Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 158, de Julho/Setembro 2005 (Continuação)

Da Internet a livro

Em nome de Jesus

Foi no dia 13 de Maio, às 13 horas, na esplanada do Café "O Piolho", no Porto, que teve lugar a 1.ª sessão de lançamento do livro, EM NOME DE JESUS. Diário Aberto de um padre sem templo nem altar, editado pela Arca das Letras. É mais um livro polémico do Pe. Mário, prefaciado por César Príncipe, jornalista e escritor (ver texto integral abaixo). São 609 páginas escritas, em forma de diário aberto, no decorrer do ano 2004, na internet. A escolha do dia e do local da sessão foi do Editor do livro e contou com a entusiástica adesão do autor. Muitas pessoas interpretaram o facto como uma provocação. O Pe. Mário também o entendeu assim, mas teve o cuidado de sublinhar na sessão que se tratou duma "saudável provocação" contra a data mais vergonhosa e mais obscurantista da História de Portugal no século XX. E também a mais anti-Maria de Nazaré, uma vez que esta nunca teve nada a ver com a deusa/senhora de Fátima.

Na sua inflamada intervenção ao ar livre, Pe. Mário foi também o primeiro a reconhecer que nas páginas deste seu livro há muita irreverência e muita dissidência. A irreverência e a dissi­dência do Evangelho de Jesus, a via que ele, desde o princípio do seu ministério presbiteral, sempre tem procurado trilhar sem cedências a nenhuma espé­cie de poder e de privilégio. Mas logo lembrou também que são a irreve­rên­cia e a dissidência que salvam a Huma­nidade. E frisou com oportunidade: Ao apresentarem-se na sociedade como os campeões da reverência e da orto­doxia (até gostam de ser tratados por "Vossa Reverência" e "Vossa Ex.cia Re­verendíssima"), os responsáveis maio­res da Igreja trilham o caminho demoní­a­co do "politicamente correcto", próprio dos detentores dos privilégios. Por isso, são (quase sempre) estéreis as suas palavras e conservadoras as suas ac­ções. Palavras e acções por onde não passa o Sopro ou o Espírito da Profecia, apenas a rotina do funcionalismo.

É manifesto - disse - que se­me­lhan­te postura eclesiástica recolhe os louvo­res dos gran­des do mundo e até de não pou­cas das suas vítimas, mas é vo­mi­ta­da pelo Espírito de Deus, exacta­mente, por ser uma postura que não é fria nem quente, antes, assim-assim...

Prefácio de César Príncipe

  Um padre sem templo nem altar - assim se identifica Mário de Oliveira. Des­guarnecido do mister paroquial pelo Governo da Igreja Católica, o ex-pároco Mário e sempre padre Mário não capitulou perante o cerceamento administrativo e territorial. E tem vindo, sem lhe tremer a voz nem o site, a de­cla­rar que, entre a Comissão Eclesiás­tica e a Missão Evangélica, em defini­tivo escolheu a Missão. Expulso do templo pelos zeladores do Pensamen­to Único e modeladores do Povo de Deus como Rebanho do Senhor ou dos Senhores – este padre não se deixou anular nem sequer aceitou baixar o tom da cólera divina. Exerce o magistério em vez do ministério, cultiva a evidên­cia em vez da vidência. Não trata Jesus como paradigma de servidão e de sofri­mento, antes como irmão do infinito.

  Eis uma recomendável e oportuna proposta de leitura (para crentes e não-crentes), neste duro tempo de excluí­dos, manipulados e abandonados por ne­gociantes de multidões e ilusões. Este livro, denso mas sensível, tenso mas atento, surge já com um pontífice de Roma, que anteriormente desempe­nhou o papel de super-polícia da Teo­lo­gia e da Pastoral. Ratzinger foi um adversário de Cristo e do Evangelho, optando por uma Igreja-aparelho de Po­der (económico, político, social e psicológico). O Vaticano, segundo todos os indícios, prosseguirá a sua linha his­tórica mais consistente: cantar com os ricos e chorar com os pobres. Daí que este livro constitua, nos seus diver­sos registos, um testemunho e uma ad­vertência.

  É um diário de um sacerdote exilado pelos carcereiros de Deus. Cada página é um sudário de papel, é como se fosse a própria pele dos ex­pulsos da Verdade, da Liberdade, da Fraternidade. É uma obra de inteli­gên­cia aplicada ao cristianismo. É uma obra de resistência profética.

Assim é o padre Mário: solitário e so­lidário. Solitário por determinação de uma Igreja satisfeita por ser sede de Poder; solidário porque ele - padre Má­rio - optou por uma Igreja - sede de sa­ber e de partilha.


1.ª edição, Abril. 2.ª edição, Maio

O outro Evangelho segundo Jesus Cristo

A sessão de apresentação do livro do Pe. Mário O outro Evangelho segundo Jesus Cristo, editado pela Campo das Letras, decorreu dia 5 de Junho, em plena Feira do Livro do Porto, no espaço "Café Literário". Antes e depois da sessão, o autor esteve no Stand da Editora em contacto directo com as muitas leitoras, os muitos leitores. E a autografar os seus livros. No dia seguinte, Jornal FRATERNIZAR não resistiu a visitar na net o Diário Aberto do Pe. Mário, para ver o que ele escreveu sobre esta sua intensa vivência. É o que aqui passamos a partilhar de seguida.

1. A minha passagem ontem de tarde pela Feira do Livro do Porto foi uma festa feita de muitos encontros e de muitos afectos partilhados. Foram muitas as pessoas que saíram ao meu encontro, no stand da Editora Campo das Letras. Quase todas aproveitaram para me incutir ânimo neste meu com­ba­te em prol da libertação das consci­ên­cias das pessoas e das populações. E em prol duma postura moral verda­deiramente cristã-jesuânica, a qual tem tudo a ver com uma postura de maiori­dade, de liberdade responsável, de autonomia.

Sei que, nos meus livros, coloco sem­pre muito alto a fasquia moral, mas não vejo outra maneira digna de lidar com os seres humanos. A minha acção presbiteral destina-se a fazer sair as pessoas e as populações do estado infantil em que as religiões as colocam, para as guindar ao estado de maioridade, de modo que, final­mente, elas se assumam como senho­ras dos seus próprios destinos e dos destinos da Humanidade, no seu todo.

Só enquanto as pessoas e as popu­lações permanecem no estado infantil, é que não conseguirão dispensar os tutores, os intermediários, os chefes, os sacerdotes, os gurus, os médiuns, e quanto mais autoritários eles forem me­lhor! Mas também enquanto perma­ne­cerem nesse estado nunca as pessoas e as populações chegarão a ser elas próprias, sempre serão o que todos es­ses pretensos “intermediários ilumina­dos” quiserem que elas sejam. Na sua menoridade e inconsciência, nem se dão conta que passam a vida a pagar balúrdios a quem mais não faz do que alimentá-las doentiamente no seu infan­tilismo, de modo a poderem continuar a decidir por elas e a viver à custa delas, até ao fim das suas vidas.

A minha postura presbiteral na Igre­ja e na sociedade é, pelo menos, pro­cura ser diametralmente oposta a esta. Aposto nas pessoas e nas populações. Elas têm que crescer em sabedoria e em graça, isto é, têm que alcançar a maioridade plena, não apenas em ida­de e em estatura. Porque, quando as pessoas e as populações alcançarem a maioridade plena, até mesmo eu dei­xo de ser necessário na vida delas. Entendo que o tutor, como o pedagogo, que o forem com honestidade, nunca pro­longarão no tempo as suas funções. Apostam tanto no crescimento das pes­soas e das populações, que a sua alegria maior será deixar de serem neces­sários, o mais cedo possível, sinal de que as pessoas e as populações cresce­ram em consciência crítica e em liberda­de, e passam, por isso, a ser capazes de conduzir responsavelmente as suas próprias vidas.

Foram muitos os autógrafos que dei, no decorrer da tarde, assim como os abraços e os beijos que dei e rece­bi. Num clima de alegria e de grande proximidade sororal e fraterna. Mas também não faltou, quase logo no início da tarde, uma discreta provocação, pro­ta­gonizada por um homem, visivel­ment­e triste e de consciência oprimida, com aparência de uns 50 anos de idade, vestido de fato e gravata. Inesperada­mente, aproxima-se de mim e da mesa onde eu estava sentado junto do stand da Editora e dirigiu-me a palavra, ao mesmo tempo que me estendia a mão: “Se eu lhe oferecer um terço, o senhor aceita-o?” Olhei-o surpreso, li-lhe no rosto a provocação que me estava a fazer, mas, mesmo assim, acolhi-o e respondi: “Se é uma oferta que me quer fazer, aceito, se fosse uma proposta de compra, não aceitaria”. Apanhado de surpresa por esta minha postura aco­lhe­dora, o homem não teve outro remé­dio senão entregar-me um terço branco, guardado no interior duma transparente embalagem de plástico, devidamente fechada. E afastou-se sem quaisquer comentários. A provocação havia abor­ta­do por completo.

Vi-o afastar-se e fiquei cheio de com­paixão por ele. É um homem possuí­do pelo “demónio” da religião e da se­nhora de Fátima, isto é, um homem que continua aí, neste início de século XXI, tremendamente fanatizado pela religião e pela senhora de Fátima. Um alienado promovido a cruzado da alienação po­pular. Um infeliz, a quem certo clero da nossa Igreja católica continua a man­ter no medo e no infantilismo. Ao aceitar o exemplar do terço, sei que, pelo menos, este não vai contribuir para alienar outras pessoas. Nas mi­nhas mãos, este objecto religioso, expressão da oração dos pagãos que pensam que pelo muito repetir as mes­mas palavras, Deus finalmente lhes vai ser favorável, não tem qualquer uso, torna-se inofensivo, até que eu o des­trua, como tudo o que é instrumento de alienação das pessoas e das popu­la­ções sempre acabará por ser des­truído por elas, à medida que umas e outras crescerem, como Jesus cresceu, em sabedoria e em graça, isto é, em consciência crítica e em liberdade, nu­ma palavra, em humanidade responsá­vel. Não sou adepto de acções icono­clas­tas organizadas. Acho que a nossa aposta deve ser nas pessoas e nas po­pulações. Para que elas cresçam em consciência crítica e em liberdade. Qu­an­do elas alcançarem este estado de maioridade, quem é que as segurará?

Logo à chegada ao stand da Campo das Letras, tive uma grande alegria. Ninguém me disse nada, mas eu pró­prio dei-me ao trabalho de ir verificar a ficha técnica dos exemplares do meu novo livro, ali expostos em grande quantidade, e lá estava, preto no bran­co o que eu já suspeitava: o livro já entrou na 2.ª edição. Quer dizer, um mês depois de ter sido posto à venda, esgotou a 1.ª edição. Portanto, ainda antes da sessão de apresentação que só ocorreu ontem mesmo, no final da tarde. E isto, apesar de o livro não aparecer em nenhum top de vendas.  Esta minha alegria inicial cresceu, de hora em hora e culminou na sessão de apresentação do livro, no espaço do Café Literário da Feira.

O meu amigo e companheiro nas lides jornalísticas e da escrita de livros, José Viale Moutinho, encarregou-se da respectiva apresentação. Leu um texto que preparou previamente, todo ele tecido com uma fina ironia anti-ecle­siástica, sobejamente justificada. Foi uma denúncia sem contemplações, como devem ser todas as denúncias contra a manipulação do nome de Deus, em que, infelizmente, continuam a ser useiras e beseiras as catequeses das Igrejas, em especial as catequeses da nossa Igreja católica romana.

As mesas do Café Literário estavam cheias de pessoas visivelmente interes­sadas e atentas. Muitas delas, que eu ainda não conhecia. E que se aguenta­ram até ao final da sessão, apesar desta ter sido iniciada com quase uma hora de atraso, devido a uma outra iniciativa no mesmo espaço que não havia maneira de os seus promotores a darem por concluída.

A intervenção de Viale Moutinho abriu o caminho à minha. Se a dele foi vigorosa na denúncia de certos com­portamentos pastorais católicos recen­tes, a minha foi uma proclamação da Boa Notícia de Deus que este meu livro O OUTRO EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO nos dá. Deixei falar o coração e a mente. A investigação herme­nêutica que fiz ao longo de vários anos sobre a Bíblia em geral e sobre o Evangelho canónico de São Marcos, em especial, mais a sintonia que sempre procuro fazer com o Sopro ou o Espírito de Jesus, o Crucificado que Deus ressuscitou, isto é, que reconhe­ceu como o seu Filho muito amado, sol­taram-me a língua e o verbo saiu-me alegre e festivo, fecundamente liber­tador.

Do muito que disse, saliento aqui duas afirmações: 1. Este Evangelho é um escândalo. Não só pelo que con­tém, mas também pelo que não contém. Por isso é que a Igreja católica do Império romano, ao ver que não podia retirá-lo da Bíblia, optou por mantê-lo na gaveta durante os dezasseis sécu­los que durou a Cristandade Ocidental. E mesmo hoje, mais de 40 anos depois do encerramento do Concílio Vaticano II, que pôs fim oficial à Cristandade, este Evangelho continua a ser sistema­ti­ca­mente esquecido. É verdade que a liturgia passou a recorrer mais a ele, mas as práticas doutrinais e pastorais da cúria romana e de todas as cúrias episcopais espalhadas pelo mundo con­tinuam a fazer de conta que ele não existe. Basta dizer isto: se, em lugar dos quatro Evangelhos canónicos das nossas Bíblias, existisse apenas este Evangelho de Jesus segundo São Marcos, o primeiro a ser escrito e a circular entre as Comunidades cristãs primitivas, nunca a Igreja católica ro­ma­na poderia ter sido o que foi em todos estes séculos passados. Nem nunca ela teria tido base neo-testa­mentária para produzir muitas das defi­nições dogmáticas que produziu, no decorrer de concílios ecuménicos con­vo­cados e presididos pelo imperador Constantino e seus sucessores, com o objectivo expresso de reforçar teologi­camente o poder do Império e do impe­rador de turno. E, quando o Império romano caiu e em seu lugar ficou a Igreja católica romana, para reforçar o poder da Cúria Romana e do seu pa­pa de turno, sucessor directo do impe­rador de Roma e do seu Cristo. Um Cristo que não tem nada a ver com Jesus, o do Evangelho de São Marcos, mas apenas com o Cristo dos cultos do Paganismo. Basta dizer, por exem­plo, que, neste Evangelho, nem sequer há menino Jesus, muito menos S. José. Tão pouco há “virgem Maria”, nem anjo Gabriel enviado por Deus a uma jovem chamada Maria, para lhe anunciar que ela iria conceber um filho por obra do Espírito Santo. Há Maria, sim, mas num papel que não abona nada a favor dela e que desfaz todos esse delírios teo­lógicos que se construíram, nos pri­meiros séculos do Império católico de Roma, à volta das múltiplas imagens da mítica deusa “virgem e mãe” dos cultos pagãos. Neste Evangelho, Maria, a mãe de Jesus, aparece à frente de outros irmãos de Jesus e demais fami­liares, que, a dada altura, saem de ca­sa à procura dele, com o propósito de­clarado de terem mão nele, na convic­ção que tinham de que ele só podia estar louco, ao dizer e ao fazer em pú­blico o que se dizia por toda a Galileia que ele dizia e fazia. Mas não só. Tão pouco há relatos de “aparições” do Res­suscitado. O que há, a concluir este Evangelho, é um apontamento de cará­cter histórico e teológico que refere a existência de um grande medo, por parte daquelas e daqueles que haviam andado com Jesus até ao seu assas­sinato na cruz. E que medo era este? Era o medo de divulgarem em todas as nações a Boa Notícia de Deus que a Morte crucificada de Jesus, qual apo­calipse último da História, veio pôr a descoberto perante a consciência das discípulas de Jesus, e mais tarde, dos seus discípulos. 2. Este Evangelho dá-nos Jesus em directo, portanto, dá-nos a conhecer o seu Pensar e o seu Que­rer, isto é, o seu Projecto político do Reino/Reinado de Deus. Nestes últimos meses e anos, são muitos os livros, romanceados ou científicos, que têm sido publicados sobre a figura de Jesus. Nenhum nos dá a conhecer o Pensa­mento e a Acção teológico-política de Jesus. Só este. E fá-lo com uma proximidade histórica aos factos absoluta­men­te impressionante, uma vez que este Evangelho começa a circular cerca de 12/14 anos após a morte crucificada de Jesus!...

Por isso, estou firmemente esperan­ça­do que este Evangelho de Jesus se­gundo São Marcos, numa tradução actualizada e anotada da minha res­pon­sa­bilidade, venha a ser o outro E­van­gelho mais lido não só em Portugal, mas no mundo. Estou esperançado que ele se torne no livro de bolso das pessoas, crentes e ateias; que acabe por entrar em todas as casas onde vivem pessoas; e que venha a ser Presença ininterrupta na mente e no coração das pessoas que alguma vez o lerem. Se tal acontecer, haveremos de ver esta Igreja católica romana desaparecer, para dar lugar à Igreja de Jesus, simplesmente. Haveremos de ver o Cristianismo católico romano mor­rer para dar lugar ao Cristianismo de Jesus Crucificado. Haveremos de ver os cultos de massas mentirosamente chamados “marianos” desaparecerem, para em seu lugar ficar a memória his­tórica de Maria, a mãe, provavelmente solteira, de Jesus, como o exemplo aca­bado da mulher que mais dificuldade experimentou para se tornar discípula do seu próprio filho, o que só terá his­toricamente acontecido, já depois deste Evangelho ter sido escrito e circular en­tre as primeiras comunidades cristãs!...

Eu sei que estou a escandalizar muitas pessoas com esta boa notícia que aqui estou a escrever. Felizmente, ontem, no decorrer da sessão, estas e outras revelações foram feitas ou insi­nuadas por mim e as pessoas, para ale­gria minha, estavam todas numa postu­ra de quem bebia cada uma das pala­vras que me saíam da boca.

 

Quando tudo terminou, alguém que não conheço e que havia estado presente a tudo desde o princípio ao fim, fez por se cruzar comigo só para me dizer: É impressionante como um padre sozinho pode fazer tanto pela libertação das pessoas contra as mentiras das catequeses católicas romanas. O meu sorriso saiu-me ainda mais rasgado. Numa grande expressão de Eucaristia, de Acção de Graças. É que, também nestes momentos, não sou eu quem vive, é Cristo, o de Jesus Crucificado, que vive em mim.


Concerto e Teatro solidários

Foi bonita a festa, pa!

Apareceram umas 150 pessoas. Po­diam ter aparecido 1500, ou até 2000. Mesmo assim, as 150 que apare­ceram foram unânimes na apreciação final: "Foi bonita a festa, pá!" A frase é do Chico Buarque, a propósito do 25 de Abril 1974, mas saltou espontanea­mente da boca das pessoas, de perto e de longe, que não quiseram perder o Concerto solidário que três dos maio­res companheiros cantores de Abril - José Mário Branco, Tino Flores, Francis­co Fanhais - vieram fazer, com visível prazer, na noite de 4 de Junho passa­do, no Pavilhão Profidelis do Parque de Exposições e Feiras, na cidade de Pe­nafiel, também ele gratuitamente ce­di­do para o efeito pela respectiva Câ­ma­ra Municipal. O produto das entra­das reverteu integralmente a favor da construção do Barracão de Cultura, da Associação Cultural e Recreativa As For­migas de Macieira (da Lixa).

Já anteriormente, no início do mês de Abril, a Companhia de Teatro Seiva Trupe, do Porto, havia-se apresentado no seu melhor no Auditório Municipal de Lousada, com o espectáculo "Varia­ções Enigmáticas", um original de Eric-Emmanuel Schmitt, impecavelmente in­ter­pretado pelos categorizados actores Júlio Cardoso e António Reis. Também aqui, o produto das entradas foi inteiro para a construção do Barracão. E a Câ­ma­ra Municipal de Lousada também ce­deu gratuita­mente o Auditório para a sua concretização.

A Associação As Formigas de Ma­ci­eira nem sabe como agradecer soli­da­rie­dade de tão elevada qualidade. O produto das entradas não foi tanto quanto poderia ter sido, mas fica a qua­li­dade do espectáculo teatral e do Con­certo. Na memória vida da Associação, são dois momentos inesquecíveis e de­sa­fiadores. O Barracão de Cultura que, antes de ser erguido, já suscita acções culturais desta grandeza, não pode dei­xar de ser uma realidade em Macieira. O projecto já está aprovado. O dinheiro para a sua construção é que continua a não ser muito, para já. Mas é convic­ção da Di­rec­ção da Associação que, pelo me­nos, para erguer o edifício em grosso, deverá chegar. O sonho é  ini­ci­ar a construção ainda este ano, na esperança de que, depois, muitos ou­tros apoios hão-de aparecer, de perto e de longe, para a levar a bom porto.

São ainda muitas as pessoas que não acreditam na concretização deste sonho. Mesmo na freguesia de Macieira da Lixa, a descrença continua a ser qua­se generalizada. Mas "impossível" é palavra que não entra no vocabulário da Direcção da Associação. Muito me­nos, agora, depois destas duas inicia­ti­vas solidárias. Quando a obra come­çar a erguer-se do chão do campo que Maria Laura e seus filhos ofereceram à Associação para este fim, quem se­rá capaz de resistir ao desafio que a­que­las paredes nos lançarão a todas, todos nós?

No imediato, o que mais desejamos é que apareçam as oito pessoas que faltam para completar o Grupo dos Dez que contribuam com 5000 euros cada uma para o Barracão. Quem puder, faça como aquele companheiro de Amarante que, uma destas noites, procurou o pe. Mário na sua casinha e entre­gou-lhe um cheque de 5000. Foi uma festa!


Pe. Mário entrevistado pela “Política Operária”

Uma Igreja em estado de idolatria

P.O. A exploração mediática feita em torno da agonia do papa des­­gostou muita gente. Pensa que os católicos podem pôr fim a este tipo de manipulações?

R. No meu modo de ver, a explo­ração mediática da agonia do Papa João Paulo II foi um crime de lesa-Hu­ma­nidade, que contou com a estúpida cumplicidade dos grandes media de todo o mundo. E foi também um pecado contra a verdade do Evangelho. Pre­tendeu apresentar ao mundo o sofri­mento humano, como redentor, quando, à luz da prática de Jesus, o que é ver­dadeiramente redentor é a luta sem tréguas contra o sofrimento humano e, sobretudo, contra aquelas causas bem objectivas e históricas, até científicas, que propositadamente o provocam.

Pode­mos, como Igreja, acabar com este tipo de manipulações? Podemos e devemos. Aliás, é basicamente para isso que existem as Comunidades cris­tãs e toda a actividade teológica e pas­toral que lhes cumpre desenvolver, nomeadamente, na sua vertente proféti­ca, sempre muito mais importante que a sua vertente cúltica. Mas para che­gar­mos aqui, é imperioso que nos atre­vamos a resistir em nome do Evange­lho à Cúria Romana, até a dissolvermos de vez. E não só. É imperioso que dis­solvamos também tudo o que, de Im­pério romano, ainda perdura dentro da nossa Igreja católica. A luta será mar­tirial, até duélica, já que o centralismo romano nunca abrirá mão assim às boas do seu poder. Mas é uma luta in­vulgarmente fecunda que também eu não tenho deixado de travar.

P.O. Causou surpresa o facto de João Paulo II ter condenado a aventura militar dos Estados U­ni­dos contra o Iraque. Acha que ele quis romper com a sua an­tiga colaboração com o presi­dente Reagan na campanha para acelerar a derrocada dos regimes da Europa de Leste?

R. Não creio em tão boas intenções, de resto impensáveis em todo aquele mani­festo anticomunismo/anti-ateísmo primário que norteou a intervenção his­tó­rica de João Paulo II. Infelizmente, o Vaticano sempre foi e continua a ser muito mais pragmático que evangélico e jesuânico. De modo algum quis, com esse gesto, demarcar-se da administra­ção norte-americana (as duas faces do Império carecem uma da outra e jamais estão uma contra a outra, pois seria o seu fim). O que ele quis foi tentar amor­tecer o tremendo impacto negativo que a Guerra já então decidida e anunciada contra o Iraque inevitavelmente iria ter junto dos muçulmanos, em todo o mun­do, Europa incluída. Tanto assim que a Guerra contra o Iraque pôde avançar na data prevista e nem por isso o Vati­cano deixou de continuar de pedra e cal com a administração norte-ameri­cana que a desencadeou e a mantém em curso! 

P.O. João Paulo II esteve con­tra a ordenação de mulheres, a con­tracepção, o aborto, a homos­se­xualidade. O novo papa é conhe­cido por defender com gran­de radicalismo posições semelhan­tes. Isto não vai causar um dis­tanciamento cada vez maior de muitos católicos em relação à Igreja?

R. Pelo andar da carruagem ecle­si­ástica, é manifesto que vamos de mal a pior em todas essas áreas. Com os seus comportamentos conservadores e até reaccionários, Bento XVI ainda aca­bará por levar muitas católicas, muitos católicos a sentir saudades de João Paulo II. A mim, não, evidentemente. Por­que é outra a leitura que faço deste momento eclesial. Creio que, também para o Espírito Santo que misteriosa­mente anima a História da Humanida­de, vale aquele princípio da Política re­volucionária: quanto pior melhor. Com João Paulo II, a postura da Igreja cató­lica, em relação às áreas referidas na pergunta, ficou já à beira do intolerável. Com Bento XVI tornar-se-á mesmo into­lerável. Porém, quando assim é, po­derá haver muito sofrimento em mui­tos dos membros da Igreja, mas tam­bém estará próxima a libertação da nos­sa Igreja. Deixaremos de ser a Igreja católica ro­mana que hoje somos, para sermos sim­plesmente Igreja de Jesus, numa gran­de interacção com a Huma­ni­dade, não mais como Igreja poderosa e rica, mas como Igreja serva e pobre, bem ao jeito da parteira e da discípula, não ao jeito da mãe e da mestra. Por isso e apesar de tudo, este momento eclesi­al é para mim de enorme confian­ça. E de muita alegria no Espírito Santo.

P.O. A sucessão de papas com posições de direita significa que a cúpula da Igreja Católica optou por defender abertamente os poderosos contra os povos? E porquê essa opção?

R. Desde que a Igreja, no início do séc. IV, se prostituiu (em sentido teoló­gi­co) com o Império romano, nun­ca mais deixou de ser uma Igreja em esta­do de idolatria. Nestas condições, até o bem que faz anda inquinado e causa mais prejuízo à Humanidade, que be­ne­fício. A História dos 16 séculos da Cris­tandade Ocidental não nos deixa dúvidas. Com isto quero sublinhar que, desde então, a Igreja católica romana nunca deixou de estar do lado dos ricos e dos poderosos e de defender os seus interesses. Os fracos e os pobres também estiveram e continuam a estar nas preocupações dela, mas apenas na linha da esmola, da caridadezinha, do assistencialismo, das IPSSs e das Misericórdias. Os ricos e poderosos não têm que deixar de o ser, para estarem de bem com a Igreja. Basta-lhes deixar cair, de vez em quando, algumas miga­lhas das suas lautas e faustosas mesas, de modo a ajudarem a manter os po­bres na sua pobreza, sem jamais que­re­rem acabar de vez com a pobreza, muito menos com a existência de p­o­bres em massa. Ora, uma postura assim é simplesmente macabra. Inumana. E hoje ainda mais do que ontem, uma vez que, actualmente, os ricos e po­derosos já nem migalhas dão aos po­bres e aos fracos. Pelo contrário, en­fraquecem cada vez mais os fracos e empobrecem cada vez mais os pobres. E tudo sob a bênção e a cumplicidade dos Papas e do todo poderoso Estado do Vaticano. E porquê esta opção da Igreja católica pelos poderosos contra os povos? Ora, porque o Poder econó­mico-financeiro e político sempre anda casado com o Poder religioso, para as­sim os três como um só mais e melhor dominarem o mundo e terem a seus pés, como seus súbditos e vassalos, todos os povos do Planeta.

P.O. Com a orientação actual do Vaticano, qual o futuro previ­sí­vel para correntes como a Teo­lo­gia da Libertação que preten­diam identificar-se com a resis­tên­cia dos oprimidos?

R. Espera-nos um grande Inverno na Igreja. Uma longa noite. Uma pro­lon­gada travessia do deserto. Esta é, efectivamente, a hora do Poder das Tre­vas no interior da Igreja (e também no mundo em geral). As maiorias católicas, mais pagãs do que jesuânicas, serão até capazes de se sentirem mais a jeito numa Igreja assim, porque sempre pre­fe­rem a segurança à Liberdade pes­soal, a obediência à Responsabilidade de ter de decidir e de calcorrear cami­nhos ainda por andar. Mas as minorias ilustradas e evangelizadas pelo Espí­rito de Jesus poderão vir a conhecer momentos semelhantes aos do seu Mes­tre. Serão caluniadas, perseguidas, maltratadas, ostracizadas e até assas­sinadas. Nada, porém, que já não te­nhamos conhecido, ao longo dos 16 séculos de Cristandade. Mas é preci­samente por isso que esta é também a hora da Esperança contra toda a Es­perança. A hora do Martírio. A hora do Testemunho. A hora da fidelidade a Deus e aos pobres, mais do que aos homens, eclesiásticos que sejam. Numa palavra, a hora da Alegria cruci­ficada, porque é assim que a História avança e que a Humanidade se distan­cia da selva e se faz progressivamente sororal/fraterna.

P.O. A sua crítica à hierarquia da Igreja tem despertado as aten­ções gerais. Que futuro vê para o seu papel como padre?

R. Quero sublinhar que a minha crí­tica à hierarquia da Igreja é ainda e sempre um acto de amor. À Igreja, antes de mais. E àqueles irmãos que aceitam dar corpo nos seus corpos à hierarquia. É preciso que se diga sem rodeios: Lá, onde houver poder não há Igreja de Jesus. Muito menos onde houver poder sagrado (hierarquia significa poder sa­grado). Onde houver Igreja, só pode ha­ver Liberdade, Igualdade e Sorori­dade/Fraternidade entre todos os seus membros. Todas, todos os que somos Igreja sabemos que é assim, mas de­pois quase nunca temos a audácia de sermos consequentes com o que sabe­mos e proclamamos. Foge-nos muitas vezes o pé para os privilégios e, às duas por três, já estamos instalados neles com o maior dos descaramentos. Não é por essas águas que navego. Sem­pre recusei fazer carreira eclesiás­tica, mesmo quando quem de direito me acenou com essa possibilidade. Mas então como é que me vejo nesta Igreja agora coordenada (dominada?) por Bento XVI? Exactamente como até aqui: Padre sem ofício pastoral oficial, mas com o ministério de Evangelizar os po­bres e com o magistério presbiteral li­ber­tador; padre sem templo nem altar, mas com pequenos grupos e pequenas comunidades cristãs de base que reú­nem com toda a simplicidade à volta de mesas partilhadas nas casas das pessoas; padre sem a senhora de Fáti­ma, mas com Maria, mãe de Jesus e, sobretudo, com Deus Vivo que é simul­ta­neamente nossa Mãe e nosso Pai; padre sem moralismos opressores e infantilizadores, mas com o Evangelho de Jesus que nos liberta para a Liber­da­de e para a Responsabilidade pe­ran­te a História. Numa palavra, padre sem o poder e os privilégios clericais, mas irmão e companheiro de todas as mulheres, de todos os homens, a come­çar pelas mulheres, pelos homens mais empobrecidos e mais oprimidos, inclu­sive, aquelas, aqueles que o Vaticano de Bento XVI vier a punir e a anate­matizar. De forma prepotente e arbi­trária.


Reclama a Associação República e Laicidade

Crucifixos fora das Escolas, já!

A Associação República e Laicida­de escreveu recentemente uma carta à ministra da Educação a reclamar que sejam retirados das escolas os cruci­fixos e outros símbolos religiosos. Fê-lo, em nome do que, em seu correcto entender, decorre da Consti­tuição da Re­pública que define o Esta­do portu­guês como um "Estado laico".

Até à hora do fecho desta edição, des­conhecia-se ainda se a ministra tem a audácia de ser consequente com a le­tra da Constituição da República Por­tu­­gue­sa, ou se, pelo con­trá­rio, tem medo da hierarquia da Igre­ja católica e deixa para lá, como é tim­bre da genera­li­da­de dos governantes portugueses, muitos deles todos muito agnósticos e ateus, mas, na hora da ver­dade, todos muito sacristães dos bispos. E também do papa, assim este resolva vir de visita oficial a Portugal, ou lhes acene do Es­ta­do do Vaticano com a possibilidade duma audiência muito me­diatizada.

Uma coisa a carta já conseguiu: foi pôr alguns bispos fu­rio­sos com seme­lhan­te pretensão por parte da referida Associação. Com destaque para dois deles: o presidente da CEP-Confe­rência Episcopal Portuguesa e Arcebis­po de Braga, D. Jorge Urtiga, e o Bispo de A­vei­­ro, D. António Marce­lino. Um e ou­tro come­çaram já a fazer deste pedi­do um ver­dadeiro ca­valo de batalha, com comen­tários públicos de baixo ní­vel, quer em discursos, quer em textos pu­blica­dos nos jornais. Ainda não se sabe se os bispos vão meter também a senhora de Fátima e as muitas pessoas fatimodependentes ao barulho, mas lá bem capa­zes disso são eles. Pelo me­nos, enquan­to as multidões que para lá correm con­ti­nuarem a aceitar como ver­dade a men­ti­ra histórica e teológica que eles fazem questão de alimentar na­que­le recinto.

Mais avisados andariam os nossos bispos católicos, se tivessem sabido apro­veitar o envio daquela carta, para se congratularem publicamente com a iniciativa e para reforçarem junto da ministra a necessidade de se proceder à efectiva retirada de todos os sím­bolos religiosos confessionais das escolas.

De resto, o crucifixo nem sequer é um símbolo do Cristianismo de Jesus. É o símbolo duma mítica divindade mas­culina do Império romano, que to­dos os anos nascia, morria e ressus­ci­tava ritualmente, cujo culto idolátrico estava muito florescente em Roma no tempo do imperador Constantino e beneficia­va de toda a sua pessoal protecção.

Foi só depois da adopção do Cato­licismo como religião oficial e única do Império romano, que as populações passaram a ser catequizadas para ve­rem neste símbolo uma representação da crucifixão de Jesus. A mentira dura até aos nossos dias e dificilmente de­sa­parecerá da mente e da cultura dos povos ocidentais. Tal como também su­cede com as imagens das míticas deu­sas virgens e mães do Paganismo que, mentirosamente, continuam a fazer-se passar por Maria, mãe de Jesus.

Os Bispos não têm sido capazes de seguir por este caminho da verdade. Desde que se habituaram à protecção do Império, nunca mais foram capazes de viver sem a protecção dos Estados.


LIVROS DO TRIMESTRE

Editorial Trotta / Ernesto Cardenal

Vida Perdida. Memórias 1

São mais de 400 páginas duma vida que  tinha que ser contada. E é o próprio Pe. Ernesto Cardenal poeta maior da Nicarágua e do mundo quem a conta em directo, com o encanto de um romance. Porque romance de muitos amores foi a sua vida antes de se fazer monge no mosteiro trapista de Gethsemani, ao tempo de Thomas Merton, que foi também seu mestre de noviços. Com tanta candura, o livro só pode ter um destino: ser lido/devorado por todas as pessoas que se batem pela dignidade dos seres humanos.

Esmeralda e Rodolfo são os nomes da mãe e do pai de Ernesto. As fotogra­fias de ambos fazem parte do livro. Assim como várias fotos de Ernesto, algumas de quando menino quase de colo. São fotos que comunicam. Que nos dizem muito duma época histórica que já não volta mais, e em que a ingenuidade an­da­va por aí à solta. E uma certa moral muito católica, mas pouco jesuânica mar­ca­va as vidas de quem vinha a este mundo. Foram tempos de opressão que não eram percebidos como tal, nem pe­las suas vítimas. Como a confirmar que a pior opressão é sempre aquela que nem a própria vítima chega a dar-se con­ta, ao ponto de a cantar como liberdade.

Ernesto lutou com Deus e Deus aca­bou por levar a melhor. Pelo menos, ele pensa que assim foi. Mas não há dúvida que foi sempre um Deus demasiado in­cul­tu­rado, demasiado católico romano, demasiado moralista, avesso ao sexo e ao prazer, muito pouco poeta e muito Lei, Dogma, Po­der, Hierarquia.

O livro leva-nos a viajar no tem­po que foi da Cristandade Oci­dental que se es­tendeu até à Nica­rá­gua, pequeno país da América Central. Tudo esta­va sob o controlo do clero católico e das instituições católicas. O pró­prio Deus só po­dia ser católico romano. E manifestar a sua vontade através de um confes­sor católico, de um director espiritual católico, de um mestre de noviços católico, duma certa maneira católica de ler a Bíblia.

Nestas páginas, apanhamos a vi­da tal e qual ela era então. E podemos perceber a revolução que entretanto se operou no mundo, também na vida de muitos católicos e católicas. O mon­ge trapista fez-se padre. O padre fez-se revolucionário sandinista e, depois, ministro da Cultura do Governo Sandi­nis­ta. Felizmente, o Poeta maior que Ernesto Cardenal é nunca foi assassi­nado em nenhuma destas etapas. E essa é, porventura, a maravilha maior, mas também a revelação de que qu­an­do se nasce Poeta jamais se deixa de ser poeta, quaisquer que sejam as contrariedades por que o Poeta venha a ter que passar.

Ninguém deixe de ler este livro cheio de poesia e de humanidade. Uma humanidade sem pecado original, toda Poesia, toda Ternura, toda Bon­da­de, toda Pureza. Quanto mais mer­gu­lharmos nestas páginas, menos po­de­remos compreender aquele gesto autoritário do Papa João Paulo II, o ho­mem do Poder sagrado e absoluto de Roma, o anti-Poeta, quando, na sua segunda visita a Nicarágua, se atre­­veu a fulminar Ernesto Cardenal, humildemente ajoelhado a seus pés. E ainda há quem agora queira cano­nizá-lo! Nesse caso, o que vamos fazer a Cardenal, nosso Poeta maior?

Editorial Trotta / Hans Küng

Deus existe?

Trata-se duma reedição em língua espanhola. E para esta, o grande teólogo europeu da actualidade escreve um prólogo cheio de sabedoria. Que ninguém deve passar adiante sem ler com redobrada atenção. O livro, de 980 páginas, é um verdadeiro tratado. De leitura obrigatória, hoje e sempre.

São três os preconceitos que vêm duma certa Ilustração e que Hans Küng enfrenta e desmonta neste Prólogo es­cri­to expressamente para esta reedi­ção:

"1. Não se poderá ser verdadeira­men­­te homem, se se crê em Deus: Deus só existirá à custa do homem, pior, Deus mais não será do que a ex­pres­são da alienação do ho­mem, en­quanto tal; um humanismo consequen­te só poderá ser ateísmo. 2. Não se poderá cultivar verdadeira­men­te a ci­ência, se se crê em Deus: a fé e o sa­ber excluem-se entre si; a ci­ên­cia su­bsti­tuirá de modo definitivo a religião. 3. Não se poderá ser verda­dei­ra­mente democrata, se se crê em Deus: a fé em Deus e a liberdade, igu­al­da­de e fra­ter­­nidade de todos não serão conci­liáveis; a política passará a ocupar o lugar da religião."

Se algum "senão" há a apontar a este tratado teológico agora reeditado é que ele tenha sido escrito a primeira vez há mais de 20 anos, portanto, ainda em pleno século XX. Ora, com a velo­cidade a que hoje a vida se processa e com as mudanças estruturais que atravessam todas as sociedades, 20 anos representam muito tempo e mui­tas transformações nas mentes das pes­soas e dos povos, também nos teólo­gos, para mais, qu­ando eles são da craveira de Hans Küng. Tudo seria diferente, certa­men­te, se este tra­ta­do, em lugar de ser reeditado, fos­se reescrito. Mes­mo assim, e tido em conta este "senão", vale a pena debruçar-se sobre este livro. A teolo­gia, aqui, deixa de ser coisa árida e só para iniciados. Aqui, é teologia de qualidade e para toda a gente.

Um outro "senão", polémico, pode ser aponta­do também a esta obra, mas este tem a ver com a estrutura mental do próprio teólogo Hans Küng: trata-se da invulgar importância que o teólo­go suíço sempre tem dado às religiões, nomeadamente, ao diálogo e à Paz entre todas elas como caminho para a paz mundial.

Esta é uma tese de Küng que Jor­nal Fraternizar não partilha de todo, bem pelo contrário, mas que respeita, evi­dentemente. Neste sentido, não nos aflige nada, muito pelo contrário, só nos alegra, se um dia a religião for su­bs­ti­tuída pela Política. Pois não é ver­dade que até Deus, pelo menos, o de Jesus, é de Política que gosta, e não de religião?

Neste aspecto, Hans Küng, apesar de grande teólogo que é, ainda não con­­seguiu ir além da catequese eclesi­ás­tica tradi­cio­nal que sempre associa o Mistério que é Deus à religião, quan­do Ele sempre deve ser associado à Política, ao Reino de Deus anunciado e vivido por Jesus de Nazaré.

E quanto ao ateísmo, também não há mal nenhum na sua generalização. O que é de temer é a globalização da idolatria, na sua pior versão: a idolatria do Kapital financeiro que nos devora a alma e nos transforma em coisas, em minhocas totalmente à mercê das transnacionais.

Sal Terrae / J. I. González Faus

Compreender Karol Wojtyla

É um livrinho cheio de ternura teológica, escrito por um dos maiores teólogos da actualidade que mais criticou o Papa João Paulo II, mas nem por isso deixa de ser um livrinho triste. Como triste terá sido a vida do protagonista que aqui se procura compreender. Afinal, Karol Wojtyla parece que fez tudo para chegar a ser Papa. E foi. Quando, para ser um homem alegre e feliz, deveria ter feito tudo para nunca o ser. O poder nunca é caminho de alegria e de felicidade para ninguém. Tem uma dimensão demoníaca que aprisiona e humilha quem aceita os privilégios que ele garante a quem lhe é fiel. Jesus, o de Nazaré, nunca foi por aí. Conheceu a tentação demoníaca do poder, mas resistiu-lhe até ao fim. E a verdade é que Jesus nunca foi Papa, nem imperador, nem sumo sacerdote. Nem quis que os seus discípulos fossem. Karol Wojtyla, católico e polaco dos quatro costados, tão polaco quão católico, não entendeu assim e fez ao contrário de Jesus. Para seu mal. Talvez por isso até este livrinho é tão triste.

Atentem no sorriso da foto que faz a capa do livrinho. É um sorriso triste. Wojtyla sempre foi muito fotogénico. E um bom actor. Mas nem assim conse­guiu esconder a tristeza e o autoritaris­mo. Um homem, quando desiste de o ser para subir todos os degraus do po­der, especialmente, do poder sagrado e absoluto, como é o poder do Papa, só pode tornar-se um homem triste. Até a agonia, tão mediatizada e tão triste, como o havia sido toda a sua vida papal, e os funerais programados por ele ao milímetro, foram o desfecho natural duma vida prolon­ga­da no po­der. O livrinho le­van­ta a questão se Wojtyla chegou a pensar renun­ciar ao poder, a dei­xar de ser pa­pa. É bem prová­vel. A tristeza era muita e muito pe­sa­da, por baixo daquele fausto to­do e perante ta­ma­nha mediatiza­ção. A verdade é que ele não foi capaz desse passo. Pelo contrário, tudo fez para acabar em be­leza, em apoteose. Jesus acabou cru­cificado, como o maldito dos malditos. Mas João Paulo II acabou em apoteose e aos gritos ululantes das multidões "Santo, já". A Cúria Romana, presidida agora por Bento XVI que o próprio João Paulo II terá indicado como seu suces­sor, já veio dizer que a beatificação e  a canonização estão no horizonte.

Mas a verdade é que João Paulo II sempre foi um papa triste. E até a sua morte, apesar de tão aclamada e aplaudida pelas multidões e pelos gran­des deste mundo, foi uma morte triste. Assim como é triste a "campa rasa" que serve de túmulo ao seu cadá­ver. Já viram que o Papa até deste por­menor cuidou antes de morrer? O po­der sagrado e absoluto pensa em tudo, não dá ponto sem nó e se foi tão acla­mado em vida, porque não haveria de o ser depois de morto? Para tanto, lá está a "campa rasa", luxuosa quanto baste, na basílica que os cultos poli­teís­tas e idolátricos do Paganismo er­gue­ram. "Totus tuus", todo teu. Fugiu-lhe a boca para a verdade: desde que foi coroado papa, foi todo do poder sagrado e absoluto, fez as vítimas que fez, tudo em nome de um Deus "todo-poderoso", como reza o Credo dos po­de­rosos e das suas vítimas.

Leiam este livrinho. E vão compre­en­der porque João Paulo II foi um papa tão triste.

Sal Terrae / José Maria Mardones

Recuperar a Justiça

Continuam a ser muitas as pessoas que hoje olham a Política como coisa suja, impura. E a Religião como a actividade que mais favorece a comunhão com Deus. Desconhecem que Deus, o de Jesus, do que gosta é de Política, não de Religião. Mas a culpa maior nem é das pessoas. É das Igrejas, cujos responsáveis, sacerdotes e pastores, são os primeiros a arrastar as pessoas para os cultos nos templos, em vez de para a Política no mundo.

Não é por aí, felizmente, que vai o autor deste livro de 268 páginas. Em­bora comece por reconhecer que as pessoas deste início de século XXI não têm a Política em grande apreço, insur­ge-se, desde a primeira à última pági­na, contra semelhante postura, consciente que está de que não há Fé cristã jesuânica sem Política, ou Deus, o de Jesus, não fosse um Deus político, isto é, totalmente empenhado na edificação do seu Reino dentro da História.

"O livro - escreve o autor na intro­du­ção - consta de quatro partes. Na primeira, oferece-se uma síntese das relações entre religião e política no mo­mento actual, com um breve panorama da situação geopolítica das religiões no mundo globalizado. A segunda par­te trata de justificar a dimensão política da fé e, por conse­guinte, incita os cren­tes, inclusive as religiosas/os, a não se refugiarem numa impossível neutrali­dade política. A ter­ceira parte aborda, no clima de renova­ção democrá­tica que se reclama a­ctu­al­mente, a situa­ção da religião na democracia e das re­lações entre a é­tica, a política e a religião. A quarta e última parte enfrenta algumas questões que poderíamos denominar de «teolo­gia política»: a necessidade de uma nova teologia política mais aberta ao económico e o tema da reconciliação cristã à luz da experiência abismática de Auschwitz e a que nos diz mais dire­cta­mente respeito, a da reconciliação no País Basco."

O volume encerra com uma refle­xão sobre o problema da laicidade em Es­panha, ocasião oportuna para, cren­tes não crentes, apren­dermos atitudes e comportamentos de­mocráticos.

Um dos 13 capítulos do livro titula-se "O compromisso sócio-político dos cristãos", por sinal, um dos mais oportunos, já que a maior tentação das cristãs, dos cristãos é viverem a sua Fé de costas voltadas para o mundo, num intimismo que não tem nada a ver com Jesus, ainda que possa ter tudo a ver com as religiões do Paganismo.

Nunca é demais lembrar que como cristãs, como cristãos, somos discípulos de um crucificado que o foi por motivos políticos, bem explicitados na causa ofi­cial da sua morte: JNRJ-Jesus Nazare­no Rei dos Judeus. Porque este livro no-lo recorda, é deveras importante a sua leitura.

Sal Terrae / André Fossion

Começar de novo

"Estamos a assistir ao fim de um mundo que é também o fim de um certo cristianismo. E, no entanto, nem é o fim do mundo, nem o fim do cristianismo." São palavras do autor, padre jesuíta e professor no Centro Internacional "Lumen Vitae", em Bruxelas e também presidente da Equipa Europeia de Catequese. Um livro a "agarrar".

O objectivo do autor é ambicioso. "Este livro - escreve, a abrir o Prólogo - gostaria de acompanhar a leitora, o leitor no seu próprio caminho de fé. Gos­­taria de ser para ela, para ele - como foi para o seu autor - a ocasião de num novo começo, de um processo, de um caminho. Gostaria de a convidar, de o convidar a fazer um caminho por etapas, um caminho que a comprometa, o comprometa a avançar num processo que será unicamente o dela, o dele. No fundo, este livro gostaria de se prestar a uma leitura «iniciática», no sentido de dar a «iniciativa» à leitora, ao leitor, e convidá-la, convidá-lo a «iniciar» um processo em torno das primeiras ques­tões - questões «iniciais» precisamente - lá onde começa ou volta a começar a fé."

São estes os títulos dos 20 cami­nhos propostos pelo autor: 1. Regressar à fé. 2. Desejar. 3. Dar graças. 4. Ser fe­liz. 5. Viver em relação. 6. Com­par­tilhar. 7. Dar razão. 8. Ser pastor. 9. Crer desde o interior das culturas. 10. Viver em liberdade. 11. Morrer de de­se­jo. 12. Buscar Deus na pluralidade de religiões. 13. Ajudar a crescer. 14. Celebrar. 15. Em­belezar a vida. 16. Dominar o di­nheiro. 17. Saber acertar. 18. Criar. 19. Crer num Deus para a Humanida­de. 20.Evangeli­zar.

"Evangelizar é deixar-se surpre­ender, significa tam­­bém reconhe­cer o poder de se­du­ção que o Evan­ge­lho tem em si mes­mo e por si mesmo. Significa reconhecer com as­sombro que a figura de Jesus continua intacta na cultura do nosso tempo, e que os seres humanos continuam a ser «capazes de Deus», hoje como no pas­sado, sem que nos caiba a nós criar neles esta capacidade."

Continuam a ser oportunas pala­vras do autor, agora, no Epílogo da obra, 136 páginas, no total. São igual­mente dele as que se seguem: "Deixar-se surpreender pelo Evangelho signifi­ca - talvez mais do que tudo - estar dispostos a encontrar uns aliados ines­pe­rados, em especial, quando nos sen­ti­mos no limite das nossas forças, como exilados em terra estrangeira. Estes ali­a­dos inesperados podem ser pessoas, acontecimentos, teorias, aspirações cul­turais novas: sem que nada o fizesse prever, acabam por dar consistência à mensagem evangélica e uma renovada pertença. Costumamos pensar que a evan­gelização é uma tarefa da Igreja, o que significa esquecer que nesta ta­refa se encontram muitas circunstân­cias ou colaboradores que, alheios a ela, apoiam o seu projecto, a sua men­sa­gem, as suas realizações, à seme­lhan­ça de Ciro, rei dos persas, a quem o Senhor, contra toda a expectativa, chamou para reconstruir Jerusalém e restabelecer o povo na sua liberdade."

Vêem como é um livro de leitura imprescindível?(salterrae@salterrae.es)


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Congresso Internacional no Seminário Boa Nova, VN Gaia

Deus no séc. XXI e o futuro do Cristianismo

O teólogo alemão João Baptista Metz, da Universidade de Münster, o teólogo latino-americano, Enrique Dussel, da Universidade Nacional Autónoma do México, o teólogo galego Andrés Torres Queiruga, da Universidade de Santiago, a teóloga portuguesa Teresa Martinho, da Universidade Fernando Pessoa, o teólogo português Frei Bento Domingues, da Universidade Lusófona, mais o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, da Universidade de Coimbra, são alguns dos nomes mais sonantes que intervirão no Congresso Internacional, subordinado ao tema "Deus no séc. XXI e o futuro do Cristianismo", agendado para os dias 8, 9, 10 e 11 de Setembro 2005, nas instalações do Seminário Boa Nova, em Valadares-VN Gaia. A iniciativa, pensada e organizada pelo Pe. Anselmo Borges, integra-se nas comemorações dos 75 anos de existência da Sociedade Missionária da Boa Nova, cujo Superior geral é, neste momento, o Pe. António Couto.

José Maria Mardones, do Instituto de Filosofia do CSIC de Madrid; Juan Martín Velasco, da Universidade de Salamanca; António Pedro Pita, da Universidade de Coimbra; Manuel Pinto, da Universidade do Minho; João Maria André, da Universidade de Coimbra; Juan Masiá Clavel, da Universidade de Tóquio; Joaquim Fernandes, da Universidade Fernando Pessoa; Alexandre de Castro Caldas, da Universidade Católica Portuguesa; Rui Coelho, da Universidade do Porto; Adriano Moreira, da Universidade Técnica de Lisboa; Fernando Regateiro, da Universidade de Coimbra; e Daniel Serrão, da Universidade do Porto são os restantes intervenientes.

A abertura do Congresso cabe ao Pe. Anselmo Borges, que dissertará sobre "Desafios à humanidade e ao cristianismo no século XXI". O encerramento fica a cargo do actual Superior Geral da Sociedade Missionária, Pe. António Couto. "Depois do fim do Cristianismo pré-moderno, o quê?" é o oportuníssimo tema que Torres Queiruga irá abordar com a mestria que lhe é peculiar. Já o famoso filósofo e teólogo da libertação, Enrique Dussel, dissertará sobre "Deus e a economia num mundo globalizado".

Aguardada com enorme expectativa é a última conferência do Congresso,  "O futuro do Cristianismo na Europa do séc. XXI, proferida pelo insigne teólogo alemão, J. B. Metz.

Como se vê, é um Congresso a não perder. As inscrições podem e devem ser feitas no Seminário Boa Nova (Apartado 10, Valadares, 4406-901 VN Gaia, ou pelo telefone 227 151 250). Cada inscrição custa 80 euros (estudantes pagam apenas 25 euros).


XXV Congresso de Teologia de Madrid

Cristianismo e Violência

Maria Teresa de Borbón Parma e Casiano Floristán, respectivamente, abrem e encerram o XXV Congresso de Teologia de Madrid sobre "Cristianismo e violência". O Congresso está agendado para os dias 8, 9, 10 e 11 de Setembro 2005, no anfiteatro das conhecidas Comisiones Obreras. Maria Teresa reflectirá sobre "O fenómeno da violência" e Casiano Floristán sobre "Cristãos numa sociedade violenta".

No dia seguinte, ao final da tarde, é a vez de Emma Bonino, conhecida eurodeputada, reflectir sobre "Violência de género". No dia 10, sábado, há mais três conferências de fundo: "Cristianismo, violência e cultura em África", por Donato Lwiyando; "Cristianismo, violência e Diálogo inter-religioso na Ásia" por Juan Masiá; e "Cristianismo, violência e Libertação na América Latina" por Rodolfo Cardenal.

Este ano, as palavras de saudação ao Congresso são proferidas por Júlio Lois, o novo presidente da Associação de Teólogos e Teólogas João XXIII. E a mensagem final é lida pelo teólogo Juan José Tamayo.

O Congresso inclui também duas mesas redondas, ambas no dia 9, sexta-feira. A primeira, subordinada ao tema "Educação e Violência", conta com a participação activa de José Ignacio Calleja, Manuel Ortiz de Urbina e M.ª Isabel Fernández. A segunda, sobre "O terrorismo", dá voz a Maite Pagazaurtundúz, Mansur Escudero e Abel Isaac de Bedoya.

As inscrições podem ser feitas no local, imediatamente antes de se começar a participar no Congresso. Quem for apenas no fim de semana, pagará menos.



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