Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 164, de Janeiro/Março 2007 (Continuação)

IGREJA/SOCIEDADE

Fraternizar faz sua esta posição que o pe. Mário

defendeu, dia 07/12/06, na Faculdade de Direito de Lisboa

Aborto: sim à Lei

Tal como todos os bispos católicos portugueses, também eu, presbítero da Igreja do Porto, sou contra o aborto. A­cho, até, que todas, todos os que es­ta­mos aqui neste debate também so­mos. É uma posição que todo o ser hu­mano em seu juízo subscreve. Não é preciso ser crente católico ou ateu. Bas­ta ser mulher, homem.

Mas os bispos católicos em bloco – pelo menos, é esta a imagem que fa­zem passar para a comunicação social, quando se reúnem em Fátima – são contra a lei de despenalização do aborto (IVG); e eu sou a favor da lei. É aqui que divergimos. Muito legi­timamente, aliás. É a lei que nos coloca em campos opostos. No campo dos prin­cípios, eu poderia estar com os bis­pos católicos. Mas não é isso que está em jogo no Referendo do dia 11 de Fevereiro de 2007.O que está em jogo é se uma mulher, a seu pedido, pode in­ter­romper uma gravidez que, no en­ten­der da sua consciência, não deve ir em frente; se, no caso dela avançar nessa decisão, pode recorrer aos hos­pi­tais públicos para abortar em condi­ções de segurança e sem riscos maio­res para a sua saúde e, assim, ficar em condições de poder protagonizar no­vas gravidezes desejadas e achadas oportunas por ela e seu companheiro; e se, depois de tudo isto, essa mesma mulher não tem de ser presa, levada a tribunal e condenada a vários anos de cadeia.

A lei que vai a referendo pretende abrir esta possibilidade, sobretudo, às mulheres pobres e mais oprimidas, de quotidianos muito difíceis; porque as outras mulheres, de nível social e cul­tural superior, não precisam que se lhes abra esta possibilidade. Quando de­cidem abortar, mesmo que votem “não” no Referendo, sabem muito bem onde há clínicas privadas e vão por elas, como quem dá um passeio à nossa vizinha Espanha.

A lei que vai a referendo pretende abrir esta possibilidade às mulheres. Não impõe a nenhuma mulher grávida o aborto! Pretende apenas dar às mulheres grávidas que em consciência decidiram abortar esta possibilidade de escolha e de prática. Para que as mu­lheres que decidiram abortar, nas pri­meiras dez semanas, não fiquem con­denadas a ter de o fazer na clandes­tinidade, às mãos duma habilidosa abortadeira, em condições de vergonha e de desumanidade; ou, em alternativa, não tenham de recorrer a clínicas pri­vadas interessadas exclusivamente nos lucros, geralmente chorudos, que arran­cam às mulheres, em aflição, que as procuram. À semelhança do que tam­bém hoje fazem certas Igrejas recém-fundadas que invadiram o nosso país e que mais não são do que máquinas de fazer dinheiro à custa da dor huma­na dos mais desvalidos e desampara­dos da sociedade.

Por mim, não quero que uma mulher que em consciência decidiu abortar tenha, como única saída, o aborto clan­destino, feito em condições traumáticas que podem tornar infecunda para o res­to da vida aquela que o faz, tantas ve­zes, ainda jovem, ou mesmo adoles­cente, e que, por razões as mais diver­sas, engravidou contra a sua vontade. Nem que a razão mais forte tenha sido a irresponsabilidade ou a leviandade ocasionais. Numa sociedade humana, não apenas animal, quero que a mulher embaraçada com uma gravidez não pro­gramada e não projectada tenha ou­tra porta aonde bater e que essa porta sejam os estabelecimentos de saú­de pública. A lei que vai a referendo é isso que proporciona às mulheres grávidas que em consciência decidam abortar, dentro do período máximo das primeiras dez semanas. Por isso é bem-vinda. Já deveria ter sido aprovada há muitos anos.

Eu sei que há muitas outras ques­tões em jogo, mas também sei que há muita hipocrisia que se esconde por trás dessas muitas outras questões. Não me perco nessa floresta de questões. Prefiro a simplicidade da verdade, o sim-sim/não-não que recomenda o E­van­gelho. Prefiro ir directo ao assunto. Acho que é mais pastoral e mais evan­gélico.

Os bispos católicos portugueses, infelizmente, não vêem assim. E escon­dem-se por trás do que eufemis­tica­mente chamam “defesa da vida”. Mas quem defende mais a vida, no caso con­creto duma mulher que decidiu na sua consciência abortar? O que a atira para o aborto clandestino e para a pri­são, ou o que lhe abre a porta do hos­pital público, em ambiente de humani­dade, de afecto, de diálogo e de menos traumas? Nesta última via, a mulher não fica em melhores condições de saúde para poder programar uma nova gravi­dez desejada e levá-la ao fim? Aliás, conceber entre seres humanos não há-de ser diferente, não tem de ser dife­ren­te de conceber entre animais? Um acto de tamanha importância, como é gerar uma filha, um filho, não exige mais, muito mais do que o simplismo ir­responsável de um “aconteceu e ago­ra há que aguentar"?

É hipocrisia ignorar esta realidade e, em alternativa, defender que se de­ve investir tudo na prevenção, em lugar de ir a correr aprovar a lei de despe­na­li­zação do aborto. O que eu defendo é: aposte-se tudo na prevenção, mas, enquanto continuar a haver mulheres que abortem às mãos de habilidosas abortadeiras, aprove-se a lei de despe­nalização e abram-se os hospitais pú­blicos a estas mulheres de carne e osso e de vidas difíceis, como alternativa às abortadeiras e à clandestinidade. Não coloquemos as coisas em dijuntiva: ou-ou, mas em copulativa: e-e; não, pre­ven­ção ou lei de despenalização, mas, prevenção e lei de despenalização, pelo menos enquanto esta for necessá­ria como mal menor. Acho que esta mi­nha orientação pastoral está muito mais conforme ao Evangelho de Deus que Jesus, o de Nazaré, nos deu a conhecer mediante a sua prática cheia de miseri­córdia contra a insensibilidade/cruelda­de dos fariseus que, em nome da pure­za legal, mantinham as pessoas, so­bre­tudo, as mulheres na opressão e na menoridade e na impossibilidade de escolherem em consciência.

Antes de concluir, tenho que dizer aqui, no contexto deste debate sobre a lei de despenalização do aborto, e dizê-lo sem que a voz me trema, que cruel é o Direito Canónico da Igreja ca­tólica que condena com pena de exco­munhão as mulheres que abortam; e já não condenaria com essa mesma pena as mulheres que, só para não se­rem excomungadas, decidissem levar a gravidez ao fim e depois matassem o bebé recém-nascido. Espantam-se? Mas é assim a crueldade do Código de Direito Canónico! Mas eu pergunto mais: E porque é que só o aborto tem pena de excomunhão e não todo e qual­quer homicídio voluntário, nem as guer­ras, nem os ditadores? Não é por­que só as mulheres podem escolher e decidir abortar, não os homens?

Digo mais: Insensíveis são os bis­pos católicos, para não dizer cruéis, que não querem que as mulheres sejam sujeito de direitos e de deveres, tam­bém em relação ao seu corpo e à sua sexualidade e para decidirem em cons­ciência se hão-de abortar ou não. Que­rem-nas eternamente menores, súbdi­tas, tuteladas, primeiro pelos pais, de­pois pelos maridos e, durante toda a vida, pelos párocos, bispos e papa!

Insensíveis são os bispos católicos, e muito pouco humanos, porque não são capazes de se alegrar com a emer­gência e a crescente afirmação da soci­e­dade civil, feita de mulheres e homens em radical igualdade, que hoje já se re­vela capaz de legislar em matérias até há pouco reservadas a eles e ao pa­pa de Roma. Por mim, alegro-me com estes avanços e acho que eles dão glória a Deus, o de Jesus, que nos quer cada vez mais adultos e responsáveis, capazes de decidir em consciência.

Vão, pois, por mim. E no dia 11 de Fe­vereiro de 2007, reconheçam às mu­lheres o direito a escolherem em cons­ciência se hão-de levar a gravidez ao fim ou se hão-de interrompê-la no ambiente humano e afectivo de um hospital público.

Finalmente, à Igreja católica que tam­bém sou, nomeadamente, à sua hi­e­rar­quia, peço que não se intrometa na consciência das mulheres, nem dos ho­mens. Pelo contrário, ajude sem se­cta­rismos e sem moralismos farisaicos a formar consciências humanas respon­sá­veis. E o resto virá por acréscimo. Aliás, o que não for assim é pecado!


Celibato dos padres:

pressões obrigaram Vaticano a reunir

De novo o ferrolho, em lugar

de saudável tsunami na Igreja católica

No início da 2.ª quinzena de Novembro, o Papa Bento XVI convocou o alto clero para um encontro no Vaticano. A lei do celibato eclesiástico estaria no centro do debate. São tantos e tão graves os escândalos, nomeadamente, os casos de pedofilia nos Estados Unidos, que os media pensaram que a lei iria ser revogada. Ingenuidade das ingenuidades. Fraternizar foi ver o que o pe. Mário escreveu a propósito no seu Diário Aberto, na net. Eis o que encontrou.

Inesperadamente, o celibato dos padres voltou ao debate nas rádios e nas televisões do país. O papa Bento XVI convocou esta semana um encon­tro de alto nível no Vaticano, com car­deais manifestamente misóginos, inca­pa­zes de qualquer emoção erótica, e com todo aquele ar de meros funcioná­rios eclesiásticos especialmente prepa­rados e vestidos para se movimenta­rem à vontade na corte do poder impe­rial eclesiástico, para com eles debater o magno problema. E não é que logo muita boa gente pensou que o encon­tro seria para, finalmente, se mexer na lei eclesiástica em vigor? Até o Movi­mento NÓS SOMOS IGREJA emitiu uma nota a saudar o encontro, o que me fez sorrir, perante tamanha ingenuida­de. Mas como é que ainda fomos capa­zes de imaginar que seria este papa Bento XVI a pôr fim à cruel lei eclesiás­tica do celibato? Também o Movimento internacional dos Padres Casados ali­mentou idênticas expectativas em torno deste encontro, o que me espanta e qua­se escandaliza. Como é possível se­melhante ingenuidade da parte des­tes dois sectores progressistas da Igre­ja? Então achávamos provável que, de repente, o papa Bento XVI fosse capaz de desacreditar o ex-cardeal Ratzin­ger? Não é manifesto que o cardeal Ratzinger, antes de ter sido feito papa Bento XVI, foi sempre o braço mais obs­curantista do pontificado do seu ante­cessor, o papa João Paulo II? Não foi ele o seu principal anjo mau, adversário declarado de um Cristianismo com en­tra­nhas de humanidade, vivido na liber­dade e na responsabilidade de cada um dos seus membros? Não perseguiu ele, com ódio teológico e até à morte sim­bólica, alguns dos maiores expoen­tes da Teologia da Libertação? E não é também ele quem, agora, uma vez feito papa Bento XVI, começou logo a ponderar na possibilidade do regresso em força do latim às missas e à liturgia católica em geral? E não é também ele quem, mesmo antes de ser papa, já ha­via decidido que até Deus, se quiser ter futuro, terá que ser católico romano e acatar como verdade absoluta os seus pessoais pontos de vista teológicos? Que outra coisa pode significar, senão isto mesmo, aquele famigerado docu­mento Dominus Iesus, sobre o ecume­nis­mo das Igrejas, que ele, na sua qua­li­dade de Presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, redigiu e obri­gou o papa João Paulo II a assinar e, as­sim, torná-lo doutrina a ter de ser acatada por toda a Igreja?

Pode parecer que estou a carica­turar, mas não estou. Os comporta­mentos do cardeal Ratzinger/papa Bento XVI é que são mesmo assim. Por mim, limito-me apenas a dar-lhe mais visibilidade, através duma linguagem descodificada, feita de algum humor e muito amor. Aliás, é para isto que exis­tem ou devem existir os jornalistas, elas e eles, quando o são verdadeiramente, e não se resignam nunca a ser simples pés de microfone, ou simples correias de transmissão dos argumentos dos opres­sores e dos poderosos do mundo, que sempre se têm na conta de deuses infalíveis e sem pecado, ou todos eles não identificassem sistematicamente a acirrada defesa dos seus próprios inte­resses corporativos com a verdade e a justiça! Mas é óbvio, no que me diz respeito, que sempre recusei ser jorna­lista do sistema e do regime, e dos inte­resses instalados. De outro modo, já não seria jornalista, mas um simples escriba contratado pelos poderosos. Os quais, hoje, com os seus grandes me­dia, se constituíram nos novos guias cegos que, 24 horas sobre 24 horas, mal­tratam e desorientam as populações menos ilustradas, bem como a genera­li­dade dos povos do planeta.

É por isso que eu, quando ouvi aque­la notícia do encontro de alto nível convocado pelo papa Bento XVI para o Vaticano, logo pensei cá para mim que a Cúria romana andará em grande afli­ção com as pressões que lhe che­gam de todo o mundo católico e não ca­tó­lico contra uma lei tão absurda, como é esta lei eclesiástica que conde­na todos os padres católicos ao celiba­to, para cúmulo, só os padres católicos do Ocidente, uma vez que a mesma Igre­ja católica romana segue outra disciplina relativamente aos padres cató­licos do Oriente. E só podem ser pres­sões em quantidades verdadeiramente esmagadoras e com muito peso moral, por parte de quem as subscreve, e to­das elas a exigir ao papa que ponha fim a semelhante lei eclesiástica, obje­cti­vamente imoral e anti-natural. A qual, para lá de absurda, também perfaz um pecado grave sem perdão.

Mas, ao mesmo tempo, pensei tam­bém que o papa Bento XVI, com esta sua convocatória, mais não pretenderia do que forçar os cardeais das diversas Congregações da Cúria a estarem com ele e com a sua teimosia em manter es­sa lei eclesiástica, sem a qual – e nis­so, tem ele razão, mas para sua vergonha! – o actual modelo de Igreja clerical e de Cristandade, em vigor, des­de há uns 16 séculos, nunca mais terá viabilidade.

Nesta sua cegueira (todo o poder cega e o poder absoluto cega absoluta­mente), o ex-cardeal Ratzinger, hoje, Bento XVI, parece nem se dar conta de que, felizmente, já aconteceu na nossa Igreja católica o Concílio Vaticano II que nos apontou um outro modelo de Igreja, o da Igreja Comunidade de co­mu­nidades, sem clérigos a conduzir os seus destinos, menos ainda clérigos celibatários à força, apenas com minis­tros ordenados e não ordenados, mu­lheres e homens, indistintamente, e to­dos animados da mesma fé de Jesus, por isso, um modelo de Igreja tenden­ci­almente sem hierarquia, constitucio­nalmente mais humana e mais serva e pobre, como bem profetizou no seu tempo o inesquecível Papa João XXIII.

Teria sido grande a minha alegria, se me tivesse enganado quanto ao des­fe­cho deste encontro de alto nível. O fim do celibato obrigatório, se tivesse sido assumido nesse encontro, equiva­leria a um sismo na Igreja católica do Oci­dente. Mais que um sismo, seria um verdadeiro tsunami. Nada na Igreja fi­ca­ria mais como até agora. Mas, para tristeza minha, tive razão na minha aná­lise e na minha previsão.

Três horas terão bastado, para que os cardeais subscrevessem o ponto de vista do seu todo-poderoso chefe (re­pa­raram naquela cena horrível, difundi­da pelas televisões de todo o mundo, do beija-mão protocolar de cada um dos cardeais ao papa Bento XVI? O que há aí de jesuânico? Um encontro assim, com homens tão vassalos em relação ao seu chefe todo-poderoso, poderia, em algum momento, ser atravessado pe­lo Sopro ou Espírito de Jesus, o de Nazaré? Não se tratou, antes, de um en­contro com todos os tiques dos anti­gos encontros de César de Roma com os seus subalternos das províncias do Império?).

E agora? Será que toda a Igreja se submete a esta conclusão manifes­ta­mente contrária aos sinais dos tem­pos e ao que o Espírito, neste particu­lar, anda, desde há séculos, a dizer/gri­tar à Igreja? Se nos calamos e obe­de­cemos, não é ao Poder absoluto que obedecemos? E o que mais nos iden­ti­fica como Igreja, não é aquela garan­tia de Jesus de que, lá onde dois ou três se reúnem em seu nome, ele está activamente presente no seu meio? E não temos também, como um dos princípios fundadores de Igrejas, aquele que diz aos do Poder: “Importa obede­cer a Deus, mais do que aos homens”? (entenda-se, os homens do Poder, o primeiro dos quais, o próprio papa).

Por outro lado, já teremos esque­cido que uma lei objectivamente imoral, como a lei eclesiástica do celibato dos padres, não pode nunca ser acatada/obedecida por ninguém? E que acatá-la/submeter-se a ela, sem convicção, é pecado grave?

Mas nem tudo, nesta decisão de Bento XVI, é motivo de tristeza. Porque com esta sua teimosia, o papa acaba de dar mais uma machadada no actual modelo clerical de Igreja. Ao querer per­petuá-lo indefinidamente, abalou-o ainda mais. Basta ver que o número de clérigos celibatários será cada vez menor. Chegará dentro em breve o tem­po em que não haverá clérigos, em número minimamente suficiente, que alimentem este modelo de Igreja. Só não vê quem não quer ver. E, sem cléri­gos, este modelo de Igreja clerical im­plo­de. Haverá, nesse dia, uma grande alegria no céu! Por mim, já vivo essa alegria no Espírito Santo.

O pior é que, até essa implosão, crescerão ainda mais as dores e as afli­ções entre os empobrecidos. As popu­la­ções continuarão aí cada vez mais à mercê dos poderosos sem escrúpulos, cansadas e abatidas como ovelhas sem pastor. Sem a presença gratuita de com­panheiros que partilhem das suas alegrias e das suas esperanças, das suas tristezas e das suas angústias. Só poderão contar com mercenários de todo o tipo. E dias virão em que até o nome de Jesus, o de Nazaré, deixará de ter quem o pronuncie e o olhe como o paradigma dos seres humanos, em quem o Mistério invisível de Deus se torna visível e palpável. Ficará em seu lugar um vago e mítico Cristo sem cor­po, sem história e sem Reino de Deus, por isso, mais ópio do povo do que o So­pro ou Espírito libertador que der­ruba os poderosos e os seus sucessi­vos impérios, e levanta os humilhados.

Ainda assim, saibam que, quando a Humanidade chegar a semelhante li­mite de desumanidade e de sem-sen­tido, está prestes a rebentar no seu seio, um Novo Começo. Do qual fará par­te também um novo modelo de Igre­ja, mas então no discreto e fecundo jei­to do sal da terra, da luz do mundo, do fermento na massa e da parteira. Uma Igreja comunidade de irmãs/ir­mãos, longe dos templos e dos altares, em redor de mesas partilhadas e co­muns, à escuta do seu Senhor que lhe fala nos Sinais dos Tempos e nos cla­mo­res das vítimas.


O que ficou da viagem

do papa Bento XVI à Turquia?

A viagem do Papa à Turquia foi o acontecimento eclesial católico-romano mais significativo do último trimestre de 2006. Fraternizar revê-se no que o seu director escreveu a propósito no Diário Aberto que mantém na página na internet. Leiam os quatro textos sem preconceitos. E meditem. Em comunhão com o Espírito de Jesus.

2006 NOVEMBRO 28

Que rosto de Igreja e que imagem de Deus é que chega hoje à Turquia, na pessoa do papa Bento XVI? Para mim, esta é a questão teológica e pas­toral essencial que está em jogo nesta visita. Ao contrário do Vaticano, entendo que o Poder nunca poderá ser imagem de Deus, o de Jesus. Muito menos um po­der monárquico absoluto como o do papa. Mas é como papa-chefe-de-esta­do-do-Vaticano, que Bento XVI aterra hoje na Turquia, país com uma popula­ção de maioria esmagadoramente mu­çul­mana, que considera ofensiva esta visita. E com fundada razão. Deus é amor, escreveu o apóstolo João numa das suas cartas que figuram no Novo Testamento. O actual papa fez sua esta afirmação, ao colocá-la como título da sua primeira encíclica. Mas depois é como chefe de estado que se movimen­ta, dentro e fora do Vaticano. E aceita que o tratem como tal. O amor não se comporta assim. Por sua vez, Jesus que é a imagem mais acabada de Deus en­tre nós e connosco, ele próprio Deus à maneira de filho, nunca quis ser Cé­sar, nem equiparado a César. Nem se­quer quis ser sumo-sacerdote. Apenas Filho do Homem, o Ser Humano por an­to­no­másia. Logo no princípio, a Carta aos Hebreus abusou, ao atribuir a Je­sus o título de sumo-sacerdote. E chega ao extremo de dizer que só ele o é, mais ninguém. Felizmente, tem o cuida­do de o apelidar assim, mas enquanto crucificado. Por isso, o sumo-sacerdote nos antípodas dos sumos sacerdotes das religiões, todos eles rostos do po­der sagrado e absoluto, ao jeito de Cé­sar de Roma, o crucificador de Jesus e de outras inúmeras vítimas.

Depois da trapalhada contra Mao­mé e o Alcorão, há poucos meses atrás, numa universidade da Alemanha, o pa­pa Bento XVI aparece ainda mais fragi­lizado, perante os muçulmanos da Tur­quia, assim como em todos os demais países do resto do mundo islâmico. A vi­sita tem, por isso, algo de agressivo. No estilo, ofendi-vos, não vos pedi des­cul­pa e agora ainda vos imponho esta minha visita. Sou para vós “personna non grata”, mas vede que nem por isso de­sisto desta visita.

Pelo menos, é assim que os muçul­manos a interpretam. Veremos como Bento XVI se comporta no terreno. Mas o Poder absoluto como o dele não é ca­paz de dialogar. Nem de pedir des­culpa. Impõe-se. É a negação de Deus Mãe/Pai que só tem entranhas de huma­nidade e de ternura.

Para que a presença do papa fosse boa notícia para a maioria muçulmana do país, Bento XVI deveria renunciar, du­ma vez por todas, ao título de papa e ao cargo de chefe de estado do Vati­cano. E apresentar-se entre os muçul­manos da Turquia como Jesus de Naza­ré se apresentou na Galileia e na Ju­deia, por volta do ano 30. Sem poder. Sem privilégios. Simplesmente humano como os demais.

Para lá de imagem de Deus, no caso, de falso Deus, com mais de de­moníaco do que de jesuânico, o papa na Turquia é também o rosto mais vi­sí­vel da Igreja católica. De que modelo de Igreja? Só pode ser o rosto mais vi­sível da Igreja que ajudou a fazer o império de Constantino e que lhe su­cedeu, mais tarde, quando o império de Roma caiu. Não é por isso a Igreja de Jesus, que só se encontra lá onde dois ou três se reúnem em nome de Je­sus. É bom que se diga que, em ma­téria de Igreja, tudo o que vai além dos dois ou três que se reúnem em no­me de Jesus, começa a cheirar a per­verso. O institucional não é do Espí­rito de Jesus. É do Poder. A instituição eclesial feita pelo Espírito nunca vai na linha do Poder. Vai na da Fé de Je­sus e na do carisma. Para o Espírito de Jesus, não há Poder. O Poder é sem­pre perversão em acto. Há minis­té­rios, serviços, gratuidade. Numa pa­la­vra, amor recíproco: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Nisto saberão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros”.

A Cúria do Vaticano e o Estado do Vaticano e todas as Cúrias diocesanas são o contrário desta Boa Notícia de Jesus. Não há volta a dar-lhe. Onde houver Poder, não há o Espírito de Je­sus. Só lá onde houver Liberdade.

Não sei o que poderá resultar des­ta visita papal marcada pelo rosto de Bento XVI, ex-cardeal Ratzinger. É uma visita do Poder eclesiástico católico ro­mano. Nos antípodas da presença mai­êu­tica, tão indispensável para fazer morrer o poder e fazer viver a originali­da­de de cada povo e de cada cultura. Só uma presença maiêutica, que o Po­der não conhece, muito menos reco­nhe­ce, é capaz de se alegrar, ao des­cobrir que, afinal, Deus já precedeu a chegada do papa à Turquia. Não é o papa quem leva Deus à Turquia. Cum­pre-lhe reconhecê-lO e adorá-lO em es­pírito e verdade. Só assim haverá diá­logo ecuménico em pé de igualda­de. Espevitado pelo Sopro ou Espírito de Jesus. Não se trata de converter os muçulmanos em católicos romanos. Tra­ta-se de todos, muçulmanos e cató­licos romanos, aceitarmos ser soprados pelo Sopro ou Espírito de Jesus, o de Nazaré, que nos faz constitutivamente humanos. É por aqui que vai o Espírito de Jesus. Não está interessado em fazer cristãos, muito menos católicos roma­nos. Está interessado em fazer huma­nos todos os povos, na pluralidade e na diversidade de culturas.

Será o papa Bento XVI capaz de en­tender este Evangelho de Jesus? Al­gu­ma vez Roma foi capaz, nestes dois mil anos de Igreja, de entender este E­vangelho de Jesus? O Poder nunca en­tenderá nada do Evangelho de Je­sus. Se lhe deita a mão é para o per­ver­ter. E pô-lo ao seu serviço e ao ser­viço dos seus interesses.

Acompanharei com atenção os pas­sos do papa na Turquia. Mas já sei que o Espírito de Jesus não PASSA na Turquia, lá por onde passa o papa Rat­zinger. Por aí passa o Poder. O Espírito de Jesus passará, provavelmente, só entre as vítimas da visita do papa. E tam­bém entre aqueles que recusam fre­quentar os cultos aos quais o papa presidirá durante estes dias na Turquia, porque recusam associar o Mistério que é Deus Vivo com o rosto do Poder mo­nár­quico absoluto que é o rosto de Ben­to XVI, chefe de Estado do Vaticano. Dis­cernir é preciso. É Do Espírito de Jesus. O Poder foge a discernir. Só se dá bem nas águas turbas.

2006 NOVEMBRO 29

Porque as imagens televisivas va­lem mais do que mil palavras, tenho de reconhecer, com dor, que o primeiro dia de Bento XVI na Turquia não nos re­meteu para Jesus, o de Nazaré, nem para o seu Evangelho século XXI. O que ontem vimos nos telejornais, a par­tir da Turquia, foram jogos do Poder, sa­lamaleques do Poder, meticulosos paços de dança do Poder. Para cúmulo, o papa ainda disse que não é político e que a missão da Igreja não é política. Mas então se a pastoral que a Igreja faz não é política, isto é, se não é para se ocupar e cuidar, ao jeito do que fez Jesus, o de Nazaré, da saúde integral das pessoas e dos povos e do planeta no seu todo, então para que serve? Com o que todos saímos a perder, a Igreja e os povos da terra, e tem sido assim praticamente desde o início da Hu­manidade, é com uma Igreja-Poder, como teima em ser também e sobretudo a nossa Igreja católica, na sua versão ca­tó­lica-romana. Com uma Igreja polí­tica, não teremos nada a perder e tere­mos tudo a ganhar. Porque a Política é o cerne do Evangelho de Jesus. O Po­der, pelo contrário, é a sua negação. Num mundo que confunde a Política com o Poder, cabe à Igreja viver a Polí­ti­ca como sua missão específica e denunciar o Poder como a perversão da Política. Ou esquecemos que Jesus com o que se ocupou em exclusivo foi com fazer presente na História o Reino/Rei­nado de Deus? E que missão mais polí­tica do que essa? Até foi cognominado de “o Cristo” ou “o Messias”, que mais não quer dizer que “o Político”. Foram os do Poder que não suportaram seme­lhante revelação de Deus, na sua prá­tica libertadora e maiêutica, promotora de autonomias e de protagonismos, e logo o mataram como o maldito. Para que nunca mais algum ser humano re­to­masse a sua via e actualizasse a sua revelação de Deus. Só que, desde en­tão, ficou revelado para sempre que o grande pecado do mundo é o Poder. E que a salvação do mundo é a Política que, por isso, nunca poderá converter-se em Poder. As próprias religiões têm sido e serão fonte de perversão, por­que, ao institucionalizar-se, não resis­tem à tentação do Poder. Tornam-se elas próprias Poder e é com os podero­sos do mundo que sempre se entendem e mutuamente se protegem. E não é que até acabaram a professar a sua fé num Deus todo-poderoso, como se al­guma vez Deus fosse o César dos Cé­sares, o imperador dos imperadores, o tirano dos tiranos?! O que vimos on­tem nos telejornais foi um papa chefe de estado do Vaticano com o primeiro ministro da Turquia, num entendimento para televisões difundirem, tudo faz-de-conta, tudo ritual, tudo previsto ao mi­límetro, sem alma, sem coração, sem entranhas de humanidade, sem verda­de, mais robots que seres humanos, tudo hipocrisia. É assim o Poder. São as­sim os poderosos. Não é assim a Polí­tica que vem do coração de Deus Cria­dor. Por isso não hesito em dizer que o Poder é o anti-Deus, é o Ídolo, o De­mo­níaco.

Dói-me que o principal rosto da nos­sa Igreja católica que, neste mo­mento histórico, é o papa Bento XVI, tenha dado este contra-testemunho ao mundo. Rasgou o Evangelho de Deus, o de Jesus, quando deveria tê-lo reve­la­do/anunciado ao mundo, a partir da Turquia. O mundo estremeceria de co­mo­ção e, quem sabe, se não se conver­teria à Verdade e entraria na via da sal­vação? Foi mais uma ocasião perdi­da. E será sempre assim, enquanto a nossa Igreja católica não desistir de ser Poder entre os poderosos do mundo.

“Os reis das nações imperam sobre elas e os que nelas exercem a autorida­de são chamados benfeitores. Convos­co não deve ser assim; o que for maior entre vós seja como menor, e aquele que mandar, como aquele que serve. Porque quem é maior: o que está sen­ta­do à mesa, ou o que serve? Não é o que está sentado à mesa? Ora, eu estou no meio de vós como aquele que ser­ve.”

São palavras de Jesus dirigidas a todos os que, através dos tempos, o que­rem seguir. E Lucas tem o cuidado de as colocar no contexto da última ceia, precisamente, quando o Poder ins­talado em Jerusalém já tinha decidido matar Jesus! Não se pode ser mais cla­ro. Mas o que ontem vimos nos telejor­nais, a partir da Turquia, foi o contrário deste Evangelho de Jesus. Confirma-se assim, e mais uma vez, que os do Po­der são criminosos que se enfeitam e mascaram de benfeitores perante os seus súbditos. Para serem temidos/ido­latrados por eles.

Só Igrejas que façam da Política ao jeito de Jesus, o de Nazaré, a sua acção pastoral/eclesial poderão ser uma mais valia na História. Porque não há salvação da Humanidade e do Pla­neta fora da Política. No Poder, sempre haverá perdição. Quem não vê que é assim?

Neste aspecto, as imagens televisi­vas de ontem com o papa Bento XVI na Turquia, acabaram por ser invulgar­men­te expressivas. Oxalá todos nós, pes­soas e povos, saibamos descodi­ficar esta mensagem que os poderosos, sem querer, nos deram. Pela negativa, é certo, mas que nos deram.

2006 NOVEMBRO 30

Bento XVI continua na Turquia. En­controu-se ontem e rezou com o Patri­arca da Igreja Ortodoxa, Bartolomeu I. E hoje assinarão ambos uma declara­ção conjunta. Vimo-los a pedir a Deus a unidade das duas Igrejas. O gesto po­de comover os fiéis de ambos os la­dos. Mas é no mínimo ambíguo. Porque, se dependesse de Deus, a unidade das Igrejas nunca teria sido rompida. A unidade é o que o Espírito de Deus sempre faz. A desunião e a divisão são o fruto amargo das ambições do Poder. Não há quebra da unidade, lá onde há amor recíproco praticado. Sempre ha­verá quebra da unidade, lá onde hou­ver Poder cada vez mais absoluto e concentrado. Quando assim é, rezar pela unidade é iludir o problema. É transferir simbolicamente para Deus o que é tarefa nossa, concretamente, das Igrejas, a começar pelos que se têm na conta de seus incontestados chefes es­colhidos directamente por Deus. Uma situação, no mínimo, caricata. Mas que revela até onde pode ir a paranóia de alguns seres humanos que, em vez de crescerem em humanidade, preferem crescer em Poder. E, depois, ainda me­tem o nome de Deus à mistura.

As imagens televisivas que vêm da Turquia mostram-nos os dois chefes das Igrejas lado a lado. Vestidos com todos os símbolos do Poder religioso-ecle­siástico. Uma imagem que roça o in­fantil! Deviam vestir como simples se­res humanos, mas não são capazes. Chegados àquele patamar do Poder sa­grado, já não se sentem bem senão nes­tas vestes que usam em exclusivo. Quem os vê assim vestidos, só pode con­cluir que são dois poderes que me­dem forças entre si. Mas um, o de Roma, é imperial/global e por isso vê a unida­de de que ambos falam, não como uma saudável afirmação das diferenças, mas como a integração pura e simples da Igreja Ortodoxa na Igreja católica roma­na. E assim não há unidade possível. Só haverá capitulação de uma Igreja à outra. Da menos poderosa à mais po­de­rosa. Semelhante unidade é vassala­gem. É concentração do Poder. Não tem, não pode ter a marca do Espírito Santo. A marca do Espírito Santo é a Li­berdade, não o Poder.

O que faz então correr o papa Ben­to XVI? E o que já fez correr o seu ime­diato antecessor, João Paulo II? Enqu­an­to a Igreja católica não renunciar ao Poder, pode submeter sucessivamente as outras Igrejas mais fragilizadas, mas isso não é ecumenismo, muito me­nos unidade. É concentração de Poder. E, nesse caso, o mundo que se cuide. A globalização eclesiástica é um sonho que vem desde o imperador Constanti­no, no início do século IV. E nunca foi deitado fora.

O Poder sempre pensa que é a so­lu­ção dos problemas que afligem a Hu­ma­nidade. Nunca reconhece que é ele próprio o problema número um da Hu­ma­nidade. Um mundo sem Poder é o so­nho de Deus, o de Jesus. Não é o so­nho das Religiões, nem das Igrejas, menos ainda da nossa Igreja católica ro­mana, hoje, a Igreja de Ratzinger/Ben­to XVI. Se fosse, esta sua visita à Turquia teria sido pensada e vivida de outro jeito, ao jeito de Jesus, o de Na­za­ré, a vítima do Poder, não o seu exe­cutivo.

Ontem e hoje é-nos dado a ver o Po­der religioso-eclesiástico em acção na Turquia. Concretamente, o Poder dos dois chefes das duas Igrejas devi­da­mente vestidos com todos os símbo­los do Poder. Não nos é dado a ver dois seres humanos, dois filhos do ho­mem. O que vemos são dois rostos do Po­der. E mal vai o mundo, quando dois po­deres se namoram e falam em casar. A unidade consumada dos dois Poderes não tem a marca do Espírito Santo. Tem a marca da Besta, na linguagem vio­lenta do Apocalipse ou Revelação. O re­sultado só pode ser mais Poder e Po­der mais concentrado. O que signifi­ca mais vítimas humanas, mais vassalos.

Foi para a liberdade que Cristo, o Crucificado pelo Poder, nos libertou. O grito é de Paulo de Tarso, depois que descobriu e aceitou Jesus e o Evan­gelho de Deus que ele é, e abandonou o sistema da Lei e do Poder sagrado. É pela Liberdade que vamos. O Poder faz-nos doentes, lacaios, imbecis.

Infelizmente, os media fazem a co­bertura desta visita com os critérios do Poder. O que é, no mínimo, ingenui­da­de. Porque é tomar o cenário, meti­cu­losamente preparado para nos dar a impressão de que é a realidade, pela realidade. O Poder constrói o seu mun­do e movimenta-se à vontade nele. Como se esse seu mundo fosse a reali­da­de. Será demasiada ingenuidade tomar essa construção pela realidade. E esta está a ser, para tristeza minha, a postura dos nossos jornalistas, es­colhidos a dedo para este tipo de ser­viços. O Poder não dá ponto sem nó. E tudo faz para não ser desmascarado.

É preciso saltar fora deste cenário construído pelo Poder, para tocarmos a realidade mais real. De contrário, fi­ca­mos toda a vida a fazer o jogo do Po­der. Como seus cúmplices. E, senão cúmplices assumidos, cúmplices ingé­nuos. Os ingénuos são sempre os mais perigosos. Porque actuam com aquele ar de felizes e de patetas alegres que sempre serve para dar mais poder ao Poder.

Saltar fora do cenário construído pelo Poder, para ver a realidade em di­recto, é o que fazem os profetas, elas e eles. No meio do cenário muito bem cons­truído, os profetas escutam os gri­tos silenciados/amordaçados das víti­mas. Seguir estes gritos, leva-nos a ver/tocar a realidade mais real. E a pôr em causa o Poder, com todo o seu cor­te­jo de crimes e de vítimas aos mi­lhões.

Mas quem está hoje disposto a ser e a viver como profeta? É verdade que é a única forma de se ser mulher, ho­mem. Mas quem está disposto? O preço é elevado. E poucos são os que entram por porta tão estreita. Por mim, não quero outro caminho. Poderei ficar so­zinho, mas é por aí que vou. Na compa­nhia de Jesus, o Caminho, a Verdade e a Vida.

Está visto que nunca encontrarei neste caminho o papa Bento XVI, nem o Patriarca da Igreja Ortodoxa, Bartolo­meu I. Só as suas vítimas e todas as outras inú­meras vítimas do Poder. Mas é na comunhão com elas que serei e permanecerei mais humano. E mais irmão universal.

2006 DEZEMBRO 01

O que fica de concreto da viagem do papa Bento XVI à Turquia? Uma mão cheia de nada e outra de coisa ne­nhu­ma. Sim, eu sei que, para a Histó­ria, fica um documento conjunto assi­nado pelos dois papas, o de Roma e o da Igreja Ortodoxa, mas que, depois de espremido, pouco mais é do que uma inócua declaração de intenções. Insistem, uma vez mais, no delírio ecle­siástico das “raízes cristãs” da Europa, como se essa fosse a magna questão com que o velho continente está hoje confrontado. Também os jornais turcos mostram-se, finalmente, rendidos ao char­me de Bento XVI, depois de terem as­sistido ao golpe de rins que ele teve de fazer para tentar ganhar a confiança dos turcos. Mas nada disso é para tomar a sério. Tudo não passa de chavões, de narizes de cera, de inofensivas men­tiras, de hipocrisia diplomática, em que o Poder, todo o Poder, também o eclesi­ás­tico é perito, perante os seus súb­di­tos. As grandes causas com que a Hu­ma­nidade hoje se debate e os graves problemas que afligem a Europa bem podem esperar, indefinidamente.

Os dois chefes eclesiásticos mobi­lizaram à sua volta milhares de polícias, batalhões de jornalistas, trocaram abra­ços protocolares onde não se viu afecto a valer, nem fraternidade efecti­va (o Poder não ama, apenas joga, lan­ça armadilhas, movimenta-se no seu pró­prio tabuleiro, sempre a ver como há-de enfraquecer, neutralizar e esma­gar o seu opositor). Todos os passos que Bento XVI deu, nestes dias, nunca nos fizeram pensar em Jesus, o de Naza­ré, nunca nos remeteram para ele. Só houve afirmação do Poder. Nem sequer a liturgia uniu os dois chefes eclesiás­ticos. O mais que conseguiu foi pôr um, o anfitrião, a presidir a uma “missa” or­to­doxa e o outro, o hóspede católico romano, a assistir da bancada. E, no dia seguinte, inverteram-se os papéis e quem ficou na bancada foi o anfitrião turco, enquanto o convidado romano presidia à sua missa católica. Se nem se­quer o Deus dos cristãos os uniu, co­mo há-de uni-los o Deus dos muçulma­nos? O Poder é assim: não une, apenas divide, exclui, separa. Só o Amor une o que o Poder sempre divide e separa. O Poder não é capaz de orar, mesmo quando parece que sim. Exibe-se, co­mo os fariseus outrora; afirma-se, arma-se como um pavão.

Viram nos telejornais toda aquela ostentação e todo aquele aparato litúr­gico? O que havia ali de humano? Por mim, só vi vaidade, humilhação das pes­soas que têm de assistir àquela exibi­ção ou show do Poder. Deus presente naquilo? Mas que Deus? O de Jesus é que não é. Só o do Poder que existe para nos humilhar e subjugar a todas, todos. A menos que lhe resistamos com todas as forças. É o que, pessoalmente, procuro fazer, em comunhão com Jesus e o seu Espírito. Mas ainda não é o que fazem as populações em geral, educa­das que foram e são para ver Deus no Poder. E, por isso, já nem se mostram capazes de se abrir ao Deus que se nos revelou definitivamente em Jesus, o de Nazaré. Falem-lhes no Deus do Im­pério e do Dinheiro e logo terão fiéis aos milhões.

O Deus de Jesus não tem templos, nem exércitos, nem palácios, nem gran­des media. Tem apenas os seres huma­nos, a começar pelos mais pequeninos e humilhados, dentro dos quais habita sem que ninguém dê por isso, nem os pró­prios. É a primeira vítima do Poder e do Deus do Poder, esse mesmo que, nestes dias, pudemos ver na Turquia, na pessoa dos dois papas, o católico romano, papa-universal, e o ortodoxo turco, papa regional. Cada qual no seu galho, no seu poleiro, evidentemente. E em aparente respeito mútuo, Reco­nhe­­ço-te eu a ti; Reconheces-me tu a mim e, assim, poderemos entender-nos e impor-nos aos nossos súbditos e até sermos aplaudidos por eles.

O que ficou desta viagem do papa Bento XVI à Turquia? O Poder eclesiás­tico católico romano e o Poder eclesiás­tico ortodoxo tiveram aqui e agora a sua grande epifania perante os muçul­ma­nos da Turquia e do resto do mundo. Os media deram-lhes visibilidade e os povos sabem agora que eles existem e que é preciso tê-los em conta. Não os vimos diminuir e desaparecer, para que crescessem os indivíduos e os po­vos. Vimo-los afirmar-se com uma arro­gân­cia travestida de humildade. Sinal ine­quívoco de que tudo aquilo acon­teceu num ambiente nos antípo­das do ambiente onde se faz sentir o Espírito ou Sopro de Jesus.

Agora que os viram tão afirmativos e impositivos (até os turcos acabaram rendidos a seus pés!), os povos da Eu­ropa e do resto do mundo que se cui­dem. Cuidemo-nos. Se formos pelo Es­pí­rito de Jesus, nunca nos renderemos a eles, mas também não os ignorare­mos. Resistimos-lhes com toda a inteli­gência e com todas as nossas forças, sobretudo a força da nossa autonomia. Para que eles deixem de ter quem os sirva e quem se lhes submeta. E assim o nosso hoje se torne cada vez mais hu­mano, mais nosso, mais dos seres humanos, mulheres e homens, e cada vez menos do Poder, de todos os tipos de Poder.

Para alguma coisa serviu então a viagem do papa Bento XVI à Turquia: para que a Europa e o resto do mundo can­tem e dancem o Deus que vive em ca­da ser humano e mandem pró infer­no o Poder, todo o tipo de Poder, que, deixado por aí à solta, sempre nos divi­de, humilha, infantiliza e ainda se faz pas­sar por benfeitor! Maldito seja!


LIVROS DO TRIMESTRE

Editorial Trotta / Evelyn Underhill

A MÍSTICA

Estudo da natureza e desenvolvimento

da consciência espiritual

"Todos os místicos falam a mesma linguagem, porque procedem do mesmo país". A afirmação é da autora e só por si diz bem do valor e da oportunidade do seu livro, prologado por Juan Martín Velasco para a edição espanhola. Não se pode dizer que seja uma obra de fácil acesso, desde logo pela temática apresentada ao longo de cerca de 600 páginas. Quem já estiver familiarizado com místicas e místicos da craveira de Santa Teresa d´Ávila e S. João da Cruz, navegará com prazer espiritual por estas páginas. Experimentem um mergulho e acabarão salutarmente "viciados".

A obra surge agora em língua espa­nho­la, mas já vem de há quase um sé­culo atrás. O prólogo com que a autora fez acompanhar a 1.ª edição foi assina­do em 1910, na Festividade de S. João da Cruz. As edições da obra sucederam-se pelos anos seguintes e, na Páscoa de 1930, a autora assina um novo pró­lo­go que acompanhou a 12.ª edição.

Estes factos são reveladores do gran­de interesse que o livro suscitou jun­to de certa camada da população da Inglaterra, França, Alemanha e Itália.

É, pois, de esperar que esta tradução para o espanhol suscite idêntico interes­se entre a população ibérica e latino-americana, nestes dias em que o Tem­plo e o Império estão apostados em fa­zer das pessoas e dos povos consumi­do­res compulsivos de produtos light, esvaziados de Ver­dade e de Graça, incapazes, por is­so, de saciar as fo­mes especificamen­te humanas que só a Mística bem ori­entada pode ajudar a saciar. Daí, a o­por­tunidade desta edição, que só pe­ca por tardia em re­lação à primeira em língua inglesa.

"Por sua natureza - escreveu a autora no prólogo da 1.ª edição - este livro divide-se em duas partes, cada uma das quais completa em si mesma, embora também complementares em certo sentido. Enquanto que a segun­da parte - a mais extensa - contém um estudo bastante pormenorizado da natureza e o desenvolvimento da cons­ciência espiritual ou mística do ser humano, a primeira tenta oferecer uma introdução ao tema geral do mis­ti­cismo".

Entre a 1.ª edição e a 12.ª, decor­re­­­ram 19 anos e, com eles, grandes transformações nas pessoas e nas so­ciedades. O prólogo que a autora es­creveu para a 12.ª edição chama a aten­ção para o facto e tenta ajudar as pessoas a tirar partido do livro fa­tal­mente datado. É este mesmo esforço que as pes­soas do início do séc. XXI te­­rão de fazer, ao mergulharem no livro. O prólogo de Juan Martín Velas­co, com que abre a edição da Trotta, é por isso uma preciosa contri­buição.

Resta mergulhar nas páginas da obra e tentar ao mesmo tempo, sinto­ni­zar com o Espírito criador de sororidade/fraternidade e de Liberdade que está, tem de estar, na origem de to­da a mística digna dos seres huma­nos de todos os tempos e culturas.

Sal Terrae / Leonardo Boff

Virtudes para um outro mundo possível

I. Hospitalidade: direito e dever de todos

"Que virtudes são mini­mamente necessárias para garantir à globaliza­ção um rosto humano?" É para res­ponder a esta pergunta de abertura, que o autor escreveu o livro. Trata-se duma obra de divulga­ção, de 165 páginas, acessível a todas as pessoas, as mais ilustradas e as menos. Será que a sua mensagem vai ser acolhida e praticada, ou prosseguiremos aí como loucos na des-Criação do nosso mundo? Ninguém deixe de ler.

Antes de entrar na temática pro­priamente dita do livro, a virtude da hos­pitalidade, o autor delicia-nos com dois capítulos prévios que nos levam a acompanhar, surpresos e eucarísti­cos, a evolução do Universo e da vida, desde o momento do big-bang com que tudo começou até chegar a nós. É uma viagem que nos deixa de respiração sus­pensa e quase sem palavras. So­bre­tu­do, se pen­sarmos que tudo foi as­sim para se chegar a nós, os únicos se­res que hoje já podemos conhecer a evolução de trás para a frente, do ponto de chegada ao ponto de partida.

Só por estes dois capítulos, já va­lia a pena o livro. Mas eles mais não são do que um monumental pórtico que nos há-de introduzir na "alma" do Uni­ver­so e da Vida que também somos, para que entendamos duma vez por todas que, ou cuidamos com inteligên­cia e coração desta Casa comum, ou ar­riscamo-nos à ex­tin­ção pura e simples. A vida, possivelmen­te prosseguirá, mas em outros seres hoje tidos por insi­gni­fi­cantes, mas que poderão ascen­der a dimensões que nem sequer sus­­pei­ta­mos. Até por­que a vida que nos fez pode estar apenas nos come­ços...

No capítulo terceiro, o autor trans­creve o conhecido mito da hospitali­dade, tal como ele nos foi transmitido pelo poeta romano Públio Ovídio (43-47 d.C.), numa colecção de quinze li­vros a que deu o nome de As Metamor­fo­ses. A transcrição começa por ser fei­ta em latim e só depois o autor a­pre­­­senta uma tradução livre e adaptada ao nosso aqui-e-agora mundial. Uma ver­dadeira pérola que urge difundir en­tre as novas gerações, confrontadas que estão com o facto consumado da glo­balização neo-liberal, onde nem se­quer se conhece a palavra hospitali­da­de, quanto mais a sua prática quoti­di­ana. Mas ai da Humanidade se não se converte e não se mostra capaz de re­in­ventar um novo mito da hospitalida­de que diga cabalmente com as novas exigências deste novo milénio.

"A partir de agora - escreve o autor a concluir o livro - todos seremos acto­res da única história da espécie huma­na, que é ao mesmo tempo una e múl­tipla. Para que nesta história todos pos­sam sentir-se sujeitos, a hospitalidade, o acolhimento ilimitado e recíproco é es­sencial, porque é a que põe as ba­ses necessárias para as outras atitudes a apresentar nos próximos volumes."

Campo das Letras / Ignacio Ramonet

IDEL CASTRO

Biografia a duas vozes

Mais do que um livro, é um monumento distribuído ao longo de 630 páginas de texto, às quais ainda se juntam dois cadernos de fotografias, algumas delas raras. O grande jornalista que dirige o grande Le Monde Diplomatique conversou durante mais de cem horas com o maior homem do século XX, também o mais odiado e o mais amado. A obra final é o que se pode chamar um retrato de corpo inteiro que nos ajuda a entender por dentro a Revolução e o Homem que a liderou e consolidou. Imperioso ler!

"Assim descobri o Fidel íntimo, qua­se tímido, educado e muito caloroso, que dá atenção a qualquer interlocutor, com sinceridade e sem vaidade. Com modos e gestos de uma cortesia de ou­tros tempos, sempre atento aos outros, em particular aos seus colaboradores e seguranças, é uma pessoa que não altera o tom da sua voz. Nunca o ouvi dar uma ordem. Apesar de tudo isto, exerce uma autoridade absoluta em seu redor. A razão é a sua personali­dade avassaladora. Onde quer que ele esteja, só uma voz se ouve: a sua. É ele que toma todas as decisões, quer sejam pequenas ou grandes. Mesmo quando ouve outras opiniões e se mos­tra muito respeitador e formal com as au­toridades políticas que dirigem o Partido e o Estado, em última instância as decisões são to­madas por si. Des­de a morte de Che Guevara que não há ninguém, no cír­culo de poder em que se move, que te­nha um calibre in­telectual que se assemelhe ao seu. Neste aspecto, dá a impressão de ser um homem só. Sem amigos íntimos, nem parceiro inte­lectual ao seu ní­vel. Pelo que pude apreciar, é um dirigente que vive mo­destamente, quase de modo esparta­no: sem luxo, entre mobiliário austero, alimentando-se saudável e frugalmen­te. Hábitos de monge-soldado. Até os seus inimigos reconhecem que figura en­tre os poucos chefes de Estado que não se aproveitaram das suas funções para enriquecer."

A citação é longa, mas tinha que ser. É um testemunho vivo que ajuda a desfazer montanhas de mentiras que se têm dito e escrito sobre Fidel Castro. Um testemunho indesmentível. Faz par­te do capítulo introdutório, intitulado "Cem horas com Fidel". E o testemunho prossegue, surpreendente:

"A sua jornada de trabalho - sete dias por semana - só termina às cinco ou seis da madrugada, quando o dia nasce. Mais de uma vez interrompeu a nossa conversa às duas ou três da ma­drugada porque devia ainda, sorri­dente e cansado, participar em algu­mas reuniões importantes... Dorme apenas quatro horas e, de vez em qu­ando, uma ou duas horas mais em qual­quer momento do dia."

Eis o "aperitivo" para lerem o livro. Agora, corram por ele. Saberão tudo sobre Fidel e sobre a "sua" Cuba. À bei­ra deste Homem, o que é Bush?

Editorial Trotta / J. H. Laenem

A mística judia

Uma introdução

Só por modéstia, o autor classifica esta sua obra de 320 páginas de "uma introdução". Ela é mais, bastante mais do que isso. Aliás, o Prof. Dr. Albert Van Der Heide, da Universidade de Leiden, Holanda que assina o Prólogo de apresentação é o primeiro a reconhecê-lo.

"Este livro - sublinha-se nesse Pró­lo­go - expõe o contexto religioso e cul­tu­ral em que se desenvolveram os mo­vi­mentos místicos judeus e em que os místicos tentaram expressar a sua men­sagem. Oferece a panorâmica de um lon­go período, com muitas tendências, algumas das quais levaram a becos sem saída, enquanto que outras foram re­to­madas e adaptadas a partir de pers­pectivas novas, mas todas foram postas por escrito e receberam a sua forma den­tro da tradição judia."

De resto, o próprio autor, logo a abrir o prefácio da obra sublinha que "este livro deseja oferecer aos não es­pe­cialistas interessados pelo tema uma visão geral das principais correntes da mística judia nos últimos dois mil anos." E, mais adiante:

"Este livro procurou esquematizar em traços gerais as diversas correntes místicas do judaísmo e da literatura que surgiu dessas correntes." Avança ainda uma informação importante:

"O conteúdo deste livro apoia-se so­bre a investigação científica existente e não sobre uma interpretação pessoal que o autor tenha realizado sobre to­dos os temas."

São oito os ca­pítulos principais do livro, cada qual com vários subcapí­tulos de manifesto interesse e oportu­ni­dade. Eis os res­pectivos títulos: 1. In­trodução; 2. Mís­tica judia antiga; 3. A cabala clássica; 4. Cabala luriâni­ca; 5. A cabala de Sabetay Tsebí; 6. O jasidismo; 7. Mís­tica da lingua­gem; 8. Literatura popular sobre "cabala".

A bibliografia referida no final do livro é abundante e merece ser tida em conta por parte de quem quiser aprofun­dar mais certas temáticas nele abor­dadas.

Um dos subcapítulos da Introdu­ção, pergunta "O que é a mística (ju­dia)?", mas o próprio autor é o primeiro a reconhecer que "não é fácil respon­der a esta pergunta". E esclarece, mais à frente "que não existe uma definição de mística que possa aplicar-se a todos os movimentos místicos do mundo". O mesmo se tem de dizer, reconhece,  "das correntes místicas do judaísmo".

Porém, numa coisa todos os verda­deiros místicos do mundo, elas e eles, es­ta­rão de acordo:  muito mais impor­tan­te do que ter uma definição de místi­ca é chegar a deixar-se encontrar pela Realidade mais real que é sempre invi­sível aos olhos e que ela possa ser rea­lidade em nós. Porque Deus vivo não é uma coisa que se possua, ou que se manipule. É o Mistério que nin­guém jamais viu nem verá. E, no entan­to, é o Mistério que nos faz ser e nos mantém no ser. Místicas a valer são as pessoas que se deixam levar ao colo por Ele e que passam o seu aqui e agora a despertar/criar sororidade/fraternidade e Liberdade.

Editorial Trotta / Luis de Sebastián

ÁFRICA

Pecado da Europa

A especia­lidade do autor é a economia, inclusive, internacional.  Mas África passou-lhe sempre ao lado. Até que foi "repre­endido" por um amigo, quando publicou o livro Mundo rico, mundo pobre, se dizer nada sobre o mundo pobre que era, é, hoje, África. A omissão é um grave pecado que ele tentou sanar. Este livro é a resposta. E a Europa que se cuide. Ou ajuda a salvar África, que tanto espoliou, durante séculos, ou afunda-se com ela! Uma obra imperdível.

O livro, de 287 páginas, arranca des­­te dado do Banco Mundial: o produto interno bruto (PIB) de todos os países africanos juntos não representa mais do que 2% do PIB mundial. Quer isto di­zer que "se toda a África se afundasse no mar (coisa que Deus não permita), a economia mundial sofreria uma perda, no máximo, de uns 2% do seu produto total. Exactamente o mesmo que se ocorrer umas grandes inundações nos Es­tados Unidos, ou um forte terremoto no Japão. Nada mais. A insignificância económica de África, à escala mundial, é o resultado do roubo/exploração, do desgaste, do abandono e da marginali­za­ção a que este continente sempre foi sujeito através dos séculos".

Hoje, como nos mostram os tele­jornais, África de­sembarca na Euro­pa. Todos os dias, ou quase, vêm le­vas e levas de mu­lhe­res, homens e cri­anças. Morrem às centenas no mar. E a Europa o que faz? Devolve-os à procedência! De­pois de os espoliar, séculos e séculos, ainda os deixa mor­rer à fome e ao a­ban­dono.

É contra este duplo crime que se levanta este livro, lúcido e corajoso. De­veria ser traduzido em todas as lín­guas faladas na Europa. E distribuído por todas as famílias do velho conti­nente. A ver se temos vergonha, e se abandonamos de vez o mito de que so­mos um continente civilizado. Conti­nen­te cruel e sem entranhas de humanida­de, é o que somos. Para nosso mal. Tanta injustiça não pode ficar im­pune. As vítimas clamam do chão e do fundo do mar. Ou nos viramos para elas e as acolhemos, ou perderemos o futuro.

São 10 os capítulos: 1. O encontro de África com a Europa; 2. A peste bran­ca; o comércio de escravos; 3. A par­tilha da África; 4. A invasão europeia de África; 5. Ocupação e resistência; 6. O sistema colonial na prática; 7. Eu­ropa abandona África; 8. A África que os europeus deixaram; 9. As dez pra­gas que flagelam África; 10. A repara­ção europeia que se impõe.


ÚLTIMA PÁGINA

1.º Domingo Fevereiro

Em S. Pedro da Cova

8.º Encontro de Espiritualidade

As tentações de Jesus e as nossas, hoje

É já no dia 4 de Feve­reiro 2007 que se realiza na Casa-sede do Jornal Fra­ter­nizar, em São Pedro da Cova (Gondomar) o 8.º Encontro de Espiritualida­de com o Ateísmo e a Ido­la­tria generalizados em fun­do. Tema em debate/di­á­logo: as três tentações que Jesus teve de vencer pa­ra se manter Homem até ao fim, e as tentações que os seres humanos hoje te­mos também de vencer.

Já sabem: o Encontro ini­cia-se pelas 10 h e en­cer­ra pelas 17 h. Momento forte do dia é o Almoço Par­tilhado em Memória de Jesus, e conseguido com o que cada pessoa levar para pôr na Mesa Comum. A Associação Pe. Maximi­no garante uma sopa de le­gumes bem quente.

Como habitualmente, o debate/diálogo é feito por todas as pessoas que par­ti­cipam no Encontro. Nin­guém vá sem fazer o tra­ba­lho de casa. E se qui­se­rem, tenham presente o que, a propósito, dizem os Evangelhos de Mateus (4, 1-17) e de Lucas (4, 1-30). Mas sobretudo, escu­temos o Espírito de Jesus.


100 mil euros: seja você!

O Barracão de Cultura precisa ainda de 100 mil euros, no mínimo, para que a vida de qualidade que a Associação As Formigas de Macieira se propõe fazer acontecer no seu ventre possa ter início. É muito? É pouco? Na minha condição de remediado (vivo com uma reforma à beira dos 450 euros/mês), atrevo-me a dirigir aqui publicamente um apelo ao coração de alguém com dinheiro (uma única pessoa, ou várias pessoas juntas, mas como se fossem uma só): Venha(m) um dia destes sentar-se connosco à Mesa da Casa da Comunidade e entregar-nos em mão um cheque com esta verba. Semelhante gesto de Partilha fará brilhar ainda mais o Sinal de libertação/salvação que este Barracão de Cultura, só por si, já é. Dê(em)-me essa Alegria, e às Formigas de Macieira da Lixa. A minha gratidão e o meu abraço, Padre Mário



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