Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 157, de Abril/Junho 2005 (Continuação)

Da Prelazia de São Félix do Araguaia

Circular fraterna 2005 do Bispo Pedro

Lucidez, é o que não falta ao Bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia, no Brasil. A sua última Circular Fraterna de 2005 é espantosa prova disso. Ninguém deixe de a ler e meditar. Reparem no que diz o Bispo sobre o papado e a Cúria Romana. Fossem todos os bispos assim. Tão lúcidos. E tão corajosos.

Tem sido uma autêntica avalanche de mensagens de solidariedade, preo­cupadas e até indignadas algumas, e já, finalmente, muitas exultantes. Hoje, como nunca, deveria eu responder pes­soalmente, mensagem por mensa­gem, coração a coração.

Chegaram tam­bém, neste tempo de vigília expectante, muitas perguntas, muitos desabafos; sobre este nosso Mun­do neoliberal, sobre a nossa santa e problemática Igreja.

Envio as perguntas e as ansiedades ao Espírito d’Aquele que é “nossa Paz”. E crentes e agnósticos, serenos e re­beldes, elas e eles, dêem-se todos por respondidos com um carinho imenso. Assim, tão facilmente, os bispos apo­sen­tados despachamos as cargas...!

Temos recebido muita solidarie­dade com respeito à reivindicação do povo Xavante, que continua estancada em mãos de uma justiça lentíssima.

O outro motivo de solidariedade para com a nossa pequena Igreja de São Félix do Araguaia tem sido, logica­mente, a sucessão episcopal.

Não vou entrar em detalhes por­que já se tem escrito bastante sobre esse incidente eclesial. Nós queremos insistir em que o problema não era ape­nas um bispo, uma Igreja. O problema é de toda a Igreja e para a nomeação de todos os bispos e é uma reivindica­ção maior de co-responsabilidade e de colegialidade. Para sermos fiéis ao E­vangelho e para darmos testemunho ao Mundo.

Felizmente o novo bispo de São Félix do Araguaia, frei Leonardo Ulrich Steiner, é um franciscano verdadeiro, fraterno, dialogante, popular. E a cami­nhada continua. E eu continuarei tam­bém aqui, à beira do Araguaia, acom­pa­nhando à distância as lutas dos nos­sos povos e curtindo, em esperança pascal, a tarde da vida.

O império quer “um mundo sem ti­rania”. Nós também; sobre tudo sem a tirania do império. E quer o império “a pro­pagação da liberdade”. Nós contes­tamos indignados que essa liberdade seja somente para o mercado e para alguns senhores países.

Tiranias há, demais, em todos os ní­veis da vida social, econômica, polí­tica, cultural.

Segundo o informe anual da ONU, ainda há 1,1 bilião de pessoas que sobrevivem com menos de 1 dólar por dia. Continuam morrendo diariamente, de fome, 30.000 crianças pobres. Nos últimos 40 anos o PIB mundial dupli­cou-se, enquanto se triplicava a desi­gu­al­dade económica. 900 milhões de pessoas – a sétima parte da população mundial - sofrem discriminação étnica, social ou religiosa. 170 milhões de pes­soas vivem flutuando na migração. 44% da população latino-americana mora em bairros miseráveis. África con­ti­nua sangrando, entre ignorada e es­po­liada. E há países em nosso mundo como “marcados para morrer”, talvez por uma possível guerra preventiva...

Há, porém, “muito bem vencendo o mal”, em nosso Mundo ferido. Reali­zá­mos novamente o Fórum Social Mundial; Via Campesina cresce e actua; desmascaramos, e em parte freamos, a ALCA; Israel e o Povo Palestino dia­logam sobre passos concretos; a es­querda levanta cabeça em vários paí­ses da Nossa América e da Europa e cresce “o mal-estar (e o protesto) face à democracia neoliberal”. Se os parti­dos e os sindi­catos vêm sendo desmora­lizados, cresce entretanto o movimento popular com suas manifestações em es­cala nacional, continental e mundial. Começou a andar o Protocolo de Kyo­to. E somos cada vez mais os que grita­mos, com Inácio Ramonet, “sim à soli­dariedade entre os 6 mil milhões de ha­bi­tantes de nosso planeta; não ao G-8 e ao Consenso de Washington; não ao domínio do “póquer do mal” (BM, FMI, OCDE, OMC); não à hegemonia militar de uma única superpotência; não às guerras de invasão e não ao terrorismo...” E resume Ramonet, e nós com ele, que “resistir é dizer que não e é também dizer que sim e sonhar que outro mundo é possível, e contribuir para construí-lo”.

Outra Igreja é possível também e de todas partes e de muitos modos a estamos construindo. Sendo comunida­de de oração, de fraternidade, de com­promisso.

Brasil realizando o XI Encontro In­te­reclesial das CEBs e reanimando-se as CEBs do Brasil, do Continente, do Mundo. Celebrando, juntamente com o Fórum Social Mundial, o Fórum Mundial de Teologia e Libertação. Celebrando o jubileu martirial do nosso São Rome­ro e a memória comprometedora de todos os nossos mártires. Retomando a opção pelos pobres e pelas suas cau­sas. Denunciando profeticamente os “genocídios sociais” e a iniquidade do império e de suas oligarquias. Sendo ecumenismo real e diário. Sendo diálo­go inter-religioso. Alentando o proces­so conciliar, como uma reivindicação evangélica crescente e como a melhor comemoração dos 40 anos do Vaticano II. Vivendo, enfim, nossa fé de um modo adulto e co-responsável, “para a vida do Mundo”.

E vá lá agora uma confidência ecle­sial, de bispo velho que continua sonhando. Outra vez, por ocasião de mais um problema de saúde de João Paulo II, tem-se falado e escrito muito sobre o perfil do próximo papa.

Eu penso que se deveria falar mui­to mais - falar e fazer - do perfil do no­vo papado, de uma re-estruturação ra­dical disso que chamamos a Sé Apos­tólica, de um novo modo do ministério de Pedro: sensível, como o coração de Jesus, ao clamor da pobreza, do sofri­mento e da deriva; sem estado ponti­fício e com uma cúria leve e serviçal; pro­feticamente despojado de poder e de fausto; apaixonado pelo ecumenis­mo e pelo diálogo inter-religioso; de­sabso­lutizado e colegial; descentraliza­dor e verdadeiramente “católico” no plu­ralismo cultural e ministerial; como uma mediação religiosa – em colabo­ra­ção com outras mediações, religiosas ou não - ao serviço da paz, da justiça, da vida.

Van Gogh, apesar de ter visto cair em sua vida tantos moinhos, reais ou simbólicos, escrevia a seu irmão Theo: “Mas o vento continua”. Depois de ver­mos, também nós, como vão caindo tan­tos moinhos, na Sociedade e na Igreja, seguimos proclamando – na Es­pe­rança e no Compromisso - que “o Vento continua”...

São Félix do Araguaia, MT, Brasil

pedro.casaldaliga@uol.com.br


P. Mário COMENTOU E O BISPO RESPONDEU

Caríssimo Bispo Pedro

Chegou a sua Circular Fraterna 2005. O seu conteúdo alimenta e estimula a nossa comunhão eclesial. Sabemos que importante é o Reino. Também a Igreja, mas enquanto teste­munha e parteira do Reino. Enquanto multinacional da Religião católica, só estorva.

É com o Reino que temos que sin­to­nizar e cooperar, para podermos ser Igreja de Jesus. A Católica. De contrá­rio, não passamos duma seita religiosa mais.

Também eu acho que não deve­mos andar preocupados com o perfil do novo papa. O Serviço de Pedro é outra coisa. Incompatível com a Cúria romana.

Já é tempo de o Serviço de Pedro ser mais do que isso. Tem que ser, pelo menos, Serviço de Maria Madalena e de Pedro. Ela, ainda antes dele. Não foi ela quem evangelizou Pedro e os ou­tros dez?

Sem a presença do Feminino, no coração da coordenação da Igreja, quem pode dizer que o Serviço de Pe­dro tem as marcas do Espírito Santo?

Estou muito feliz por saber que, fi­nalmente, a Prelazia pode contar com um novo Bispo na sua linha libertadora e sororal/fraterna, aberta ao mundo, ma­croecuménica. E também com a presença sempre querida e afectuosa do Bispo Pedro, grande irmão universal, agora na sua condição de Bispo emé­rito.

Fico no abraço, desde o Jornal Fra­ternizar, desde Portugal.

Mário, presbítero da Igreja do Porto

Querido Mário,

Obrigado por sua solidariedade, impetuosa como tudo o que é seu...

 Efectivamente, a novela da minha sucessão teve um “final feliz” - não de Hollywood, no dizer de Jon Sobrino, mas da Galiléia -. Um bom franciscano será o novo pastor de São Félix do Ara­guaia.

Seguiremos unidos na oração do Reino, nas lutas do Reino, na esperan­ça do Reino.

Um forte abraço e já e sempre a Paz da Páscoa

Pedro Casaldáliga


Frei Betto (Brasil)

HARRY POTTER PARA ADULTOS

No tempo em que o marxismo andava em moda, quando a miséria in­comodava e o socialismo apontava uma saída para uma vida melhor, dizia-se que o mercado controlava “as rela­ções de produção”, consideradas “o mo­tor da história”.

Bem, o socialismo evaporou-se, o marxismo saiu de moda e a miséria aumentou assustadoramente. Então o que aconteceu? Já não queremos uma vida melhor para todos? Devagar com o andor. O mercado aprimorou-se, re­du­ziu a distância entre a coisa física e a semântica, e agora procura con­­ven­cer-nos de que a saída para uma vida melhor... é uma questão individual (qualidade de vida) e avisa que aca­bou o combustível que abastecia o mo­tor da história. Assim, o mercado já não influi apenas nas relações de produ­ção. Influi em todas as relações: famili­ares, afectivas, sexuais, políticas, reli­giosas... (Em tempo: que Deus e o Esta­do se preocupem com os miserá­veis...).

O que há de novo é que agora o mercado não lhe vende um carro, uma roupa ou um sorvete. Vende você. Isso mesmo. Todo produto reflecte a nossa alma e o nosso espírito. E antes de nos dar conta de que temos consciên­cia e subjetividade, redutos do Mistério, o mercado trata de personalizar de tal modo os produtos, a ponto de o con­sumidor só se sentir completo quando deles se apossa. Ou será que você não se sente um pouco triste, quando fica privado uma semana do seu carro ou não encontra seu champô preferido?

No prefácio à segunda edição de Gaia, Nietzsche lamenta a progressiva perda do “pudor com o qual a Natureza se escondia atrás de véus e enigmas”. O Mistério é uma experiência em extin­ção. Agora queremos desvendar todas as verdades, ver tudo, saber de tudo. Antes que façamos a pergunta, o mer­cado já apresenta a resposta. Todas, do tratamento de rápido emagrecimen­to (fica decretado que gordura é falta de educação) ao esoterismo que apli­ca a Leonardo Da Vinci a fórmula de produzir Harry Potter para adultos.

Não há nenhum reduto da experi­ên­cia humana que escape ao mercado. Em seu poder semântico, ele se ante­cipa aos nossos desejos: não oferece um carro, mas requinte; não o refrige­rante, mas o sabor refrescante; não o desodorisante, mas um toque de classe. Assim vamo-nos revestindo de produtos fetichistas que nos imprimem valor, sta­tus, identidade.

Como disse Montaigne, ninguém compra um cavalo por causa da beleza do arreio, mas em se tratando de seres humanos não valemos pelo que somos, e sim pelo que demonstramos possuir.

O mercado apela à nossa libido e à nossa tendência à violência. Não quer apenas que possuamos os obje­ctos, induz-nos a destruí-los. Já não haverá museus para os objectos da pós-modernidade. Todos são destrutíveis ou, para usar o jargão da moda, descar­tá­veis. São feitos para serem subjuga­dos, devorados, agredidos. Feitos para exaltar a nossa suposta omnipotência, de quem não deixa pedra sobre pedra, descarta tudo, família, amigos, colegas de trabalho, parceiros sexuais...

O mercado teme que decidamos virar-lhe as costas e caminhar para a­quele lugar em que ele não pode jamais chegar, e ainda que chegasse nada teria a dizer: a contemplação do Mistério.

Na falta do Mistério, só nos resta essa incessante objectivação na qual antecipamos, ao dar vazão aos nossos instintos assassinos, a nossa própria morte. Como numa corrida de Fórmula 1, vencer não é importante, o que inte­ressa é imprimir mais e mais velocidade à existência.

Conta a fábula que Afrodite afastou seu filho Eros da amada Psique. Apai­xonada, esta aceitou submeter-se às mais duras provas para demonstrar que era digna daquele homem. Selec­cionou as sementes que enchiam o de­pósito da casa de Afrodite; cortou a lã das ovelhas que pastavam num vale distante; buscou água do mais inaces­sível manancial da montanha.

Afrodite impôs-lhe mais uma prova: ir até o inferno e dizer a Proserpina que Afrodite ansiava por um pouco de sua irresistível formosura e, portanto, pedia que lhe enviasse seu unguento mágico. Psique recebeu ordem de não abrir o pote no qual levaria a poção da beleza. Superando mil perigos, e com a ajuda de Caronte, Psique atra­vessou o rio dos mortos e chegou à terra de Tártaro. Obteve o unguento mas, na volta, não resistiu à tentação, abriu o pote e experimentou uma pita­da daquela maravilha que a tornaria irresistível para Eros.

A beleza excessiva foi a causa de suas desgraças. Não queria ser bela em si mesma, mas só aos olhos do ama­do. “Minhas aventuras o comove­rão – dizia ela -,  meus actos o farão admirar-me, mas só a beleza me fará irresistível para ele”. Após abrir o pote e untar o rosto, Psique caiu num sono profundo como a morte.

A publicidade oferece-nos todos os unguentos e nos promete toda a beleza. Aos olhos alheios. Mas o que ou quem preencherá o vazio do coração?


Pablo Richard, chileno. Teólogo da Libertação

OUTRO MUNDO É POSSÍVEL

A Esperança de que outro mundo é possível, só por si, é já uma derrota do actual Sistema. Para que esta Espe­rança seja real, falta apenas encontrar o sujeito capaz de tornar possível esse mundo possível, e delinear um projecto que torne efectivo esse outro mundo. Devemos responder às perguntas: co­mo é esse mundo, como funciona, quem o governa, etc.

A Esperança de outro mundo pos­sível exige a construção deste sujeito e deste projecto de sociedade. Se não há Esperança de que outro mundo é pos­sível nunca nos proporemos cons­truir nem esse sujeito nem esse proje­cto alternativo.

O sujeito não é o sujeito-indivíduo da revolução moderna, mas o sujeito-co­munidade. O sujeito-indivíduo vê sem­­pre no outro um inimigo, o que com­­pe­te no mercado, onde a destrui­ção do outro é a condição do meu êxito pes­soal. O outro só é reconhecido en­quanto me é útil.

O sujeito-comunidade, pelo contrá­rio, afirma no outro, na comunidade, a pos­sibilidade de ser sujeito: Eu sou, se tu também fores. Ou, como diz o Evan­ge­lho: Ama o teu próximo, porque ele és tu próprio.

O sujeito-comunidade entende que todo o homicídio é suicídio, uma vez que a morte do outro implica a minha própria morte.

A um nível social, o sujeito-indivíduo diz: “Se não há para todos, que pelo me­nos haja para mim”. O sujeito-comu­nidade, pelo contrário, diz: “Se há para todos então também haverá para mim”.

A outra condição da Esperança é de­linear um projecto que torne possível esse outro mundo. Este projecto formu­la­mo-lo na generalidade assim: Uma so­ciedade onde todas, todos tenham lugar, em harmonia com a natureza, is­to é, esse outro mundo só é alternati­vo ao capitalismo, se garantir a vida de to­das, todos e a vida do cosmos. Te­mos aqui uma racionalidade total­men­te diferente da racionalidade da eco­nomia de mercado.

A economia de mercado tem dois de­feitos fundamentais: a exclusão e a destruição da natureza; por isso, o mun­do alternativo deve ser para todos e em harmonia com a natureza.

O ponto de partida para construir esse outro mundo é fundamentalmente ético. No sistema actual, o valor abso­luto é a eficácia e o lucro. Um avanço te­cnológico ou científico é valorizado unicamente pela sua capacidade de produzir lucro no mercado. No mundo alternativo que desejamos construir, o valor absoluto é a vida humana. A eco­nomia, a tecnologia, a ciência são boas e justas se estiverem ao serviço da vida humana.

Como podemos construir esse mun­do alternativo? Não sabemos, mas uma coisa já sabemos: é que ele nas­cerá a partir de baixo, a partir dos po­bres, dos excluídos, a partir do Tercei­ro Mundo. Sabemos também que já po­demos começar a construir esse outro mundo alternativo em pequenas expe­ri­ências no âmbito da economia e da política. O motor que nos empurra nesta pro­cura é a Esperança de que outro mun­do é efectivamente possível. Se não tivermos Esperança, limitamo-nos a pro­curar acomodar-nos dentro do actual sistema.

Nesta procura, devemos resgatar toda a força da utopia que é a plenitu­de histórica da Esperança. A utopia, como o seu nome indica, não tem lugar na história actual, porém não está nou­tro mundo, mas no nosso mundo, de­pois de vencida a exclusão e a destrui­ção da natureza.

A utopia não tem lugar, mas tem dois efeitos muito importantes. 1, dá-nos o sentido e a orientação para onde vamos na construção do mundo alter­na­tivo. A utopia orienta-nos num deter­minado sentido, embora não saibamos quando chegaremos à plenitude. A uto­pia diz-nos igualmente em que dire­c­ção não podemos ir. 2, a utopia dá sen­­tido a todas as nossas pequenas cons­truções, aos nossos pequenos êxi­tos e experiências micro-econó­mi­cas. Por outras palavras, a Esperança, e sua plenitude, a utopia, dão orienta­ção ao nosso caminhar e sentido a tudo o que vamos construindo.

Por que é possível outro mundo? Por­que este mundo já se tornou impos­sível. Este sistema já acumula morte e destruição numa proporção tal, que a vida da humanidade e do cosmos está em sério e iminente perigo. Já temos 60% da humanidade a viver na exclu­são. As desigualdades entre ricos e po­bres tornaram-se intoleráveis. Além dis­so, a “vitória” do capitalismo sobre o socialismo foi uma vitória pírrica.

Quando o general grego Pirro obte­ve uma vitória sobre os seus inimigos, foram tantos os mortos de um lado e do outro, que ele confessou: “com outra vitória como esta estou perdido”. A vi­tória da economia de mercado é o co­meço da sua derrota.

Já caiu a ideia de que o sistema a­ctual é o único sistema possível. Aos que se opõem ao sistema actual, o sis­te­ma considera-os muito perigosos, por­que eles simplesmente têm razão e sabem que têm razão.


Eclesalia e Evaristo Vilar para Jornal Fraternizar

Fórum Mundial de Teologia da Libertação

PARA OUTRO MUNDO POSSÍVEL

Durante os dias 21 a 25 de Janeiro de 2005, realizou-se em Porto Alegre, Brasil, o I Forum Mundial de Teologia da Libertação (FMTL). 175 especialis­tas e observadores convidados dos cinco continentes, trocaram durante cinco dias análises e experiências, confrontaram orientações teológicas e afirmaram o seu compromisso de continuarem a fundamentar teologicamente a esperança na possibilidade de um mundo outro.

A Pontifícia Universidade Católica de Rio Grande do Sul, fazendo juz à sua própria identidade de instituição aberta aos novos desafios da razão e da fé, pôs à disposição deste encontro as suas magníficas instalações. É muito gratificante encontrar, nos tempos que correm, este ar de liberdade numa insti­tuição como esta.

1. Inspiração inicial:

A inspiração inicial deste evento sur­giu durante a terceira sessão do Forum Social Mundial (FSM), também realizado em Porto Alegre. Muitos dos teólogos e teólogas assistentes, entre os quais se encontravam as emblemáti­cas figuras de Sérgio Torres e Leonardo Boff, sentiram necessidade de aproxi­mar a reflexão teológica ao novo espí­ri­to que está emergir nos foruns sociais. Um espírito no qual se verificam três tendências dominantes:

a) uma maior "sensibilidade pela eco­logia", b) um reconhecimento explí­cito do "pluralismo religioso" e c) a pre­sen­ça duma "rica floração de movi­mentos sociais alternativos".

Esta inspiração foi acolhida com entusiasmo por instituições de reconhe­cida importância no Brasil, que se cons­tituiram em gestoras de um pro­jecto de âmbito mundial. Projecto este que, por sua vez, foi economicamente apoiado por algumas agências de ins­piração inter-religiosa.

Devido à sua importância, cabe aqui assinalar as seguintes institui­ções: a Associação de Teólogos e Teólogas do Terceiro Mundo, a Rede Latino-americana de Pastoral ou Ame­ríndia, a Associação de Teologia e Ci­ên­cias da Religião, o Centro Ecuménico de Serviço à Evangelização e Educa­ção, o Centro de Pastoral da Pontifícia Universidade Católica de Rio Grande do Sul, o Centro Ecuménico de Evan­ge­lização, Capacitação e Assessora­mento, a Escola Superior de Teologia de São Leopoldo e o Instituto Huma­ni­tas da Universidade do Vale dos Si­nos. Deste modo, o sonho converteu-se em projecto e o projecto em rea­li­dade.

É de agradecer que, desde os seus primeiros passos, este forum de teolo­gia da libertação se tenha vinculado ao FSM. Ambos poderão sair altamente beneficiados. Por um lado, a reflexão teo­lógica, porque poderá enriquecer o seu discurso mais directamente intra­eclesial e até inter-religioso, penetran­do noutros cenários que estão a ser actualmente reivindicados por amplos sectores da sociedade civil (as ques­tões de género, as etnias, o indigenis­mo, os diferentes e os excluídos, etc). Por outro lado, o FSM (mais de 60% dos seus participantes são crentes, segundo dados oficiais), com um dis­curso teológico libertador ver-se-á mais for­temente reforçado na sua procura de alternativas à crise causada pela queda dos socialismos e pelo domínio do capi­talismo neo-liberal.

Tão pouco se pode desprezar a con­tribuição específica da teologia e a sua aposta pela liberdade e a transcen­dência diante do determinismo da His­tória. Ignorar esta contribuição não só suporia um empobrecimento antropoló­gico, mas também um enfraquecimento do horizonte da esperança criativa.

Na cumplicidade e complementari­da­de de ambos os foruns, resulta mais evidente que nem chegamos "ao fim da História", nem os pobres estão de­ modo algum derrotados. Outro mun­do alterna­tivo não só é possível, mas também, como lucidamente afirmará a teologia, está já a ser realidade em se­mente.

2. O encontro em si.

O FMTL teve dois momentos com­ple­mentares: um, centrado no diagnós­tico das teologias da libertação actuais; e outro, mais estreitamente vinculado ao FSM.

2. 1. O primeiro momento, ao qual se dedicou todo o dia 21, ofereceu um rico balanço do estado actual da Teo­logia da Libertação (TL) e dos desafios aos quais ela está a dar a cara em cada continente e região.

Como denomina­dor comum, foram emergindo alguns indicadores, mais acentuados numas regiões que noutras, porém, presentes de alguma maneira em quase todos os estudos. Assinalo aqui os três mais determinantes: pri­meiro, "os novos lugares teológicos", a partir dos quais nasce a teologia de hoje e que se descobrem nos muitos pobres (de género, etnia, os dife­ren­tes), na preocupação pelo meio ambi­ente, na dimensão ecuménica e ma­cro-ecuménica do diálogo inter-reli­gioso, no pluralismo cultural, nas eco­nomias e nas políticas, etc; depois, "os novos sujeitos emergentes" da prática teológica que tendem a ir mais além que as instituições académico-tradicio­nais enquanto tais, para aparecerem em âmbitos eclesiais mais livres e cria­tivos (comunidades e grupos de fron­teira); e, finalmente, "a metedolo­gia da libertação" que, num primeiro mo­mento, regionaliza as mediações sócio-analíticas, hermenêuticas e pastorais para se abrir logo a seguir a um ho­rizonte mais global e universal.

Neste contexto compartilhado, cada continente reflecte depois a sua específica novidade: em África, os con­flitos raciais e a descolonização; na Europa, as migrações e o diálogo in­ter-religioso; na América do Norte, o neo-conservadorismo e a teologia li­beral; na América do Sul e Caribe, a passagem das grandes teorias da de­pendência à libertação das escravi­dões quotidianas que empobrecem a vida das pessoas e dos povos.

A conclusão deste primeiro dia foi esperançadora: a TL continua viva, re­gionalizou-se e universalizou-se; apre­senta diferentes cores segundo os di­versos lugares e é já uma componente essencial na espiritualidade de muitos crentes; dispõe de elementos sufici­en­tes para abordar os novos desafios do mundo actual.

2.2. O segundo momento, mais di­rectamente vinculado ao FSM, desen­volveu-se durante os dias 22, 23, 24 e 25. Dedicando cada dia a um tema específico e seguindo uma metodologia muito mais académica (conferência ma­gistral, painel de especialistas e traba­lho em equipas). Destaco aqui apenas o enunciado dos temas e respectivos conferencistas.

No dia 22 e a partir da aposta por Outro mundo é possível, abriu-se com uma excelente "análise da conjuntura global", feita pelo sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, e com­ple­tou-se com dois muito interessantes painéis: "dificuldades e possibilidades do mundo de hoje para a teologia" (U. Duchrow e D. Manchala) e "Lugar e pos­sibilidades da utopia hoje" (Ch. H. Kyung e L. Boff).

O dia 23, sob o tema geral: Um Deus para outro mundo possível, re­par­tiu-se entre a conferência sobre "Lin­guagem e imagens de Deus", da teóloga luterana Wanda Deifelt, e os ricos e imaginativos paineis "Deus e gé­nero" (E. Támez e E. Anderson) e "Deus, tradições ético-culturais e glo­ba­lização" (J. Massey e E, López).

À Religião para outro mundo pos­sível dedicou-se o dia 24, com a con­ferência do teólogo francês Claude Ge­ffrè sobre "A crise da religião, busca de sentido e fundamentalismo" e os mais interessantes paineis "Religião e mercado" (J. Mo Sung e R. Mahana) e "Religião e poder político" (S. Stlsett e K. C. Abrahan).

Finalmente, o dia 25, consagrado à Teologia para outro mundo possível, contou com a bem documentada confe­rência do teólogo índio Michael Amala­doss sobre "O Deus de todos os nomes e o diálogo inter-religioso" e os brilhan­tes paineis "Para uma ética mundial" (E. Dussel e L. Baroni) e "O lugar da teo­lo­gia noutro mundo possível" (T. Okurre e JJ. Tamayo).

Todas as tardes e sobre os mes­mos temas, houve uma conferência mais divulgativa e aberta a todo o pú­blico, a cargo de três teólogos bastante conhecidos, M. C. Julisaint, T. Balas­suriya e O. Maduro.

3. Algumas críticas e uma de­­li­be­ra­ção:

Num ambiente quente e acolhedor, favorável ao encontro e ao diálogo inter­pessoal, respirava-se um misto de satis­fação pelo encontro em si e pela sua boa organização, e de algumas críticas, feitas mais com preocupação construtiva  e de olhos postos no futuro.

Algumas dessas críticas dizem di­rectamente respeito ao cerne da própria inicia­tiva: o seu excessivo eurocentrismo e a justaposição das tendências teológi­cas sem inter-relação, inter-conexão ou integração entre elas. Outras críticas, a maioria, têm a ver com a forma ou pro­to­colo de organização do forum: a falta de "participação grupal" des­camba facil­mente num personalismo que, nalguns casos, chega a fazer ce­dências a um dis­curso verticalista, de­pendente, de cima para baixo, con­trário à dinâmica da TL.

Por outro lado, a débil presença da mulher na organização destes even­tos, assim como a própria fra­gilidade da teologia de género vêm ao de cima nes­tas ocasiões. Também fal­tou espaço para expressar e comparti­lhar novas ini­ciativas, etc.

O forum fechou com a deliberação, maioritariamente compartilhada, de continuar no futuro, ligado ao FSM (em 2007, em África), e com a nomeação de um "comité internacional de gestão" (dois membros são espanhóis), com o pro­pósito de entrar de imediato em contacto com as bases.


Director do Jornal Fraternizar foi um dos jurados

TMI RECONHECE AO POVO IRAQUIANO O DIREITO À INSURREIÇÃO

A Audiência Portuguesa do Tribunal Mundial sobre o Iraque (TMI), reunida nos dias 18, 19 e 20 de Março 2005, no edifício da Torre do Tombo, em Lisboa, deliberou "condenar os governos dos EUA e da Grã Bretanha pela invasão e subsequente ocupação do Iraque contra as regras do direito internacional" e "reconhecer ao povo iraquiano o direito de resistir à ocupação pela força das armas, exercendo assim o direito à insurreição que o direito internacional e a Constituição Portuguesa consagram".

O Tribunal Condenou igualmente "o Governo português presidido por J. M. Du­rão Barroso pela colaboração na pre­paração da guerra, traduzida nos se­guintes actos: a) apoio diplomático e po­lí­tico à política dos beligerantes; b) ce­dência da base das Lajes para reali­zação da «cimeira da guerra»; c) partici­pa­ção nessa cimeira; d) cedência da ba­se das Lajes para apoio ao trânsito de pessoal e equipamento militar para o te­a­tro de guerra" e ainda "pela compar­ti­ci­pação na ocupação do Iraque, tradu­zida nos seguintes actos: a) nomeação de um representante do Governo portu­guês junto da «Autoridade»; b) envio de uma força da GNR para o Iraque, em missão de cooperação com as for­ças militares ocupantes".

A Audiência portuguesa do TMI con­denou igualmente "o Governo portu­guês presidido por P. Santana Lopes pelo prolongamento da missão da GNR no Iraque". E não deixou de "censurar publicamente os jornalistas e comen­taristas que tentaram a todo o custo justificar a invasão e a guerra; e que, pe­rante a imensa tragédia humana que aquelas provocaram, se têm recu­sado a reconhecer os erros ou falsida­des que então afincadamente propala­ram."

Em relação ao actual Governo português, o TMI deliberou "apelar pa­ra que, correspondendo à vontade da maioria da população portuguesa, reveja por completo a política seguida até à data e designadamente: a) po­nha termo à utilização da base das La­jes para fins de manutenção da o­cu­pa­ção do Iraque pelos EUA; b) de­senvolva todos os esforços políticos e diplomáticos para a reposição da le­galidade no Iraque, a começar pela retirada dos ocupantes."

A Audiência portuguesa do TMI con­tou com os depoimentos de co­nhecidos especialistas: José Manuel Pu­reza, professor de Direito Internacional; Jorge Figueiredo, economista, Violaine Sautter, geóloga (Paris); Cláudio Torres, arqueólogo; Mário Tomé, coronel; An­tó­nio Louçã, historiador; António Garcia Pereira, advogado; Francisco Martins Rodrigues, editor; José de Azeredo Lo­pes, professor de Direitro Internacional; Manuel Raposo, arquitecto; Joaquim Piló, presidente do Sindicato dos Pesca­dores; Fernando Nobre, médico e pre­si­dente da AMI; Romero Gândara, mé­di­co da Associação de Médicos Portu­gueses Contra a Guerra Nuclear e To­das as Guerras; Pedro Pezarat Correia, general; e Rui Pereira, jornalista.

Desta Audiência portuguesa fez também parte um corpo de 64 jurados, entre os quais se contou o director do Jornal Fraternizar, Armando Fernan­des, director do Jornal "O ARRIFANA", de Penafiel, Frei Bento Domingues, o quase lendário Alípio de Freitas, jorna­lista, a escritora Eduarda Dionísio, Eu­génio Alves, presidente do Sindicato de Jornalistas, Guilherme da Fonseca, ex-Juiz-conselheiro jubilado do Supremo Tribunal de Justiça, Isabel do Carmo, médica, João Gil, músico, José Barata Moura, Reitor da Universidade de Lis­boa, José Manuel Mendes, Presidente da Associação Portuguesa de Escrito­res, Manuel Graça, sindicalista da CGTP, Maria do Céu Guerra, actriz, Ma­ria José Morgado, Procuradora-Geral Adjunta, Milice Ribeiro dos Santos, pro­fessora universitária, Nuno Teotónio Pe­­reira, arquitecto, Tino Flores, cantor, Vasco Lou­­renço, general, Hélder Costa, encenador.


LIVROS DO TRIMESTRE

Cristianisme i Justícia / J. I G. Faus e outros

IDOLATRIAS DE OCIDENTE

"A crítica das idolatrias do nosso Ocidente secularizado foi o trabalho do curso 2003-2004, que agora oferecemos neste livro". É o que nos diz, a abrir, o texto de apresentação. Ao todo, são 153 páginas que ninguém deve deixar de ler-meditar.

São 6 os temas abordados por ou­tros tantos elementos do "voluntariado intelectual" do Centro de Estudos de Cris­tianisme i Justícia.

1. A constituição idolátrica do ser hu­mano (José I. González Faus); 2. Deus e os ídolos na Bíblia (Xavier Ale­gre); 3. Escravos do consumo: o poder das marcas (Joan Carrera); 4. O ídolo da tecno-ciência ( Albert Florensa); 5. A idolatria da força (Alfons Banda-Jordi Armadans); 6. Identidades colectivas e idolatria: a absolutização dos que nos fazem ser (Dolors Oller).

A estes 6 temas, segue-se uma con­clusão, um apêndice e um balanço. A conclusão: A violência dos ídolos ver­sus a não-violência de Deus. O apên­dice: A idolatria do Império: Carta de Jon Sobrino a Monsenhor Romero. O balanço: Não podeis servir a Deus e à riqueza.

Este livro deveria ser de mesinha de cabeceira e de bolso para todas, todos nós, crentes ou ateus, uma vez que a tentação da idolatria bate a to­das as portas. O crente sempre deveria pensar qual é o Deus em que crê. E o ateu, em que Deus é que não crê. Fun­damental, hoje, não é confessar que se crê ou não em Deus. É analisar se so­mos idólatras ou não.

Por isso, não nos arrependere­mos, se decidir­mos fazer deste li­vro uma espécie de Evangelho de bolso que nos a­com­pa­nhe para todo o lado, para assim o podermos abrir-ler em qual­quer momen­to.

"Essencial no cristianismo: que quando o ser hu­ma­no orienta  para Deus o seu eros religioso conver­tido, é como se Deus lhe dissesse: «dirige esse impulso para os teus ir­mãos». No difícil amor aos irmãos está Deus como na nuvem ou na noite. En­quanto que a religiosidade que esque­ce os irmãos permanece na idolatria da luminosa sarça ardente. Compreen­de-se também a esta luz a insistência do Novo Testamento, sobretudo, dos es­critos joânicos, em que o que diz que ama a Deus e não ama o seu irmão é um mentiroso. Um idólatra, poderíamos dizer também."

Estas são algumas das profundas palavras, carregadas de sã teologia jesuânica, de G. Faus. Só pelo seu tex­to, já valia a pena adquirir o livro.

"Só o Deus verdadeiro nos faz irmãos; os falsos deuses fazem-nos com­petidores e «exigem» vítimas", diz, por sua vez, Dolors Oller i Sala. "Não devemos esquecer - diz mais adiante - que somos seguidores de um profeta desarmado. Ele ensinou-nos que não se pode servir a dois senhores - a Deus e ao Dinheiro - e também po­de­ríamos acrescentar: a uma pátria, a uma nação, a uma cultura, se tudo isso se absolutiza e faz com que deixemos de colocar o ser humano no centro da nos­sa solicitude". É que também "o nosso corpo está chamado a ser fraternidade sem fronteiras, como o de Jesus."

Porfírio Borges

RETALHOS DE UMA VIDA

A vida, cujos retalhos aqui se divulgam, é a do Porfírio Borges, o companheiro de muitas jornadas de luta e de festa, durante os muitos anos que viveu entre nós e connosco. Agora que, pela sua ressurreição, se tornou presença ainda mais viva, mas invisível aos olhos, surge inesperadamente este seu livrinho. Para nos aquecer o coração que, como o dele, só pode ser um coração militante, de causas!

Corram por ele à Livraia Telos, no Porto. Ou peçam-no à Durvalina, sua companheira.

"Estávamos no «Verão quente», quando uma delegação da LOC se deslocou, a seu pedido, ao Paço Episcopal do Por­to, para falar com o Sr. D. António F. Gomes. Ao subirmos as escadas, no­támos que pelas outras descia uma de­le­gação do então PPD liderada por Sá Carneiro. O D. António pelo tempo que me­diou entre a saída deles e a nossa en­trada apercebeu-se que nós nos te­ría­mos cruzado. [...] Então disse-nos: «Já recebi aqui delegações de todos os partidos, incluindo a do PC, curio­sa­mente o único que nunca cá veio foi o da Democracia Cristã». Está visto «Santos da casa não fazem milagres»!"

Editorial Trotta / Vários autores

HISTÓRIA DO CRISTIANISMO

II. O MUNDO MEDIEVAL

São 780 páginas, no total. Elaboradas por uma equipa de especialistas. Dão-nos um retrato aproximado do Cristianismo e da Igreja na Idade Média, com os seus papas, anti-papas, cardeais, bispos, alto e baixo clero, mosteiros e conventos de frades e de freiras, com as suas catedrais, as suas guerras de religião, Cruzadas, Guerras santas e também com as populações mantidas na ignorância e subjugadas por catequeses moralistas de arrepiar. O que hoje somos, deve-se em grande parte a estes séculos totalmente eclesiásticos e feudais. Esta é, pois, uma obra de fôlego, a não perder por nada deste mundo!

Esther González Crespo é uma das autoras desta obra feita por especia­listas, mas escrita a pensar nas pes­soas comuns. No seu trabalho, intitula­do: "O pontificado. Da reforma à plenitudo potestatis" [= plenitude do poder] somos levados a mergulhar em algumas das muitas peripécias históri­cas em torno do papado de Roma.

Ficamos a saber, por exemplo, que foi em 1059 que "se instituiu a eleição do pontífice apenas pelos cardeais". E foi também nesta altura - o papa era Nicolau II - que o pontificado "começou a defender a preeminência do poder espiritual sobre o temporal", que, de resto, "já estava plenamente configura­da com Gregório VII. Este papa defen­deu-a com um vigor extraordinário, che­gando a manter duros enfrenta­men­tos políticos e religiosos que emocionaram toda a Europa ocidental".

A autora sublinha que "Nicolau II teve um curto mandato", mas "com gran­de habilidade política soube atrair os principados nor­mandos do sul de Itália e assinar com eles uma série de pactos. Desde en­tão, eles converte­ram-se em aliados e em firmes defen­so­res da Santa Sé e garantes da livre eleição dos pontífi­ces frente ao Im­pé­rio."

Os famosos Di­ctatus Papae, de Gregório VII, publi­ca­dos em 1075 voltam a afirmar e a confirmar "a supremacia do poder es­piritual sobre o temporal" [Que longe se estava de Jesus e do seu Evange­lho!].

Vale a pena mergulhar nas pági­nas deste segundo volume da História do Cristianismo, enquanto se aguar­dam com justificada expectativa os restantes volumes já anunciados pela Editorial Trotta de Madrid. Ao fazê-lo, ficamos a conhecer com mais porme­nor o que foram estes séculos que nos precederam e que nos trouxeram até ao ponto em que hoje nos encontra­mos.

Felizmente, o século XXI e o ter­ceiro milénio poderão vir a representar uma ruptura com todo este passado ecle­siástico. Foram séculos de total do­mínio dos clérigos e do sistema ecle­si­ástico. Nem tudo foi negativo, eviden­temente, mas a Ordem eclesiástica e clerical em que as populações estavam forçosamente enquadradas era intrin­se­ca­mente moralista, por isso, perver­sa. Até o bem que pode ter proporcio­nado saía inquinado.

Ainda hoje, o Estado do Vaticano, geo­graficamente diminuto, nos recor­dam estes séculos para trás, as lutas dos papas pelo poder. Depois que o Im­pério de Roma caiu, o papado afir­mou-se progressivamente em seu lu­gar. Felizmente, não será mais assim. E, com o tempo, passará à história!

Sal Terrae / W. Müller

BEIJAR É ORAR

A SEXUALIDADE COMO

FONTE DE ESPIRITUALIDADE

O autor deste livrinho é licenciado em psicologia e doutor em teologia. Presentemente, dirige a Casa de Retiros da Abadia de Münsterschwarzach. Por isso, em vez de se chocarem com o título, corram pelo livro e mergulhem com entusiasmo nas suas 110 páginas.

"Deixar mais espaço e mais terre­no de experiência ao eros e à sexuali­dade", é o que pretende o autor com este seu livrinho, no mínimo, estranho aos olhos pios.

Andou a Igreja, nestes séculos para trás, a reprimir a sexualidade em nome da espiritualidade. E eis que vem agora este director duma casa de re­tiros dizer, logo em título do seu livro que "beijar é orar". Até que enfim! Mas então a Igreja ignora que o mais be­lo livro de espiritualidade da Bíblia é o erótico Cân­tico dos Cânticos, que abre com estas palavras arrebatadas: "Beija-me com os beijos da tua boca!"?

Séculos e séculos de repressão sexual e erótica. O prazer sexual como coisa feia. Demoníaca, quando, afinal, é por aí que passa o Espírito de Deus!...

Campo das Letras / César Príncipe

EMENTAS DO PARAÍSO

Para alguns será o livro mais blasfemo editado em Portugal. Mas não é. É um livro que fez bem à saúde e à vida em geral, portanto, só pode ser um livro abençoado. O seu autor é bem conhecido dos leitores do JN, em cujas páginas assinou, durante anos e anos, crónicas de mal/bem-dizer, sarcásticas q.b. que nunca mais se esquecem. São 470 páginas, num tipo de letra miudinho. Imperdível!

"Como redimir a Humanidade pelo bem-comer & pelo bem-beber & demais tentações do horto". É com este título que abre a apresentação da obra.

"Neste planeta, assoberbado pelo Pensamento Único & pela bestializa­ção de prioridades & preferências, pela célere desidentificação & desertificação de povos & lugares, ocorreu ao autor con­tribuir para a redenção alimentar, para a reconversão dos prazeres da co­mida & da bebida, no quadro de um Portugal católico, apostólico & romano & de um Mundo Melhor. Se supõe, assim, com a apresentação de um ro­teiro, de um cardápio & de um organi­grama de Serviços à comunidade, agu­çar a apetência pela cozinha Espiritual & Nacional, por oposição ou em alter­nância ao fast-food & à macdonaldi­zação, reconsagrando pratos de elei­ção & copos de saudação".

Como facilmente se percebe, o autor deve ter pas­sado o tempo a rir, enquanto se ocu­pou da confecção deste livro. Tudo nele é satírico. As inúmeras emen­tas aqui apresen­tadas não são tanto para cozinhar no lume, mas sobretudo para cozinhar na consci­ência de cada pes­soa que se divertir com a sua leitura.

Ficará alguma coisa de pé do Catolicismo romano, depois destas Ementas do Paraíso? Se calhar não. Mas tanto melhor. Afinal, o que é que o Catolicismo romano tem em comum com o Evangelho e o Movimento inspi­rado por Jesus, o de Nazaré?

"A Igreja - escreve o autor, ainda na apresentação - sempre foi exímia em proibir o que pratica. Esta duplici­da­de, se a desautorizou aos olhos dos lúcidos, conferiu-lhe uma fle­xibilidade que explica a sua sobrevi­vência. A Igre­ja não resistiu dois mil anos pelo con­sis­tente exemplo, mas por haver articu­lado uma rede mundial de poder, cele­brando pactos com Deus & o Diabo."

O autor refere depois  comporta­mentos de certos papas, no tocante a Ementas do paraíso: "Outro dos digna­tários de bento ventre (alto & baixo) foi Alexandre VI (Sumo Pontífice entre 1492-1503, que contou com chusmas de amantes & cujo pontificado foi sin­gu­laríssimo em toda a trama, tendo o en­venenamento alcançado o esplendor. Todavia, as honras maiores, em matéria de palato, cabem a Leão X (Sumo Pontí­fice entre 1513-1521), cujo apetite & de seus cortesãos não prescindia de 65 pratos por refeição, cada um florea­do de três variedades."

Sal Terrae / Christian Duquoc

O ÚNICO CRISTO

O autor é um dominicano bem conhecido nos meios teológicos da Europa pelos seus profundos estudos de Cristologia. Este seu último livro dele é de certo modo o apogeu do seu pensamento. Por isso é obrigatório ler-estudar.

"Um conjunto de factores - escreve o autor na Introdução - contribuem na actualidade a relativizar a antiga e ve­ro­símil crença neotestamentária na úni­ca mediação reveladora e salvadora de Cristo na dinâmica da humanidade para Deus. Esta relativização afecta em pri­meiro lugar o conhecimento de Deus: não é tanto a existência do divino que se suspeita que seja uma fábula, quan­to a credibilidade da sua acção circuns­crita ao seu Enviado, Jesus. A dúvida so­bre o sentido da actividade divina concorda com a percepção da dupla fra­ctura que marca a tensão para o Absoluto: a primeira, gerada no próprio coração da Aliança entre Israel e a Igreja; a segunda, imemorial e relativa à experiência do divino, da qual é prova a pluralida­de de religiões sem perspectiva de unificação a partir de um hori­zonte comum. A­lém disso, o aban­dono do sentido global do movi­men­to histórico em favor de um senti­mento de imersão no devir indefinido e, sem dúvida, se­reno da dinâmi­ca cósmica, acentua as tensões religiosas devidas a divi­sões aparentemente insuperáveis."

É a partir daqui que arranca o autor nesta sua obra de 253 páginas. A nortear as suas reflexões cristológicas, está esta pertinente pergunta: "Que lugar assinalar honestamente à unidade da mediação de Cristo que, por hipótese, leva toda a humanidade a um único Reino de Deus?"

O autor está consciente do problema que levanta, mas não o escamoteia. E por isso logo adianta: "A resposta a esta pergunta está longe de ser eviddente. Não pode de modo algum ser evitada na elaboração duma cristologia que pretende assumir a actual dispersão do sentido e da extrema variedade de buscas do Absoluto".

Para ajudar nesta busca, escreveu Duquoc este livro. Corram por ele!


ÚLTIMA PÁGINA

Novo livro do Pe. Mário

O OUTRO EVANGELHO

SEGUNDO JESUS CRISTO

É, porventura, o livro mais polémico de todos os livros que o Pe. Mário escreveu e publicou até hoje. Este livro mexe com o que há de mais essencial do Cristianismo, Jesus, o de Nazaré. Nunca a Igreja nos deu a conhecer Jesus assim. Nunca o percurso histórico dela poderia ter sido como foi.

No Prólogo, o autor explica-se e confessa-se. A explicação: "O meu trabalho consiste, basicamente, em apresentar uma tradução actualizada e anotada do mais antigo dos quatro Evangelhos canónicos, o Evangelho de Jesus segundo São Marcos. Já não seria pouco atrevimento, se me ficasse por aí. Mas levo mais longe o meu atrevimento (se calhar, haverá quem não me perdoe, inclusive, na Cúria Romana!) e apresento essa tradução actualizada e anotada sem escamotear nenhum dos contornos subversivos e revolucionários com que se teceu a prática política radicalmente libertadora de Jesus, no pequeno país que lhe serviu de berço, a Palestina do século I, então colónia do Império romano militarmente ocupada, onde, por isso, qualquer tentativa de insurreição armada ou de levantamento popular seria de imediato reprimida com exemplar crueldade. Como terão oportunidade de constatar, se lerem este livro, o resultado final é um saudavelmente polémico Evangelho de Jesus para o século XXI e para o terceiro milénio, ambos ainda no começo."

A confissão:

Gostava que este livro fosse visto como o livro da minha vida. E que fosse acolhido por todas as mulheres, por todos os homens, independentemente, da sua condição de pessoas crentes ou agnósticas. Sempre sonhei escrever um livro sobre Jesus. Só agora concretizo o meu sonho. Valeu a pena ter nascido e vivido todos estes anos só para agora poder dar à Humanidade este meu testemunho vivo sobre Jesus."

A capa do livro vem enriquecida com um "Jesus", saído do pincel do Mestre José Rodrigues. A edição é da Campo das Letras (Porto), a mesma que editou Fátima nunca mais, até hoje o livro mais polémico do Pe. Mário e também o maiis vendido (prepara-se para breve a 12.ª edição).

Esteja atento ao seu aparecimento, por todo este mês de Abril.


Vamos ao teatro e ao concerto?

SEIVA TRUPE EM LOUSADA

JOSÉ Mário BRANCO, FANHAIS E TINO FLORES EM PENAFIEL

A Companhia de Teatro SEIVA TRUPE, do Porto, decidiu oferecer, como ajuda à construção do BARRACÃO DE CULTURA, de Macieira da Lixa,uma representação da sua célebre peça VARIAÇÕES ENIGMÁTICAS. A sessão está marcada para as 21,30h do dia 9 deste mês de Abril, no Auditório Municipal de LOUSADA.

A Associação Cultural AS FORMIGAS DE MACIEIRA, ficou sensibilizadíssima e está a fazer tudo por tudo para ver se consegue passar a totalidade das 300 entradas para o espectáculo. Como se trata de uma sessão de solidariedade, cada entrada fica por 15 cravos vermelhos. Podem ser adquiridas nestes locais: Quiosque Céu Azul (Penafiel); Café Imperial (Paredes); Foto "O Maior" (Lixa); Papelaria Melo (Felgueiras); e Auditório Municipal de Lousada.

Ou, directamente, na Associação, em Macieira da Lixa.

Por sua vez, os conhecidos cantores de intervenção, José Mário Branco, Francisco Fanhais e Tino Flores estarão ao vivo num Concerto para o mesmo fim, na noite de 4 de Junho, no recinto da PROFIDELIS, em Penafiel. Pormenores a divulgar.


3.º Encontro de Espiritualidade

DIA 26 DE JUNHO

EM S. PEDRO DA COVA

O 3.º Encontro de espiritualidade com o ateísmo em fundo - conforme o acordado, é um por trimestre - está marcado para o último domingo de Junho 2005, dia 26, a partir das 10h, na sede da Associação Padre Maximino e do Jornal Fraternizar.

Desta vez, o tema em debate - Jesus para o Terceiro Milénio - será apresentado pela M.ª Celeste (Lete) e pelo Valter, a partir do livro A verdadeira história de Jesus, de E. P. Sanders (Editorial Notícias).

O Encontro tem início às 10h e termina pelas 17h. A meio, há almoço partilhado com o que cada uma, cada um levar para a mesa comum. A manhã é de reflexão teológica em diálogo. A tarde é de convívio e partilha de boas notícias. Apareça!



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