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CRESCI A OUVIR FALAR DESTA OBRA
- disse emocionado Rodrigo Filipe
Bom dia! Quero agradecer a presença de todos, com especial atenção àqueles que vieram de mais longe, para darem o seu apoio; e também aos que deixaram os seus afazeres para se mostrarem solidários com esta Associação. Escrevi umas breves palavras que, se me permitem, vou ter que as ler.
O espaço que aqui está a nascer surgiu de um sonho de há quase duas décadas. Cresci, portanto, a ouvir falar desta obra, em tempos, utópica. Mas hoje, finalmente, tornou-se realidade, graças ao contributo de alguns amigos de longa data e, especialmente, dos meus pais. Sempre se empenharam em angariar fundos e o mais recente foi a doação deste terreno.
Esta obra nasce da necessidade, ou fome, se quiserem, de cultura que as populações sentem, embora não a reclamem. Em freguesias como a de Macieira da Lixa, fazem cada vez mais falta espaços como este, espaços multifuncionais onde as pessoas poderão encontrar o convívio, a alegria, a amizade, a solidariedade, onde poderão crescer em valores, aprender a ser e a fazer, onde poderão ter voz e vez.
Todas as pessoas sem excepção terão a liberdade de escolha neste espaço, onde não faltará uma equipa que se preocupe e que os oriente nas maiores dificuldades. Quero com isto dizer que todos sem excepção encontrarão em nós um amigo, principalmente, os mais desfavorecidos, os excluídos que são, urgentemente, os que mais precisam, porque viver é ser solidário com os que encontramos caídos na valeta da vida.
Foi a pensar, sobretudo, neles que esta ideia nasceu. É a pensar nas crianças, homens e mulheres de amanhã, que esta obra nasce o nosso Barracão de Cultura. Porque, como diz Richard Bach, vê mais longe a gaivota que voa mais alto!
Não queria neste momento esquecer uma pessoa importante para a Associação e para mim em particular; essa pessoa é o meu pai que acredito estar entre nós hoje aqui. Presto-lhe a minha homenagem e tenho a certeza que sem a força dele este projecto nunca seria possível.
Para finalizar, para quem não me conhece, sou o presidente da Associação, a par com a amiga e companheira Dária (que não pôde estar presente). Chamo-me Rodrigo e, como futuro técnico de Serviço Social, tenho consciência de que temos um caminho longo e difícil a percorrer e que só com o trabalho em equipa e com o contributo de todos vós, também os que não puderam estar aqui hoje, conseguiremos alcançar um futuro promissor nesta freguesia.
A todos vós o meu reconhecimento e gratidão. Com todos vós, vi que posso contar. Até sempre!
PRANTO PELO DIA DE HOJE
Sophia de Mello Breyner Andressen
(In Livro Sexto. Livraria Morais Editora, 1966)
Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas.
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Pe. Mário, presidente da AG, encerrou o Acto
É A CULTURA, ESTÚPIDOS, É A CULTURA!
Este é o 1.º dia do resto das nossas vidas. Tal como esta pedra é a primeira de muitas outras pedras, tantas quantas forem necessárias para tornar realidade um sonho de muitos anos.
Primeiro, foi a Comunidade Cristã de Base de Macieira da Lixa. Veio depois a Associação Cultural e Recreativa AS FORMIGAS DE MACIEIRA, quando, no decorrer de um encontro da Comunidade, ali na casa do nosso querido amigo senhor Albano, o Vento ou Sopro de libertação nos sacudiu interiormente e nos disse: "É a Cultura, estúpidos, é a Cultura!". E prosseguiu: "Porque sem a Cultura, as populações não vão a lado nenhum, são carne para canhão, são rebanho na mão de caciques, meros consumidores mais ou menos compulsivos, macacos de imitação, reprodutores dos vícios das minorias dominantes e privilegiadas, súbditos de quem manda, numa palavra, dificilmente chegam a ser pessoas!"
Foi então que nos fizemos a pergunta que nos trouxe até aqui: E se fizéssemos nascer aqui em Macieira da Lixa uma Casa de Cultura? Há em cada aldeia aqui e em todas as outras do país o templo paroquial, praticamente, desde antes do início da nacionalidade. Porque não há-de passar a haver também uma casa de cultura em cada uma delas?
Os aplausos foram mais que muitos. E a alegria contagiante. Aquele que é hoje, juntamente com a Dária, o presidente da nossa Associação Rodrigo Filipe era ainda menino, mas nunca mais terá esquecido o facto e, hoje, a poucos meses de concluir o seu Curso de Assistente Social, preside aos seus destinos, o que, para mim, é mais que justificado motivo de confiança no Amanhã.
Nasceu então a Associação para levar por diante o sonho e dar-lhe corpo. Até que um dia, no decorrer de um outro encontro da Comunidade, agora já na casa que é conhecida como a Casa da Comunidade, o Vento ou o Sopro libertador voltou a fazer-se ouvir e gritou: "E, se em vez duma Casa de Cultura, coisa muito mais sofisticada e dispendiosa, fosses bem mais simples e erguesses um despretensioso, mas acolhedor Barracão de Cultura, por exemplo, aqui no campo que fica na continuação desta Casa onde estamos reunidos?
Maria Laura ouviu, pela primeira vez, como, aliás, todos os outros seus companheiros, esse grito do Vento ou do Sopro libertador e logo ali adiantou, numa daquelas suas conhecidas explosões de alegria, com que anda permanentemente vestida: E porque não?!
Houve mais aplausos, abraços e beijos. Pensavam alguns, entretanto, que aquelas eram palavras e nada mais do que isso. Mas Maria Laura é que nunca mais descansou enquanto aquele grito do Vento ou do Sopro libertador não se fez realidade. Os passos que teve de dar! As complicações burocráticas que teve de vencer! Os obstáculos que teve de ultrapassar! O dinheiro que teve de gastar! Até advogado teve de meter. Se a doação do campo não lhe saísse do coração, nunca teria batalhado tanto e contra tantos opositores que, nos meses e anos seguintes, lhe saíram ao caminho. Até de companheiros que, durante anos, partilharam com ela o mesmo Pão. Tudo ela venceu. E a escritura foi feita na Notária de Felgueiras. E hoje aqui estamos, neste acto público de lançamento da 1.ª pedra.
Sabemos por experiência vivida que meter-se pela via da Cultura é um combate duro, onde se pode até perder a vida. E se não a vida física (hoje, há outras formas sofisticadas e mais democráticas de matar as pessoas e o sonho das pessoas, sem nunca se chegar a ter de responder em Tribunal…), pelo menos, o sossego, o bom nome, o emprego, os bens e, o que é ainda mais estranho, até Amizades que tínhamos por sólidas e autênticas, mas que se vieram a revelar medíocres e mesquinhas.
Aqui estamos. Maria Laura deu o campo. Os filhos sem excepção apoiaram a mãe. Foram massacrados por alguns para que se opusessem. "É a vossa herança!", diziam os massacradores. Mas corre-lhes nas veias o sangue dela e do Francisco, seu pai (o grande ausente-presente neste acto público, cujo campo representa algum do seu suor e sangue, derramados, juntamente com o suor e o sangue de Maria Laura, em terras de França). E todos três sempre estiveram incondicionalmente com a mãe, nesta sua opção. E estão.
Por isso, este chão onde se começa hoje a erguer o Barracão de Cultura, é terra sagrada. É um chão com Vento, com Sopro. O Vento ou o Sopro de Jesus Crucificado/ressuscitado. É também um chão fecundo. E como o chão, também assim será o Barracão de Cultura que nele se levanta. Não será um espaço cultural entre outros mais. É um Sinal levantado, um Sacramento no País e no Mundo, a apontar e a fazer acontecer caminhos de libertação para a Liberdade e de Dignidade humana para as populações. Porque a glória de Deus é que as populações cresçam em Cultura e Sabedoria, vivam de olhos abertos, pratiquem a Justiça, partilhem a Riqueza e sejam donas dos próprios destinos.
Como obra de mulheres e de homens livres e libertadores, só pode ser um espaço de liberdade e de Sororidade/Fraternidade, de Alegria e de Paz.
Não sabemos ainda como o vamos acabar. O dinheiro de que dispomos dá apenas para esta fase, a da construção em grosso, cobertura incluída. Mas sabemos que o vamos acabar. As solidariedades concretas prosseguirão. E outras novas surgirão. Agradecemos as já manifestadas. E acolhemos festivamente todas as que vierem.
Queremos que o Barracão de Cultura venha a ser uma grande Oficina, onde o Debate e a Palavra livre e criadora andem à vontade. Uma Oficina, por onde sempre PASSE (= Páscoa) o Vento ou Sopro, o mesmo que sempre PASSOU em Jesus, o de Nazaré. Uma Oficina onde aconteça Teatro, Música, Canto, Dança, Poesia, Arte nas suas múltiplas e variadas formas, com destaque para a Pintura e a Escultura, tanto eruditas, como populares. Uma Oficina de Partilha de Saberes. Os grandes Mestres de pintura, de escultura, de poesia, de ficção, de história, de dança, de música, de canto, de teatro, de cinema terão prazer em passar por aqui para partilharem os seus saberes. E procederão, não como quem deposita os seus saberes nos “ignorantes”, mas como quem desperta o artista que está adormecido nas pessoas e nas populações com quem venham a encontrar-se aqui.
As crianças de Macieira e da região terão certamente aqui nesta grande Oficina que é o Barracão de Cultura a sua oportunidade para se tornarem mulheres, homens que honram e tornam mais humana e fraterna a Humanidade de amanhã. Pensemos em cada uma delas, neste instante. Quantos Picasso estão nelas à espera que alguém os desperte? Quantas Sophia Andersen? Quantos Júlio Cardoso? Quantos José Saramago? Quantos Mozart? Quantos Beethoven? Quantos José Rodrigues?
Mestre a valer, já o sabemos, não é tanto o que transmite os seus saberes aos outros, mas o que desperta os saberes originais, genuínos, que andam como em semente em cada menina, menino, em cada mulher, em cada homem.
Vamos, pois, em frente, como quem vê o Invisível. De mãos dadas. Haja o que houver. Este é o primeiro dia do resto das nossas vidas. Mas antes, há agradecimentos a fazer. Ou deixamo-los para o dia da inauguração do Barracão de Cultura já pronto a entrar em actividade? Sim, é melhor deixarmos os agradecimentos para essa altura. Oxalá ainda possamos estar todos cá. Inclusive, a Aninhas Mates que hoje, nos seus 86 anos, pôde ver a luz como outrora a profetisa Ana, do Evangelho de Lucas. Nas suas próprias palavras, já poderá morrer descansada, porque os seus olhos viram a luz. Mas nós queremos que ela continue a caminhar lado a lado connosco, até final. E como sinal desta vontade, pedimos-lhe que nos mostre a 1.ª pedra e a sua inscrição. E não saiamos do campo sem primeiro nos abraçarmos e beijarmos uns aos outros, com afecto e ternura. Como quem faz uma aliança, um pacto de amizade, até que o Barracão de Cultura seja concluído. E até que outros "ventres" de libertação para a Liberdade como este se ergam em todas as aldeias do país e do mundo.
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LIVROS DO TRIMESTRE
El Almendro / José Maria VIGIL
TEOLOGIA DO PLURALISMO RELIGIOSO
Curso Sistemático de Teologia Popular
São quase 400 páginas. Em forma de curso sistemático. Elaborado a pensar nas pessoas da base, mais do que nas elites. Ainda que estas só terão a ganhar se lhe derem a devida atenção. O livro é ousado. Deveria dizer, de entrada, que Deus não gosta de nenhuma religião. Ainda não o diz tal e qual, mas já admite, no capítulo 16, que "todas as religiões são verdadeiras e... falsas"; e no 17, fala dos "limites do Cristianismo"; para sublinhar, no capítulo 11, que Jesus não fundou nenhuma religião, nem nenhuma Igreja. O que fica então? A par das religiões e das Igrejas, fica também o alerta: Cuidado! Podem ser todas perversas!
O teólogo galego, Andrés Torres Queiruga, assina o Prólogo do livro e é um dos especialistas que o autor cita muitas vezes ao longo das suas páginas. "Não basta - adverte com oportunidade - embora seja necessário e assim o faz o autor, revisitar a história do problema e a própria história do cristianismo, com suas magníficas luzes e suas terríveis sombras. Impõe-se pensar de novo, apoiando-se numa hermenêutica actualizada e atendendo ao plural apelo das diferentes religiões, conceitos tão graves e decisivos como o da revelação e da verdade religiosa. E o problema da missão".
O autor assim faz. "Este - esclarece na Apresentação - é um livro de «teologia das religiões», jovem ramo da teologia que hoje se costuma chamar «teologia do pluralismo religioso». Porém, pretende ser um livro de «teologia popular», isto é, pensada também para o leitor comum, não só para os especialistas ou os académicos".
A dimensão "popular" do livro e a forma de Curso tornam-no ainda mais surpreendente. Porque é costume dos teólogos académicos esconder dos olhos do povo os desenvolvimentos da Teologia, reservados aos especialistas. Como se a verdade fosse manjar de eleitos e o povo tivesse de ser mantido longe dela e dos seus benefícios libertadores.
Aqui, o autor faz questão de partilhar todo o seu saber teológico com o povo, bem como os avanços conseguidos na exegese bíblica e na compreensão do Mistério. Nisto, é profundamente evangélico. Quem não deve gostar nada é a Cúria do Vaticano, nem as cúpulas das Religiões, habitualmente, privilegiadas em relação às maiorias. Mas não há que lhes fazer. O futuro joga sempre contra elas, porque a verdade é para todas as pessoas. Ao ser assassinado como o "maldito", pelas cúpulas da Religião oficial do seu país, Jesus tornou-se o bendito de Deus para sempre. A partir de então, as cúpulas de todas as religiões que se cuidem. O Sopro de Jesus não está com elas, mas com as suas vítimas. Deixem que estas se libertem da religião e ninguém terá mão nelas!
Desclée De Brouwer / José M. Castillo
A ÉTICA DE CRISTO
"Superar a ética do «dever», para chegarmos incomparavelmente mais longe, até à ética da «felicidade», a felicidade e o bem-estar para todos e não só para uns poucos privilegiados por um sistema criminoso". Eis o propósito principal deste livro de 227 páginas, capa dura. O próprio Jesus não quis outra coisa, que não fosse a realização plena das pessoas, a qual só pode coincidir com a sua felicidade.
O livro consta de 13 capítulos, cada qual o mais pertinente e actual: 1. Uma ética desconcertante; 2. A humanidade de Deus; 3. "Jesus dirigiu-se para a Galileia" (Mc 1, 14); 4. "Passou fazendo o bem" (At 10, 38); 5. "Não têm vinho" (Jo 2, 3); 6. 6. "Primeiro, a vida, não a religião; 7. "Parte-se-me o coração, ao ver este povo" (Mc 8, 2); 8. "Os últimos serão os primeiros" (Mc 10, 31); 9. Ética de obrigações, ética da felicidade; 10. Jesus e o dinheiro; 11. Jesus e o Poder; 12. Jesus e o puritanismo". 13. Conclusão: ética e mística.
"É possível estar perto de Deus, tendo ao mesmo tempo um bom nível de vida? Pode um cristão considerar-se seguidor de Jesus, se possuir uma conta corrente (com «visa ouro» incluída), receber um bom salário e dispuser de alguns bens, dentro do que, num contexto social determinado, se pode considerar como um cidadão que goza duma segurança económica razoável? Numa palavra, o que é que Jesus quis dizer, quando afirmou que «não podeis servir a Deus e ao dinheiro»? (Mt 6, 24)"
Esta é uma das questões de fundo abordada no capítulo "Jesus e o dinheiro". Eis, em síntese, a resposta que lhe dá Castillo neste seu livro: "Deus é o primeiro a querer que as pessoas tenham postos de trabalho, que em cada casa e em cada família haja dinheiro para chegar ao final do mês sem apuros ou necessidades. O problema, portanto, está em saber onde cada qual tem o seu «tesouro» e, por conseguinte, onde cada qual tem o seu «coração». O que tem o seu tesouro em si mesmo e na sua boa vida, sem pensar noutra coisa que não nisso, não crê (nem pode crer) em Deus, por mais que reze, vá à missa e por mais confrarias ou associações piedosas a que pertença. Ao contrário, o que tem o seu coração (e o seu tesouro) na felicidade de todos e em aliviar o sofrimento dos que mais sofrem, crê em Deus, mesmo que quase nunca pense em Deus, nem reze muito, nem frequente missas, romarias ou novenas."
Por este exemplo concreto, podemos concluir duas coisas fundamentais: 1. A ética de Jesus, o de Nazaré, anda pelos antípodas da ética dos fariseus, os do seu tempo e os do nosso tempo, hoje, a generalidade dos chefes das Igrejas e das religiões, para quem o importante é que as pessoas frequentem os seus cultos e contribuam para as obras de piedade; 2. A Igreja só tem razão de ser, se for para, a tempo e fora de tempo, chamar as pessoas para esta forma de ser e de viver de Jesus, por isso, se for para chamar as pessoas a viverem longe dos templos e próximas umas das outras.
Desclée De Brouwer / Juan A. Estrada
O CRISTIANISMO NUMA SOCIEDADE LAICA
O autor é teólogo ibérico de renome na Europa e nos países da América Central. A obra que acaba de escrever por ocasião dos 40 anos do Concílio Vaticano II é densa e profunda. Espraia-se ao longo de 400 páginas que será bom ler com especial atenção e na companhia do Espírito Santo. Corram por ela.
São seis os capítulos. Cada qual o mais lúcido e de estudo obrigatório: 1. O legado do Concílio Vaticano II; 2. Os desafios duma sociedade laica; 3. O Cristianismo e a cultura pós-moderna; 4. O Cristianismo perante os reptos da inculturação; 5. O Cristianismo e a globalização; 6. Diversidade de crenças numa sociedade plural.
"Quarenta anos depois do Vaticano II - escreve o autor logo a abrir o Prólogo do livro - o Cristianismo encontra-se perante reptos novos que não foram abordados no Concílio e outros que já existiam, mas se radicalizaram desde então para cá". É desta constatação que o livro arranca. O seu desenvolvimento é feito com a mestria que se reconhece ao autor. A própria Cúria Romana lha reconhece e por isso mantém-se vigilante a tudo o que o teólogo jesuíta escreve, não para aproveitar dos seus talentos e dos seus carismas, mas para o controlar e advertir, sempre que necessário. Mas, felizmente, nem a Cúria Romana pode impedir a criatividade de um teólogo, quando ele o é por vocação e não se vende pelo prato de lentilhas duma carreira eclesiástica. E quanto mais ela o tem na conta de suspeito, mais ele mergulha no Essencial e no Invisível aos olhos.
"O pós-Concílio - escreve o autor ainda no referido Prólogo - percorreu um caminho no qual foi imposta uma hermenêutica minimalista dos textos conciliares e a minoria tradicionalista converteu-se, nas últimas décadas, em maioria eclesial. O resultado é que o Concílio é ignorado pelas gerações que nasceram nos últimos quarenta anos e, em boa medida, foi esquecido pelas anteriores."
É já a concluir o último capítulo que o autor sublinha com grande sentido de oportunidade: "As igrejas não podem ignorar os ambientes sócio-culturais que tornam inviável a homogeneidade confessional no contexto das modernas sociedades pluralistas. Por outra parte, é preciso assumir também os custos da dissidência e da procura de novos caminhos, recordando que o próprio Jesus avisava os seus de que seriam entregues às autoridades pelos piedosos. A hostilidade da autoridade a qualquer crítica ou dissidência pertence á própria dinâmica das instituições, embora seja um elemento indispensável duma eclesiologia de comunhão, na qual se admite o discernimento de todos. A previsão de conflitos e o anúncio da incompreensão que os seguidores de Jesus viriam a encontrar é uma parte do legado evangélico (Jo 15, 18-21; 16, 1-49) numa comunidade, a de João, que tinha dificuldades para que a sua mensagem fosse assumida pelos cristãos."
Como se vê, o autor não pode ser mais lúcido. Sabe bem o terreno que pisa e não está disposto a deixar de caminhar. Alegremo-nos. Porque só temos a beneficiar com ele.
Trotta / Juan José Tamayo (Director)
NOVO DICIONÁRIO DE TEOLOGIA
É uma obra imprescindível em qualquer biblioteca pública ou doméstica. Quem se interessar, minimamente que seja, por assuntos de Teologia, numa perspectiva libertadora e intelectualmente saudável, não pode prescindir deste grosso volume de 989 páginas, escrito por múltiplos especialistas na matéria. E não só como obra de consulta. Também de estudo.
O volume apresenta-se como herdeiro continuador de um outro aparecido em 1993, com o título Conceitos fundamentais do Cristianismo. O teólogo JJ Tamayo, que dirige a obra, esclarece, no Prólogo, que do trabalho anterior, "conservamos apenas alguns conceitos" e, mesmo esses, aparecem aqui "reelaborados".
"Não é este um dicionário confessional, menos ainda, apologético duma religião em concreto; tão pouco é um dicionário de definições intemporais de conceitos igualmente intemporais; menos ainda, uma soma de pequenos tratados ou de resumos escolares de cada conceito. Trata-se de um dicionário crítico, científico, escrito a partir duma perspectiva laica e em regime de liberdade, pouco frequente no mundo teológico, quase sempre controlado pelas instituições religiosas e ao seu serviço. A sua pretensão é oferecer as linhas fundamentais da teologia cristã com perspectiva histórica, apresentar o actual estado intelectual da questão dos grandes temas do Cristianismo e facilitar o acesso às novas contribuições da reflexão teológica e das disciplinas relacionadas com ela, no diálogo com a filosofia e a ciência, ou, melhor, as ciências."
O novo dicionário de Teologia tem em conta as mudanças profundas em curso, desde há cinquenta anos a esta parte e que, a partir de agora, nunca mais param. Nomeadamente, o aparecimento da globalização, da pobreza estrutural, do feminismo, da consciência ecológica, do pluralismo cultural e religioso, da revolução bioética e biogenética.
"Tais fenómenos - sublinha Tamayo, no referido Prólogo - exigem uma refundação da teologia, ou, se se prefere, um novo paradigma teológico que responda aos novos desafios e abra novos horizontes na actividade teológica".
A todo, são 102 entradas, de A(gnosticismo), assinada por Juan Antonio Estrada, a V(irtude), assinada por Marciano Vidal. Entre os demais autores que assinam temas de grande actualidade e e não menor oportunidade, para lá do próprio JJ Tamayo, figuram nomes bem conhecidos do nosso Jornal, como Giulio Girardi, António Piñero, José Maria Castillo, Fernando Camacho, Casiano Floristán, Xabier Pikaza, Jon Sobrino, Raimon Panikkar, Enrique Dussel, Jesus Peláez, Antonio González, Pablo Richard, Raffael Aguirre, Elsa Tamez, Ignacio Ellacuria, Andrés Torres Queiruga, José Maria Mardones, Manuel Fraijó, Luís de Sebastián, Clodovis Boff, Margarita M.ª Pintos e Diego Molina.
"Se a teologia - escreveu Karl Barth, citado no Prólogo - não quer precipitar-se na arterioesclerose... não pode reduzir-se a trabalho de rotina."
Editora Campo das Letras
ANTÓNIO DRUMOND
O preto, o branco e alguma cor
António Drumond nasceu no Funchal em 1936 e, desde 1959, passou a residir no Porto, onde se licenciou em economia. Na década de 70, iniciou-se na fotografia e em 1978 integrou o Grupo IF que ajudou a fundar e em cujos projectos e mostras colaborou. O livro de fotografia que acaba de publicar com a chancela da Campo das Letras inclui também dois breves textos, respectivamente de Bernardo Pinto de Almeida e de Maria do Carmo Serén. Mas o que é verdadeiramente empolgante são as fotografias que nos despojam do acessório e nos obrigam a mergulhar no essencial que misteriosamente deixa de nos ser invisível. Uma verdadeira obra prima que urge contemplar sem pressas e reiteradamente.
Cada fotografia de António Drumond é um mundo. Podemos perder-nos na sua contemplação, que não nos perdemos do Real que elas reproduzem. Pelo contrário. Mergulhar em cada um destas fotografias é encontrar o Real que a pressa da vida e do consumo nos roubam e nos proibem de ver e de saborear. Daí a solidão e o vazio com que muitas das nossas vidas hoje se tecem. Em cada fotografia deste livro o encontro com o Real é total. Num primeiro olhar, o preto e o branco aparecem-nos desconcertantes e quase nos deixam sem fôlego. Vem depois o deleite do Real, em toda a sua verdade. O nosso olhar detém-se e perdemo-nos no Real para onde cada fotografia nos transporta e logo nos reencontramos a nós próprios.
Há fotografias que nos alienam e evadem do Real. Não são assim as de António Drumond. O olhar dele tem que ser muito perspicaz, para chegar a ver e nos fazer ver o Real para lá do acessório. O seu trabalho e a sua arte consistem em servir-nos o Real contra a Ilusão.
Diz-se por aí que uma imagem, no caso, uma foto, vale mais que mil palavras. Infelizmente, quase nunca é assim com as imagens que diariamente nos são mostradas pelos grandes media. Parecem captadas para nos distrair do Real e nos adormecer, como se o Real não existisse. Felizmente, as fotografias de António Drumond são das que valem mais que mil palavras, valem todas as palavras que ele nos poderia dizer. O livro propositadamente não as diz. Porque no-las dizem as fotografias. Quem se demorar a contemplá-las descobre as múltiplas estórias de vida que elas contêm e nos revelam em toda a eloquência do seu silêncio.
Experimentem. E tentem "ouvir" e aguentar cada estória que as fotografias nos contam. Quem sabe se não são também estórias que vivemos algures e que carregamos connosco desde a infância, quase sempre vivida a preto e branco, sem a cor da festa e da alegria.
Parem, por exemplo, na fotografia com rostos e mãos de mulheres juntas, numa postura de quem pensa como há-de encontrar saída para o beco sem saída em que a vida das suas famílias se tornou. De repente, podemos estar a ouvir a estória das nossas próprias mães e tias que nunca nenhum romance contou. E que o fotógrafo "apanhou".
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ÚLTIMA PÁGINA
A sua pintura já começa a ser reconhecida
ÁLVARO COSTA
Nunca frequentou nenhuma das chamadas Escolas de Belas Artes, mas a Pintura sai-lhe das mãos e do corpo como uma filha, um filho sai do corpo da respectiva mãe. Álvaro Costa é um Criador com muito do toque criador de Deus. Inclusive, soube encontrar a sua própria técnica de pintar. Contempla demoradamente a tela branca e, depois, com um simples canivete faz emergir dela o que só ele viu que ela esconde dentro, numa relação de comunhão que mais parece uma cópula de amor consumado.
Foi no ambiente cultural e espiritual (do Espírito ou Sopro libertador de Jesus, não da Religião, sempre alienante) que felizmente se respira na Associação AS FORMIGAS DE MACIEIRA, a cujos corpos gerentes pertence, que Álvaro Costa se descobriu e ganhou confiança em si próprio. O Concelho de Felgueiras que o viu nascer ainda não deu por ele, mas outros concelhos do país, nomeadamente, Celorico de Basto e Guarda, já admiram os seus quadros e adquirem-nos. O Barracão de Cultura será um dia a sua casa!
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Dia 30 de Abril, S. Pedro da Cova
6.º ENCONTRO DE ESPIRITUALIDADE
"Porque o mataram? E porque o proclamaram ressuscitado?" É este empolgante e polémico tema que estará em debate no próximo Encontro de Espiritualidade com o ateísmo em fundo, o 6.º da série, marcado para domingo 30 de Abril 2006, entre as 10h e as 17h na casa-sede da Associação Pe. Maximino / Jornal FRATERNIZAR. O almoço, eucarístico, resultará do que cada qual levar para Partilhar na Mesa Comum.
A Associação garante uma Sopa quente de legumes.
Anote já na sua agenda. E nesse dia apareça cedo com a sua alegria, as suas amigas e os seus amigos. E também com alguns poemas e notícias para partilhar de tarde.
Como é timbre destes encontros, o tema deve ser preparado por cada participante, porque, depois duma abertura saudavelmente provocadora do pe. Mário, a palavra andará à solta na sala. O que mais desejamos é que seja uma palavra com Espírito.
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LIVROS DO PE. MÁRIO ON-LINE
Graças à iniciativa de um engenheiro amigo, os livros do pe. Mário estão a partir de agora à venda na internet. Basta, para tanto, aceder ao site criado para esse fim: www.padredalixa.org
e fazer as respectivas encomendas. Nem precisa de cartão de crédito. Pode pagar por transferência bancária, em vale postal, cheque ou à cobrança. E recebe os livros em sua casa.
Se, por exemplo, ainda não adquiriu o livro NA COMPANHIA DE JESUS E DE ATEUS, pode fazê-lo por este meio. E se é um daqueles assinantes mais próximos do pe. Mário, a quem ele tomou a liberdade de enviar este seu livro pelo correio, p.f., não se atrase no pagamento. É para o Barracão de Cultura.
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