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Mensagem do XXVI Congresso
A teologia pode integrar o movimento de diálogo interdisciplinar da bioética, procura conjunta de valores, mas sem se arrogar o direito de intromissão para ditar normas de moralidade à sociedade civil.
A Bioética pode integrar o movimento de diálogo inter-religioso, já em curso na teologia, para ajudar a transformar, à vista de novos dados, alguns dos seus paradigmas e conclusões; porém sem impor exclusivamente interpretações de sentido sobre a vida e a morte, a dor, a saúde ou a doença.
No contexto da sociedade plural e secular, as pessoas crentes podem participar no debate público sobre bioética, conjugando a sua própria fé com as exigências de diálogo no meio de situações inter-culturais e inter-religiosas.
Decálogo:
1. Integramos o movimento de diálogo interdisciplinar da bioética como debate público, para procurar em comum respostas aos desafios que o cuidado da vida levanta nesta era biotecnológica que é hoje a nossa.
2. Para convergir numa ética autenticamente global, pomo-nos à escuta de perspectivas diferentes através do diálogo inter-cultural
3. Esperamos das diversas religiões que integrem esta procura conjunta de valores em ordem ao futuro da vida e da humanidade. Respeitaremos a pluralidade, juntando-nos à procura conjunta de convergências em valores para garantir responsavelmente o futuro da vida e da humanidade.
4. Os comportamentos aprendidos no evangelho de Jesus motivam-nos especialmente a apoiar uma ética da gratuidade responsável, preocupada pelo cuidado da vida toda. Proporemos, sem as impor, alternativas a ter em conta no cuidado da vida desde a perspectiva do evangelho de Jesus, mas só no momento oportuno e sempre com tolerância construtiva. Porém, ao contribuir para um diálogo plural a partir de perspectivas evangélicas, não centraremos a contribuição desta tradição em citações de documentos eclesiásticos oficiais.
5. O acolhimento responsável do processo humano de nascer há-de realizar-se no marco do respeito para com a dignidade e os direitos da mulher no que respeita à reprodução. Reconheceremos a necessidade de rever a fundo a própria tradição no que se refere ao essencial das suas posições sobre género, sexo e relações humanas, para superar os limites duma teologia demasiado condicionada por pessimismos, maniqueísmos, estoicismos ou puritanismos.
6. O acompanhamento responsável do processo humano de morrer inclui o respeito ao direito de decidir como viver, digna e autonomamente, a fase final desse processo. Faremos por redescobrir e reapreciar elementos esquecidos da própria tradição terapêutica corpóreo-espiritual; por exemplo, assumir a morte e conduzir autonomamente o processo de morrer. Porém, teremos presente as deficiências da própria tradição no que respeita às cisões dualistas entre o ser humano e a natureza, ou entre o corporal e o psíquico, para podermos refazer, de raiz, uma teologia da criação capaz de valorizar e libertar a terra, o corpo e a vida.
7. Não se deve fazer da dor um ídolo; é preciso fomentar o seu alívio e assegurar o acesso por igual aos cuidados paliativos.
8. É responsabilidade ética apoiar a investigação científica para curar, melhorar e proteger a qualidade de vida. Reconheceremos a necessidade de aliviar a carga da própria tradição, para que não naufrague uma teologia que durante demasiado tempo desvalorizou a tecnociência.
9. Admirando e agradecendo os avanços científicos, fomentaremos as aplicações da investigação ao serviço do terapêutico. Porém, o cuidado da vida há-de alargar-se ao conjunto dos viventes e dos ecosistemas.
10. O cuidado da vida há-de incluir também a responsabilidade para com as gerações futuras. Por isso teremos sempre presente as perguntas motrizes do movimento bioético: “É responsável e vale a pena fazer tudo quanto é tecnicamente possível fazer-se? A quem beneficiam os êxitos neste campo?” Assim, enquadraremos qualquer esforço bioético, captando o seu aspecto de problema social.
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MULHERES MALTRATADAS
Amo-te = Mato-te!
Anda por aí uma forma de amor que mata. Manifesta-se, sobretudo, nos homens. Contra as mulheres que dizem amar. É uma patologia que a sociedade tem de encarar de frente e tratar com inteligência e coração. Ao que revela um comunicado da Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres, esta patologia está a tomar proporções de estarrecer. E as instituições têm-se quase limitado a tomar conta da ocorrência. Se a patologia é uma doença, limitar-se a tomar conta da ocorrência das vítimas que produz é um crime. E não só contra as mulheres vítimas. É um crime contra a Humanidade no seu todo. É preciso salvaguardar eficazmente as mulheres em risco. E tratar a tempo os homens possessos de um amor que mata.
A sociedade portuguesa tem que banir a violência contra as mulheres!
Não podemos continuar a tolerar a violência contra as mulheres, o sofrimento que comporta, e a morte a que, em muitos casos, ela conduz!
Esta semana [a 1.ª de Agosto 2006], os crimes chamados de “passionais” têm sido notícia todos os dias.
Em quatro dias, registaram-se três assassinatos e uma tentativa de assassinato de mulheres, cometidos por companheiros ou ex-companheiros:
Sábado, 5 de Agosto, Mira de Aire: Emília Marques, 53 anos, morta a tiro por um antigo namorado.
Domingo, 6 de Agosto, Alcobaça : Margarida Reis, 26 anos, morta queimada pelo marido.
Segunda-feira, 7 de Agosto, Mirandela : Anabela da Silva Flores, 33 anos, morta com onze facadas pelo marido.
Terça-feira, 8 de Agosto, Anadia : Alcídia Baptista, 74 anos, esfaqueada pelo marido.
Estes crimes têm uma raiz comum: a persistência de uma organização social baseada num paradigma que tolera aos homens um exercício ilegítimo de poder e controlo sobre as mulheres.
Nos últimos meses deste ano, registaram-se ainda os seguintes assassinatos:
* 16 de Abril, Caxias : jovem, de 16 anos, morta à facada pelo namorado.
* 19 de Abril, Gondomar : mulher, de 74 anos, morta com caçadeira pelo marido.
* 2 de Maio, Seixal: mulher morta a tiro pelo antigo companheiro.
* 26 de Maio, Santa Marta de Penaguião : mulher, de 24 anos, morta pelo marido.
* 28 de Maio, Ponte de Sôr : mulher, de 51 anos, morta pelo marido.
Em Junho deste ano, o jornal Público divulgava dados da Polícia Judiciária: “Nos primeiros cinco meses de 2006, doze mulheres foram mortas alegadamente pelos companheiros, enquanto outras nove eram alvo de tentativas de assassinato”.
Em 2005, a Polícia Judiciária registou 33 mortes por violência doméstica e 27 tentativas de assassinato.
A Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres constata e deplora a ineficácia dos mecanismos de protecção às vítimas de violência doméstica.
A Plataforma relembra que é da responsabilidade do poder judicial e do Governo garantir a efectividade de um conjunto de disposições constitucionais e legais que reprovam, proíbem e punem este tipo de atentados à dignidade humana e à vida das mulheres.
Entre estas disposições, incluem-se também as disposições constantes de instrumentos de direito internacional que Portugal ratificou e que, por força do art. 8º da Constituição da República, vigoram igualmente na ordem jurídica interna, como:
- a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), que diz no seu Artigo 3º: “Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.”
- ou a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres (1979) e o seu Protocolo Opcional, já que a violência é uma forma extrema de discriminação.
A PLATAFORMA recorda também que, ao aprovar o Primeiro Plano Nacional Contra a Violência Doméstica (1999-2002) e o Segundo (2003-2006), o próprio Governo reconheceu que “a violência sobre as mulheres radica na persistente desigualdade de condições entre as mulheres e os homens, e que muito embora nela sejam também englobadas outras formas de violência sobre as mulheres (assédio, tráfico, etc.), é a violência doméstica que causa o maior número de mortes de mulheres entre os 16 e os 44 anos”.
A Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres exorta o Governo e restantes autoridades a todos os níveis de poder a colocarem eficazmente em prática:
- as disposições legais existentes;
- medidas de prevenção, nomeadamente através
* de campanhas de sensibilização de larga escala,
* de divulgação de material informativo nas Escolas, Autarquias, Hospitais, Centros de Saúde, etc.,
* e de acções de formação dirigidas aos grupos profissionais mais directamente implicados na detecção e intervenção neste domínio (juízes, polícias, médicas/os, enfermeiras/os, assistentes sociais, advogadas/os, etc.)
* medidas de protecção das mulheres sobreviventes de violência doméstica, em particular das que se encontram em processo de separação ou divórcio, sendo estes os momentos já identificados como de risco mais elevado.
Para quem persiste em considerar que as questões relativas aos direitos das mulheres são assuntos resolvidos e enterrados no passado, esta trágica realidade vem demonstrar que se pronunciam com grande irresponsabilidade humana e cívica.
A Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres exorta igualmente a sociedade civil e suas organizações a um exercício de uma cidadania activa e empenhada na defesa dos direitos humanos das mulheres e na realização da igualdade entre mulheres e homens.
Lisboa, 09 de Agosto de 2006
Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres
Sede: Rua Luciano Cordeiro 24 - 6ºA1250-125 LisboaT+351 213 546 831 F +351 213 142 514
plataforma@plataformamulheres.org.pt
www.plataformamulheres.org.pt
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O livro do Armando e do Arrifana
"E quando o povo pensar!..." O Armando, que também é povo, felizmente já pensa. Até fundou há anos o ARRAFINA, um mensário fecundamente cultural. E agora compilou em livro as mais acutilantes "Confissões" que mês a mês partilhou com as leitoras, os leitores e às quais o passar do tempo não lhes retirou actualidade. A apresentação do "menino" foi em Julho último, na casa onde vive com a família, em Penafiel. Como se já não bastassem essas "Confissões" juntas, ainda pediu ao Mário, do Fraternizar, que escrevesse o prefácio. O Mário escreveu um prefácio-confissão que não desmerecesse do livro. É pólvora. Leiam-no aqui e telefonem logo (964290175) a encomendar o livro.
Adverte-nos Jesus, o do Evangelho de João (10, 1-21), para termos cuidado com aqueles que se têm na conta de pastores do povo. Não apenas com alguns. Com todos: Os párocos e os presidentes de junta ou de câmara; os empresários e os caciques das aldeias; os pastores das novas Igrejas com sotaque brasileiro e os reitores de santuários de nomeada; os bispos residenciais e os deputados da nação; os chefes de governo e os chefes de estado; os ministros e os juízes; os banqueiros e os generais; os papas e os senhores do Império. Numa palavra, todos. Inclusive, aqueles aparentemente mais insignificantes que aqui não nomeei, para não tornar demasiado extensa a lista, mas que também se têm na conta de pastores do povo e se comportam como tal.
Jesus explica a razão da sua advertência: Todos os que se têm na conta de pastores do povo são ladrões e bandidos que estão aí apenas para roubar, matar e destruir. Tal e qual.
É claro que os que se têm na conta de pastores do povo também são capazes, de quando em vez, de fingir que são boas pessoas. E a prova é que todos são permeáveis a cunhas, quando as cunhas trazem a assinatura de um maior que eles; todos distribuem favores a troco de votos ou de aplausos; todos dão bodos a famílias pobres, de preferência às famílias pobres da sua cor partidária, por ocasião do natal e em ano de campanhas eleitorais. E todos fazem muitas outras coisas do género que, desde o princípio da Humanidade, estão inscritas no catecismo da caridadezinha. Mas o que aqueles que se têm na conta de pastores do povo nunca fazem é acabar de vez com os privilégios com que sempre se fazem rodear. Pelo contrário, aumentam-nos de ano para ano, de geração para geração.
E o povo? Será que ao menos o povo escutou a advertência de Jesus e tem tido cuidado com aqueles que se têm na conta de pastores do povo?
Revela a História, para nossa vergonha, que o povo pode ter começado por simpatizar com Jesus e por admirar a sua lucidez e a sua coragem. Mas não mais do que isso. Quando percebeu que ser povo sem pastores a governá-lo, a roubá-lo, a matá-lo e a destruí-lo, exigia que ele se desenvolvesse e chegasse à maioridade cívica e política, e à liberdade que o tornaria capaz de cuidar de si próprio, assustou-se e correu a jurar submissão e subserviência aos que se têm na conta de pastores do povo. E quanto a esse tal de Jesus, o povo nunca mais quis nada com ele. Acabou até por exigir que aqueles que se têm na conta de pastores do povo o matassem em seu nome e em nome de Deus e, assim, o declarassem maldito para todo o sempre. Uma decisão tremenda, que aqueles que se têm na conta de pastores do povo logo executaram de bom grado. Mas à sua maneira bem astuta e cínica.
Ao perceberem, no seu desespero, que jamais poderiam pôr uma pedra sobre o túmulo dele, promoveram-no então à categoria de deus e atribuíram-lhe o título e o posto de pastor dos pastores do povo. À sombra do qual, desde então, todos eles têm podido continuar a roubar, matar e destruir, sem que ninguém lhes vá à mão.
Foi deste Evangelho que me lembrei, ao ler as “Confissões” do Armando, director do “nosso” ARRIFANA, aqui, em boa hora, compiladas em livro. Alegro-me com a sua lucidez. Vibro com a sua palavra cortante como espada de dois gumes. E estou disposto a proclamar estas suas “Confissões” sobre os telhados.
Mas também chorei, ao lê-las. Porque elas vêm-me dizer que o povo continua ainda incapaz de ser povo sem pastores. Continua preguiçoso. Infantilizado. Ingénuo. Analfabeto. Mergulhado em comportamentos de massa. Continua a ser rebanho que corre para tudo quanto é santuário de deusas e de deuses, de santas e de santos, de nossas senhoras e de nossos senhores. Sem audácia para se assumir como povo com o Espírito Criador e Libertador de Deus dentro dele. Numa palavra, sem audácia para ser povo adulto, autónomo, sujeito, político, cidadão, livre, responsável, senhor dos próprios destinos.
Mas não posso nem quero concluir este Prefácio, sem juntar às “Confissões” do Armando também a minha própria: Confesso que aqueles que se têm na conta de pastores do povo têm agora razões de sobra para passarem a viver à beira de um ataque de nervos. Porque um livro como este revela que o povo está bastante mais perto de se atrever a ser povo sem pastores!
Obrigado, Armando. Parabém!
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Os sarilhos em que o Papa se meteu
Por ocasião dos sarilhos em que o papa Bento XVI se meteu, Jornal Fraternizar foi espreitar a página pessoal do Pe. Mário. Clicou no Diário Aberto de Setembro e deparou com a reflexão teológico-pastoral que se segue. O texto tem a data de 18 de Setembro.
Temo bem que certos líderes muçulmanos fanáticos ainda venham a fazer do mais que inábil papa Bento XVI um mártir desta esclerosa Igreja católica romana que hoje temos. O que, diga-se de passagem, a acontecer, consubstanciaria uma vergonha para todos os povos do mundo. Infelizmente, é o que, no mínimo, podem acabar por conseguir a intolerância e o ódio assassino com que um significativo número desses líderes muçulmanos continua aí a reagir ao despretensioso discurso, em forma de aula (olhem que nem sequer foi uma encíclica, senhoras, senhores!), que o papa proferiu na Alemanha, durante a sua recente visita àquele país, que é simultaneamente a sua pátria/mátria.
Por mim, tenho de reconhecer que as palavras do papa, desta vez, até foram objectivamente sensatas e necessárias. Saúdo o seu acerto, porventura, meramente casual, senão mesmo involuntário, mas, ainda assim, acerto. Porém, já tenho a lamentar que o mesmo papa, perante a mais que previsível e intempestiva reacção de certos líderes muçulmanos às suas palavras, apareça agora a meter os pés pelas mãos, em lugar de, com humildade e também com firmeza, aproveitar o momento para apelar à lucidez e à coragem de todos os muçulmanos, de todos os católicos e de todos os judeus, bem como de todos os demais homens/mulheres de boa vontade do nosso mundo, para, em conjunto, nos vermos ao espelho do que estão a ser, hoje, as nossas perversas e terroristas práticas económico-financeiras e políticas, tanto no Ocidente como no Oriente, tanto no Norte como no Sul, as quais deixam na miséria ou à beira dela cerca de cinco das seis partes que perfazem hoje o total da população mundial, estimada em mais de seis mil milhões de pessoas.
Não vale correr a meter o rabo entre as pernas e desperdiçar assim este Momento de graça ou kairos, depois de efectivamente se ter acabado, volens/nolens [por querer ou sem querer], de protagonizar o louvável e salutar serviço profético de cão de guarda que se tem o dever de, oportuna e inoportunamente, chamar a atenção da Humanidade para o perigo em que toda ela vive, quando é manifesto que, duma maneira geral, a Igreja católica no seu todo e o papa em particular têm quase sempre optado por ficar na cómoda e cúmplice postura de cães mudos!
Nunca é demais sublinhar, nesta conturbada hora, que as palavras do papa foram proferidas no ambiente duma universidade alemã e para gente que a frequenta; não numa praça pública e perante milhares ou milhões de pessoas de diversas nações, muito menos, num documento oficial do papado. Tais palavras nem chegaram praticamente a ser notícia nos grandes media do dia seguinte. Apenas o foram, perante a reacção dos tais líderes muçulmanos fanáticos que, a propósito e a despropósito, querem encontrar pretextos para desencadearem novos e sangrentos ataques contra populações indefesas do Ocidente, esquecidos de que, afinal, também elas são vítimas, juntamente com a generalidade dos povos muçulmanos e demais povos do mundo, das grandes transnacionais que hoje nenhum governo no planeta consegue controlar a sério.
Trata-se, para cúmulo duma reacção que vai muito para lá da possível “ofensa” do papa aos povos muçulmanos, pois não se limita, como já recomendava a velha lei de Talião, a proferir um discurso contra o discurso do papa, pelo contrário, incita os muçulmanos onde estiverem a passarem a vias de facto, com vinganças físicas, as mais cruéis.
A verdade é que as inesperadas palavras do papa puseram o dedo numa ferida que está aí em carne viva (as reacções violentas às suas palavras só acabaram por confirmar que ele tem razão!), mas que a hipocrisia dos governantes das nações continua a levá-los a fechar os olhos a ela, e a preferirem, em seu lugar, os inócuos discursos politicamente correctos, quando o que se lhes impõe são igualmente lúcidas e corajosas denúncias sobre os telhados, acompanhadas de lúcidas e corajosas críticas e autocríticas.
Concordo com Bento XVI que toda a violência organizada que mata a frio seres humanos indiscriminadamente, como se os seres humanos valessem ainda menos do que formigas, é uma violência incompatível com a Fé num Deus Criador de seres humanos à sua imagem e semelhança, independentemente de qual o povo, se católico, se judeu ou muçulmano, que professa Fé nEle.
Semelhante acto corresponde, na prática, a uma inominável des-Criação que desonra e coloca fora da Humanidade, tanto quem a concebe e decide realizá-la, como quem se presta a executá-la no terreno. Mais. No ponto de desenvolvimento a que hoje a Evolução da vida já chegou, temos que proclamar urbi et orbi que a violência organizada que mata, a frio, seres humanos indiscriminadamente como eles se valessem ainda menos do que formigas, é também incompatível com a razão humana e com os seres humanos, enquanto tais.
Por isso, com a entrada da Humanidade no terceiro milénio do Cristianismo, os governos das nações já deveriam ter proclamado, como patamar ético mínimo para todos os povos, que um ser da espécie humana que opta a frio pela violência assassina e indiscriminada contra outros seres humanos e a realiza ou manda realizar, coloca-se, automaticamente, fora da condição de ser humano e passa a assumir a condição de monstro, que os seres humanos, enquanto tais, deverão, não abater, evidentemente, mas colocar em condições dignas que, de imediato, o inibam de poder prosseguir nos seus crimes de lesa-humanidade, ao mesmo tempo que providenciam para que peritos em humanização, cuidem dele e o estimulem a percorrer os caminhos que o levem a tornar-se finalmente humano com os demais e entre os demais seres humanos.
À luz do que acabo de escrever, não hesito em afirmar, por exemplo, que Bush, na sua qualidade de presidente dos EUA, colocou-se abertamente fora da Humanidade e passou à condição de monstro em forma humana, quando avançou no terreno com a Guerra no Iraque. Mas não só ele. Também os que se declararam ao seu lado e correram a apoiar no terreno e com tropas a sua assassina decisão.
Infelizmente, a Humanidade não só ainda não foi capaz de dar um tal passo ético conjunto naquela direcção, como até faz questão de se comportar como se, objectivamente, não estivéssemos perante um crime inominável. Mas estamos. E é por isso que hoje nos vemos todas, todos à beira de podermos vir a protagonizar, pela primeira vez na História, o acto de des-Criação dos seres humanos, tais como hoje nos conhecemos. Porque a violência assassina e indiscriminada contra seres humanos gera mais violência assassina e indiscriminada, numa espiral que dificilmente terá recuo. E aqui reside o mais dramático do nosso tempo.
Quando a Evolução, no seu curso ao longo da História, acaba de alcançar o seu ponto mais alto, ao tornar-se, pela primeira vez, em nós, seres humanos do terceiro milénio, Humanidade consciente da própria Evolução, e também pela primeira vez, acaba de se auto-dotar de sofisticados meios técnicos com os quais pode levar a Evolução da vida a plenitudes impensáveis até há poucos anos atrás, ou então a obstruí-la e a fazê-la regressar ao Caos inicial, não podemos de maneira nenhuma enterrar a cabeça na areia, ou assobiar para o lado. Temos que agir sem demora. Deixar correr é correr o sério risco de deitarmos tudo a perder e fazermos fracassar a Evolução.
É este o ponto em que estamos hoje como Humanidade. Ou pilotamos responsavelmente a Nave em que somos e existimos, e chegaremos a ser o que estamos chamados a ser humanos e irmãos universais, em feminino e masculino e em radical igualdade ou continuamos a deixar correr como se não fosse nada connosco, e então muito provavelmente regrediremos de humano a monstro. Até voltarmos ao Caos, onde tudo começou. Neste caso, só não regressaremos ao Nada definitivo, porque a Evolução em que um dia acontecemos como seres humanos conscientes e criadores, continua aí, apesar de tudo, misteriosamente animada pelo Espírito Criador de Deus Vivo, Mãe/Pai de todos os povos por igual. O qual, ao fazer-nos acontecer na Evolução, por pura graça, desde logo também nos salvou por pura graça. Para sempre!
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5.º Simpósio do Clero de Portugal
Como vêem os padres e os bispos portugueses os seus concidadãos? A julgar pelo teor das conclusões do 5.º Simpósio do Clero de Portugal não se pode dizer que têm um olhar positivo e esperançoso. Bem pelo contrário. Ora leiam.
“A interpretação da nova situação religiosa e cultural em que o sacerdote é chamado a realizar o seu ministério e vocação, caracterizada pelo individualismo pós moderno de um homem dilacerado pela ruptura entre a cultura e a fé e confundido pela mudança de alguns paradigmas de pensamento [itálico e negrito JF], desafiou os presentes [mais de 400 padres e 30 bispos] a viver o contraponto da comunhão, anunciando aos filhos da modernidade a referência central da verdade do homem, Jesus Cristo."
Perante um "homem" assim radiografado pela negativa (infelizmente, e como se vê por este exemplo, a linguagem clerical continua muito pouco inclusiva; fala preferencialmente de "homem", quando são as mulheres quem mais cultos "consome" e quem garante a quase totalidade da catequese de crianças/adolescentes), a "conversão" que o Simpósio pede aos padres portugueses mais parece música celestial, se pensarmos que a esmagadora maioria do clero, devido à idade e ao número de paróquias a seu cuidado, já nem de "bombeiro" consegue fazer bem. Vejam:
"Destacou-se a necessidade de redefinir e reafirmar uma identidade presbiteral eucarística, aquela que resulta da intimidade com Jesus Cristo e da solidariedade com os irmãos. Foi solicitada uma maior visibilidade pública do presbítero no meio do mundo, onde leve a cabo a missão da profecia e da simpatia por esse mundo. Urge, ainda, rever a própria pregação para que esta seja significativa e verdadeira proposta de sentido."
Como se vê, o teor deste ponto do Comunicado é mais do que oportuno, mas onde estão os padres e os bispos portugueses que consigam praticar o que aqui lhes é sugerido/proposto?
Rezam os factos que as homilias das missas andam pelas ruas da amargura, as celebrações são rotineiras e a despachar. Um desastre que se repete todos os domingos. Decididamente, este modelo de Igreja está esgotado. E este modelo de ministério presbiteral também! Só não vê quem não quer ver.
In Diário Aberto, www.padremariodemacieira.com.sapo.pt
Foram mais de 400 os padres portugueses
que por estes dias estiveram em simpósio
num dos grandes edifícios eclesiásticos em
Fátima o local religioso mais idolátrico do
país. Reflectiram e debateram temáticas que
não dizem nada ao país e por isso o país não
quis saber deles para nada nem do simpósio.
São presbíteros ordenados da Igreja que
está em Portugal. Deviam ser um dom de
Deus Vivo entre o povo e são funcionários
eclesiásticos. Deviam comportar-se como cães
de guarda e comportam-se como cães mudos.
Deviam ser profetas e são sacerdotes. Deviam
dar o Evangelho aos pobres e dão-lhes ópio.
Durante os séculos passados foram muitos
os adolescentes e os jovens que percorreram
os caminhos eclesiásticos que iam desaguar
ao sacerdócio. Os seminários inventados pelo
Concílio de Trento foram instituições contra
natura destinadas a transformar generosidades
humanas em subserviências perante o Poder.
Tudo começou por tirarem aos adolescentes
a própria família. Teriam de crescer sem afectos
e sem sexualidade aqueles que um dia iriam
servir como eunucos no altar. Durante 12 anos
controlaram-lhes todos os passos e conversas
até que eles se tornaram homens só de Deus.
Mas de um Deus com tudo de ídolo e de monstro.
Também eu um dia me encontrei a percorrer
os caminhos que levavam da casinha dos meus
pais ao grande seminário de Ermesinde. Queria
ser padre e por então não havia outro modo de
responder ao misterioso apelo que me trazia
em sobressalto. Avancei como os demais. Mas
para ser diferente dos demais. E assim sucedeu.
Ordenou-me a Igreja do Porto no final dos 12
anos de seminário. Pensei que era sacerdote
e até me apropriei então daquela frase da carta
aos hebreus Sacerdote para sempre. Depressa
me dei conta que o Sacramento da Ordem me
assinalou para Evangelizar os pobres e não
para oficiar num altar dentro dos templos.
O presbítero que sou desde então desalojou
o sacerdote que eu pensava ser. E bem cedo
já eu me via a vestir à civil e a trabalhar como
jornalista profissional a fim de não ficar pesado
a ninguém. Passei a viver os afectos com a força
da gratuidade. E é a ternura que me faz como
um menino-companheiro de todas as vítimas.
Conheci as cadeias políticas por duas vezes
e outras tantas tive de ir ao Tribunal Plenário
do Porto testemunhar a verdade do Evangelho
e denunciar a Mentira que mantém a Verdade
cativa na injustiça. Perdi por via disso o ofício
pastoral e passei a viver longe dos templos e
dos altares. Na companhia de Jesus e de ateus.
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LIVROS DO TRIMESTRE
Editorial Trotta / Hans Küng
O ISLÃO
História, Presente, Futuro
Certamente, nem o autor sonhava que este seu livro iria ser tão oportuno. A toda a hora, os grandes media nos falam do Islão e dos seus fiéis, quase sempre pela pior razão. Por mais que digam o contrário os líderes moderados que vivem em países do Ocidente, ou que mantêm relações de proximidade com o Ocidente, a verdade é que as populações em geral a ideia que têm do Islão é que ele manda fazer a guerra santa e matar indiscriminadamente os considerados inimigos da fé em Alá. O Alcorão bem proclama que Alá é grande e que Maomé é o seu profeta. Mas maior que Alá parece ser o ódio dos fundamentalistas islâmicos. Para desgraça deles e de toda a Humanidade. Este livro de mais de 800 páginas vem na hora certa. Corram por ele.
"Este livro - adverte o autor que é uma sumidade na matéria - não o escrevo como historiador da cultura, nem da religião, nem da política, nem do direito. Escrevo-o para capacitar as pessoas para o diálogo nesta decisiva fase de transição para uma nova relação entre as culturas, religiões e nações, para ajudá-las a perceber o mundo em que vivemos, de modo que - quer se trate de cristãos, muçulmanos ou laicistas, políticos, líderes empresariais ou credores de cultura, professores, párocos ou estudantes; numa palavra, qualquer que busque orientação - possam julgar melhor a situação mundial, que é impossível compreender à margem das grandes religiões, e reagir a ela em consequência."
O autor que já se ocupou das outras duas grandes religiões monoteístas, o Cristianismo e o Judaísmo, confessa que os "quatorze séculos do Islão não são mais fáceis de apresentar que os trinta séculos do Judaísmo e os vinte séculos do Cristianismo".
No decorrer dos capítulos, cada qual o mais apaixonante, o autor interrompe com frequência a narrativa "para perguntar criticamente - olhando por um lado as origens e, por outro lado, o futuro - pelo resultado das mudanças que, a pretexto do aparecimento desta ou daquela constelação paradigmática, o Islão experimentou." São "perguntas com o fim de clarificar" e "perguntas para provocar a discussão".
No epílogo, o autor levanta a questão decisiva com que, em sua opinião, o Islão contemporâneo está deveras confrontado: Se em algum dos países islâmicos-chave haverá a margem de liberdade necessária para vincular a substância do Islão com os desafios do século XXI? Esta é uma questão "de natureza tanto política como teológica". E embora o autor reconheça que não é fácil prever o que irá acontecer, opta pela esperança. Os fiéis do Islão saberão ser dignos do núcleo central da sua fé e nascerão de novo, não da letra, mas do Espírito.
Nueva Utopia / Cármen e Alonso
ANTICATECISMO
Diálogo de insubmissos
São apenas 168 páginas, no total. E a sua leitura não é fácil, mas seria bom que toda a gente a fizesse. A temática distribui-se em quatro capítulos - enigmas sem resposta; racionalidade; estética; sinais de intersubjectividade - e é apresentada sob a forma de perguntas e respostas, exactamente, 42 perguntas e outras tantas respostas. A "doutrina" deste Anticatecismo está tão condensada, que é preciso ler o livro sem pressa e mais do que uma vez. O proveito espiritual é imenso.
Diga-se também que os autores, totalmente desconhecidos entre nós, apesar de ibéricos, são um casal, já com mais de 40 anos de vida em comum. Assumem-se como cristãos críticos, preocupados pela justiça social. No passado, militaram em organizações anti-franquistas. Ambos são economistas de profissão.
O método a que recorreram é o socrático, sem dúvida, o mais adequado para quem está empenhado num diálogo de insubmissos. Só por isso, a obra a que deitaram mãos é valiosíssima, se pensarmos que os catecismos que as Igrejas produziram e continuam a produzir têm muito de dogmático e de ideológico. Partem do pressuposto de que já possuem a verdade toda e esforçam-se por a transmitir aos demais, como se estes fossem seres vazios, sem experiências que geram conhecimento e sabedoria. É por isso que tais catecismos eclesiásticos contribuíram para fazer cristãs, cristãos submissos, apáticos, sem espírito crítico, atentos e reverentes, sobretudo aos clérigos de topo. Nada disso se passa nesta obra, oportunamente titulada de Anticatecismo, que é como quem diz, o autêntico Catecismo que a humanidade de hoje carece.
O livro joga com os dados últimos da Ciência sobre a origem da vida em geral e da vida humana em especial. Por isso a leitura pode tornar-se complexa, se formos analfabetos nessas dimensões da Ciência. Mais uma razão para mergulharmos nas suas páginas.
De entre todas as perguntas e respostas, a nossa atenção estremece de emoção, quando, depois de ler a pergunta 13: "Como interpretar factos conhecidos através de uns relatos em que os protagonistas estão à beira de ser fósseis históricos?", depara, mais à frente, com a respectiva resposta.
"No paradigma cristão, o Mestre estético, hoje mais do que ético, é Jesus da Palestina, porém a originalidade para as gerações posteriores de discípulos é que quando desaparece do tempo, por sua execução num patíbulo, os seus seguidores «Têm necessidade de ressuscitar o seu líder carismático para prosseguirem com o iniciado".
Estas palavras são apenas o começo da resposta. Mas suficientemente "explosivas" para percebermos que estamos perante uma outra maneira de abordar o Jesus histórico e o Cristianismo. Uma coisa fica: se quisermos ser de Jesus, havemos de ser tão insubmissos quanto ele!
Editorial Trotta
O EVANGELHO DE JUDAS
Edição e comentário de Francisco G. Bazán
"O Evangelho de Judas faz parte duma série de evangelhos gnósticos", informa o estudo preliminar com que abre o livro. "O seu título e conteúdo coincidem com o que Ireneu, o Pseudo-Tertuliano e Epifânio mencionam como «O Evangelho de Judas» dos gnósticos cainitas, grupo que gozava de péssima reputação entre os mencionados autores eclesiásticos."
Mais informa o estudo preliminar que "os cainitas alinhavam por aquela tendência de interpretação gnóstica que, apoiando-se em exegeses visíveis na haggadah rabínica, convertiam algumas figuras da Bíblia duma posição de vilãs à condição de heróis. Era o caso dos ofitas (do grego óphis) ou naasenos (do hebreu nâhâs), que renderam culto à serpente - habitual representante do mal e da tentação - como reveladora do conhecimento; os sodomitas, ao considerar que Sodoma e Gomorra foram lugares privilegiados destruídos pelo Deus deste mundo por ser a sede dos setianos, a cadeia de transmissores da Luz , e os execrados cainitas, que fundando-se na leitura das primeiras linhas do capítulo 4 do livro do Génesis, observavam uma descomunal incoerência na conduta do Deus criador, que havia expulso Adão e Eva do Paraíso, depois da sua falta, e que olhava com maus olhos para as oferendas do primogénito Caim e com agrado para as de Abel. Histórias absurdas para estes crentes, que se repetem com Esaú e Jacob, com Lia e Raquel, e que continuam a reproduzir-se noutros relatos".
Para estes crentes gnósticos, um Deus assim que se colocava do lado do humilde e abatia de modo implacável o forte, só podia ser um Deus ignorante. Por cima dele, diziam, "devia existir outra divindade realmente sábia e amorosa, cuja justiça superava a do autor da criação."
Foi extensa esta citação do estudo preliminar ao Evangelho de Judas, mas impunha-se aqui, para nos ajudar a perceber a "reabilitação" que esse Evangelho tardio, nascido nesses ambientes gnósticos, faz questão de congeminar e anunciar.
Tivessem os grandes media fornecido estes dados às pessoas a quem habitualmente se dirigem e, certamente, já não teria havido lugar para os títulos sensacionalistas com que anunciaram o aparecimento do Evangelho de Judas.
Por isso, vale perguntar se os grandes media estão interessados em informar, ou se apenas estão interessados em vender informação, para obterem fabulosos lucros em troca.
Neste último caso, interessou-lhes mais o escândalo à volta de um novo Evangelho que punha em causa a mensagem dos Evangelhos canónicos do Novo Testamento, do que a verdade objectiva e histórica. Porque o escândalo e o sensacionalismo vendem, ao passo que a verdade faz-nos livres, pessoas com consciência crítica e ilustrada. O que não convém a quem trabalha nas trevas e faz das trevas o seu ambiente preferido. Por isso, os poderosos odeiam tanto a Luz.
Aletheia Editores / Vários autores
O Padre Américo e a Obra da Rua
Introdução, recolha de textos e de ilustrações Helena de Sousa Pereira.
Coordenação José da Cruz Santos. Direcção gráfica Armando Alves
A principal originalidade do livro reside no conjunto de testemunhos sobre o Pe. Américo, 26 no total, escritos por pessoas das mais diversas sensibilidades e tendências. Em boa hora, houve quem metesse mãos à obra. Não tanto pelo Pe. Américo que dispensa bem todas as homenagens que lhe queiramos prestar. Mas por nós, mulheres e homens do século XXI que, nem por já termos entrado no terceiro milénio do Cristianismo, ainda não fomos capazes de criar uma sociedade verdadeiramente humana da qual tenham desaparecido, por desnecessãrias, casas como as Casas do Gaiato. É, evidentemente, um livro a não perder por nada deste mundo.
Embora certa comunicação social dita de referência sempre o escondesse, entre os testemunhos que aparecem no livro, também consta o do Pe. Mário, director deste Jornal. Como terão oportunidade de constatar, se lerem o livro, é um dos mais contundentes pela positiva. Talvez por isso, houve interesse em silenciá-lo nas recensões feitas ao livro.
São estes os nomes das pessoas que assinam testemunhos neste livro e pela ordem em que aparecem: D. Januário Torgal Mendes Ferreira, Bispo das Forças Armadas e Forças de Segurança; Albano Martins, Escritor; Alfredo Margarido, Escritor; Almor Viegas, Economista; António Rebordão Navarro, Escritor; Diogo Freitas do Amaral, Ministro dos Negócios Estrangeiros; Fernando Mário Teixeira de Almeida, Economista; Flávio Ferreira, Juiz Conselheiro; Germano Silva, Jornalista; Gil Moreira dos Santos, Advogado; Ilda Figueiredo, Deputada ao Parlamento Europeu; João Bigotte Chorão, Escritor; Jorge Jardim Gonçalves, Engenheiro, Presidente do Conselho Superior do Millenium BCP; José Carlos de Vasconcelos, Escritor; José Viale Moutinho, Escritor; Manoel de Oliveira, Cineasta; Manuel Pinto Teixeira, Jornalista,Professor Universitário; Manuela Eanes, Presidente do Instituto de Apoio à Criança; Marcelo Rebelo de Sousa, Professor Universitário; Maria Helena da Rocha Pererira, Professora Universitária; Mário Cláudio, Escritor; Padre Mário de Oliveira, Jornalista; Matilde Rosa Araújo, Escritora; Nuno Grande, Professor Universitário; Rui Osório, Jornalista; Urbano Tavares Rodrigues, Escritor.
São do Padre Carlos Galamba, do Gaiato, as palavras de abertura e apresentação do livro. Mas o que mais choca no livro é aquele momento que vem relatado na biografia, quando o Bispo do Porto de então achou que o Américo de Aguiar não era digno de cursar teologia e de ser ordenado padre!...
Nueva Utopia / Raul Lugo Rodríguez
A Igreja católica
e a homossexualidade
O autor é padre católico, desde 1982. É licenciado em Sagradas Escrituras pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma e perito em Ciências Bíblico-Orientais, pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém. Presentemente, integra uma comunidade de presbíteros que compartem a vida e os trabalhos dos camponeses maias de Yucatán. O livro que nos oferece é o que se poderia chamar, com bastante propriedade, o Evangelho dos homossexuais e das lésbicas. A não perder.
O livro tem 128 páginas. Mas o autor entendeu juntar-lhe uns onze anexos a propósito da temática em causa, qual deles o mais oportuno. Deste modo, as páginas sobem até 223.
A abrir, o autor apresenta uma mão cheia de casos concretos, à guisa de introdução. "Comecei a dar-me conta que a minha filha tinha uma relação «especial» com a sua amiga, quando o meu marido me advertiu porque não lhe prestava mais atenção. «Em todo o bairro corre o diz-se-diz-se que a tua filha é lésbia», disse-me. Decidi então falar com ela. Logo que se apercebeu que o meu interesse era escutá-la e não julgá-la, tivemos uma conversa verdadeiramente cordial. Mas eu sou muito católica e quis saber a opinião de um sacerdote. Quando fui falar com o padre Fulano, ele disse-me que tinha que expulsar a minha filha de casa, se ela não abandonasse aquela relação. De contrário, eu própria também carregava com esse pecado. Mas como vou eu expulsar a minha filha de casa, padre!? A quantas coisas poderia eu expô-la, pois se tem apenas 23 anos! Além disso, conheço bem a sua companheira e é uma rapariga com um coração de ouro. Por isso decidi desobedecer à Igreja. E a minha filha continua em minha casa. É minha filha e tem todo o meu apoio."
Perante confissões destas, logo a abrir o livro, não é de estranhar que o autor o termine com uma extensa confissão pública. A sua própria. "Eu, pecador e presbítero, peço perdão aos meus irmãos e irmãs, em meu nome, em nome de outros muitos presbíteros e em nome da Igreja Católica de que sou membro desde o meu baptismo. Peço perdão porque não soube apreciar o dom do corpo e da sexualidade, porque censurei o prazer e considerei-o coisa suja, inferior e desprezível, porque preferi seguir Agostinho de Hipona em lugar de fixar a minha atenção em Jesus de Nazaré."
Este é apenas o primeiro ponto da confissão que prossegue em muitos outros. Por aqui se pode ver quanto o livro é valioso, oportuno e libertador.
O autor não foge à questão dos textos bíblicos que parecem condenar a homossexualidade. Desmonta a exegese vaticana. E afirma que a doutrina da Igreja, neste ponto, não pode ser respeitada e seguida. Parabéns, autor!
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29 de Outubro, S. Pedro da Cova
7.º Encontro de espiritualidade
"Evangelhos da infância de Jesus (Mt 1-2; Lc 1-2): Que tipo de Messianismo e de Messias/Cristo nos apresentam?" É este o tema, mais do que escaldante e oportuno, que estará em debate durante o 7.º Encontro de Espiritualidade com o ateísmo e a idolatria generalizados em fundo.
A iniciativa tem lugar dia 29 deste mês de Outubro,entre as 10 h e as 17h, na casa-sede da Associação Padre Maximino/Jornal Fraternizar e é aberta a quem quiser participar. O que se pede às pessoas que decidirem aparecer é que, se possível, façam trabalho de casa, isto é, preparem-se para intervir no debate. E o façam com palavras carregadas de Sopro ou Espírito de Jesus ressuscitado.
O "prato forte" do debate é da parte da manhã. Segue-se o almoço partilhado em forma de Eucaristia, conseguido com os alimentos que cada pessoa levar para a Mesa comum. A Associação oferece uma sopa de legumes a abrir. A tarde é de partilha de notícias dos grupos e Comunidades, poemas e cantos, se possível originais.
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A opinião de
LEONARDO BOFF
O mau exemplo do Papa
A atitude do Papa Bento XVI está a provocar justificadas iras entre as comunidades islâmicas, por causa da infeliz citação de um imperador bizantino do século XIV, segundo o qual “Maomé defendia coisas más e desumanas, como sua ordem de difundir a fé pela espada”. Mas também causou escândalo e vergonha para os cristãos.
A citação é totalmente inoportuna. Sabe muito bem o Papa do enfrentamento ora existente entre o Islão e o Ocidente que faz guerra ao Afeganistão e ao Iraque, e que abertamente apoia a causa israelense contra os palestinianos, de maioria islâmica. Nesse contexto a citação alinha o Papa às estratégias bélicas do Ocidente. Como não se irritar contra esta atitude?
Para nós cristãos, a atitude do Papa deixa-nos perplexos, porque é da essência da fé cristã perdoar e rezar como o pobrezinho de Assis: ”Onde há ofensa, que eu leve o perdão”. Não querendo perdoar, o Papa legitima todos aqueles que não querem pedir perdão nem na vida quotidiana, nem aos negros que escravizámos por séculos, nem aos sobreviventes dos indígenas que dizimámos. Se o Papa não faz oficialmente um acto de desculpa, dá-nos um mau exemplo. Não cumpre o mandato do Senhor de “confirmar os irmãos e as irmãs na fé”. Mas este seu gesto não é isolado. Como Cardeal, opôs-se à entrada da Turquia na Comunidade Europeia, pelo simples facto de ela ser maioritariamente muçulmana. Há pouco tempo suprimiu no Vaticano a instância que promovia o diálogo Cristianismo-Islamismo. No documento Dominus Jesus de sua autoria de 15 de Setembro de 2000, um dos textos mais fundamentalistas dos últimos séculos, afirma que “a única religião verdadeira é a Igreja Romana Católica” e que “os seguidores de outras religiões objectivamente encontram-se, com referência à salvação, numa situação gravemente deficitária”. Não faz sentido encontros com outras religiões, porque “é contrário à fé católica considerar a Igreja como uma via de salvação ao lado de outras”. Neste transfundo, não causa estranheza o seu discurso na Universidade de Ratisbona. Mesmo assim, não seria mais digno ao Papa pedir claramente perdão pelas incompreensões que provocou mesmo involuntariamente? Porque não o faz?
Para o entender, é preciso compreender a ideologia infalibilista que vigora no Vaticano e em geral na Igreja. Segundo ela, o Papa não pode errar, embora o dogma da infalibilidade seja muito restrito. Afirma que o Papa é somente infalível em situações bem delimitadas, gozando então, pessoalmente, daquela infalibilidade que é de toda a Igreja. Mas a ideologia infalibilista atribui de forma ilegítima infalibilidade a todas palavras do Papa. Se ele pedir perdão, confessa que errou, o que não é permitido pelo infalibilismo.
Funciona na cabeça do Papa Bento XVI o despotismo papal formulado ainda em 1302 por Bonifácio VIII que rezava: ”Para cada criatura humana é absolutamente necessário para sua salvação estar submetida ao Papa em Roma”. Isso não foi abolido sequer pelo Concílio Vaticano II em 1964. Foi introduzida nos textos uma “Nota explicativa prévia” onde se reafirma que o Papa pode sempre agir “segundo seu parecer pessoal”, como nomear bispos, estabelecer normas e políticas eclesiásticas. Por outras palavras: Um Papa pode autonomamente decidir tudo; um bilião de católicos juntos não pode decidir nada. Esse absolutismo faz-nos entender as razões do Papa em não pedir perdão.
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A alegria de ser silidária/o
A Associação Cultural e Recreativa AS FORMIGAS DE MACIEIRA dispõe ainda de bastantes exemplares da 2.ª edição do livro Na companhia de Jesus e de Ateus (oferta do Pe. Mário) e do DVD-Concerto com José Mário Branco, Tino Flores e Francisco Fanhais, ao preço de 10 euros por unidade. O dinheiro reverte a favor da construção do Barracão de Cultura. Vá por eles, lá. Aproveita e vê a construção em curso e sentirá a alegria de ser solidária/o. Se já os adquiriu, mas quiser partilhar algum do seu dinheiro para a construção, pode fazê-lo na CGD. É este o NIB da conta da Associação: 003503090003991793035
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