Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 160, de Janeiro/Março 2006 (Continuação)

Importante, mas muito aquém

das minhas expectativas

* Comentário do Pe. Mário à última aula do Pe. Carreira das Neves

A propósito da última aula do Pe. Carreira das Neves, o director do Jornal Fraternizar escreveu um comentário e uma reflexão teológica no Diário Aberto que mantém na sua página na net. Não resistimos e aqui divulgamos o texto. Parece um texto contundente, mas vai cheio de ternura fraterna, como podem verificar.

1. Que dizer da última aula do Pe. Carreira das Neves? O que eu sei é que muitas vezes os mestres acadé­micos aproveitam a última aula para dizerem ao mundo o que não tiveram coragem de dizer antes, durante os anos de exercício de funções, não fos­se a sua carreira docente ser prejudi­cada, porventura, interrompida, cercea­da. Não foi totalmente assim com a última aula do Pe. Carreira das Neves, apesar dele ter abordado uma temática que foi sempre a menina dos seus olhos e a que deu o título: “Jesus Cristo e a História”. O desenvolvimento deste enunciado desdobrou-se em outros três sub-temas: “Jesus Cristo e a Histó­ria”; “Jesus Cristo e a Fé”; e “Jesus Cristo e a Igreja”. O que o mestre fran­cis­cano disse, a este propósito, é muito importante e “novo”, pelo menos, aos ouvidos de muitas pessoas, nomeada­mente, das pessoas católicas que hoje ainda se mantenham dentro das cate­queses eclesiásticas tradicionais, chei­as de lendas, mitos e muitas inverda­des.

2. Por mim, acho que foi uma abor­dagem demasiado eclesiástica. Ousa­da, dentro deste âmbito, mas eclesiás­tica por demais. Ora, Jesus Cristo não é das Igrejas. É da Humanidade, tam­bém daquela parcela cada vez maior que hoje se assume como ateia e agnóstica. O Pe. Carreira das Neves poderia, por isso, ter aproveitado para dizer o que tem Jesus de Nazaré a dizer aos ateus de hoje. E, sobretudo, o que é que Jesus traz de novo ao com­bate duélico da Humanidade contra a generalizada idolatria deste tempo. A verdade é que estas duas vertentes nem sequer são afloradas na sua última aula. Sinal manifesto de que o mundo do Pe. Carreira das Neves tem sido so­bretudo o mundo da Universidade cató­lica, o mundo da Igreja católica. Com incursões, muitas e de muitos modos, fora dela, mas não muito fora, porque incursões limitadas ao mundo das ou­tras Igrejas, no âmbito do chamado “Movimento ecuménico”, que pratica­men­te não passa de mais do mesmo. O mundo do ateísmo e do Dinheiro, este como o ídolo maior e o mais perverso do nosso tempo, é totalmente diferente do das Igrejas e das Religiões. E o mun­do das vítimas humanas nem se fala. Aliás, é junto destas que podemos perceber com toda a clareza o que é o mundo do Dinheiro e o mundo das Igre­jas e das Religiões. As vítimas des­ses dois mundos é que nos dizem bem o que ambos são.

3. Mas Jesus de Nazaré é da Humanidade, antes de ser das Igrejas. Quando as Igrejas se apoderaram dele, depressa o converteram num ídolo mais, ao qual depois passaram a prestar culto, em liturgias sacrílegas, de costas para o mundo e a História, sobretudo, de costas para as suas víti­mas. Ou então em liturgias dirigidas es­pe­cialmente às vítimas, mas para as manterem adormecidas, as distraírem e as desmobilizarem dos grandes com­bates políticos que urge levarmos por diante, para darmos um rosto humano ao mundo e à História. Bem sei que não é por aí que vai esta última aula do Pe. Carreira das Neves. O biblista fran­ciscano é suficientemente lúcido para não se meter por essas alie­nações. Mas, ao deixar-se enredar quase por completo no labirinto eclesi­ás­tico, a sua última aula perdeu acuti­lância profética, e acabou por ser uma aula mais. Poderia ter sido o rasgar do véu, também o véu do Templo ou Santuário, inclusive, do santuário de Fátima e da sua cruel senhora, e sobre­tudo o véu da Grande Mentira institucio­nalizada que mantém a Verdade cativa na injustiça. Não foi. Como última aula, devo confessar que esperava mais, muito mais. Esperava que o meu amigo Pe. Carreira das Neves partisse a louça eclesiástica, nomeadamente, as cate­que­ses que continuam a ensinar-se às crianças, por essas paróquias católicas além. Aprecio evidentemente o muito que diz, nesta sua última aula, mas acho que ele poderia e deveria ter ido muito mais além. Ou não está dito, desde há dois mil anos, pelo mestre dos mestres, que a verdade é para ser apregoada so­bre os telhados? Não é para ficar debaixo do alqueire das Universidades católicas, das paróquias católicas, do Sistema eclesiástico.

4. Uma das falhas monumentais desta última aula do meu amigo Pe. Carreira das Neves é a completa au­sência de referências à Morte Crucifica­da de Jesus, sobretudo, às causas que a provocaram. Ora, esta questão é a essência da Revelação jesuânica de Deus Vivo. É nesse acontecimento que reside o miolo da Revelação de quem e de como é Deus e de quem e de como é o Ser humano, melhor, de quem e de como é o Ser humano, em quem Deus Vivo se nos revelou de modo de­fi­nitivo e completo. E sobre isto, a última aula, praticamente não diz nada. No entanto, é preciso saber porque mata­ram Jesus. Porque é que este homem que passou fazendo o bem, acabou morto na cruz. Porque é que Jesus teve que ser morto da maneira que os quatro Evangelhos canónicos testemunham, e não de outra. Porque é que os seus inimigos fizeram questão de que Jesus fosse morto na cruz. Porque não se li­mitaram a matá-lo num atentado à ma­neira dos sicários, coisa comum na­quele tempo como hoje, nas martiri­zadas terras do Médio Oriente. Porque é que Jesus teve que ser julgado pelo Sumo Sacerdote e pelo Sinédrio, em nome do Templo (e do Deus do Tem­plo), e pelo procurador romano Pôncio Pilatos, em nome do Império (e do Deus do Império). Porque é que todos os Po­deres da época – o Poder económico-financeiro, o Poder ideológico-religioso e o Poder político nacionalista e impe­rialista – se puseram de acordo e lhe deram uma morte como a que ele so­freu. Porque é que Jesus foi odiado até ao ponto de os seus inimigos não se contentarem com dar-lhe uma morte à maneira dos sicários – uma punhalada à falsa fé – pelo contrário, fizeram ques­tão que ele fosse preso, julgado pelo tribunal judaico e pelo tribunal do Império romano, fosse condenado à morte na cruz e finalmente crucificado sob Pôncio Pilatos? Não diz o Deutero­nómio: “Maldito o que morre na cruz”? Mas então porque é que foi necessário que Jesus fosse apresentado aos olhos do povo e para todo o sempre como o Maldito, segundo a Lei de Moisés, essa mesma que, ao tempo, era considerada a verdadeira Lei de Deus? E que tipo de bem foi o que Jesus de Nazaré fez às pessoas, para, pouco tempo depois dele ter dado início à missão de Evan­geli­zar os pobres, ser preciso tratá-lo deste modo e matá-lo como o Maldito dos malditos?

5. Estas são questões fulcrais que infelizmente não estão presentes na última aula do Pe. Carreira das Neves. E deveriam estar. Porque, sem estas, as outras que estão lá perdem força, não têm profecia, são mais do mesmo. E deixam o mundo continuar a girar à vontade, sem que o mestre franciscano que acaba de dar a sua última aula ve­nha a ser incomodado, seja olhado e tratado como um maldito, muito me­nos seja odiado e excomungado pelos actuais “sumos sacerdotes”, pelos Si­nédrios e procuradores do Império que hoje estão aí como os continuadores dos que trataram assim Jesus de Nazaré no seu então. Ao condená-lo e matá-lo do modo como o fizeram, os que esta­vam constituídos como autoridades e como chefes incontestados do povo (eram-no em nome de Deus e faziam as vezes de Deus na terra!), quiseram dizer, de modo definitivo, que Jesus tinha que ser banido da face da terra, que o seu nome nunca mais poderia ser pronunciado, que a sua memória se­ria apagada para sempre. E que o que Je­sus havia revelado com a sua prática libertadora e a sua doutrina ilu­mina­do­ra, isto é, com o Evangelho ou Boa Notícia de Deus que ele fez inte­gral­­men­te presente e actuante entre nós, nunca mais poderia ser repetido, tinha que ser totalmente eliminado para sempre, nunca mais a humanidade ha­veria de ser sabedora. Era o futuro de­les, eram os privilégios deles que esta­vam em jogo, era a Ordem mundial em que eles eram autoridades e chefes, que estava em jogo. Por isso, não basta­va matar Jesus, era necessário matá-lo de forma exemplar. Para que nin­guém mais tivesse a veleidade de que­rer ser homem/mulher daquele jeito que Jesus se havia atrevido a ser, contra o Templo e contra o Império e até contra uma certa imagem de Deus, que, afinal, não passava de um ídolo mais, por­ventura, o mais perigoso de todos os ídolos. E foi o que fizeram.

6. Entretanto, coisa estranha, Je­sus é hoje conhecido e até adorado em quase todo o mundo. Não é ne­nhum maldito, como os chefes de então pretenderam que fosse. Porém, que Jesus é que é hoje conhecido e ado­rado? O de Nazaré, que foi crucifica­do? O Pe. Carreira das Neves, na sua última aula, sempre se lhe refere como “Jesus Cristo”. Parece evitar chamar-lhe Jesus, simplesmente, Jesus, o de Nazaré. Sabemos que “Jesus” é o no­me que lhe foi dado. “Cristo” é o ape­lido que lhe foi atribuído pelos segui­dores, elas e eles. Por sinal, Jesus, o de Nazaré, nunca gostou do apelido que lhe atribuíram; é um apelido que não diz com a sua maneira de ser. Pre­feriu sempre o apelido “Filho do Ho­mem”, ou “O Homem”, sem mais. A ver­dade é que para a posteridade, vingou o apelido "Cristo". Mas se ao título Cristo não lhe juntamos sempre “Cruci­ficado”, Cristo Crucificado, como fez S. Paulo, então podemos estar a referir-nos a um ídolo com o nome de Jesus Cristo, logo abreviado para “Cristo”, sem Jesus, o mesmo é dizer, sem His­tó­ria, sem mundo, sem causas, sem conflitos, sem combates, sem lutas pela causa do Reino de Deus, sem enfren­ta­mentos duélicos com os carrascos ou verdugos que produzem vítimas huma­nas e, depois, ainda passam para a His­tória dos vencedores como os maio­res “benfeitores” da Humanidade!

7. Quem nos garante que Jesus Cristo, hoje, ainda é Jesus, o de Na­za­ré? E que tipo de Jesus é o que as Igrejas hoje invocam e adoram nos seus templos e altares? O de Nazaré, o Crucificado? O Maldito? Aquele cujo nome nunca ninguém mais deveria se­quer pronunciar? Não me parece que seja este Jesus, mas o Cristo do Impé­rio romano. De resto, o êxito retumban­te de Cristo (não confundir com Jesus de Nazaré) no mundo ocidental, vem desde Constantino, precisamente, desde quando o imperador converteu Je­sus de Nazaré no único Deus do Impé­rio, com direito a culto público, parale­lamente com o dele. O que dá para des­confiar, todos estes séculos depois, que podemos andar a falar de Cristo como se fosse Jesus, o de Nazaré, quan­do não passará de Cristo, o ídolo maior do Império romano. Por mim, gostava mais que o Pe. Carreira das Neves tivesse conduzido a sua aula por estas profundidades teológicas je­su­ânicas; que não se tivesse ficado pelas “novidades” de última hora com que a hermenêutica bíblica dos Evange­lhos, sobretudo, dos dois primeiros capítulos de Mateus e de Lucas, nos têm trazido entretidos e mais ou menos distraídos das grandes questões do mundo e da História. Aquelas são ques­tões que até podem estar a dar de comer a muito professor-doutor nas Universidades católicas do mundo oci­dental, mas não contribuem para liber­tar a Humanidade oprimida e empobre­cida. E esta é a única missão que conta para Deus Vivo, o de Jesus de Nazaré. Porque tudo o que não contribuir para libertar os oprimidos e para arrancar os pobres da pobreza em que nascem crescem, reproduzem-se e morrem, não tem a marca ou o selo de Jesus, o de Nazaré. Só tem o selo, a marca da “Besta”, para utilizar aqui a lingua­gem do Apocalipse cristão. Portanto, o selo, a marca do Anti-Cristo, do Anti-Jesus.

8. Ainda assim, as pessoas não deixem de ler com atenção a última au­la do meu amigo Pe. Carreira das Ne­ves, franciscano. Ele é demasiado con­tido nas expressões que utiliza, pelo que é preciso lê-lo nas entrelinhas. Mas, se possível, ousemos ir muito mais a­lém do que ele vai. Libertemos a Bí­blia, os Evangelhos canónicos, Jesus de Nazaré e a Teologia de Jesus de Na­za­ré das Igrejas e das Universidades católicas. Restituamos à Humanidade todo este património que é dela. E que ninguém deixe de se abrir a este patri­mónio. Como quem se liberta e nasce do Alto, do Espírito de Deus Vivo.


Os Evangelhos são fiáveis?

“Sumo” duma conferência proferida pelo biblista ibérico, António Piñero

“São aplicáveis aos Evangelhos as técnicas de investigação histórica da actualidade?” A pergunta serviu de tema à conferência de abertura do último Curso de Verão organizado pela Universidade Complutense de Madrid, proferida pelo conhecido biblista ibérico António Piñero. O que se segue é apenas o “sumo”.

O Novo Testamento é o livro mais vendido, lido e comentado do mundo, e sobre o qual centenas e centenas de milhões de pessoas baseiam a sua vida e as suas crenças. É um conjunto de 27 obras compostas há quase 2 000 anos, redigidas a partir de uns pontos de vista e duma mentalidade muito dis­tantes e distintos dos de hoje. Dentro destas 27 obras há quatro que ocupam um lugar absolutamente de honra: os Evangelhos. Aparentemente, são textos fáceis e simples, mas um olhar mais aten­to dá-se logo conta que são es­critos problemáticos, não tão simples nem fáceis de interpretar como à pri­meira vista parece.

Primeiro, estão escritos num con­tex­to sociológico, filosófico e religioso já com dois milénios, absolutamente afastado do nosso. Segundo, são tex­tos complexos em si mesmos. Um evan­gelho está composto a partir de chaves interpretativas internas, por vezes nada simples, pelo que é necessário reflectir para as descobrir, pois elas não se dei­xam ver logo à primeira. E tais chaves condicionam a visão do personagem principal, Jesus. Terceiro, os Evange­lhos são antes de mais obras de propa­ganda. O “biógrafo” apresenta os ditos e os feitos do seu “biografado”, de mo­do que surja uma determinada inter­pre­tação e não outra. Por vezes os E­vangelhos falam mais num tom de exal­ta­ção do personagem anunciado, Je­sus, do que com o devido rigor histó­rico. Quarto, quando comparamos os quatro Evangelhos entre si, notamos profundas semelhanças, mas também divergências e inclusive contradições. Daí, as dúvidas sobre a sua fiabilidade. Mas é inevitável. Os quatro Evangelhos procedem de quatro mãos diferentes e respondem a várias tradições e inte­resses teológicos. Cada um deles é a ban­deira de um ponto de vista e duma interpretação específica de Jesus. E toda a interpretação corre o risco de distorção. Quinto, sabemos hoje sem nenhuma dúvida que os Evangelhos ca­nónicos actuais - Mateus, Marcos, Lucas e João -  não são o produto lite­rário de testemunhas oculares dos fa­ctos que narram. A tradição oral sobre Jesus esteve sujeita, como todas as tradições orais de outros povos, às mes­mas leis de variações e de mudan­ças, omissões e acrescentos do con­teúdo que se transmite.

Diante destas constatações não parece anormal que surja o problema da fiabilidade dos Evangelhos. Impõe-se por isso cautela e um trabalho críti­co. Apesar disso, muitas pessoas per­guntam: São aplicáveis aos evange­lhos as técnicas de investigação histó­rica da actualidade? Os Evangelhos devem ser lidos só a partir da fé - diz-se - porque só esta é capaz de aceitar um conjunto de verdades não adqui­ríveis por outros meios, por exemplo, por meio de investigação racional. Esta pretensão não parece correcta, porque se quiséssemos fundamentá-la estaría­mos a raciocinar em círculo. O argumen­to para semelhante pretensão - excluir os Evangelhos da investigação histórica independente - só poderia ser o se­guin­te: estes livros não podem ser exa­minados criticamente porque são sa­grados. Ora bem, e porque é que são sagrados? Porque são a palavra de Deus. E quem o afirma? A Igreja com todo o seu poder espiritual. E de onde obtém ela esse poder? Naturalmente, por ter sido fundada por Jesus, tal co­mo afirmam estes livros, concreta­men­te, o Evangelho de Mateus. Como se vê, a circularidade da argumentação é inequívoca: a sacralidade destes es­critos apoiar-se-ia na voz e na autori­da­de da Igreja, a qual por sua vez, fundamenta o seu poder nestes escri­tos. O raciocínio é um círculo perfeito.

Por isso, se estas obras pretendem ser apresentadas a quem as lê como documentos históricos, não há razão nenhuma que negue o direito a sub­me­ter os Evangelhos à mesma análise e à mesma crítica que utilizam os filó­logos e os historiadores do mundo anti­go no seu empenho de reconstruir a história passada, quando hoje esqua­dri­nham os documentos que chegaram até nós.

Mas… podemos confiar nos Evan­gelhos? Desde o século XIX, esta tem sido a grande pergunta. E a resposta é múltipla.

* Neles, é manifesta a diferença en­tre a teologia de Jesus e a dos seus próprios discípulos (Reimarus; Har­nack).

* Os Evangelhos estão cheios de mitos e lendas (S. F. Strauss).

* A vida de Jesus não é algo único e original, mas situa-se na atmosfera das mais vivas esperanças apocalípticas do judaísmo imediatamente anterior à mudança de era (Schweitzer, Monte­fiore). Qualquer mudança deste contex­to há-de ser provada cuidadosamente.

* Certas concepções dos Evange­lhos, por exemplo, o nascimento virgi­nal de Jesus ou a crença na sua filia­ção divina explicam-se melhor dentro duma atmosfera religiosa grega do que judaica (Escola da “História das Reli­giões”). É possível – pergunta-se – que as narrativas da infância de Jesus não sejam história pura, mas uma mistura de dados tomados do ambiente da religiosidade que se respirava na soci­edade helenística?

* A linguagem do Evangelho de Jo­ão, inclusive, as suas ideias sobre Je­sus como o Logos de Deus, tem muitos paralelos com a mística grega helenís­tica. O Novo Testamento participa das ideias centrais sobre a salvação das reli­giões de mistério helenísticas. Impõe-se, por isso, grande cautela qu­an­do encontramos nos Evangelhos ideias deste estilo atribuídas a Jesus.

* Os dados geográficos e tempo­rais sobre a vida e a pregação de Je­sus que aparecem nos Evangelhos não são rigorosos, mas uma composição de cada evangelista, pelo que variam de uns para outros.

* Os Evangelhos são uma compi­lação de pequenas unidades de tradi­ção oral. Bastantes anos após a morte de Jesus, os evangelistas recolheram estas pequenas unidades, e com uma união despreocupada entre elas tor­na­ram a transmitir por escrito, dentro duma forma literária original, o “evan­gelho” (“História das formas”).

* Os evangelhos sinópticos não são “biografias”, mas testemunhos duma crença. Esta fé, gerada depois dos acon­te­cimentos da Páscoa (a ressur­rei­ção, etc.), exerceu grande influência na transmissão dos relatos sobre Je­sus: não os difundiu de modo inócuo, mas reelaborou-os segundo as neces­si­dades e os esquemas teológicos pró­prios da comunidade que os transmitia (“História das formas”).

* Cada autor do NT, especialmente os evangelistas, manejou e conformou as fontes escritas à sua disposição, dei­xou nelas a sua marca, o seu ponto de vista particular, a sua teologia, os seus interesses, as suas preocupações. Pode, pois, haver um alto grau de sub­je­ctividade (“História” ou “Crítica da redacção”).

Conclusão: à pergunta inicial res­ponde-se: hoje é absolutamente in­dis­pensável aplicar aos Evangelhos os mesmos métodos de investigação que aos textos profanos. De contrário, não estaríamos a trabalhar em concordân­cia com a ciência histórica actual.


Que fazer face às tristes regressões

e estagnações que nos amarguram?

Serra do Pilar. Pe. Leonel e os 40 anos do Vaticano II

O Pe. Leonel regressou, em princípios de Dezembro 2005, ao espaço da Comunidade da Serra do Pilar, para participar na sessão de apresentação do livro "VATICANO II, 40 anos depois", organizado por Ângelo Cardita e editado pela Ariadne. Partilhamos aqui com alegria os passos principais da sua sábia reflexão, numa condensação da nossa responsabilidade.

O Concílio criou, por momentos, uma forte e sentida respiração da Es­perança, logo no seguimento aparente­mente asfixiada. É a Esperança posta à prova nestes dias de julgamentos his­tóricos. As comunidades da Esperança, como a Serra do Pilar, têm uma séria res­ponsabilidade, exactamente a mis­são de guardar a Futuro. Comunidades pesadas e complicadas não se aguen­tarão nos tristes e cansativos dias que correm.

Ainda não havia acontecido Niceia I (325), o 1.º Concílio Ecuménico em to­da a história da Igreja, e já um núme­ro incontável de concílios locais e re­gionais, por toda a parte onde as Igre­jas se haviam multiplicado e situado, se reunia ensinando e fazendo doutri­na que a comunhão católica da Una e Santa logo assumia e divulgava. Sinal histórico das Igrejas Locais, hoje me­nos visível mas não menos real, prova histórica e geográfica da Igreja plural. A dimensão católica (universal) e ecu­ménica não contradiz a sua plurali­da­de, antes confirma e visibiliza a Comu­nhão dos Santos. Esta minha afirmação em nada diminui a importância históri­ca dos concílios ecuménicos. Pelo con­trário. Mas a Igreja não é um império! E o Papado, apesar das tentações mui­tas do Papa-Rei para fazer da Igreja uma monarquia e um poder absoluto, de facto nunca o conseguiu, pois as ve­zes que o tentaram, a Una e Santa, até ao século XII indivisa, partiu-se em cismas e divisões com reacções opos­tas, isto é, iguais. Ou não foi pelas mes­mas razões políticas que as Igrejas Ori­entais e as Igrejas Ocidentais se divi­diram e opuseram? Mas, exceptuando as seitas, as Igrejas separadas e divi­didas continuam a proclamar unanimemen­te o Símbolo.

Coube ao Concílio Vaticano II (1965), o último dos 21 concílios ecu­mé­nicos acontecidos ao longo dos dois milénios da História da Igreja, fazer e ser o resumo e a actualização de todos os crescimentos e conversões, renova­ções, reconversões e reformações da Una e Santa. Claro que não chegou, não chega. Um concílio pede outro con­cílio que retoma o que o outro deixou por fazer, por dizer. 40 anos são muitos anos, tempo suficiente para se desco­brir insuficiências, sobretudo aplicações e práticas não conseguidas e/ou des­viadas. Mas entre tudo o que de ma­ra­vilhoso aconteceu no último concí­lio ecuménico, foi a inesperada consti­tui­ção conciliar Lumen Gentium que restituiu à Igreja o primado do Povo de Deus, invertendo de uma assentada a pirâmide clerical que punha o Papa aci­ma de tudo, e o Bispo em cada locali­da­de no topo de tudo, e em cada paró­quia os Padres à frente de tudo. Mas não é o que ainda agora acontece? Pa­re­ce, mas não é. Nunca mais.

A Hierarquia, nas suas deformações históricas persistentes, já não se agu­en­ta. O "sistema" clerical já não funcio­na. Ainda não é um cadáver, ou um fós­sil, mas tem os dias contados. O con­cí­lio ecuménico Vaticano II acabou com a pirâmide. Inverteu-a. O vértice está no chão. Mas não há padres e santos a mais? São cada vez menos. É verda­de que ainda há padre a mais, mas os Padres são uma espécie em extinção. Mas, e a Igreja? À Igreja nunca faltarão os ministérios, desde os bispos, presbí­teros e diáconos, juntamente com uma multidão de ministérios intermédios ou, melhor, intermediários a criar. A Igreja é um povo, o Povo de Deus, e os minis­té­rios são serviços ao serviço do Povo, desde o ministério do Bispo de Roma que na cadeira-de-Pedro preside à co­mu­nhão das Igrejas, até ao Bispo de cada Igreja Local com o seu Presbitério e os Diáconos entre nós ainda a rein­ven­tar. A Igreja, que dos Leigos recebe o nome e o conteúdo, é um povo. Uma democracia? Igreja-Democracia? Não, no sentido político, não, tal como tam­bém não é uma monarquia. É o Povo de Deus no sentido bíblico e teologal, es­ca­tológico: um Povo de Santos (Voca­ção Universal à Santidade), Povo de Pro­fe­tas, o Povo Sacerdotal. Mas os Pa­dres não é que são os sacerdotes? Não, o Cristo é o único sacerdote. O Cristo, cabeça e corpo, isto é, Ele e Nós, Nós nEle, Ele em-Nós. Impropriamente fa­lan­do, o ministério episcopal e presbite­ral mais tarde, muito depois da Carta aos Hebreus, e na sequência, por qu­an­to presidiam à Assembleia da Euca­ristia in nomine Domini, representam Cristo, cabeça da Igreja. Mas não cons­tituem um sacerdócio próprio. Próprio, conforme o ensino dos Apóstolos, é o sacerdócio de Cristo, cabeça e corpo, repito, Ele em-Nós, Nós nEle. A distinção dos dois sacerdócios, dos Padres e dos Leigos, é esta, não há outra. Povo Sa­cer­dotal. Sim, a Comunhão dos Santos!

Sacrosanctum Concilium foi o pri­meiro trabalho conciliar iniciado e logo pronto, com todos os inconvenientes de um itinerário apenas começado. Sofreu das inconveniências de ser o primeiro documento conciliar. Foi uma completa e profunda restauração, mas não che­gou a ser a necessária renovação ou recriação, como precisávamos que ti­vesse sido. Falha ou carência de que ainda hoje sofremos, pois os velhos ví­cios do ritualismo e legalismo regres­saram rapidamente com grande dano pastoral. No século XIX dizia-se que os grandes avanços litúrgicos aconte­ciam por "desobediências" ousadas e corajosas. Hoje acontece o mesmo, pa­ra o melhor ou para o pior, pois tanto de­paramos nas nossas igrejas com belas e vivas celebrações como não pou­cas vezes estamos condenados a mo­nótonos, repetitivos e enjoativos actos litúrgicos. Claro que ninguém é dono [da Liturgia], começando pelo Papa que tem as chaves do Reino, não só ele! mas exactamente por ser o Por­teiro, não é a Porta e também não é o dono da Casa. Toda esta dialéctica só encontra saída na liberdade dos filhos de Deus, sempre contrariada pelos dou­tores da Lei hoje tão chatos como foram nos dias de Jesus...

Sobre o notável documento conci­liar Dei Verbum, apenas quero dizer que do que precisamos entre nós não é de grandes ledores, como foram os Ju­deus e como são os Protestantes, mas de bons leitores. Mas, sem boas tra­duções em língua portuguesa, não é tarefa fácil.

Que fazer face à tristes regressões e estagnações que nos amarguram, ou azedam, depois das tão grandes espe­ran­ças despertadas com a explosão con­ciliar da Graça ocorrida com o con­cílio ecuménico Vaticano II que surpre­en­deu todo o mundo em 1965? Paci­ên­cia? Sim, mas a paciência da Espe­rança que conjuga o Verbo esperar, a paciência dos Santos que nunca fi­cam desorientados nem inactivos ape­sar da Noite.


LIVROS DO TRIMESTRE

Sal Terrae / Elsa Tamez

Lutas de poder nas origens do Cristianismo

Um estudo da Primeira Carta a Timóteo

A autora é professora de estudos bíblicos na Universidade Bíblica Latino-americana de Costa Rica. O livro, de 206 páginas, desmonta a leitura clerical que se tem feito através dos séculos da 1.ª carta a Timóteo. Leiam e escandalizem-se não com o livro, mas com as catequeses eclesiásticas anti-mulheres.

O livro surpreende-nos com uma o­por­tuníssima apresentação do conheci­do teólogo Juan José Tamayo. "O que mais me interessou no livro - sublinha - é a metodologia utilizada, que combina a reconstrução do contexto para enten­der o porquê de determinados textos e determinadas práticas eclesiais, com o distanciamento e a dissenção, quando a particular ideologia do autor, herdeira de tradições culturais patriarcais e dis­cri­mi­natórias, choca frontalmente com o Evangelho de Jesus de Nazaré, que tam­bém é necessário reconstruir."

O livro "faz-se" em quatro capítulos: 1. Os ricos e as lutas de poder na comu­ni­­dade cristã. 2. A casa patriarcal e re­la­ções de poder entre os géneros. 3. As posturas teológicas e as lutas de po­der. 4. Critérios para a liderança nas lu­tas de poder.

"Felizmente - escreve a autora, a con­cluir o seu estudo - apesar do dano que as leituras fundamentalistas de 1 Timó­teo causaram, não conseguiram silenciar muitas mulheres ao longo de tantos sé­cu­los. Hoje, não são poucas as que so­nham com uma maneira diferente de ser igreja, fora do âmbito de interpretação patriarcal."

O livro ainda nos oferece seis apên­dices que mui­to importa co­nhe­cer para se en­tender melhor o teor da 1.ª carta a Timóteo: 1. Estru­tura socio-econó­mi­ca do império ro­mano. 2. Cidade gre­ga pre-indus­trial. 3. Plano de ca­sa e de insula ["ilhas", para famí­lias de fracos re­cur­sos]. 4. Actos de Paulo e Tecla. 5. Pluralidade no cris­tianismo primitivo. 6. Primeira carta a Timóteo [numa tradução directa do grego feita pelo própria autora].

A oportunidade deste livro é mani­festa. Durante os séculos passados, muitas foram as mulheres e alguns ho­mens da Igreja que se recusaram a ler a 1.ª carta a Timóteo, tamanha é car­ga ideológica patriarcal que nela se veicula. Este trabalho de  Elsa Ta­mez vem na hora h. Para que o terceiro milénio do Cristianismo seja mais je­suânico e menos clerical.

Sal Terrae / Revista Fomento Social

Sociedade, política e economia

Na mudança de século

Desde há 60 anos que tem aparecido como Revista de Fomento Social. E continuará a aparecer. Mas agora aparece também como livro. Com o que de melhor saiu na Revista nos últimos 10 anos. Trata-se duma obra densa (600 páginas), mas imperdível. Os grandes problemas sociais estão aqui tratados com mestria. Numa perspectiva libertadora. Como é timbre dos jesuítas, pelo menos, nas três últimas décadas.

São cinco as grandes temáticas abordadas em outros tantos capítulos do livro, desenvolvidas depois em múl­ti­plos e suculentos subcapítulos: 1. Glo­ba­lização e desenvolvimento [O de­safio da pobreza; Globalização inte­gradora frente à globalização excluen­te; Migrações e globalização: os direi­tos humanos, como marco de referên­cia; Do Rio (1992) a Joanesburgo (2002): êxito ou fracasso da Cimeira Mun­dial sobre o Desenvolvimento Sus­tentável?].

2. Economia mundial [A crise fi­nanceira mundial; Economia mundial: sob o signo da incerteza; O petróleo, outra vez].

3. A experiência Europeia [É possível a "terceira via"?; A moeda única: Vale a pena? E depois o quê?; A política agrícola comum europeia num mundo globalizado; Para lá da Cons­tituição: Europa, entre as raízes cristãs e a laicidade].

4. Espanha: As políticas go­ver­na­men­tais [A economia espanhola durante o governo de Aznar: a expan­são desigual; Financiamento autonó­mico: um desafio para o novo go­ver­no; Ensinar e aprender na Uni­versidade; O ensi­no de iniciativa so­cial. Razões e desafios; O ensino da religião na es­co­la: uma solução possível].

5. Ética e So­ciedade [A ética empresarial: ne­ces­sidade, utilida­de ou pretexto?; Em­presa e socie­dade: perguntas éticas; Repartição do tempo de tra­balho e luta contra o desemprego; Vi­ver na sociedade de consumo; Socie­dade da informação, sociedade da co­municação?; Acção política e comporta­mento dos católicos em Espanha].

No subcapítulo dedicado à pobre­za, o livro atreve-se a propor o que cha­ma de "cultura mundial solidária", co­mo contribuição essencial para aca­bar com este flagelo e este pecado mai­or do nosso tempo. E avança alguns tra­ços desta cultura solidária: a) a con­vicção de que este modelo não é viável, nem pode ser universalizável; b) a con­vicção de que o desenvolvimento é len­to e difícil, como o crescimento duma árvore; c) a convicção de que os po­bres são os protagonistas do seu de­senvolvimento; d) reformulação da re­la­ção homem/natureza, sob um novo contrato natural e respeito pelas gera­ções futuras; e) educação na frugali­dade, associada à realização pessoal. A nova cultura que tornará possível uma luta contra a pobreza em massa exige uma autêntica mudança de pa­radigma".

E conclui: "A gravidade do fenó­me­no da pobreza é tal que muda o seu «sta­tus» político e a sua própria dimen­são social. Já não se pode dizer impu­nemente que as sociedades opulentas «pres­cindem» ou que simplesmente «não precisam» dessas massas exce­den­tá­rias e excluídas. Embora as inco­mo­dem, não podem prescindir delas e elas tiram-lhes o sono."

Editorial Trotta / Ernesto Cardenal

Versos do Pluriverso

É o maior poeta vivo da Nicarágua e da América Latina. E o único que consegue fazer rimar Poesia com Teologia, pelo menos na profundidade como a que encontramos em cada um dos seus livros. Também neste que acaba de aparecer e que é uma espécie de Cântico dos Cânticos bíblico para o século XXI. Rezemo-lo, mesmo os ateus, com toda a emoção.

Uma inesperada surpresa se nos depara neste empolgante livro de poe­mas de Ernesto Cardenal. No poema "Buracos brancos", de repente esbarra­mos com uma referência a Portugal. O Poeta incluiu no seu poema um dado que conheceu através da sua leitura atenta do Jornal Fraternizar, concreta­men­te, uma entrevista que, há anos, divulgámos com o então pároco de S. Félix da Marinha, o nosso querido ami­go, Pe. Torres Maia, hoje definitivamen­te ressuscitado. Vejam só:

"A consciência é diferente da ma­téria e portanto / pode sobreviver ao cor­po. / Morrerá a morte. / A lei mais uni­versal: / tudo nasce e morre no uni­verso, / até as estrelas, / incluindo tam­bém o próprio universo. / Porém tudo nas­ce de outras mortes, / até as estre­las. / O que nascerá deste universo? /

O pároco de São Félix da Marinha (Portugal) ensina / que não ponham flo­res nos túmulos, nem os asseiem. / Todos os túmulos estão vazios. / Quan­do ele vai à sua aldeia não visita o tú­mulo dos seus pais. / Nos cemitérios não está ninguém, diz."

Sabíamos bem, aqui na direcção do Fraternizar, que o Padre-Poeta Ernesto Cardenal é um grande amigo e admirador do jor­nal, mas nunca pen­­samos que ele pudesse levar tão longe esse amor e essa admiração. Fi­camos sem pala­vras. E em profunda Eucaristia. Como a que resulta do Viver entregue e liberta­dor de Jesus de Nazaré que é o Po­e­ma Maior que alguma vez aconteceu na História da Hu­ma­nidade.

Nestes "Versos do Pluriverso" a Poesia consegue unir no mesmo abra­ço as espectaculares histórias do Cos­mos e as mais íntimas histórias dos Amantes, nomeadamente, as que o próprio Poeta viveu, enquanto jovem.

"A nossa vida passa à velocidade da luz / que é o único absoluto da Re­la­tividade, / da luz que não se atrasa nem volta atrás. / Nunca volta atrás. Astrofísica triste. / Astrofísica triste do a­mante solitário na noite. /

Os que estão na constelação do Centauro / vêem o nosso sol na conste­lação de Cassiopeia / simplesmente como outra estrela qualquer. / Eles não sabem nada sobre nós. / Tu e eu na cons­telação de Cassiopeia, e / os da Centauro ignorando a morte da Terra."

O livro é de apenas 75 páginas. Mas quem o ler/rezar nunca mais se separará dele. Sempre há-de regres­sar a ele, como alimento da Páscoa sem ocaso que é o nosso viver consci­ente na História. Leiam-no e verão.

Editorial Trotta / Montserrat Abumalham (coord)

Textos fundamentais da

Tradição religiosa muçulmana

São 230 páginas fundamentais para se poder conhecer por dentro a espiritualidade do Islão. O livro apresenta-nos uma selecção de textos religiosos muçulmanos, praticamente desconhecidos nos dois países da Península Ibérica. Por isso a sua aquisição e estudo são obrigatórios. A maior parte deles foram traduzidos directamente do árabe.

Para lá da Coordenadora da edi­ção, que assina a introdução, um ca­pí­tulo dedicado ao Alcorão, um outro intitulado Hadit e ainda um terceiro ca­pí­tulo sobre Mística, há mais sete capí­tulos, de outros autores, a saber: Des­cri­ções do Paraíso (Juan Pedro Monfer­rer); A Oração (Cristina de la Puente); Vidas de santos (Fernando Rodríguez Mediano); Textos legais (Delfina Ser­rano e Amália Zomeño); Relatos de con­versões ao Islão (Mercedes García-Arenal); Polémica anti-cristã (Maribel Fierro); Pensamento islâmico contempo­râneo (Emilio González Ferrín).

"Com este volume - escreve a Coor­de­nadora da edição na introdução - pre­tendemos oferecer uma mostra si­gni­ficativa de muitos géneros religiosos que o islão árabe cultivou ao longo dos séculos".

Esta selecção é sobretudo um ape­ritivo, para aguçar o apetite para "o imenso caudal de textos" que existem e que o Ocidente geralmente desco­nhe­ce.

"A muitas pessoas - sublinha-se ainda na introdução -  surpreenderá a proximidade de alguns dos textos com os produzidos nas tradições mono­te­ístas judaica ou cris­tã. O leitor não deve esquecer que o is­lão é a última reve­la­ção de carácter mo­no­teísta, que com­parte com a se­gun­da, o cristianis­mo, o seu carécter universal e com a pri­meira, o judaís­mo, a origem abraâ­mica."

O capítulo inti­tu­lado Hadit abre as­sim: "A outra fonte básica  sobre a qual assenta o islão é o hadit, que é uma recopilação dos actos e ditos do Profeta. O próprio ter­mo hadit contém em si as duas ace­pções".  São textos "transmitidos pelos companheiros do Profeta e destes aos seus discípulos e seguidores, fixados em obras autorizadas".

Um dos textos do Hadit conta o se­guinte: "Um beduíno veio ver o Enviado de Deus, a bênção e a paz de Deus com ele, e disse-lhe: «Enviado de Deus!, indica-me uma acção que se eu a reali­zar integralmente, ela me leve ao Paraí­so». Respondeu-lhe: «Adora  a Deus e não o associes a nada. Faz a oração prescrita, entrega o dízimo estabele­ci­do, jejua no Ramadão». Respondeu: «Por aquele em cujas mãos está o Es­pírito, cumprirei tudo estritamente». Qu­ando se retirou, disse o Profeta, a bênção e a paz de Deus com ele: «A­quele que se alegrar, por ver um habi­tante do Paraíso, que olhe para este»".

Surpreendente para os católicos é o capítulo "Vidas de santos". Explica a respectiva autora que santo significa alguém "próximo de Deus", ou "amigo de Deus". Os santos fazem milagres. "Po­dem curar, voar, adivinhar o futuro, multiplicar os alimentos, castigar os po­derosos, penetrar na verdade íntima do mundo e das pessoas."

Por estes exemplos, facilmente se con­clui que há uma grande influência da Bíblia e das práticas do catolicismo.

Campo das Letras / Eric Frattini

A Santa Aliança

Cinco séculos de espionagem do Vaticano

É um livro demolidor. Ao longo das suas 430 páginas, percebemos o que de tenebroso e de sinistro tem havido no Papado, pelo menos, desde que o papa Pio V, em 1566, criou a Santa Aliança, completada, em 1913, pelo Sodalitium Pianum (contra-espionagem), criado pelo papa Pio X. É um rol de horrores que urge conhecer e denunciar, e que fazem do Papado de Roma uma instituição nos antípodas de Jesus de Nazaré. Não se atrasem na sua aquisição e leitura. Encontrarão referências directas a Portugal, ao reinado de D. José I e ao seu Marquês de Pombal. E perceberão porque os jesuítas de então foram expulsos do nosso país.

"Foram assassinados reis, envene­na­dos diplomatas, apoiados grupos em conflito como norma da diplomacia pon­tifícia, fecharam-se os olhos a catástrofes e holocaustos, foram financiados gru­pos terroristas e ditadores sul-america­nos, protegeram-se criminosos de guer­ra e lavou-se dinheiro da Máfia, mani­pu­laram-se mercados financeiros e fa­lên­cias bancárias, condenaram-se os con­flitos enquanto se vendiam armas aos combatentes, e tudo isso em nome de Deus, e a Santa Aliança e o Soda­litium Pianum foram os seus instru­mentos.

Esta é uma sín­tese do livro, feita pelo próprio autor, na introdu­ção.

No corpo do livro, os assuntos são esmiuçados com relatos cheios de pormenores sempre chocantes. O espanto e o es­cândalo sobem de tom aos olhos de quem lê. Mas é me­lhor conhecer do que ignorar. Pa­ra que deixemos de ser ingénuos e exijamos o fim de to­da esta máquina eclesiástica vaticana que abusivamente se reinvindica de Igreja de Jesus. É melhor conhecer  a perversão para agir com consciência contra ela. As mul­tidões são facilmente atraídas para Roma, mas só enquanto não conhece­rem o pântano que está por trás dos cardeais, das Congrega­ções, a come­çar pela da Causa dos San­tos. Perce­beremos que no Vaticano não se dá ponto sem nó. E que uma solene liturgia com poma e circunstância pode ser uma nuvem de fumo para esconder a podri­dão. Já o Jesus do Evangelho de Ma­teus fala em "sepulcros caiados". Sinal de que ele nunca foi um ingénuo! Ora,  a in­ge­nuidade é sempre perigosa, so­bre­tudo, quando a perversão veste de car­deal ou de pom­posos nomes como Is­tituto per le Opere di Religione (IOR-Instituto para a Obra de Religião), en­tenda-se "banco do Vaticano.


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DVD do Concerto em Penafiel

A equipa de amigos do Bar­racão de Cultura que or­ga­nizou o Concerto em Pe­na­fiel com os três compa­nhei­ros José Mário Branco, Tino Flores e Francisco Fa­nhais, já está a proceder à distribuição e venda do DVD que, na altura, se comprome­teu a preparar. Tal como o Con­certo, trata-se de um DVD memorável, porque foi a pri­meira vez que os três canto­res de Abril Solidário actua­ram juntos e por uma causa de peso como é a da constru­ção do Barracão de Cultura em Macieira da Lixa. O preço não pode ser mais barato: a­pe­nas 10 euros. Para a cons­trução do Barracão. Se ainda o não adquiriu, não se atrase!


Novo Livro Pe. Mário, já disponível em finais de Janeiro

NA COMPANHIA DE JESUS E DE ATEUS

Livro dos Actos Século XXI

O novo livro do Pe. Mário, Na companhia de Jesus e de ateus. Livro dos Actos Século XXI, já está no prelo. Será uma edição de autor, para ver se é possível um preço de venda ao público mais barato. O livro, com mais de 300 páginas, contém os mais significativos momentos vividos e reflectidos pelo Pe. Mário em 2005, sob a forma de Diário Aberto, e partilhados em primeira mão no seu sítio na net. O produto da venda reverte integralmente, depois de pagas as despesas com a edição, a favor da construção do Barracão de Cultura, em Macieira da Lixa. Lá por finais deste mês de Janeiro, já podem procurá-lo, junto do próprio Pe. Mário e/ou da Associação AS FORMIGAS. Ou pedi-lo por telf/tlm: 255 496 358; 93 393 65 02.


Dia 29 de Janeiro, em S. Pedro da Cova,

5.º Encontro de Espiritualidade

"Jesus, homem religioso ou político?", é o tema em de­bate no próximo Encontro de Espiritualidade com o a­teís­mo em fundo,o 5.º da sé­rie, marcado para domingo 29 de Janeiro 2006 (e não do­mingo 22, devido às elei­ções), na casa-sede da Asso­cia­ção Pe. Maximino, entre as 10h e as 17h. O almoço, eucarístico, resultará do que cada qual levar para Partilhar na Mesa Comum.

A Associação garante u­ma Sopa quente de legumes.

Anote já na sua agenda. E nesse dia apareça cedo com a sua alegria, as suas amigas e os seus amigos.


Associação Cultural e Recreativa AS FORMIGAS DE MACIEIRA (da Lixa) informa

Barracão de Cultura

O processo, até nos ser concedido o ALVARÁ de licença de construção, foi demorado, mas acaba de chegar ao fim. Já temos o desejado ALVARÁ nas mãos. Está, pois, tudo a postos para iniciarmos a construção do Barracão de Cultura. Como os actuais dias de inverno são pequenos e muito frios, estamos a apontar os primeiros dias do mês de Março para darmos início à construção em grosso. Esteja atenta, atento e faça tudo para se associar ao lançamento da 1.ª pedra. Precisamos da alegria e da confiança, do estímulo e da partilha de todas as pessoas.

                              Como pela cultura é que vamos, venha até nós

                              e partilhe com este projecto o dinheiro que puder.

            NIB da Associação (CGD): 003503090003991793035



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