Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 162, de Julho/Setembro 2006 (Continuação)

DOCUMENTO

Um morto sem sepulcro

Por Xabier Pikaza (Teólogo ibérico)

Ao contrário dos fundadores de religiões, Jesus, o de Nazaré, acabou como um maldito. E o seu cadáver pode ter tido como destino a vala comum. Em consequência, nem sequer teve direito a um sepulcro condigno. Os romanos do Império era assim que tratavam os subversivos que se lhes opunham. E Jesus não terá sido excepção, mas regra. Este, pelo menos, é o ponto de vista do teólogo ibérico, Xabier Pikaza, numa reflexão que ECLESALIA, de 8 de Maio, divulgou na íntegra. E que o Jornal Fraternizar tem a alegria de partilhar aqui com as suas leitoras, os seus leitores. Ninguém deixe de ler/debater/divulgar. Para que  se acabe de vez com tanto infantilismo e beatice em torno de. Saibam que ele não fundou uma nova religião. Tem sido morto por todas elas.

Na última Semana Santa, assisti na praça de touros de Lerma à cerimónia impressionante da Via-sacra viva, que termina com um forte foco de luz a fazer sobressair uma enorme roda branca de pedra que rodou sobre o túmulo onde, antes, não foram depositados os cadá­veres de Jesus e dos dois ladrões, en­ter­rados com ele. Ao mesmo tempo que a voz do narrador nos despedia, na noi­te fria castelhana, dizendo que, outro­ra, os crucificados foram enterrados a toda a pressa pelas autoridades, para evitar que a noite caísse sobre uns cor­pos descidos do madeiro e estendesse a maldição sobre uma terra que se apressava para celebrar a Páscoa. Qui­seram desse modo tapar e sepultar para sempre a vida dos crucificados, porém, não puderam.

Recordei nesse momento que uma grande parte das religiões são outras tantas formas de sacralizar os mortos, para os impedirem de viver. Costuma­mos lançar sobre os mortos uma lousa, enterramo-los bem, para que não saiam, para depois podermos continuar a viver como se nada se tivesse passado, até finalmente nos enterrarem também a nós ou nos queimarem num crematório, para que todos morramos e apenas pros­siga a história de violência assassi­na sobre o mundo.

Porém, Jesus e os dois que morre­ram com ele não acabaram assim: a eles não puderam metê-los num túmulo, para que não saíssem, pois que eles vi­vem, como indicarei com a invocação de alguns traços surpreendentes e go­zo­sos da tradição cristã.

O que ofereço aqui é apenas uma meditação, não um “dogma de fé”; é uma reflexão gozosa, não uma imposi­ção teológica. Outros cristãos verão as coisas de outra maneira. Eu vejo-as assim, é assim que elas me são úteis e estão em sintonia com grande parte da exegese actual. Não quero criticar ou­tras posições, apenas confessar aquela que, no meu entender, é mais coerente, mais conforme aos dados exegéticos e ao evangelho de Jesus, que é anún­cio de Vida, não resignação de morte. Por isso, ao contrário do que alguns pos­sam pensar, não nego a ressurrei­ção de Jesus, apenas procuro situá-la melhor, no seu lugar histórico, a partir da vala comum para onde são lançados os crucificados da história humana, e para afirmar deste modo a fé do evan­gelho.

1. Jesus, um Messias sem sepulcro.

Para os seus primeiros seguido­res, Jesus foi um morto sem sepulcro; a sua memória não esteve ligada a um mo­nu­mento funerário onde se guarda­ram e veneraram através dos séculos os seus ossos, como sucede com tan­tos monumentos que enchem ainda hoje o duro vale de Josafat (ou da Geh­enna), junto de Jerusalém. Nesse sentido, os cristãos começam a sua caminhada de fé com um “menos” (não têm nem sequer a consolação dum se­pul­cro). Porém, esse menos transfor­mou-se num grande “mais”: não têm um sepulcro de Jesus, porque “o têm a ele inteiro, animando-os a retomar o caminho do Reino.

Desde aí podemos entender me­lhor alguns textos centrais dos evan­gelhos nos quais Jesus condena­ a re­li­gião dos comerciantes religiosos com os mortos : “Deixa que os mortos enter­rem os mortos...” (Lc 9, 59-60); Mt 8, 21-22). “Ai de vós que edificais os se­pul­cros dos profetas...” (Lc 11, 47-48; Mt 23, 29-32). Jesus, que protesta contra os construtores violentos de se­pulcros, não comprou em Jerusalém uma parcela de terreno onde pudesse vir a ser enterrado, nem pôde desejar que depois da sua morte lhe construís­sem um sepulcro. Não morreu para dei­xar um monumento glorioso, mas para continuar a viver nos pobres que morrem e esperam/buscam o Reino de Deus.

2. A religião dos sepulcros caiados.

Como acabo de indicar, Jesus cri­ticou a religião dos “sepulcros caia­dos” (Mt 23, 27), própria daqueles que cons­troem sepulcros de luxo aos condena­dos (religião de morte) pelos seus ante­passados para, assim, poderem conti­nuar a assassinar os justos seus con­tem­porâneos (religião que mata).

Os que edificam sepulcros pensam que estão a honrar a memória dos mor­tos, porém o que fazem é outra coisa: no fundo, querem enterrar bem os as­sas­sinados, servindo-se da sua memó­ria para continuarem a impor a sua vio­lência (isto é, para continuarem a ma­tar os profetas seus contemporâ­neos).

O Evangelho de Mateus insistiu no tema, aplicando aos escribas e fariseus (que não são apenas judeus, também podem ser cristãos): “Com isto dais tes­temunho contra vós próprios de que sois filhos daqueles que mataram os pro­fetas. Vós, pois, acabai de encher a medida dos vossos pais!” (Mt 23, 31-32). Ao construir os monumentos dos mártires, dizendo que querem distan­ciar-se dos seus pais assassinos (que mataram os profetas), os filhos dos as­sassinos continuam a aprovar a vio­lência dos pais, vivendo dela. Temos necessidade de matar para assim nos mantermos nós ao comando.

Nesse sen­tido, a nossa própria es­tru­tura social acaba de revelar-se como culto da morte. Primeiro, matamos e de­pois (ou ao mesmo tempo) diviniza­mos ou sacralizamos os mortos, para assim nos justificarmos. Caminhamos sobre os cadáveres dos que matamos e en­ter­ra­mos. Assim disse Jesus. Por isso o mataram.

3. Não teve sepulcro digno, um “santo sepulcro”.

A tradição mais antiga é muito só­bria e diz apenas que Jesus “foi sepul­tado” (1Cor 15, 4), afirmando assim que morreu completamente. Alguns cristãos posteriores quiseram saber onde se en­contrava o seu sepulcro, supondo que deveria ser digno, como aqueles que os homens ricos de Jerusalém man­da­vam erguer para si próprios. Po­rém, contra essa possibilidade (de que Jesus tivesse tido um sepulcro digno), vem-se insistindo desde antigamente num argumento muito sólido: os roma­nos costumavam deixar que os conde­nados públicos permanecessem no pa­tí­­bulo, para escarmento público, ou então atiravam-nos para uma vala co­mum onde se corrompiam, sem cultos funerários, também para escarmento de outros possíveis criminosos.

Tendo isso em conta, são muitos os que hoje afirmam que Jesus não foi enterrado com dignidade, mas atirado pelos verdugos romanos para uma va­la comum, uma lixeira para condena­dos, à qual nenhum homem puro podia ter acesso, sem se contaminar. De todos os modos, conforme a tradição dos e­van­gelhos, é mais provável que o se­pul­tassem “os judeus”, isto é, as auto­ridades israelitas de Jerusalém, que pediram a Pilatos os corpos dos con­de­nados, pois, se os não enterrassem antes do cair da noite, esses corpos man­chariam a terra e corromperiam a cidade, coisa impensável durante a fes­ta da Páscoa (Jo 19, 31-37; Dt 21, 22-23).

Pa­rece que o livro dos Actos (13, 29) nos situa nessa mesma linha, quan­do afirma que “os judeus baixaram Je­sus da cruz e o sepultaram”. Teriam si­do eles, os judeus, os que sepultaram Jesus, com autorização de Pilatos (ou dos romanos), por razões de pureza ri­tual. Foi este o chamado “santo sepul­cro” de Jesus: os verdugos desceram-no da cruz e sepultaram-no, para que tudo pudesse seguir o seu curso, como se nada tivesse ocorrido.

4. Se analisarmos bem os textos, podemos traçar três possibilidades.

E todas estas três possibilidades encontram defensores entre os cientis­tas actuais, cristãos ou não cristãos: a) Os judeus pediram a Pilatos que man­dasse descer da cruz os três condena­dos, porém, foram os próprios romanos que os enterraram, em alguma vala co­mum destinada aos condenados, ali mesmo ao lado, ou um pouco mais lon­ge do local da execução, o chama­do Gólgota ou Lugar da Caveira (Mc 15, 22; Lc 23, 33). b) Os judeus pediram os cadáveres e eles próprios os sepul­taram à pressa, antes que chegasse o sá­bado pascal, por isso, sem unções nem cerimónias funerárias, numa vala co­mum de condenados e impuros, não no Gólgota, mas noutro lado, talvez no vale da Gehenna (lugar associado ao inferno). Neste caso, tal como no an­terior, os discípulos (as mulheres) po­de­riam ter visto de longe o “santo se­pul­cro”, porém não puderam participar, nem depois separar o cadáver de Jesus dos outros cadáveres, de modo que ficaram “sem corpo”. c) Não se pode igno­rar a hipótese de que Jesus tivesse um sepulcro digno, propriedade de Jo­sé de Arimateia, um “judeu justo”, que o enterrou num sepulcro “puro”, cavado na rocha, enquanto as mulheres ami­gas observavam de longe, sem se po­derem aproximar.

Sempre os cristãos tiveram que re­conhecer que não tinham sepultado Je­sus. Não tinham autoridade para isso! Mas puderam dizer que um judeu justo o sepultou e que eles (as mulheres) pu­­de­ram, ao menos, observar de longe. Mais ainda. Neste caso, os cristãos po­diam dizer que o sepulcro de Jesus foi um sepulcro limpo e puro, de um ho­mem muito rico (pois só os muito ricos tinham um sepulcro assim em Jerusa­lém). Porém, neste caso, levantam-se muitas perguntas. Porque seria “puro” um sepulcro novo e limpo, exclusivo de Jesus, enquanto que uma vala comum já seria “impura”? Evangelicamente, pelo menos, desde o evangelho da cruz, é mais pura uma vala comum (a lixeira dos condenados!) que o sepul­cro dos ricos.

Pessoalmente, penso que um se­pul­cro rico para um Jesus pobre, con­de­na­do como ele foi, é, pelo menos, muito problemático (para não dizer, con­traditório). É mais coerente pensar, do ponto de vista histórico e teológico, que Jesus morreu e foi sepultado como os pobres da história, na linha de Isaí­as 53, 9: “Foi sepultado com os ímpios”.

5. Não o encontraram no sepulcro.

Seja como for, a verdade é que a Jesus não o encontraram no sepulcro, ou porque o seu cadáver não podia ser separado dos outros cadáveres (hipó­tese da vala comum), ou porque o sepulcro onde presumivelmente o rico José de Arimateia o havia colocado foi encontrado vazio, por qualquer motivo. Num caso ou noutro, as mulheres, os amigos verdadeiros (os discípulos) não puderam encontrar o cadáver de Je­sus, não puderam embalsamá-lo e se­pultá-lo com dignidade e voltar depois lá cada semana, cada ano, a celebrar o aniversário da sua morte. O facto histórico é que Jesus acabou sem se­pul­cro próprio, mas morreu com ami­gos, talvez escondidos ao princípio, muito visíveis depois. Os primeiros cris­tãos foram um grupo de amigos sem cadáver, de sepultadores sem sepulcro, de lamentadores sem corpo presente diante do qual se lamentar.

Mas regressemos ao tema do se­pulcro. A exegese dos textos evangé­licos não nos oferece mais dados, de maneira que cada qual pode interpre­tá-los segundo o seu sentir. Pessoal­mente, sinto-me muito mais próximo da tradição de um enterro feito por judeus ou romanos: penso que uns ou outros (uns e outros?) arrojaram o cadáver de Jesus para uma vala comum, junta­mente com os outros dois condenados, uma vala comum onde estavam já a apodrecer muitos outros expulsos da vida, mortos sem honra, corpos sem bênçãos funerárias, sem monumentos honoríficos, como aqueles que Jesus condenou, quando entrava em Jerusa­lém e que ainda hoje podem ver-se na parte baixa do vale de Josafat, orgu­lhosamente à espera  da ressurreição final!!!

6. Jesus desceu ao inferno da sua própria morte

Não o enterraram com glória, ao toque da trombeta, elevando sobre o cadáver uma pirâmide de louvores ou escavando para ele um monumento sub­terrâneo. Não teve um funeral com chefes de estado e sacerdotes, com fi­las imensas de seguidores. Pelo contrá­rio, os seguidores estavam em grande parte escondidos, as mulheres amigas só podiam ver à distância. Sepultaram-no depressa, muito depressa, por puro ofício, uns soldados romanos ou os cria­dos dos sacerdotes.

A vida histórica de Jesus acabou onde tinha que acabar: na vala comum dos assassinados da história humana, ao lado dos milhares de expulsos, ex­comungados, ostracizados pela socie­da­de triunfante. Foi aí que o quiseram lançar juntamente com os outros dois crucificados com ele (talvez com a ajuda de um homem bom, chamado Jo­sé de Arimateia), para que os outros (os judeus e romanos triunfadores, nós próprios!) pudéssemos continuar a cele­brar a vida orgulhosa duma Páscoa de­di­cada ao Deus da vitória dos “bons”.

Pois bem, dessa maneira, Jesus desceu ao inferno da história humana, através duma vala comum, para dar vida aos mortos, segundo confessa es­tremecida a tradição cristã (o credo ro­mano).

7. Logicamente, não puderam encontrar o seu corpo.

Como separar o corpo de Jesus dos outros corpos dos condenados? Como distinguir a sua carne rasgada da carne rasgada e dos ossos duros dos milhares e milhares de homens e mulheres lançados à vala comum duma história que expulsa os mortos incó­modos? Por isso, as mulheres em Mar­cos 16, 1-8 puderam ver a sepultura onde puseram o seu cadáver (a vala comum), mas não puderam encontrar o seu corpo, nem embalsamá-lo com dignidade, nem levá-lo para casa, co­mo quis, em delírio de amor, Maria Ma­da­lena (Jo 20). Não pôde fazê-lo, simples­mente porque era impossível.

Porém, depressa descobriram que a razão era muito mais profunda, uma razão de Deus, razão de Vida e de Pás­coa: Não puderam encontrar Jesus, porque “ele não estava ali”, porque ele se encontrava vivo na Vida da mensa­gem que havia proclamado, na mais intensa travessia do caminho do Reino que havia iniciado e semeado na terra. Se o grão de trigo não morre... (Jo 12, 24).

Desse modo, o que podia ser su­pre­ma maldição (a maldição de morrer sem ter um bom enterro e um digno sepulcro!) acabou por tornar-se bênção suprema, revelação do Deus de Jesus Cristo, na linha de todo o Evangelho. Como se vai poder guardar o grão de trigo, numa espécie de vitrina, para que todos os vejam, se ele não existe separado, se ele se fez espiga imensa que se abre como pão para todos os pobres da terra?

Jesus havia penetrado já no abis­mo da morte, porém não para perma­ne­cer ali. Por isso, não puderam depo­sitá-lo num monumental sepulcro de mártir (como o de Maomé em Medina, como o dos apóstolos em Roma, como o de Lenin em Moscovo), pois a sua morte transformou-se em Vida para to­dos e neles viveu e, desde então nunca mais deixou de viver nos que cremos nele e prosseguimos as suas causas. Por isso, o anjo da Páscoa disse às mu­lheres, na palavra de fé que continua­mos a escutar: “Não está aqui, ide à Galileia, isto é, ao caminho da sua vida... Ali o encontrareis, com aqueles e naqueles que aceitam a sua história” (Mt 16, 7-8).

8. Deus transforma a morte do justo em vitória de vida.

Desde aí, pode ler-se o relato sim­bólico de Mt 28, 1-4, que evoca a acção escatológica de Deus, que começou a profanar os sepulcros da velha história de morte, para oferecer desse modo uma esperança aos crucificados e aos mortos da história (cf. Mt 27, 51-53).

É muito difícil assegurar o que se passou fisicamente com o seu cadáver, porém, segundo a tradição que evocá­mos, Jesus “desceu aos infernos”, en­trou até ao fim no reino da podridão e da morte, para iniciar a partir daí um caminho de Páscoa (cf. 1Pedro 3, 18-22).

Histórica e teologicamente, o que importa não é um desaparecimento físi­co-biológico do seu cadáver, mas a experiência de vida e presença de Jesus entre os seus seguidores. Por isso, quando os textos evangélicos (a partir de Marcos 15, 42-16, 8) falam dum sepulcro digno do Messias, não estão a falar de um facto físico, mas de um mistério de fé: o próprio Deus recolheu Jesus do abismo da morte em que ele pe­netrou, ao ser enterrado com os cru­cificados e excomungados da História.

O santo enterro de Jesus é o enter­ro dos mortos sem nome, que são lan­çados todos os dias às lixeiras da His­tória. O santo sepulcro de Jesus é “a morte que se converte em princípio de vida”. Jesus não está ali onde quiseram enterrá-lo à pressa, para que o seu cor­po não contaminasse a terra em tempo de Páscoa. Por isso, os cristãos não somos guardas de um sepulcro, mas mensageiros de um túmulo vazio, que é canteiro de vida. Somos teste­munhas da Vida de Deus que ressus­cita os crucificados da História humana. Por isso, mesmo que tivéssemos a cer­te­za que Jesus tinha sido sepultado num sepulcro digno que depois apare­ceu vazio (sem que se possa encontrar explicação para isso), deveríamos acrescentar que esse dado físico é secundário e inclusive, incómodo para o evangelho de Jesus.

A memória de Jesus não está vin­culada a um sepulcro venerável, como a do rei David, sepultado com honra e glória em Jerusalém (Actos 2, 29), nem a um espírito-fantasma que actua atra­vés de outros personagens que rece­bem o seu poder e podem assim rea­lizar prodígios (como pensava Herodes, referindo-se ao Baptista, Mc 6, 14-16). A memória de Jesus identifica-se com a vida dos seus discípulos que difun­dem o seu evangelho, e com a vida dos pobres da terra que continuam a ser lançados e excomungados para tú­mulos sem honra nem glória, assassi­nados pelo mesmo sistema de poder que assassinou Jesus e atirou o seu cadáver para uma vala comum infame.

9. Conclusões. Sentido histórico e teológico.

A partir daqui, entendem-se agora melhor, na minha opinião, os belíssi­mos relatos dos evangelhos sobre tú­mulo vazio, que a Igreja transmitiu não como prova histórica da ressurreição, mas como sinal da fé pascal que ela confessa, porque os cristãos “viram Je­sus ressuscitado”. Logicamente, esses textos possuem mais valor simbólico que puramente físico. Por isso, num plano de história física (saber o que se passou) e de biologia (saber se o cadáver de Jesus se decompôs ou des­materializou), devemos ter muita sobri­e­dade, pois resulta difícil chegar a conclusões “científicas”.

Com os meios da exegese, parece difícil afirmar que Jesus teve um enterro digno e que o seu sepulcro (proprieda­de de um rico e famoso judeu) foi en­contrado depois vazio, sem que huma­namente se pudesse saber o que se pas­sou. Certamente, pôde haver um sepulcro rico que depois se encontrou vazio. Mas, na minha opinião, é mais provável que fosse enterrado como um condenado político perigoso e que ne­nhum dos seus pudesse aproximar-se do seu túmulo (que era maldito, talvez protegido por uma proibição), distinguir o seu cadáver, para separá-lo e honrá-lo, deixando lá à sua sorte os outros crucificados ou condenados que se iam consumindo sem dignidade. Não! Jesus nunca abandonaria os outros conde­na­dos, pois quis compartilhar com eles a sua sorte, sempre! Num ou noutro caso, tivesse ou não sepulcro próprio, Jesus foi e continua a ser para a Igreja um morto sem sepulcro, um morto que funda com a sua Vida a vida da Histó­ria. Por isso, mesmo que tivesse tido sepulcro, os cristãos têm que o abando­nar: Jesus não está lá, não é um corpo para monumentos, não é uma múmia santa, incorrupta, sobre a qual se pos­sam edificar grandes pirâmides ou ba­sílicas, para assim enterrar a chama da sua vida. Jesus é um morto que está Vivo, um morto que começou a ressus­citar na fé dos seus discípulos, na vida dos homens e mulheres que o aceitam, com todos os que morreram e foram sepultados como ele na vala comum da História. Porém, não está vivo só na fé dos seus seguidores: está vivo em Deus, no Deus que ressuscita os mortos (Rom 4, 23), no Deus que revelou atra­vés dele e nele a nova história da Vida.


IGREJA / SOCIEDADE

6.º Encontro de Espiritualidade (1)

Este nosso século 21 será

jesuânico ou não será

Aconteceu, no domingo, 30 de Abril de 2006, o 6.º Encontro de Espiritualidade com o ateísmo e a idolatria em fundo. Foi na casa-sede da Associação Padre Maximino/Jornal FRATERNIZAR, em S. Pedro da Cova. Éramos quase meia centena. Com uma boa presença de gente nova, à procura de autenticidade na dimensão do seu viver humano e de Fé cristã jesuânica. Para lá de algumas pessoas de S. Pedro da Cova, acorreram outras pessoas provenientes de Lisboa, Caparica, Coimbra, Moçambique, Porto, Gaia, Guimarães, Lixa, Fiães, Viseu, Lourosa, Moselos, Famalicão, S. João de Ver. Coube ao Pe. Mário abrir o Encontro, a preparar o contexto em que deveria decorrer o debate partilhado por quem quis intervir (e muitas foram as pessoas que trouxeram trabalho de casa) sobre o tema em agenda: “Jesus: Porque o mataram? E porque o proclamaram Ressuscitado?” O Pe. Mário usou da palavra durante quase uma hora, o que perfez a 1.ª parte do Encontro. A 2.ª parte, depois de um curto intervalo, foi o debate propriamente dito, com o Pe. Mário mais à escuta. Quando voltou a falar, já mais no final da manhã, foi para partilhar o seu ponto de vista sobre o tema em debate. A 3.ª parte do Encontro foi o Almoço Partilhado em forma de Comida Eucarística e que resultou numa Experiência do Ressuscitado no meio de nós absolutamente inesquecível e profundamente marcante. A 4.ª parte foi de tarde, feita de Partilha de notícias das Comunidades de base e outros pequenos Grupos, e de Convívio. Duas horas cheiinhas e com muito Espírito. O que se segue é o texto-base em que o Pe. Mário se apoiou para fazer a abertura do Encontro. Logo depois, vêm os tópicos do que foi a sua intervenção durante o debate sobre o tema agendado para o Encontro. Antes, porém, Jornal Fraternizar faz questão de sublinhar que as pessoas que ainda se não decidiram a participar nestes Encontros de Espiritualidade nem sabem o que estão a perder. É cada vez mais claro em quem participa que só Jesus, o de Nazaré, é essencial. De modo que quem é encontrado por ele, nunca mais se interessa por todas essas muitas coisas bobas com que Igrejas e Religiões e Sociedade em geral andam atarefadas. Jesus é o único Necessário que dá sentido e prazer à vida. Jesus e a sua Missão na História, que nos compete prosseguir sem desfalecimento, no hoje e aqui de cada qual, guiados e impulsionados pelo seu Sopro/Espírito. Eis.

1. Trago-vos uma boa notícia e tam­bém um alerta: Este nosso século 21 será jesuânico, ou não será. Igual­mente, este nosso 3.º milénio, será jesuânico, ou não será. O ateísmo pode continuar a desenvolver-se e tornar-se até um fenómeno de massas. A par da Espiritualidade. Em especial, o a­teís­mo jesuânico que é a recusa/ne­gação de todos os deuses que imagi­namos e inventamos em consequência dos nossos medos e dos nossos inte­resses. Trata-se de um ateísmo que recusa/nega todos os deuses que se ali­mentam de gente e que foram criados para justificar e abençoar o que é historicamente intolerável, seja ao nível do institucional, seja ao nível de com­portamentos e de ideologias, seja ao nível de religiões e até de Igrejas cris­tãs.

Porém, um ateísmo não jesuânico depressa descambará, em minha opi­nião, em idolatria. Uma idolatria laica, certamente, e secularista, mas que, como toda a idolatria não deixa qual­quer espaço para os seres humanos, mulheres e homens, pelo menos, en­quanto realidades abertas e portado­ras de perguntas essenciais que não podem ser respondidas com mentiras, como são todas as respostas que até hoje nos têm sido dadas pelas religi­ões. Ei-las: Quem sou/somos? Donde venho/vimos? Para onde vou/vamos? E com que meios posso/podemos lá chegar?

2. Ao contrário, o ateísmo jesuâ­nico mantém-nos abertos ao Mistério que somos. E, com isso, defende-nos de todas as falsas respostas às per­guntas essenciais que somos e que trans­portamos. E porquê? Porque o ateísmo jesuânico é o único que sem­pre dá mais importância às perguntas essenciais que às respostas que pos­sam ter sido dadas a essas perguntas, através dos tempos, ou mesmo ao lon­go da vida histórica de cada ser hu­mano concreto. As quais, a bem dizer, não passam de Mentira, nomeada­mente, se são respostas que, uma vez dadas, nos dispensam de continuarmos com as perguntas. Tais respostas, que nos dispensam de continuarmos com as perguntas essenciais, acabam por nos converter em seres fechados, roti­neiros, instalados, parados, conforma­dos, numa palavra, mortos para o Es­sencial, por isso, seres nem frios nem quentes. As perguntas essenciais, mais do que as respostas, é que nos man­têm vivos e abertos ao Mistério, a Rea­lidade mais real que não apanhamos nunca, nem tocamos, mas que nos puxa, nos desinstala, nos provoca, e nos coloca em estado de êxodo…

3. O ateísmo jesuânico faz mais. Ao manter-nos abertos ao Mistério e como seres com perguntas essenciais, impede que nos tornemos seres sem causas e sem Projecto, sem laços e sem afectos, sem razões de viver e sem militância essencialmente política. O mesmo é dizer, impede que nos torne­mos seres apenas consumidores mais ou menos compulsivos, canas agitadas ao sabor dos ventos da publicidade, ou seres que se dão a conhecer pela mar­ca do carro que usam, pela conta bancária de que dispõem, pelo padri­nho que os protege, pelo número de moradias que possuem e desfrutam, pelos hotéis de luxo que frequentam e pelas estâncias balneares em que pas­sam as férias. Numa palavra, seres que nunca se dão a conhecer pelo SER. Apenas pelo TER. Por isso, nunca se apresentarão como Jesus, o de Na­zaré, quando os representantes do Templo e do Império foram por ele para o prender: “Eu sou!”. Apenas se apre­sentam com um estúpido “Eu tenho!, ou Eu conquisto!, ou Eu compro!, ou Eu possuo armas nucleares!... Numa palavra, seres que já não procuram mais respostas para as perguntas es­sen­ciais que somos e formulamos, ou pior ainda, seres que esqueceram por completo as perguntas essenciais que somos e que nos cumpre formular uma e outra vez e sempre. São, por isso, seres que existem, mais do que vivem. Decaíram do Humano para o Animal. E, de regressão em regressão, poderão acabar abaixo do Animal, simples Coi­sa, sem relação com ninguém, sem re­ferências, sem história, sem passado nem futuro e, por isso, também sem pre­sente, meros bonecos articulados que uma Mão Invisível toda poderosa – um falso deus – maneja a seu bel-prazer. É nisto em que estamos a converter-nos hoje e em grande escala. Ora, se as coisas são já assim tão inumanas e ainda só estamos no princípio deste processo de Descriação dos seres hu­ma­nos, como estaremos daqui a 100, 500 anos?

4. Urge mudar de rumo. Urge dei­xar­mos de viver sob a tirania do TER e do PODER – a tirania do D. Dinheiro e do Império – para regressarmos à Eco­logia do Ser! Para tanto, precisamos de regressar a Jesus, o de Nazaré. Ao seu ateísmo e também, evidentemente, à sua Espiritualidade. Numa palavra, precisamos de regressar ao seu Sopro ou Espírito. Os séculos que nos prece­deram foram de Cristandade. Não fo­ram de Jesus. Produziram o momento em que vivemos. Quando a sociedade começou a tornar-se independente da Cristandade, também começou a rebe­lar-se contra ela e contra os seus che­fes – os clérigos de alta patente e os de baixa – e contra tudo o que eles fazem e dizem, concretamente, contra as respostas moralistas e de mentira que eles haviam dado, para todo o sem­pre, às perguntas essenciais que somos e transportamos connosco. Tor­nou-se, então, uma sociedade progres­sivamente agnóstica e ateia. Sauda­velmente agnóstica e ateia. Com cada vez maior número de agnósticos e de ateus. Faltou-lhe uma coisa essencial: (re)descobrir Jesus, o de Nazaré. Fi­cou-se, quando muito, pelo Jesus das catequeses infantis e da cultura/arte da Cristandade, que traz nos genes, des­de há quase dois mil anos, por sinal, mais Cristo do que Jesus. Praticamente, desconhece Jesus, o de Nazaré. No me­lhor dos casos, conhece uma figura mítica a que chama Jesus-Cristo. Não conhece o Homem Jesus, muito menos, tem consciência porque é que o mata­ram/crucificaram e porque é que algu­mas, alguns que andaram, andam com ele o proclamaram, proclamam Ressus­citado.

5. Vai daí, o ateísmo, inicialmente po­sitivo, enquanto recusa da Cristanda­de e do seu deus vampiro e conquis­tador, bem como do seu clero e das suas catequeses moralistas e terro­ristas, acabou, com o rolar dos anos, por se tornar um dado absoluto, prin­cípio e fim de tudo, por isso, uma es­pécie de novo deus, falso e laico, um ídolo dos mais perigosos. De saudável ateísmo que começou por ser, passou a correr o risco de acabar em verda­deira e perigosa idolatria. E, então, como em toda a idolatria, deixará de ter lugar para Deus e para os seres hu­manos, nomeadamente, os seres hu­manos que se mantêm abertos ao Mis­tério e portadores de perguntas essen­ciais. Apenas haverá lugar para o ídolo. E para as suas falsas respostas (ainda que pretensamente científicas!) dadas às perguntas essenciais que os seres humanos, enquanto tais, são e se colo­cam.

6. Caímos assim numa espécie de Cristandade laica, em que o mítico Cris­to já não é o das Igrejas, mas o do a­teísmo. E o resultado é bem pior que o da Cristandade. Porque o Cristo mí­tico da Cristandade, embora falso, ain­da deixava algum sentido ao viver das pessoas na História. Não valorizava o presente, o histórico, apenas o além, o após morte; as pessoas e as popula­ções eram levadas a desprezar o pre­sente, sacrificavam-no em nome do além, mas a verdade é que viviam o pre­sente com regras, com virtudes, com moderação. O medo do castigo eterno guardava a vinha. Era uma crueldade, uma opressão e uma repressão, mas havia algum sentido no viver colectivo do dia a dia. Ao passo que na Cristan­dade laica do ateísmo/idolatria, que rapidamente está a ser absorvida/comi­da pela Cristandade do D. Dinheiro (on­de estão os ateus que decidem ser pobres e viver pobres até ao fim dos seus dias?!) e na do seu filho mais per­verso, o D. Poder, que é mentiroso e as­sassino, praticamente já não há pas­sado nem futuro e cada vez há menos presente para a esmagadora maioria da população mundial, as chamadas maiorias empobrecidas e excluídas da Humanidade. O Cristo desta Cristandade, hoje apelidada de Globalização, é o D. Dinheiro, o novo deus todo-po­deroso que fabrica vítimas aos milhões para logo as sacrificar nos múltiplos altares do Mercado Total e das suas prin­cipais Bolsas, com destaque para as de Nova Iorque e de Londres. Trata-se de um Cristo/deus cruel, que exige sa­crifícios humanos e não deixa qual­quer saída com dignidade aos seus ado­radores.

7. Estamos então perdidos? Não! Lembrem-se que comecei por vos dizer que trazia para este encontro uma boa notícia e um alerta. Eis a boa notícia:

Nem sequer é preciso abandonar­mos o ateísmo, hoje, cada vez mais generalizado. Muito menos é preciso regressarmos às Religiões, velhas ou no­vas, muito menos à velha Cristanda­de Ocidental. Não! Pelo contrário, faz parte da boa notícia esta proclamação eventualmente chocante: Religiões nunca mais! Cristandade Ocidental ou outra nunca mais! Basta que o ateísmo generalizado do século 21 e do tercei­ro milénio seja um ateísmo jesuânico, o mesmo é dizer, não absoluto. Seja um ateísmo em relação a todos os deu­ses e deusas das Religiões e das Igre­jas em versão Cristandade Ocidental. Seja um ateísmo humilde, capaz, por isso, de parar diante dos seres huma­nos concretos e diante do mistério que é cada um. Seja um ateísmo aberto ao Mistério, como o de Jesus. Que não apri­sione os seres humanos na Histó­ria, pelo contrário, seja capaz de se abrir, juntamente com os seres huma­nos, ao Mistério. Aguente as perguntas essenciais que os seres humanos so­mos e transportamos connosco e recu­se todas as respostas com ar de defi­ni­tivo. E prefira sempre as perguntas às respostas dadas ao longo dos sécu­los, também as dadas por ateus antigos e novíssimos.

8. O que é preciso, imperioso e ur­gente é regressarmos a Jesus, o de Na­zaré, o Jesus histórico resssucitado. É com ele que seremos. E que encon­traremos a saída e o caminho. Ele é o caminho, a verdade e a vida. Dele se diz, na língua da Teologia, que é tam­bém a da Poesia, que nasceu por força do Sopro/Espírito libertador (= aberto ao Mistério que é mais íntimo a nós do que nos próprios e que nos mantém no ser); que viveu possuído, 24 horas sobre 24, pelo Sopro/Espírito (= aberto ao Mistério que é cada ser humano com quem historicamente se cruzou e de quem se fez próximo); e que, ao morrer, exalou/entregou/deu o Sopro que o fez e habitou (= não caiu no Na­da, nem se fechou num túmulo, antes abriu-se na totalidade do seu ser à to­talidade do Ser). É por isso que o viver de Jesus na História foi ininterrupta­men­te o de um Homem-para-os-de­mais. Nele, pudemos ver/conhecer o ser humano integral e o Deus que nun­ca ninguém viu nem verá jamais. Mas ver/conhecer Deus à maneira humana, por isso, sem­pre aberta, nunca acaba­da, sempre em busca, sempre às apal­pa­delas, como em espelho, numa pa­lavra, sempre em deserto, muitas vezes, verdadeira noite de sentidos. Mas sempre na companhia de Jesus e de ateus. E na comunhão com o seu Sopro.

9. Regressemos, pois, a Jesus, o de Nazaré. Não à Cristandade. Nem às religiões, as antigas ou as recentes. Mas, primeiro, resgatemos Jesus da Cristandade e das Religiões cristãs e outras. Resgatemo-lo também do Tem­plo e do Império. Ousemos começar de novo. Fazer acontecer um Novo Come­ço. Demos corpo ao homem novo jesuâ­nico, à mulher nova jesuânica. Saibam que, nessa etapa da História e da Huma­nidade em estado de maioridade, já nem sequer são precisas Igrejas. Ape­nas a Humanidade concebida como co­mu­nidade de comunidades, todas elas tocadas/empurradas pelo Sopro/Espírito de Jesus Ressuscitado. Humanidade je­suânica, simplesmente. E tudo o mais virá por acréscimo.


6.º Encontro de Espiritualidade (2)

E porque o mataram?

1. Entre Sócrates, o célebre filósofo grego, e Jesus, o de Nazaré, há um abis­mo. Embora ambos sejam conside­ra­dos modelo de ser humano. Ambos foram incómodos, até ao ponto de terem de morrer antes de tempo. Mas Sócrates foi condenado a beber a cicuta e bebeu-a com satisfação, enquanto proclamava que, graças a ela, ia mais depressa jun­tar-se aos deuses em troca do inferno que deixava neste mundo, uma espécie de prisão, ou degredo onde a sua alma havia estado condenada a viver. A mor­te era a sua libertação definitiva. Ele próprio tomou a cicuta e bebeu o vene­no que o matou.

Jesus, ao contrário, foi crucificado e morreu no total abandono e na total humilhação. No meio da maior das es­cu­ridões humanas: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” Po­rém, nunca o ser humano o foi tanto como naquele momento. E também Deus nunca o foi tanto! Na máxima es­curidão interior, Jesus abre-se ao Mis­tério, como um menino. E morre aberto ao Mistério. O silêncio de Deus foi para Jesus a palavra mais eloquente. Assim como a ausência de Deus foi para Je­sus a sua maior Presença. São o silên­cio e a ausência de Deus na História que “puxam” por nós para que sejamos cada vez mais seres-em-relação.

2. Porque o mataram? De repente, os chefes das instituições que se têm como donas das respostas às pergun­tas essenciais que todos somos e trans­portamos, perceberam, ao verem Jesus em acção, que a função deles, apesar de vestida da aura do sagrado e do di­vino, era, afinal, pura Mentira e gera­dora de Medo. Como tal, era uma fun­ção que só trazia Opressão e Morte às pessoas e aos povos. Afinal, eles não eram senão os profissionais da Mentira e do Crime institucionalizados e os ali­mentadores do Medo. E os comercian­tes de Deus. Por isso, mentirosos e as­sassinos. Tinham o Medo por mãe e a Men­tira por pai. Os frutos que produ­ziam só podiam ser perversos. Como dizia Jesus, todos eles existiam para matar, roubar e destruir, em lugar de suscitarem vida e vida em abundância para todos.

Quando isto perceberam – Jesus é a Revelação que faz cair o véu ideo­lógico que esconde a perversão e a men­tira e as disfarça de sagrado e de verdade – só tinham uma de duas saí­das: ou uniam-se a Jesus no desmas­ca­ramento da perversão e da mentira de tudo o que faziam; ou uniam-se furi­o­sa­mente entre si contra Jesus e contra a Revelação que a sua prática liberta­dora dos oprimidos de toda a espécie punha gritantemente em evidência. O­pta­ram por esta última. E depois, para que nunca mais ninguém se atrevesse a pôr os olhos em Jesus, nem jamais aco­lhesse a Revelação que saltou da sua vida, mataram-no. Mas não de qual­quer maneira. Mataram-no com o género de morte que constituiria Jesus para sempre como o maldito dos maldi­tos de Deus. E à sua Revelação, como a Mentira das mentiras. A morte na cruz era a única, naquele contexto cultural e político, que servia aos desígnios de­les: “Maldito o que morre na cruz!” E isso é o que eles pretendiam. Para sempre. E foi por esse tipo de morte que avançaram. Para que nunca mais nin­guém pronunciasse o nome de Je­sus, muito menos desse a mínima aten­ção à Revelação que a sua vida/morte fez acontecer.

3. E porque o proclamaram Res­suscitado?

Esta proclamação é a prova inequí­voca da verdade que é Jesus. E que vale mais do que todas as “aparições” do Ressuscitado que, aliás, não acon­teceram como factos históricos. São puras narrativas teológicas e poéticas destinadas a despertar em quem as ouve a Fé em Jesus, isto é, a quererem ser mulher, homem do mesmo jeito que ele e com as mesmas causas dele.

A verdadeira mudança/ressurrei­ção que historicamente se viu e teste­munhou é, não a de Jesus (seria, qu­an­do muito, a reanimação do seu ca­dáver, para depois voltar a mor­rer daí a algum tempo, coisa mais boba!), mas a das discípulas, dos discípulos, por sinal, não muitos, apenas um punhado (S. Paulo, que escreveu muito próximo dos factos, chega a avançar uma cifra, muito por alto. Fala em “500 irmãos”). Em lugar de continuarem, como até en­tão, a comportar-se como filhas, filhos do Medo e da Mentira oficializada – concretamente, a comportar-se como se o Templo e o Império fossem instituições sagradas e divinas que nin­guém pode pôr em causa; como se Je­sus fosse o maldito de Deus e o E­van­gelho que ele praticou e anunciou fosse a Mentira a ser silen­ciada para todo o sempre – tornaram-se, algum tempo de­pois da morte dele, mulheres/ho­mens espantosamente li­vres e liberta­dores, festivos, alegres, des­temidos, da mesma fibra e do mes­mo sopro de Je­sus, por isso, determi­na­dos a regressar à Galileia, isto é, a levarem por diante a mesma prática libertadora de Jesus e a desmasca­ra­rem como ele o Perver­so que são para todo o sempre o Tem­plo e o Império.

Semelhante mudança nas discípu­las, nos discípulos, é o sinal inequívoco de que Jesus vive-para-sempre-no-Deus-de-vivos-e-não-de-mortos, isto é, de que Jesus é quem tem razão e não os chefes que o mataram, e, por isso, a Humanidade encontrar-se-á consigo mesma (= salva-se), se ousa seguir a prática libertadoramente de Je­­sus, e perde-se se o toma por um mal­dito e opta por seguir a prática dos che­fes de turno do Templo e do Império.

Proclamar que Jesus é o Ressus­citado é o mesmo que proclamar que ele, e não os chefes das instituições que o mataram, é que está no certo, é quem tem razão e que Deus Vivo é com ele que está, não com os chefes nem com as instituições que eles represen­tam. Infelizmente, nunca nos disseram esta boa notícia ao longo dos séculos, sempre no-la esconderam e entretive­ram-nos com delírios mais ou menos eso­téricos de Jesus a sair pelo túmulo como um cadáver reanimado…

Em consequência deste desvio, a Humanidade passou a ocupar-se com novas liturgias e novos cultos, à volta de altares e de templos e basílicas, e es­queceu por completo Jesus, o de Na­zaré, a sua Revelação e o seu mandato a irmos por todo mundo a anunciar o seu Evangelho a toda a criatura, missão decisiva e única, pois só ela poderá fa­zer com que as pessoas e os povos se libertem do Medo e da Mentira, dos chefes do Templo e do Império que per­pe­tuam o Medo e a Mentira de geração em geração, quando só Jesus e o seu Evangelho, a sua Revelação interes­sam à humanidade. Pois só Jesus e o seu Evangelho, que inclui como essen­cial, o desmascaramento do Tem­plo e do Im­pério e por isso o seu der­rube pu­­ro e simples, nos tiram do Medo e da Men­tira e nos tornam insurrectos e ressur­rectos, inteiramente disponíveis para a Missão, na continuação da mes­ma Missão de Jesus, desde a Galileia até ao calvário.


A Cruz é invenção do Império, não de Jesus

In Diário Aberto www.padremariodemacieira.com.sapo.pt

A cruz só entrou na vida de Jesus porque

o Templo e o Império lha impuseram. Os dois

não lhe perdoaram que Jesus os identificasse

com o Perverso e o Mentiroso. Havemos por

isso de nascer/viver longe dos Templos e dos

Impérios. Em frátrias de bens Partilhados que

nos façam crescer em ser e em liberdade.

O Templo e o Império não se deram por

vencidos e prosseguiram indiferentes a ser o

Perverso e o Mentiroso. Sabem os seus chefes

de turno que esses são os meios mais eficazes

para perpetuarem uma Ordem mundial que lhes

garante privilégios e ainda os trata como deuses.

E até as suas inúmeras vítimas lhes prestam culto.

A traição maior é a das Igrejas. Aconteceram um

dia por obra e graça do Sopro/Espírito de Jesus

para prosseguirem na História a sua subversiva e

libertadora postura contra o Mentiroso e o Perverso

que são o Templo e o Império. Mas acabaram elas

próprias templo e império. E até da cruz fizeram a sua

identidade. Em lugar das frátrias de bens Partilhados.

O mandamento maior de Jesus é que as Igrejas

Partam o Pão e o Vinho em Sua Memória num clima

de amor recíproco. Para se consolidarem como

frátrias de bens Partilhados no meio do mundo. E

fazerem crescer a vida dos povos em ser e liberdade.

Mas logo vieram os Ritos e os Rituais soprados

pelo Templo e o Império. E tudo se perverteu de novo!

Sem Igrejas-frátrias de bens Partilhados crescem

mais e mais o Templo e o Império. E o Perverso

e o Mentiroso que eles são. Os séculos tornam-se de

chumbo e não têm conta os crucificados. São de

sangue e lágrimas os rios e os mares. A Terra

enlouqueceu e desistiu de ser jardim para ser túmulo.

E hoje até a História parece ter chegado ao fim.

São já vinte os séculos sobre a Páscoa de

Jesus e nunca como hoje o Império e o Templo

produziram tanta Perversão e Mentira à escala

global. Por isso ou regressamos a Jesus e à via

libertadora que ele abriu ao identificar o Perverso

e o Mentiroso com o Templo e o Império ou não

chegaremos nunca a ser homem/mulher. Nem povos.

Tudo o que decidem e fazem o Templo e

o Império é Perverso e Mentiroso. E só não

chegamos a reconhecer tão hediondos crimes

porque tudo nos é habilmente apresentado como

conquistas e sucessos. E na História mandada

escrever pelos seus chefes de turno jamais constará

um só registo sobre as suas inúmeras vítimas.

 

É subversiva e perigosa a Memória de Jesus mas

quando realizada em ambientes de clandestinidade

longe do Templo e do Império e como alimento de

fecundas conspirações contra eles. Quem come daquele

Pão Partido e bebe daquele Vinho Derramado torna-se

outro Jesus pronto a desmascarar perante o mundo o

Perverso e o Mentiroso que são o Templo e o Império.


Como é que Jesus nos livrou

da morte, se continuamos a morrer?

In Diário Aberto www.padremariodemacieira.com.sapo.pt

Os chefes das Igrejas não se cansam

de repetir em cada Páscoa - e a de 2006

não foi excepção - que Jesus venceu a morte.

Mas como é isso possível se nem Jesus se

livrou de morrer e da morte mais intolerável?

E se todas / todos sem excepção depois dele

continuamos aí a morrer sem apelo nem agravo?

E porque haveria Jesus de vencer a morte

se ela faz parte do natural ciclo da vida como

o nascimento? A quem pretendem as Igrejas

agradar com esse tipo de discurso com sabor

a falso evangelho? Aos pobres? Mas não são os

ricos quem tem mais medo da Morte? Os pobres

o que mais temem é não terem Pão para comer.

O que quer o Evangelho revelar quando nos

anuncia que Jesus ressuscitou dos mortos? Que

viu reanimado o seu cadáver e que voltou à vida?

Assim pensa a generalidade das pessoas e das

Igrejas. Mas a expressão teológica “Ressuscitar dos

mortos” quer simplesmente revelar que o Deus Vivo

é com Jesus que está. E não com quem o matou!

Os chefes do Templo e do Império foram os que

deram a morte a Jesus. Não lhe perdoaram que

ele os identificasse com o Perverso e o Mentiroso.

Em lugar de se aliarem a Jesus contra o Perverso

e o Mentiroso aliaram-se entre si contra Jesus. E

tentaram fazer dele o Maldito de Deus. Mas logo

aconteceu o Espírito de Deus e proclamou-o Bendito!

Ao dar razão a Jesus e não aos chefes do Templo

e do Império que o crucificaram Deus subverteu

a História mandada escrever por eles. E ficou

para sempre desvendado que o que é bom para

os chefes do Templo e do Império é perverso para

os povos. Sábios então seremos se fugirmos deles

e como Jesus fizermos corpo com as suas vítimas.

Na morte crucificada de Jesus pudemos ver que

a única Morte que mata é o Ódio e não a morte física.

A morte física é o culminar do nascimento e há-de ser

experimentada por nós como a nossa Hora em que

nos tornamos Corpo-Sopro-que-se-entrega-aos-demais

para ficarmos com eles para sempre. E porque só

o Ódio é homicida ele é a Morte que Jesus venceu.

Aprendemos com Jesus Ressuscitado que

passamos - PÁSCOA - da morte à vida porque

amamos os irmãos. Podemos então deduzir que

quem não ama permanece na Morte. Uma outra

coisa essencial aprendemos também com Jesus:

que quem diz que ama a Deus a quem não vê

e não ama os irmãos a quem vê é mentiroso.

Foram muitos os cultos realizados nos templos

nesta Páscoa. Por nenhum deles se ouviu dizer

que PASSOU o Sopro de Jesus o Crucificado pelo

Templo e pelo Império. Apenas o sopro do Perverso

e do Mentiroso que faz dos clérigos comerciantes de

Cristo e dos povos alienados. Quando os povos do

que precisam é de Jesus. E do seu Sopro libertador.


ANTÓNIO, BISPO DO PORTO

In Diário Aberto www.padremariodemacieira.com.sapo.pt

Nos 100 anos do seu nascimento, multiplicaram-se as acções de homenagem na Diocese. Jornal Fraternizar apenas aceitou ir à antestreia da peça com o seu nome, a convite da Companhia de Teatro Seiva Trupe. Quanto ao mais, optou pela ausência, cheio de saudades duma Igreja que escute os profetas que o Espírito teimosamente suscita dentro dela e fora dela, em lugar de primeiro os matar ou ajudar a matar, para depois lhes promover acções de homenagem, quando já se tornaram mausoléus de estimação.

Foste bispo da Igreja do Porto enquanto

Salazar governava o país com mão de ferro.

Apresentavas-te de pé diante dos homens e

de joelhos diante de Deus. Preferiria mil vezes

ter-te visto de pé diante do Poder – todo o

Poder – e de joelhos diante dos pobres. Para

que nunca fosses Poder. Apenas Bispo-pastor.

A mesquinhez do Ditador não suportou a

tua liberdade nem a tua frontalidade. Queria

que fosses simples cão de guarda do Regime

como acontecia com a generalidade dos outros

bispos do Portugal de então. Um exílio de dez anos

foi o preço que tiveste que pagar. A somar a todo

o ódio teológico dos restantes bispos teus irmãos.

Entretanto a guerra colonial continuava a oprimir

e a matar em três frentes de África. Eu próprio

me vi aos trinta anos de idade a entrar nela

como capelão militar à força. Acicatado pelo teu

exemplo de coragem não hesitei em anunciar na

guerra o Evangelho da Paz. E fui expulso. Mas nem

assim o teu exílio na Europa “virou” conspiração...

E quando Abril chegou já estavas mergulhado

de novo nas rotinas eclesiásticas da diocese

graças sobretudo à mãozinha do novo Poder que

sucedeu a Salazar. A festa da liberdade dançou

meses a fio nas ruas do Porto e do país. Mas

ninguém te viu alguma vez a dar-lhe corpo. Não

saberias que liberdade rima com fraternidade?

A grande comunicação social do Dinheiro

(toda ela é dele e ai de nós se não estamos

bem conscientes que assim é) transformou-te

depois na Personalidade maior da História da

Igreja em Portugal. E a verdade é que nem assim

tu foste capaz de atender ao aviso de Jesus “Ai

de vós quando os do Poder dizem bem de vós!”

E agora que se completam cem anos sobre

o teu natal não falta por aí quem se apresse a

promover-te homenagens de canonização. Em

nenhuma delas quis ser visto a não ser no teatro

que a Companhia Seiva Trupe estreou na noite de

ontem. E não é que até aí foste apenas enaltecido

como se tu e o teu Poder não tivessem feito vítimas?

Sempre costumam proceder assim os grandes.

Exaltam quem os reconhece e se lhes assemelha

no porte na erudição e sobretudo na aceitação da

presente Ordem social em que todos eles figuram

como sóis de primeira grandeza. Também me tentam

a ser assim mas jamais me renderei. Prefiro mil

vezes as suas excomunhões aos seus louvores.

António Bispo do Porto meu irmão! Perdoa que

não alinhe no esforço que os do Poder clerical e do

Dinheiro estão hoje a fazer para te converterem em

novo ídolo. Deixa que te abrace com afecto e com

ternura naquela Luz sem Mentira em que todas/todos

veremos a luz. E na qual todo o Poder é dissolvido.

Basta-nos afinal ser discípulos de Jesus. E irmãos.


E é na vida militante o nosso próximo encontro

In Diário Aberto www.padremariodemacieira.com.sapo.pt

Nos últimos meses, visitámo-lo com regularidade. Nós, os que constituímos o ministério dos doentes, da Comunidade Cristã de Base de Macieira da Lixa. Os encontros com ele terminavam sempre em redor da mesa da cozinha, num lanche eucarístico partilhado. Até que o cancro na coluna o tornou invisível aos nossos olhos. Ainda no vigor dos anos. Nesse dia à noite, voltámos lá a casa. Armandina, sua mulher, levantou-se do leito e da prostração da morte e veio orar/celebrar connosco a vida que nos deu o Teixeira. Ao nosso jeito. Com o Evangelho e o Canto.

Aconteceu hoje de madrugada e sem

surpresas a tua Páscoa definitiva. A confirmar

que o nosso viver na História é feito de sucessivas

páscoas até à Páscoa definitiva. Dizem por aí

que morreste. Hão-de saber que explodiste como

aquela estrela de que todas/todos provimos. Só

para assim poderes ficar connosco todos os dias.

Antes que o cancro se alojasse na tua

coluna eras um corpo com tudo de exército

em linha de batalha. Ninguém se atrevesse

a humilhar os humildes e os fracos. Logo tu

saltavas em sua defesa e inibias de vez os

agressores. Bastavam um olhar teu e tua mão

levantada para que acontecesse de novo a Paz.

Não faltou quem se alegrasse com a notícia

de que um cancro te consumia por dentro e

te roubava anos de vida à luta pelas causas

da Justiça e do Pão repartido. E agora que

aconteceu a tua Páscoa não falta quem ria

de cinismo. Os pulhas são como os vermes.

Alimentam-se de cadáveres em putrefacção.

Como Jesus o de Nazaré não nos deixas

órfãos. Nos encontros da Comunidade em

que participaste e que nos últimos tempos

fizemos acontecer com regularidade à volta da

mesa da casa que partilhavas com Armandina

soubeste abrir-te ao Sopro de Deus vivo e

é com Ele e nEle que agora andas connosco.

Não te perdemos. Ganhamos-te para sempre.

E se agora deixamos de te ver é só para mais e

melhor beneficiarmos da tua vida ressuscitada

no Ressuscitado Jesus. És o nosso companheiro

nas causas da Justiça e do Pão repartido e nos

combates pela libertação das populações. Tijolo

vivo no Barracão de Cultura que já se levanta.

Jamais esquecerei aquele abraço fraterno e

camarada que me deste um destes dias quando

pela última vez te visitei no pavilhão dos Cuidados

Acompanhados do IPO do Porto. Sabias como

eu que estava próxima a tua Páscoa definitiva e

quiseste dizer-me que já estavas de partida mas

para seres de vez o nosso Anjo e o nosso Fogo.

Visto-me com a tua Paz e deixo-me empurrar

pelo Sopro de Jesus que é também o Sopro

em que tu agora te tornaste. Caminharemos

mão na mão numa Eucaristia feita de entrega

do meu corpo-Pão e do meu sangue-Vinho pela

vida do mundo. Os da Mentira e do Dinheiro que

se cuidem. Está cada vez mais próximo o seu fim.

Canto e danço com redobrada força e alegria

o Aleluia da tua vida militante e camarada que

prossegue sem quebras em dimensões outras

que nem os olhos viram nem os ouvidos ouviram

e que são bem mais reais que as que deixaste

para trás na História. Os túmulos estão vazios de

ti. E é na vida militante o nosso próximo encontro.


A construção em grosso já poderia estar concluída,

mas o empreiteiro teve que ir terminar outra obra

BARRACÃO DE CULTURA

Por todo este mês de Julho, o edifício

deverá ficar concluído de pedreiro

Como podem ver pela foto (só na edição em papel), o Barracão de Cultura, da Associação Cultural e Recreativa AS FORMIGAS DE MACIEIRA, ainda só tem paredes ao alto. E mesmo estas não estão na sua de­finitiva altura. A obra seguia a bom ritmo, quando o empreiteiro se viu "o­­bri­­gado" a ir para uma outra, também a seu cuidado, cujo alvará de licença de construção estava, segundo as suas próprias palavras, a chegar ao fim. Cus­tou muito à Associação este adiamento, mas lá acabou por se render aos ar­gumen­tos do empreiteiro.

Não fosse este "percalço" e a cons­tru­ção em gros­so já poderia estar con­cluída. Assim, no momento em que esta edição vai para a tipografia, tem ape­nas paredes ao alto. Entretanto - pala­vra do empreiteiro - a conclusão da cons­tru­ção em grosso não terá de es­pe­rar muito mais tempo. Por todo o mês de Julho 2006, deverá estar concluída. Aproveite então as suas férias e, se andar pelas bandas de Macieira da Lixa, dê lá um salto para ver a obra com os seus próprios olhos.

Ainda não há dinheiro para todas as fases seguintes. Mas algum já há e o restante há-de aparecer. O livro Na companhia de Jesus e de Ateus, do Pe. Mário, já deu ao Barracão de Cultura, limpos, cinco mil euros, da 1.ª edição. Mais de outro tanto haveremos de apu­rar com a venda militante da 2.ª edição. A tarefa está a ser bastante mais difícil, porque, agora, temos que chegar a pes­­soas de mais longe. Tudo, porém, se­rá mais fácil, se quem está mais ou menos sensibilizado com o projecto Bar­racão de Cultura, se dispuser a vender exemplares do livro na sua região.

Bastaria que cem pessoas se com­prometessem a vender dez exemplares cada uma e a edição ficaria automatica­men­te toda vendida. Pensem nisso. Até porque é mais digno arranjar dez pes­soas amigas e conhecidas que aceitem partilhar 10 euros para a construção do Barracão de Cultura, a troco de um exemplar do livro, do que sem recebe­rem nenhuma contrapartida.  De resto, trata-se de um livro com uma mensa­gem que nos liberta e dignifica. E que está a ser vendido a um preço manifes­ta­mente baixo, em comparação com outros livros do género.

Vamos lá então arregaçar as man­gas e dar essa alegria às FORMIGAS DE MACIEIRA. Se preferir deslocar-se pessoalmente, vê a construção ao vivo (tal como está, já dá para perceber o ta­ma­nho das duas valências, a cultural e a social) e leva os exemplares do li­vro para vender ou oferecer. Se não está nos seus planos passar estes próximos dias pelo Barracão de Cultura, então encomende os dez exemplares do livro e eles vão ter a sua casa pelo correio. Basta telefonar para o autor (93 393 65 02), ou enviar um e-mail (padre­mario@sapo.pt).

A expectativa da actual Direcção da Associação é ver o Barracão de Cultura já a funcionar, no máximo, dentro do prazo que dura o Alvará de licença de construção. Assim haja boas-vontades que se somem às da Associação. Como sabem, os únicos milagres dignos dos seres humanos são aqueles que nós pró­prios fazemos. Juntem-se às FOR­MI­GAS DE MACIEIRA e o milagre acontecerá.


LIVROS DO TRIMESTRE

TARRAFAL

na memória dos prisioneiros

Dinossauro / Nélida Maria Freire Brito

São 220 páginas que nos transportam ao mundo de horrores que muitos presos políticos do regime de Salazar sofreram na carne, ao serem deportados para o Tarrafal. A autora fez questão de pegar neste sofrimento e trabalhá-lo como tese universitária. E muitas vezes não conteve as lágrimas de raiva e de comoção. Tarrafal existiu mesmo. Para os que ainda duvidam de tamanha crueldade do Regime de Salazar, o livro aí fica. Como testemunho a denunciá-lo. Corram por ele. E difundam-no pelo país.

Ao contrário dos campos de exter­mínio do regime nazi, "concebidos e pre­parados para a morte rápida e indus­trial", os do Tarrafal foram "estruturados em torno do trabalho escravo de milha­res de detidos que haviam sido seleccio­nados para serem erradicados do seu meio social, organizado de uma forma de tal modo absurda que a única finali­dade que nele se poderia entrever era a da opressão mais pesada, através da qual se procurava chegar à perda da di­gnidade humana e política do detido, à violação da sua identidade própria e à consequente, por vezes inevitável, per­da da vida."

Quem isto escreve é o próprio orien­tador da tese, o Prof. Manuel Loff, no prefácio que aceitou escrever para o li­vro. É ainda deste prefácio que salta a impressionante cifra de "2000 anos, 11 meses e 5 dias de detenção" que tanto foi o tempo de indi­gnidade que o Tar­rafal totalizou no con­junto das suas vítimas.

O livro faz-se em duas partes. "O período do salaza­rismo" e "Testemu­nhos de sobrevi­ven­tes".

É sem dúvida a segunda parte que nos comove até às lágrimas de raiva e de impotência. Nes­tes testemunhos fala-se da realidade do Tarrafal, a partir da frigideira; da assistência médica; da alimentação, vestuário e do calçado; do trabalho forçado, dos despejos das sentinas ao mar, do tormento do tabaco; dos car­ce­reiros. Mas também da resistência dos deportados presos, com a sua Uni­versidade Popular, da formação polí­tica que reciprocamente se davam; da circulação de informação clandestina; das tentativas de fuga dos presos; e dos grupos  políticos entre os presos.

"De acordo com o relato dos pre­sos, o médico Esmeraldo Prata era como que um instrumento utilizado pela ditadura fascista para alcançar os ob­jectivos para os quais a Colónia Penal tinha sido projectada, ou seja, elimi­nar lenta ou rapidamente todos os seus pacientes. Numa das suas céle­bres intervenções terá dito: «Não es­tou aqui para curar, mas para passar certidões de óbito.»"

Ninguém deixe de se debruçar so­bre as páginas deste livro. Para que o passado nunca mais regresse, nem mesmo reciclado. Para tanto, temos de viver acordados e de prevenção todos os dias. O Inimigo não dorme nem brin­ca em serviço, ainda que tudo faça para nos adormecer e distrair. E com que eficácia o faz!

Ser mulher na Igreja

Memórias espirituais

Sal Terrae / Joan Chittister, osb

"A passagem da religião à espiritualidade", eis como poderia chamar-se este fecundamente perturbador livro de 230 páginas, escrito por uma religiosa beneditina, teóloga e psicóloga conhecida em todo o mundo pela suas iniciativas a favor da justiça e da paz e pelo seu compromisso a favor da igualdade da mulher. Mas o título em causa é apenas do prólogo. Mesmo assim, diz bem da singularidade desta obra que ninguém deverá perder.

Os 25 capítulos da obra estão a­gru­pados em seis grandes temáticas: "A vida Interior: descoberta do óbvio"; "A imersão na Vida: a outra face da In­terioridade"; "Resistência: o impe­rativo evangélico"; "Espiritualidade fe­minista: A chegada de um mundo novo"; "Ecologia: A outra faceta da vida es­piritual"; "Cordialidade: O dom da tri­vialidade".

É sobre a temática "Resistência: Imperativo evangélico" que aparece o capítulo 17, "Poder, apesar da impo­tên­cia: a coragem de rejeitar o mal". É um capítulo impressionante, como aliás todos os outros que "fazem" o livro. Abre assim: "Aconteceu-me ape­nas uma vez, porém, marcou-me para o resto da minha vida. Em 1976, o Vati­cano publicou a sua primeira explica­ção sobre a não ordenação das mulhe­res. Porquê? - perguntávamo-nos - uma boa mulher, comprometida, espiri­tual, baptizada... não pode ser presbí­tera? Roma disse que as mulheres não são como os ho­mens. Fim da discussão; fim do desenvolvimento teológico; fim da co­erência da fé. Po­rém, também co­meço de um aluvi­ão de questões totalmente novas, como: É a Euca­ristia um aconteci­men­to da comuni­da­de cristã ou um mero drama histó­rico que voltamos a representar? Ce­le­bra­mos a Euca­ristia "em memória dele" ou "à imitação dele"? "Fez-se carne" Jesus, isto é, plenamente huma­no, ou fez-se simplesmente varão, isto é, de um género concreto e em bene­fício desse género?"

Já na grande temática "Espirituali­da­de feminista", vem o capítulo 25, "A Igreja e a mulher: falar em nome de Deus". Escreve a autora: "Quero um Deus que seja «Mãe». Estou cansada do Deus-Pai legislador, com tiara e anel. Quero um Deus que seja energia fecunda portadora de vida. A minha vi­da. Directamente. Não a minha vida mediada unicamente por homens que excluem as mulheres porque «Deus» lhes diz que o façam, porque «não têm autoridade para mudar as coisas»". E acrescenta: "Esta espécie de honesti­dade é perigosa. A honestidade exige-nos entrar em contacto com a verdade que há no nosso interior e expô-la em voz alta, para que o Espírito Santo pos­sa actuar em todos nós. A verdade que é suprimida é uma verdade recusada ao empreendimento teológico. Limita a ideia de Deus. E o Deus que pode ser concebido não pode de modo ne­nhum ser Deus."

É difícil encontrar tamanha lucidez e tamanha audácia em muitos dos nossos católicos actuais, elas e eles. Mas quem não for assim, ainda é discípula, discípulo de Jesus?

HUGO CHÁVEZ

Um homem, um povo

Campo das Letras / Marta Harnecker

O livro é quase todo uma longa entrevista feita ao longo de 15 horas em circunstâncias de espaço e tempo sucessivamente distintas; as que foram possíveis. Nas suas 224 páginas, oferece-nos um retrato de corpo inteiro do actual presidente da Venezuela e revela pormenores eventualmente chocantes de como o poder do Dinheiro tenta sabotar uma Revolução pacífica que conta com o apoio popular. A não perder de modo nenhum.

"A entrevista - esclarece a autora na Introdução - estava prevista para antes do golpe de Estado de 11 de Abril de 2002, mas só foi possível materia­lizá-la dois meses depois. As informa­ções e reflexões sobre como um gover­nante deposto por um golpe militar re­cupera o governo em menos de 48 ho­ras, acontecimento único no mundo, ocu­pam um espaço importante neste livro."

A própria autora ficou tão marcada pelo acontecimento e pela entrevista conseguida nessas circunstâncias, que conclui a Introdução ao livro "com as próprias palavras de Chávez". Assim: "Quando penso no golpe de 11 de Abril, lembro-me das ideias de John Kennedy, ex-presidente dos Estados Unidos, que disse: «Os que fecham o caminho para a revolução pacífica abrem o caminho para a revolução violenta». Escolhemos  fazer a revolução constitucionalmente, por um processo constituinte de inques­tio­nável legitimidade. Se em algum mo­mento de 11 e 12 de Abril duvidei que uma revolução democrática e pacífica fosse possível, o que aconteceu a 13 e 14 de Abril, quan­do essa imensa qu­an­tidade de pessoas saiu à rua para ro­dear o palácio de Mi­raflores e vários quartéis, exigindo o meu retorno, reafir­mou-se em mim, com muito vigor, a  ideia de que, sim, é possível. Claro que a batalha é dura e será dura e difícil. Trata-se da arte de tornar possível o que tem parecido, e continua a parecer, para muitos, como algo impossível."

Os títulos dos capítulos indicam-nos claramente quais os temas que a autora entendeu colocar ao presidente Hugo Chávez. Qual deles o mais perti­nente. Eis: 1. Antecedentes históricos mais relevantes; 2. A via pacífica: um parto institucional muito doloroso; 3. Os militares na revolução e na contra-revolução; 4. Avanço lento em direcção a uma economia alternativa; 5. Uma política internacional independente e soberana; 6. Camadas médias, estraté­gia de comunicação e diálogo; 7. Um partido à altura do processo; 8. O gol­pe de 11 de Abril.

O livro conclui com um posfácio de 23 páginas da própria autora, intitula­do "Venezuela pós-referendo: os novos desafios".

O texto tem vários apartados que a autora titulou assim: "Antecedentes económico-sociais"; "Segunda etapa: grande ofensiva opositora e esforços de sobrevivência do governo"; "Tercei­ra etapa: o árduo processo do referen­d­o"; "Quarta etapa: consolidação e a­pro­fundamento da revolução".

Em conclusão: Estamos perante um livro empolgante bem à altura do ho­mem e da revolução que ele anima.

A condição cristã

No mundo sem ser do mundo

Sal Terrae / Paul Valadier sj

A questão de que trata este livro é tão antiga como o próprio Cristianismo. E sempre terá que ser meditada pelas Igrejas, se quiserem permanecer fiéis à sua missão na história de serem sal da terra, luz do mundo e fermento na massa. Por isso a meditação que o autor, professor de filosofia moral e política nas universidades dos jesuítas em Paris, aqui apresenta ao longo de 260 páginas, é mais do que pertinente. É imperioso acompanhá-lo com toda a atenção.

"Uma meditação sobre a condição cristã - escreve o autor a abrir a intro­du­ção - não pode prescindir duma re­flexão sobre o estatuto do cristão no mundo actual. Mas uma reflexão desse tipo pressupõe outra e esta é precisa­men­te a que constitui o objecto destas páginas. Em que situação se encontram os recursos intelectuais e espirituais de que dispõe o crente cristão para ocu­par o seu lugar aqui e agora? Quais são as referências maiores sobre as quais podemos apoiar-nos para cons­truir a nossa identidade, encontrar as orientações para a nossa acção, situar-nos em relação aos outros, crentes ou não, que habitam o nosso mesmo mun­do e com os quais a nossa existência em comum teceu inumeráveis vínculos? (...) Não é urgente voltar a formular o sen­tido das nossas próprias referên­cias fundamentais, não para as impormos aos outros como as únicas verda­deiras, mas para ocuparmos o lugar que nos é devido no incessante diálogo que constitui a vida e a riqueza das nos­sas sociedades globalizadas ou mun­dializadas?"

Explica depois o autor como fez para realizar tão ambicioso objecti­vo: "A hipótese que orienta estas pági­nas consiste, justa­mente, na ideia de que uma teologia mo­ral que não fos­se além duma teo­lo­gia da moral não só seria demasia­do mesquinha, mas sobretudo não explicaria devida­men­te a lógica duma existência em Cristo. Por outras palavras: o cristão não pode ser desvinculado do seu ser-aí na história."

A meditação do autor desenvolve-se ao longo de cinco grandes temáti­cas, assim enunciadas por ele: 1. No mundo sem ser do mundo; 2. Uma de­ci­são sob palavra (A fé e os costumes); 3. Responsabilidade, pecado, história; 4. Uma humanidade inspirada; 5. Existir como Igreja.

O livro termina com um apartado intitulado "Decidir em consciência" que é também, de certo modo, o seu melhor resumo. No lúcido e corajoso dizer do autor, o crente "é em definitivo quem deve decidir e quem terá que dar con­tas da sua vida diante de Deus. Nin­guém pode substituí-lo nesta relação viva, mesmo quando esta não possa ser iluminada nem confortada sem a relação com o outro nem sem deixar-se instruir pela comunidade crente e pe­las tradições sapienciais que ela trans­mite. (...) Nenhuma autoridade po­de substituí-lo em tal decisão, porque então afastar-se-ia do âmbito duma decisão realmente cristã."

Percebe-se bem que a nossa con­dição cristã não está elaborada duma vez por todas. Cabe a cada geração e em cada cultura reinventá-la e vivê-la em diálogo com os demais. É para aju­dar nesse sentido que este livro foi es­crito. Corram por ele.

Qualidade Cristã

Identidade e crise do cristianismo

Sal Terrae / JI González Faus

Os escritos que o presente livro de 388 páginas recolhe são no dizer do autor "apenas alguns elementos que podem servir para diagnosticar a crise, identificar o medular do cristianismo e sugerir alguns caminhos por onde procurar as saídas". Porque assim é de facto o livro, importa que ninguém na Igreja, a começar pelo papa e pelos bispos, deixe de o ler/estudar/debater.

"Há nos evangelhos uma cena tes­temunhada pelos três sinópticos e que surpreende pela sua aparente contradi­ção: num momento de crise, Jesus, de­pois de perguntar aos apóstolos quem crêem que ele é, obtém uma resposta cor­recta e, a seguir, proíbe-lhes «taxati­va­mente» que o digam a alguém. Na narrativa de Mateus (16, 13ss) a con­tra­dição parece ainda maior: Pedro pro­nuncia a confissão de fé mais radical, Jesus louva-o com entusiasmo e, poucos versículos adiante, desautoriza-o cha­man­do-lhe nada menos que «Satanás». Porquê esta contradição?"

É com este facto evangélico que abre o livro. E logo prossegue: "A solu­ção do enigma é simples: os discípulos proclamavam uma fé verbalmente orto­do­xa, mas entendiam-na de maneira cla­ramente heterodoxa. Jesus é o Mes­sias e o Filho de Deus; porém, estas fór­mulas não significam em absoluto o que eles, naquele momento, entendiam por elas."

"A cena evangélica - sublinha com oportunidade o teó­logo-autor - dá-nos as­sim um elemento decisivo para o te­ma da identidade cristã. Para ser cris­tão não basta crer em Deus, se primeiro não se in­dica quem é esse Deus em quem dizemos crer. Nem bas­ta proclamar a filiação divina de Je­sus, se primeiro não se indica de que Deus é que Je­sus é Filho."

A citação saiu longa, mas justifica-se, porque ela, só por si, é a melhor a­presentação do livro. Estamos perante uma obra de teologia de qualidade jesuânica de primeira água. E perante um teólogo lúcido como poucos na a­ctu­alidade.

Mas talvez esta constatação que deveria ser um motivo mais para que ninguém fique indiferente ao livro e cor­ra por ele, poderá acabar por se cons­tituir na dificuldade maior com que ele aca­bará por esbarrar no terreno. Por­que, infelizmente, as populações cató­licas e os seus bispos residenciais e pá­rocos do que gostam é de um Cris­tianismo de devoções, de multidões, de promessas, de santuários, de ritos, de rotinas. Não gostam nada do Cristianis­mo de Jesus, o de Nazaré. Nem de quem tão lucidamente testemunha a­cer­ca dele, como sempre faz o teólogo-autor González Faus, também neste seu livro.

Entre as "pistas e tarefas" que o li­vro aponta na sua terceira parte, há umas que são para dentro ("des-he­lenizar o cristianismo" é logo a primeira apontada pelo autor), e outras que são para fora ("Crucificado e Ressuscitado. A contribuição cristã ao tema das reli­giões" é uma delas, juntamente com outra, "As tarefas do cristão perante a globalização").

Eis uma obra imprescindível neste início do terceiro milénio!


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Dias 7 a 10 de Setembro 2006

Bioética e Cristianismo

XXVI Congresso de Teologia de Madrid

O célebre jesuíta Juan Masiá, recentemente, declarado "maldito" pelos Bispos de Espanha, o badalado monge teólogo Marcelo Barros, do Brasil, e o grande especialista em Moral, Marciano Vidal, de Espanha, têm intervenções anunciadas e certamente polémicas no XXVI Congresso de Teologia de Madrid, marcado para os dias 10, 11, 12 e 13 de Setembro 2006, no salão de actos das Comisiones Obreras, da capital espanhola. A iniciativa é da Associação de Teólogas e Teólogos João XXIII. O lúcido teólogo Juan José Tamayo, de Madrid, também intervém, mas simplesmente para evocar a memória de Casiano Floristán, recentemente falecido, e que foi o primeiro presidente da Associação. "Bioética e Cristianismo" é o tema do Congesso que costuma congregar mais de mil participantes cada ano. Jornal Fraternizar tudo fará para acompanhar em presença o evento e fazer notícia na nossa próxima edição.

O Congresso abre ao final da tarde do dia 7, com a saudação do actual presidente da Associação, o teólogo Julio Lois, a que se segue de imediato a primeira conferência, "A revolução biogenética", a cargo do presidente da Fundação Cultura e Paz, Federico Mayor Zaragoza.

O conhecido humorista em assuntos eclesiásticos e religiosos, Siro Lopez, abre os trabalhos do 2.º dia com a apresentação de um audiovisual sobre "Beleza, Crítica e BioARTE". Também mantém diálogo com as pessoas participantes.

O Congresso é tecido com mesas redondas, todas no 2.º dia de trabalhos, e conferências, concentradas sobre o 3.º dia, sábado. A conferência mais esperada será, indubitavelmente, a do jesuíta Juan Masiá, na manhã do último dia. A sua lucidez e responsabilidade em questões de ética de fronteira tem incomodado os poderes hierárquicos da Igreja de Espanha, que, infelizmente, como todos os poderes hierárquicos católicos romanos, não se dão bem nem com uma nem com outra. Eles sabem que no dia em que as populações forem todas lúcidas e eticamente responsáveis como é hoje este jesuíta "maldito", ficarão sem "fiéis", ainda que Deus, o de Jesus, esteja invulgarmente feliz. Porque a glória de Deus é que os seres humanos cresçam em lucidez e sejam eticamente responsáveis.

A polémica questão da Eutanásia será abordada por Marciano Vidal, no decorrer da 2.ª Mesa Redonda que partilha com Fernando Marín. Por sua vez, as questões ligadas ao princípio da vida serão abordadas na 1.ª Mesa Redonda.


29 de Outubro, S. Pedro da Cova

7.º Encontro de Espiritualidade

"Evangelhos da infância de Jesus (Mt 1-2; Lc 1-2): Que tipo de Messianismo e de Messias/Cristo nos apresentam?"É este o tema, mais do que escaldante e oportu­no, que estará em debate du­rante o 7.º Encontro de Es­piritualidade com o ateís­mo e a idolatria generaliza­dos em fundo.

A iniciativa decorre dia 29 de Outubro, entre as 10 h e as 17 h, na casa-sede da As­so­ciação Padre Maximino/Jornal Fraternizar e é aberta a quem quiser participar. O que se pede às pessoas que decidirem aparecer é que, se possível, façam trabalho de casa, isto é, preparem-se pa­ra intervir no debate. E o façam com palavras carrega­das de So­pro ou Espírito de Jesus res­sus­citado.

O "prato forte" do debate é da parte da manhã. Segue-se o almoço partilhado em for­ma de Eucaristia, conse­gui­do com os alimentos que cada pessoa levar para a Me­sa comum. A Associação ofe­rece uma sopa de legu­mes a abrir. A tarde é de par­tilha de notícias dos gru­pos e Comunidades de Base, de poemas e de cantos, se possível originais.



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