceu na noite do dia 16 de Fevereiro. Convidados para animar a tertúlia, o Pe. Mário e o Pe. Serafim Ascensão. O primeiro a intervir foi o Pe. Serafim, sobre quem o folheto-convite para o jantar recordava que passou já por diversas paróquias da diocese do Porto, numa das quais, a paróquia de S. Martinho do Campo, concelho de Valongo, onde quase acabou “crucificado”. Os grandes interesses da região não lhe perdoaram que ele sistematicamente extravasasse os ritos e as missas dominicais sem profecia; muito menos que tivesse uma prática pastoral que abria os olhos às populações mais empobrecidas. E fizeram-lhe a vida negra, até que conseguiram que o Bispo da Diocese o retirasse de lá, com escândalo para muitas, muitos, sobretudo, os pobres. É por isso um padre muito próximo do Abbé Pierre, agora definitivamente vivo. Como Abbé Pierre, também o Pe. Serafim gosta de olhar nos olhos as pessoas e é incapaz de passar adiante, quando nos olhos delas decifra solidões e muitas dores ainda não escutadas, muito menos acompanhadas e curadas. Um padre/presbítero assim, com tanta simpatia (= sofrer com) pelos Ninguém, só poderia acabar a trocar de vez os privilégios e as seguranças das paróquias católicas e das suas rotinas eclesiásticas pela Comunidade Emaús, na Rua do Almada, Porto, na condição de companheiro-animador entre companheiros. A tempo inteiro! Depois do Pe. Serafim, falou o Pe. Mário. É o texto integral da sua reflexão teológica, escutada e escrita por ele durante a tarde desse mesmo dia, que aqui partilhamos. Vejam se conseguem não tropeçar na sua Mensagem libertadora. Eis.
Este é um encontro com Abbé Pierre definitivamente vivo. Tem de ser por isso um encontro fecundamente perturbador. Subversivo. Não pode ser um encontro de homenagem. “Depois de fazerdes tudo o que devíeis, dizei: Somos servos inúteis”. É de Jesus, o Homem que jamais havemos de homenagear e que nunca homenageámos. Apenas nos reunimos em seu Nome e em sua Memória. Em assembleias/Mesas Partilhadas que têm de ser sempre conspirativas, coisa que, infelizmente, ninguém vê acontecer por aí nessas missas rotineiras, realizadas semana após semana no país e no resto do mundo ocidental e que mais não são do que ritos vazios, sem profecia, concebidos e realizados para sossegar consciências atormentadas de pessoas co-responsáveis por uma Ordem Económica Mundial feita de Mentira e de Homicídio. À porta de cada templo, igreja paroquial e catedral, havia de estar afixado em grandes letras, para ser lido por quem vai entrar: “Onde está a tua irmã/o teu irmão? Que fizeste da tua irmã/do teu irmão? O seu sangue derramado, a sua fome, a sua humilhação, o seu grito de dor, o seu desemprego, a sua miséria clamam do chão, da rua, por Mim. Que fizeste?” (Génesis 4)
Não se trata de homenagear Abbé Pierre, porque ele, como ser humano consciente e ilustrado, mais não fez do que devia. Do que se trata é de nos deixarmos encontrar, como ele deixou, por Jesus definitivamente vivo nos nossos diversos caminhos de Emaús, e de nos deixarmos contagiar pela sua Palavra prenhe de Espírito libertador e interpelador, presente sobretudo nas vítimas da História, ora como a brisa de Ternura duma festa nos cabelos ou dum beijo, ora como o tsunami duma Acção Política Violenta, estilo 11 de Setembro, em Nova Iorque, ou 11 de Março, em Madrid. E, depois, à luz dessa Palavra com Espírito, e empurrados/espicaçados por ela, vermos este nosso Mundo onde nascemos e vivemos na sua verdade nua e crua, sem os habituais disfarces das cínicas ideologias dominantes e sem os moralismos farisaicos das religiões em geral e das igrejas em particular. Se tal suceder, veremos então acender-se a nossa Mente e inflamar-se o nosso querer em Insurreição, em combate político; sentiremos o Coração bater acelerado e, a partir daí, já não conseguiremos pensar nem querer outra coisa na vida que não seja tornarmo-nos mulheres/homens do jeito desse mesmo Jesus definitivamente vivo que nos sai ao caminho, e prosseguirmos, incansáveis e imaginativos, as suas Causas maiores, os seus Combates, as suas Lutas, os seus Conflitos, os seus duélicos Enfrentamentos teológicos, até que todos os fabricadores de vítimas, os seus sistemas, as suas religiões e as suas igrejas, mais os seus grandes media nos detestem, nos caluniem, nos maltratem, nos excluam, nos persigam, tratem o nosso nome como infame/maldito, numa palavra, nos excomunguem definitivamente do seu mundo de privilégios e de crimes sem perdão, de Mentira e de Homicídio em massa. E nós deixemos irreversivelmente de ser deles e passemos a viver ao lado das suas vítimas e com elas, muitas vezes, até incompreendidos por elas, nomeadamente, aquelas cujo sonho maior é, não destruir as fábricas de produzir vítimas aos milhões, mas passar-se para o mundo dos privilégios, nem que seja para tornar-se verdugo às ordens das Administrações e dos Executivos que estão à frente dessas fábricas…
“Que fizeste da tua irmã/do teu irmão?” Num mundo assim, como este nosso que Abbé Pierre conheceu por dentro como poucos e quis mudar/salvar/humanizar, onde é que temos hoje os nossos pés, a nossa cabeça, o nosso coração? A que classe pertencemos? Que grupo social integramos? Em que grupo ou classe nascemos e estamos neste momento, em 2007? Em que grupo ou classe vamos um dia morrer/explodir?
É manifesto que não integramos a minoria dos grandes ricos, como aquele grande rico da parábola evangélica de Lucas. Eram tantos e tais os seus luxos e privilégios e as suas riquezas, que ele nem via o pobre Lázaro que jazia à sua porta na companhia dos cães e em condições abaixo das deles. Não temos estômago para semelhante crueldade, para semelhante inumanidade (não temos estômago, ou apenas nunca tivemos oportunidade para chegarmos tão longe, para subirmos tanto na vida em solidão, para crescermos tanto em riquezas e em poder, em insensibilidade e em inumanidade? Sim, porque muitas vezes só não estamos aí, porque nunca tivemos oportunidade. Desejo/ambição/sonhos para isso não faltaram. Não seremos, por isso, grandes ricos frustrados? Não gostaríamos de ser um Gates, um Belmiro de Azevedo, nem que seja a pretexto de que, se o fôssemos, seríamos bons grandes ricos?!)
É igualmente manifesto que também não integramos a multidão incontável dos Lázaros, mulheres, homens e povos do mundo, nossos contemporâneos, condenados a ter de viver hoje abaixo de cão. Nem sequer Abbé Pierre alguma vez integrou. Ele foi sempre, como o próprio reconhece, um filho de família, um abbé (abade/padre), uma vedeta, uma personalidade, votada e reconhecida, ano após ano, pelos franceses. E na hora final do seu percurso histórico, até pôde contar no funeral do seu cadáver com a presença de grandes personalidades, entre as quais o próprio chefe de Estado francês, um cardeal a presidir, juntamente com vários bispos da Igreja católica. Tão pouco os media de França e do Mundo puderam titular em manchete: MORREU UM MALDITO! Mas foi exactamente isso o que disseram de Jesus, o de Nazaré, ao crucificá-lo entre outros dois subversivos políticos! (é por isso que o nosso carinho e o nosso afecto podem ser e são muito grandes para com Abbé Pierre, até ao ponto de estremecermos perante o exemplo da sua vida fraterna e solidária, mas precisamente porque ele nos faz sentir ainda mais saudades de Jesus, o Homem por antonomásia, a quem o Templo e o Império do seu tempo e país crucificaram como o Maldito dos malditos!). E quem são hoje os Lázaros, cuja incontável multidão de seres humanos não integramos? São os muitos muito pobres, melhor, empobrecidos, os oprimidos, os escorraçados, os sem eira nem beira, os Ninguém. Todos os do Terceiro Mundo, do Quarto Mundo e do Quinto Mundo!...
É então manifesto que os que aqui estamos neste jantar de amizade e nesta tertúlia, só podemos estar no enorme grupo ou classe que fica entre os dois grupos extremos que não se comunicam, como se entre eles houvesse um abismo intransponível, por isso, muito justamente chamada classe média média baixa, média ou alta. É aqui, nesta classe média que nós os que aqui estamos nascemos; ou que, mais cedo ou mais tarde, acabámos por vir parar. Somos dos que abriram os olhos, dos que subiram mais ou menos na vida, dos que arranjaram emprego estável, dos que estudaram, quando era difícil consegui-lo, dos que têm tido saúde e meios para a tratar, dos que evoluíram, dos que vivem dotados de consciência ilustrada, dos que têm conta bancária, dos que têm casa, dos que têm carro, um curso, bom nome na praça, crédito, influência, amigos, afectos, família, beleza, boa apresentação, educação, boas maneiras. E até viemos a este jantar/tertúlia, onde a incomensurável multidão dos muitos muito pobres nunca se atreveria a entrar, tão pouco chega a saber que ele está aqui agora a decorrer…
“Onde está a tua irmã/o teu irmão? Que fizeste?” Os grandes ricos não ouvem esta pergunta, por mais que ela esteja a ser ininterruptamente formulada! “Têm Moisés e os profetas: que os oiçam!”, responde a personagem Abraão, da parábola evangélica de Lucas, quando o grande rico, do seu abismo de Solidão e de Inumanidade, se lhe dirige a pedir que mande Lázaro aos palácios onde vivem todos os outros muito ricos, para que caiam na real e se convertam em seres humanos. Mas o dramático é que eles não ouvem sequer os profetas que falam em nome das vítimas, muito menos ouvem/vêem as vítimas. Nunca as olham nos olhos. São cegos, surdos, insensíveis, numa palavra, inumanos, monstros! “Nem que um morto ressuscite e lhes fale, nem assim eles mudarão, eles converter-se-ão em seres humanos. Continuarão a ser o que são: monstros!” É o que Abraão, a referida personagem da parábola de Lucas, responde ao grande rico definitivamente perdido na sua Solidão e na sua Inumanidade. Isto quer dizer que, da parte dos grandes ricos e dos seus sistemas/religiões/igrejas não poderemos esperar nunca a libertação/salvação/humanização do mundo. Deles, só vem perdição/opressão/humilhação/solidão/vítimas/morte. Eles e os seus sistemas, as suas religiões, as suas igrejas/ideologias são Mentira e Homicídio/Genocídio.
“Onde está a tua irmã/o teu irmão? Que fizeste?” Jesus, no mesmo Evangelho de Lucas (capítulo 6), diz isto mesmo, logo nas suas palavras programáticas: “Felizes vós, os pobres, porque é vosso o Reino de Deus”; e: “ai de vós, [grandes] ricos, porque já tendes a vossa consolação!” Não se refere à classe média (baixa, média, alta), onde estamos todas/todos os que aqui nos encontramos nesta sala. Quer dizer que Jesus sabe que não pode contar connosco na primeira linha do Combate, da Revolução, que há-de mudar/salvar/humanizar este nosso mundo concebido e edificado segundo o sopro descriador que atravessa a actual Ordem Mundial do Dinheiro, da Mentira/Poder e da Religião. Por isso é que não se refere a esta classe ou grupo social nas suas palavras programáticas de Acção Política Revolucionária/Criadora/Libertadora. O Evangelho chega a dizer que ele ainda terá pensado em alguns deste grupo ou classe social na primeira linha desse Combate político, mas depressa percebeu que não seria viável. Foi quando escolheu o Grupo dos Doze para andarem com ele e cooperarem com ele na libertação/salvação/humanização do mundo. A verdade é que todos vieram a falhar redondamente! Depois de escolhidos, um a um, começaram logo a sonhar com lugares cimeiros, de poder, uns à sua direita e outros à sua esquerda, exactamente como os grandes ricos. E é também assim que ainda hoje procedem os que se reclamam de seus sucessores (!), os bispos da Igreja, que o são mais na sede de privilégios e de Poder sagrado, do que na disposição de entregar/doar incondicionalmente a própria vida!... (As excepções, que as há, só confirmam a regra).
Com quem Jesus conta para libertar/salvar/humanizar o mundo é com os muitos muito pobres. Lá está: “porque é vosso o Reino de Deus”. Isto é, aos muitos muito pobres pertence dar corpo na História ao Reino de Deus, à Ordem Mundial alternativa, concebida e edificada segundo o Sopro/Espírito de Deus vivo e criador de filhas/filhos à sua imagem e semelhança, por isso, livres, autónomos, responsáveis, de maioridade, sororais/fraternos, em relação/partilha/comunhão de vida e de bens uns com os outros. Ou, por outras palavras, ainda mais políticas: A vós, os muitos muito pobres pertence fazer a Páscoa/Passagem deste mundo cruel e inumano, fabricador de vítimas aos milhões, para o mundo da Sororidade/Fraternidade, da Liberdade, da Dignidade, da Responsabilidade, da Justiça, da Paz.
“Onde está a tua irmã/o teu irmão? Que fizeste?” E então nós, os que integramos a classe média (baixa, média ou alta), não temos missão política a fazer na História? Por sinal, é isso que pretendem os grandes ricos, as suas igrejas e religiões que tudo fazem para nos distrair, entreter, adormecer, desmobilizar politicamente. Mas é aqui que o exemplo de Abbé Pierre definitivamente vivo nos fala e se nos revela fecundamente paradigmático. Porque se não tivermos a audácia de descermos, até nos fazermos voluntariamente pobres em comunhão com os muitos muito pobres e passarmos a integrar a multidão dos sem-tecto, sem-família, sem-afectos, sem-salário, sem-mesa, numa palavra, a multidão dos excluídos, dos escorraçados, dos malditos, ao menos, coloquemos todas as nossas capacidades, a nossa inteligência, o nosso saber, o nosso querer, o nosso ser e o nosso ter, numa palavra, o nosso viver ao serviço da Revolução que os empobrecidos do mundo têm que realizar, na primeira linha do combate político. Em lugar de colocarmos todas as nossas capacidades, a nossa inteligência, o nosso saber, o nosso querer, o nosso ser e o nosso ter, numa palavra, o nosso viver ao serviço do Sistema, das Religiões, das Igrejas. Façamos pelo menos como Abbé Pierre. E ainda muito mais do que ele, como o bispo salvadorenho Óscar Romero, o Bispo francês Jacques Gaillot, felizmente, ainda a viver entre nós, Che Guevara, Martin Luther King, Ignacio Ellacuría e os seus companheiros, todos barbaramente massacrados pelas tropas salvadorenhas ao serviço do Império ianque. Sejamos, como todos estes e muitos outros, elas e eles, foram, verdadeiros “intelectuais orgânicos” no meio dos muitos muito pobres do mundo e com eles. Parteiras/parteiros junto deles e com eles. Sem nunca os substituirmos. Sem nunca nos arvorarmos em seus líderes. Maiêuticos sempre, para que eles sejam Cristo=Messias=Libertadores. Porque, se nos atrevermos a ser ainda mais radicais que Abbé Pierre, talvez acabemos na Cruz como Jesus, o de Nazaré. E malditos quanto ele.
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Manuel Clemente é o novo Bispo do Porto
Quando abrir a boca em público, faça-o como verdadeiro profeta
A diocese do Porto tem novo bispo residencial. Manuel Clemente deixou o Patriarcado de Lisboa, onde foi bispo auxiliar, e acaba de entrar na diocese do Porto, como seu bispo titular e residencial. O papa Bento XVI assim decidiu e assim passou canonicamente a ser. Sem que a Igreja que está no Porto fosse tida ou achada em todo este processo.
Por aqui se vê que a nossa Igreja católica teima em manter-se hierárquica e piramidal, em lugar de ministerial e sororal/fraternal. E, enquanto assim for, os bispos aparecem à frente das dioceses totalmente à revelia da Igreja local que é, deve ser cada uma delas. Esta prática eclesiástica é uma aberração de peso, nomeadamente, nestes tempos que já não podem deixar de ser de eleições e até de referendos, no que respeita ao funcionamento da sociedade civil, assim como da generalidade das associações e instituições particulares. Só na nossa Igreja católica é que os tempos ainda não são assim. Basta esta aberração, para a Igreja já não ser mais o sinal levantado que está chamada a ser no mundo e na História. E, se deixa de ser sinal levantado, no meio do mundo, só pode ser contra-sinal levantado no meio dele. Pedra de tropeço. Sal que perde a força. Presença que corrompe os seres humanos e a sociedade. Mais perigo público do que salvação. Mais vírus do que vacina. Mais massa do que fermento. Mais Treva do que Luz.
Estão hoje cada vez mais longe os tempos em que os que dirigiam as nações caíam do céu, sem que os respectivos povos fossem tidos e achados. Dizia-se então, com a pompa e a circunstância das grandes Mentiras, que os reis eram escolhidos directamente por Deus e impostos por Ele aos respectivos povos. Foi uma crassa mentira que demorou séculos a ser desmascarada e a cair. Mas foi desmascarada e caiu. Em seu lugar, vigora, hoje, cada vez mais generalizado na sociedade civil, o princípio eleitoral. Sabemos que o processo de o exercer é pervertido de mil e uma maneiras, mas o princípio em si representa um avanço qualitativo na humanidade, um avanço civilizacional. Só na nossa Igreja católica é que as coisas continuam ainda como nos tempos das velhas monarquias absolutas. Não porque Deus, o de Jesus, assim queira, mas porque os homens de cúpula da Igreja assim o entendem e determinam.
Tudo seria já diferente, se os nomeados por Roma para bispos residenciais recusassem, um a um, entrar neste viciado processo e exigissem ser eleitos pela respectiva Igreja local, à qual hão-de presidir no amor mais desinteressado, sempre como aqueles que servem e não como os que mandam. Infelizmente, cada bispo que é nomeado pelo papa apressa-se logo a aceitar o lugar, sem querer saber para nada do processo utilizado na sua eleição e, por isso, este infantilizado estado de coisas mantém-se, ano após ano, geração após geração. É um estado de coisas que não tem, não pode ter a marca do Espírito Santo, mas, para o poder eclesiástico, isso é um pormenor sem importância. O Poder, todo o poder é surdo e cego. E insensível. Muito mais o poder eclesiástico, que se pensa sagrado e procedente directamente de Deus.
O dramático é que nada pode estar bem e respirar saúde nas instituições humanas, quando é feito contra a verdade. Porque agir contra a verdade é agir contra o Espírito Santo. E agir contra o Espírito Santo é agir contra os seres humanos e os povos. No caso em presença, é, antes de mais, agir contra a Igreja que assim deixa de o ser, para se tornar numa multinacional mais, da religião católica que vem dos tempos de Constantino e do seu Império romano, não, evidentemente, de Jesus, o de Nazaré.
Não se pode, pois, dizer que o Bispo Manuel Clemente começa bem o seu ministério episcopal na Igreja que está no Porto. Não se pode dizer que ele entra pela verdadeira porta que é Jesus, o bom Pastor (cf. Jo 10). Não entra. Digo-o, obviamente, ao nível do institucional, não ao nível do pessoal, do individual. As intenções do Bispo Manuel Clemente são, certamente, as melhores. O processo que acaba de o colocar à frente da Igreja do Porto é que está inquinado. E bom será que o Bispo Manuel Clemente esteja consciente disso, desde a primeira hora. E se defenda do vírus mortal que, se não for neutralizado e isolado, acabará por matar a sua alegria e a sua generosidade de Bispo. E matará igualmente os sete dons do Espírito Santo, absolutamente indispensáveis para alguém poder ser Bispo, no seio duma Igreja local concreta.
Aliás, as palavras com que o Bispo Manuel Clemente acaba de saudar a Igreja que está no Porto, revelam já, preocupantemente, um homem mais eclesiástico do que jesuânico Vejam só. Nessa mensagem, confessa-se disposto a “entregar-se a Deus, à Virgem santíssima e à comunhão dos santos”. Esta afirmação é certamente um vulgar lugar comum católico, repetido até à exaustão por gente eclesiástica. Mas, por mim, não posso deixar de ficar perplexo, ao ver o Bispo Manuel Clemente misturar Deus com a Virgem santíssima e com a comunhão dos santos. Que Deus é este que ele aqui invoca? Ainda é o Deus de Jesus, ou é outro Deus bem mais eclesiástico e católico romano, indissociável da mítica deusa virgem e mãe e dos santos que parecem fazer de corte celestial em redor dEle e, nessa circunstância, têm a função de lhe meter cunhas a favor dos seres humanos que a eles recorram, à semelhança do que costumam fazer quando pretendem obter certos favores dos grandes senhores deste mundo? Preocupante é também que o Bispo Manuel Clemente, na mesma saudação à Diocese do Porto, anuncie que tem como “programa”, “um só propósito, total e absoluto: conhecer, amar e servir a Diocese do Porto”. Para um bispo da Igreja de Jesus, é manifestamente insuficiente. Porque o Bispo tem que ter um coração jesuânico do tamanho do coração de Deus Criador e Libertador, e não um coração meramente eclesiástico, muito menos do tamanho duma diocese. Tem de sentir as dores de parto pela humanidade no seu todo e dar a vida por ela, em particular a mais oprimida e empobrecida, independentemente dela ser Igreja ou não, ser baptizada/crismada ou não. Tem que fazer seu e prosseguir aqui e agora o programa de Jesus de Evangelizar os pobres, libertar os oprimidos, mandar em liberdade os cativos, fazer ver os cegos e andar os paralíticos, ao mesmo tempo que há-de ser capaz de anunciar, oportuna e inoportunamente, por onde está a PASSAR a Acção de Deus Vivo na História. O eclesiástico, por si só, nunca foi bom conselheiro. Sempre acabará, se não nos pusermos em guarda, por transformar as pessoas mais generosas da Igreja em funcionários, porventura, generosos funcionários eclesiásticos. Mas não é para isso que alguém é ordenado Bispo da Igreja. Muito pelo contrário. No entanto, é o que a Cúria Romana, presidida pelo Papa, parece pretender em exclusivo ou, pelo menos, prioritariamente, dos bispos que nomeia. Em concreto, que cada Bispo residencial seja, na respectiva Igreja local, uma espécie de alter ego [outro eu] do papa de turno. E que converta a Igreja local a que preside numa espécie de Estado do Vaticano e de Cúria Romana em ponto pequeno. Nada de mais aberrante!
Não foi para isso que o Espírito Santo fez acontecer o Concílio Vaticano II na Igreja. Mas, pelos vistos, é para isso que existe a Cúria romana e o papa em Roma. Cada Igreja local é Igreja completa, segundo o Concílio Vaticano II. Mas a Cúria romana e o papa pretendem que cada Igreja local seja sobretudo uma sucursal eclesiástica, na dependência da Cúria Romana. Não uma Igreja na comunhão com a Igreja de Roma e com as outras Igrejas locais do mundo, mas uma sucursal na dependência de Roma, à semelhança de todas as outras Igrejas locais que também o deverão ser. O facto do Bispo residencial ser nomeado pelo papa de turno, totalmente à revelia da Igreja local à qual é chamado a presidir, é já revelador desta dependência. Se, depois, a prática episcopal vai nessa direcção, então nunca chegará a haver Igreja de Jesus a sério, mas apenas mais do mesmo do que se faz e diz em Roma. Deste modo, a Igreja comunhão de Igrejas que o Espírito Santo e o Concílio Vaticano II quiseram que acontecesse, terceiro milénio além, em alternativa à Igreja Cristandade Ocidental de má memória que esteve em vigor nos dezasseis séculos anteriores, não chegará a acontecer. E ficaremos condenados a ter mais do mesmo, numa apagada e vil tristeza.
Temo bem que seja mais do mesmo que o Bispo Manuel Clemente venha ajudar a fazer, quando é imperioso e urgente que a Igreja que está no Porto se liberte do férreo controlo da Cúria romana e do papa chefe de Estado, para ser Igreja obediente ao Espírito Santo em comunhão com a Igreja que está em Roma e em tantas outras partes do mundo. Conseguirá o Bispo Manuel Clemente esta proeza? Ou vai comportar-se como súbdito da Cúria romana e do seu papa-chefe-de-estado, sob o olhar mais policial do que eclesial do Núncio apostólico que está em Lisboa? A opção é martirial. Mas, ou ele tem a audácia de a fazer, desde a primeira hora do seu ministério episcopal no Porto, ou não passará de um Bispo residencial sob tutela, vassalo da Cúria romana e do seu papa imperial, infalível e dotado de poder absoluto, ao qual, pelos vistos, até Deus terá que se submeter!…
Melhor do que ninguém o Bispo Manuel Clemente sabe deste real perigo. Ou não fosse ele formado em História e, até agora, professor de História da Igreja na Universidade católica. Bom será que o historiador que ele é o seja na fidelidade à Verdade que nos faz livres, o mesmo é dizer, na fidelidade ao Espírito Santo. Tudo vai depender da concepção que o Bispo Manuel Clemente tenha do exercício do seu ministério episcopal. Através dos séculos, houve bispos, inclusive na Igreja do Porto, que prometeram muito e, depressa, acabaram súbditos e vassalos da Cúria romana e do seu papa, em lugar de irmãos na comunhão com o Bispo de Roma, a quem compete o humilde serviço de presidir no amor mais gratuito e criador à Igreja universal. O que os terá levado a isso? Todos terão cometido um erro gravíssimo, um grave pecado mortal. Uma vez no lugar, acharam que tinham de servir os interesses da instituição, em lugar de servirem o Evangelho de Jesus, em comunhão real e de corpo com o seu Espírito. Caíram no grave pecado mortal de confundir os interesses eclesiásticos com os interesses de Deus e do seu Evangelho que são - imaginem vocês - os interesses da Humanidade e do Universo. A partir daí, ficaram reféns da Cúria de Roma, por isso, quase sempre mais papistas do que o papa. Tornaram-se bispos residenciais em estado de menoridade, em estado de pecado mortal. Nunca mais fizeram acontecer a Igreja de Jesus, só a Igreja eclesiástica, empresa multinacional de religião, em lugar de Sinal levantado no coração da Humanidade.
O que, neste momento, mais posso desejar ao meu irmão Bispo Manuel Clemente é que ele resista a esta tentação e evite cair neste grave pecado mortal. O ideal será que, ao chegar à Igreja do Porto, comece por trocar o mastodôntico e opressivo paço episcopal, onde fizeram questão de viver os seus antecessores, por uma casa simples e acessível às mulheres e aos homens da rua, sem a mediação de nenhum porteiro. Na medida do possível, continue a viver do seu trabalho profissional, em lugar de se assumir como Bispo a tempo inteiro. Mais do que pôr-se a fazer sozinho na Igreja, faça a Igreja toda fazer. Não hesite em dispensar os três bispos auxiliares e, se não houver Igrejas locais disponíveis para cada um, que eles passem a viver o ministério episcopal numa paróquia ou num conjunto de paróquias da diocese, não a administrar sacramentos do Crisma a torto e a direito e a celebrar ritos litúrgicos em série, mas a escutar as populações e a comer com elas em redor de Mesas Partilhadas, onde o Evangelho de Jesus seja anunciado e escutado no que ele tem de mais essencial. Recuse, logo de início, as chamadas visitas pastorais às paróquias, coisa mais mentirosa e mais contrária à simplicidade do Evangelho e à prática pastoral de Jesus, o de Nazaré. Em vez dessa mentira organizada, ocasião de hipocrisia e de promiscuidade política e católica de pôr os cabelos em pé, telefone pessoalmente ao pároco aonde deseja intervir e apareça com algumas mudas de roupa e os seus objectos pessoais e fique uns dias com ele como irmão e companheiro, numa afirmação de proximidade e de comunhão de mesa que valerá, certamente, mais do que todos os ritos litúrgicos que pudesse vir a realizar no templo paroquial, no decurso de uma visita pastoral tradicional. Do mesmo modo, avance sem aviso prévio até às fábricas e às empresas espalhadas pela diocese e peça para se encontrar com as trabalhadoras, os trabalhadores, nem que seja apenas durante a hora do almoço. Coma com elas, com eles e oiça as suas dores, os seus dramas, as suas expectativas. Frequente com regularidade e com naturalidade os espaços culturais e converse descontraidamente com quem também tiver aparecido nessas mesmas ocasiões. Jamais distinga entre católicos e não católicos, pelo contrário, veja sempre os seres humanos que todas, todos somos. Deixe-se evangelizar por todos, para poder evangelizar a todos. E àqueles que a Igreja do Porto, nestes últimos anos, mais tem humilhado e ostracizado, ou que até condenou à não-existência oficial, corra a abraçá-los e a sentar-se às suas singelas mesas, como quem pede perdão e faz questão de reconhecer os carismas que o Espírito Santo aí tem conseguido desenvolver para bem da Humanidade, no seu todo. Finalmente, quando abrir a boca em público, faça-o como verdadeiro e despretensioso profeta, sem moralismos eclesiásticos de qualquer espécie, e sempre para dizer/testemunhar o Evangelho de Deus que é Jesus Cristo Crucificado pelos sacerdotes e pelos poderosos do Império, aí sacramentalmente presente e em interminável agonia nos milhões de oprimidos e empobrecidos do mundo, a quem, por isso, há-de também ajudar a tirar maieuticamente da cruz. Para que eles vivam e vivam em abundância.
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Sacramentum Caritatis, do Papa Bento XVI: Por este andar, ainda voltaremos a ver os padres a rezar a missa de costas para o povo
Nos mesmos dias em que a Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Santo Ofício, de má memória) espalhava a má notícia eclesiástica sobre a censura do Vaticano ao maior e mais martirizado teólogo vivo da Teologia da Libertação, o Pe. jesuíta Jon Sobrino, o Papa Bento XVI assinava e fazia publicar o documento Sacramentum Caritatis (Sacramento do Amor), no qual arrasa ainda mais a Missa/Eucaristia, já hoje reduzida a pouco mais do que um rito litúrgico, presidido por funcionários eclesiásticos celibatários mais ou menos à força e sem convicção. O texto-reflexão que se segue tem a assinatura do pe. Mário e começou por aparecer no seu Diário Aberto, na net. Não se façam rogados e mergulhem na leitura. Com esperança.
1. Decididamente, a Cúria romana e o papa Bento XVI parecem apostados em resistir ao Espírito Santo e em pecar sistematicamente contra Ela/Ele. Prova cabal disso é o extenso documento Sacramentum Caritatis (Sacramento do Amor) que o papa acaba de assinar e publicar como doutrina oficial da Igreja católica sobre a Eucaristia, para ser acatada e praticada por todas as Igrejas locais espalhadas pelo mundo.
O documento, se vier a ser acatado e praticado pela generalidade das Igrejas locais, o que é mais do que duvidoso e de desejar que não suceda, converterá ainda mais a Eucaristia num museu, porventura, muito respeitável, mas totalmente estéril, porque completamente à margem do ritmo da História e da caminhada da Humanidade para a plenitude da sua criação que, como facilmente se depreende, está toda no futuro e não no passado.
O documento ainda chega a falar na implementação da justiça no mundo, nomeadamente no tocante à repartição por todos os povos da riqueza produzida, como um dos frutos maiores da celebração da Eucaristia, mas até essa oportuna referência não passará de mera retórica papal, se a Eucaristia for, ainda mais do que já é, concebida e celebrada segundo as regras que este documento cegamente pretende impor, daqui para a frente, a toda a Igreja.
Na verdade, a preocupação maior e quase exclusiva do documento do papa esgota-se toda nas normas litúrgicas a respeitar e a executar, o que reduz ainda mais a Missa católica romana a um rito obsoleto, dito de novo, a partir de agora, preferencialmente numa língua mais do que morta que é o latim, acompanhado ao som do canto gregoriano de outras épocas de má memória que, felizmente, já não voltam mais, presidido exclusivamente por ministros ordenados, os presbíteros e os bispos, todos absolutamente celibatários (nada de mulheres católicas neste ministério, nem homens casados), em altares preparados para o efeito, perante assembleias-faz-de-conta, porque sempre sem voz nem vez.
Numa palavra, o documento do papa faz a Igreja católica regredir, a passos largos, para a situação anterior ao Concílio Vaticano II. Não é ainda o regresso completo ao pré-Concílio, mas é um grande passo nessa direcção. Um pouco mais de tempo e ainda voltaremos às missas com o padre de costas para a assembleia e a falar sozinho uma língua que ninguém entenderá.
Só que por este andar, nem os cerca de 20 por cento de católicos que, em Portugal, ainda têm pachorra para sair de casa ao domingo e ir participar num rito eclesiástico cada vez mais mumificado, aflitivamente esvaziado do fecundo e libertador Sopro de Jesus e por isso sem o mínimo de profecia, se manterão por muito mais tempo fiéis a esta estéril e rotineira prática social tipicamente católica.
As novas gerações, hoje já a crescer fora da Igreja, encontrarão neste documento de Bento XVI mais um argumento para radicalizarem as suas posições de distanciamento e de indiferença, o que constituirá, não um sinal de alarme, mas um sinal de saúde da parte delas, ainda que, objectivamente, constitua um desastre completo para a Igreja católica enquanto tal.
Deste modo, a Igreja católica confirmar-se-á cada vez mais como uma Igreja completamente fora do tempo, fora da História, porventura, uma referência museológica interessante, mas sem nada que faça dela, aqui e agora, a Maria Madalena-irmã-companheira-esposa-de-Jesus que a Igreja simbolicamente/sacramentalmente sempre deve ser, através dos tempos, capaz, por isso, de suscitar generosidades e dedicações, as mais fecundas, entre os seres humanos que continuam a vir a este mundo.
Pelo contrário, ao insistir na via imposta por este documento de Bento XVI, o mais que a Igreja católica poderá suscitar nos seres humanos que continuam a vir a este mundo é um estéril e inofensivo espanto, à semelhança do que as notícias dos dinossauros hoje suscitam em nós, seres humanos do século XXI.
2. Para cúmulo, o documento papal acabou por ser distribuído ao mesmo tempo que estava a ser difundida em todo o mundo a má notícia eclesiástica de mais uma vítima da famigerada Congregação para a Doutrina da Fé, do Vaticano, essa mesma que, durante o pontificado de João Paulo II, foi administrada pela mão de ferro do então cardeal Ratzinger, hoje papa Bento XVI.
A vítima, desta vez, é o teólogo da libertação mais conhecido e mais estudado no mundo das Igrejas cristãs, o padre jesuíta Jon Sobrino, por sinal, um amigo do Jornal Fraternizar e do seu director, um basco de quatro costados, por nascimento, mas há muitos anos radicado e naturalizado salvadorenho, na cidade capital de El Salvador, na empobrecida e violentada América Central.
Nem o facto de se tratar de um mártir vivo (estava ele então em digressão pelos Estados Unidos da América, a proferir várias conferências, e só isso impediu que fosse massacrado juntamente com o padre Ellacuría e todos os outros seus irmãos jesuítas que leccionavam e residiam nas instalações da UCA, a Universidade centro-americana mais conhecida em todo o mundo) impediu a Cúria Romana de sair ao seu caminho como Caim contra Abel.
Deveriam os cardeais da Cúria romana descalçar as sandálias e despojar-se das suas vestes de príncipes da Igreja, em sinal de respeito e de comunhão, mas está visto que eles não conhecem o Evangelho de Jesus, muito menos estão empenhados em ser discípulos de Jesus, apenas sucessores do governador do defunto Império Romano que o matou na cruz e agora, através deles, mata os discípulos, as discípulas dele, nomeadamente, os mais notórios.
De resto, a sua simples existência como cardeais da Igreja constitui a negação pura e simples do Evangelho e de Jesus. Por isso, acabam sempre a fazer o que mais sabem, que só pode ser o contrário de Jesus.
Como tal, não perdoam a Jon Sobrino que ele ainda esteja vivo e continue aí, aos 69/70 anos, a fazer Teologia com a força do Espírito de Jesus, como só ele, na sua humildade e pobreza, sabe tão bem fazer.
Pelos vistos, há já uns anos a esta parte, têm-lhe dirigido, através da sua Cúria romana, sucessivas advertências para tentar perturbá-lo e desencorajá-lo. Em vão. E, agora, precisamente nestes dias que antecedem a Semana Santa da Páscoa 2007, decidiram ironicamente silenciá-lo por completo (vá lá, os seus antecessores, os sumos sacerdotes e os príncipes dos sacerdotes do Templo de Jerusalém fizeram pior a Jesus, pois mataram-no na cruz!), pelo menos, naqueles espaços eclesiásticos ainda controlados por eles, felizmente, cada vez em menor número.
Resta, por isso, ao insigne teólogo Pe. Jon Sobrino, depois desta sanção eclesiástica, todo o nosso vasto mundo, a humanidade no seu todo. O que, bem vistas as coisas, nem será assim tão negativo para ele e para a Teologia de libertação que ele tão bem vive, reflecte e capta, a partir das vítimas.
É até de crer que esta censura eclesiástica acabe por ter um efeito contrário ao pretendido pelos cardeais da Cúria Romana. Se assim for, a Teologia da libertação que Sobrino vive, reflecte, diz e escreve passará a ser muito mais lida e escutada pela Humanidade que, hoje, na sua esmagadora maioria, já não se revê nas posições museológicas provenientes dos cardeais de Roma.
Contudo, a decisão da Cúria romana não deixa de constituir objectivamente mais um pecado contra o Espírito Santo, um pecado que contribuirá para a descredibilizar ainda mais e à nossa Igreja católica, já de si tão descredibilizada.
3. Por mim, director do Jornal Fraternizar, prosseguirei com mais entusiasmo ainda no caminho que estou a trilhar desde há muitos anos, como presbítero da Igreja que está no Porto. Um caminho que tem muito mais a ver com o Caminho ou a Via que Jesus abriu e em que acabou por se constituir para todos os seres humanos que o queiram ser em plenitude.
Concretamente, prosseguirei como presbítero definitivamente longe dos templos e dos altares, longe dos ritos obsoletos que não têm a marca de Jesus, o de Nazaré, nem do seu Espírito, apenas a marca das religiões do Paganismo e do Judaísmo, nomeadamente, do livro do Levítico. Sempre em redor de Mesas comuns e partilhadas, nas quais se sentam pessoas de carne e osso, mulheres e homens, com as suas esperanças e as suas dores, as suas alegrias e as suas mágoas, os seus entusiasmos e as suas desilusões. Em refeições/assembleias conspirativas, nas quais os interesses dos poderosos e dos privilégios não têm entrada, nem sequer como ameaça que nos assuste e desmobilize.
São Eucaristias assim, em nome e em memória de Jesus, o Crucificado pelo Templo e pelo Império e o Ressuscitado pelo Deus Vivo, que é sempre o Deus das vítimas, que acabam por alimentar-nos como seres humanos, vacinam-nos contra as tentações do Templo e do Império, tornam-nos resistentes às suas seduções, ao mesmo tempo que frágeis mas fecundos sacramentos vivos de Jesus que, sem que ninguém dê por isso, fecundamente contestam/subvertem/enfraquecem a Ordem Mundial dos ricos poderosos e dos seus sacerdotes, e estimulam as suas inúmeras vítimas a distanciar-se cada vez mais deles, dos seus espectáculos, das suas religiões, das suas leis e das suas ordens.
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Jon Sobrino
Querido Jon Sobrino
Daqui de Portugal, mais concretamente do Jornal Fraternizar, vai o meu abraço de total comunhão e de companheirismo fraternal na Mesa de Jesus.
Os cardeais da Cúria romana, sem coragem para se despojarem das suas vestes imperiais romanas e fazerem-se discípulos de Jesus e das vítimas que tu tão vigorosamente defendes e identificas teologicamente com o Crucificado/Ressuscitado, preferem denegrir o teu nome e o teu insigne labor teológico.
Felizmente, não te rendes, nem te deixas assustar. Continuarás a ver o Invisível e a escutar o que o Espírito Santo nos está a querer dizer a partir das vítimas da História.
Conto contigo e com a tua fidelidade até ao limite, na fidelidade de Jesus, o de Nazaré que foi insultado/odiado/escarrado/assassinado pelos senhores do Templo e do Império.
Recebe o meu afecto fraternal e a minha paz revolucionária. Mário
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Carta de uma leiga a uma virgem casada com NSJC
A carta é acutilante. Foi escrita com a indignação do amor sororal, que nunca pode ser vivido na Mentira, só na Verdade. Leiam-na com a mesma indignação do amor com que foi escrita. E, se forem do número das "virgens" aqui referidas, em vez de se indignarem contra a leiga casada e contra o Fraternizar, indignem-se contra quem lhes meteu essa falsa doutrina na cabeça. Haja modos, irmãs/freiras!
"Gosto dos seus escritos sobre as alminhas consagradas. Sabe que parte delas afirma ser casada com Nosso Senhor Jesus Cristo?”
Sempre embirrei com esta frase e tinha uma vontade danada de pôr os pontos nos iis, mas reprimi-me sempre, até que um dia "disparatei" com uma religiosa.
Era moça nova e entrou de falar com tal ardor da sua vocação, do ideal abraçado, da sua entrega ao Senhor, que pela boca dela fiquei a saber que era das tais casadas com Nosso Senhor Jesus Cristo. Nessa altura, profetizei:
- Olha, menina, casada sou eu. Recebi o grande sacramento do matrimónio. Quer queiras, quer não, tens um sacramento a menos do que eu! Mas, ficando na tua de que és casada com Jesus, só te digo que escolheste um partidão, fizeste um casamento de seda. Arranjaste um marido que, já sabias, não é rabugento, não te mói de pancada nem te dá peúgas para lavar, não gasta o ordenado todo na jogatina ou nas boites, não te invade a casa bêbedo como um carro, não te põe um par de chavelhos e foge com outra, deixando-te a criar meia dúzia de filhos. Não andas de vestido coçado nem de sapatos cambados e chegas ao final do mês sem as preocupações inerentes a uma pobre pecadora, leiga, que tem de pagar a renda de casa, água, luz, alimentação, roupa, calçado, livros. Não corres o risco de dar à luz filhos deficientes, nem te consomes de dor porque são marginais, drogados, ladrões. Nós, as mães leigas é que estamos sujeitas a isso.
Claro que o Senhor trata mal os seus amigos, por isso, tem tão poucos. A ti, casada e amiga dele, trata-te mal… E a nós, leigas, julgas que nos poupa? Se te desfiasse a minha vida, santo Deus!...
Há tempos, falei com uma freira que estivera nas antigas colónias e agora vive roída de saudades, porque deixou lá 60 filhos! Sessenta, calcula tu. Eu, pecadora, só tenho três! Mas ela não era mãe de verdade. Ser pai, ser mãe é coisa diferente. Um primo meu também estava em África, quando deflagrou a guerra colonial. Tinha três filhas. Uma delas fugira com um grupo de hipis não sei para onde, andava metida lá nos matos. A mãe veio embora com as outras duas, enquanto o pai ficou lá à espera que a fugitiva aparecesse. Meteu-se pelos sítios aonde ela poderia estar, correu enorme perigo de pisar uma mina, de ser baleado. Para quê? Para reaver a filha. E ela um dia chegou a casa, magra, amarela de fome, carregada de piolhos. Ele lavou-a, asseou-a, pô-la em ordem e veio com ela no primeiro avião para Portugal. Era pai a sério! Não havia Madre superiora, não havia ninguém que o fizesse vir e deixar lá a filha, quanto mais 60 filhos! Não digo isto para ofender a vossa “maternidade”, mas odeio embrulhadas…
Falas com tanto entusiasmo da tua virgindade, que te sentes a maior. Isso dá-te uma categoria, uma relação especial com o Senhor que nós, as leigas não temos. Eu, por exemplo, que até durmo com um homem. Parece que vives só para guardar a tua virgindade, sem te perguntares onde reside o valor da mesma. Sim, porque a integridade pela integridade não vale nada. A virgindade não se reduz a um pormenor anatómico. A verdadeira virgindade está no coração. Não é virgem quem tem o coração atolado de invejas, de intrigas, de calúnias e se esquece de amar os outros, porque anda muito ocupada em guardar a sua virgindade.
Olha, menina, mais pele menos pele não é coisa que cria novos céus e nova terra. Quando um dia chegares ao paraíso e o Senhor te perguntar: “Quem está lá?” Tu dirás: “Senhor, não me conheces? Eu sou uma das tuas virgens!...” O Senhor replicará: “Isso não interessa. Diz-me: Amaste? Não tenho aqui no céu um médico ginecologista para te observar. Sei que és virgem, se amaste, se te deste aos outros. A virgindade só vale se fecundaste algo de jeito, se cometeste feitos que me agradem muito.”
Não podes, menina, guardar a tua virgindade como quem guarda um objecto de luxo, porque se tornaria alienação e desvio do essencial. De que vale a virgindade que não suscita comunhão? Como se pode chamar íntegra uma pessoa sem braços para estender a mão, sem pernas para ir ao encontro dos outros? Uma pessoa que se rodeia de arame farpado e cuja virgindade não introduz no sexo uma ânsia de integração, uma força reconciliadora? A virgindade, menina, só tem valor se constitui um compromisso entre dois Cristo e a pessoa capaz de produzir amor, de criar relação, Igreja, Reino de Deus.
Há tempos, um jovem padre deixou-se ir na conversa duma moça. Ele que vivia lá no alto, considerando-se o maior, só porque guardava a sua castidade, caiu do cavalo. Veio a minha casa, desgostoso, humilhado como um esfregão. Meses depois, voltou a passar para me dizer, sabes o quê? “Eu que me julgava tão limpo, tão santo, antes de me acontecer aquilo, afinal andava enganado. Foi preciso adquirir o meu estatuto de pecador, para então, pequeno, frágil, empreender o êxodo, a caminhada para Deus e para os irmãos”.
Tens de te perguntar, por isso, lealmente, se a virgindade operou ou está a operar em ti essa integração de toda a tua pessoa corpo e alma projectando-a para o mundo. Ou se não viverás porventura ao nível dos libertinos, dos adúlteros, das prostitutas, de quantos separam irremediavelmente o sexo do amor, do seu papel de fazer comunhão, que tal é o fim primário do Evangelho.
Porque isto de ser virgem e não amar redobradamente, para que diabo serve?
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Jacques Gaillot em Lisboa
5 de Maio Convento São Domingos (Lisboa
“O Povo de Deus num mundo em mudança” é o tema do Seminário que o Movimento Nós Somos Igreja promove dia 5 de Maio em Lisboa, Convento de São Domingos, à Rua João de Freitas Branco, e que conta com a participação ao vivo de Jacques Gaillot, o Bispo de Parténia (ex-Bispo de Évreux).
O programa inicia-se com as conferências do Bispo Jacques Gaillot e da teóloga Teresa Martinho Toldy, moderados por Jorge Wemans.
Hugo Castelli e Evaristo Villar, da Igreja de Base de Madrid, apresentam depois o II Fórum Mundial de Teologia que se realizou em Nairobi em Janeiro 2007 (ver páginas centrais desta edição).
Após almoço no Convento, há mais duas conferências proferidas pela Dra. Manuela Silva e Frei Bento Domingues, moderados Maria Flor Pedroso.
Os trabalhos encerram pelas 18 horas com a Eucaristia na capela do Convento. Aceitam-se inscrições até 2 de Maio. Custo por pessoa 30 euros, almoço incluído (22 euros para jovens até 25 anos). Sem almoço, 20 euros. inscrições até 2 de maio 2007 para carina henriques nossomosigrejaportugal@gmail.com ou maria joão sande lemos tlm. 914602336
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LIVROS DO TRIMESTRE
Campo das Letras / Paul Preston
Pombas de Guerra
São duas inglesas e duas espanholas. Pip Scott-Ellis é uma aristocrata inglesa apaixonada por um príncipe espanhol. Nan Green é uma comunista inglesa que deixou para trás os filhos menores e viajou em 3.ª classe ao abrigo da solidariedade internacionalista. Margarita Nelken é uma intelectual, crítica de arte e escritora que acabou uma política radical. Mercedes Sanz-Bachiller é uma fascista que abortou ao ouvir a notícia da morte do marido em combate e acabou a fundar uma organização de beneficência que mudaria a face de Espanha. Ao todo, são 460 páginas de vidas reais que mais parecem um romance com quatro protagonistas, cada qual a mais invulgar. Com elas, a Guerra tornou-se menos inumana. Só perde quem não ler este livro.
"Este livro não possui pretensões teóricas. O seu objectivo é muito simples - contar a história de quatro mulheres invulgares cujas vidas foram drasticamente alteradas pelas suas experiências na Guerra Civil de Espanha. Todas elas são relativamente desconhecidas. Nenhuma das duas mulheres inglesas que prestaram serviço nas unidades médicas de cada zona tiveram qualquer proeminência política. As duas mulheres espanholas que tiveram uma invulgar presença pública, uma na zona republicana e a outra na zona nacionalista, estiveram envolvidas em tarefas bem distintas das de decisão política dos grandes líderes de guerra de ambos os lados do conflito. E mais, tanto naquela altura como subsequentemente, elas desenvolveram o seu trabalho na sombra de rivais de maior proeminência e fama. Não obstante, este facto é, devido à verdadeira intenção deste livro, uma vantagem. Os detalhes políticos ficam assim subjacentes, ou serão, quando muito, considerados no contexto das suas outras relações pessoais - com amantes, maridos e filhos. Neste sentido, este trabalho é de história emocional. Segue-as desde a nascença à morte, numa tentativa de mostrar como, enquanto mulheres, esposas e mães, foram afectadas pelas lutas políticas dos anos 30, como as suas vidas foram alteradas para sempre pelos conflitos políticos dos mesmos anos 30, pela Guerra Civil de Espanha e pelas suas consequências."
São palavras do próprio autor, no Prólogo. É uma citação longa, mas justifica-se. Vale como a melhor apresentação do livro. Percebe-se de imediato que não aborda a Guerra Civil de Espanha, enquanto tal, mas acaba sempre por iluminar "alguns dos recantos pouco conhecidos deste conflito."
Em certos momentos, o livro também fala de Portugal, país por onde alguma destas quatro mulheres acabou por passar e permenecer algum tempo. Todas estas páginas "fazem" um monumento de humanidade, com as suas contradições, os seus amores, os seus encontros e desencontros. É por isso uma obra inesquecível para quem mergulhar nas suas páginas. Se começaram, só param no fim!
Sal Terrae / Jurgen Moltmann / Elisabet
Paixão por Deus
Uma teologia a duas vozes
Os autores são teólogos já com mais de 50 anos de vida matrimonial. Os textos com que ambos "fazem" este livro de 118 páginas são de leitura e compreensão bastante acessíveis. Embora casados, cada qual mantém a sua autonomia teológica, o que enriquece ainda mais o livro. O volume é precedido duma Introdução, assinada por M. Douglas Meeks que nos introduz no pensamento e no itinerário teológico de ambos. Não percam.
"Tanto Elisabeth como Moltmann - pode ler-se na Introdução - contribuíram em grande medida para uma teologia da criação que faz fincapé na encarnação e na vida com a natureza. As suas teologias criticam o distanciamento de Deus e desenvolvem o tema de que Deus mora na terra. Elisabeth mostra (...) como as mulheres querem ver como se desenvolve a realidade de Deus na terra, para tornar este real no mundo. A teologia feminista procura um amplo espectro de experiências de Deus nos âmbitos das relações pessoais, da política e da ecologia. A teologia da amizade de Elisabeth trata da encarnação, falando duma nova maneira sobre a encarnação e a corporeidade de Deus".
São seis os temas abordados, três por cada um dos autores. Elisabeth escreve os três primeiros temas: "Experimentar Deus fisicamente"; "A amizade, uma categoria esquecida dentro da fé e da comunidade cristãs"; "Nós, as mulheres, cremos de modo diferente?".
Já Moltmann prefere outras temáticas: "Orar com os olhos abertos"; "O Deus crucificado ontem e hoje"; Globalização, terrorismo e o começo da vida".
No tema, "Nós, as mulheres, cremos de maneira diferente", Elisabeth sublinha com oportunidade: "Para muitas mulheres é importante ver o comportamento das mulheres bíblicas de maniera nova: as mulheres não fugiram quando Jesus foi preso, arriscaram a ficar junto à cruz para acompanhar o inimigo do Estado até ao túmulo e ocupar-se devidamente do seu corpo. Devia tratar-se duma relação erótica, duma amizade entre as mulheres e Jesus que se prolongou para lá da morte. Esta relação foi apaixonada por parte da primeira líder da Igreja, Maria Madalena."
Por sua vez, escreve Moltmann no tema, "Orar com os olhos abertos":
"O que pretendemos quando oramos? Quando oramos, estamos à procura da realidade de Deus e a tentar sair da sala de espelhos dos nossos desejos e das ilusões em que vivemos prisioneiros. (...) Se na oração procuramos a realidade do mundo de Deus - recordemos a primeira linha da Oração do Senhor: «Santificado seja o teu nome, venha o teu reino...» - então é justamente o oposto ao «ópio do povo». A oração assemelha-se mais ao começo da cura das insensibilizadoras excrecências do mundo secular." Eis o livro. Falta apenas mergulhar nele.
Sal Terrae / J. Ignacio González Faus
Exercitar a Liberdade
Meditações dos Exercícios de St.º Inácio
Quem quiser aproveitar e fazer os Exercícios de St.º Inácio de Loyola junto com o eminente teólogo ibérico González Faus basta que adquira este seu novo livro. No mesmo volume de 230 páginas (ao livro, o autor juntou mais uns 8 apêndices, todos eles oportunos) encontra-se assim o essencial dos antigos Exercícios, mas aqui teologicamente actualizado. Atrevam-se, que não se arrependerão.
O livro abre com o tema fundamental dos Exercícios, titulado "Princípio e fundamento". Para Inácio de Loyola era indiscutivelmente Deus. Vejam como o "nosso" Inácio G. Faus, amigo e companheiro de Fé, inicia a sua "actualização". Assim: "Para começar, temos que dizer que de Deus não sabemos nada nem podemos dizer praticamente nada. É o totalmente Outro. Uma forma de ser tão real que não tem nada que ver com o que nós chamamos realidade, aqui, nem com o nosso tempo, nem com o nosso espaço... S. Tomás sublinhava que de Deus podemos saber que existe, porém, não podemos saber o que é (coisa que costumamos esquecer, porque nos tenta demasiado isso de um «deus manejável»). Mas o que acontece é que essa Realidade «outra», esse «totalmente outro», deu-se-nos, comunicou-se-nos."
Entretanto - acrescenta de imediato o autor - "Deus deu-se-nos de uma maneira muito diferente do que nós esperaríamos". E esse é o belo e o dramático. Belo, porque só assim é que Deus não ésempre uma invenção dos seres humanos. Dramático, porque nunca saberemos de forma absoluta se o Deus em que cremos é já o totalmente Outro, ou se é ainda inventado por nós.
Por isso é que o segundo capítulo do livro (segunda semana, nos Exercícios) é tão decisivo. Abre-nos a Jesus, o de Nazaré, a revelação integral e definitiva de Deus. E também, obviamente, ao seu Espírito.
Com Jesus, podemos chegar a conhecer Deus, o totalmente Outro, ao mesmo tempo que nos conhecemos a nós próprios, como seres humanos.
"A paternidade de Deus converte Deus em boa notícia. Muitos de vós conhecereis o livrito de René Luneau, um belga que esteve em África muito tempo, titulado Jesus, o homem que evangelizou Deus. Jesus converteu Deus em boa notícia, sem por isso o deformar num "Deus a la carta" que é o que hoje parece estar na moda e o que muitas pessoas gostariam que Ele fosse. E o Reino, a presença da paternidade de Deus, já não é agora uma dimensão meramente vertical, mas uma dimensão em que a vertical se horizontaliza, se socializa. (...) O que significa, portanto, que Yahveh reine? Pois tão só isto: justiça para os oprimidos, liberdade para os cativos, pão para os famintos, vista para os cegos, amparo para o que não se tem de pé, acolhimento do estranho... O Reino é uma situação tremendamente humana, horizontal, social."
Bom seria que católicos e não católicos, elas e eles, se "perdessem" nas páginas deste livro, nuns dias de Retiro ou não. Quem sabe se não se encontrariam com o Deus boa notícia que Jesus, o de Nazaré, nos deu a conhecer. Até o mundo mudaria!...
El Almendro / J. Luis Herrero del Pozo
A religião sem magia
Testemunho e reflexão de um cristão livre
Dentro, o título do livro é mais completo e elucidativo. Tem um ante-título esclarecedor: "A Igreja que queremos". Disso se trata, ao longo das 257 páginas com que o livro se tece. Páginas cheias de lucidez e de audácia. Contra o obscurantismo que as Igrejas cultivam e alimentam, numa clara traição à sua missão de sal da terra e de luz do mundo. Obrigatório ler.
"A meus amigos agnósticos e cristãos sem Igreja". A dedicatória já diz tudo. O livro pode não agradar sobremaneira aos profissionais eclesiásticos da religião, mas dirá bastante aos que já desistiram de frequentar esses locais e o que neles ainda se faz. Mas por isso é um livro polemicamente saudável e saudavelmente polémico.
"Tens entre mãos não um livro de teologia [ainda que também o seja, diz o Fraternizar], mas de reflexão crítica, mais livre do que normalizada, quanto ao método e conteúdo, sobre as crenças cristãs, as populares e as eruditas". O esclarecimento é do autor, logo a abrir o primeiro capítulo, "Contexto biográfico".
"De algo não podemos duvidar os seres humanos, crentes ou não, e é da nossa própria valia como espécie. Com todos os matizes e sombras que se queira, somos a maravilha do cosmos. Todo o nosso organismo, e mais ainda, a luz mental que o anima. Num complexíssimo cérebro funcionam umas faculdades anímicas que são o cume da evolução cósmica e, por isso, o supremo dom de Deus. É desagradecido e ridículo andar a pôr poréns ao dom. É certo que as nossas faculdades por vezes avariam, são capazes do melhor e do pior. Em qualquer caso é o que temos, potente e grandioso, de modo indiscutível e ao alcance de todos. É insensato desvalorizar ou olhar por princípio com suspeita a inteligência humana. Por que desconfia tanto dela a Igreja? Sem dúvida, porque não há nada mais refractário ao poder do que a capacidade crítica. Entre os dois opostos, «racionalismo» e «fideísmo», o primeiro é exagero, o segundo, perversão".
A primeira parte do livro, "A religião tradicional superada", tem mais 9 capítulos: Igrejas e mundo em mudança de época; Na pista duma intuição; A ciência, crisol da religião; O seísmo religioso da Ilustração; Secularidade versus credulidade; O pensamento mágico; «Recuperar a Criação»; Da abstracção à vida libertada; Transição: Fé revelada ou pensamento crítico?"
A segunda parte, "Depois da religião, o quê?", tem 4 capítulos: Deus «revelou-se»?; Jesus, homem e Deus?; Do último túmulo da Igreja... ressuscitará Jesus?; Depois da Igreja... uma espiritualidade política?
"Em sentido estrito, Deus não elege um povo, não predestina, não se revela ao profeta, não envia o seu Filho, não funda nem cauciona uma igreja, não faz de alquimista sobre os altares... Deus é sempre fundamento ôntico, porém não intervém por entre cortinados no curso das coisas
Desclée de Brauwer / Marciano VIDAL
Orientações éticas para tempos incertos
Entre a Cila do relativismo e a Caribes do fundamentalismo
De renome internacional, o autor é professor ordinário no Instituto Superior de Ciências Morais de Madrid e inscreve-se na corrente libertadora do grande e inesquecível B. Haring que arrancou a Teologia Moral do Moralismo eclesiástico que fazia dela uma mortífera arma ideológica de terrorismo contra as populações. O livro, de 420 páginas, é um tratado que dignifica o autor e dignificará as leitoras, os leitores. ImperdÍvel.
As questões de moral encontram-se no primeiro plano tanto da vida pública como da vida eclesial", começa por reconhecer o autor, no texto de apresentação do livro.
"As vezes, dá a impressão de que as tensões entre o Estado e a Igreja católica situam-se no terreno moral, quer da bioética, quer da ética sexual ou da moral matrimonial, além dos clássicos lugares de conflito do ensino religioso na escola e do financiamento económico do clero."
"O meu objectivo, esclarece o autor, não é dizer a última palavra sobre os temas abordados". Ainda assim, constata-se com satisfação que ele não se inibe de dar a sua opinião sobre os temas em reflexão. "Ofereço-a como estímulo para suscitar a criatividade teológica e pastoral daquelas pessoas que, através da leitura, queiram sonhar novos caminhos na sua compreensão cristã."
O livro tem 7 partes e 14 capítulos:
I parte, Situação (1. O «mal-estar moral na Igreja pós-conciliar; 2. Entre a Cila do fundamentalismo e a Caribes do relativismo).
II parte, Critérios (3. O ethos do amor: a orientação básica da moral cristã; 4. A comunhão trinitária e o diálogo ético na sociedade secular).
III parte, Categorias e vias (5. Categorias éticas para discernir os desafios da ciência e da técnica; 6. É possível actualizar, de forma inteligente e inovadora, a «ética da virtude»?).
IV parte, Bioética (7. Bioética cristã: identidade teológica e presença pública; 8. Questões éticas e jurídicas à volta do morrer humano).
V parte, Ética sexual (9. O que tem de «cristã» a moral sexual católica?; 10. Os quatro pontos críticos da posição católica sobre a homossexualidade).
VI parte, Ética matrimonial (11. Propostas para uma «normalização» eclesial dos casais católicos «recasados»).
VII parte, Ética social (12. Honradez perante a corrupção: transformação moral do sujeito social; 13. Para uma economia alternativa; 14. A globalização: perspectivas descritivas e orientações éticas).
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Domingo, 27 Maio 07
9.º Encontro de Espiritualidade
A Igreja ou
o Reino de Deus?
É já no dia 27 de Maio 2007 que se realiza na Casa-sede do Jornal Fraternizar, em São Pedro da Cova (Gondomar) o 9.º Encontro de Espiritualidade com o Ateísmo e a Idolatria generalizados em fundo. Tema em debate/conversa: Jesus, o de Nazaré, anunciou e fez presente com a sua prática libertadora/curadora o Reino de Deus. E nós, Igreja, o que fazemos?
O resto já sabem: o Encontro inicia-se pelas 10 h e encerra pelas 17 h. Momento forte do dia é o Almoço Partilhado em Memória e em Nome de Jesus, e conseguido com o que cada pessoa levar para pôr na Mesa Comum. A Associação Pe. Maximino garante uma sopa de legumes bem quente, a abrir.
Como habitualmente, o debate/conversa é feito por todas as pessoas que participam no Encontro. Ninguém vá sem fazer o trabalho de casa. E se quiserem, tenham presente o que, a propósito, testemunha o Evangelho de Lucas 4, 14-44). Sobretudo, escutemos o seu Espírito.
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Dia 17 de Maio, 21 horas, no Clube Literário
(junto à Alfândega-Porto)
Leilão de pintura
Para o Barracão de Cultura
Está já marcado para o dia 17 de Maio, a partir das 21 horas, no Clube Literário do Porto, junto ao Edifício da Alfândega, um leilão de pintura que reverte integralmente a favor da construção do Barracão de Cultura, da Associação AS FORMIGAS DE MACIEIRA. A iniciativa está a ser dinamizada na primeira linha pelo Jornal O ARRIFANA e o seu director Armando Fernandes, e tem como patrono maior o conhecido director do Museu de Arte Contemporânea da Bienal de Vila Nova de Cerveira, Henrique Silva.
Neste momento, a iniciativa tem já garantida a oferta integral de quadros de vários pintores, uns menos conhecidos, outros mais, com destaque para o próprio Henrique Silva, Casal Aguiar, Carlos Barreira, Jaime Isidoro, José Rodrigues e Dad.
Prosseguem os contactos junto de outros pintores, para que se disponham a partilhar pelo menos um dos seus quadros para o leilão. Decisivo, também, é garantir a presença no leilão de pessoas com poder de compra amantes de pintura, coleccionadores, empresários, médicos, advogados, que adquiram as obras que vão a leilão.
O actor António Reis, da Seiva Trupe, será o leiloeiro de serviço, o que só por si é garantia de qualidade e de isenção. Espalhem a notícia, p. f.
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Edição Campo das Letras-Porto
SALMOS
Versão séc. XXI
O livro mais
jesuanicamente “blasfemo”
do Pe. Mário de Oliveira
(já em distribuição nas livrarias)
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