Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 161, deAbril/Junho 2006 (Continuação)

CRESCI A OUVIR FALAR DESTA OBRA

- disse emocionado Rodrigo Filipe

Bom dia! Quero agradecer a pre­sen­ça de to­dos, com especial atenção àqueles que vieram de mais longe, para darem o seu apoio; e também aos que dei­xaram os seus afazeres para se mos­tra­rem so­lidários com esta Associação. Escrevi umas breves palavras que, se me per­mitem, vou ter que as ler.

O espaço que aqui está a nascer sur­giu de um sonho de há quase duas décadas. Cresci, portanto, a ouvir falar desta obra, em tempos, utópica. Mas hoje, finalmente, tornou-se realidade, graças ao contributo de alguns amigos de longa data e, especialmente, dos meus pais. Sempre se empenharam em angariar fundos e o mais recente foi a doação deste terreno.

Esta obra nasce da necessidade, ou fome, se quiserem, de cultura que as po­pulações sentem, embora não a re­cla­mem. Em freguesias como a de Maci­eira da Lixa, fazem cada vez mais falta espaços como este, espaços multifunci­onais onde as pessoas poderão encon­trar o convívio, a alegria, a amizade, a so­lidariedade, onde poderão crescer em valores, aprender a ser e a fazer, on­de poderão ter voz e vez.

Todas as pessoas sem excepção te­rão a liberdade de escolha neste espa­ço, onde não faltará uma equipa que se preocupe e que os oriente nas maio­res dificuldades. Quero com isto dizer que todos sem excepção encontrarão em nós um amigo, principalmente, os mais desfavorecidos, os excluídos que são, urgentemente, os que mais preci­sam, porque viver é ser solidário com os que encontramos caídos na valeta da vida.

Foi a pensar, sobretudo, neles que esta ideia nasceu. É a pensar nas crian­ças, homens e mulheres de amanhã, que esta obra nasce – o nosso Barracão de Cultura. Porque, como diz Richard Bach, vê mais longe a gaivota que voa mais alto!

Não queria neste momento esquecer uma pessoa importante para a Associa­ção e para mim em particular; essa pes­soa é o meu pai que acredito estar entre nós hoje aqui. Presto-lhe a minha homenagem e tenho a certeza que sem a força dele este projecto nunca se­ria possível.

Para finalizar, para quem não me co­nhece, sou o presidente da Associa­ção, a par com a amiga e companheira Dária (que não pôde estar presente). Chamo-me Rodrigo e, como futuro té­cnico de Serviço Social, tenho consci­ência de que temos um caminho longo e difícil a percorrer e que só com o tra­balho em equipa e com o contributo de todos vós, também os que não pu­de­ram estar aqui hoje, conseguiremos alcançar um futuro promissor nesta freguesia.

A todos vós o meu reconhecimento e gratidão. Com todos vós, vi que posso contar. Até sempre!

PRANTO PELO DIA DE HOJE

Sophia de Mello Breyner Andressen

(In Livro Sexto. Livraria Morais Editora, 1966)

Nunca choraremos bastante quando vemos

O gesto criador ser impedido

Nunca choraremos bastante quando vemos

Que quem ousa lutar é destruído

Por troças por insídias por venenos

E por outras maneiras que sabemos

Tão sábias tão subtis e tão peritas

Que nem podem sequer ser bem descritas.


Pe. Mário, presidente da AG, encerrou o Acto

É A CULTURA, ESTÚPIDOS, É A CULTURA!

Este é o 1.º dia do resto das nossas vidas. Tal como esta pedra é a primeira de muitas outras pedras, tantas quan­tas forem necessárias para tornar rea­lidade um sonho de muitos anos.

Primeiro, foi a Comunidade Cristã de Base de Macieira da Lixa. Veio de­pois a Associação Cultural e Recreativa AS FORMIGAS DE MACIEIRA, quando, no decorrer de um encontro da Comuni­dade, ali na casa do nosso querido ami­go senhor Albano, o Vento ou So­pro de libertação nos sacudiu interior­mente e nos disse: "É a Cultura, estú­pidos, é a Cultura!". E prosseguiu: "Por­que sem a Cultura, as populações não vão a lado nenhum, são carne para ca­nhão, são rebanho na mão de caci­ques, meros consumidores mais ou me­nos compulsivos, macacos de imitação, reprodutores dos vícios das minorias dominantes e privilegiadas, súbditos de quem manda, numa palavra, dificil­mente chegam a ser pessoas!"

Foi então que nos fizemos a per­gunta que nos trouxe até aqui: E se fi­zéssemos nascer aqui em Macieira da Lixa uma Casa de Cultura? Há em cada aldeia – aqui e em todas as outras do país – o templo paroquial, praticamen­te, desde antes do início da nacionali­dade. Porque não há-de passar a ha­ver também uma casa de cultura em cada uma delas?

Os aplausos foram mais que mui­tos. E a alegria contagiante. Aquele que é hoje, juntamente com a Dária, o pre­si­dente da nossa Associação – Rodrigo Filipe – era ainda menino, mas nunca mais terá esquecido o facto e, hoje, a poucos meses de concluir o seu Curso de Assistente Social, preside aos seus destinos, o que, para mim, é mais que justificado motivo de confiança no A­manhã.

Nasceu então a Associação para levar por diante o sonho e dar-lhe cor­po. Até que um dia, no decorrer de um outro encontro da Comunidade, agora já na casa que é conhecida como a Ca­sa da Comunidade, o Vento ou o So­pro libertador voltou a fazer-se ouvir e gritou: "E, se em vez duma Casa de Cul­tura, coisa muito mais sofisticada e dis­pendiosa, fosses bem mais simples e er­gues­ses um despretensioso, mas acolhedor Barra­cão de Cultura, por exemplo, aqui no campo que fica na con­tinuação desta Casa onde estamos reunidos?

Maria Laura ouviu, pela primeira vez, como, aliás, todos os outros seus companheiros, esse grito do Vento ou do Sopro li­bertador e logo ali adiantou, nu­ma daquelas suas conhecidas explo­sões de ale­gria, com que anda perma­nen­te­mente vestida: E porque não?!

Houve mais aplausos, abraços e bei­jos. Pensavam alguns, entretanto, que aquelas eram pala­vras e nada mais do que isso. Mas Maria Laura é que nunca mais descansou enquanto aquele grito do Vento ou do Sopro li­bertador não se fez realidade. Os pas­sos que teve de dar! As complicações burocráticas que teve de vencer! Os obstáculos que teve de ultrapassar! O dinheiro que teve de gastar! Até advo­gado teve de meter. Se a doação do cam­po não lhe saísse do coração, nun­ca teria batalhado tanto e contra tantos opositores que, nos meses e anos se­guin­tes, lhe saíram ao caminho. Até de companheiros que, durante anos,  par­ti­lharam com ela o mesmo Pão. Tudo ela venceu. E a escritura foi feita na No­tária de Felgueiras. E hoje aqui es­ta­mos, neste acto público de lançamen­to da 1.ª pedra.

Sabemos por experiência vivida que meter-se pela via da Cultura é um combate duro, onde se pode até perder a vida. E se não a vida física (hoje, há outras formas sofisticadas e mais demo­cráticas de matar as pessoas e o sonho das pessoas, sem nunca se chegar a ter de responder em Tribunal…), pelo menos, o sossego, o bom nome, o em­pre­go, os bens e, o que é ainda mais estra­nho, até Amizades que tínhamos por sólidas e autênticas, mas que se vieram a revelar medíocres e mesqui­nhas.

Aqui estamos. Maria Laura deu o campo. Os filhos sem excepção apoia­ram a mãe. Foram massacrados por alguns para que se opusessem. "É a vossa herança!", diziam os massacra­dores. Mas corre-lhes nas veias o san­gue dela e do Francisco, seu pai (o grande ausente-presente neste acto público, cujo campo representa algum do seu suor e sangue, derramados, jun­tamente com o suor e o sangue de Ma­ria Laura, em terras de França). E todos três sempre estiveram incondicionalmen­te com a mãe, nesta sua opção. E estão.

Por isso, este chão onde se começa hoje a erguer o Barracão de Cultura, é terra sagrada. É um chão com Vento, com Sopro. O Vento ou o Sopro de Je­sus Crucificado/ressuscitado. É também um chão fecundo. E como o chão, tam­bém assim será o Barracão de Cultura que nele se levanta. Não será um espa­ço cultural entre outros mais. É um Sinal levantado, um Sacramento no País e no Mundo, a apontar e a fazer aconte­cer caminhos de libertação para a Li­berdade e de Dignidade humana para as populações. Porque a glória de Deus é que as populações cresçam em Cul­tura e Sabedoria, vivam de olhos aber­tos, pratiquem a Justiça, partilhem a Ri­queza e sejam donas dos próprios destinos.

Como obra de mulheres e de ho­mens livres e libertadores, só pode ser um espaço de liberdade e de Soro­ri­dade/Fraternidade, de Alegria e de Paz.

Não sabemos ainda como o vamos acabar. O dinheiro de que dispomos dá apenas para esta fase, a da cons­trução em grosso, cobertura incluída. Mas sabemos que o vamos acabar. As so­lidariedades concretas prosseguirão. E outras novas surgirão. Agradecemos as já manifestadas. E acolhemos festi­va­mente todas as que vierem.

Queremos que o Barracão de Cul­tura venha a ser uma grande Oficina, onde o Debate e a Palavra livre e cria­do­ra andem à vontade. Uma Oficina, por onde sempre PASSE (= Páscoa) o Vento ou Sopro, o mesmo que sempre PAS­SOU em Jesus, o de Nazaré. Uma Oficina onde aconteça Teatro, Música, Canto, Dança, Poesia, Arte nas suas múltiplas e variadas formas, com destaque para a Pintura e a Escultura, tanto eruditas, como populares. Uma Oficina de Parti­lha de Saberes. Os grandes Mestres de pintura, de escultura, de poesia, de fic­ção, de história, de dança, de música, de canto, de teatro, de cinema terão pra­zer em passar por aqui para parti­lha­rem os seus saberes. E procederão, não como quem deposita os seus sabe­res nos “ignorantes”, mas como quem des­perta o artista que está adormecido nas pessoas e nas populações com quem venham a encontrar-se aqui.

As crianças de Macieira e da região terão certamente aqui nesta grande Oficina que é o Barracão de Cultura a sua oportunidade para se tornarem mu­lhe­res, homens que honram e tornam mais humana e fraterna a Humanidade de amanhã. Pensemos em cada uma de­las, neste instante. Quantos Picasso estão nelas à espera que alguém os desperte? Quantas Sophia Andersen? Quantos Júlio Cardoso? Quantos José Sa­ramago? Quantos Mozart? Quantos Beethoven? Quantos José Rodrigues?

Mestre a valer, já o sabemos, não é tanto o que transmite os seus saberes aos outros, mas o que desperta os sabe­res originais, genuínos, que andam co­mo em semente em cada menina, meni­no, em cada mulher, em cada homem.

Vamos, pois, em frente, como quem vê o Invisível. De mãos dadas. Haja o que houver. Este é o primeiro dia do resto das nossas vidas. Mas antes, há a­gradecimentos a fazer. Ou deixamo-los para o dia da inauguração do Bar­ra­cão de Cultura já pronto a entrar em acti­vidade? Sim, é melhor deixarmos os agradecimentos para essa altura. Oxalá ainda possamos estar todos cá. Inclu­sive, a Aninhas Mates que hoje, nos seus 86 anos, pôde ver a luz como ou­tro­ra a profetisa Ana, do Evangelho de Lucas. Nas suas próprias palavras, já poderá morrer descansada, porque os seus olhos viram a luz. Mas nós que­re­mos que ela continue a caminhar lado a lado connosco, até final. E como sinal desta vontade, pedimos-lhe que nos mostre a 1.ª pedra e a sua inscri­ção. E não saiamos do campo sem pri­meiro nos abraçarmos e beijarmos uns aos outros, com afecto e ternura. Como quem faz uma aliança, um pacto de ami­­zade, até que o Barracão de Cultura se­ja concluído. E até que ou­tros "ven­tres" de libertação para a Li­ber­da­de co­mo este se ergam em todas as aldeias do país e do mundo.


LIVROS DO TRIMESTRE

El Almendro / José Maria VIGIL

TEOLOGIA DO PLURALISMO RELIGIOSO

Curso Sistemático de Teologia Popular

São quase 400 páginas. Em forma de curso sistemático. Elaborado a pensar nas pessoas da base, mais do que nas elites. Ainda que estas só terão a ganhar se lhe derem a devida atenção. O livro é ousado. Deveria dizer, de entrada, que Deus não gosta de nenhuma religião. Ainda não o diz tal e qual, mas já admite, no capítulo 16, que "todas as religiões são verdadeiras e... falsas"; e no 17, fala dos "limites do Cristianismo"; para sublinhar, no capítulo 11, que Jesus não fundou nenhuma religião, nem nenhuma Igreja. O que fica então? A par das religiões e das Igrejas, fica também o alerta: Cuidado! Podem ser todas perversas!

O teólogo galego, Andrés Torres Queiruga, assina o Prólogo do livro e é um dos especialistas que o autor cita muitas vezes ao longo das suas pá­gi­nas. "Não basta - adverte com oportu­nidade - embora seja necessário e assim o faz o autor, revisitar a história do pro­blema e a própria história do cristia­nis­mo, com suas magníficas luzes e suas terríveis sombras. Impõe-se pensar de novo, apoiando-se numa hermenêutica actualizada e atendendo ao plural apelo das diferentes religiões, conceitos tão graves e decisivos como o da revelação e da verdade religiosa. E o problema da missão".

O autor assim faz. "Este - escla­rece na Apresenta­ção - é um livro de «teo­logia das reli­gi­ões», jovem ramo da teologia que hoje se costuma chamar «teologia do pluralismo reli­gioso». Porém, pre­tende ser um livro de «teologia popu­lar», isto é, pensa­da também para o leitor comum, não só para os especia­lis­tas ou os acadé­micos".

A dimensão "po­pular" do livro e a forma de Curso tornam-no ainda mais surpreendente. Porque é costume dos teólogos académicos esconder dos olhos do povo os de­senvolvimen­tos da Teologia, reserva­dos aos especia­lis­tas. Como se a ver­dade fosse manjar de eleitos e o povo tivesse de ser man­­tido longe dela e dos seus bene­fícios libertadores.

Aqui, o autor faz quest­­ão de parti­lhar todo o seu saber teológico com o povo, bem como os avanços conse­guidos na exegese bíblica e na com­pre­ensão do Mistério. Nisto, é profun­da­mente evangélico. Quem não deve gostar nada é a Cúria do Vaticano, nem as cúpulas das Religiões, habitu­almente, privilegiadas em relação às maiorias. Mas não há que lhes fazer. O futuro joga sempre contra elas, por­que  a ver­dade é para todas as pessoas. Ao ser assas­sinado como o "maldito", pelas cúpulas da Re­ligião oficial do seu país, Jesus tor­nou-se o bendito de Deus para sem­pre. A partir de então, as cúpulas de todas as religi­ões que se cuidem. O Sopro de Jesus não está com elas, mas com as suas vítimas. Deixem que estas se libertem da religião e ninguém terá mão nelas!

Desclée De Brouwer / José M. Castillo

A ÉTICA DE CRISTO

"Superar a ética do «dever», para chegarmos incomparavel­mente mais longe, até à ética da «felicidade», a felicidade e o bem-estar para todos e não só para uns poucos privilegiados por um sistema criminoso". Eis o propósito principal deste livro de 227 páginas, capa dura. O próprio Jesus não quis outra coisa, que não fosse a realização plena das pessoas, a qual só pode coincidir com a sua felicidade.

O livro consta de 13 capítulos, ca­da qual o mais pertinente e actual: 1. Uma ética desconcertante; 2. A huma­nidade de Deus; 3. "Jesus dirigiu-se para a Galileia" (Mc 1, 14); 4. "Passou fazendo o bem" (At 10, 38); 5. "Não têm vinho" (Jo 2, 3); 6. 6. "Primeiro, a vida, não a religião; 7. "Parte-se-me o coração, ao ver este povo" (Mc 8, 2); 8. "Os últimos serão os primeiros" (Mc 10, 31); 9. Ética de obrigações, ética da felicidade; 10. Jesus e o dinheiro; 11. Jesus e o Poder; 12. Jesus e o puri­tanismo". 13. Conclusão: ética e mís­tica.

"É possível estar perto de Deus, tendo ao mesmo tempo um bom nível de vida? Pode um cristão considerar-se seguidor de Jesus, se possuir uma conta corrente (com «visa ouro» in­cluí­da), receber um bom salário e dispuser de alguns bens, dentro do que, num contexto social determinado, se pode considerar como um cidadão que goza duma segurança económica razoável? Numa palavra, o que é que Jesus quis dizer, quando afirmou que «não podeis servir a Deus e ao dinhei­ro»? (Mt 6, 24)"

Esta é uma das questões de fundo abordada no capítulo "Jesus e o dinheiro". Eis, em síntese, a resposta que lhe dá Castillo neste seu livro: "Deus é o primeiro a querer que as pes­soas tenham postos de trabalho, que em cada casa e em cada família haja dinheiro para chegar ao final do mês sem apuros ou necessidades. O problema, portanto, está em saber onde cada qual tem o seu «tesouro» e, por conseguinte, onde  cada qual tem o seu «coração». O que tem o seu tesouro em si mesmo e na sua boa vida, sem pensar noutra coisa que não nisso, não crê (nem pode crer) em Deus, por mais que reze, vá à missa e por mais confra­rias ou associações piedosas a que per­tença. Ao contrário, o que tem o seu coração (e o seu tesouro) na felicidade de todos e em aliviar o sofrimento dos que mais sofrem, crê em Deus, mesmo que quase nunca pense em Deus, nem reze muito, nem frequente missas, ro­marias ou novenas."

Por este exemplo concreto, pode­mos concluir duas coisas fundamentais: 1. A ética de Jesus, o de Nazaré, anda pelos antípodas da ética dos fariseus, os do seu tempo e os do nosso tempo, hoje, a generalidade dos chefes das Igrejas e das religiões, para quem o im­por­tante é que as pessoas frequen­tem os seus cultos e contribuam para as obras de piedade; 2. A Igreja só tem razão de ser, se for para, a tempo e fora de tempo, chamar as pessoas pa­ra esta forma de ser e de viver de Je­sus, por isso, se for para chamar as pes­soas a viverem longe dos templos e próximas umas das outras.

Desclée De Brouwer / Juan A. Estrada

O CRISTIANISMO NUMA SOCIEDADE LAICA

O autor é teólogo ibérico de renome na Europa e nos países da América Central. A obra que acaba de escrever por ocasião dos 40 anos do Concílio Vaticano II é densa e profunda. Espraia-se ao longo de 400 páginas que será bom ler com especial atenção e na companhia do Espírito Santo. Corram por ela.

São seis os capítulos. Cada qual o mais lúcido e de estudo obrigatório: 1. O legado do Concílio Vaticano II; 2. Os desafios duma sociedade laica; 3. O Cristianismo e a cultura pós-moderna; 4. O Cristianismo perante os reptos da inculturação; 5. O Cristianismo e a glo­balização; 6. Diversidade de crenças numa sociedade plural.

"Quarenta anos depois do Vaticano II - escreve o autor logo a abrir o Pró­logo do livro - o Cristianismo encontra-se perante reptos novos que não foram abordados no Concílio e outros que já existiam, mas se radicalizaram desde então para cá". É desta constatação que o livro arranca. O seu desenvolvi­mento é feito com a mestria que se re­conhece ao autor. A própria Cúria Ro­ma­na lha reconhece e por isso mantém-se vigilante a tudo o que o teólogo je­suíta escreve, não para aproveitar dos seus talentos e dos seus carismas, mas para o controlar e advertir, sempre que necessário. Mas, felizmente, nem a Cú­ria Romana pode impedir a criatividade de um teólogo, quando ele o é por vo­ca­ção e não se vende pelo prato de len­tilhas duma carreira eclesiástica. E quanto mais ela o tem na conta de sus­peito, mais ele mergulha no Essen­cial e no Invisível aos olhos.

"O pós-Concílio - escreve o autor ain­da no referido Pró­logo - percorreu um caminho no qual foi imposta uma her­menêutica minima­lista dos textos con­ciliares e a mi­noria tradicionalista con­ver­teu-se, nas últi­mas décadas, em maioria eclesial. O resultado é que o Concílio é ignorado pelas gerações que nasceram nos úl­timos quarenta anos e, em boa medi­da, foi esquecido pelas anteriores."

É já a concluir o último capítulo que o autor sublinha com grande sen­tido de oportunidade: "As igrejas não podem ignorar os ambientes sócio-culturais que tornam inviável a homo­geneidade confessional no contexto das modernas sociedades pluralistas. Por outra parte, é preciso assumir tam­bém os custos da dissidência e da pro­cura de novos caminhos, recordando que o próprio Jesus avisava os seus de que seriam entregues às autorida­des pelos piedosos. A hostilidade da autoridade a qualquer crítica ou dissi­dência pertence á própria dinâmica das instituições, embora seja um ele­mento indispensável duma eclesiologia de comunhão, na qual se admite o dis­cernimento de todos. A previsão de conflitos e o anúncio da incompreensão que os seguidores de Jesus viriam a en­contrar é uma parte do legado evan­gélico (Jo 15, 18-21; 16, 1-49) numa co­mu­nidade, a de João, que tinha difi­culdades para que a sua mensagem fosse assumida pelos cristãos."

Como se vê, o autor não pode ser mais lúcido. Sabe bem o terreno que pisa e não está disposto a deixar de caminhar. Alegremo-nos. Porque só temos a beneficiar com ele.

Trotta / Juan José Tamayo (Director)

NOVO DICIONÁRIO DE TEOLOGIA

É uma obra imprescindível em qualquer biblioteca pública ou doméstica. Quem se interessar, minimamente que seja, por assuntos de Teologia, numa perspectiva libertadora e intelectualmente saudável, não pode prescindir deste grosso volume de 989 páginas, escrito por múltiplos especialistas na matéria. E não só como obra de consulta. Também de estudo.

O volume apresenta-se como her­deiro con­tinuador de um outro apare­cido em 1993, com o título Conceitos fundamentais do Cristianismo. O teólogo JJ Tamayo, que dirige a obra, esclarece, no Prólogo, que do trabalho anterior, "conservamos apenas alguns conceitos" e, mesmo esses, aparecem aqui "reelaborados".

"Não é este um dicionário confessi­onal, menos ainda, apologético duma religião em concreto; tão pouco é um di­cionário de definições intemporais de conceitos igualmente intemporais; me­nos ainda, uma soma de pequenos tra­tados ou de resumos escolares de cada conceito. Trata-se de um dicionário crí­tico, científico, escrito a partir duma pers­pectiva laica e em regime de liber­dade, pouco frequente no mundo teoló­gico, quase sempre controlado pelas instituições religiosas e ao seu serviço. A sua pretensão é oferecer as linhas fun­­damentais da teologia cristã com perspectiva histórica, apresentar o actual estado intelectual da questão dos grandes temas do Cristianismo e faci­litar o acesso às novas contribuições da reflexão teológica e das disciplinas re­lacionadas com ela, no diálogo com a filosofia e a ciência, ou, melhor, as ciências."

O novo dicio­ná­rio de Teologia tem em conta as mu­dan­ças profundas em curso, desde há cinquenta anos a es­ta parte e que, a partir de agora, nun­ca mais param. Nomeadamente, o aparecimento da glo­balização, da po­breza estrutural, do feminismo, da cons­ci­ência ecológica, do pluralismo cultu­ral e religioso, da re­volução bioética e biogenética.

"Tais fenómenos - sublinha Ta­mayo, no referido Prólogo - exigem uma refundação da teologia, ou, se se prefere, um novo paradigma teológico que responda aos novos desafios e abra novos horizontes na actividade teológica".

A todo, são 102 entradas, de A­(gnos­ticismo), assinada por Juan Anto­nio Estrada, a V(irtude), assinada por Marciano Vidal. Entre os demais autores que assinam temas de grande actuali­dade e e não menor oportunidade, pa­ra lá do próprio JJ Tamayo, figuram no­mes bem conhecidos do nosso Jor­nal, como Giulio Girardi, António Piñero, Jo­sé Maria Castillo, Fernando Cama­cho, Casiano Floristán, Xabier Pikaza, Jon Sobrino, Raimon Panikkar, Enrique Dus­sel,  Jesus Peláez, Antonio González,  Pa­blo Richard,  Raffael Aguirre, Elsa Tamez, Ignacio Ellacuria, Andrés Torres Queiruga, José Maria Mardones, Ma­nuel Fraijó,  Luís de Sebastián, Clodo­vis Boff, Margarita M.ª Pintos e Diego Molina.

"Se a teologia - escreveu Karl Barth, citado no Prólogo - não quer pre­cipitar-se na arterioesclerose... não po­de reduzir-se a trabalho de rotina."

Editora Campo das Letras

ANTÓNIO DRUMOND

O preto, o branco e alguma cor

António Drumond nasceu no Funchal em 1936 e, desde 1959, passou a residir no Porto, onde se licenciou em economia. Na década de 70, iniciou-se na fotografia e em 1978 integrou o Grupo IF que ajudou a fundar e em cujos projectos e mostras colaborou. O livro de fotografia que acaba de publicar com a chancela da Campo das Letras inclui também dois breves textos, respectivamente de Bernardo Pinto de Almeida e de Maria do Carmo Serén. Mas o que é verdadeiramente empolgante são as fotografias que nos despojam do acessório e nos obrigam a mergulhar no essencial que misteriosamente deixa de nos ser invisível. Uma verdadeira obra prima que urge contemplar sem pressas e reiteradamente.

Cada fotografia de António Dru­mond é um mundo. Podemos perder-nos na sua contemplação, que não nos perdemos do Real que elas reprodu­zem. Pelo contrário. Mergulhar em cada um destas fotografias é encontrar o Real que a pressa da vida e do consumo nos roubam e nos proibem de ver e de sa­borear. Daí a solidão e o vazio com que muitas das nossas vidas hoje se tecem. Em cada fotografia deste livro o encon­tro com o Real é total. Num primeiro olhar, o preto e o branco aparecem-nos desconcertantes e quase nos dei­xam sem fôlego. Vem depois o deleite do Real, em toda a sua verdade. O nosso olhar de­tém-se e perdemo-nos no Real para onde cada foto­grafia nos trans­porta e logo nos reencontramos a nós próprios.

Há fotografias que nos alienam e evadem do Real. Não são assim as de António Dru­mond. O olhar dele tem que ser muito perspicaz, para chegar a ver e nos fa­zer ver o Real para lá do acessório. O seu trabalho e a sua arte consistem em servir-nos o Real contra a Ilusão.

Diz-se por aí que uma imagem, no caso, uma foto, vale mais que mil pa­lavras. Infelizmente, quase nunca é as­sim com as imagens que diariamente nos são mostradas pelos grandes me­dia. Parecem captadas para nos distrair do Real e nos adormecer, como se o Real não existisse. Felizmente, as foto­grafias de António Drumond são das que valem mais que mil palavras, valem todas as palavras que ele nos poderia dizer. O livro propositadamente não as diz. Porque no-las dizem as fotografias. Quem se demorar a contemplá-las des­cobre as múltiplas estórias de vida que elas con­têm e nos revelam em toda a eloquência do seu silêncio.

Experimentem. E tentem "ouvir" e aguentar cada estória que as fotografias nos contam. Quem sabe se não são tam­bém estórias que vivemos algures e que carregamos connosco desde a in­fância, quase sempre vivida a preto e branco, sem a cor da festa e da ale­gria.

Parem, por exemplo, na fotografia com rostos e mãos de mulheres juntas, numa postura de quem pensa como há-de encontrar saída para o beco sem saída em que a vida das suas famílias se tornou. De repente, podemos estar a ouvir a estória das nossas próprias mães e tias que nunca nenhum roman­ce contou. E que o fotógrafo "apanhou".


ÚLTIMA PÁGINA

A sua pintura já começa a ser reconhecida

ÁLVARO COSTA

Nunca frequentou nenhuma das chamadas Escolas de Belas Artes, mas a Pintura sai-lhe das mãos e do corpo como uma filha, um filho sai do corpo da respectiva mãe. Álvaro Costa é um Criador com muito do toque criador de Deus. Inclusive, soube encontrar a sua própria técnica de pintar. Contempla demoradamente a tela branca e, depois, com um simples canivete faz emergir dela o que só ele viu que ela esconde dentro, numa  relação de comunhão que mais parece uma cópula de amor consumado.

Foi no ambiente cultural e espiritual (do Espírito ou Sopro libertador de Jesus, não da Religião, sempre alienante) que felizmente se respira na Associação AS FORMIGAS DE MACIEIRA, a cujos corpos gerentes pertence, que Álvaro Costa se descobriu e ganhou confiança em si próprio. O Concelho de Felgueiras que o viu nascer ainda não deu por ele, mas outros concelhos do país, nomeadamente, Celorico de Basto e Guarda, já admiram os seus quadros e adquirem-nos. O Barracão de Cultura será um dia a sua casa!


Dia 30 de Abril, S. Pedro da Cova

6.º ENCONTRO DE ESPIRITUALIDADE

"Porque o mataram? E porque o proclamaram ressuscitado?" É este  empolgante e polémico tema que estará em de­bate no próximo Encontro de Espiritualidade com o a­teís­mo em fundo, o 6.º da sé­rie, marcado para domingo 30 de Abril 2006, entre as 10h e as 17h na casa-sede da Associação Pe. Maximino / Jornal FRATERNIZAR. O almoço, eucarístico, resultará do que cada qual levar para Partilhar na Mesa Comum.

A Associação garante u­ma Sopa quente de legumes.

Anote já na sua agenda. E nesse dia apareça cedo com a sua alegria, as suas amigas e os seus amigos. E também com alguns poemas e notícias para partilhar de tarde.

Como é timbre destes encontros, o tema deve ser preparado por cada participante, porque, depois duma abertura saudavelmente provocadora do pe. Mário, a palavra andará à solta na sala. O que mais desejamos é que seja uma palavra com Espírito.


LIVROS DO PE. MÁRIO ON-LINE

Graças à iniciativa de um engenheiro amigo, os livros do pe. Mário estão a partir de agora à venda na internet. Basta, para tanto, aceder ao site criado para esse fim: www.padredalixa.org

e fazer as respectivas encomendas. Nem precisa de cartão de crédito. Pode pagar por transferência bancária, em vale postal, cheque ou à cobrança. E recebe os livros em sua casa.

Se, por exemplo, ainda não adquiriu o livro NA COMPANHIA DE JESUS E DE ATEUS, pode fazê-lo por este meio. E se é um daqueles assinantes mais próximos do pe. Mário, a quem ele tomou a liberdade de enviar este seu livro pelo correio, p.f., não se atrase no pagamento. É para o Barracão de Cultura.



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