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DOCUMENTO
Um morto sem sepulcro
Por Xabier Pikaza (Teólogo ibérico)
Ao contrário dos fundadores de religiões, Jesus, o de Nazaré, acabou como um maldito. E o seu cadáver pode ter tido como destino a vala comum. Em consequência, nem sequer teve direito a um sepulcro condigno. Os romanos do Império era assim que tratavam os subversivos que se lhes opunham. E Jesus não terá sido excepção, mas regra. Este, pelo menos, é o ponto de vista do teólogo ibérico, Xabier Pikaza, numa reflexão que ECLESALIA, de 8 de Maio, divulgou na íntegra. E que o Jornal Fraternizar tem a alegria de partilhar aqui com as suas leitoras, os seus leitores. Ninguém deixe de ler/debater/divulgar. Para que se acabe de vez com tanto infantilismo e beatice em torno de. Saibam que ele não fundou uma nova religião. Tem sido morto por todas elas.
Na última Semana Santa, assisti na praça de touros de Lerma à cerimónia impressionante da Via-sacra viva, que termina com um forte foco de luz a fazer sobressair uma enorme roda branca de pedra que rodou sobre o túmulo onde, antes, não foram depositados os cadáveres de Jesus e dos dois ladrões, enterrados com ele. Ao mesmo tempo que a voz do narrador nos despedia, na noite fria castelhana, dizendo que, outrora, os crucificados foram enterrados a toda a pressa pelas autoridades, para evitar que a noite caísse sobre uns corpos descidos do madeiro e estendesse a maldição sobre uma terra que se apressava para celebrar a Páscoa. Quiseram desse modo tapar e sepultar para sempre a vida dos crucificados, porém, não puderam.
Recordei nesse momento que uma grande parte das religiões são outras tantas formas de sacralizar os mortos, para os impedirem de viver. Costumamos lançar sobre os mortos uma lousa, enterramo-los bem, para que não saiam, para depois podermos continuar a viver como se nada se tivesse passado, até finalmente nos enterrarem também a nós ou nos queimarem num crematório, para que todos morramos e apenas prossiga a história de violência assassina sobre o mundo.
Porém, Jesus e os dois que morreram com ele não acabaram assim: a eles não puderam metê-los num túmulo, para que não saíssem, pois que eles vivem, como indicarei com a invocação de alguns traços surpreendentes e gozosos da tradição cristã.
O que ofereço aqui é apenas uma meditação, não um “dogma de fé”; é uma reflexão gozosa, não uma imposição teológica. Outros cristãos verão as coisas de outra maneira. Eu vejo-as assim, é assim que elas me são úteis e estão em sintonia com grande parte da exegese actual. Não quero criticar outras posições, apenas confessar aquela que, no meu entender, é mais coerente, mais conforme aos dados exegéticos e ao evangelho de Jesus, que é anúncio de Vida, não resignação de morte. Por isso, ao contrário do que alguns possam pensar, não nego a ressurreição de Jesus, apenas procuro situá-la melhor, no seu lugar histórico, a partir da vala comum para onde são lançados os crucificados da história humana, e para afirmar deste modo a fé do evangelho.
1. Jesus, um Messias sem sepulcro.
Para os seus primeiros seguidores, Jesus foi um morto sem sepulcro; a sua memória não esteve ligada a um monumento funerário onde se guardaram e veneraram através dos séculos os seus ossos, como sucede com tantos monumentos que enchem ainda hoje o duro vale de Josafat (ou da Gehenna), junto de Jerusalém. Nesse sentido, os cristãos começam a sua caminhada de fé com um “menos” (não têm nem sequer a consolação dum sepulcro). Porém, esse menos transformou-se num grande “mais”: não têm um sepulcro de Jesus, porque “o têm a ele inteiro, animando-os a retomar o caminho do Reino.
Desde aí podemos entender melhor alguns textos centrais dos evangelhos nos quais Jesus condena a religião dos comerciantes religiosos com os mortos : “Deixa que os mortos enterrem os mortos...” (Lc 9, 59-60); Mt 8, 21-22). “Ai de vós que edificais os sepulcros dos profetas...” (Lc 11, 47-48; Mt 23, 29-32). Jesus, que protesta contra os construtores violentos de sepulcros, não comprou em Jerusalém uma parcela de terreno onde pudesse vir a ser enterrado, nem pôde desejar que depois da sua morte lhe construíssem um sepulcro. Não morreu para deixar um monumento glorioso, mas para continuar a viver nos pobres que morrem e esperam/buscam o Reino de Deus.
2. A religião dos sepulcros caiados.
Como acabo de indicar, Jesus criticou a religião dos “sepulcros caiados” (Mt 23, 27), própria daqueles que constroem sepulcros de luxo aos condenados (religião de morte) pelos seus antepassados para, assim, poderem continuar a assassinar os justos seus contemporâneos (religião que mata).
Os que edificam sepulcros pensam que estão a honrar a memória dos mortos, porém o que fazem é outra coisa: no fundo, querem enterrar bem os assassinados, servindo-se da sua memória para continuarem a impor a sua violência (isto é, para continuarem a matar os profetas seus contemporâneos).
O Evangelho de Mateus insistiu no tema, aplicando aos escribas e fariseus (que não são apenas judeus, também podem ser cristãos): “Com isto dais testemunho contra vós próprios de que sois filhos daqueles que mataram os profetas. Vós, pois, acabai de encher a medida dos vossos pais!” (Mt 23, 31-32). Ao construir os monumentos dos mártires, dizendo que querem distanciar-se dos seus pais assassinos (que mataram os profetas), os filhos dos assassinos continuam a aprovar a violência dos pais, vivendo dela. Temos necessidade de matar para assim nos mantermos nós ao comando.
Nesse sentido, a nossa própria estrutura social acaba de revelar-se como culto da morte. Primeiro, matamos e depois (ou ao mesmo tempo) divinizamos ou sacralizamos os mortos, para assim nos justificarmos. Caminhamos sobre os cadáveres dos que matamos e enterramos. Assim disse Jesus. Por isso o mataram.
3. Não teve sepulcro digno, um “santo sepulcro”.
A tradição mais antiga é muito sóbria e diz apenas que Jesus “foi sepultado” (1Cor 15, 4), afirmando assim que morreu completamente. Alguns cristãos posteriores quiseram saber onde se encontrava o seu sepulcro, supondo que deveria ser digno, como aqueles que os homens ricos de Jerusalém mandavam erguer para si próprios. Porém, contra essa possibilidade (de que Jesus tivesse tido um sepulcro digno), vem-se insistindo desde antigamente num argumento muito sólido: os romanos costumavam deixar que os condenados públicos permanecessem no patíbulo, para escarmento público, ou então atiravam-nos para uma vala comum onde se corrompiam, sem cultos funerários, também para escarmento de outros possíveis criminosos.
Tendo isso em conta, são muitos os que hoje afirmam que Jesus não foi enterrado com dignidade, mas atirado pelos verdugos romanos para uma vala comum, uma lixeira para condenados, à qual nenhum homem puro podia ter acesso, sem se contaminar. De todos os modos, conforme a tradição dos evangelhos, é mais provável que o sepultassem “os judeus”, isto é, as autoridades israelitas de Jerusalém, que pediram a Pilatos os corpos dos condenados, pois, se os não enterrassem antes do cair da noite, esses corpos manchariam a terra e corromperiam a cidade, coisa impensável durante a festa da Páscoa (Jo 19, 31-37; Dt 21, 22-23).
Parece que o livro dos Actos (13, 29) nos situa nessa mesma linha, quando afirma que “os judeus baixaram Jesus da cruz e o sepultaram”. Teriam sido eles, os judeus, os que sepultaram Jesus, com autorização de Pilatos (ou dos romanos), por razões de pureza ritual. Foi este o chamado “santo sepulcro” de Jesus: os verdugos desceram-no da cruz e sepultaram-no, para que tudo pudesse seguir o seu curso, como se nada tivesse ocorrido.
4. Se analisarmos bem os textos, podemos traçar três possibilidades.
E todas estas três possibilidades encontram defensores entre os cientistas actuais, cristãos ou não cristãos: a) Os judeus pediram a Pilatos que mandasse descer da cruz os três condenados, porém, foram os próprios romanos que os enterraram, em alguma vala comum destinada aos condenados, ali mesmo ao lado, ou um pouco mais longe do local da execução, o chamado Gólgota ou Lugar da Caveira (Mc 15, 22; Lc 23, 33). b) Os judeus pediram os cadáveres e eles próprios os sepultaram à pressa, antes que chegasse o sábado pascal, por isso, sem unções nem cerimónias funerárias, numa vala comum de condenados e impuros, não no Gólgota, mas noutro lado, talvez no vale da Gehenna (lugar associado ao inferno). Neste caso, tal como no anterior, os discípulos (as mulheres) poderiam ter visto de longe o “santo sepulcro”, porém não puderam participar, nem depois separar o cadáver de Jesus dos outros cadáveres, de modo que ficaram “sem corpo”. c) Não se pode ignorar a hipótese de que Jesus tivesse um sepulcro digno, propriedade de José de Arimateia, um “judeu justo”, que o enterrou num sepulcro “puro”, cavado na rocha, enquanto as mulheres amigas observavam de longe, sem se poderem aproximar.
Sempre os cristãos tiveram que reconhecer que não tinham sepultado Jesus. Não tinham autoridade para isso! Mas puderam dizer que um judeu justo o sepultou e que eles (as mulheres) puderam, ao menos, observar de longe. Mais ainda. Neste caso, os cristãos podiam dizer que o sepulcro de Jesus foi um sepulcro limpo e puro, de um homem muito rico (pois só os muito ricos tinham um sepulcro assim em Jerusalém). Porém, neste caso, levantam-se muitas perguntas. Porque seria “puro” um sepulcro novo e limpo, exclusivo de Jesus, enquanto que uma vala comum já seria “impura”? Evangelicamente, pelo menos, desde o evangelho da cruz, é mais pura uma vala comum (a lixeira dos condenados!) que o sepulcro dos ricos.
Pessoalmente, penso que um sepulcro rico para um Jesus pobre, condenado como ele foi, é, pelo menos, muito problemático (para não dizer, contraditório). É mais coerente pensar, do ponto de vista histórico e teológico, que Jesus morreu e foi sepultado como os pobres da história, na linha de Isaías 53, 9: “Foi sepultado com os ímpios”.
5. Não o encontraram no sepulcro.
Seja como for, a verdade é que a Jesus não o encontraram no sepulcro, ou porque o seu cadáver não podia ser separado dos outros cadáveres (hipótese da vala comum), ou porque o sepulcro onde presumivelmente o rico José de Arimateia o havia colocado foi encontrado vazio, por qualquer motivo. Num caso ou noutro, as mulheres, os amigos verdadeiros (os discípulos) não puderam encontrar o cadáver de Jesus, não puderam embalsamá-lo e sepultá-lo com dignidade e voltar depois lá cada semana, cada ano, a celebrar o aniversário da sua morte. O facto histórico é que Jesus acabou sem sepulcro próprio, mas morreu com amigos, talvez escondidos ao princípio, muito visíveis depois. Os primeiros cristãos foram um grupo de amigos sem cadáver, de sepultadores sem sepulcro, de lamentadores sem corpo presente diante do qual se lamentar.
Mas regressemos ao tema do sepulcro. A exegese dos textos evangélicos não nos oferece mais dados, de maneira que cada qual pode interpretá-los segundo o seu sentir. Pessoalmente, sinto-me muito mais próximo da tradição de um enterro feito por judeus ou romanos: penso que uns ou outros (uns e outros?) arrojaram o cadáver de Jesus para uma vala comum, juntamente com os outros dois condenados, uma vala comum onde estavam já a apodrecer muitos outros expulsos da vida, mortos sem honra, corpos sem bênçãos funerárias, sem monumentos honoríficos, como aqueles que Jesus condenou, quando entrava em Jerusalém e que ainda hoje podem ver-se na parte baixa do vale de Josafat, orgulhosamente à espera da ressurreição final!!!
6. Jesus desceu ao inferno da sua própria morte
Não o enterraram com glória, ao toque da trombeta, elevando sobre o cadáver uma pirâmide de louvores ou escavando para ele um monumento subterrâneo. Não teve um funeral com chefes de estado e sacerdotes, com filas imensas de seguidores. Pelo contrário, os seguidores estavam em grande parte escondidos, as mulheres amigas só podiam ver à distância. Sepultaram-no depressa, muito depressa, por puro ofício, uns soldados romanos ou os criados dos sacerdotes.
A vida histórica de Jesus acabou onde tinha que acabar: na vala comum dos assassinados da história humana, ao lado dos milhares de expulsos, excomungados, ostracizados pela sociedade triunfante. Foi aí que o quiseram lançar juntamente com os outros dois crucificados com ele (talvez com a ajuda de um homem bom, chamado José de Arimateia), para que os outros (os judeus e romanos triunfadores, nós próprios!) pudéssemos continuar a celebrar a vida orgulhosa duma Páscoa dedicada ao Deus da vitória dos “bons”.
Pois bem, dessa maneira, Jesus desceu ao inferno da história humana, através duma vala comum, para dar vida aos mortos, segundo confessa estremecida a tradição cristã (o credo romano).
7. Logicamente, não puderam encontrar o seu corpo.
Como separar o corpo de Jesus dos outros corpos dos condenados? Como distinguir a sua carne rasgada da carne rasgada e dos ossos duros dos milhares e milhares de homens e mulheres lançados à vala comum duma história que expulsa os mortos incómodos? Por isso, as mulheres em Marcos 16, 1-8 puderam ver a sepultura onde puseram o seu cadáver (a vala comum), mas não puderam encontrar o seu corpo, nem embalsamá-lo com dignidade, nem levá-lo para casa, como quis, em delírio de amor, Maria Madalena (Jo 20). Não pôde fazê-lo, simplesmente porque era impossível.
Porém, depressa descobriram que a razão era muito mais profunda, uma razão de Deus, razão de Vida e de Páscoa: Não puderam encontrar Jesus, porque “ele não estava ali”, porque ele se encontrava vivo na Vida da mensagem que havia proclamado, na mais intensa travessia do caminho do Reino que havia iniciado e semeado na terra. Se o grão de trigo não morre... (Jo 12, 24).
Desse modo, o que podia ser suprema maldição (a maldição de morrer sem ter um bom enterro e um digno sepulcro!) acabou por tornar-se bênção suprema, revelação do Deus de Jesus Cristo, na linha de todo o Evangelho. Como se vai poder guardar o grão de trigo, numa espécie de vitrina, para que todos os vejam, se ele não existe separado, se ele se fez espiga imensa que se abre como pão para todos os pobres da terra?
Jesus havia penetrado já no abismo da morte, porém não para permanecer ali. Por isso, não puderam depositá-lo num monumental sepulcro de mártir (como o de Maomé em Medina, como o dos apóstolos em Roma, como o de Lenin em Moscovo), pois a sua morte transformou-se em Vida para todos e neles viveu e, desde então nunca mais deixou de viver nos que cremos nele e prosseguimos as suas causas. Por isso, o anjo da Páscoa disse às mulheres, na palavra de fé que continuamos a escutar: “Não está aqui, ide à Galileia, isto é, ao caminho da sua vida... Ali o encontrareis, com aqueles e naqueles que aceitam a sua história” (Mt 16, 7-8).
8. Deus transforma a morte do justo em vitória de vida.
Desde aí, pode ler-se o relato simbólico de Mt 28, 1-4, que evoca a acção escatológica de Deus, que começou a profanar os sepulcros da velha história de morte, para oferecer desse modo uma esperança aos crucificados e aos mortos da história (cf. Mt 27, 51-53).
É muito difícil assegurar o que se passou fisicamente com o seu cadáver, porém, segundo a tradição que evocámos, Jesus “desceu aos infernos”, entrou até ao fim no reino da podridão e da morte, para iniciar a partir daí um caminho de Páscoa (cf. 1Pedro 3, 18-22).
Histórica e teologicamente, o que importa não é um desaparecimento físico-biológico do seu cadáver, mas a experiência de vida e presença de Jesus entre os seus seguidores. Por isso, quando os textos evangélicos (a partir de Marcos 15, 42-16, 8) falam dum sepulcro digno do Messias, não estão a falar de um facto físico, mas de um mistério de fé: o próprio Deus recolheu Jesus do abismo da morte em que ele penetrou, ao ser enterrado com os crucificados e excomungados da História.
O santo enterro de Jesus é o enterro dos mortos sem nome, que são lançados todos os dias às lixeiras da História. O santo sepulcro de Jesus é “a morte que se converte em princípio de vida”. Jesus não está ali onde quiseram enterrá-lo à pressa, para que o seu corpo não contaminasse a terra em tempo de Páscoa. Por isso, os cristãos não somos guardas de um sepulcro, mas mensageiros de um túmulo vazio, que é canteiro de vida. Somos testemunhas da Vida de Deus que ressuscita os crucificados da História humana. Por isso, mesmo que tivéssemos a certeza que Jesus tinha sido sepultado num sepulcro digno que depois apareceu vazio (sem que se possa encontrar explicação para isso), deveríamos acrescentar que esse dado físico é secundário e inclusive, incómodo para o evangelho de Jesus.
A memória de Jesus não está vinculada a um sepulcro venerável, como a do rei David, sepultado com honra e glória em Jerusalém (Actos 2, 29), nem a um espírito-fantasma que actua através de outros personagens que recebem o seu poder e podem assim realizar prodígios (como pensava Herodes, referindo-se ao Baptista, Mc 6, 14-16). A memória de Jesus identifica-se com a vida dos seus discípulos que difundem o seu evangelho, e com a vida dos pobres da terra que continuam a ser lançados e excomungados para túmulos sem honra nem glória, assassinados pelo mesmo sistema de poder que assassinou Jesus e atirou o seu cadáver para uma vala comum infame.
9. Conclusões. Sentido histórico e teológico.
A partir daqui, entendem-se agora melhor, na minha opinião, os belíssimos relatos dos evangelhos sobre túmulo vazio, que a Igreja transmitiu não como prova histórica da ressurreição, mas como sinal da fé pascal que ela confessa, porque os cristãos “viram Jesus ressuscitado”. Logicamente, esses textos possuem mais valor simbólico que puramente físico. Por isso, num plano de história física (saber o que se passou) e de biologia (saber se o cadáver de Jesus se decompôs ou desmaterializou), devemos ter muita sobriedade, pois resulta difícil chegar a conclusões “científicas”.
Com os meios da exegese, parece difícil afirmar que Jesus teve um enterro digno e que o seu sepulcro (propriedade de um rico e famoso judeu) foi encontrado depois vazio, sem que humanamente se pudesse saber o que se passou. Certamente, pôde haver um sepulcro rico que depois se encontrou vazio. Mas, na minha opinião, é mais provável que fosse enterrado como um condenado político perigoso e que nenhum dos seus pudesse aproximar-se do seu túmulo (que era maldito, talvez protegido por uma proibição), distinguir o seu cadáver, para separá-lo e honrá-lo, deixando lá à sua sorte os outros crucificados ou condenados que se iam consumindo sem dignidade. Não! Jesus nunca abandonaria os outros condenados, pois quis compartilhar com eles a sua sorte, sempre! Num ou noutro caso, tivesse ou não sepulcro próprio, Jesus foi e continua a ser para a Igreja um morto sem sepulcro, um morto que funda com a sua Vida a vida da História. Por isso, mesmo que tivesse tido sepulcro, os cristãos têm que o abandonar: Jesus não está lá, não é um corpo para monumentos, não é uma múmia santa, incorrupta, sobre a qual se possam edificar grandes pirâmides ou basílicas, para assim enterrar a chama da sua vida. Jesus é um morto que está Vivo, um morto que começou a ressuscitar na fé dos seus discípulos, na vida dos homens e mulheres que o aceitam, com todos os que morreram e foram sepultados como ele na vala comum da História. Porém, não está vivo só na fé dos seus seguidores: está vivo em Deus, no Deus que ressuscita os mortos (Rom 4, 23), no Deus que revelou através dele e nele a nova história da Vida.
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IGREJA / SOCIEDADE
6.º Encontro de Espiritualidade (1)
Este nosso século 21 será
jesuânico ou não será
Aconteceu, no domingo, 30 de Abril de 2006, o 6.º Encontro de Espiritualidade com o ateísmo e a idolatria em fundo. Foi na casa-sede da Associação Padre Maximino/Jornal FRATERNIZAR, em S. Pedro da Cova. Éramos quase meia centena. Com uma boa presença de gente nova, à procura de autenticidade na dimensão do seu viver humano e de Fé cristã jesuânica. Para lá de algumas pessoas de S. Pedro da Cova, acorreram outras pessoas provenientes de Lisboa, Caparica, Coimbra, Moçambique, Porto, Gaia, Guimarães, Lixa, Fiães, Viseu, Lourosa, Moselos, Famalicão, S. João de Ver. Coube ao Pe. Mário abrir o Encontro, a preparar o contexto em que deveria decorrer o debate partilhado por quem quis intervir (e muitas foram as pessoas que trouxeram trabalho de casa) sobre o tema em agenda: “Jesus: Porque o mataram? E porque o proclamaram Ressuscitado?” O Pe. Mário usou da palavra durante quase uma hora, o que perfez a 1.ª parte do Encontro. A 2.ª parte, depois de um curto intervalo, foi o debate propriamente dito, com o Pe. Mário mais à escuta. Quando voltou a falar, já mais no final da manhã, foi para partilhar o seu ponto de vista sobre o tema em debate. A 3.ª parte do Encontro foi o Almoço Partilhado em forma de Comida Eucarística e que resultou numa Experiência do Ressuscitado no meio de nós absolutamente inesquecível e profundamente marcante. A 4.ª parte foi de tarde, feita de Partilha de notícias das Comunidades de base e outros pequenos Grupos, e de Convívio. Duas horas cheiinhas e com muito Espírito. O que se segue é o texto-base em que o Pe. Mário se apoiou para fazer a abertura do Encontro. Logo depois, vêm os tópicos do que foi a sua intervenção durante o debate sobre o tema agendado para o Encontro. Antes, porém, Jornal Fraternizar faz questão de sublinhar que as pessoas que ainda se não decidiram a participar nestes Encontros de Espiritualidade nem sabem o que estão a perder. É cada vez mais claro em quem participa que só Jesus, o de Nazaré, é essencial. De modo que quem é encontrado por ele, nunca mais se interessa por todas essas muitas coisas bobas com que Igrejas e Religiões e Sociedade em geral andam atarefadas. Jesus é o único Necessário que dá sentido e prazer à vida. Jesus e a sua Missão na História, que nos compete prosseguir sem desfalecimento, no hoje e aqui de cada qual, guiados e impulsionados pelo seu Sopro/Espírito. Eis.
1. Trago-vos uma boa notícia e também um alerta: Este nosso século 21 será jesuânico, ou não será. Igualmente, este nosso 3.º milénio, será jesuânico, ou não será. O ateísmo pode continuar a desenvolver-se e tornar-se até um fenómeno de massas. A par da Espiritualidade. Em especial, o ateísmo jesuânico que é a recusa/negação de todos os deuses que imaginamos e inventamos em consequência dos nossos medos e dos nossos interesses. Trata-se de um ateísmo que recusa/nega todos os deuses que se alimentam de gente e que foram criados para justificar e abençoar o que é historicamente intolerável, seja ao nível do institucional, seja ao nível de comportamentos e de ideologias, seja ao nível de religiões e até de Igrejas cristãs.
Porém, um ateísmo não jesuânico depressa descambará, em minha opinião, em idolatria. Uma idolatria laica, certamente, e secularista, mas que, como toda a idolatria não deixa qualquer espaço para os seres humanos, mulheres e homens, pelo menos, enquanto realidades abertas e portadoras de perguntas essenciais que não podem ser respondidas com mentiras, como são todas as respostas que até hoje nos têm sido dadas pelas religiões. Ei-las: Quem sou/somos? Donde venho/vimos? Para onde vou/vamos? E com que meios posso/podemos lá chegar?
2. Ao contrário, o ateísmo jesuânico mantém-nos abertos ao Mistério que somos. E, com isso, defende-nos de todas as falsas respostas às perguntas essenciais que somos e que transportamos. E porquê? Porque o ateísmo jesuânico é o único que sempre dá mais importância às perguntas essenciais que às respostas que possam ter sido dadas a essas perguntas, através dos tempos, ou mesmo ao longo da vida histórica de cada ser humano concreto. As quais, a bem dizer, não passam de Mentira, nomeadamente, se são respostas que, uma vez dadas, nos dispensam de continuarmos com as perguntas. Tais respostas, que nos dispensam de continuarmos com as perguntas essenciais, acabam por nos converter em seres fechados, rotineiros, instalados, parados, conformados, numa palavra, mortos para o Essencial, por isso, seres nem frios nem quentes. As perguntas essenciais, mais do que as respostas, é que nos mantêm vivos e abertos ao Mistério, a Realidade mais real que não apanhamos nunca, nem tocamos, mas que nos puxa, nos desinstala, nos provoca, e nos coloca em estado de êxodo…
3. O ateísmo jesuânico faz mais. Ao manter-nos abertos ao Mistério e como seres com perguntas essenciais, impede que nos tornemos seres sem causas e sem Projecto, sem laços e sem afectos, sem razões de viver e sem militância essencialmente política. O mesmo é dizer, impede que nos tornemos seres apenas consumidores mais ou menos compulsivos, canas agitadas ao sabor dos ventos da publicidade, ou seres que se dão a conhecer pela marca do carro que usam, pela conta bancária de que dispõem, pelo padrinho que os protege, pelo número de moradias que possuem e desfrutam, pelos hotéis de luxo que frequentam e pelas estâncias balneares em que passam as férias. Numa palavra, seres que nunca se dão a conhecer pelo SER. Apenas pelo TER. Por isso, nunca se apresentarão como Jesus, o de Nazaré, quando os representantes do Templo e do Império foram por ele para o prender: “Eu sou!”. Apenas se apresentam com um estúpido “Eu tenho!, ou Eu conquisto!, ou Eu compro!, ou Eu possuo armas nucleares!... Numa palavra, seres que já não procuram mais respostas para as perguntas essenciais que somos e formulamos, ou pior ainda, seres que esqueceram por completo as perguntas essenciais que somos e que nos cumpre formular uma e outra vez e sempre. São, por isso, seres que existem, mais do que vivem. Decaíram do Humano para o Animal. E, de regressão em regressão, poderão acabar abaixo do Animal, simples Coisa, sem relação com ninguém, sem referências, sem história, sem passado nem futuro e, por isso, também sem presente, meros bonecos articulados que uma Mão Invisível toda poderosa um falso deus maneja a seu bel-prazer. É nisto em que estamos a converter-nos hoje e em grande escala. Ora, se as coisas são já assim tão inumanas e ainda só estamos no princípio deste processo de Descriação dos seres humanos, como estaremos daqui a 100, 500 anos?
4. Urge mudar de rumo. Urge deixarmos de viver sob a tirania do TER e do PODER a tirania do D. Dinheiro e do Império para regressarmos à Ecologia do Ser! Para tanto, precisamos de regressar a Jesus, o de Nazaré. Ao seu ateísmo e também, evidentemente, à sua Espiritualidade. Numa palavra, precisamos de regressar ao seu Sopro ou Espírito. Os séculos que nos precederam foram de Cristandade. Não foram de Jesus. Produziram o momento em que vivemos. Quando a sociedade começou a tornar-se independente da Cristandade, também começou a rebelar-se contra ela e contra os seus chefes os clérigos de alta patente e os de baixa e contra tudo o que eles fazem e dizem, concretamente, contra as respostas moralistas e de mentira que eles haviam dado, para todo o sempre, às perguntas essenciais que somos e transportamos connosco. Tornou-se, então, uma sociedade progressivamente agnóstica e ateia. Saudavelmente agnóstica e ateia. Com cada vez maior número de agnósticos e de ateus. Faltou-lhe uma coisa essencial: (re)descobrir Jesus, o de Nazaré. Ficou-se, quando muito, pelo Jesus das catequeses infantis e da cultura/arte da Cristandade, que traz nos genes, desde há quase dois mil anos, por sinal, mais Cristo do que Jesus. Praticamente, desconhece Jesus, o de Nazaré. No melhor dos casos, conhece uma figura mítica a que chama Jesus-Cristo. Não conhece o Homem Jesus, muito menos, tem consciência porque é que o mataram/crucificaram e porque é que algumas, alguns que andaram, andam com ele o proclamaram, proclamam Ressuscitado.
5. Vai daí, o ateísmo, inicialmente positivo, enquanto recusa da Cristandade e do seu deus vampiro e conquistador, bem como do seu clero e das suas catequeses moralistas e terroristas, acabou, com o rolar dos anos, por se tornar um dado absoluto, princípio e fim de tudo, por isso, uma espécie de novo deus, falso e laico, um ídolo dos mais perigosos. De saudável ateísmo que começou por ser, passou a correr o risco de acabar em verdadeira e perigosa idolatria. E, então, como em toda a idolatria, deixará de ter lugar para Deus e para os seres humanos, nomeadamente, os seres humanos que se mantêm abertos ao Mistério e portadores de perguntas essenciais. Apenas haverá lugar para o ídolo. E para as suas falsas respostas (ainda que pretensamente científicas!) dadas às perguntas essenciais que os seres humanos, enquanto tais, são e se colocam.
6. Caímos assim numa espécie de Cristandade laica, em que o mítico Cristo já não é o das Igrejas, mas o do ateísmo. E o resultado é bem pior que o da Cristandade. Porque o Cristo mítico da Cristandade, embora falso, ainda deixava algum sentido ao viver das pessoas na História. Não valorizava o presente, o histórico, apenas o além, o após morte; as pessoas e as populações eram levadas a desprezar o presente, sacrificavam-no em nome do além, mas a verdade é que viviam o presente com regras, com virtudes, com moderação. O medo do castigo eterno guardava a vinha. Era uma crueldade, uma opressão e uma repressão, mas havia algum sentido no viver colectivo do dia a dia. Ao passo que na Cristandade laica do ateísmo/idolatria, que rapidamente está a ser absorvida/comida pela Cristandade do D. Dinheiro (onde estão os ateus que decidem ser pobres e viver pobres até ao fim dos seus dias?!) e na do seu filho mais perverso, o D. Poder, que é mentiroso e assassino, praticamente já não há passado nem futuro e cada vez há menos presente para a esmagadora maioria da população mundial, as chamadas maiorias empobrecidas e excluídas da Humanidade. O Cristo desta Cristandade, hoje apelidada de Globalização, é o D. Dinheiro, o novo deus todo-poderoso que fabrica vítimas aos milhões para logo as sacrificar nos múltiplos altares do Mercado Total e das suas principais Bolsas, com destaque para as de Nova Iorque e de Londres. Trata-se de um Cristo/deus cruel, que exige sacrifícios humanos e não deixa qualquer saída com dignidade aos seus adoradores.
7. Estamos então perdidos? Não! Lembrem-se que comecei por vos dizer que trazia para este encontro uma boa notícia e um alerta. Eis a boa notícia:
Nem sequer é preciso abandonarmos o ateísmo, hoje, cada vez mais generalizado. Muito menos é preciso regressarmos às Religiões, velhas ou novas, muito menos à velha Cristandade Ocidental. Não! Pelo contrário, faz parte da boa notícia esta proclamação eventualmente chocante: Religiões nunca mais! Cristandade Ocidental ou outra nunca mais! Basta que o ateísmo generalizado do século 21 e do terceiro milénio seja um ateísmo jesuânico, o mesmo é dizer, não absoluto. Seja um ateísmo em relação a todos os deuses e deusas das Religiões e das Igrejas em versão Cristandade Ocidental. Seja um ateísmo humilde, capaz, por isso, de parar diante dos seres humanos concretos e diante do mistério que é cada um. Seja um ateísmo aberto ao Mistério, como o de Jesus. Que não aprisione os seres humanos na História, pelo contrário, seja capaz de se abrir, juntamente com os seres humanos, ao Mistério. Aguente as perguntas essenciais que os seres humanos somos e transportamos connosco e recuse todas as respostas com ar de definitivo. E prefira sempre as perguntas às respostas dadas ao longo dos séculos, também as dadas por ateus antigos e novíssimos.
8. O que é preciso, imperioso e urgente é regressarmos a Jesus, o de Nazaré, o Jesus histórico resssucitado. É com ele que seremos. E que encontraremos a saída e o caminho. Ele é o caminho, a verdade e a vida. Dele se diz, na língua da Teologia, que é também a da Poesia, que nasceu por força do Sopro/Espírito libertador (= aberto ao Mistério que é mais íntimo a nós do que nos próprios e que nos mantém no ser); que viveu possuído, 24 horas sobre 24, pelo Sopro/Espírito (= aberto ao Mistério que é cada ser humano com quem historicamente se cruzou e de quem se fez próximo); e que, ao morrer, exalou/entregou/deu o Sopro que o fez e habitou (= não caiu no Nada, nem se fechou num túmulo, antes abriu-se na totalidade do seu ser à totalidade do Ser). É por isso que o viver de Jesus na História foi ininterruptamente o de um Homem-para-os-demais. Nele, pudemos ver/conhecer o ser humano integral e o Deus que nunca ninguém viu nem verá jamais. Mas ver/conhecer Deus à maneira humana, por isso, sempre aberta, nunca acabada, sempre em busca, sempre às apalpadelas, como em espelho, numa palavra, sempre em deserto, muitas vezes, verdadeira noite de sentidos. Mas sempre na companhia de Jesus e de ateus. E na comunhão com o seu Sopro.
9. Regressemos, pois, a Jesus, o de Nazaré. Não à Cristandade. Nem às religiões, as antigas ou as recentes. Mas, primeiro, resgatemos Jesus da Cristandade e das Religiões cristãs e outras. Resgatemo-lo também do Templo e do Império. Ousemos começar de novo. Fazer acontecer um Novo Começo. Demos corpo ao homem novo jesuânico, à mulher nova jesuânica. Saibam que, nessa etapa da História e da Humanidade em estado de maioridade, já nem sequer são precisas Igrejas. Apenas a Humanidade concebida como comunidade de comunidades, todas elas tocadas/empurradas pelo Sopro/Espírito de Jesus Ressuscitado. Humanidade jesuânica, simplesmente. E tudo o mais virá por acréscimo.
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6.º Encontro de Espiritualidade (2)
E porque o mataram?
1. Entre Sócrates, o célebre filósofo grego, e Jesus, o de Nazaré, há um abismo. Embora ambos sejam considerados modelo de ser humano. Ambos foram incómodos, até ao ponto de terem de morrer antes de tempo. Mas Sócrates foi condenado a beber a cicuta e bebeu-a com satisfação, enquanto proclamava que, graças a ela, ia mais depressa juntar-se aos deuses em troca do inferno que deixava neste mundo, uma espécie de prisão, ou degredo onde a sua alma havia estado condenada a viver. A morte era a sua libertação definitiva. Ele próprio tomou a cicuta e bebeu o veneno que o matou.
Jesus, ao contrário, foi crucificado e morreu no total abandono e na total humilhação. No meio da maior das escuridões humanas: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” Porém, nunca o ser humano o foi tanto como naquele momento. E também Deus nunca o foi tanto! Na máxima escuridão interior, Jesus abre-se ao Mistério, como um menino. E morre aberto ao Mistério. O silêncio de Deus foi para Jesus a palavra mais eloquente. Assim como a ausência de Deus foi para Jesus a sua maior Presença. São o silêncio e a ausência de Deus na História que “puxam” por nós para que sejamos cada vez mais seres-em-relação.
2. Porque o mataram? De repente, os chefes das instituições que se têm como donas das respostas às perguntas essenciais que todos somos e transportamos, perceberam, ao verem Jesus em acção, que a função deles, apesar de vestida da aura do sagrado e do divino, era, afinal, pura Mentira e geradora de Medo. Como tal, era uma função que só trazia Opressão e Morte às pessoas e aos povos. Afinal, eles não eram senão os profissionais da Mentira e do Crime institucionalizados e os alimentadores do Medo. E os comerciantes de Deus. Por isso, mentirosos e assassinos. Tinham o Medo por mãe e a Mentira por pai. Os frutos que produziam só podiam ser perversos. Como dizia Jesus, todos eles existiam para matar, roubar e destruir, em lugar de suscitarem vida e vida em abundância para todos.
Quando isto perceberam Jesus é a Revelação que faz cair o véu ideológico que esconde a perversão e a mentira e as disfarça de sagrado e de verdade só tinham uma de duas saídas: ou uniam-se a Jesus no desmascaramento da perversão e da mentira de tudo o que faziam; ou uniam-se furiosamente entre si contra Jesus e contra a Revelação que a sua prática libertadora dos oprimidos de toda a espécie punha gritantemente em evidência. Optaram por esta última. E depois, para que nunca mais ninguém se atrevesse a pôr os olhos em Jesus, nem jamais acolhesse a Revelação que saltou da sua vida, mataram-no. Mas não de qualquer maneira. Mataram-no com o género de morte que constituiria Jesus para sempre como o maldito dos malditos de Deus. E à sua Revelação, como a Mentira das mentiras. A morte na cruz era a única, naquele contexto cultural e político, que servia aos desígnios deles: “Maldito o que morre na cruz!” E isso é o que eles pretendiam. Para sempre. E foi por esse tipo de morte que avançaram. Para que nunca mais ninguém pronunciasse o nome de Jesus, muito menos desse a mínima atenção à Revelação que a sua vida/morte fez acontecer.
3. E porque o proclamaram Ressuscitado?
Esta proclamação é a prova inequívoca da verdade que é Jesus. E que vale mais do que todas as “aparições” do Ressuscitado que, aliás, não aconteceram como factos históricos. São puras narrativas teológicas e poéticas destinadas a despertar em quem as ouve a Fé em Jesus, isto é, a quererem ser mulher, homem do mesmo jeito que ele e com as mesmas causas dele.
A verdadeira mudança/ressurreição que historicamente se viu e testemunhou é, não a de Jesus (seria, quando muito, a reanimação do seu cadáver, para depois voltar a morrer daí a algum tempo, coisa mais boba!), mas a das discípulas, dos discípulos, por sinal, não muitos, apenas um punhado (S. Paulo, que escreveu muito próximo dos factos, chega a avançar uma cifra, muito por alto. Fala em “500 irmãos”). Em lugar de continuarem, como até então, a comportar-se como filhas, filhos do Medo e da Mentira oficializada concretamente, a comportar-se como se o Templo e o Império fossem instituições sagradas e divinas que ninguém pode pôr em causa; como se Jesus fosse o maldito de Deus e o Evangelho que ele praticou e anunciou fosse a Mentira a ser silenciada para todo o sempre tornaram-se, algum tempo depois da morte dele, mulheres/homens espantosamente livres e libertadores, festivos, alegres, destemidos, da mesma fibra e do mesmo sopro de Jesus, por isso, determinados a regressar à Galileia, isto é, a levarem por diante a mesma prática libertadora de Jesus e a desmascararem como ele o Perverso que são para todo o sempre o Templo e o Império.
Semelhante mudança nas discípulas, nos discípulos, é o sinal inequívoco de que Jesus vive-para-sempre-no-Deus-de-vivos-e-não-de-mortos, isto é, de que Jesus é quem tem razão e não os chefes que o mataram, e, por isso, a Humanidade encontrar-se-á consigo mesma (= salva-se), se ousa seguir a prática libertadoramente de Jesus, e perde-se se o toma por um maldito e opta por seguir a prática dos chefes de turno do Templo e do Império.
Proclamar que Jesus é o Ressuscitado é o mesmo que proclamar que ele, e não os chefes das instituições que o mataram, é que está no certo, é quem tem razão e que Deus Vivo é com ele que está, não com os chefes nem com as instituições que eles representam. Infelizmente, nunca nos disseram esta boa notícia ao longo dos séculos, sempre no-la esconderam e entretiveram-nos com delírios mais ou menos esotéricos de Jesus a sair pelo túmulo como um cadáver reanimado…
Em consequência deste desvio, a Humanidade passou a ocupar-se com novas liturgias e novos cultos, à volta de altares e de templos e basílicas, e esqueceu por completo Jesus, o de Nazaré, a sua Revelação e o seu mandato a irmos por todo mundo a anunciar o seu Evangelho a toda a criatura, missão decisiva e única, pois só ela poderá fazer com que as pessoas e os povos se libertem do Medo e da Mentira, dos chefes do Templo e do Império que perpetuam o Medo e a Mentira de geração em geração, quando só Jesus e o seu Evangelho, a sua Revelação interessam à humanidade. Pois só Jesus e o seu Evangelho, que inclui como essencial, o desmascaramento do Templo e do Império e por isso o seu derrube puro e simples, nos tiram do Medo e da Mentira e nos tornam insurrectos e ressurrectos, inteiramente disponíveis para a Missão, na continuação da mesma Missão de Jesus, desde a Galileia até ao calvário.
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A Cruz é invenção do Império, não de Jesus
In Diário Aberto www.padremariodemacieira.com.sapo.pt
A cruz só entrou na vida de Jesus porque
o Templo e o Império lha impuseram. Os dois
não lhe perdoaram que Jesus os identificasse
com o Perverso e o Mentiroso. Havemos por
isso de nascer/viver longe dos Templos e dos
Impérios. Em frátrias de bens Partilhados que
nos façam crescer em ser e em liberdade.
O Templo e o Império não se deram por
vencidos e prosseguiram indiferentes a ser o
Perverso e o Mentiroso. Sabem os seus chefes
de turno que esses são os meios mais eficazes
para perpetuarem uma Ordem mundial que lhes
garante privilégios e ainda os trata como deuses.
E até as suas inúmeras vítimas lhes prestam culto.
A traição maior é a das Igrejas. Aconteceram um
dia por obra e graça do Sopro/Espírito de Jesus
para prosseguirem na História a sua subversiva e
libertadora postura contra o Mentiroso e o Perverso
que são o Templo e o Império. Mas acabaram elas
próprias templo e império. E até da cruz fizeram a sua
identidade. Em lugar das frátrias de bens Partilhados.
O mandamento maior de Jesus é que as Igrejas
Partam o Pão e o Vinho em Sua Memória num clima
de amor recíproco. Para se consolidarem como
frátrias de bens Partilhados no meio do mundo. E
fazerem crescer a vida dos povos em ser e liberdade.
Mas logo vieram os Ritos e os Rituais soprados
pelo Templo e o Império. E tudo se perverteu de novo!
Sem Igrejas-frátrias de bens Partilhados crescem
mais e mais o Templo e o Império. E o Perverso
e o Mentiroso que eles são. Os séculos tornam-se de
chumbo e não têm conta os crucificados. São de
sangue e lágrimas os rios e os mares. A Terra
enlouqueceu e desistiu de ser jardim para ser túmulo.
E hoje até a História parece ter chegado ao fim.
São já vinte os séculos sobre a Páscoa de
Jesus e nunca como hoje o Império e o Templo
produziram tanta Perversão e Mentira à escala
global. Por isso ou regressamos a Jesus e à via
libertadora que ele abriu ao identificar o Perverso
e o Mentiroso com o Templo e o Império ou não
chegaremos nunca a ser homem/mulher. Nem povos.
Tudo o que decidem e fazem o Templo e
o Império é Perverso e Mentiroso. E só não
chegamos a reconhecer tão hediondos crimes
porque tudo nos é habilmente apresentado como
conquistas e sucessos. E na História mandada
escrever pelos seus chefes de turno jamais constará
um só registo sobre as suas inúmeras vítimas.
É subversiva e perigosa a Memória de Jesus mas
quando realizada em ambientes de clandestinidade
longe do Templo e do Império e como alimento de
fecundas conspirações contra eles. Quem come daquele
Pão Partido e bebe daquele Vinho Derramado torna-se
outro Jesus pronto a desmascarar perante o mundo o
Perverso e o Mentiroso que são o Templo e o Império.
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Como é que Jesus nos livrou
da morte, se continuamos a morrer?
In Diário Aberto www.padremariodemacieira.com.sapo.pt
Os chefes das Igrejas não se cansam
de repetir em cada Páscoa - e a de 2006
não foi excepção - que Jesus venceu a morte.
Mas como é isso possível se nem Jesus se
livrou de morrer e da morte mais intolerável?
E se todas / todos sem excepção depois dele
continuamos aí a morrer sem apelo nem agravo?
E porque haveria Jesus de vencer a morte
se ela faz parte do natural ciclo da vida como
o nascimento? A quem pretendem as Igrejas
agradar com esse tipo de discurso com sabor
a falso evangelho? Aos pobres? Mas não são os
ricos quem tem mais medo da Morte? Os pobres
o que mais temem é não terem Pão para comer.
O que quer o Evangelho revelar quando nos
anuncia que Jesus ressuscitou dos mortos? Que
viu reanimado o seu cadáver e que voltou à vida?
Assim pensa a generalidade das pessoas e das
Igrejas. Mas a expressão teológica “Ressuscitar dos
mortos” quer simplesmente revelar que o Deus Vivo
é com Jesus que está. E não com quem o matou!
Os chefes do Templo e do Império foram os que
deram a morte a Jesus. Não lhe perdoaram que
ele os identificasse com o Perverso e o Mentiroso.
Em lugar de se aliarem a Jesus contra o Perverso
e o Mentiroso aliaram-se entre si contra Jesus. E
tentaram fazer dele o Maldito de Deus. Mas logo
aconteceu o Espírito de Deus e proclamou-o Bendito!
Ao dar razão a Jesus e não aos chefes do Templo
e do Império que o crucificaram Deus subverteu
a História mandada escrever por eles. E ficou
para sempre desvendado que o que é bom para
os chefes do Templo e do Império é perverso para
os povos. Sábios então seremos se fugirmos deles
e como Jesus fizermos corpo com as suas vítimas.
Na morte crucificada de Jesus pudemos ver que
a única Morte que mata é o Ódio e não a morte física.
A morte física é o culminar do nascimento e há-de ser
experimentada por nós como a nossa Hora em que
nos tornamos Corpo-Sopro-que-se-entrega-aos-demais
para ficarmos com eles para sempre. E porque só
o Ódio é homicida ele é a Morte que Jesus venceu.
Aprendemos com Jesus Ressuscitado que
passamos - PÁSCOA - da morte à vida porque
amamos os irmãos. Podemos então deduzir que
quem não ama permanece na Morte. Uma outra
coisa essencial aprendemos também com Jesus:
que quem diz que ama a Deus a quem não vê
e não ama os irmãos a quem vê é mentiroso.
Foram muitos os cultos realizados nos templos
nesta Páscoa. Por nenhum deles se ouviu dizer
que PASSOU o Sopro de Jesus o Crucificado pelo
Templo e pelo Império. Apenas o sopro do Perverso
e do Mentiroso que faz dos clérigos comerciantes de
Cristo e dos povos alienados. Quando os povos do
que precisam é de Jesus. E do seu Sopro libertador.
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ANTÓNIO, BISPO DO PORTO
In Diário Aberto www.padremariodemacieira.com.sapo.pt
Nos 100 anos do seu nascimento, multiplicaram-se as acções de homenagem na Diocese. Jornal Fraternizar apenas aceitou ir à antestreia da peça com o seu nome, a convite da Companhia de Teatro Seiva Trupe. Quanto ao mais, optou pela ausência, cheio de saudades duma Igreja que escute os profetas que o Espírito teimosamente suscita dentro dela e fora dela, em lugar de primeiro os matar ou ajudar a matar, para depois lhes promover acções de homenagem, quando já se tornaram mausoléus de estimação.
Foste bispo da Igreja do Porto enquanto
Salazar governava o país com mão de ferro.
Apresentavas-te de pé diante dos homens e
de joelhos diante de Deus. Preferiria mil vezes
ter-te visto de pé diante do Poder todo o
Poder e de joelhos diante dos pobres. Para
que nunca fosses Poder. Apenas Bispo-pastor.
A mesquinhez do Ditador não suportou a
tua liberdade nem a tua frontalidade. Queria
que fosses simples cão de guarda do Regime
como acontecia com a generalidade dos outros
bispos do Portugal de então. Um exílio de dez anos
foi o preço que tiveste que pagar. A somar a todo
o ódio teológico dos restantes bispos teus irmãos.
Entretanto a guerra colonial continuava a oprimir
e a matar em três frentes de África. Eu próprio
me vi aos trinta anos de idade a entrar nela
como capelão militar à força. Acicatado pelo teu
exemplo de coragem não hesitei em anunciar na
guerra o Evangelho da Paz. E fui expulso. Mas nem
assim o teu exílio na Europa “virou” conspiração...
E quando Abril chegou já estavas mergulhado
de novo nas rotinas eclesiásticas da diocese
graças sobretudo à mãozinha do novo Poder que
sucedeu a Salazar. A festa da liberdade dançou
meses a fio nas ruas do Porto e do país. Mas
ninguém te viu alguma vez a dar-lhe corpo. Não
saberias que liberdade rima com fraternidade?
A grande comunicação social do Dinheiro
(toda ela é dele e ai de nós se não estamos
bem conscientes que assim é) transformou-te
depois na Personalidade maior da História da
Igreja em Portugal. E a verdade é que nem assim
tu foste capaz de atender ao aviso de Jesus “Ai
de vós quando os do Poder dizem bem de vós!”
E agora que se completam cem anos sobre
o teu natal não falta por aí quem se apresse a
promover-te homenagens de canonização. Em
nenhuma delas quis ser visto a não ser no teatro
que a Companhia Seiva Trupe estreou na noite de
ontem. E não é que até aí foste apenas enaltecido
como se tu e o teu Poder não tivessem feito vítimas?
Sempre costumam proceder assim os grandes.
Exaltam quem os reconhece e se lhes assemelha
no porte na erudição e sobretudo na aceitação da
presente Ordem social em que todos eles figuram
como sóis de primeira grandeza. Também me tentam
a ser assim mas jamais me renderei. Prefiro mil
vezes as suas excomunhões aos seus louvores.
António Bispo do Porto meu irmão! Perdoa que
não alinhe no esforço que os do Poder clerical e do
Dinheiro estão hoje a fazer para te converterem em
novo ídolo. Deixa que te abrace com afecto e com
ternura naquela Luz sem Mentira em que todas/todos
veremos a luz. E na qual todo o Poder é dissolvido.
Basta-nos afinal ser discípulos de Jesus. E irmãos.
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E é na vida militante o nosso próximo encontro
In Diário Aberto www.padremariodemacieira.com.sapo.pt
Nos últimos meses, visitámo-lo com regularidade. Nós, os que constituímos o ministério dos doentes, da Comunidade Cristã de Base de Macieira da Lixa. Os encontros com ele terminavam sempre em redor da mesa da cozinha, num lanche eucarístico partilhado. Até que o cancro na coluna o tornou invisível aos nossos olhos. Ainda no vigor dos anos. Nesse dia à noite, voltámos lá a casa. Armandina, sua mulher, levantou-se do leito e da prostração da morte e veio orar/celebrar connosco a vida que nos deu o Teixeira. Ao nosso jeito. Com o Evangelho e o Canto.
Aconteceu hoje de madrugada e sem
surpresas a tua Páscoa definitiva. A confirmar
que o nosso viver na História é feito de sucessivas
páscoas até à Páscoa definitiva. Dizem por aí
que morreste. Hão-de saber que explodiste como
aquela estrela de que todas/todos provimos. Só
para assim poderes ficar connosco todos os dias.
Antes que o cancro se alojasse na tua
coluna eras um corpo com tudo de exército
em linha de batalha. Ninguém se atrevesse
a humilhar os humildes e os fracos. Logo tu
saltavas em sua defesa e inibias de vez os
agressores. Bastavam um olhar teu e tua mão
levantada para que acontecesse de novo a Paz.
Não faltou quem se alegrasse com a notícia
de que um cancro te consumia por dentro e
te roubava anos de vida à luta pelas causas
da Justiça e do Pão repartido. E agora que
aconteceu a tua Páscoa não falta quem ria
de cinismo. Os pulhas são como os vermes.
Alimentam-se de cadáveres em putrefacção.
Como Jesus o de Nazaré não nos deixas
órfãos. Nos encontros da Comunidade em
que participaste e que nos últimos tempos
fizemos acontecer com regularidade à volta da
mesa da casa que partilhavas com Armandina
soubeste abrir-te ao Sopro de Deus vivo e
é com Ele e nEle que agora andas connosco.
Não te perdemos. Ganhamos-te para sempre.
E se agora deixamos de te ver é só para mais e
melhor beneficiarmos da tua vida ressuscitada
no Ressuscitado Jesus. És o nosso companheiro
nas causas da Justiça e do Pão repartido e nos
combates pela libertação das populações. Tijolo
vivo no Barracão de Cultura que já se levanta.
Jamais esquecerei aquele abraço fraterno e
camarada que me deste um destes dias quando
pela última vez te visitei no pavilhão dos Cuidados
Acompanhados do IPO do Porto. Sabias como
eu que estava próxima a tua Páscoa definitiva e
quiseste dizer-me que já estavas de partida mas
para seres de vez o nosso Anjo e o nosso Fogo.
Visto-me com a tua Paz e deixo-me empurrar
pelo Sopro de Jesus que é também o Sopro
em que tu agora te tornaste. Caminharemos
mão na mão numa Eucaristia feita de entrega
do meu corpo-Pão e do meu sangue-Vinho pela
vida do mundo. Os da Mentira e do Dinheiro que
se cuidem. Está cada vez mais próximo o seu fim.
Canto e danço com redobrada força e alegria
o Aleluia da tua vida militante e camarada que
prossegue sem quebras em dimensões outras
que nem os olhos viram nem os ouvidos ouviram
e que são bem mais reais que as que deixaste
para trás na História. Os túmulos estão vazios de
ti. E é na vida militante o nosso próximo encontro.
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A construção em grosso já poderia estar concluída,
mas o empreiteiro teve que ir terminar outra obra
BARRACÃO DE CULTURA
Por todo este mês de Julho, o edifício
deverá ficar concluído de pedreiro
Como podem ver pela foto (só na edição em papel), o Barracão de Cultura, da Associação Cultural e Recreativa AS FORMIGAS DE MACIEIRA, ainda só tem paredes ao alto. E mesmo estas não estão na sua definitiva altura. A obra seguia a bom ritmo, quando o empreiteiro se viu "obrigado" a ir para uma outra, também a seu cuidado, cujo alvará de licença de construção estava, segundo as suas próprias palavras, a chegar ao fim. Custou muito à Associação este adiamento, mas lá acabou por se render aos argumentos do empreiteiro.
Não fosse este "percalço" e a construção em grosso já poderia estar concluída. Assim, no momento em que esta edição vai para a tipografia, tem apenas paredes ao alto. Entretanto - palavra do empreiteiro - a conclusão da construção em grosso não terá de esperar muito mais tempo. Por todo o mês de Julho 2006, deverá estar concluída. Aproveite então as suas férias e, se andar pelas bandas de Macieira da Lixa, dê lá um salto para ver a obra com os seus próprios olhos.
Ainda não há dinheiro para todas as fases seguintes. Mas algum já há e o restante há-de aparecer. O livro Na companhia de Jesus e de Ateus, do Pe. Mário, já deu ao Barracão de Cultura, limpos, cinco mil euros, da 1.ª edição. Mais de outro tanto haveremos de apurar com a venda militante da 2.ª edição. A tarefa está a ser bastante mais difícil, porque, agora, temos que chegar a pessoas de mais longe. Tudo, porém, será mais fácil, se quem está mais ou menos sensibilizado com o projecto Barracão de Cultura, se dispuser a vender exemplares do livro na sua região.
Bastaria que cem pessoas se comprometessem a vender dez exemplares cada uma e a edição ficaria automaticamente toda vendida. Pensem nisso. Até porque é mais digno arranjar dez pessoas amigas e conhecidas que aceitem partilhar 10 euros para a construção do Barracão de Cultura, a troco de um exemplar do livro, do que sem receberem nenhuma contrapartida. De resto, trata-se de um livro com uma mensagem que nos liberta e dignifica. E que está a ser vendido a um preço manifestamente baixo, em comparação com outros livros do género.
Vamos lá então arregaçar as mangas e dar essa alegria às FORMIGAS DE MACIEIRA. Se preferir deslocar-se pessoalmente, vê a construção ao vivo (tal como está, já dá para perceber o tamanho das duas valências, a cultural e a social) e leva os exemplares do livro para vender ou oferecer. Se não está nos seus planos passar estes próximos dias pelo Barracão de Cultura, então encomende os dez exemplares do livro e eles vão ter a sua casa pelo correio. Basta telefonar para o autor (93 393 65 02), ou enviar um e-mail (padremario@sapo.pt).
A expectativa da actual Direcção da Associação é ver o Barracão de Cultura já a funcionar, no máximo, dentro do prazo que dura o Alvará de licença de construção. Assim haja boas-vontades que se somem às da Associação. Como sabem, os únicos milagres dignos dos seres humanos são aqueles que nós próprios fazemos. Juntem-se às FORMIGAS DE MACIEIRA e o milagre acontecerá.
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LIVROS DO TRIMESTRE
TARRAFAL
na memória dos prisioneiros
Dinossauro / Nélida Maria Freire Brito
São 220 páginas que nos transportam ao mundo de horrores que muitos presos políticos do regime de Salazar sofreram na carne, ao serem deportados para o Tarrafal. A autora fez questão de pegar neste sofrimento e trabalhá-lo como tese universitária. E muitas vezes não conteve as lágrimas de raiva e de comoção. Tarrafal existiu mesmo. Para os que ainda duvidam de tamanha crueldade do Regime de Salazar, o livro aí fica. Como testemunho a denunciá-lo. Corram por ele. E difundam-no pelo país.
Ao contrário dos campos de extermínio do regime nazi, "concebidos e preparados para a morte rápida e industrial", os do Tarrafal foram "estruturados em torno do trabalho escravo de milhares de detidos que haviam sido seleccionados para serem erradicados do seu meio social, organizado de uma forma de tal modo absurda que a única finalidade que nele se poderia entrever era a da opressão mais pesada, através da qual se procurava chegar à perda da dignidade humana e política do detido, à violação da sua identidade própria e à consequente, por vezes inevitável, perda da vida."
Quem isto escreve é o próprio orientador da tese, o Prof. Manuel Loff, no prefácio que aceitou escrever para o livro. É ainda deste prefácio que salta a impressionante cifra de "2000 anos, 11 meses e 5 dias de detenção" que tanto foi o tempo de indignidade que o Tarrafal totalizou no conjunto das suas vítimas.
O livro faz-se em duas partes. "O período do salazarismo" e "Testemunhos de sobreviventes".
É sem dúvida a segunda parte que nos comove até às lágrimas de raiva e de impotência. Nestes testemunhos fala-se da realidade do Tarrafal, a partir da frigideira; da assistência médica; da alimentação, vestuário e do calçado; do trabalho forçado, dos despejos das sentinas ao mar, do tormento do tabaco; dos carcereiros. Mas também da resistência dos deportados presos, com a sua Universidade Popular, da formação política que reciprocamente se davam; da circulação de informação clandestina; das tentativas de fuga dos presos; e dos grupos políticos entre os presos.
"De acordo com o relato dos presos, o médico Esmeraldo Prata era como que um instrumento utilizado pela ditadura fascista para alcançar os objectivos para os quais a Colónia Penal tinha sido projectada, ou seja, eliminar lenta ou rapidamente todos os seus pacientes. Numa das suas célebres intervenções terá dito: «Não estou aqui para curar, mas para passar certidões de óbito.»"
Ninguém deixe de se debruçar sobre as páginas deste livro. Para que o passado nunca mais regresse, nem mesmo reciclado. Para tanto, temos de viver acordados e de prevenção todos os dias. O Inimigo não dorme nem brinca em serviço, ainda que tudo faça para nos adormecer e distrair. E com que eficácia o faz!
Ser mulher na Igreja
Memórias espirituais
Sal Terrae / Joan Chittister, osb
"A passagem da religião à espiritualidade", eis como poderia chamar-se este fecundamente perturbador livro de 230 páginas, escrito por uma religiosa beneditina, teóloga e psicóloga conhecida em todo o mundo pela suas iniciativas a favor da justiça e da paz e pelo seu compromisso a favor da igualdade da mulher. Mas o título em causa é apenas do prólogo. Mesmo assim, diz bem da singularidade desta obra que ninguém deverá perder.
Os 25 capítulos da obra estão agrupados em seis grandes temáticas: "A vida Interior: descoberta do óbvio"; "A imersão na Vida: a outra face da Interioridade"; "Resistência: o imperativo evangélico"; "Espiritualidade feminista: A chegada de um mundo novo"; "Ecologia: A outra faceta da vida espiritual"; "Cordialidade: O dom da trivialidade".
É sobre a temática "Resistência: Imperativo evangélico" que aparece o capítulo 17, "Poder, apesar da impotência: a coragem de rejeitar o mal". É um capítulo impressionante, como aliás todos os outros que "fazem" o livro. Abre assim: "Aconteceu-me apenas uma vez, porém, marcou-me para o resto da minha vida. Em 1976, o Vaticano publicou a sua primeira explicação sobre a não ordenação das mulheres. Porquê? - perguntávamo-nos - uma boa mulher, comprometida, espiritual, baptizada... não pode ser presbítera? Roma disse que as mulheres não são como os homens. Fim da discussão; fim do desenvolvimento teológico; fim da coerência da fé. Porém, também começo de um aluvião de questões totalmente novas, como: É a Eucaristia um acontecimento da comunidade cristã ou um mero drama histórico que voltamos a representar? Celebramos a Eucaristia "em memória dele" ou "à imitação dele"? "Fez-se carne" Jesus, isto é, plenamente humano, ou fez-se simplesmente varão, isto é, de um género concreto e em benefício desse género?"
Já na grande temática "Espiritualidade feminista", vem o capítulo 25, "A Igreja e a mulher: falar em nome de Deus". Escreve a autora: "Quero um Deus que seja «Mãe». Estou cansada do Deus-Pai legislador, com tiara e anel. Quero um Deus que seja energia fecunda portadora de vida. A minha vida. Directamente. Não a minha vida mediada unicamente por homens que excluem as mulheres porque «Deus» lhes diz que o façam, porque «não têm autoridade para mudar as coisas»". E acrescenta: "Esta espécie de honestidade é perigosa. A honestidade exige-nos entrar em contacto com a verdade que há no nosso interior e expô-la em voz alta, para que o Espírito Santo possa actuar em todos nós. A verdade que é suprimida é uma verdade recusada ao empreendimento teológico. Limita a ideia de Deus. E o Deus que pode ser concebido não pode de modo nenhum ser Deus."
É difícil encontrar tamanha lucidez e tamanha audácia em muitos dos nossos católicos actuais, elas e eles. Mas quem não for assim, ainda é discípula, discípulo de Jesus?
HUGO CHÁVEZ
Um homem, um povo
Campo das Letras / Marta Harnecker
O livro é quase todo uma longa entrevista feita ao longo de 15 horas em circunstâncias de espaço e tempo sucessivamente distintas; as que foram possíveis. Nas suas 224 páginas, oferece-nos um retrato de corpo inteiro do actual presidente da Venezuela e revela pormenores eventualmente chocantes de como o poder do Dinheiro tenta sabotar uma Revolução pacífica que conta com o apoio popular. A não perder de modo nenhum.
"A entrevista - esclarece a autora na Introdução - estava prevista para antes do golpe de Estado de 11 de Abril de 2002, mas só foi possível materializá-la dois meses depois. As informações e reflexões sobre como um governante deposto por um golpe militar recupera o governo em menos de 48 horas, acontecimento único no mundo, ocupam um espaço importante neste livro."
A própria autora ficou tão marcada pelo acontecimento e pela entrevista conseguida nessas circunstâncias, que conclui a Introdução ao livro "com as próprias palavras de Chávez". Assim: "Quando penso no golpe de 11 de Abril, lembro-me das ideias de John Kennedy, ex-presidente dos Estados Unidos, que disse: «Os que fecham o caminho para a revolução pacífica abrem o caminho para a revolução violenta». Escolhemos fazer a revolução constitucionalmente, por um processo constituinte de inquestionável legitimidade. Se em algum momento de 11 e 12 de Abril duvidei que uma revolução democrática e pacífica fosse possível, o que aconteceu a 13 e 14 de Abril, quando essa imensa quantidade de pessoas saiu à rua para rodear o palácio de Miraflores e vários quartéis, exigindo o meu retorno, reafirmou-se em mim, com muito vigor, a ideia de que, sim, é possível. Claro que a batalha é dura e será dura e difícil. Trata-se da arte de tornar possível o que tem parecido, e continua a parecer, para muitos, como algo impossível."
Os títulos dos capítulos indicam-nos claramente quais os temas que a autora entendeu colocar ao presidente Hugo Chávez. Qual deles o mais pertinente. Eis: 1. Antecedentes históricos mais relevantes; 2. A via pacífica: um parto institucional muito doloroso; 3. Os militares na revolução e na contra-revolução; 4. Avanço lento em direcção a uma economia alternativa; 5. Uma política internacional independente e soberana; 6. Camadas médias, estratégia de comunicação e diálogo; 7. Um partido à altura do processo; 8. O golpe de 11 de Abril.
O livro conclui com um posfácio de 23 páginas da própria autora, intitulado "Venezuela pós-referendo: os novos desafios".
O texto tem vários apartados que a autora titulou assim: "Antecedentes económico-sociais"; "Segunda etapa: grande ofensiva opositora e esforços de sobrevivência do governo"; "Terceira etapa: o árduo processo do referendo"; "Quarta etapa: consolidação e aprofundamento da revolução".
Em conclusão: Estamos perante um livro empolgante bem à altura do homem e da revolução que ele anima.
A condição cristã
No mundo sem ser do mundo
Sal Terrae / Paul Valadier sj
A questão de que trata este livro é tão antiga como o próprio Cristianismo. E sempre terá que ser meditada pelas Igrejas, se quiserem permanecer fiéis à sua missão na história de serem sal da terra, luz do mundo e fermento na massa. Por isso a meditação que o autor, professor de filosofia moral e política nas universidades dos jesuítas em Paris, aqui apresenta ao longo de 260 páginas, é mais do que pertinente. É imperioso acompanhá-lo com toda a atenção.
"Uma meditação sobre a condição cristã - escreve o autor a abrir a introdução - não pode prescindir duma reflexão sobre o estatuto do cristão no mundo actual. Mas uma reflexão desse tipo pressupõe outra e esta é precisamente a que constitui o objecto destas páginas. Em que situação se encontram os recursos intelectuais e espirituais de que dispõe o crente cristão para ocupar o seu lugar aqui e agora? Quais são as referências maiores sobre as quais podemos apoiar-nos para construir a nossa identidade, encontrar as orientações para a nossa acção, situar-nos em relação aos outros, crentes ou não, que habitam o nosso mesmo mundo e com os quais a nossa existência em comum teceu inumeráveis vínculos? (...) Não é urgente voltar a formular o sentido das nossas próprias referências fundamentais, não para as impormos aos outros como as únicas verdadeiras, mas para ocuparmos o lugar que nos é devido no incessante diálogo que constitui a vida e a riqueza das nossas sociedades globalizadas ou mundializadas?"
Explica depois o autor como fez para realizar tão ambicioso objectivo: "A hipótese que orienta estas páginas consiste, justamente, na ideia de que uma teologia moral que não fosse além duma teologia da moral não só seria demasiado mesquinha, mas sobretudo não explicaria devidamente a lógica duma existência em Cristo. Por outras palavras: o cristão não pode ser desvinculado do seu ser-aí na história."
A meditação do autor desenvolve-se ao longo de cinco grandes temáticas, assim enunciadas por ele: 1. No mundo sem ser do mundo; 2. Uma decisão sob palavra (A fé e os costumes); 3. Responsabilidade, pecado, história; 4. Uma humanidade inspirada; 5. Existir como Igreja.
O livro termina com um apartado intitulado "Decidir em consciência" que é também, de certo modo, o seu melhor resumo. No lúcido e corajoso dizer do autor, o crente "é em definitivo quem deve decidir e quem terá que dar contas da sua vida diante de Deus. Ninguém pode substituí-lo nesta relação viva, mesmo quando esta não possa ser iluminada nem confortada sem a relação com o outro nem sem deixar-se instruir pela comunidade crente e pelas tradições sapienciais que ela transmite. (...) Nenhuma autoridade pode substituí-lo em tal decisão, porque então afastar-se-ia do âmbito duma decisão realmente cristã."
Percebe-se bem que a nossa condição cristã não está elaborada duma vez por todas. Cabe a cada geração e em cada cultura reinventá-la e vivê-la em diálogo com os demais. É para ajudar nesse sentido que este livro foi escrito. Corram por ele.
Qualidade Cristã
Identidade e crise do cristianismo
Sal Terrae / JI González Faus
Os escritos que o presente livro de 388 páginas recolhe são no dizer do autor "apenas alguns elementos que podem servir para diagnosticar a crise, identificar o medular do cristianismo e sugerir alguns caminhos por onde procurar as saídas". Porque assim é de facto o livro, importa que ninguém na Igreja, a começar pelo papa e pelos bispos, deixe de o ler/estudar/debater.
"Há nos evangelhos uma cena testemunhada pelos três sinópticos e que surpreende pela sua aparente contradição: num momento de crise, Jesus, depois de perguntar aos apóstolos quem crêem que ele é, obtém uma resposta correcta e, a seguir, proíbe-lhes «taxativamente» que o digam a alguém. Na narrativa de Mateus (16, 13ss) a contradição parece ainda maior: Pedro pronuncia a confissão de fé mais radical, Jesus louva-o com entusiasmo e, poucos versículos adiante, desautoriza-o chamando-lhe nada menos que «Satanás». Porquê esta contradição?"
É com este facto evangélico que abre o livro. E logo prossegue: "A solução do enigma é simples: os discípulos proclamavam uma fé verbalmente ortodoxa, mas entendiam-na de maneira claramente heterodoxa. Jesus é o Messias e o Filho de Deus; porém, estas fórmulas não significam em absoluto o que eles, naquele momento, entendiam por elas."
"A cena evangélica - sublinha com oportunidade o teólogo-autor - dá-nos assim um elemento decisivo para o tema da identidade cristã. Para ser cristão não basta crer em Deus, se primeiro não se indica quem é esse Deus em quem dizemos crer. Nem basta proclamar a filiação divina de Jesus, se primeiro não se indica de que Deus é que Jesus é Filho."
A citação saiu longa, mas justifica-se, porque ela, só por si, é a melhor apresentação do livro. Estamos perante uma obra de teologia de qualidade jesuânica de primeira água. E perante um teólogo lúcido como poucos na actualidade.
Mas talvez esta constatação que deveria ser um motivo mais para que ninguém fique indiferente ao livro e corra por ele, poderá acabar por se constituir na dificuldade maior com que ele acabará por esbarrar no terreno. Porque, infelizmente, as populações católicas e os seus bispos residenciais e párocos do que gostam é de um Cristianismo de devoções, de multidões, de promessas, de santuários, de ritos, de rotinas. Não gostam nada do Cristianismo de Jesus, o de Nazaré. Nem de quem tão lucidamente testemunha acerca dele, como sempre faz o teólogo-autor González Faus, também neste seu livro.
Entre as "pistas e tarefas" que o livro aponta na sua terceira parte, há umas que são para dentro ("des-helenizar o cristianismo" é logo a primeira apontada pelo autor), e outras que são para fora ("Crucificado e Ressuscitado. A contribuição cristã ao tema das religiões" é uma delas, juntamente com outra, "As tarefas do cristão perante a globalização").
Eis uma obra imprescindível neste início do terceiro milénio!
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Dias 7 a 10 de Setembro 2006
Bioética e Cristianismo
XXVI Congresso de Teologia de Madrid
O célebre jesuíta Juan Masiá, recentemente, declarado "maldito" pelos Bispos de Espanha, o badalado monge teólogo Marcelo Barros, do Brasil, e o grande especialista em Moral, Marciano Vidal, de Espanha, têm intervenções anunciadas e certamente polémicas no XXVI Congresso de Teologia de Madrid, marcado para os dias 10, 11, 12 e 13 de Setembro 2006, no salão de actos das Comisiones Obreras, da capital espanhola. A iniciativa é da Associação de Teólogas e Teólogos João XXIII. O lúcido teólogo Juan José Tamayo, de Madrid, também intervém, mas simplesmente para evocar a memória de Casiano Floristán, recentemente falecido, e que foi o primeiro presidente da Associação. "Bioética e Cristianismo" é o tema do Congesso que costuma congregar mais de mil participantes cada ano. Jornal Fraternizar tudo fará para acompanhar em presença o evento e fazer notícia na nossa próxima edição.
O Congresso abre ao final da tarde do dia 7, com a saudação do actual presidente da Associação, o teólogo Julio Lois, a que se segue de imediato a primeira conferência, "A revolução biogenética", a cargo do presidente da Fundação Cultura e Paz, Federico Mayor Zaragoza.
O conhecido humorista em assuntos eclesiásticos e religiosos, Siro Lopez, abre os trabalhos do 2.º dia com a apresentação de um audiovisual sobre "Beleza, Crítica e BioARTE". Também mantém diálogo com as pessoas participantes.
O Congresso é tecido com mesas redondas, todas no 2.º dia de trabalhos, e conferências, concentradas sobre o 3.º dia, sábado. A conferência mais esperada será, indubitavelmente, a do jesuíta Juan Masiá, na manhã do último dia. A sua lucidez e responsabilidade em questões de ética de fronteira tem incomodado os poderes hierárquicos da Igreja de Espanha, que, infelizmente, como todos os poderes hierárquicos católicos romanos, não se dão bem nem com uma nem com outra. Eles sabem que no dia em que as populações forem todas lúcidas e eticamente responsáveis como é hoje este jesuíta "maldito", ficarão sem "fiéis", ainda que Deus, o de Jesus, esteja invulgarmente feliz. Porque a glória de Deus é que os seres humanos cresçam em lucidez e sejam eticamente responsáveis.
A polémica questão da Eutanásia será abordada por Marciano Vidal, no decorrer da 2.ª Mesa Redonda que partilha com Fernando Marín. Por sua vez, as questões ligadas ao princípio da vida serão abordadas na 1.ª Mesa Redonda.
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29 de Outubro, S. Pedro da Cova
7.º Encontro de Espiritualidade
"Evangelhos da infância de Jesus (Mt 1-2; Lc 1-2): Que tipo de Messianismo e de Messias/Cristo nos apresentam?"É este o tema, mais do que escaldante e oportuno, que estará em debate durante o 7.º Encontro de Espiritualidade com o ateísmo e a idolatria generalizados em fundo.
A iniciativa decorre dia 29 de Outubro, entre as 10 h e as 17 h, na casa-sede da Associação Padre Maximino/Jornal Fraternizar e é aberta a quem quiser participar. O que se pede às pessoas que decidirem aparecer é que, se possível, façam trabalho de casa, isto é, preparem-se para intervir no debate. E o façam com palavras carregadas de Sopro ou Espírito de Jesus ressuscitado.
O "prato forte" do debate é da parte da manhã. Segue-se o almoço partilhado em forma de Eucaristia, conseguido com os alimentos que cada pessoa levar para a Mesa comum. A Associação oferece uma sopa de legumes a abrir. A tarde é de partilha de notícias dos grupos e Comunidades de Base, de poemas e de cantos, se possível originais.
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