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Da Prelazia de São Félix do Araguaia
Circular fraterna 2005 do Bispo Pedro
Lucidez, é o que não falta ao Bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia, no Brasil. A sua última Circular Fraterna de 2005 é espantosa prova disso. Ninguém deixe de a ler e meditar. Reparem no que diz o Bispo sobre o papado e a Cúria Romana. Fossem todos os bispos assim. Tão lúcidos. E tão corajosos.
Tem sido uma autêntica avalanche de mensagens de solidariedade, preocupadas e até indignadas algumas, e já, finalmente, muitas exultantes. Hoje, como nunca, deveria eu responder pessoalmente, mensagem por mensagem, coração a coração.
Chegaram também, neste tempo de vigília expectante, muitas perguntas, muitos desabafos; sobre este nosso Mundo neoliberal, sobre a nossa santa e problemática Igreja.
Envio as perguntas e as ansiedades ao Espírito d’Aquele que é “nossa Paz”. E crentes e agnósticos, serenos e rebeldes, elas e eles, dêem-se todos por respondidos com um carinho imenso. Assim, tão facilmente, os bispos aposentados despachamos as cargas...!
Temos recebido muita solidariedade com respeito à reivindicação do povo Xavante, que continua estancada em mãos de uma justiça lentíssima.
O outro motivo de solidariedade para com a nossa pequena Igreja de São Félix do Araguaia tem sido, logicamente, a sucessão episcopal.
Não vou entrar em detalhes porque já se tem escrito bastante sobre esse incidente eclesial. Nós queremos insistir em que o problema não era apenas um bispo, uma Igreja. O problema é de toda a Igreja e para a nomeação de todos os bispos e é uma reivindicação maior de co-responsabilidade e de colegialidade. Para sermos fiéis ao Evangelho e para darmos testemunho ao Mundo.
Felizmente o novo bispo de São Félix do Araguaia, frei Leonardo Ulrich Steiner, é um franciscano verdadeiro, fraterno, dialogante, popular. E a caminhada continua. E eu continuarei também aqui, à beira do Araguaia, acompanhando à distância as lutas dos nossos povos e curtindo, em esperança pascal, a tarde da vida.
O império quer “um mundo sem tirania”. Nós também; sobre tudo sem a tirania do império. E quer o império “a propagação da liberdade”. Nós contestamos indignados que essa liberdade seja somente para o mercado e para alguns senhores países.
Tiranias há, demais, em todos os níveis da vida social, econômica, política, cultural.
Segundo o informe anual da ONU, ainda há 1,1 bilião de pessoas que sobrevivem com menos de 1 dólar por dia. Continuam morrendo diariamente, de fome, 30.000 crianças pobres. Nos últimos 40 anos o PIB mundial duplicou-se, enquanto se triplicava a desigualdade económica. 900 milhões de pessoas a sétima parte da população mundial - sofrem discriminação étnica, social ou religiosa. 170 milhões de pessoas vivem flutuando na migração. 44% da população latino-americana mora em bairros miseráveis. África continua sangrando, entre ignorada e espoliada. E há países em nosso mundo como “marcados para morrer”, talvez por uma possível guerra preventiva...
Há, porém, “muito bem vencendo o mal”, em nosso Mundo ferido. Realizámos novamente o Fórum Social Mundial; Via Campesina cresce e actua; desmascaramos, e em parte freamos, a ALCA; Israel e o Povo Palestino dialogam sobre passos concretos; a esquerda levanta cabeça em vários países da Nossa América e da Europa e cresce “o mal-estar (e o protesto) face à democracia neoliberal”. Se os partidos e os sindicatos vêm sendo desmoralizados, cresce entretanto o movimento popular com suas manifestações em escala nacional, continental e mundial. Começou a andar o Protocolo de Kyoto. E somos cada vez mais os que gritamos, com Inácio Ramonet, “sim à solidariedade entre os 6 mil milhões de habitantes de nosso planeta; não ao G-8 e ao Consenso de Washington; não ao domínio do “póquer do mal” (BM, FMI, OCDE, OMC); não à hegemonia militar de uma única superpotência; não às guerras de invasão e não ao terrorismo...” E resume Ramonet, e nós com ele, que “resistir é dizer que não e é também dizer que sim e sonhar que outro mundo é possível, e contribuir para construí-lo”.
Outra Igreja é possível também e de todas partes e de muitos modos a estamos construindo. Sendo comunidade de oração, de fraternidade, de compromisso.
Brasil realizando o XI Encontro Intereclesial das CEBs e reanimando-se as CEBs do Brasil, do Continente, do Mundo. Celebrando, juntamente com o Fórum Social Mundial, o Fórum Mundial de Teologia e Libertação. Celebrando o jubileu martirial do nosso São Romero e a memória comprometedora de todos os nossos mártires. Retomando a opção pelos pobres e pelas suas causas. Denunciando profeticamente os “genocídios sociais” e a iniquidade do império e de suas oligarquias. Sendo ecumenismo real e diário. Sendo diálogo inter-religioso. Alentando o processo conciliar, como uma reivindicação evangélica crescente e como a melhor comemoração dos 40 anos do Vaticano II. Vivendo, enfim, nossa fé de um modo adulto e co-responsável, “para a vida do Mundo”.
E vá lá agora uma confidência eclesial, de bispo velho que continua sonhando. Outra vez, por ocasião de mais um problema de saúde de João Paulo II, tem-se falado e escrito muito sobre o perfil do próximo papa.
Eu penso que se deveria falar muito mais - falar e fazer - do perfil do novo papado, de uma re-estruturação radical disso que chamamos a Sé Apostólica, de um novo modo do ministério de Pedro: sensível, como o coração de Jesus, ao clamor da pobreza, do sofrimento e da deriva; sem estado pontifício e com uma cúria leve e serviçal; profeticamente despojado de poder e de fausto; apaixonado pelo ecumenismo e pelo diálogo inter-religioso; desabsolutizado e colegial; descentralizador e verdadeiramente “católico” no pluralismo cultural e ministerial; como uma mediação religiosa em colaboração com outras mediações, religiosas ou não - ao serviço da paz, da justiça, da vida.
Van Gogh, apesar de ter visto cair em sua vida tantos moinhos, reais ou simbólicos, escrevia a seu irmão Theo: “Mas o vento continua”. Depois de vermos, também nós, como vão caindo tantos moinhos, na Sociedade e na Igreja, seguimos proclamando na Esperança e no Compromisso - que “o Vento continua”...
São Félix do Araguaia, MT, Brasil
pedro.casaldaliga@uol.com.br
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P. Mário COMENTOU E O BISPO RESPONDEU
Caríssimo Bispo Pedro
Chegou a sua Circular Fraterna 2005. O seu conteúdo alimenta e estimula a nossa comunhão eclesial. Sabemos que importante é o Reino. Também a Igreja, mas enquanto testemunha e parteira do Reino. Enquanto multinacional da Religião católica, só estorva.
É com o Reino que temos que sintonizar e cooperar, para podermos ser Igreja de Jesus. A Católica. De contrário, não passamos duma seita religiosa mais.
Também eu acho que não devemos andar preocupados com o perfil do novo papa. O Serviço de Pedro é outra coisa. Incompatível com a Cúria romana.
Já é tempo de o Serviço de Pedro ser mais do que isso. Tem que ser, pelo menos, Serviço de Maria Madalena e de Pedro. Ela, ainda antes dele. Não foi ela quem evangelizou Pedro e os outros dez?
Sem a presença do Feminino, no coração da coordenação da Igreja, quem pode dizer que o Serviço de Pedro tem as marcas do Espírito Santo?
Estou muito feliz por saber que, finalmente, a Prelazia pode contar com um novo Bispo na sua linha libertadora e sororal/fraterna, aberta ao mundo, macroecuménica. E também com a presença sempre querida e afectuosa do Bispo Pedro, grande irmão universal, agora na sua condição de Bispo emérito.
Fico no abraço, desde o Jornal Fraternizar, desde Portugal.
Mário, presbítero da Igreja do Porto
Querido Mário,
Obrigado por sua solidariedade, impetuosa como tudo o que é seu...
Efectivamente, a novela da minha sucessão teve um “final feliz” - não de Hollywood, no dizer de Jon Sobrino, mas da Galiléia -. Um bom franciscano será o novo pastor de São Félix do Araguaia.
Seguiremos unidos na oração do Reino, nas lutas do Reino, na esperança do Reino.
Um forte abraço e já e sempre a Paz da Páscoa
Pedro Casaldáliga
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Frei Betto (Brasil)
HARRY POTTER PARA ADULTOS
No tempo em que o marxismo andava em moda, quando a miséria incomodava e o socialismo apontava uma saída para uma vida melhor, dizia-se que o mercado controlava “as relações de produção”, consideradas “o motor da história”.
Bem, o socialismo evaporou-se, o marxismo saiu de moda e a miséria aumentou assustadoramente. Então o que aconteceu? Já não queremos uma vida melhor para todos? Devagar com o andor. O mercado aprimorou-se, reduziu a distância entre a coisa física e a semântica, e agora procura convencer-nos de que a saída para uma vida melhor... é uma questão individual (qualidade de vida) e avisa que acabou o combustível que abastecia o motor da história. Assim, o mercado já não influi apenas nas relações de produção. Influi em todas as relações: familiares, afectivas, sexuais, políticas, religiosas... (Em tempo: que Deus e o Estado se preocupem com os miseráveis...).
O que há de novo é que agora o mercado não lhe vende um carro, uma roupa ou um sorvete. Vende você. Isso mesmo. Todo produto reflecte a nossa alma e o nosso espírito. E antes de nos dar conta de que temos consciência e subjetividade, redutos do Mistério, o mercado trata de personalizar de tal modo os produtos, a ponto de o consumidor só se sentir completo quando deles se apossa. Ou será que você não se sente um pouco triste, quando fica privado uma semana do seu carro ou não encontra seu champô preferido?
No prefácio à segunda edição de Gaia, Nietzsche lamenta a progressiva perda do “pudor com o qual a Natureza se escondia atrás de véus e enigmas”. O Mistério é uma experiência em extinção. Agora queremos desvendar todas as verdades, ver tudo, saber de tudo. Antes que façamos a pergunta, o mercado já apresenta a resposta. Todas, do tratamento de rápido emagrecimento (fica decretado que gordura é falta de educação) ao esoterismo que aplica a Leonardo Da Vinci a fórmula de produzir Harry Potter para adultos.
Não há nenhum reduto da experiência humana que escape ao mercado. Em seu poder semântico, ele se antecipa aos nossos desejos: não oferece um carro, mas requinte; não o refrigerante, mas o sabor refrescante; não o desodorisante, mas um toque de classe. Assim vamo-nos revestindo de produtos fetichistas que nos imprimem valor, status, identidade.
Como disse Montaigne, ninguém compra um cavalo por causa da beleza do arreio, mas em se tratando de seres humanos não valemos pelo que somos, e sim pelo que demonstramos possuir.
O mercado apela à nossa libido e à nossa tendência à violência. Não quer apenas que possuamos os objectos, induz-nos a destruí-los. Já não haverá museus para os objectos da pós-modernidade. Todos são destrutíveis ou, para usar o jargão da moda, descartáveis. São feitos para serem subjugados, devorados, agredidos. Feitos para exaltar a nossa suposta omnipotência, de quem não deixa pedra sobre pedra, descarta tudo, família, amigos, colegas de trabalho, parceiros sexuais...
O mercado teme que decidamos virar-lhe as costas e caminhar para aquele lugar em que ele não pode jamais chegar, e ainda que chegasse nada teria a dizer: a contemplação do Mistério.
Na falta do Mistério, só nos resta essa incessante objectivação na qual antecipamos, ao dar vazão aos nossos instintos assassinos, a nossa própria morte. Como numa corrida de Fórmula 1, vencer não é importante, o que interessa é imprimir mais e mais velocidade à existência.
Conta a fábula que Afrodite afastou seu filho Eros da amada Psique. Apaixonada, esta aceitou submeter-se às mais duras provas para demonstrar que era digna daquele homem. Seleccionou as sementes que enchiam o depósito da casa de Afrodite; cortou a lã das ovelhas que pastavam num vale distante; buscou água do mais inacessível manancial da montanha.
Afrodite impôs-lhe mais uma prova: ir até o inferno e dizer a Proserpina que Afrodite ansiava por um pouco de sua irresistível formosura e, portanto, pedia que lhe enviasse seu unguento mágico. Psique recebeu ordem de não abrir o pote no qual levaria a poção da beleza. Superando mil perigos, e com a ajuda de Caronte, Psique atravessou o rio dos mortos e chegou à terra de Tártaro. Obteve o unguento mas, na volta, não resistiu à tentação, abriu o pote e experimentou uma pitada daquela maravilha que a tornaria irresistível para Eros.
A beleza excessiva foi a causa de suas desgraças. Não queria ser bela em si mesma, mas só aos olhos do amado. “Minhas aventuras o comoverão dizia ela -, meus actos o farão admirar-me, mas só a beleza me fará irresistível para ele”. Após abrir o pote e untar o rosto, Psique caiu num sono profundo como a morte.
A publicidade oferece-nos todos os unguentos e nos promete toda a beleza. Aos olhos alheios. Mas o que ou quem preencherá o vazio do coração?
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Pablo Richard, chileno. Teólogo da Libertação
OUTRO MUNDO É POSSÍVEL
A Esperança de que outro mundo é possível, só por si, é já uma derrota do actual Sistema. Para que esta Esperança seja real, falta apenas encontrar o sujeito capaz de tornar possível esse mundo possível, e delinear um projecto que torne efectivo esse outro mundo. Devemos responder às perguntas: como é esse mundo, como funciona, quem o governa, etc.
A Esperança de outro mundo possível exige a construção deste sujeito e deste projecto de sociedade. Se não há Esperança de que outro mundo é possível nunca nos proporemos construir nem esse sujeito nem esse projecto alternativo.
O sujeito não é o sujeito-indivíduo da revolução moderna, mas o sujeito-comunidade. O sujeito-indivíduo vê sempre no outro um inimigo, o que compete no mercado, onde a destruição do outro é a condição do meu êxito pessoal. O outro só é reconhecido enquanto me é útil.
O sujeito-comunidade, pelo contrário, afirma no outro, na comunidade, a possibilidade de ser sujeito: Eu sou, se tu também fores. Ou, como diz o Evangelho: Ama o teu próximo, porque ele és tu próprio.
O sujeito-comunidade entende que todo o homicídio é suicídio, uma vez que a morte do outro implica a minha própria morte.
A um nível social, o sujeito-indivíduo diz: “Se não há para todos, que pelo menos haja para mim”. O sujeito-comunidade, pelo contrário, diz: “Se há para todos então também haverá para mim”.
A outra condição da Esperança é delinear um projecto que torne possível esse outro mundo. Este projecto formulamo-lo na generalidade assim: Uma sociedade onde todas, todos tenham lugar, em harmonia com a natureza, isto é, esse outro mundo só é alternativo ao capitalismo, se garantir a vida de todas, todos e a vida do cosmos. Temos aqui uma racionalidade totalmente diferente da racionalidade da economia de mercado.
A economia de mercado tem dois defeitos fundamentais: a exclusão e a destruição da natureza; por isso, o mundo alternativo deve ser para todos e em harmonia com a natureza.
O ponto de partida para construir esse outro mundo é fundamentalmente ético. No sistema actual, o valor absoluto é a eficácia e o lucro. Um avanço tecnológico ou científico é valorizado unicamente pela sua capacidade de produzir lucro no mercado. No mundo alternativo que desejamos construir, o valor absoluto é a vida humana. A economia, a tecnologia, a ciência são boas e justas se estiverem ao serviço da vida humana.
Como podemos construir esse mundo alternativo? Não sabemos, mas uma coisa já sabemos: é que ele nascerá a partir de baixo, a partir dos pobres, dos excluídos, a partir do Terceiro Mundo. Sabemos também que já podemos começar a construir esse outro mundo alternativo em pequenas experiências no âmbito da economia e da política. O motor que nos empurra nesta procura é a Esperança de que outro mundo é efectivamente possível. Se não tivermos Esperança, limitamo-nos a procurar acomodar-nos dentro do actual sistema.
Nesta procura, devemos resgatar toda a força da utopia que é a plenitude histórica da Esperança. A utopia, como o seu nome indica, não tem lugar na história actual, porém não está noutro mundo, mas no nosso mundo, depois de vencida a exclusão e a destruição da natureza.
A utopia não tem lugar, mas tem dois efeitos muito importantes. 1, dá-nos o sentido e a orientação para onde vamos na construção do mundo alternativo. A utopia orienta-nos num determinado sentido, embora não saibamos quando chegaremos à plenitude. A utopia diz-nos igualmente em que direcção não podemos ir. 2, a utopia dá sentido a todas as nossas pequenas construções, aos nossos pequenos êxitos e experiências micro-económicas. Por outras palavras, a Esperança, e sua plenitude, a utopia, dão orientação ao nosso caminhar e sentido a tudo o que vamos construindo.
Por que é possível outro mundo? Porque este mundo já se tornou impossível. Este sistema já acumula morte e destruição numa proporção tal, que a vida da humanidade e do cosmos está em sério e iminente perigo. Já temos 60% da humanidade a viver na exclusão. As desigualdades entre ricos e pobres tornaram-se intoleráveis. Além disso, a “vitória” do capitalismo sobre o socialismo foi uma vitória pírrica.
Quando o general grego Pirro obteve uma vitória sobre os seus inimigos, foram tantos os mortos de um lado e do outro, que ele confessou: “com outra vitória como esta estou perdido”. A vitória da economia de mercado é o começo da sua derrota.
Já caiu a ideia de que o sistema actual é o único sistema possível. Aos que se opõem ao sistema actual, o sistema considera-os muito perigosos, porque eles simplesmente têm razão e sabem que têm razão.
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Eclesalia e Evaristo Vilar para Jornal Fraternizar
Fórum Mundial de Teologia da Libertação
PARA OUTRO MUNDO POSSÍVEL
Durante os dias 21 a 25 de Janeiro de 2005, realizou-se em Porto Alegre, Brasil, o I Forum Mundial de Teologia da Libertação (FMTL). 175 especialistas e observadores convidados dos cinco continentes, trocaram durante cinco dias análises e experiências, confrontaram orientações teológicas e afirmaram o seu compromisso de continuarem a fundamentar teologicamente a esperança na possibilidade de um mundo outro.
A Pontifícia Universidade Católica de Rio Grande do Sul, fazendo juz à sua própria identidade de instituição aberta aos novos desafios da razão e da fé, pôs à disposição deste encontro as suas magníficas instalações. É muito gratificante encontrar, nos tempos que correm, este ar de liberdade numa instituição como esta.
1. Inspiração inicial:
A inspiração inicial deste evento surgiu durante a terceira sessão do Forum Social Mundial (FSM), também realizado em Porto Alegre. Muitos dos teólogos e teólogas assistentes, entre os quais se encontravam as emblemáticas figuras de Sérgio Torres e Leonardo Boff, sentiram necessidade de aproximar a reflexão teológica ao novo espírito que está emergir nos foruns sociais. Um espírito no qual se verificam três tendências dominantes:
a) uma maior "sensibilidade pela ecologia", b) um reconhecimento explícito do "pluralismo religioso" e c) a presença duma "rica floração de movimentos sociais alternativos".
Esta inspiração foi acolhida com entusiasmo por instituições de reconhecida importância no Brasil, que se constituiram em gestoras de um projecto de âmbito mundial. Projecto este que, por sua vez, foi economicamente apoiado por algumas agências de inspiração inter-religiosa.
Devido à sua importância, cabe aqui assinalar as seguintes instituições: a Associação de Teólogos e Teólogas do Terceiro Mundo, a Rede Latino-americana de Pastoral ou Ameríndia, a Associação de Teologia e Ciências da Religião, o Centro Ecuménico de Serviço à Evangelização e Educação, o Centro de Pastoral da Pontifícia Universidade Católica de Rio Grande do Sul, o Centro Ecuménico de Evangelização, Capacitação e Assessoramento, a Escola Superior de Teologia de São Leopoldo e o Instituto Humanitas da Universidade do Vale dos Sinos. Deste modo, o sonho converteu-se em projecto e o projecto em realidade.
É de agradecer que, desde os seus primeiros passos, este forum de teologia da libertação se tenha vinculado ao FSM. Ambos poderão sair altamente beneficiados. Por um lado, a reflexão teológica, porque poderá enriquecer o seu discurso mais directamente intraeclesial e até inter-religioso, penetrando noutros cenários que estão a ser actualmente reivindicados por amplos sectores da sociedade civil (as questões de género, as etnias, o indigenismo, os diferentes e os excluídos, etc). Por outro lado, o FSM (mais de 60% dos seus participantes são crentes, segundo dados oficiais), com um discurso teológico libertador ver-se-á mais fortemente reforçado na sua procura de alternativas à crise causada pela queda dos socialismos e pelo domínio do capitalismo neo-liberal.
Tão pouco se pode desprezar a contribuição específica da teologia e a sua aposta pela liberdade e a transcendência diante do determinismo da História. Ignorar esta contribuição não só suporia um empobrecimento antropológico, mas também um enfraquecimento do horizonte da esperança criativa.
Na cumplicidade e complementaridade de ambos os foruns, resulta mais evidente que nem chegamos "ao fim da História", nem os pobres estão de modo algum derrotados. Outro mundo alternativo não só é possível, mas também, como lucidamente afirmará a teologia, está já a ser realidade em semente.
2. O encontro em si.
O FMTL teve dois momentos complementares: um, centrado no diagnóstico das teologias da libertação actuais; e outro, mais estreitamente vinculado ao FSM.
2. 1. O primeiro momento, ao qual se dedicou todo o dia 21, ofereceu um rico balanço do estado actual da Teologia da Libertação (TL) e dos desafios aos quais ela está a dar a cara em cada continente e região.
Como denominador comum, foram emergindo alguns indicadores, mais acentuados numas regiões que noutras, porém, presentes de alguma maneira em quase todos os estudos. Assinalo aqui os três mais determinantes: primeiro, "os novos lugares teológicos", a partir dos quais nasce a teologia de hoje e que se descobrem nos muitos pobres (de género, etnia, os diferentes), na preocupação pelo meio ambiente, na dimensão ecuménica e macro-ecuménica do diálogo inter-religioso, no pluralismo cultural, nas economias e nas políticas, etc; depois, "os novos sujeitos emergentes" da prática teológica que tendem a ir mais além que as instituições académico-tradicionais enquanto tais, para aparecerem em âmbitos eclesiais mais livres e criativos (comunidades e grupos de fronteira); e, finalmente, "a metedologia da libertação" que, num primeiro momento, regionaliza as mediações sócio-analíticas, hermenêuticas e pastorais para se abrir logo a seguir a um horizonte mais global e universal.
Neste contexto compartilhado, cada continente reflecte depois a sua específica novidade: em África, os conflitos raciais e a descolonização; na Europa, as migrações e o diálogo inter-religioso; na América do Norte, o neo-conservadorismo e a teologia liberal; na América do Sul e Caribe, a passagem das grandes teorias da dependência à libertação das escravidões quotidianas que empobrecem a vida das pessoas e dos povos.
A conclusão deste primeiro dia foi esperançadora: a TL continua viva, regionalizou-se e universalizou-se; apresenta diferentes cores segundo os diversos lugares e é já uma componente essencial na espiritualidade de muitos crentes; dispõe de elementos suficientes para abordar os novos desafios do mundo actual.
2.2. O segundo momento, mais directamente vinculado ao FSM, desenvolveu-se durante os dias 22, 23, 24 e 25. Dedicando cada dia a um tema específico e seguindo uma metodologia muito mais académica (conferência magistral, painel de especialistas e trabalho em equipas). Destaco aqui apenas o enunciado dos temas e respectivos conferencistas.
No dia 22 e a partir da aposta por Outro mundo é possível, abriu-se com uma excelente "análise da conjuntura global", feita pelo sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, e completou-se com dois muito interessantes painéis: "dificuldades e possibilidades do mundo de hoje para a teologia" (U. Duchrow e D. Manchala) e "Lugar e possibilidades da utopia hoje" (Ch. H. Kyung e L. Boff).
O dia 23, sob o tema geral: Um Deus para outro mundo possível, repartiu-se entre a conferência sobre "Linguagem e imagens de Deus", da teóloga luterana Wanda Deifelt, e os ricos e imaginativos paineis "Deus e género" (E. Támez e E. Anderson) e "Deus, tradições ético-culturais e globalização" (J. Massey e E, López).
À Religião para outro mundo possível dedicou-se o dia 24, com a conferência do teólogo francês Claude Geffrè sobre "A crise da religião, busca de sentido e fundamentalismo" e os mais interessantes paineis "Religião e mercado" (J. Mo Sung e R. Mahana) e "Religião e poder político" (S. Stlsett e K. C. Abrahan).
Finalmente, o dia 25, consagrado à Teologia para outro mundo possível, contou com a bem documentada conferência do teólogo índio Michael Amaladoss sobre "O Deus de todos os nomes e o diálogo inter-religioso" e os brilhantes paineis "Para uma ética mundial" (E. Dussel e L. Baroni) e "O lugar da teologia noutro mundo possível" (T. Okurre e JJ. Tamayo).
Todas as tardes e sobre os mesmos temas, houve uma conferência mais divulgativa e aberta a todo o público, a cargo de três teólogos bastante conhecidos, M. C. Julisaint, T. Balassuriya e O. Maduro.
3. Algumas críticas e uma deliberação:
Num ambiente quente e acolhedor, favorável ao encontro e ao diálogo interpessoal, respirava-se um misto de satisfação pelo encontro em si e pela sua boa organização, e de algumas críticas, feitas mais com preocupação construtiva e de olhos postos no futuro.
Algumas dessas críticas dizem directamente respeito ao cerne da própria iniciativa: o seu excessivo eurocentrismo e a justaposição das tendências teológicas sem inter-relação, inter-conexão ou integração entre elas. Outras críticas, a maioria, têm a ver com a forma ou protocolo de organização do forum: a falta de "participação grupal" descamba facilmente num personalismo que, nalguns casos, chega a fazer cedências a um discurso verticalista, dependente, de cima para baixo, contrário à dinâmica da TL.
Por outro lado, a débil presença da mulher na organização destes eventos, assim como a própria fragilidade da teologia de género vêm ao de cima nestas ocasiões. Também faltou espaço para expressar e compartilhar novas iniciativas, etc.
O forum fechou com a deliberação, maioritariamente compartilhada, de continuar no futuro, ligado ao FSM (em 2007, em África), e com a nomeação de um "comité internacional de gestão" (dois membros são espanhóis), com o propósito de entrar de imediato em contacto com as bases.
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Director do Jornal Fraternizar foi um dos jurados
TMI RECONHECE AO POVO IRAQUIANO O DIREITO À INSURREIÇÃO
A Audiência Portuguesa do Tribunal Mundial sobre o Iraque (TMI), reunida nos dias 18, 19 e 20 de Março 2005, no edifício da Torre do Tombo, em Lisboa, deliberou "condenar os governos dos EUA e da Grã Bretanha pela invasão e subsequente ocupação do Iraque contra as regras do direito internacional" e "reconhecer ao povo iraquiano o direito de resistir à ocupação pela força das armas, exercendo assim o direito à insurreição que o direito internacional e a Constituição Portuguesa consagram".
O Tribunal Condenou igualmente "o Governo português presidido por J. M. Durão Barroso pela colaboração na preparação da guerra, traduzida nos seguintes actos: a) apoio diplomático e político à política dos beligerantes; b) cedência da base das Lajes para realização da «cimeira da guerra»; c) participação nessa cimeira; d) cedência da base das Lajes para apoio ao trânsito de pessoal e equipamento militar para o teatro de guerra" e ainda "pela comparticipação na ocupação do Iraque, traduzida nos seguintes actos: a) nomeação de um representante do Governo português junto da «Autoridade»; b) envio de uma força da GNR para o Iraque, em missão de cooperação com as forças militares ocupantes".
A Audiência portuguesa do TMI condenou igualmente "o Governo português presidido por P. Santana Lopes pelo prolongamento da missão da GNR no Iraque". E não deixou de "censurar publicamente os jornalistas e comentaristas que tentaram a todo o custo justificar a invasão e a guerra; e que, perante a imensa tragédia humana que aquelas provocaram, se têm recusado a reconhecer os erros ou falsidades que então afincadamente propalaram."
Em relação ao actual Governo português, o TMI deliberou "apelar para que, correspondendo à vontade da maioria da população portuguesa, reveja por completo a política seguida até à data e designadamente: a) ponha termo à utilização da base das Lajes para fins de manutenção da ocupação do Iraque pelos EUA; b) desenvolva todos os esforços políticos e diplomáticos para a reposição da legalidade no Iraque, a começar pela retirada dos ocupantes."
A Audiência portuguesa do TMI contou com os depoimentos de conhecidos especialistas: José Manuel Pureza, professor de Direito Internacional; Jorge Figueiredo, economista, Violaine Sautter, geóloga (Paris); Cláudio Torres, arqueólogo; Mário Tomé, coronel; António Louçã, historiador; António Garcia Pereira, advogado; Francisco Martins Rodrigues, editor; José de Azeredo Lopes, professor de Direitro Internacional; Manuel Raposo, arquitecto; Joaquim Piló, presidente do Sindicato dos Pescadores; Fernando Nobre, médico e presidente da AMI; Romero Gândara, médico da Associação de Médicos Portugueses Contra a Guerra Nuclear e Todas as Guerras; Pedro Pezarat Correia, general; e Rui Pereira, jornalista.
Desta Audiência portuguesa fez também parte um corpo de 64 jurados, entre os quais se contou o director do Jornal Fraternizar,
Armando
Fernandes, director do Jornal "O ARRIFANA", de Penafiel, Frei Bento Domingues, o quase lendário Alípio de Freitas, jornalista, a escritora Eduarda Dionísio, Eugénio Alves, presidente do Sindicato de Jornalistas, Guilherme da Fonseca, ex-Juiz-conselheiro jubilado do Supremo Tribunal de Justiça, Isabel do Carmo, médica, João Gil, músico, José Barata Moura, Reitor da Universidade de Lisboa, José Manuel Mendes, Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, Manuel Graça, sindicalista da CGTP, Maria do Céu Guerra, actriz, Maria José Morgado, Procuradora-Geral Adjunta, Milice Ribeiro dos Santos, professora universitária, Nuno Teotónio Pereira, arquitecto, Tino Flores, cantor, Vasco Lourenço, general, Hélder Costa, encenador.
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LIVROS DO TRIMESTRE
Cristianisme i Justícia / J. I G. Faus e outros
IDOLATRIAS DE OCIDENTE
"A crítica das idolatrias do nosso Ocidente secularizado foi o trabalho do curso 2003-2004, que agora oferecemos neste livro". É o que nos diz, a abrir, o texto de apresentação. Ao todo, são 153 páginas que ninguém deve deixar de ler-meditar.
São 6 os temas abordados por outros tantos elementos do "voluntariado intelectual" do Centro de Estudos de Cristianisme i Justícia.
1. A constituição idolátrica do ser humano (José I. González Faus); 2. Deus e os ídolos na Bíblia (Xavier Alegre); 3. Escravos do consumo: o poder das marcas (Joan Carrera); 4. O ídolo da tecno-ciência ( Albert Florensa); 5. A idolatria da força (Alfons Banda-Jordi Armadans); 6. Identidades colectivas e idolatria: a absolutização dos que nos fazem ser (Dolors Oller).
A estes 6 temas, segue-se uma conclusão, um apêndice e um balanço. A conclusão: A violência dos ídolos versus a não-violência de Deus. O apêndice: A idolatria do Império: Carta de Jon Sobrino a Monsenhor Romero. O balanço: Não podeis servir a Deus e à riqueza.
Este livro deveria ser de mesinha de cabeceira e de bolso para todas, todos nós, crentes ou ateus, uma vez que a tentação da idolatria bate a todas as portas. O crente sempre deveria pensar qual é o Deus em que crê. E o ateu, em que Deus é que não crê. Fundamental, hoje, não é confessar que se crê ou não em Deus. É analisar se somos idólatras ou não.
Por isso, não nos arrependeremos, se decidirmos fazer deste livro uma espécie de Evangelho de bolso que nos acompanhe para todo o lado, para assim o podermos abrir-ler em qualquer momento.
"Essencial no cristianismo: que quando o ser humano orienta para Deus o seu eros religioso convertido, é como se Deus lhe dissesse: «dirige esse impulso para os teus irmãos». No difícil amor aos irmãos está Deus como na nuvem ou na noite. Enquanto que a religiosidade que esquece os irmãos permanece na idolatria da luminosa sarça ardente. Compreende-se também a esta luz a insistência do Novo Testamento, sobretudo, dos escritos joânicos, em que o que diz que ama a Deus e não ama o seu irmão é um mentiroso. Um idólatra, poderíamos dizer também."
Estas são algumas das profundas palavras, carregadas de sã teologia jesuânica, de G. Faus. Só pelo seu texto, já valia a pena adquirir o livro.
"Só o Deus verdadeiro nos faz irmãos; os falsos deuses fazem-nos competidores e «exigem» vítimas", diz, por sua vez, Dolors Oller i Sala. "Não devemos esquecer - diz mais adiante - que somos seguidores de um profeta desarmado. Ele ensinou-nos que não se pode servir a dois senhores - a Deus e ao Dinheiro - e também poderíamos acrescentar: a uma pátria, a uma nação, a uma cultura, se tudo isso se absolutiza e faz com que deixemos de colocar o ser humano no centro da nossa solicitude". É que também "o nosso corpo está chamado a ser fraternidade sem fronteiras, como o de Jesus."
Porfírio Borges
RETALHOS DE UMA VIDA
A vida, cujos retalhos aqui se divulgam, é a do Porfírio Borges, o companheiro de muitas jornadas de luta e de festa, durante os muitos anos que viveu entre nós e connosco. Agora que, pela sua ressurreição, se tornou presença ainda mais viva, mas invisível aos olhos, surge inesperadamente este seu livrinho. Para nos aquecer o coração que, como o dele, só pode ser um coração militante, de causas!
Corram por ele à Livraia Telos, no Porto. Ou peçam-no à Durvalina, sua companheira.
"Estávamos no «Verão quente», quando uma delegação da LOC se deslocou, a seu pedido, ao Paço Episcopal do Porto, para falar com o Sr. D. António F. Gomes. Ao subirmos as escadas, notámos que pelas outras descia uma delegação do então PPD liderada por Sá Carneiro. O D. António pelo tempo que mediou entre a saída deles e a nossa entrada apercebeu-se que nós nos teríamos cruzado. [...] Então disse-nos: «Já recebi aqui delegações de todos os partidos, incluindo a do PC, curiosamente o único que nunca cá veio foi o da Democracia Cristã». Está visto «Santos da casa não fazem milagres»!"
Editorial Trotta / Vários autores
HISTÓRIA DO CRISTIANISMO
II. O MUNDO MEDIEVAL
São 780 páginas, no total. Elaboradas por uma equipa de especialistas. Dão-nos um retrato aproximado do Cristianismo e da Igreja na Idade Média, com os seus papas, anti-papas, cardeais, bispos, alto e baixo clero, mosteiros e conventos de frades e de freiras, com as suas catedrais, as suas guerras de religião, Cruzadas, Guerras santas e também com as populações mantidas na ignorância e subjugadas por catequeses moralistas de arrepiar. O que hoje somos, deve-se em grande parte a estes séculos totalmente eclesiásticos e feudais. Esta é, pois, uma obra de fôlego, a não perder por nada deste mundo!
Esther González Crespo é uma das autoras desta obra feita por especialistas, mas escrita a pensar nas pessoas comuns. No seu trabalho, intitulado: "O pontificado. Da reforma à plenitudo potestatis" [= plenitude do poder] somos levados a mergulhar em algumas das muitas peripécias históricas em torno do papado de Roma.
Ficamos a saber, por exemplo, que foi em 1059 que "se instituiu a eleição do pontífice apenas pelos cardeais". E foi também nesta altura - o papa era Nicolau II - que o pontificado "começou a defender a preeminência do poder espiritual sobre o temporal", que, de resto, "já estava plenamente configurada com Gregório VII. Este papa defendeu-a com um vigor extraordinário, chegando a manter duros enfrentamentos políticos e religiosos que emocionaram toda a Europa ocidental".
A autora sublinha que "Nicolau II teve um curto mandato", mas "com grande habilidade política soube atrair os principados normandos do sul de Itália e assinar com eles uma série de pactos. Desde então, eles converteram-se em aliados e em firmes defensores da Santa Sé e garantes da livre eleição dos pontífices frente ao Império."
Os famosos Dictatus Papae, de Gregório VII, publicados em 1075 voltam a afirmar e a confirmar "a supremacia do poder espiritual sobre o temporal" [Que longe se estava de Jesus e do seu Evangelho!].
Vale a pena mergulhar nas páginas deste segundo volume da História do Cristianismo, enquanto se aguardam com justificada expectativa os restantes volumes já anunciados pela Editorial Trotta de Madrid. Ao fazê-lo, ficamos a conhecer com mais pormenor o que foram estes séculos que nos precederam e que nos trouxeram até ao ponto em que hoje nos encontramos.
Felizmente, o século XXI e o terceiro milénio poderão vir a representar uma ruptura com todo este passado eclesiástico. Foram séculos de total domínio dos clérigos e do sistema eclesiástico. Nem tudo foi negativo, evidentemente, mas a Ordem eclesiástica e clerical em que as populações estavam forçosamente enquadradas era intrinsecamente moralista, por isso, perversa. Até o bem que pode ter proporcionado saía inquinado.
Ainda hoje, o Estado do Vaticano, geograficamente diminuto, nos recordam estes séculos para trás, as lutas dos papas pelo poder. Depois que o Império de Roma caiu, o papado afirmou-se progressivamente em seu lugar. Felizmente, não será mais assim. E, com o tempo, passará à história!
Sal Terrae / W. Müller
BEIJAR É ORAR
A SEXUALIDADE COMO
FONTE DE ESPIRITUALIDADE
O autor deste livrinho é licenciado em psicologia e doutor em teologia. Presentemente, dirige a Casa de Retiros da Abadia de Münsterschwarzach. Por isso, em vez de se chocarem com o título, corram pelo livro e mergulhem com entusiasmo nas suas 110 páginas.
"Deixar mais espaço e mais terreno de experiência ao eros e à sexualidade", é o que pretende o autor com este seu livrinho, no mínimo, estranho aos olhos pios.
Andou a Igreja, nestes séculos para trás, a reprimir a sexualidade em nome da espiritualidade. E eis que vem agora este director duma casa de retiros dizer, logo em título do seu livro que "beijar é orar". Até que enfim! Mas então a Igreja ignora que o mais belo livro de espiritualidade da Bíblia é o erótico Cântico dos Cânticos, que abre com estas palavras arrebatadas: "Beija-me com os beijos da tua boca!"?
Séculos e séculos de repressão sexual e erótica. O prazer sexual como coisa feia. Demoníaca, quando, afinal, é por aí que passa o Espírito de Deus!...
Campo das Letras / César Príncipe
EMENTAS DO PARAÍSO
Para alguns será o livro mais blasfemo editado em Portugal. Mas não é. É um livro que fez bem à saúde e à vida em geral, portanto, só pode ser um livro abençoado. O seu autor é bem conhecido dos leitores do JN, em cujas páginas assinou, durante anos e anos, crónicas de mal/bem-dizer, sarcásticas q.b. que nunca mais se esquecem. São 470 páginas, num tipo de letra miudinho. Imperdível!
"Como redimir a Humanidade pelo bem-comer & pelo bem-beber & demais tentações do horto". É com este título que abre a apresentação da obra.
"Neste planeta, assoberbado pelo Pensamento Único & pela bestialização de prioridades & preferências, pela célere desidentificação & desertificação de povos & lugares, ocorreu ao autor contribuir para a redenção alimentar, para a reconversão dos prazeres da comida & da bebida, no quadro de um Portugal católico, apostólico & romano & de um Mundo Melhor. Se supõe, assim, com a apresentação de um roteiro, de um cardápio & de um organigrama de Serviços à comunidade, aguçar a apetência pela cozinha Espiritual & Nacional, por oposição ou em alternância ao fast-food & à macdonaldização, reconsagrando pratos de eleição & copos de saudação".
Como facilmente se percebe, o autor deve ter passado o tempo a rir, enquanto se ocupou da confecção deste livro. Tudo nele é satírico. As inúmeras ementas aqui apresentadas não são tanto para cozinhar no lume, mas sobretudo para cozinhar na consciência de cada pessoa que se divertir com a sua leitura.
Ficará alguma coisa de pé do Catolicismo romano, depois destas Ementas do Paraíso? Se calhar não. Mas tanto melhor. Afinal, o que é que o Catolicismo romano tem em comum com o Evangelho e o Movimento inspirado por Jesus, o de Nazaré?
"A Igreja - escreve o autor, ainda na apresentação - sempre foi exímia em proibir o que pratica. Esta duplicidade, se a desautorizou aos olhos dos lúcidos, conferiu-lhe uma flexibilidade que explica a sua sobrevivência. A Igreja não resistiu dois mil anos pelo consistente exemplo, mas por haver articulado uma rede mundial de poder, celebrando pactos com Deus & o Diabo."
O autor refere depois comportamentos de certos papas, no tocante a Ementas do paraíso: "Outro dos dignatários de bento ventre (alto & baixo) foi Alexandre VI (Sumo Pontífice entre 1492-1503, que contou com chusmas de amantes & cujo pontificado foi singularíssimo em toda a trama, tendo o envenenamento alcançado o esplendor. Todavia, as honras maiores, em matéria de palato, cabem a Leão X (Sumo Pontífice entre 1513-1521), cujo apetite & de seus cortesãos não prescindia de 65 pratos por refeição, cada um floreado de três variedades."
Sal Terrae / Christian Duquoc
O ÚNICO CRISTO
O autor é um dominicano bem conhecido nos meios teológicos da Europa pelos seus profundos estudos de Cristologia. Este seu último livro dele é de certo modo o apogeu do seu pensamento. Por isso é obrigatório ler-estudar.
"Um conjunto de factores - escreve o autor na Introdução - contribuem na actualidade a relativizar a antiga e verosímil crença neotestamentária na única mediação reveladora e salvadora de Cristo na dinâmica da humanidade para Deus. Esta relativização afecta em primeiro lugar o conhecimento de Deus: não é tanto a existência do divino que se suspeita que seja uma fábula, quanto a credibilidade da sua acção circunscrita ao seu Enviado, Jesus. A dúvida sobre o sentido da actividade divina concorda com a percepção da dupla fractura que marca a tensão para o Absoluto: a primeira, gerada no próprio coração da Aliança entre Israel e a Igreja; a segunda, imemorial e relativa à experiência do divino, da qual é prova a pluralidade de religiões sem perspectiva de unificação a partir de um horizonte comum. Além disso, o abandono do sentido global do movimento histórico em favor de um sentimento de imersão no devir indefinido e, sem dúvida, sereno da dinâmica cósmica, acentua as tensões religiosas devidas a divisões aparentemente insuperáveis."
É a partir daqui que arranca o autor nesta sua obra de 253 páginas. A nortear as suas reflexões cristológicas, está esta pertinente pergunta: "Que lugar assinalar honestamente à unidade da mediação de Cristo que, por hipótese, leva toda a humanidade a um único Reino de Deus?"
O autor está consciente do problema que levanta, mas não o escamoteia. E por isso logo adianta: "A resposta a esta pergunta está longe de ser eviddente. Não pode de modo algum ser evitada na elaboração duma cristologia que pretende assumir a actual dispersão do sentido e da extrema variedade de buscas do Absoluto".
Para ajudar nesta busca, escreveu Duquoc este livro. Corram por ele!
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ÚLTIMA PÁGINA
Novo livro do Pe. Mário
O OUTRO EVANGELHO
SEGUNDO JESUS CRISTO
É, porventura, o livro mais polémico de todos os livros que o Pe. Mário escreveu e publicou até hoje. Este livro mexe com o que há de mais essencial do Cristianismo, Jesus, o de Nazaré. Nunca a Igreja nos deu a conhecer Jesus assim. Nunca o percurso histórico dela poderia ter sido como foi.
No Prólogo, o autor explica-se e confessa-se. A explicação: "O meu trabalho consiste, basicamente, em apresentar uma tradução actualizada e anotada do mais antigo dos quatro Evangelhos canónicos, o Evangelho de Jesus segundo São Marcos. Já não seria pouco atrevimento, se me ficasse por aí. Mas levo mais longe o meu atrevimento (se calhar, haverá quem não me perdoe, inclusive, na Cúria Romana!) e apresento essa tradução actualizada e anotada sem escamotear nenhum dos contornos subversivos e revolucionários com que se teceu a prática política radicalmente libertadora de Jesus, no pequeno país que lhe serviu de berço, a Palestina do século I, então colónia do Império romano militarmente ocupada, onde, por isso, qualquer tentativa de insurreição armada ou de levantamento popular seria de imediato reprimida com exemplar crueldade. Como terão oportunidade de constatar, se lerem este livro, o resultado final é um saudavelmente polémico Evangelho de Jesus para o século XXI e para o terceiro milénio, ambos ainda no começo."
A confissão:
Gostava que este livro fosse visto como o livro da minha vida. E que fosse acolhido por todas as mulheres, por todos os homens, independentemente, da sua condição de pessoas crentes ou agnósticas. Sempre sonhei escrever um livro sobre Jesus. Só agora concretizo o meu sonho. Valeu a pena ter nascido e vivido todos estes anos só para agora poder dar à Humanidade este meu testemunho vivo sobre Jesus."
A capa do livro vem enriquecida com um "Jesus", saído do pincel do Mestre José Rodrigues. A edição é da Campo das Letras (Porto), a mesma que editou Fátima nunca mais, até hoje o livro mais polémico do Pe. Mário e também o maiis vendido (prepara-se para breve a 12.ª edição).
Esteja atento ao seu aparecimento, por todo este mês de Abril.
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Vamos ao teatro e ao concerto?
SEIVA TRUPE EM LOUSADA
JOSÉ Mário BRANCO, FANHAIS E TINO FLORES EM PENAFIEL
A Companhia de Teatro SEIVA TRUPE, do Porto, decidiu oferecer, como ajuda à construção do BARRACÃO DE CULTURA, de Macieira da Lixa,uma representação da sua célebre peça VARIAÇÕES ENIGMÁTICAS. A sessão está marcada para as 21,30h do dia 9 deste mês de Abril, no Auditório Municipal de LOUSADA.
A Associação Cultural AS FORMIGAS DE MACIEIRA, ficou sensibilizadíssima e está a fazer tudo por tudo para ver se consegue passar a totalidade das 300 entradas para o espectáculo. Como se trata de uma sessão de solidariedade, cada entrada fica por 15 cravos vermelhos. Podem ser adquiridas nestes locais: Quiosque Céu Azul (Penafiel); Café Imperial (Paredes); Foto "O Maior" (Lixa); Papelaria Melo (Felgueiras); e Auditório Municipal de Lousada.
Ou, directamente, na Associação, em Macieira da Lixa.
Por sua vez, os conhecidos cantores de intervenção, José Mário Branco, Francisco Fanhais e Tino Flores estarão ao vivo num Concerto para o mesmo fim, na noite de 4 de Junho, no recinto da PROFIDELIS, em Penafiel. Pormenores a divulgar.
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3.º Encontro de Espiritualidade
DIA 26 DE JUNHO
EM S. PEDRO DA COVA
O 3.º Encontro de espiritualidade com o ateísmo em fundo - conforme o acordado, é um por trimestre - está marcado para o último domingo de Junho 2005, dia 26, a partir das 10h, na sede da Associação Padre Maximino e do Jornal Fraternizar.
Desta vez, o tema em debate - Jesus para o Terceiro Milénio - será apresentado pela M.ª Celeste (Lete) e pelo Valter, a partir do livro A verdadeira história de Jesus, de E. P. Sanders (Editorial Notícias).
O Encontro tem início às 10h e termina pelas 17h. A meio, há almoço partilhado com o que cada uma, cada um levar para a mesa comum. A manhã é de reflexão teológica em diálogo. A tarde é de convívio e partilha de boas notícias. Apareça!
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