Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 163, de Outubro/Dezembro 2006 (Continuação)

Mensagem do XXVI Congresso

A teologia pode integrar o movi­mento de diálogo interdisciplinar da bioética, procura conjunta de valores, mas sem se arrogar o direito de intro­missão para ditar normas de morali­dade à sociedade civil.

A Bioética pode integrar o movi­mento de diálogo inter-religioso, já em cur­so na teologia, para ajudar a trans­formar, à vista de novos dados, alguns dos seus paradigmas e conclusões; po­rém sem impor exclusivamente interpre­ta­ções de sentido sobre a vida e a morte, a dor, a saúde ou a doença.

No contexto da sociedade plural e secular, as pessoas crentes podem par­ticipar no debate público sobre bioéti­ca, conjugando a sua própria fé com as exigências de diálogo no meio de si­tuações inter-culturais e inter-religio­sas.

Decálogo:

1. Integramos o movimento de diá­logo interdisciplinar da bioética como debate público, para procurar em co­mum respostas aos desafios que o cui­dado da vida levanta nesta era biote­cno­ló­gica que é hoje a nossa.

2. Para convergir numa ética au­tenticamente global, pomo-nos à escuta de perspectivas diferentes através do diálogo inter-cultural

3. Esperamos das diversas religi­ões que integrem esta procura conjunta de valores em ordem ao futuro da vida e da humanidade. Respeitaremos a pluralidade, juntando-nos à procura con­junta de convergências em valores para garantir responsavelmente o futu­ro da vida e da humanidade.

4. Os comportamentos aprendidos no evangelho de Jesus motivam-nos es­pecialmente a apoiar uma ética da gratuidade responsável, preocupada pelo cuidado da vida toda. Proporemos, sem as impor, alternativas a ter em con­ta no cuidado da vida desde a perspe­ctiva do evangelho de Jesus, mas só no momento oportuno e sempre com to­le­rância construtiva. Porém, ao contri­buir para um diálogo plural a partir de perspectivas evangélicas, não centrare­mos a contribuição desta tradição em citações de documentos eclesiásticos oficiais.

5. O acolhimento responsável do pro­cesso humano de nascer há-de rea­lizar-se no marco do respeito para com a dignidade e os direitos da mulher no que respeita à reprodução. Reconhe­ce­re­mos a necessidade de rever a fun­do a própria tradição no que se refere ao essencial das suas posições sobre gé­nero, sexo e relações humanas, pa­ra superar os limites duma teologia de­masiado condicionada por pessimis­mos, maniqueísmos, estoicismos ou pu­ritanismos.

6. O acompanhamento responsá­vel do processo humano de morrer inclui o respeito ao direito de decidir como viver, digna e autonomamente, a fase final desse processo. Faremos por redescobrir e reapreciar elementos esquecidos da própria tradição tera­pêutica corpóreo-espiritual; por exem­plo, assumir a morte e conduzir auto­noma­mente o processo de morrer. Po­rém, teremos presente as deficiências da própria tradição no que respeita às cisões dualistas entre o ser humano e a natureza, ou entre o corporal e o psí­quico, para podermos refazer, de raiz, uma teologia da criação capaz de valo­rizar e libertar a terra, o corpo e a vida.

7. Não se deve fazer da dor um ído­lo; é preciso fomentar o seu alívio e assegurar o acesso por igual aos cui­dados paliativos.

8. É responsabilidade ética apoiar a investigação científica para curar, me­lhorar e proteger a qualidade de vi­da. Reconheceremos a necessidade de aliviar a carga da própria tradição, para que não naufrague uma teologia que durante demasiado tempo desvalorizou a tecnociência.

9. Admirando e agradecendo os a­van­ços científicos, fomentaremos as aplicações da investigação ao serviço do terapêutico. Porém, o cuidado da vid­a há-de alargar-se ao conjunto dos viventes e dos ecosistemas.

10. O cuidado da vida há-de incluir também a responsabilidade para com as gerações futuras. Por isso teremos sempre pre­sente as perguntas motrizes do movimento bioético: “É responsável e vale a pena fazer tudo quanto é tecni­ca­mente possível fazer-se? A quem be­neficiam os êxitos neste campo?” Assim, enquadraremos qualquer esforço bioé­tico, captando o seu aspecto de proble­ma social.


MULHERES MALTRATADAS

Amo-te = Mato-te!

Anda por aí uma forma de amor que mata. Manifesta-se, sobretudo, nos homens. Contra as mulheres que dizem amar. É uma patologia que a sociedade tem de encarar de frente e tratar com inteligência e coração. Ao que revela um comunicado da Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres, esta patologia está a tomar proporções de estarrecer. E as instituições têm-se quase limitado a tomar conta da ocorrência. Se a patologia é uma doença, limitar-se a tomar conta da ocorrência das vítimas que produz é um crime. E não só contra as mulheres vítimas. É um crime contra a Humanidade no seu todo. É preciso salvaguardar eficazmente as mulheres em risco. E tratar a tempo os homens possessos de um amor que mata.

A sociedade portuguesa tem que banir a violência contra as mulheres!

Não podemos continuar a tolerar a violência contra as mulheres, o sofri­mento que comporta, e a morte a que, em muitos casos, ela conduz!

Esta semana [a 1.ª de Agosto 2006], os crimes chamados de “passionais” têm sido notícia todos os dias.

Em quatro dias, registaram-se três assassinatos e uma tentativa de assas­si­nato de mulheres, cometidos por companheiros ou ex-companheiros:

Sábado, 5 de Agosto, Mira de Aire: Emília Marques, 53 anos, morta a tiro por um antigo namorado.

Domingo, 6 de Agosto, Alcobaça : Margarida Reis, 26 anos, morta queimada pelo marido.

Segunda-feira, 7 de Agosto, Mirandela : Anabela da Silva Flores, 33 anos, morta com onze facadas pelo marido.

Terça-feira, 8 de Agosto, Anadia : Alcídia Baptista, 74 anos, esfaqueada pelo marido.

Estes crimes têm uma raiz comum: a persistência de uma organização so­cial baseada num paradigma que tole­ra aos homens um exercício ilegítimo de poder e controlo sobre as mulheres.

Nos últimos meses deste ano, regis­taram-se ainda os seguintes assassina­tos:

* 16 de Abril, Caxias : jovem, de 16 anos, morta à facada pelo namorado.

* 19 de Abril, Gondomar : mulher, de 74 anos, morta com caçadeira pelo marido.

* 2 de Maio, Seixal: mulher morta a tiro pelo antigo companheiro.

* 26 de Maio, Santa Marta de Pena­guião : mulher, de 24 anos, morta pelo marido.

* 28 de Maio, Ponte de Sôr : mu­lher, de 51 anos, morta pelo marido.

Em Junho deste ano, o jornal Públi­co divulgava dados da Polícia Judiciá­ria: “Nos primeiros cinco meses de 2006, doze mulheres foram mor­tas alegadamente pelos compa­nhei­ros, enquanto outras nove eram al­vo de tentativas de assassinato”.

Em 2005, a Polícia Judiciária re­gis­tou 33 mortes por violência do­méstica e 27 tentativas de assas­si­nato.

A Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres constata e de­plora a ineficácia dos mecanismos de pro­tecção às vítimas de violência do­més­­tica.

A Plataforma relembra que é da res­ponsabilidade do poder judicial e do Governo garantir a efectividade de um conjunto de disposições constitucio­nais e legais que reprovam, proíbem e punem este tipo de atentados à di­gni­dade humana e à vida das mulhe­res.

Entre estas disposições, incluem-se também as disposições constantes de instrumentos de direito internacional que Portugal ratificou e que, por força do art. 8º da Constituição da República, vigoram igualmente na ordem jurídica interna, como:

- a Declaração Universal dos Di­reitos Humanos (1948), que diz no seu Artigo 3º: “Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pes­soal.”

- ou a Convenção sobre a Elimi­nação de Todas as Formas de Discri­mi­nação contra as Mulheres (1979) e o seu Protocolo Opcional, já que a vio­lência é uma forma extrema de discri­minação.

A PLATAFORMA recorda também que, ao aprovar o Primeiro Plano Na­cional Contra a Violência Doméstica (1999-2002) e o Segundo (2003-2006), o próprio Governo reconheceu que “a violência sobre as mulheres radica na per­sistente desigualdade de condições entre as mulheres e os homens, e que muito embora nela sejam também en­glo­­badas outras formas de violência so­bre as mulheres (assédio, tráfico, etc.), é a violência doméstica que causa o maior número de mortes de mulheres entre os 16 e os 44 anos”.

A Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres exorta o Governo e restantes autoridades a todos os ní­veis de poder a colocarem eficazmente em prática:

- as disposições legais existentes;

- medidas de prevenção, nomea­damente através

* de campanhas de sensibilização de larga escala,

* de divulgação de material infor­mativo nas Escolas, Autarquias, Hospi­tais, Centros de Saúde, etc.,

* e de acções de formação dirigidas aos grupos profissionais mais directa­mente implicados na detecção e inter­ven­ção neste domínio (juízes, polícias, médicas/os, enfermeiras/os, assistentes sociais, advogadas/os, etc.)

* medidas de protecção das mu­lhe­res sobreviventes de violência do­més­tica, em particular das que se en­con­tram em processo de separação ou divórcio, sendo estes os momentos já identificados como de risco mais ele­vado.

Para quem persiste em considerar que as questões relativas aos direitos das mulheres são assuntos resolvidos e enterrados no passado, esta trágica realidade vem demonstrar que se pro­nun­ciam com grande irresponsabilida­de humana e cívica.

A Plataforma Portuguesa para os Di­reitos das Mulheres exorta igualmen­te a sociedade civil e suas organiza­ções a um exercício de uma cidadania activa e empenhada na defesa dos di­reitos humanos das mulheres e na rea­lização da igualdade entre mulheres e homens.

Lisboa, 09 de Agosto de 2006

Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres

    Sede: Rua Luciano Cordeiro 24 - 6ºA1250-125 LisboaT+351 213 546 831  F +351 213 142 514

plataforma@plataformamulheres.org.pt

www.plataformamulheres.org.pt


O livro do Armando e do Arrifana

"E quando o povo pensar!..." O Armando, que também é povo, felizmente já pensa. Até fundou há anos o ARRAFINA, um mensário fecundamente cultural. E agora compilou em livro as mais acutilantes "Confissões" que mês a mês partilhou com as leitoras, os leitores e às quais o passar do tempo não lhes retirou actualidade. A apresentação do "menino" foi em Julho último, na casa onde vive com a família, em Penafiel. Como se já não bastassem essas "Confissões" juntas, ainda pediu ao Mário, do Fraternizar, que escrevesse o prefácio. O Mário escreveu um prefácio-confissão que não desmerecesse do livro. É pólvora. Leiam-no aqui e telefonem logo (964290175) a encomendar o livro.

Adverte-nos Jesus, o do Evangelho de João (10, 1-21), para termos cuida­do com aqueles que se têm na conta de pastores do povo. Não apenas com alguns. Com todos: Os párocos e os pre­sidentes de junta ou de câmara; os empresários e os caciques das aldeias; os pastores das novas Igrejas com sota­que brasileiro e os reitores de santuá­rios de nomeada; os bispos residenci­ais e os deputados da nação; os chefes de governo e os chefes de estado; os ministros e os juízes; os banqueiros e os generais; os papas e os senhores do Império. Numa palavra, todos. Inclu­sive, aqueles aparentemente mais insi­gnificantes que aqui não nomeei, para não tornar demasiado extensa a lista, mas que também se têm na conta de pastores do povo e se comportam como tal.

Jesus explica a razão da sua adver­tência: Todos os que se têm na conta de pastores do povo são ladrões e ban­didos que estão aí apenas para roubar, matar e destruir. Tal e qual.

É claro que os que se têm na conta de pastores do povo também são capa­zes, de quando em vez, de fingir que são boas pessoas. E a prova é que to­dos são permeáveis a cunhas, quando as cunhas trazem a assinatura de um maior que eles; todos distribuem favo­res a troco de votos ou de aplausos; todos dão bodos a famílias pobres, de preferência às famílias pobres da sua cor partidária, por ocasião do natal e em ano de campanhas eleitorais. E to­dos fazem muitas outras coisas do gé­nero que, desde o princípio da Huma­ni­dade, estão inscritas no catecismo da caridadezinha. Mas o que aqueles que se têm na conta de pastores do povo nun­ca fazem é acabar de vez com os privilégios com que sempre se fazem rodear. Pelo contrário, aumentam-nos de ano para ano, de geração para ge­ra­ção.

E o povo? Será que ao menos o po­vo escutou a advertência de Jesus e tem tido cuidado com aqueles que se têm na conta de pastores do povo?

Revela a História, para nossa ver­gonha, que o povo pode ter começado por simpatizar com Jesus e por admirar a sua lucidez e a sua coragem. Mas não mais do que isso. Quando percebeu que ser povo sem pastores a governá-lo, a roubá-lo, a matá-lo e a destruí-lo, exigia que ele se desenvolvesse e che­gasse à maioridade cívica e política, e à liberdade que o tornaria capaz de cuidar de si próprio, assustou-se e cor­reu a jurar submissão e subserviência aos que se têm na conta de pastores do povo. E quanto a esse tal de Jesus, o povo nunca mais quis nada com ele. Acabou até por exigir que aqueles que se têm na conta de pastores do povo o matassem em seu nome e em nome de Deus e, assim, o declarassem mal­di­to para todo o sempre. Uma decisão tre­menda, que aqueles que se têm na conta de pastores do povo logo execu­taram de bom grado. Mas à sua manei­ra bem astuta e cínica.

Ao perceberem, no seu desespero, que jamais poderiam pôr uma pedra so­bre o túmulo dele, promoveram-no então à categoria de deus e atribuí­ram-lhe o título e o posto de pastor dos pastores do povo. À sombra do qual, des­­­de então, todos eles têm podido con­ti­nuar a roubar, matar e destruir, sem que ninguém lhes vá à mão.

Foi deste Evangelho que me lem­brei, ao ler as “Confissões” do Arman­do, director do “nosso” ARRIFANA, aqui, em boa hora, compiladas em livro. Alegro-me com a sua lucidez. Vibro com a sua palavra cortante como espada de dois gumes. E estou disposto a pro­clamar estas suas “Confissões” sobre os telhados.

Mas também chorei, ao lê-las. Por­que elas vêm-me dizer que o povo con­tinua ainda incapaz de ser povo sem pastores. Continua preguiçoso. Infantili­za­do. Ingénuo. Analfabeto. Mergulhado em comportamentos de massa. Conti­nua a ser rebanho que corre para tudo quanto é santuário de deusas e de deu­ses, de santas e de santos, de nossas senhoras e de nossos senhores. Sem audácia para se assumir como povo com o Espírito Criador e Libertador de Deus dentro dele. Numa palavra, sem audácia para ser povo adulto, autóno­mo, sujeito, político, cidadão, livre, responsável, senhor dos próprios destinos.

Mas não posso nem quero concluir este Prefácio, sem juntar às “Confis­sões” do Armando também a minha pró­pria: Confesso que aqueles que se têm na conta de pastores do povo têm agora razões de sobra para passarem a viver à beira de um ataque de nervos. Porque um livro como este revela que o povo está bastante mais perto de se atrever a ser povo sem pastores!

Obrigado, Armando. Parabém!


Os sarilhos em que o Papa se meteu

Por ocasião dos sarilhos em que o papa Bento XVI se meteu, Jornal Fraternizar foi espreitar a página pessoal do Pe. Mário. Clicou no Diário Aberto de Setembro e deparou com a reflexão teológico-pastoral que se segue. O texto tem a data de 18 de Setembro.

Temo bem que certos líderes mu­çul­manos fanáticos ainda venham a fazer do mais que inábil papa Bento XVI um mártir desta esclerosa Igreja ca­tólica romana que hoje temos. O que, diga-se de passagem, a acontecer, con­substanciaria uma vergonha para todos os povos do mundo. Infelizmente, é o que, no mínimo, podem acabar por conseguir a intolerância e o ódio assas­sino com que um significativo número desses líderes muçulmanos continua aí a reagir ao despretensioso discurso, em forma de aula (olhem que nem se­quer foi uma encíclica, senhoras, se­nho­res!), que o papa proferiu na Ale­manha, durante a sua recente visita àquele país, que é simultaneamente a sua pátria/mátria.

Por mim, tenho de reconhecer que as palavras do papa, desta vez, até fo­ram objectivamente sensatas e neces­sá­rias. Saúdo o seu acerto, porventura, meramente casual, senão mesmo invo­luntário, mas, ainda assim, acerto. Po­rém, já tenho a lamentar que o mesmo papa, perante a mais que previsível e intempestiva reacção de certos líderes muçulmanos às suas palavras, apareça agora a meter os pés pelas mãos, em lu­gar de, com humildade e também com firmeza, aproveitar o momento para ape­lar à lucidez e à coragem de todos os muçulmanos, de todos os católicos e de todos os judeus, bem como de to­dos os demais homens/mulheres de boa vontade do nosso mundo, para, em conjunto, nos vermos ao espelho do que estão a ser, hoje, as nossas per­ver­sas e terroristas práticas económico-financeiras e políticas, tanto no Ociden­te como no Oriente, tanto no Norte co­mo no Sul, as quais deixam na miséria ou à beira dela cerca de cinco das seis partes que perfazem hoje o total da po­pulação mundial, estimada em mais de seis mil milhões de pessoas.

Não vale correr a meter o rabo en­tre as pernas e desperdiçar assim este Momento de graça ou kairos, depois de efectivamente se ter acabado, vo­lens/nolens [por querer ou sem querer], de protagonizar o louvável e salutar ser­viço profético de cão de guarda que se tem o dever de, oportuna e inoportu­na­mente, chamar a atenção da Huma­ni­dade para o perigo em que toda ela vive, quando é manifesto que, duma ma­neira geral, a Igreja católica no seu todo e o papa em particular têm quase sempre optado por ficar na cómoda e cúmplice postura de cães mudos!

Nunca é demais sublinhar, nesta conturbada hora, que as palavras do papa foram proferidas no ambiente du­ma universidade alemã e para gente que a frequenta; não numa praça pú­blica e perante milhares ou milhões de pes­soas de diversas nações, muito me­nos, num documento oficial do papado. Tais palavras nem chegaram pratica­men­te a ser notícia nos grandes media do dia seguinte. Apenas o foram, pe­ran­te a reacção dos tais líderes muçul­manos fanáticos que, a propósito e a des­propósito, querem encontrar pretex­tos para desencadearem novos e san­grentos ataques contra populações in­de­fesas do Ocidente, esquecidos de que, afinal, também elas são vítimas, jun­tamente com a generalidade dos po­vos muçulmanos e demais povos do mun­do, das grandes transnacionais que hoje nenhum governo no planeta consegue controlar a sério.

Trata-se, para cúmulo duma reac­ção que vai muito para lá da possível “ofensa” do papa aos povos muçul­manos, pois não se limita, como já re­comendava a velha lei de Talião, a pro­ferir um discurso contra o discurso do papa, pelo contrário, incita os muçul­manos onde estiverem a passarem a vias de facto, com vinganças físicas, as mais cruéis.

A verdade é que as inesperadas palavras do papa puseram o dedo nu­ma ferida que está aí em carne viva (as reacções violentas às suas pala­vras só acabaram por confirmar que ele tem razão!), mas que a hipocrisia dos governantes das nações continua a levá-los a fechar os olhos a ela, e a pre­ferirem, em seu lugar, os inócuos dis­­cursos politicamente correctos, qu­an­do o que se lhes impõe são igual­mente lúcidas e corajosas denúncias so­bre os telhados, acompanhadas de lú­cidas e corajosas críticas e autocrí­ticas.

Concordo com Bento XVI que toda a violência organizada que mata a frio seres humanos indiscriminadamente, como se os seres humanos valessem ainda menos do que formigas, é uma vio­lência incompatível com a Fé num Deus Criador de seres humanos à sua ima­gem e semelhança, independente­men­te de qual o povo, se católico, se judeu ou muçulmano, que professa Fé nEle.

Semelhante acto corresponde, na prática, a uma inominável des-Criação que desonra e coloca fora da Humani­dade, tanto quem a concebe e decide rea­lizá-la, como quem se presta a exe­cutá-la no terreno. Mais. No ponto de desenvolvimento a que hoje a Evolução da vida já chegou, temos que proclamar urbi et orbi que a violência organizada que mata, a frio, seres humanos indis­cri­minadamente como eles se valessem ainda menos do que formigas, é tam­bém incompatível com a razão humana e com os seres humanos, enquanto tais.

Por isso, com a entrada da Huma­nidade no terceiro milénio do Cristia­nismo, os governos das nações já de­ve­riam ter proclamado, como patamar ético mínimo para todos os povos, que um ser da espécie humana que opta a frio pela violência assassina e indiscri­minada contra outros seres humanos e a realiza ou manda realizar, coloca-se, automaticamente, fora da condição de ser humano e passa a assumir a con­di­ção de monstro, que os seres hu­ma­nos, enquanto tais, deverão, não aba­ter, evidentemente, mas colocar em con­dições dignas que, de imediato, o inibam de poder prosseguir nos seus cri­mes de lesa-humanidade, ao mesmo tempo que providenciam para que pe­ri­tos em humanização, cuidem dele e o estimulem a percorrer os caminhos que o levem a tornar-se finalmente hu­ma­no com os demais e entre os demais seres humanos.

À luz do que acabo de escrever, não hesito em afirmar, por exemplo, que Bush, na sua qualidade de presi­dente dos EUA, colocou-se aberta­mente fora da Humanidade e passou à condição de monstro em forma hu­mana, quando avançou no terreno com a Guerra no Iraque. Mas não só ele. Também os que se declararam ao seu lado e correram a apoiar no terreno e com tropas a sua assassina decisão.

Infelizmente, a Humanidade não só ainda não foi capaz de dar um tal passo ético conjunto naquela direcção, como até faz questão de se comportar como se, objectivamente, não estivéssemos perante um crime inominável. Mas estamos. E é por isso que hoje nos ve­mos todas, todos à beira de podermos vir a protagonizar, pela primeira vez na História, o acto de des-Criação dos seres humanos, tais como hoje nos co­nhe­cemos. Porque a violência assassina e indiscriminada contra seres humanos gera mais violência assassina e indis­criminada, numa espiral que dificilmen­te terá recuo. E aqui reside o mais dra­mático do nosso tempo.

Quando a Evolução, no seu curso ao longo da História, acaba de alcan­çar o seu ponto mais alto, ao tornar-se, pela primeira vez, em nós, seres hu­manos do terceiro milénio, Humani­dade consciente da própria Evolução, e também pela primeira vez, acaba de se auto-dotar de sofisticados meios técnicos com os quais pode levar a Evolução da vida a plenitudes impensá­veis até há poucos anos atrás, ou então a obstruí-la e a fazê-la regressar ao Caos inicial, não podemos de maneira nenhuma enterrar a cabeça na areia, ou assobiar para o lado. Temos que agir sem demora. Deixar correr é correr o sério risco de deitarmos tudo a perder e fazermos fracassar a Evolução.

É este o ponto em que estamos hoje como Humanidade. Ou pilotamos responsavelmente a Nave em que so­mos e existimos, e chegaremos a ser o que estamos chamados a ser – hu­manos e irmãos universais, em femi­ni­no e masculino e em radical igualda­de – ou continuamos a deixar correr como se não fosse nada connosco, e en­tão muito provavelmente regredire­mos de humano a monstro. Até voltar­mos ao Caos, onde tudo começou. Nes­te caso, só não regressaremos ao Nada definitivo, porque a Evolução em que um dia acontecemos como seres hu­manos conscientes e criadores, con­­tinua aí, apesar de tudo, misterio­sa­­mente animada pelo Espírito Criador de Deus Vivo, Mãe/Pai de todos os po­vos por igual. O qual, ao fazer-nos acon­tecer na Evolução, por pura gra­ça, desde logo também nos salvou por pura graça. Para sempre!


5.º Simpósio do Clero de Portugal

Como vêem os padres e os bispos portugueses os seus concidadãos? A julgar pelo teor das conclusões do 5.º Simpósio do Clero de Portugal não se pode dizer que têm um olhar positivo e esperançoso. Bem pelo contrário. Ora leiam.

“A interpretação da nova situação religiosa e cultural em que o sacerdote é chamado a realizar o seu ministério e vocação, caracterizada pelo indivi­dua­lismo pós moderno de um homem di­lacerado pela ruptura entre a cultu­ra e a fé e confundido pela mudança de alguns paradigmas de pensamento [itálico e negrito JF], desafiou os pre­sen­tes [mais de 400 padres e 30 bis­pos] a viver o contraponto da comu­nhão, anunciando aos filhos da moder­ni­dade a referência central da verdade do homem, Jesus Cristo."

Perante um "homem" assim radio­gra­fado pela negativa (infelizmente, e como se vê por este exemplo, a lingua­gem clerical continua muito pouco in­clusiva; fala pre­ferencialmente de "ho­mem", quan­do são as mulheres quem mais cultos "conso­me" e quem garante a quase to­ta­lida­de da catequese de cri­anças/ado­les­cen­­tes), a "conversão" que o Simpósio pede aos padres portu­gue­ses mais parece música ce­lestial, se pensarmos que a esmaga­dora maio­ria do clero, devido à idade e ao núme­ro de paróquias a seu cuidado, já nem de "bombeiro" consegue fazer bem. Vejam:

"Destacou-se a necessidade de re­de­finir e reafirmar uma identidade pres­bi­teral eucarística, aquela que re­sulta da intimidade com Jesus Cristo e da solidariedade com os irmãos. Foi solicitada uma maior visibilidade públi­ca do presbítero no meio do mundo, on­­de leve a cabo a missão da profecia e da simpatia por esse mundo. Urge, ainda, rever a própria pregação para que esta seja significativa e verdadeira proposta de sentido."

Como se vê, o teor deste ponto do Comunicado é mais do que oportuno, mas onde estão os padres e os bispos portugueses que consigam praticar o que aqui lhes é sugerido/proposto?

Rezam os factos que as homilias das missas andam pelas ruas da amar­gura, as celebrações são rotineiras e a despachar. Um desastre que se re­pe­te todos os domingos. Decididamente, este modelo de Igreja está esgotado. E este modelo de ministério presbiteral também! Só não vê quem não quer ver.

In Diário Aberto, www.padremariodemacieira.com.sapo.pt

Foram mais de 400 os padres portugueses

que por estes dias estiveram em simpósio

num dos grandes edifícios eclesiásticos em

Fátima – o local religioso mais idolátrico do

país. Reflectiram e debateram temáticas que

não dizem nada ao país e por isso o país não

quis saber deles para nada nem do simpósio.

São presbíteros ordenados da Igreja que

está em Portugal. Deviam ser um dom de

Deus Vivo entre o povo e são funcionários

eclesiásticos. Deviam comportar-se como cães

de guarda e comportam-se como cães mudos.

Deviam ser profetas e são sacerdotes. Deviam

dar o Evangelho aos pobres e dão-lhes ópio.

Durante os séculos passados foram muitos

os adolescentes e os jovens que percorreram

os caminhos eclesiásticos que iam desaguar

ao sacerdócio. Os seminários inventados pelo

Concílio de Trento foram instituições contra

natura destinadas a transformar generosidades

humanas em subserviências perante o Poder.

Tudo começou por tirarem aos adolescentes

a própria família. Teriam de crescer sem afectos

e sem sexualidade aqueles que um dia iriam

servir como eunucos no altar. Durante 12 anos

controlaram-lhes todos os passos e conversas

até que eles se tornaram homens só de Deus.

Mas de um Deus com tudo de ídolo e de monstro.

Também eu um dia me encontrei a percorrer

os caminhos que levavam da casinha dos meus

pais ao grande seminário de Ermesinde. Queria

ser padre e por então não havia outro modo de

responder ao misterioso apelo que me trazia

em sobressalto. Avancei como os demais. Mas

para ser diferente dos demais. E assim sucedeu.

Ordenou-me a Igreja do Porto no final dos 12

anos de seminário. Pensei que era sacerdote

e até me apropriei então daquela frase da carta

aos hebreus Sacerdote para sempre. Depressa

me dei conta que o Sacramento da Ordem me

assinalou para Evangelizar os pobres e não

para oficiar num altar dentro dos templos.

O presbítero que sou desde então desalojou

o sacerdote que eu pensava ser. E bem cedo

eu me via a vestir à civil e a trabalhar como

jornalista profissional a fim de não ficar pesado

a ninguém. Passei a viver os afectos com a força

da gratuidade. E é a ternura que me faz como

um menino-companheiro de todas as vítimas.

Conheci as cadeias políticas por duas vezes

e outras tantas tive de ir ao Tribunal Plenário

do Porto testemunhar a verdade do Evangelho

e denunciar a Mentira que mantém a Verdade

cativa na injustiça. Perdi por via disso o ofício

pastoral e passei a viver longe dos templos e

dos altares. Na companhia de Jesus e de ateus.


LIVROS DO TRIMESTRE

Editorial Trotta / Hans Küng

O ISLÃO

História, Presente, Futuro

Certamente, nem o autor sonhava que este seu livro iria ser tão oportuno. A toda a hora, os grandes media nos falam do Islão e dos seus fiéis, quase sempre pela pior razão. Por mais que digam o contrário os líderes moderados que vivem em países do Ocidente, ou que mantêm relações de proximidade com o Ocidente, a verdade é que as populações em geral a ideia que têm do Islão é que ele manda fazer a guerra santa e matar indiscriminadamente os considerados inimigos da fé em Alá. O Alcorão bem proclama que Alá é grande e que Maomé é o seu profeta. Mas maior que Alá parece ser o ódio dos fundamentalistas islâmicos. Para desgraça deles e de toda a Humanidade. Este livro de mais de 800 páginas vem na hora certa. Corram por ele.

"Este livro - adverte o autor que é uma sumidade na matéria - não o es­crevo como historiador da cultura, nem da religião, nem da política, nem do di­reito. Escrevo-o para capacitar as pesso­as para o diálogo nesta decisiva fase de transição para uma nova relação en­tre as culturas, religiões e nações, para ajudá-las a perceber o mundo em que vi­ve­mos, de modo que - quer se trate de cristãos, muçulmanos ou laicistas, po­líticos, líderes empresariais ou cre­dores de cultura, professores, páro­cos ou estudantes; numa palavra, qual­quer que busque orientação - pos­sam julgar melhor a situação mundial, que é impossível com­preender à mar­­gem das gran­des religiões, e re­agir a ela em con­se­quência."

O autor que já se ocupou das outras duas grandes religiões monoteístas, o Cristianismo e o Judaísmo, confessa que os "qua­tor­ze séculos do Islão não são mais fáceis de apresentar que os trinta sé­culos do Judaísmo e os vinte séculos do Cristianismo".

No decorrer dos capítulos, cada qual o mais apaixonante, o autor inter­rom­pe com frequência a narrativa "pa­ra perguntar criticamente - olhando por um lado as origens e, por outro lado, o futuro - pelo resultado das mu­dan­ças que, a pretexto do apareci­mento desta ou daquela constelação paradigmática, o Islão experimentou." São "perguntas com o fim de clarificar" e "perguntas para provocar a discus­são".

No epílogo, o autor levanta a ques­tão decisiva com que, em sua opinião, o Islão contemporâneo está de­veras confrontado: Se em algum dos países islâmicos-chave haverá a margem de liberdade necessária para vincular a sub­stância do Islão com os desafios do século XXI? Esta é uma questão "de natureza tanto política como teo­lógica". E embo­ra o autor reconheça que não é fácil prever o que irá acon­tecer, opta pela es­perança. Os fiéis do Islão saberão ser dignos do núcleo central da sua fé e nascerão de novo, não da letra, mas do Espírito.

Nueva Utopia / Cármen e Alonso

ANTICATECISMO

Diálogo de insubmissos

São apenas 168 páginas, no total. E a sua leitura não é fácil, mas seria bom que toda a gente a fizesse. A temática distribui-se em quatro capítulos - enigmas sem resposta; racionalidade; estética; sinais de intersubjectividade - e é apresentada sob a forma de perguntas e respostas, exactamente, 42 perguntas e outras tantas respostas. A "doutrina" deste Anticatecismo está tão condensada, que é preciso ler o livro sem pressa e mais do que uma vez. O proveito espiritual é imenso.

Diga-se também que os autores, totalmente desconhecidos entre nós, apesar de ibéricos, são um casal, já com mais de 40 anos de vida em co­mum. Assumem-se como cristãos críti­cos, preocupados pela justiça so­cial. No passado, militaram em organi­za­ções anti-franquistas. Ambos são eco­nomistas de profissão.

O método a que recorreram é o so­crático, sem dúvida, o mais adequa­do para quem está empenhado num diá­logo de insubmissos. Só por isso, a obra a que deitaram mãos é valiosís­si­ma, se pensarmos que os catecismos que as Igrejas produziram e continuam a produzir têm muito de dogmático e de ideológico. Partem do pressuposto de que já possuem a verdade toda e es­forçam-se por a transmitir aos de­mais, como se estes fossem seres va­zios, sem experiên­cias que geram co­nhecimento e sa­be­doria. É por isso que tais catecismos eclesiásticos con­tri­buíram para fa­zer cristãs, cristãos submissos, apá­ticos, sem espírito crítico, atentos e reverentes, sobre­tu­do aos clérigos de topo. Nada dis­so se passa nesta obra, oportuna­men­te titulada de Anticatecismo, que é como quem diz, o autêntico Catecismo que a humani­da­de de hoje carece.

O livro joga com os dados últimos da Ciência sobre a origem da vida em geral e da vida humana em especial. Por isso a leitura pode tornar-se com­plexa, se formos analfabetos nessas dimensões da Ciência. Mais uma razão para mergulharmos nas suas páginas.

De entre todas as perguntas e res­postas, a nossa atenção estremece de emoção, quando, depois de ler a per­gunta 13: "Como interpretar factos co­nhecidos através de uns relatos em que os protagonistas estão à beira de ser fós­seis históricos?", depara, mais à frente, com a respectiva resposta.

"No paradigma cristão, o Mestre es­tético, hoje mais do que ético, é Jesus da Palestina, porém a originalidade pa­ra as gerações posteriores de discípu­los é que quando desaparece do tem­po, por sua execução num patíbulo, os seus seguidores «Têm necessidade de ressuscitar o seu líder carismático para prosseguirem com o iniciado".

Estas palavras são apenas o come­ço da resposta. Mas suficientemente "explo­sivas" para percebermos que estamos perante uma outra maneira de abordar o Jesus histórico e o Cristianismo. Uma coisa fica: se quisermos ser de Jesus, havemos de ser tão insubmissos quan­to ele!

Editorial Trotta

O EVANGELHO DE JUDAS

Edição e comentário de Francisco G. Bazán

"O Evangelho de Judas faz parte duma série de evangelhos gnósticos", informa o estudo preliminar com que abre o livro. "O seu título e conteúdo coincidem com o que Ireneu, o Pseudo-Tertuliano e Epifânio mencionam como «O Evangelho de Judas» dos gnósticos cainitas, grupo que gozava de péssima reputação entre os mencionados autores eclesiásticos."

Mais informa o estudo preliminar que "os cainitas alinhavam por aquela tendência de interpretação gnóstica que, apoiando-se em exegeses visíveis na haggadah rabínica, convertiam algu­mas figuras da Bíblia duma posição de vilãs à condição de heróis. Era o caso dos ofitas (do grego óphis) ou naase­nos (do hebreu nâhâs), que renderam culto à serpente - habitual represen­tan­te do mal e da tentação - como reve­la­dora do conhecimento; os sodomitas, ao considerar que Sodoma e Gomorra foram lugares privilegiados destruídos pelo Deus deste mundo por ser a sede dos setianos, a cadeia de transmissores da Luz , e os execrados cainitas, que fun­dando-se na leitura das primeiras li­nhas do capítulo 4 do livro do Génesis, observavam uma descomunal incoerên­cia na conduta do Deus criador, que havia expulso Adão e Eva do Paraíso, depois da sua falta, e que olhava com maus olhos para as oferendas do pri­mogénito Caim e com agrado para as de Abel. Histórias absurdas para estes crentes, que se re­pe­tem com Esaú e Ja­cob, com Lia e Ra­quel, e que conti­nu­am a reproduzir-se noutros relatos".

Para estes cren­tes gnósticos, um Deus assim que se colocava do lado do humilde e abatia de modo implacável o forte, só podia ser um Deus ignorante. Por cima dele, dizi­am, "devia existir ou­tra divindade real­men­te sábia e amo­ro­sa, cuja justiça su­perava a do autor da criação."

Foi extensa esta citação do estudo preliminar ao Evangelho de Judas, mas impunha-se aqui, para nos ajudar a per­ceber a "reabilitação" que esse Evan­gelho tardio, nascido nesses am­bi­entes gnósticos, faz questão de congeminar e anunciar.

Tivessem os grandes media for­necido estes dados às pessoas a quem habitualmente se dirigem e, certamen­te, já não teria havido lugar para os tí­tulos sensacionalistas com que anun­ciaram o aparecimento do Evangelho de Judas.

Por isso, vale perguntar se os gran­des media estão interessados em informar, ou se apenas estão interessa­dos em vender informação, para obte­rem fabulosos lucros em troca.

Neste último caso, interessou-lhes mais o escândalo à volta de um novo Evangelho que punha em causa a men­sagem dos Evangelhos canónicos do Novo Testamento, do que a verdade objectiva e histórica. Porque o escân­dalo e o sensacionalismo vendem, ao passo que a verdade faz-nos livres, pessoas com consciência crítica e ilustrada. O que não convém a quem trabalha nas trevas e faz das trevas o seu ambiente preferido. Por isso, os poderosos odeiam tanto a Luz.

Aletheia Editores / Vários autores

O Padre Américo e a Obra da Rua

Introdução, recolha de textos e de ilustrações Helena de Sousa Pereira.

Coordenação José da Cruz Santos. Direcção gráfica Armando Alves

A principal originalidade do livro reside no conjunto de testemunhos sobre o Pe. Américo, 26 no total, escritos por pessoas das mais diversas sensibilidades e tendências. Em boa hora, houve quem metesse mãos à obra. Não tanto pelo Pe. Américo que dispensa bem todas as homenagens que lhe queiramos prestar. Mas por nós, mulheres e homens do século XXI que, nem por já termos entrado no terceiro milénio do Cristianismo, ainda não fomos capazes de criar uma sociedade verdadeiramente humana da qual tenham desaparecido, por desnecessãrias, casas como as Casas do Gaiato. É, evidentemente, um livro a não perder por nada deste mundo.

Embora certa comunicação social  dita de referência sempre o escondes­se, entre os testemunhos que aparecem no livro, também consta o do Pe. Mário, director deste Jornal. Como terão opor­tunidade de constatar, se lerem o livro, é um dos mais contundentes pela posi­tiva. Talvez por isso, houve interesse em silenciá-lo nas recensões feitas ao livro.

São estes os nomes das pessoas que assinam teste­mu­nhos neste livro e pela ordem em que aparecem: D. Januário Torgal Men­des Ferreira, Bispo das Forças Armadas e Forças de Segurança; Al­ba­no Martins, Escri­tor; Alfredo Marga­ri­do, Escritor; Almor Viegas, Economis­ta; António Rebor­dão Navarro, Escri­tor; Diogo Freitas do Amaral, Ministro dos Negócios Es­tran­geiros; Fernan­do Mário Teixeira de Almeida, Econo­mista; Flávio Ferreira, Juiz Conselheiro; Germano Silva, Jornalista; Gil Moreira dos Santos, Advogado; Ilda Figueiredo, Deputada ao Parlamento Europeu; Jo­ão Bigotte Chorão, Escritor; Jorge Jar­dim Gonçalves, Engenheiro, Presidente do Conselho Superior do Millenium BCP; José Carlos de Vasconcelos, Es­critor; José Viale Moutinho, Escritor; Ma­noel de Oliveira, Cineasta; Manuel Pinto Teixeira, Jornalista,Professor Uni­versitário; Manuela Eanes, Presidente do Instituto de Apoio à Criança; Marcelo Rebelo de Sousa, Professor Universitá­rio; Maria Helena da Rocha Pererira, Professora Universitária; Mário Cláudio, Escritor; Padre Mário de Oliveira, Jorna­lista; Matilde Rosa Araújo, Escritora; Nuno Grande, Professor Universitário; Rui Osório, Jornalista; Urbano Tavares Rodrigues, Escritor.

São do Padre Carlos Galamba, do Gaiato, as palavras de abertura e apre­sentação do livro. Mas o que mais choca no livro é aquele momento que vem re­la­tado na biografia, quando o Bispo do Porto de então achou que o Américo de Aguiar não era digno de cursar teo­lo­gia e de ser ordenado padre!...

Nueva Utopia / Raul Lugo Rodríguez

A Igreja católica

e a homossexualidade

O autor é padre católico, desde 1982. É licenciado em Sagradas Escrituras pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma e perito em Ciências Bíblico-Orientais, pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém. Presentemente, integra uma comunidade de presbíteros que compartem a vida e os trabalhos dos camponeses maias de Yucatán. O livro que nos oferece é o que se poderia chamar, com bastante propriedade, o Evangelho dos homossexuais e das lésbicas. A não perder.

O livro tem 128 páginas. Mas o autor entendeu juntar-lhe uns onze ane­xos a propósito da temática em cau­sa, qual deles o mais oportuno. Deste mo­do, as páginas sobem até 223.

A abrir, o autor apresenta uma mão cheia de casos concretos, à guisa de introdução. "Comecei a dar-me conta que a minha filha tinha uma relação «es­pecial» com a sua amiga, quando o meu marido me advertiu porque não lhe prestava mais atenção. «Em todo o bairro corre o diz-se-diz-se que a tua filha é lésbia», disse-me. Decidi então falar com ela. Logo que se apercebeu que o meu interesse era escutá-la e não julgá-la, tivemos uma conversa verda­dei­ramente cordial. Mas eu sou muito católica e quis saber a opinião de um sacerdote. Quando fui falar com o padre Fu­­lano, ele disse-me que tinha que expulsar a minha filha de casa, se ela não abando­nas­se aquela re­la­ção. De contrá­rio, eu própria tam­bém carregava com esse pecado. Mas como vou eu expulsar a minha filha de casa, pa­dre!? A quantas coisas poderia eu expô-la, pois se tem apenas 23 anos! Além disso, conheço bem a sua companheira e é uma rapariga com um coração de ouro. Por isso decidi desobedecer à Igreja. E a minha filha continua em minha casa. É minha filha e tem todo o meu apoio."

Perante confissões destas, logo a abrir o livro, não é de estranhar que o autor o termine com uma extensa con­fis­são pública. A sua própria. "Eu, pecador e presbítero, peço perdão aos meus ir­mãos e irmãs, em meu nome, em nome de outros muitos presbíteros e em nome da Igreja Católica de que sou membro desde o meu baptismo. Peço perdão por­que não soube apreciar o dom do corpo e da sexualidade, porque censu­rei o prazer e considerei-o coisa suja, inferior e desprezível, porque preferi se­guir Agostinho de Hipona em lugar de fixar a minha atenção em Jesus de Nazaré."

Este é apenas o primeiro ponto da confissão que prossegue em muitos ou­tros. Por aqui se pode ver quanto o li­vro é valioso, oportuno e libertador.

O autor não foge à questão dos tex­tos bíblicos que parecem condenar a homossexualidade. Desmonta a exe­gese vaticana. E afirma que a dou­trina da Igreja, neste ponto, não pode ser res­peitada e seguida. Parabéns, autor!


ÚLTIMA PÁGINA

29 de Outubro, S. Pedro da Cova

7.º Encontro de espiritualidade

"Evangelhos da infân­­cia de Jesus (Mt 1-2; Lc 1-2): Que tipo de Messia­nis­mo e de Messias/Cristo nos apre­sen­tam?" É este o tema, mais do que escal­dan­te e oportu­no, que es­ta­rá em debate du­rante o 7.º Encontro de Es­pirituali­dade com o ateís­mo e a ido­latria generaliza­dos em fundo.

A iniciativa tem lugar dia 29 deste mês de Outu­bro,entre as 10 h e as 17h, na casa-sede da As­so­cia­ção Padre Ma­ximino/Jor­nal Fraterni­zar e é aberta a quem qui­ser participar. O que se pe­­de às pessoas que deci­direm aparecer é que, se pos­sível, façam tra­ba­lho de casa, isto é, pre­pa­rem-se pa­ra intervir no de­bate. E o façam com pa­la­vras car­­re­ga­das de So­pro ou Es­pírito de Jesus res­­sus­cita­do.

O "prato forte" do de­ba­­te é da parte da manhã. Segue-se o almoço parti­lha­­do em for­ma de Euca­ris­tia, conse­gui­do com os alimentos que cada pessoa levar para a Me­sa comum. A Associação ofe­rece uma sopa de legu­mes a abrir. A tarde é de par­tilha de no­tícias dos gru­pos e Co­mu­nidades, poemas e can­tos, se possível originais.


A opinião de

LEONARDO BOFF

O mau exemplo do Papa

A atitude do Papa Bento XVI está a provocar justificadas iras entre as comunidades islâmicas, por causa da infeliz citação de um imperador bizantino do século XIV, segundo o qual “Maomé defendia coisas más e desumanas, como sua ordem de difundir a fé pela espada”. Mas também causou escândalo e vergonha para os cristãos.

A citação é totalmente inoportuna. Sabe muito bem o Papa do enfrentamento ora existente entre o Islão e o Ocidente que faz guerra ao Afeganistão e ao Iraque, e que abertamente apoia a causa israelense contra os palestinianos, de maioria islâmica. Nesse contexto a citação alinha o Papa às estratégias bélicas do Ocidente. Como não se irritar contra esta atitude?

Para nós cristãos, a atitude do Papa deixa-nos perplexos, porque é da essência da fé cristã perdoar e rezar como o pobrezinho de Assis: ”Onde há ofensa, que eu leve o perdão”. Não querendo perdoar, o Papa legitima todos aqueles que não querem pedir perdão nem na vida quotidiana, nem aos negros que escravizámos por séculos, nem aos sobreviventes dos indígenas que dizimámos. Se o Papa não faz oficialmente um acto de desculpa, dá-nos um mau exemplo. Não cumpre o mandato do Senhor de “confirmar os irmãos e as irmãs na fé”. Mas este seu gesto não é isolado. Como Cardeal, opôs-se à entrada da Turquia na Comunidade Europeia, pelo simples facto de ela ser maioritariamente muçulmana. Há pouco tempo suprimiu no Vaticano a instância que promovia o diálogo Cristianismo-Islamismo. No documento Dominus Jesus de sua autoria de 15 de Setembro de 2000, um dos textos mais fundamentalistas dos últimos séculos, afirma que “a única religião verdadeira é a Igreja Romana Católica” e que “os seguidores de outras religiões objectivamente encontram-se, com referência à salvação, numa situação gravemente deficitária”. Não faz sentido encontros com outras religiões, porque “é contrário à fé católica considerar a Igreja como uma via de salvação ao lado de outras”. Neste transfundo, não causa estranheza o seu discurso na Universidade de Ratisbona. Mesmo assim, não seria mais digno ao Papa pedir claramente perdão pelas incompreensões que provocou mesmo involuntariamente? Porque não o faz?

Para o entender, é preciso compreender a ideologia infalibilista que vigora no Vaticano e em geral na Igreja. Segundo ela, o Papa não pode errar, embora o dogma da infalibilidade seja muito restrito. Afirma que o Papa é somente infalível em situações bem delimitadas, gozando então, pessoalmente, daquela infalibilidade que é de toda a Igreja. Mas a ideologia infalibilista atribui de forma ilegítima infalibilidade a todas palavras do Papa. Se ele pedir perdão, confessa que errou, o que não é permitido pelo infalibilismo.

Funciona na cabeça do Papa Bento XVI o despotismo papal formulado ainda em 1302 por Bonifácio VIII que rezava: ”Para cada criatura humana é absolutamente necessário para sua salvação estar submetida ao Papa em Roma”. Isso não foi abolido sequer pelo Concílio Vaticano II em 1964. Foi introduzida nos textos uma “Nota explicativa prévia” onde se reafirma que o Papa pode sempre agir “segundo seu parecer pessoal”, como nomear bispos, estabelecer normas e políticas eclesiásticas. Por outras palavras: Um Papa pode autonomamente decidir tudo; um bilião de católicos juntos não pode decidir nada. Esse absolutismo faz-nos entender as razões do Papa em não pedir perdão.


A alegria de ser silidária/o

A Associação Cultural e Recreativa AS FORMIGAS DE MACIEIRA dispõe ainda de bastantes exemplares da 2.ª edição do livro Na companhia de Jesus e de Ateus (oferta do Pe. Mário) e do DVD-Concerto com José Mário Branco, Tino Flores e Francisco Fanhais, ao preço de 10 euros por unidade. O dinheiro reverte a favor da construção do Barracão de Cultura. Vá por eles, lá. Aproveita e vê a construção em curso e sentirá a alegria de ser solidária/o. Se já os adquiriu, mas quiser partilhar algum do seu dinheiro para a construção, pode fazê-lo na CGD. É este o NIB da conta da Associação: 003503090003991793035



Início Livros Publicados Diário Dados Biográficos

e-mail de contacto
© Página criada 5 de Outubro de 2006