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DOCUMENTO
Intervenção do Pe. Mário no 1.º Encontro Fraternizar de Espiritualidade em S. Pedro da Cova
Jesus com o ateísmo em fundo
Conforme anunciado no anterior Jornal, realizou-se no último trimestre de 2004 em S. Pedro da Cova, na sede da Associação Padre Maximino, o 1.º Encontro Fraternizar de espiritualidade com o ateísmo em fundo. Tema em debate: Jesus para o 3.º milénio. Ficou decidido prosseguir estes encontros, uma vez por cada trimestre. O próximo será no dia 6 de Março 2005. A temática é sempre a mesma: Jesus para o 3.º milénio. Da parte da manhã, o encontro foi de profunda reflexão teológica, a partir da comunicação apresentada na hora pelo pe. Mário. Depois do almoço partilhado, houve um tempo de convívio e de partilha de boas notícias e de preocupações, a que se seguiu, a terminar, um momento celebrativo em forma de Eucaristia. Terá sido este o momento menos conseguido do dia, porque ainda não sabemos celebrar com o ateísmo em fundo. Havemos de aprender. E agora não deixem de ler a comunicação integral que o pe. Mário fez no encontro. Pode escandalizar, mas é daqueles escândalos que a verdade sempre provoca.
1. Ao marcar este encontro, foi a sonhar que ele poderia ser o primeiro de muitos outros encontros. Pelo menos, quatro em cada ano, um por cada trimestre. Comigo a dinamizar/animar, ou com outras pessoas, a combinar e a encontrar de cada vez. Dinamizar/animar é isso mesmo. Não é substituir o esforço de ninguém. É fazer com que cada uma, cada um de nós dê o melhor de si sobre o tema em debate. Às vezes, damos o pior de nós. Criamos anti-corpos. Aqui, nestes encontros, havemos de querer dar sempre o melhor de nós.
Vivemos habitualmente sob a lei do menor esforço, como as virgens loucas da parábola mateana, em lugar de vivermos vigilantes, como as virgens sábias da mesma parábola. Aqui, havemos de deixar lá fora a lei do menor esforço. Estaremos vigilantes e fecundos. Seremos como as virgens sábias.
2. Estes são encontros de espiritualidade com o ateísmo em fundo, em volta de um tema inesgotável, como é este que escolhemos: Jesus para o terceiro milénio. Este tema só terminará, quando terminar o milénio que agora está nos começos. E nessa altura, daqui a mil anos, acaba apenas a segunda parte da temática para o terceiro milénio; não terá acabado o mais importante da temática Jesus. Daqui a mil anos, os que prosseguirem estes encontros terão apenas que reformular o tema, assim: Jesus para o quarto milénio.
Com isto, pretendo apenas dizer que a temática em redor de Jesus é inesgotável, cada geração sempre haverá de se debruçar sobre Jesus, se quiser ser uma geração progressivamente humana, cada vez mais liberta para a liberdade.
3. Estes são encontros de espiritualidade com o ateísmo em fundo. Por isso, para pessoas com uma espiritualidade vivida cada vez mais fora dos templos e longe dos altares; cada vez menos religiosa, porque cada vez mais política; cada vez menos ritualista, porque cada vez mais secular e profana; cada vez mais no mundo e no Sistema, mas sem ser do mundo nem do Sistema; cada vez mais nesta Ordem mundial, mas sem ser desta Ordem mundial. Numa palavra, uma espiritualidade cada vez menos eclesiástica, porque cada vez mais jesuânica.
4. O terceiro milénio é o primeiro depois do eclodir da Modernidade que ocorreu há pouco mais de duzentos anos. Com a Modernidade, a Humanidade alcançou a maioridade, em significativo número dos seus membros e ao nível das instituições. E a verdade é que, pouco mais de duzentos anos depois desta copernicana revolução cultural, a existência de agnósticos e ateus, embora ainda não seja um fenómeno de massas, é já manifestamente para aí que aponta.
As instituições, fora do âmbito das Igrejas, deixaram de ser confessionais como haviam sido até então. O nome de Deus foi expulso, e bem, das Constituições de cada país, dos tribunais, no que respeita, por exemplo, aos formulários dos juramentos. E o nosso mundo está cada vez mais organizado como se Deus não existisse. Pessoalmente, acho que isto é o que há de mais positivo na Humanidade, desde que ela existe à face da terra! É o ateísmo, em lugar do deísmo.
A minha alegria, neste particular, é que, com o ateísmo generalizado, pelo menos, o nome de Deus já não será tão blasfemado como tem sido através dos tempos, inclusive, pelos que se confessam ateus, sinal de que ainda têm sido muito pouco ateus!
5. Pode ser chocante ouvir, mas não posso deixar de o dizer, já de entrada: Deus não serve para nada! Por isso, o ateísmo está a prestar um óptimo serviço à Humanidade. Ao negar Deus, o ateísmo vem dizer que Deus não é preciso para nada; que o mundo pode muito bem funcionar sem Deus. Pela simples razão de que a presença de Deus no mundo e na História não é da ordem da necessidade, mas da ordem da gratuidade.
Os chefes das Igrejas sempre acharam e ainda acham que uma afirmação como esta que acabo de fazer aqui é uma blasfémia. E rasgam as suas sagradas vestes em protesto! Ao mesmo tempo, criam movimentos católicos fundamentalistas como a Opus Dei, Comunhão e Libertação, Comunidade Canção Nova, Movimento Focolari, os quais, por sua vez, organizam campanhas contra o ateísmo e, por vezes, até contra os ateus. Em contrapartida, já não se importam nada com o deísmo nem com os deístas, como Bush, Santana Lopes e Paulo Portas. São chefes eclesiásticos deístas que filtram mosquitos, e engolem camelos.
Ainda agora, a propósito da Constituição europeia, vimos o triste espectáculo que deram o Papa de Roma e a Cúria romana e muitas conferências episcopais católicas da Europa.
Felizmente, os deputados europeus, na sua maioria, não se deixaram arrastar por essa onda e a Constituição aí está sem o nome de Deus a abrir, e sem a explícita referência às chamadas raízes cristãs da Europa. Saúdo, daqui, o bom senso dos deputados. Saúdo o triunfo da inteligência. E da sabedoria.
E ainda dizem por aí os chefes das Igrejas que o Espírito Santo não trabalha na História. A verdade é que trabalha, e trabalha continuamente. Até trabalha com as “pedras”, quando não pode contar com a cooperação dos que se têm na conta de filhas, filhos de Deus. Só que os chefes das Igrejas não sabem reconhecê-lO nos sinais dos tempos, pois ainda continuam a pensar que o Espírito Santo está presente e activo em tudo o que contribua para reforçar o seu próprio poder e a sua própria influência, quando no que o Espírito está verdadeiramente empenhado é na promoção da autonomia e da liberdade de cada pessoa e de cada povo!
6. Quando digo que o ateísmo é um sinal dos tempos entre os muitos sinais dos tempos de que está a ser feita a História contemporânea e, como tal, representa um avanço da Humanidade em ordem à sua plena autonomia e responsabilidade, não estou eclesialmente sozinho, ao contrário do que possa parecer. Sei que não tenho comigo, evidentemente, o Papa actual, nem a generalidade das Conferências episcopais. Mas tenho comigo o Concílio Vaticano II que deu o golpe de misericórdia no modelo de Igreja Cristandade, próprio do deísmo, e saudou o fenómeno do ateísmo como um contributo muito positivo que obriga a própria Fé cristã em Deus a purificar-se e as Igrejas cristãs a mudarem as suas práticas pastorais e todas as suas fórmulas litúrgicas de oração e dos sacramentos.
Espantam-se? Atentem então nestes parágrafos da Constituição sobre a Igreja no Mundo contemporâneo, primeiro, no seu n.º 7, depois, no seu n.º 19.
Eis o n.º 7: “As condições novas afectam igualmente a própria vida religiosa. Por um lado, o desenvolvimento do espírito crítico purifica-a de uma concepção mágica do mundo e de reminiscências da superstição, e exige uma adesão cada vez mais pessoal e activa à fé, o que faz que sejam numerosos aqueles que atingem um sentido mais vivo de Deus. Por outro lado, multidões sempre mais compactas afastam-se da prática da religião. Recusar Deus ou a religião, não se preocupar com isso, não é, como noutros tempos, um facto excepcional, individual: hoje, com efeito, tal atitude é frequentemente apresentada como uma exigência do progresso científico ou de qualquer humanismo novo.”
Agora, o n.º 19: “A palavra «ateísmo» designa fenómenos entre si muito diferentes. Com efeito, enquanto uns negam a Deus expressamente, outros pensam que nada se pode afirmar acerca dEle; outros ainda apresentam o problema de Deus de tal modo que o mesmo parece não ter sentido. Muitos, ultrapassando indevidamente as fronteiras das ciências positivas, ou pretendem que tudo se explica só pela razão científica ou, ao contrário, não reconhecem qualquer verdade absoluta. Alguns exaltam de tal forma o homem, que a fé em Deus resulta enfraquecida, mais preocupados ao que parece com afirmar o homem do que com negar Deus. Outros formam de Deus uma imagem tal que, recusando-a, recusam Deus que não é de forma alguma o do Evangelho. Outros nem sequer se põem o problema de Deus: parecem inteiramente alheios a toda a preocupação religiosa e não entendem por que deveriam ainda ocupar-se da religião. O ateísmo, além disso, nasce com frequência como protesto violento contra o mal no mundo ou do facto de se atribuir a certos ideais humanos um tal carácter de absoluto que os mesmos são considerados indevidamente como Deus. […] Também os crentes têm neste ponto o seu quinhão de responsabilidade. É que o ateísmo, considerado globalmente não tem origem em si mesmo, mas em várias causas, entre as quais importa contar uma reacção crítica contra as religiões e, em certas zonas, especialmente contra a religião cristã. É por isso que na génese do ateísmo, os próprios crentes podem ter uma parte não pequena, na medida em que, pela negligência na cultura da sua fé, pela exposição defeituosa da doutrina e também por faltas na sua vida religiosa, moral e social, se pode dizer deles que ocultam, em vez de revelarem, o rosto autêntico de Deus.”
Infelizmente, quase ninguém, da parte dos responsáveis da Igreja católica, acolheu a contribuição do Concílio Vaticano II. E hoje é o que se vê. Temos umas liturgias e umas catequeses eclesiásticas que são verdadeiras fábricas de fazer ateus e de produção de ateísmo. Mesmo as Comunidades cristãs mais “progressistas” são um desastre, neste campo. Podemos, pois, dizer sem faltar à verdade que o domingo é, actualmente, o dia da semana em que o nome de Deus é mais blasfemado e invocado em vão. Concretamente, as missas das tv’s e das rádios são, regra geral, o que há de mais ignóbil e de mais aviltante. São a Humanidade no seu pior. Verdadeira manifestação de infantilismo e de preguicite aguda, servidos, um e outra, sob a capa de manifestação de Fé!...
7. Disse e repito que estes são encontros de espiritualidade com o ateísmo em fundo. Como tal, devem decorrer de tal maneira, que os ateus, elas e eles, possam sentir-se aqui como em sua casa. A linguagem utilizada, a liturgia aqui realizada não os hão-de agredir, pelo contrário, hão-de contribuir para os tornar cada vez mais humanos e solidários, sem jamais os forçar a tornar-se crentes. Não irá ser fácil conseguirmos isto. Estamos todos, crentes e ateus, cheios de tiques e de vícios proselitistas, de conquista. Não irá ser fácil, mas temos que fazer por isso. E aqui contamos com o contributo sincero e honesto dos próprios ateus. Também, é claro, com o contributo dos crentes, nomeadamente, dos cristãos jesuânicos, elas e eles.
Para tanto, creio que ateus e crentes havemos de cultivar uma grande humildade. Nem os crentes, pelo facto de crerem em Deus; nem os ateus, pelo facto de não crerem em Deus, havemos de nos apresentar nestes encontros com arrogância, soberba, exibicionismo, ar de superioridade. Humildade, parece-me a palavra-chave. Não no sentido de humilhação ou de renúncia à inteligência, mas no sentido de abertura à Realidade. Como quem pressente que a Realidade é sempre mais, muito mais do que nós, superficialmente podemos apreender. A Realidade tem uma enorme componente de Mistério. É Mistério, isto é, revela-se-nos, mas não toda duma vez, antes está continuamente a revelar-se-nos, enquanto estivermos na História.
Esta postura de humildade revela honestidade intelectual. E pode levar a que o ateu venha a tornar-se crente jesuânico. E que o crente deísta venha a sentir-se momentaneamente ateu. Ou que o ateu venha a confirmar-se ainda mais no seu ateísmo. E que o crente deísta venha a mudar de Fé e de Deus, pelo menos, de conceito de Deus e adira definitivamente ao Deus de Jesus.
O fundamental é que todos, ateus e crentes, em feminino e em masculino, cresçamos em Humanidade. Aliás, o ateísmo que não faça quem o professa crescer em humanidade e em solidariedade, isto é, que não faça nascer e desenvolver em quem o professa entranhas de humanidade e de ternura pelas vítimas deste mundo, tem algo de perverso e de demoníaco. O mesmo se há-de dizer da Fé: se ela não me torna mais humano e mais solidário, mulher/homem com entranhas de humanidade e de ternura, haverei de preocupar-me. Provavelmente, melhor fora então que eu fosse ateu!
8. Não vamos tratar aqui, nestes encontros, da espiritualidade propriamente dita. Menos ainda, dos métodos de espiritualidade. Os encontros são de espiritualidade, não sobre espiritualidade. São de vivência espiritual que, como se sabe, pode e deve ser protagonizada também pelos ateus, já que a espiritualidade não é um exclusivo dos crentes. Nestes encontros, a espiritualidade estará sempre presente como um modo de ser e de estar, de viver, em todos os dias e em todos os ambientes. Efectivamente, todas, todos somos pessoas sopradas, por isso, espiritualizadas. Falta apenas saber por que sopro, por que espírito. Muito importará que não seja nunca o sopro ou o espírito do Sistema ou do Império.
O livro do Génesis diz isto de forma mítica, poética, por isso, muito bela, quando apresenta o ser humano, mulher e homem, primeiro, a ser formado do barro, da terra (em hebraico, adamah, donde provém o substantivo comum, Adão = ser humano), depois e sem isso não haveria ser humano a ser soprado por Deus. No Génesis, fala-se naturalmente de Deus como aquele que sopra, como o Sopro. O contexto cultural da época em que o relato foi escrito assim o exigia. Era impensável dizer de outro modo. Mesmo assim, Deus, naquele relato escrito já depois da experiência histórica do êxodo dos hebreus do Egipto, tinha necessariamente uma conotação política forte e fecunda de anti-Sistema, de anti-Império faraónico. Era o sopro de Deus que havia tirado os hebreus da escravatura do Egipto, não o sopro de Deus do faraó.
Hoje, num contexto de ateísmo cada vez mais generalizado, como é o nosso, temos que encontrar outra linguagem menos sacral, mais secular, menos religiosa, mais política. Dizer hoje que, para sermos seres humanos, temos que ser soprados por Deus, não nos aquece nem arrefece. Deixa-nos na mesma, tanto aos crentes como aos ateus.
Mas se dissermos que, para sermos seres humanos, temos que ser soprados pelo sopro dos milhares de milhões de empobrecidos à força e de todas as vítimas humanas e da natureza, concretamente, daqueles empobrecidos e daquelas vítimas humanas e da natureza com quem eu (cada uma, cada um de nós) me cruzo todos os dias, e que ainda não fui capaz de integrar na minha vida, muito menos, sentar na minha mesa como minhas irmãs, meus irmãos, então tudo muda de figura.
Ora, esta é uma das maneiras de falar historicamente de Deus num mundo como o nosso, com o ateísmo em fundo. Historicamente, o sopro de Deus ganha corpo, faz-se sacramento no sopro de todas as vítimas, de todos os excluídos, de todos os perseguidos, de todos os que ainda não têm lugar à nossa mesa! Concretamente, nos seus gritos, nos seus suspiros, nos seus gemidos. E na sua aflitiva respiração feita, a maior parte das vezes, de gritantes e perturbantes silêncios.
As Igrejas deste tempo têm que entender e sobretudo viver esta teologia, ou então quanto mais falarem de Deus, mais ateísmo fabricam, porque o Deus de que falam é como o Deus do sacerdote e do levita do tempo e do país de Jesus, que levava um e outro a passarem do outro lado do caído na valeta da vida, sinal de que era um Deus cruel, sem entranhas de humanidade, insolidário!
9. Provimos de séculos e de milénios em que o nome de Deus esteve sempre na boca das pessoas. Deus era o maior valor e o maior senhor. Aliás, “Deus, Pátria e Família”, foi a trilogia de todos os fascismos e de todos os impérios, como ainda hoje o de Bush e Blair. Ou como o da Cristandade Ocidental que continua aí a mexer, apesar do Vaticano II lhe ter aplicado o golpe de misericórdia. Tanto nome de Deus, tanta invocação de Deus, mas a verdade é que o nosso mundo tem sido e continua a ser o que se vê. Melhor fora que tivéssemos sido honestamente ateus, em todos esses séculos e milénios para trás.
Conhecemos, certamente temos obrigação de conhecer os números da desigualdade e da desumanidade do nosso tempo, fruto de tanta invocação do nome de Deus: Cinco das seis partes da Humanidade vivem na pobreza. Foi no que deram séculos e milénios de vida humana com Deus sempre na boca e nos tratados, com públicas profissões de fé, com religiões para todos os gostos e feitios, com orações e missas aos milhões cada ano, com conventos e mosteiros, com milhões de frades e de freiras, com políticos de missa e de comunhão frequentes e até com confessores e directores espirituais privativos.
E não é verdade que, ainda hoje, Bush faz questão de iniciar e de concluir as suas reuniões de governação com momentos de oração e de leitura/meditação da Bíblia? Mas o resultado é o que se vê. Que o diga o povo do Iraque e do Afeganistão. E os prisioneiros de Guantánamo!
10. Outra coisa seria e isto é o que haverá de fazer o terceiro milénio se, em lugar de continuarmos a dizer que somos soprados por Deus, dissermos que estamos a ser constantemente soprados na consciência pelos milhões e milhões de vítimas das políticas e das economias que, entretanto, adoptamos e realizamos sob a capa do nome de Deus. Na verdade, só este sopro que vem do sub-mundo dos empobrecidos e oprimidos e da Natureza maltratada é que nos humanizará, nos transformará de potenciais monstros em seres humanos.
Quer isto dizer que, nestes encontros, como na nossa vida de todos os dias, havemos de estar aqui uns com os outros como mulheres e homens soprados pelos que vivem na base da pirâmide social, pelos últimos da História. Por isso, sem muros. Sem preconceitos. Sem jogar à defesa. Desarmados. Com o nosso melhor sorriso. Com toda a pureza do nosso olhar. Com a humildade da nossa inteligência. Com o máximo do nosso ouvir. Como uma menina, um menino, que se deixa surpreender e fazer pelo outro, até nos fundirmos numa só Humanidade; não várias Humanidades justapostas, mas uma só Humanidade, na diversidade de rostos, de línguas, de culturas, de conhecimentos, de especialidades que se complementam e interligam.
11 Disse há pouco que Deus não serve para nada. E que é mais saudável o ateísmo que o deísmo. Deístas são todos os que invocam o nome de Deus, para assim melhor se aproveitarem, tirarem proveito do nome invocado. Aliás, se as pessoas não pensassem em Deus como proveito para o tempo presente e para depois da morte, quem é que ainda se dispunha a aceitá-lO na sua vida? Este é sem dúvida um pecado, uma blasfémia que os ateus consequentes não podem cometer nunca.
Mas a verdade é que provimos de séculos e de milénios de espiritualidade com o deísmo em fundo. Deus estava sempre no topo da pirâmide, a justificá-la e a justificar as hierarquias religiosas, eclesiásticas e do poder económico-financeiro e político. Deus servia para dar cobertura aos seus mais hediondos crimes. Aos seus genocídios. Às suas guerras. Às suas conquistas. Aos seus latrocínios.
É hora de fecharmos este ciclo tenebroso da História da Humanidade. Religiões, igrejas, templos, santuários, mesquitas, catedrais, sinagogas, sacerdotes, liturgias religiosas, missas, rezas, etc, tudo isso fez o deísmo. Para que os grandes melhor pudessem oprimir e esmagar os pequenos, mantê-los resignados na opressão e na injustiça. A religião, toda a religião, tem por trás e por base o deísmo, a manipulação do nome de Deus.
Foi o deísmo que criou toda essa tralha religiosa, contra a qual o ateísmo e os ateus sempre se ergueram e erguem. Os crentes jesuânicos também! E fazem uns e outros muito bem. Em nome da sanidade mental e da dignidade humana.
12. Temos então que sair urgentemente do deísmo e da sua espiritualidade e passar pelo deserto do ateísmo, a caminho da Fé de Jesus. Mais do que Fé em Deus, ou Fé em Jesus, interessa à Humanidade, também à que hoje se diz ateia, abrir-se quanto antes à Fé de Jesus e ousar viver a Fé de Jesus, até chegarmos a ser mulheres, homens à maneira de Jesus, o de Nazaré. Não se trata de corrermos sem mais para a Fé em Jesus. Trata-se de sermos mulheres, homens com a mesma Fé de Jesus. E aqui é bem provável que crentes e ateus nos encontremos profundamente irmanados, como companheiros de jornada e de luta, em vidas concretas fecundamente militantes no mundo e na História.
O deísmo, nos séculos passados, fez-nos passar rapidamente para a Fé em Jesus, sem nunca nos ter feito chegar à Fé de Jesus. E com isso pode ter provocado e provocou pelo menos dezasseis séculos de atraso na História da Humanidade. Foi esta a grande traição das cúpulas da Igreja no Império romano. Nasceu então a Cristandade com homens e mulheres, crianças e povos a prestarem culto a Jesus, mas sem partilharem a Fé de Jesus.
Ora, Jesus é, antes de mais, o modelo, o paradigma do ser humano. Nele, vemos como havemos de ser mulheres, homens. Jesus é a revelação definitiva do ser humano, tal como Deus o concebeu e está ainda a tentar criar, agora também com a nossa cooperação, porque aquele que nos começou a criar sem nós, não nos pode acabar de criar sem nós.
Infelizmente, a Humanidade, arrastada pelos sacerdotes ainda hoje as pessoas pensam que foi Deus quem fez os sacerdotes; desconhecem que foram os sacerdotes quem se auto-constituiu como casta à parte e se impôs aos povos e até a Deus! e por outros deístas profissionais, que vivem à custa do nome de Deus, nem sequer parou em Jesus como revelação do ser humano. Passou directamente para Jesus como revelação de Deus. Em lugar de aprender com Jesus a ser mulher, homem à maneira dele, passou logo a adorar Jesus; em lugar de aprender a ser mulher, homem com a mesma Fé de Jesus, passou logo a ter Fé em Jesus. E hoje, para a maior parte das pessoas, inclusive, ateus (de)formados pelas catequeses da velha Cristandade católica, dizer Jesus e dizer Deus é praticamente o mesmo! Confundem Deus com Jesus e Jesus com Deus!
13. Tenho para mim que sermos hoje mulheres, homens de espiritualidade com o ateísmo em fundo é sermos mulheres, homens soprados pelo mesmo sopro com que Jesus foi historicamente soprado no seu tempo e país. É estarmos animados pela mesma Fé de Jesus. É sermos mulheres, homens do mesmo jeito.
Com Jesus, o Deus do deísmo morreu. E não deixa pena! Na verdade, não há crime, do maior ao mais pequeno, que não tenha sido cometido na História da Humanidade sem a sua conivência, senão mesmo com o seu directo envolvimento, e sempre com a sua inspiração, o seu sopro conquistador/opressor e explorador/desumanizador.
O Deus do deísmo sempre esteve e está no princípio e no fim do Sistema de mentira que ainda hoje nos mantém a todas, todos maiorias desfavorecidas e minorias privilegiadas, separadas entre si por um fosso intransponível cativos na injustiça da presente Ordem mundial que, por isso mesmo, tem que ser dissolvida e substituída quanto antes.
Por isso, se em alternativa ao Deus do deísmo que morreu, nos acontecer, pelo menos, a algumas, alguns de nós a revelação do Deus de Jesus as cristãs, os cristãos jesuânicos, católicos ou não, testemunhamos com humildade a Presença/Acção dEle nas nossas vidas e na História então é porque Ele é um Deus que se dá bem com o ateísmo, não suporta o deísmo; gosta de Política, não pode com a religião; sente-se honrado por nos ver crescer e viver em autonomia e responsabilidade como se Ele não existisse, insultado e agredido, sempre que nós, nas nossas aflições e limitações recorremos a Ele, por milagres que só nós, animados pela mesma Fé de Jesus, podemos e temos que realizar.
Deste modo, quantas, quantos de nós hoje cremos em Deus, fora do deísmo, só podemos apresentar-nos entre as demais pessoas como mulheres, homens aparentemente ateus, adoradores de Deus, mas tão só em espírito e verdade, o que significa vivermos de costas para os templos e longe dos altares, plenamente inseridos e comprometidos até ao sangue com o mundo e com a História, inevitavelmente olhados e tratados como loucos por parte das maiorias religiosas que insistem no deísmo e no seu Deus, quando na verdade somos simplesmente irmãs, irmãos de todas as pessoas e de todos os povos, inclusive, dos que nos maltratam e caluniam.
14. Creio que nesta Fé de Jesus, ateus e crentes jesuânicos podemos perfeitamente encontrar-nos e entender-nos. Mais do que isso. Devemos encontrar-nos e entender-nos, pois carecemos uns dos outros. Os crentes, para que não descambemos de novo no deísmo e no Deus deísta que está sempre aí a tentar-nos no todo-poderoso Sistema religioso-eclesiástico, de modo que nunca mais regressemos à Fé religiosa sempre alienante, ópio do povo, praticamente a única Fé que as Igrejas, também a Igreja católica, serviram em overdoses às pessoas e aos povos, através dos séculos e continuam ainda hoje a servir. Os ateus, para que não se fechem no seu ateísmo, como num labirinto, pelo contrário, tenham a humildade de encarar a Realidade como Mistério, de modo a viverem sempre abertos aos sinais dos tempos e ao Sopro libertador que os atravessa e reiteradamente nos interpela e desinstala.
Ambos, crentes e ateus, fraternal/sororalmente unidos, havemos de levar por diante, hoje e aqui, de forma actualizada, a crítica sem tréguas que os profetas bíblicos iniciaram, há cerca de três mil anos, contra a Religião e contra a Fé religiosa, crítica essa que é fundamental para que a Humanidade, em cada geração, rejeite todo o tipo de idolatria, sem dúvida, o Pecado do mundo que verdadeiramente ofende a Deus, porque fatalmente infantiliza e escraviza, aliena e humilha as suas filhas, os seus filhos que são todos os seres humanos, sempre estes se deixarem ir por essa via de mentira.
15. É, pois, à Fé de Jesus que, hoje, crentes e ateus nos havemos de abrir, porque é com ela que nos tornamos verdadeiramente mulheres, homens sem Deus e com Deus, ao mesmo tempo. Sem Deus, porque nós, com a mesma Fé de Jesus, também havemos de ousar viver na História como se Deus não existisse. E com Deus, porque nós com a mesma Fé de Jesus, também havemos de dar pela Presença/Acção de Deus na História e dentro de nós, precisamente, naquele sopro libertador que dia e noite nos atravessa, nos faz ser e que nos faz viver abertos à Realidade mais real que está sempre para além do que os nossos sentidos conseguem captar e que historicamente ganha corpo no corpo de todas as vítimas humanas e da Natureza.
Na verdade, quando vivemos animados pela mesma Fé de Jesus, tornamo-nos mulheres, homens progressivamente abertos ao outro, ao estranho, ao estrangeiro, ao diferente e, sem nunca sabermos bem como nem porquê, damos connosco a ser militantes por um mundo outro, onde todos seres humanos, animais e restante Natureza tenhamos pacificamente lugar.
Mas não só. Quando vivemos animados pela mesma Fé de Jesus, encaramos o mundo e a História como se Deus não existisse e, por isso, em lugar de gastarmos o nosso tempo e as nossas energias em redor dos templos e dos altares, a repetir até à náusea esteriotipadas fórmulas de oração endereçadas a um destinatário que só existe na nossa imaginação, damos uma volta de 180 graus à nossa vida e passamos a gastar todo o nosso tempo e todas as nossas energias na escuta do outro e por ele, com ele e nele na escuta do completamente Outro, que provocadoramente sempre nos pergunta pela irmã, pelo irmão, isto é, sempre nos atira para a Política, concebida, finalmente, como serviço maiêutico, não como Poder (o deísmo é que faz da Política Poder), como palavra e acção libertadoras e consciencializadoras, por isso, geradoras de voz e de vez, em todos os demais seres humanos que connosco habitam o Planeta, de modo que todos nos tornemos poetas e profetas, protagonistas e mulheres/homens de acção criadora e solidária, num ambiente de planetária alegria e de festa sem fim.
16. Por ter levado, pela primeira vez na História, o Ser Humano, ele próprio, até ao limite dos limites, quer na afirmação de si, quer no confronto duélico e martirial contra o Sistema deísta de mentira, que mantém as mulheres, os homens e o resto da Criação cativos na injustiça, Jesus de Nazaré constituiu-se no primeiro desta nova Humanidade sem religião e até sem um Deus para adorar em templos e para ser servido e louvado em altares erguidos dentro de santuários mais ou menos luxuosos, geridos por clérigos sempre de olho nas ofertas de quem subservientemente lá entra e lá se ajoelha.
Foi também no acto de desenvolver esta sua radical postura, que Jesus se deu progressivamente conta, com incontida alegria, da Presença/Acção de Deus como Sopro/Espírito a trabalhar continuamente na História, e se deixou possuir/habitar sem reservas por Ele, até se experimentar como o seu filho muito amado. Constituiu-se, por isso, para sempre no paradigma do ser humano, na Pedra angular da nova Humanidade e no primogénito de muitas irmãs, de muitos irmãos, crentes e ateus.
Infelizmente, ao contrário de Jesus, muitas, muitos de nós não só ainda não resistimos até ao limite dos limites ou até ao sangue, como Jesus resistiu, contra o Sistema deísta de mentira, como até nos temos deixado seduzir por esse Sistema, ao ponto de corrermos a integrar alguma das diversas minorias privilegiadas que o servem, a troco de privilégios e outras mordomias que ele habilmente distribui aos seus incondicionais: “Tudo te darei, se, prostrado, me adorares!” (cf. Lucas 4, 8) E com isso, ajudamos a manter subjugadas, silenciadas e alienadas na religião, na miséria e na degradação as maiorias da Humanidade, que só não se levantam numa planetária insurreição, porque as Igrejas cristãs continuam aí a fazer tudo para as atrair para Fé em Jesus, para cúmulo, travestido por elas num Deus milagreiro, em lugar de as despertarem, a tempo e fora de tempo, para a Fé de Jesus.
Por isso digo, e com isto concluo: Felizes de nós, se, em lugar de persistirmos na tradicional postura de colaboracionistas do Sistema deísta de mentira que nos mantém a todas, todos cativos nesta Ordem mundial de injustiça, aceitarmos mudar de rumo, nascer de novo, do Alto, do Sopro que sopra como línguas de fogo das bandas daquelas maiorias. Daremos corpo à Humanidade nova, sem Deus para adorar em templos e em outros santuários feitos pelo Sistema deísta de mentira, e viveremos com a simplicidade de quem respira, a nossa condição de filhas, filhos em estado de maioridade, como Jesus, em cujas consciências habita o Sopro/Espírito que nos faz livres e libertadores, irmãs, irmãos universais.
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IGREJA/SOCIEDADE
Poeta Francisco Duarte Mangas
Um homem descativo e portador de fogo
O último livro do director do Jornal Fraternizar Canto(S) nas Margens, editado pela AUSÊNCIA, foi finalmente apresentado no Porto. A sessão decorreu na loja FNAC, de St.ª Catarina. E contou com a presença e a sábia intervenção do poeta Francisco Duarte Mangas, que também é jornalista do "DN", na delegação do Porto. Reproduzimos aqui essa intervenção na íntegra. Na página seguinte, reproduzimos igualmente a intervenção que o Padre Mário, como autor, produziu na mesma ocasião. São dois textos a não perder.
O filho de Maria e de David escreve livros. A palavra, que neste caso é uma generosa rebeldia, acompanha-o desde menino. Porque os livros, como disse Federico Garcia Lorca, espevitam a revolta, os livros abrem caminho aos deserdados de justiça.
Qual foi o sonho maior de Kino quando descobriu a pérola no fundo do mar? Kino, humilde pescador de ostras, tinha uma fortuna entre as mãos, a pérola poderia mudar a sua vida, poderia comer a sua pobreza. Perante o olhar de espanto dos vizinhos, tão pobres como ele, Kino disse orgulhoso,
«O meu filho irá à escola».
«O meu filho saberá ler e abrirá livros, o meu filho escreverá, o meu filho saberá escrever. (…) E essas coisas tornar-nos-ão livres, porque ele terá conhecimentos, saberá. Através dele, teremos conhecimento também».
E, no brilho da pérola, Kino imaginava-se já agachado na cabana, junto ao lume, ao lado de Joana, a mulher, enquanto o filho (Coyotito) lia um enorme livro.
Maria, «uma pobre jornaleira que nunca frequentou a escola», também um dia, olhou com ternura o filho, e disse: O meu filho irá à escola. Saberá ler e escrever. O meu filho terá conhecimentos, e será livre e nós, sendo ele descativo, também seremos livres.
O menino, ao colo da mãe, sorriu. Por certo, não terá percebido o fogo daquelas palavras, mas as mães sabem falar com os olhos ou com o suave idioma das mãos a afagar-nos o rosto. Quando David (um operário que conhecia o coração das árvores) chegou a casa, Maria escondeu a pérola que havia encontrado nesse dia.
O filho de Maria e de David escreve livros. É um homem livre e feliz nesse seu ofício de partilhar a palavra, como quem divide o pão e a dignidade. A partilha da palavra, muitas vezes, é um gesto de profunda coragem. Mas o filho de Maria e de David, como o Kino de Steinbeck, não cede a tempestades. Nunca cedeu, mesmo no Tempo da Imposição do Silêncio foi homem livre - com palavra.
A mesma palavra libertadora que espalha, que partilha hoje, no nosso tempo de incerteza e de recuo histórico.
Palavra libertadora é pois o que vão encontrar em Canto(S) nas Margens, o último livro de Mário de Oliveira, filho de Maria e David, «padre sem ofício pastoral oficial desde Março de 1973».
Nem trinta anos de democracia foram ainda suficientes para os senhores do templo levantar o «castigo» ao padre Mário da Lixa era assim que um velho comunista do Minho o nomeava quando eu era criança. E é assim hoje que, fraternamente, o trato.
O Mário nada teme, nada lhe falta porque nada tem. Padre do Povo dos pobres, «ateu dos deuses todos/ que se alimentam de gente», da miséria, da ignorância. Não «troca valores por interesses». É discípulo de Jesus: «vive no meio do mundo», fez caminho ao lado do «Povo mais sofrido».
Quando o filho de Maria e David aprendeu a ler e a escrever, disse à mãe,
«O mundo dos homens tem de ser mudado. É preciso derrubar a velha pirâmide».
A velha pirâmide é um dos cantos que integra o livro que agora se apresenta. Creio que foi cantado, em Macieira da Lixa, em pleno fascismo português.
Diz assim o poema:
«Na terra dos homens
Pensada em pirâmide
Há poucos em cima
E muitos na base
Na terra dos homens
Pensada em pirâmide
Os poucos de cima
Esmagam a base».
Mas,
«O povo dos pobres
Que vive na base
Vai fazer cair
A velha pirâmide».
É certo que a pirâmide metáfora da sociedade de classes, do capitalismo de outrora, que agora estende os longos braços por toda a parte e se chama globalização continua ainda de pé.
Precisamente por isso, a intervenção do padre Mário seja em forma de livro, seja através do jornal Fraternizar, seja nas comunidades de base em que participa é necessária e corajosa.
Os resignados não pertencem ao reino do seu Deus. O «Deus vivo que nos faz cantar como homens e mulheres livres e protagonistas no mundo e na História».
Este livro, escrito por um homem descativo e portador de fogo, é para ser cantado. Partilhado... até ao dia em que a repressiva pirâmide desapareça na terra dos homens.
Ernest Bloch dizia, Ubi Lenin, ibi Jerusalem. Eu, para terminar, digo: onde está o Mário, a esperança renasce!
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Pe. Mário na sessão de apresentação do seu livro
Apetecia-me abrir a sessão a cantar e a dançar
Pudesse eu, e abriria esta sessão de apresentação do meu livro Canto(S) nas Margens, a cantar e a dançar os cantos "Despertei para o Amor", com que ele abre e "Globalização", com que ele encerra:
- Despertei para o Amor
quando o Pobre me tocou
tomei partido por ele
tornei-me no que hoje sou
sou ateu dos deuses todos
que se alimentam de gente
onde houver libertação
aí danço de contente
- Com Jesus ressuscitado
o Feminino Humanado
nunca mais temos parança
somos Nova Criatura
enxertados na Ternura
do Deus que connosco dança
E é assim que chegaremos
custe mais ou custe menos
a um Mundo-Comunhão
a riqueza produzida
será toda repartida
eis a Globalização!
Talvez aos nossos políticos e aos nossos economistas falte o toque humano/feminino da Poesia e da Profecia que estes Cantos e este livro contêm. Essa falha explica o desastre humano, social e ecológico das suas economias e das suas políticas. Aliás, o toque humano/feminino da Poesia e da Profecia falta hoje no nosso país e no mundo, um e outro totalmente dominados e controlados pelo Império. Aquela vergonhosa foto da Base das Lajes, com os 3 + 1 assassinos do mundo, a anunciarem sorridentes o início da Guerra no Iraque, é sobejamente eloquente.
Sob o Império, até o humor é triste. Por isso, é obsessivamente porno. E que dizer das festas nas discotecas onde a droga faz vítimas em série?
A Poesia e a Profecia, quando faltam no mundo, o mundo desaprende de rir. O inverno instala-se em tudo e em todos.
Os poetas e os profetas - elas e eles - são raros. Deveríamos ser todos poetas e profetas. Mas que querem? Poeta e profeta não rimam com funcionário, com alinhado, com súbdito, com vassalo, com obediente, com castrado, muito menos, com carreirista. E disto há por aí em demasia!
Poeta e profeta rimam com rebeldia, com dissidência, com combate, com Causas, com Liberdade, com militância, com gratuidade, com entrega da própria vida, com solidariedade, com luta duélica, no jeito da mítica luta de David contra Golias. Rimam também com caminhar pelas ruas e pela vida com flores no olhar, e com as mãos a transbordar de ternura, daquela que é capaz de gerar sucessivas insurreições. É então natural que hoje haja um grande défice de poetas e de profetas.
Ser poeta e profeta é ser como um menino, uma menina:
Quando for grande vou ser
quero ser como um menino
convidar p'ra minha mesa
quem p'lo mundo é desprezado
acabar com a pobreza
quero ser como um menino
Este livro faz lembrar o poeta Aleixo. É o Aleixo com teologia dentro. É bem uma síntese de todos os meus outros livros editados até agora. O que nos outros é abordado em forma de ensaio, por isso, mais ou menos denso e pesado, aqui apresenta-se em forma de canto, de verso, de quadra, de poema.
Os cantos que eu canto nasceram nas margens, que é onde a Vida com presente e com futuro e também com memória subversiva mais acontece. Concretamente, nos grupos, nas comunidades cristãs de base, por isso, nos antípodas das cúpulas das pirâmides que teimam em erguer-se em toda a parte, inspiradas pelo sopro demoníaco do Império.
Na ilusão que o Império cria, as pessoas tendem a subir para as cúpulas e a concentrar-se nas grandes cidades. Atraídas pela luz artificial e pela Mentira, são como as borboletas que esvoaçam em redor da chama da vela, até queimarem as asas. Concentram-se aí e aí perdem a saúde, a alegria, o silêncio, a paz, o ar puro, a qualidade de vida. Tornam-se mortos que andam, como árvores.
Mas é nas periferias que a vida acontece. Sob a forma de subversão, de rebeldia, de profecia, de alternativa. Mas quem é que, hoje, ofuscado pelos holofotes da publicidade do Império, ainda crê neste Evangelho? Aliás, não foi no Império, na Roma imperial, que o Movimento de Jesus morreu, ao aceitar converter-se em Igreja/Religião católica romana, a única no Império?
O livro está dedicado a pessoas com deficiência. São pessoas minhas amigas e de quem sou particularmente amigo. Pessoas assim são as margens em carne viva, em forma humana. Uma dessas pessoas - Irene - está aqui presente. É filha dos meus senhorios, a luz dos meus olhos, a primeira pessoa que vejo pela janela, quando, em cada novo dia, me sento ao computador. É uma menina que jamais chegará a adulta, por mais anos que viva. E como menina, desperta todos os dias em mim o menino que eu quero ser, à medida que cresço em anos. Diz assim a dedicatória:
A Amélia, companheira da Comunidade cristã de base de Macieira da Lixa
que, porventura sem o saber, vive permanentemente mergulhada no Essencial que é invisível aos olhos e por isso mantém-se firme na Caminhada, como um carro de combate, contra ventos e marés.
A Martinha, de Amarante,
surpreendente canto vivo de alegria e de festa que, embora incapaz de articular uma frase, de dar um passo ou de comer por sua mão, todo o seu corpo parece explodir de felicidade e de comunicação, sempre que me vê entrar na sua casa.
A Víctor Gama, de S. Pedro da Cova,
um indomável trovão humano sentado numa cadeira de rodas que ninguém consegue calar, quando depara com situações em que outros companheiros com deficiência elas e eles são maltratados e injustiçados.
A Francelina, companheira da Comunidade cristã de base das Quartas-Feiras,
um vivo e espantoso sacramento, no meio de nós, do desconcertante e libertador humor de Deus.
A José Maia, da Associação Cultural e Recreativa As Formigas de Macieira
que, juntamente com a sua mulher Huguette, soube fazer seu o projecto Barracão de Cultura e está a revelar-se capaz de remover montanhas para conseguir a sua concretização na freguesia;
e a Irene, sua filha adoptiva
que, nas línguas de fogo da sua irreprimível alegria e no impetuoso vento do seu jeito de estar e de viver, é para nós fecunda epifania do Espírito Santo na manhã do Pentecostes.
Nas vossas diferentes deficiências, umas mais profundas, outras menos, continuais a ser para mim misteriosos e desafiadores rostos do Deus Vivo que reiteradamente nos salta ao caminho e nos grita a Boa Notícia de que a vida humana em plenitude, só mesmo nas margens consegue ser vivida. Aqui vos deixo a minha pública gratidão.
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Director do Jornal Fraternizar foi um dos depoentes
Tribunal Mundial sobre o Iraque
100.000 mortos, ouviram bem?
A sessão decorreu no dia 12 de Novembro 2004, no amplo salão da Cooperativa Árvore, que estava a abarrotar. Nenhuma rádio presente. Nenhuma televisão. Nenhum telejornal. A mais completa conspiração do silêncio. A guerra do silêncio. Como se os tiros e as bombas do Império fossem tigres de papel. Ainda pior que a guerra é esta postura de vassalagem. Os povos não são vassalos. Apenas os chefes, quando vivem agarrados aos privilégios como o cão ao osso. Fiquem, ao menos, com a intervenção integral do pe. Mário.
Introdução
Pedem-me para depor neste Tribunal Mundial sobre o Iraque. Não posso dizer que não. Aqui estou. De corpo inteiro. Trago comigo a guerra ainda em curso, apesar de já ter sido dada oficialmente como terminada. Trago comigo as muitas dezenas de milhar de feridos. As lágrimas e as dores e as aflições sem conta de todo um povo. As suas revoltas. As suas justas iras. E as suas cidades, algumas património cultural da Humanidade, sacrilegamente destruídas. Sobretudo, trago comigo os mais de cem mil mortos que a guerra em curso já fez. Cem mil mortos, ouviram bem? Não cabem todos nesta sala, eu sei, mas deixem-nos entrar. Deixem que se sentem connosco nesta sessão. Deixem que invadam as nossas casas. Que perturbem o nosso sono. Que sacudam as nossas quotidianas rotinas. Que estraguem as nossas festas. São cem mil vidas a maior parte delas mulheres e crianças abruptamente truncadas. Cem mil rostos que nos interpelam. Cem mil pares de olhos que nos olham fixamente nos olhos. Cem mil bocas que perguntam: Que mal te fiz eu, que mal vos fizemos nós, para que invadísseis o nosso país, bombardeásseis as nossas cidades e assassinásseis as nossas vidas? Que tipo de seres humanos sois vós, os ocidentais? Que tipo de prazer podeis sentir em invadir o nosso país e em matar-nos indiscriminadamente? Será que sois de outro planeta? Será que já não tendes entranhas de humanidade? Será que já só tendes interesses lá onde era suposto que deveríeis ter entranhas de humanidade e de solidariedade? Porque nos odiais tanto? Se é o nosso petróleo que cobiçais, porque nos matais antes de o roubar? E com que direito o cobiçais? O presidente Saddam Hussein metia-vos medo? A partir de quando? É que houve um tempo em que ele foi considerado vosso aliado. As armas dele eram perigosas para vós e para o resto do mundo? E as vossas, será que são armas-faz-de-conta, coisa-de-brincar? Não são armas muito mais sofisticadas que as dele e muito mais mortíferas que as dele? De resto, não foram as vossas armas que nos mataram e que continuam a matar indiscriminadamente no nosso país e em tantos outros pontos do globo? Que medos inconscientes são esses que vos habitam, e que frustrações individuais e colectivas são essas que vos levam a ter tanta necessidade de perpetuar uma Ordem Mundial em forma de império, incompatível com a existência de pessoas insubornáveis e de povos que prezem a sua dignidade e a sua identidade? Quando deixareis definitivamente a fase da adolescência, para vos assumirdes como indivíduos e povos maduros, adultos, a viver em concertação e em diálogo com os demais, no respeito pelas diferenças? Porque não sois simplesmente humanos, irmãos universais de todos os outros povos que, como vós, habitam o mesmo planeta? Porque tendes tanta necessidade de ser Caim, e de alimentar uma Ordem Mundial à Caim, feita de mentira, que nos mantém a todas, todos cativos na injustiça, quando poderíeis ser simplesmente Abel e criar uma Ordem Mundial à Abel, feita de verdade, que nos libertaria a todas, todos, para a liberdade?
Neste meu depoimento, pedem-me que me pronuncie sumariamente sobre três questões muito concretas. É o que vou fazer, depois desta introdução. Com toda a simplicidade. Não sou juiz de ninguém. Sou apenas uma testemunha viva que vê, que ouve e que lê e, por isso, não pode ignorar. Não condeno ninguém. Nem peço a condenação de ninguém. Condeno e peço a condenação dos perversos Sistemas económico-financeiros e político-religiosos que herdamos e que teimamos em alimentar. Sadicamente. São Sistemas idolátricos que produzem vítimas humanas e outras aos milhões e, coisa ainda pior, que se alimentam de vítimas humanas e de outras aos milhões. Condeno e peço a condenação das ideologias absolutistas que nos deformam e nos transformam em monstros. Conquistadores. Exploradores. Assassinos. Genocidas. Imperialistas. Ladrões. Dominadores. Opressores. Idólatras. Algozes. Carrascos. Funcionários. Súbditos. Vassalos. Coisas. Minhocas.
É esta a 1ª questão concreta: As acusações contra o Iraque (armas de destruição maciça, exércitos invencíveis, suporte de redes terroristas internacionais etc.) que se provaram serem falsas resultaram de enganos, de erros de informação ou foram montagens para iludir a opinião pública e fazer da guerra um facto consumado?
A esta questão respondo:
O Império, como sistema histórico perverso que é, tem ilimitada capacidade de produzir mentira e de a fazer passar por Verdade. O nosso António Aleixo já o disse duma forma assombrosamente sucinta e profunda: “P’rá mentira ser segura / e atingir profundidade / tem que trazer à mistura / qualquer coisa de verdade”. O império mente. É da sua natureza ser mentiroso e pai de mentira. É por isso que gera escravos, servos, vassalos, em lugar de seres humanos. Só a Verdade gera liberdade, seres humanos livres, criadores, inconfundíveis, únicos, irrepetíveis, poetas, profetas, artistas, sábios.
Quando mente, o Império faz o que lhe é próprio. Será ingenuidade esperar que o Império alguma vez diga a verdade. Se o fizer, age contra si próprio e entra em colapso. Do Império, sempre havemos de esperar a Mentira, feita de pequenas/grandes mentiras em série. E, se não mantemos esta postura frente ao Império, é sinal que já lhe caímos nas malhas, já somos seus súbditos, seus lacaios, seus vassalos.
No que respeita ao Iraque, não hesito em responder que o Império só nos deu mentiras. Tudo o que disse foi mentira. E foi com base nessa Mentira feita de mentiras que tentou colocar a Humanidade a favor das suas posições, nomeadamente, da guerra que estava determinado a consumar.
Ao Império interessava invadir o Iraque. Ocupar o Iraque. Apoderar-se do Iraque. Do petróleo do Iraque. Interessava-lhe um Iraque destruído, submisso, súbdito, subserviente, como o que já começa a ter nos funcionários iraquianos que fazem parte do actual governo de transição, em ordem a uma farsa de todo o tamanho chamada eleições livres. Como era isso que lhe interessava, foi isso que fez. Quando se deu conta que, se calhar, pela primeira vez na História, a esmagadora maioria da Humanidade não acreditava na sua Mentira, na sua propaganda, estremeceu, mas não desistiu.
Aparentemente, o mundo esteve à beira de ficar, pela primeira vez na sua história, sem império de turno. Mas ainda não chegou a hora de tamanho triunfo da Humanidade. E foi então que o Império concebeu e realizou aquela pirueta publicitária nos Açores, com o seu próprio chefe e mais dois compinchas, um imperialista e outro com vontade de o ser no próximo futuro. Aos três filhos da Mentira ou filhos da Puta, ou filhos do Diabo, ou filhos da Besta, conforme nos expressemos, respectivamente, na língua popular, na língua teológica do Evangelho de João, na língua teológica do último Apocalipse cristão juntou-se à última hora um quarto elemento, que o mundo ainda não conhecia. Foi o lacaio dos três, sem aspirações a imperialista. Bastava-lhe um qualquer galho no circo das vaidades, onde pudesse exibir a sua própria. Pelos vistos, portou-se tão bem, que já recebeu o rebuçado de compensação. Por isso, a Europa que se cuide, que o nosso homem é capaz de tudo para agradar ao Império e ao seu chefe de turno.
No dia seguinte àquela pirueta de circo nos Açores, a guerra eclodiu no Iraque contra o sentir e o querer da maioria da Humanidade. Porém, a Mentira do Império ficou sobejamente desmascarada. E a verdade é que nenhum dos pressupostos em que o Império pretendeu fundamentar a invasão e a guerra de destruição maciça do Iraque se confirmou no terreno. Mesmo assim, o Império mostra-se incapaz de reconhecer a monstruosidade da sua decisão. Deixaria de ser o Império, se o fizesse.
Entretanto, como ele continua aí arrogante nos seus pés de barro, também os seus súbditos não deixam de o aplaudir. De joelhos. Ou mesmo de cócoras. Às suas sucessivas blasfémias, os seus súbditos na América e na Europa, repetem sem cessar: “Ámen”. Há muito que renunciaram a ser seres humanos. Preferem ser súbditos do Império. Coisas.
Passo agora à 2.ª questão: Quem construiu, em Portugal, essa central de intoxicação? Só o governo? A comunicação social em particular alguns “fazedores de opinião” não pode ser responsabilizada por ter alinhado premeditadamente nessa campanha de intoxicação e mentira?
A esta segunda questão, respondo: Nem o governo, nem a comunicação social criaram no nosso país a central de intoxicação sobre o Iraque, de modo a justificar a criminosa guerra que ainda perdura. O Império é que faz isso em todo o mundo. Por isso é Império. O Império, como deus criador de mentira que é, apenas precisa de instalar pequenas centrais de difusão em todos os países do mundo, para melhor poder atingir todos os indivíduos e todos os povos. Os governos dos diversos países, assim como os media e, porque não dizê-lo?, as Igrejas, ou são ferozmente anti-Império, ou são automaticamente braços compridos do Império, melhor, são o Império encarnado e actuante em cada canto do mundo. Infelizmente, no nosso país, o Império tem hoje um governo à altura de todas as desonestas missões que se propõe, nem que seja através dum pequeno contingente de militares da GNR. É um governo feito de súbditos, de funcionários, de humanóides que ainda não chegaram à estatura de seres humanos. Vestem arrogância, respiram hipocrisia, servem ignorância, discursam mentiras, realizam ilusionismo, levam-nos até a camisa, põem o país a pique para o abismo. E tudo isto com a bênção e o placet do Presidente da República, com preocupante vocação para político suicida.
Os media, com excepção dos que estatutariamente estão obrigados a ser “a voz do dono”, ainda conseguem dar voz aos dissidentes do Império, mesmo quando o respectivo director alinha descaradamente por ele. Se não são manifestamente anti-Império (alguma vez será possível ser um dos grandes media e ser, ao mesmo tempo, anti-império?), também não são descaradamente Império. Basta ver como o Império, na sua maior sucursal no nosso país, que é o actual Governo, anda aflito com tanta insubordinação nas redacções e como desabridamente tenta silenciar as vozes mais incómodas e as consciências profissionais mais libertas e coerentes.
Houve, é verdade, uns quantos profissionais da comunicação social, pomposamente conhecidos como “fazedores de opinião” a mim já não me afectam eles! que, porventura, ingenuamente, tomaram por verdade a Mentira do Império. E disseram cobras e lagartos contra os camaradas que não lhes seguiram nem seguem os passos. Todos os dias, de múltiplas maneiras, foram e continuam a ser caixas de ressonância do Império entre nós.
Tamanha ingenuidade em profissionais de comunicação social levanta uma questão de fundo: será que, depois disto, eles ainda podem manter a carteira profissional de jornalista? Não é condição sine qua non, para se ser jornalista, que já se tenha deixado para trás a consciência ingénua?
E com esta pergunta, entro de imediato na 3.ª questão sobre a qual me pedem que me pronuncie:
Deve-se-lhes, ou não, exigir uma retractação pelo que com todo o despudor andaram a “vender”?
No meu entender, não. Eles é que se devem a si mesmos essa retractação. Se o não fizerem, então já nem sequer podem ser olhados como ingénuos. São descarados colaboracionistas do Império. Como os publicanos no tempo de Jesus, o de Nazaré.
E vamos então cair-lhes em cima com todo o nosso desprezo, como fazia a sociedade judaica do tempo de Jesus em relação aos publicanos?
Haverá certamente quem pense que sim e o faça. Não é isso que aqui peço, embora condene com toda a veemência essa sua postura de colaboracionistas do Império. Entendo que essa postura, só por si, já é reveladora de tão grande desumanidade, de tanta baixeza intelectual e de tanta deslealdade para consigo mesmos, que sou incapaz de vir aqui pedir para eles todo o nosso desprezo. Para eles, peço sim todo o nosso acolhimento, toda a nossa solicitude, todo o nosso carinho, toda a nossa convivência. Se conseguirmos ser plenamente humanos com eles, talvez ainda acabe por despertar, pelo menos, em alguns o gosto de serem humanos também. E poderemos, então, vir a ter a alegria de os ver, um dia destes, a organizar em suas casas, à semelhança do que fizeram em seu tempo Mateus e Zaqueu, um banquete de festa, para, desse modo, assinalarem o primeiro dia do resto das suas vidas. Como seres humanos. Visceralmente anti-Império.
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Carta aberta do teólogo González Faus aos prelados espanhóis
Meus irmãos Bispos
Os Bispos do Estado espanhol estão cada vez mais de cabeça perdida, devido às medidas legislativas que o Governo de Zapatero está a tomar contra certos privilégios da Igreja católica. Em lugar de se mostrarem agradecidos e cooperantes, os Bispos fazem ameaças. É por isso mais que oportuna a Carta Aberta que o célebre teólogo J. I. González Faus, sj, lhes dirigiu.
Neste verão, algumas intervenções ou discursos da autoridade eclesiástica provocaram dor e protestos na opinião pública. Tanto, que alguém de entre vós chegou a falar de um renascer do anti-clericalismo e de perseguição contra a Igreja. Não ignoro as manifestações sectárias de alguns anti-clericalismos hispânicos. Mas receio que o que vós chamais perseguição não seja mais do que a saturação e o fastio duma boa parte da sociedade (tanto de não crentes como de muitos cristãos) contra modos de actuar vossos que são para nós difíceis de entender.
Estas linhas pretendem dizer-vos, a partir de dentro e da fraternidade, o que muitas outras vozes dizem a partir de fora e de falta de consideração. Procurei contar até cem antes de falar (não cem segundos, mas cem dias), para o fazer com calma e sem ressentimento. Quero ser cristão e sê-lo com a máxima fidelidade ao Evangelho. Porém, devo confessar-vos que a instituição eclesiástica é a cruz da minha fé. E no curto espaço de que disponho, gostaria de vos dizer porquê:
1. Não estamos a ser testemunhas do Deus Vivo, mas de um passado morto. Como seguidores de Jesus, parece que a nossa tarefa deveria ser: "Anunciar ao homem de hoje o Mistério mais profundo, mais santo e libertador da sua existência, que o redime do medo e da auto-alienação, ao qual chamamos Deus... Mostrar ao homem de hoje o caminho que conduz de maneira credível e concreta para a liberdade de Deus". Em vez disso, moralizamos precipitadamente contra tudo o que nos incomoda. Esquecemos que "a tradição só pode manter-se lá, onde se procura honestamente novos caminhos e novos meios de vida". (As duas citações e as que vêm a seguir sem nenhuma outra referência neste texto, são de K. Rahner).
2. A imagem que damos da Igreja não é a de um "sacramento de salvação" (sinal de que Deus se identificou gratuita e definitivamente com este mundo pecador), mas a duma instituição resmungona e senil que, com base em quesílias, se mostra mais preocupada em defender-se a si própria do que em educar. Não poucas vezes e no que tem a ver com conteúdos concretos, talvez eu próprio estivesse mais perto de vós do que da cultura em que me movimento. Porém, o que a sociedade adulta já não suporta é esse tom de que somos os únicos bons e tudo o resto é mau. Por isso:
3. Não damos de modo algum a sensação de amar de verdade este mundo, ao qual, diz o Evangelho que Deus amou tanto, que lhe enviou o seu Filho, não para o condenar, mas para o salvar. Por pior que ele esteja, o objecto do amor de Deus continua a ser este mundo, não a Igreja. Esta deve ser apenas o sinal e o veículo desse amor; e não pode olhar o mundo como o campo do mal, que ela deve dirigir e controlar, ou do qual se deve afastar, para viver noutra órbita, como se não tivéssemos nada a aprender com ele. "Por que não nos atrevemos a dizer com humildade e serenidade, adaptando um pouco uma afirmação de Agostinho: muitos dos que Deus tem, também a Igreja tem, e muitos dos que a Igreja tem, Deus não tem?"
4. Não podemos continuar a crer que toda a sociedade é católica, salvo apenas umas poucas vozes mais ruidosas que, ou negam a fé ou não a reconhecem nas proclamações da Instituição, mas que, bem vistas as coisas, não passam de minorias sem qualquer significado (ainda que ampliadas pelos media). O facto é este: "O comportamento de certos católicos, do tipo convencido, duro e militante, tem algo de primitivismo cultural, algo do carácter da pequena burguesia que se fecha em si mesma e se entrincheira num gueto. Tais homens fecham-se sobre si e comportam-se como se no mundo só existissem cristãos". Mas não é este o mundo em que hoje nos movemos, salvo para quem ainda não superou o nacional-catolicismo.
Para dar apenas dois exemplos: surpreende o reducionismo que fazeis da fé cristã a temas de moral sexual; surpreende também a vossa pretensão de que a legislação civil reflicta o que considerais lícito neste campo. Nos evangelhos há apenas duas passagens referidas à moral sexual e são, certamente, exigentes como o é todo o Evangelho.
Porém, o olhar de Jesus dirigia-se muito mais ao sofrimento humano, à enfermidade, às opressões realizadas em nome de Deus ou do Dinheiro, à mulher marginalizada, à possibilidade da paz interior, e a todas essas pequenas conquistas de liberdade que, quando se verificavam, Jesus as interpretava como sinais de que o Reino de Deus estava a chegar.
Muito mais duro é o Evangelho com os ricos, embora este facto pareça que não chega a ser preocupação pastoral para vós. As vossas palavras parecem-se mais com as do romano Catão, do que com as do judeu Jesus, chamado O Cristo.
O outro exemplo tem a ver com o ensino da religião na escola. É, sem dúvida, um problema ainda por resolver. Mas entre os meus muitos amigos não crentes, uns 90 por cento são fruto daquelas aulas de religião na escola franquista. E isto faz-me perguntar: é tão importante assim a obsessão por "grandes plataformas", quando depois temos tão pouco que dizer às pessoas, a partir delas? Jesus enviava os seus a pregar, impondo-lhes uma notável pobreza de meios, mas dando uma grande riqueza de conteúdos. Parece que nós, ao contrário, nos empenhamos em evangelizar com grande riqueza de meios, mas com notável pobreza de conteúdos.
Todos rezamos no Breviário: "Ajuda com a tua Graça aos bispos da Igreja, para que com gozo e fervor sirvam o teu povo". Esse serviço gozoso implica um grande amor à liberdade: pois, embora os homens abusemos muitas vezes dela, só o que resulta duma liberdade total merece o nome de autêntica bondade humana.
E, já agora, desculpem estas minhas palavras. Mas creio estar dentro do magistério eclesiástico e do Catecismo, que defendem a necessidade da opinião pública e até da crítica na Igreja. Embora depois, como vingança camuflada, as consequências me cheguem por outro lado.
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Os 150 anos sobre o dogma da Imaculada Conceição no Sameiro
Ela gosta dos lugares altos!
E os bispos também!...
No dia 8 de Dezembro de 2004, o alto do Sameiro, em Braga, deixou na sombra o alto da Serra d'Aire. Os bispos portugueses trocaram a senhora de Fátima pela senhora do Sameiro. Não admira. Fazia 100 anos que a cabeça da senhora do Sameiro passou a ostentar uma coroa de ouro e safiras!... Além disso, o santuário dela recebeu, nesse dia, a rosa de ouro, oferecida pelo Papa.
Vejam só com o que se ocupa a hierarquia da nossa Igreja. Frequentam os lugares altos, como os sacerdotes das deusas dos cultos do Paganismo do tempo dos profetas bíblicos. Querem-nos convencer, deste modo, que a senhora do sameiro e a senhora de fátima são Maria, mãe de Jesus. Mas então a humilde mulher de Nazaré é, ao mesmo tempo, a senhora do sameiro, a senhora de fátima, a senhora da saúde, a senhora do rosário, a senhora da aparecida, a senhora de lourdes, a senhora do ó, a senhora dos aflitos, a senhora da conceição? Haja modos, senhores bispos!
Está visto que os bispos portugueses e o Papa João Paulo II, bispo de Roma, não têm emenda. Dizem-se cristãos, mas insistem nos cultos míticos do Paganismo, em honra das múltiplas imagens da deusa virgem e mãe, uma para cada necessidade das muitas que as populações empobrecidas e deprimidas conhecem por experiência própria. Em lugar de chamarem a tempo e fora de tempo as populações empobrecidas e deprimidas para uma prática política libertadora que obrigue a economia a colocar-se por inteiro ao serviço das reais necessidades e das legítimas aspirações de todas as pessoas e de todos os povos!...
Os profetas bíblicos, 700 anos antes de Jesus nascer, já se viam gregos com os cultos idolátricos das populações à imagem da deusa Asterté, cujo santuário era tanto ou mais concorrido que o do Sameiro ou o de Fátima, mas os nossos bispos e o nosso Papa João Paulo II, em lugar de prosseguirem no mesmo caminho desalienador e de distanciamento em relação a estes cultos idolátricos e outros igualmente degradantes, como o culto ao deus Dinheiro ou ao deus Mercado, preferem proceder como os sacerdotes do Paganismo e colocam-se do lado da deusa, precisamente naquele lugar de destaque que ela sempre reserva aos seus cúmplices. É também por isso que eles vestem diferente, usam anel de ouro no dedo, fazem-se cobrir com aquela "cartola" flamejante, seguram um báculo de poder que os afasta dos pobres e de Jesus de Nazaré, ainda que os aproxime dos príncipes/administradores do antigo Império romano. Nem sequer se dão conta do ridículo em que caem. Nem da total contradição com o Evangelho de Jesus que lhes cumpre anunciar, pois para isso foram ordenados bispos!
E que dizer dos 150 anos da proclamação do dogma da Imaculada Conceição da "Virgem"? (sabiam que este título "Virgem" foi roubado pela Igreja católica romana à mítica deusa virgem e mãe? Era a esta, e não a Maria de Nazaré, que as populações chamavam "Virgem"!)
Mas então os nossos bispos não sabem, já, que o pecado original historicamente nunca existiu, como tal, não faz mais qualquer sentido manter na Igreja um dogma como o da Imaculada Conceição? Como se pode proclamar que Maria, a mãe de Jesus, foi isenta de pecado original, na sua conceição, no útero da sua própria mãe, se este historicamente nunca existiu? Como se pode ser isento duma coisa que nunca aconteceu? Não sabem, já, os bispos que o relato bíblico que o refere não passa dum relato mítico das origens, concebido para explicar poeticamente a origem do sofrimento e da "desordem" no mundo? Por outro lado, quem pensam os bispos que são, para virem dizer que as nossas mães nos conceberam em pecado? Alguma vez o acto de amor entre um homem e uma mulher é pecado? Só se for na mente pervertida de algum eclesiástico, nunca na mente de Deus Criador que nos fez co-criadoras, co-criadores com Ele.
É verdade que o Papa Pio IX definiu, em 1854, o dogma da Imaculada Conceição de Maria. Problema dele. Como Papa, tinha obrigação acrescida de intuir que todas, todos fomos/somos concebidos em graça, não em pecado! Deus, não é o Deus da graça? Todas, todos fomos concebidos em graça, não apenas Maria, mãe de Jesus. O que não for assim é insulto a Deus!
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Livros do trimestre
Ausência / Nelson Ferraz
À esquerda de Deus
O que poderemos encontrar à esquerda de Deus? Ninguém sabe. Mas todas, todos nós podemos saber o que o escritor Nelson Ferraz nos oferece com este seu mais recente livro, "À esquerda de Deus". Basta procurá-lo num local onde se vendem livros e folheá-lo, ao acaso. Qualquer das crónicas que nos caia debaixo dos olhos prende-nos e dificilmente conseguiremos parar a meio. A solução é pegar no livro e trazê-lo connosco para casa.
Ao todo, são 96 crónicas que "mordem" a nossa actualidade. E ainda há a agradável surpresa, logo a abrir, do texto de apresentação de um outro escritor e jornalista, José Viale Moutinho, de seu nome, que logo de entrada nos adverte que "Nunca ninguém levantou voo, que não fosse contra o vento".
Pelos títulos das crónicas, intuímos da oportunidade e da acutilância dos temas abordados. Eis alguns: "Fuinha"; "Os senhores e os chefes"; "Deus é um gajo porreiro"; "O bebé da fralda negra"; "É quase abril, meu amor"; "Figuras e figurões"; "Heróis do mar, nobre polvo..."; "Os 'Quins' e os 'Cães'"; "A páscoa não existe"; "Tachos encomendados".
A Editora Ausência foi a primeira a deixar-se cativar por esta obra e editou-a. Agora, é a nossa vez!
Notícias Editorial/E. P. Sanders
A verdadeira história de Jesus
Os responsáveis pela edição portuguesa deste livro não hesitaram em escrever no topo direito da capa, ainda antes do título: "Tudo o que se pode, com rigor histórico, saber sobre Jesus". E na contra-capa inseriram várias apreciações empolgadas sobre a obra, a começar pela do Bispo castrense, D. Januário Torgal Ferreira. Só não dizem é que o livro, inexcedivelmente bem traduzido pela teóloga Teresa Martinho e Marian Toldy, chegou a Portugal com 10 anos de atraso sobre a 1.ª edição original. E 10 anos, hoje, é muito tempo, no que respeita a descobertas sobre o Jesus histórico. Mas essa é, sem dúvida, uma das maiores debilidades deste livro.
O autor é um especialista em cristianismo e judaísmo de renome mundial. Felizmente, não é o único. Por outro lado, a chave hermenêutica a que recorre, para se aproximar de Jesus, é a da "restauração escatológica". O que, à partida, pode constituir e constitui de facto uma redução na compreensão de Jesus, por parte das pessoas deste tempo. Outros especialistas em Jesus histórico preferem a chave política e, com ela, conseguem dar-nos dele uma dimensão nunca antes percebida pelas teologias e pelas cristologias até hoje.
A presente obra, a todos os títulos recomendável, melhor, obrigatória, leva-nos até à Galileia e à Judeia do século I e até àquele Jesus que se movimentou nesses ambientes, mas não nos apresenta Jesus para hoje, para os nossos aqui e agora. E isso deve-se, entre outros motivos, à chave hermenêutica a que o autor recorreu. Fosse política e não escatológica a chave hermenêutica e outro seria o resultado desta investigação sobre Jesus histórico. A pessoa de Jesus não nos apareceria tão naquele então, mas cresceria até ao nosso hoje e aqui. A obra ganharia outra "força", teria outro impacto e também outro acolhimento entre as nossas concidadãs, os nossos concidadãos.
Mesmo assim, é manifesto que, depois deste livro, as Igrejas não podem prosseguir com as suas catequeses de crianças e de adultos, como se não tivesse havido este verdadeiro "cataclismo".
O livro deixa claro que Jesus teve irmãs e irmãos de sangue, que Maria, mãe de Jesus, não é virgem "antes, durante e depois do parto", que os "milagres" não são milagres, que Jesus não quis sofrer nem morrer pelos nossos pecados. Haverá coragem nas Igrejas para mudar radicalmente o teor das suas catequeses?
Sal Terrae/L. Boff
A crise como oportunidade de crescimento
A edição original deste livro é em português do Brasil (Animus/Anima Produções Botafogo, RJ). Acaba de aparecer em Espanha, nas Edições Sal Terrae. É uma pérola de espiritualidade a não perder.
O livro, de 209 páginas, "faz-se" em 4 partes: I. A crise do nosso tempo: riscos e oportunidades. II. A espiritualidade como resposta à crise. III. Espiritualidade e vida religiosa. IV. Espiritualidade, Política e Contemplação.
"Para quem sabe cuidar e esperar, até o espinho se converte em flor, e a terra seca em jardim. Porque o Espírito que enche o universo está sempre em actividade, especialmente hoje. Lá, onde o risco é grande, também o é a inspiração do Espírito em ordem a um novo horizonte de vida e de esperança."
São palavras do autor, no curto preâmbulo da obra. Dizem bem de que tipo é o "sopro" que perpassa em todas as suas páginas. Se gosta de libertação para a liberdade, corra pelo livro!
Sal Terrae/ Len Sperry
Sexo, Sacerdócio e Igreja
O título, só por si, já diz muito. Mas se ao título, acrescentarmos que o autor é doutor em medicina e em filosofia, e professor de psiquiatria no "Medical College" de Wisconsin e já tem mais de 40 livros publicados, está dada a garantia de que se trata duma obra com tudo para ser um êxito. Boa leitura!
"A supressão da exigência do celibato acabaria realmente com a pedofilia dos sacerdotes? De que estamos a falar: de desenvolvimento da identidade de género, ou de desenvolvimento psico-sexual? Quando o menor tem mais de 13 anos, não estamos perante casos de efobofilia? O cumprimento das cláusulas do Estatuto dos bispos, não contribuirá para que aumente ainda mais a escassez de sacerdotes?"
É com estas perguntas, mais do que oportunas, que o autor parte para o seu trabalho. Por elas se vê que o livro interessa a todas as pessoas deste nosso tempo, mas especialmente às pessoas que têm responsabilidades na Igreja. Assim haja coragem para mergulhar nas suas doutas páginas.
Campo das Letras/Volodia Teitelboim
NERUDA
Este livro é um monumento. Como a vida do próprio Neruda. O Chile que serviu de berço ao Poeta explodiu com a sua Poesia e tornou-se todo o universo. Felizes as pessoas que mergulharem nestas páginas. Nunca mais poderão gostar dos Pinochets e dos Bush. Corram então por esta obra e não se assustem diante das suas 568 páginas, aliás, muito poucas, para se falar da vida histórica de um Homem com a estatura de Neruda! Fiquem, para começar, com um pedaço com que termina o livro, p. 544-545.
"Se se perguntar quanto demorou exactamente no seu regresso a Isla Negra, a estatística responderia com certa e fria precisão: dezanove anos e três meses. Decorreram mais de sete mil dias e mais de sete mil noites. O país kafkiano, das duplas exéquias, ou dos que não têm nenhuma por estarem desaparecidos, no caso de Neruda ofereceu-lhe triplos funerais.
Muitas crianças sabem que ele escreveu um Livro de Perguntas, mas as interrogações continuam a crescer: - Senhor, tem preparada a sua carta de apresentação para o Terceiro Milénio? - Comecei a escrevê-la em 1923. - Com que nome? - O que se sabe. - Mas quem é você? - Neftalí por parte da mãe? - Ricardo? Eliecer? «Recordo o dia em que perdi os meus três primeiros nomes». Don Ninguém ou Don Toda a Gente? Quantas e quais foram as suas vidas? As de um sonhador, de um rabelaisiano, de um mulherengo («não há um primeiro livro sem mulher»), de um profeta, de um ecologista (avant la letre), «um animal de luz dominado / pelos seus erros e a sua folhagem»? Um revolucionário, um construtor de casas, um casamenteiro, um armador de festas e de barcos dentro da garrafa? Foi alguém que pediu «piedade para estes séculos e seus sobreviventes» e, no entanto, embora matassem a verdade à paulada ou com mentiras, foi um homem de esperança, alguém que disse «louvada seja a terra cor de excremento. / As suas cavidades, os seus ovários sacrossantos, / (...) a maldita prole que faz a luz do mundo».
Sim. Foi tudo isso e certamente alguma coisa mais. Mas que coisa mais? Se desejam sabê-lo, perguntem isso à sua poesia. E, em definitivo, quem é e donde vem? «Sou dos vinhedos negros de Parral, / da água de Temuco, / da terra estreita, sou e estou.» É aquilo que foi e o que será.. Um homem que está lá em cima do promontório a olhar o mar."
Trotta/Jon Sobrino
Cartas a Ellacuría
O livro tem apenas 153 páginas, em formato recolhido. Mas que grandeza sopra no seu interior! É um livro como o Evangelho. O Evangelho de Ellacuría, segundo Jon Sobrino. Um mártir que escapou do massacre - na hora, estava em missão no estrangeiro! -escreve cartas ao mártir que mataram. Não é um livro para ler com os olhos. É para escutar com o coração. Mas cuidado. É o Espírito Santo quem nos fala neste livro.
Todos os anos, durante os últimos 15, o teólogo Jon Sobrino aproveitou a data do aniversário do massacre dos jesuítas da UCA (Universidade de San Salvador) e das duas funcionárias que trabalhavam com eles e para eles, para escrever uma carta a Ellacuría, sem dúvida, o principal cérebro do grupo que o regime ditatorial de então não podia suportar vivo. Nele, dirige-se, evidentemente, a todos os demais companheiros e às duas funcionárias.
O volume recolhe-as todas. Para que muitas mais pessoas possam beneficiar desta sã teologia, deste evangelho na continuação do de Jesus. Mergulhem nestas páginas. São graça.
Nueva Utopia/Júlio Pérez Pinillos
Os padres operários em Espanha
"Limitar-me-ei a fazer uma crónica narrativa do nascimento e desenvolvimento do colectivo de padres operários de Espanha, que tem início no começo dos anos sessenta, graças ao carisma e ao profetismo de alguns sacerdotes e religiosos." Assim escreve, a abrir, o autor, porventura o padre operário vivo mais conhecido de Espanha e da Europa, por força da sua militância sem desfalecimento.
O livro é o resultado duma tese de licenciatura em Teologia Prática, dirigida por outro teólogo de Espanha muito conhecido, Julio Lois, de seu nome. Como o título indica, está virado sobretudo para a realidade eclesial espanhola, mas ninguém, fora do país vizinho, sai defraudado, se se debruçar sobre o seu conteúdo. Nestas páginas, ganha corpo um modelo de Igreja alternativo ao modelo clerical, de má memória. E isso faz toda a diferença.
Editorial Trotta/E. P. Sanders
Jesus e o Judaísmo
"A finalidade deste livro é investigar duas questões relacionadas entre si no que respeita a Jesus: o que é que ele pretendia e quais as relações dele com os seus contemporâneos no marco do judaísmo. Estas duas questões levam-nos de imediato a outras duas: a causa da sua morte (implicavam as suas intenções uma oposição tal ao judaísmo, que haveria de conduzi-lo à morte?) e o impulso que motivou o aparecimento do cristianismo (a cisão entre o movimento cristão e o judaísmo teve a sua origem numa confrontação histórica entre Jesus e este último?)."
As palavras são do autor, a abrir a introdução. A obra espraia-se ao longo de 540 densas páginas e tem todo o aspecto duma obra de tese. Apesar disso, é relativamente acessível a todas as pessoas de fala espanhola e a todas as outras que estejam à vontade com a língua de Cervantes. Se se pode aqui formular uma lamentação, será esta: que uma obra tão determinante, para podermos entender mais profundamente Jesus e o movimento radicalmente libertador e igualitário entre mulheres e homens que com ele se iniciou, só agora seja traduzida para uma língua fora da língua inglesa em que originalmente apareceu em 1984, já lá vão precisamente 20 anos! Que estiveram a fazer as Igrejas na Ibéria? E as editoras ditas católicas ou da área protestante? Ou será que um tal "descuido" foi intencional, para que as populações continuassem vítimas do obscurantismo e seguissem como "carneiros" as catequeses eclesiásticas cheias de inverdades, no que respeita a Jesus e ao movimento que com ele se iniciou?
"Jesus - escreve o autor, em jeito de conclusão da sua investigação - compreendeu-se a si próprio como o último mensageiro de Deus antes do estabelecimento do Reino. Buscava uma nova ordem que seria criada mediante uma acção poderosa de Deus. Nesta nova ordem, voltariam a reunir-se as dozes tribos, haveria um Templo novo, não haveria necessidade do poder das armas, o divórcio não seria necessário nem seria permitido, os marginalizados - inclusive, os malvados - teriam o seu lugar e Jesus e os seus discípulos - os pobres, mansos e humildes - seriam os seus dirigentes. Jesus tinha discípulos dedicados que aceitaram as suas expectativas, fizeram-nas suas e viram-se implicados numa certa transformação delas depois da morte e ressurreição dele. Além disso, as massas também o seguiram. Estas sentiram-se atraídas, tanto pelas suas curas, como pela sua mensagem que lhes anunciava um lugar poreminente no Reino. Alguns, impressionados pela sua mensagem e pelo seu poder, viram-no como uma das grandes figuras do passado de Israel, outros, possivelmente, como «filho de Deus»."
Mais adiante, escreve o autor: "O que é inquestionavelmente único no caso de Jesus é o resultado da sua vida e da sua obra. Estas culminaram na ressurreição e na fundação de um movimento que teve continuidade. Não posso oferecer [aqui] uma explicação especial ou uma reconstrução plausível das experiências que os discípulos tiveram da ressurreição. Nas cartas de Paulo podemos observar a força e importância que estas tiveram. No meu entender, estas experiências são únicas quanto ao seu efeito. [...] Os discípulos estavam preparados para algo. O que receberam inspirou-os e fortaleceu-os. O que é único e diferente é este «o que»." E que tal mergulhar no livro?
Trotta/Juasn Velasco (editor)
A experiência mística.
Estudo interdisciplinar
Em Jesus de Nazaré, a sua vivência mística levou-o a enfrentar o Sistema impiedoso e cruel que mentirosamente se cobria com o nome de Deus. O resultado, como se sabe, foi a morte na cruz, porque o Sistema não perdoa a quem o não adora/idolatra. Fossem assim todas as místicas, todos os místicos e o nosso mundo estaria hoje bem melhor.
Vem isto a propósito do livro que aqui se apresenta, "A experiência mística". Nem sempre quem se debruça sobre a mística o faz com este critério jesuânico. E o resultado é o que se sabe. Porque não há mística a sério, quando quem a vive se evade do mundo, da Política e da História.
Por isso, é mais do que oportuno este livro coordenado e dirigido por Juan Martín Velasco. Os trabalhos que o "fazem" revelam-se saudavelmente críticos. São assinados, para além do editor, por Jesús García Recio, Julio Trebolle Barrera, San
tiago
del Cura Elena, Francisco Mora Terurel, Francisco Rafael de Pascual, Carlos Domínguez Morano, Felisa Elizondo, Miguel García-Baró, María Jesús Mancho, Pedro Rodríguez Panizo, Amador Vega. Imprescindível.
Sal Terrae/Jean-Marie Muller
A coragem da não violência
"Nós, as civilizações, agora sabemos que somos mortíferas". É com esta afirmação de Paul Valéry, proferida em 1919, que o autor abre o prólogo do seu mais que oportuno livro de mais de 200 páginas. Infelizmente, os líderes das nações fazem orelhas moucas. E a violência continua aí, cada mais sofisticada, na ordem do dia. Basta ver o que se passa hoje no Iraque da nossa vergonha.
O autor sabe do que fala e escreve, pois é membro fundador do Movimento para uma Alternativa Não Violenta (MAN) e director académico do Institut de Recherche sur la Résolution No-violente des Conflits (IRNC).
"A obra da violência não é senão desequilíbrio, desordem, disputa, desacordo, desunião, divisão, dispersão e discórdia. A violência sufoca a evidência e instaura o reinado da confusão. A obra da não violência é moderação, equilíbrio, ordem, diálogo, acordo, união, comunhão e concórdia."
Esta é uma afirmação tirada da conclusão do livro. Parece uma verdade de La Palisse. O difícil é torná-la realidade social entre as nações.
Sal Terrae/Mohandas Gandhi
Escritos essenciais
Esta é uma edição que viu a luz do dia a primeira vez já no remoto ano de 1948. E foi acompanhada na altura pelo próprio Gandhi. Mas mantém ainda hoje toda a actualidade. Como a confirmar que não faltam soluções para melhorarmos o mundo. O que nos tem faltado é coragem para as aplicar.
Quem ainda não conhece o pensamento de Gandhi tem aqui uma oportunidade para sair da ignorância. Esta obra, elaborada e editada com grande esmero, é como uma pequena enciclopédia do pensamento desse eminente apóstolo da não-violência activa, uma espécie de Cristo do século XX, nascido fora do mundo bíblico, mas não fora da Humanidade, com a qual Deus Criador anda sempre de mãos dadas, para que ela seja cada vez mais protagonista e co-criadora juntamente com Ele.
O livro está concebido por temáticas. Logo a abrir, vem a temática "Deus", como "verdade e amor". As restantes temáticas são: "Disciplina para compreender a verdade". "Crenças e ideias fundamentais". "Evangelho do trabalho". "Organização industrial: antiga e nova". "A distribuição da riqueza". "Um capítulo sobre a luta de classes". "O Congresso em relação com as classes altas e as massas". "Auto-governo político". "A liberdade da Índia: métodos e meios". "Não violência". "Responsabilidade no meio das guerras mundiais". "Liderança de Gandhi na luta nacional". "Quando chegou a liberdade". "O satyagraha". "A vida do satyagrahi". "Religião e moral". "Os problemas da mulher". ""Sobre a educação". "Miscelânia".
O capítulo "Auto-governo político" abre com estas palavras avisadas: "Deveríamos alegrar-nos de morrer, se não podemos viver como homens e mulheres livres". E logo depois: "Do mesmo modo que todo o país é capaz de comer, beber e respirar, assim também toda a nação é capaz de manejar os seus próprios assuntos, por muito mal que o faça". E ainda: "Quando falo de independência política, não penso em imitar de modo algum a Câmara dos Comuns britânica, nem o regime soviético da Rússia,, nem o regime fascista de Itália, nem o regime nazi de Alemanha [não esquecer que estas palavras foram proferidas em 1937]. Eles têm sistemas adequados aos seus respectivos temperamentos. Nós temos que ter o nosso próprio sistema, adequado ao nosso carácter. O que isto pode implicar vai mais além de quanto eu possa dizer. Eu chamo-lhe Ramaraj, isto é, soberania do povo baseada na pura autoridade moral."
Já na parte final da obra, há um apartado sobre "Civilização europeia". Começa assim: "Indubitavelmente, a civilização europeia é adequada para os europeus, porém significará a ruína da Índia, se nos empenhamos em reproduzi-la. O que não quer dizer que não possamos adoptar e assimilar o que tenha de bom e de assimilável, nem tão pouco significa que os europeus não tenham que se libertar dos males de que a referida civilização sofre. Um desses males é a busca incessante das comodidades materiais e da sua multiplicação (...), sob as quais vivem escravizados.
Nueva Utopia/Enrique de Castro
A Fé a estafa
"Escrevo este livro para os chavales dos nossos bairros, para os meninos da rua, para os okupas, para os imigrantes, e para quantas, quantos vivem solidários com eles." É com este tipo de pessoas que Enrique de Castro, o autor, vive. E é com este tipo de pessoas que ele conta. Tal como Jesus! O conteúdo não pode ser mais explosivo e polémico.
Depois de ter publicado o provocador livro "Deus é ateu", apresenta-se agora com este volume de 255 páginas sobre Jesus de Nazaré. A Igreja é por diversas vezes visada, mas apenas a talhe de foice, por se apresentar afastada de Jesus e do Evangelho.
Enrique escreve com coração e com sangue. Mas também com invulgar lucidez teológica e bíblica. Nestas páginas damo-nos conta das últimas "novidades" sobre Jesus de Nazaré, que a investigação científica nos tem feito chegar. E isso faz toda a diferença.
A linguagem é simples, para ser entendida pelo pé descalço que nunca frequentou nem frequentará a universidade. E por todas, todos que se fizerem um com ele. "Creio na ressurreição dos vivos", grita Enrique, quase a concluir.
Edição de autor/
Manuel Maria
Não-sei-que-diga I
Depois do romance de "caricaturas da Guerra Colonial", Checa é pior que Turra,
Manuel Maria
, professor na Secundária de Gondomar, surpreende-nos com este livro de crónicas que promete continuar num segundo volume já anunciado por este que acaba de sair. O livro, de 232 páginas, abre com a crónica "O rei vai nu!" e fecha com a crónica "Celebração da paz". Entre uma e outra, estão mais 36. Para ler e mastigar.
As crónicas, que começaram por ver a luz do dia no NOTÍCIAS DE GONDOMAR, apresentam-se todas datadas. Deste modo, o autor pretende que as leitoras, os leitores comecem por se situar no tempo em que elas nasceram e captem a primitiva força que só o contexto lhes pode ter dado. Mas, agora, postas em livro, todas e cada uma das crónicas adquirem inesperadamente uma outra leitura, pelo simples facto de se fazerem de novo presente na nossa actualidade.
Este é, por isso, um livro datado e actual, ao mesmo tempo. Mergulhemos nele e ousemos assumir sem desfalecimentos a nossa cidadania.
Editorial Trotta/Juan Antonio Estrada
Por uma ética sem teologia
O autor é doutor em filosofia na Universidade de Granada, onde é professor de Metafísica e de Filosofia da Religião, e também doutor em teologia na Gregoriana de Roma. Jesuíta, integra a "maldita" Associação de Teólogos João XXIII, sedeada em Madrid, e é olhado com suspeição pela Cúria Romana, o que só diz bem dele e da sua forma de estar na vida. O livro, polémico q.b., só espera que quem esteja academicamente preparado para o ler-estudar não deixe de o fazer. Imprescindível.
"Habermas - escreve o autor na introdução - inicialmente participa na tese popular dos anos sessenta acerca do desaparecimento da religião nas modernas sociedades desenvolvidas e questiona-se sobre o significado e a validade das tradições religiosas. Depois, na década de oitenta e noventa há uma reviravolta: passa duma compreensão sociológica, evolutiva e meramente funcionalista da religião para uma maior atenção ao seu significado e às suas tarefas em relação com perguntas existenciais e metafísicas que, até então, não havia tido em conta."
Mais adiante, prossegue: "Para Habermas, o pensamento religioso está vinculado ao mito e à metafísica. Ambos, segundo a sua reconstrução histórica, encontram-se hoje numa fase terminal, substituídas por ideologias racionais, susceptíveis de valorização crítico-reflexiva pela filosofia. Confia além disso nas possibilidades de um humanismo ético, como o dos direitos humanos, que tornaria desnecessária a referência religiosa e geraria uma consciência autónoma, sem dimensões transcendentes, para além das imanentes ao conceito de género humano. Numa palavra, defende uma ética racional sem componentes teológicos e analisa a religião como construção humana própria de sociedades tradicionais, que progressivamente vai sofrendo a erosão e se vai perdendo no curso evolutivo do desenvolvimento humano."
O livro tem quatro partes: I. Uma nova teoria da racionalidade e do pensamento. II. Da teoria da racionalidade à da acção comunicativa. III. A religião numa época pós-metafísica. IV. O sentido teológico da filosofia da história.
É nesta última parte, que o autor analisa os pontos de vista de Habermas com os dos teólogos cristãos contemporâneos, nomedamente, o alemão J. B. Metz. "Metz acusa Habermas de um discurso desmemorizado. O negativo da História não é integrável numa teoria da Modernidade, que é uma nova versão da filosofia idealista, marcada pelo progresso. A decadência de tradições substantivas memorizantes, como as que oferecem as tradições religiosas, contribuiria à desumanização da sociedade e à perda da moral, que ficaria esvaziada de conteúdos."
Trotta/JJ Tamayo
Fundamentalismos
e diálogo entre religiões
Este livro procura ir ao encontro de múltiplos apelos de teólogas, teólogos de diferentes religiões, filósofas, filósofos, científicos sociais e intelectuais que acompanham com interesse as religiões, os quais, após terem acolhido com entusiasmo a sua obra imediatamente anterior, Novo paradigma teológico (desta mesma Editora), dirigiram-se ao autor para que trabalhasse e aprofundasse cada um dos horizontes aí apenas esboçados. O resultado aqui está. Surpreendente. Entusiasta. Profundo. A não perder por nada desta vida.
Nas suas 300 páginas, a obra completa-se em 10 partes: I. Secularização, Religião e Sociedade. II. O despertar das religiões: Um retorno contra todo o prognóstico? III. O fundamentalismo religioso. IV. O fundamentalismo económico: a religião do mercado. V. O cristianismo e as religiões. VI. Do choque de civilizações ao diálogo entre religiões. VII. Diálogo entre cristianismo e Islão numa perspectiva libertadora. VIII. O medo da Igreja católica ao diálogo inter-religioso. IX. Religiões e direitos humanos. X. Tarefas e desafios das religiões em tempos de globalização.
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ÚLTIMA PÁGINA
Casa do Gaiato
O que é que já teria feito Pe. Américo?
A Casa do Gaiato tem estado na berlinda. Chovem acusações daqui e dali, apoiadas em relatórios de técnicos e em testemunhos de antigos e actuais residentes. Os responsáveis reagem com indignação. Sempre estiveram acima de qualquer suspeita. Não há-de ser agora que a sua imagem vai ser posta em causa. Por isso, os técnicos que denunciam só podem ser "inimigos". Fossem católicos de missa e de obrada paga aos respectivos párocos, e só veriam razões para louvar a Obra.
Pelo menos, é o que se pode concluir da leitura de um Manifesto anónimo, divulgado com todo o destaque na 1.ª página do semanário da Diocese do Porto (VP, n.º 44, 2004), elaborado por um Grupo Promotor, constituído por "Padres e leigos" (sic: padres com "P" maiúsculo e leigos com "l" minúsculo), e do qual se não conhece nem um nome. O referido Grupo, em lugar de se interrogar com humildade e sentido de autocrítica fraterna sobre o que, até hoje, já teria feito o fundador da Obra, o nosso querido Pe. Américo, se tivesse podido acompanhá-la, em todos estes anos pós 25 de Abril 74, fecha-se nos cegos elogios do costume e sugere que se promovam visitas de "apoio e desagravo" às Casas do Gaiato, para assim se encher o Livro de Visitantes com muitos nomes e palavras de louvor!
É pena que, em Igreja, continuemos a ter tanto medo da Verdade. E corramos logo a tentar tapar o sol com a peneira, pior, com missas em série. Não será bem melhor aproveitar a saudável onda de contestação, para se pôr fim à instituição, nascida no negro tempo do fascismo e da miséria imerecida, tal como logo se acabou com a Guerra Colonial? Não seria por aí que já teria avançado o nosso querido Pe. Américo? Ou pensam que ele gostava que houvesse cada vez mais crianças abandonadas para a sua Obra poder crescer? A simples perpetuação da Obra não é já uma agressão às crianças? Que tal, começar por atacar as causas do mal?
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Barracão de Cultura
A Associação Cultural e Recreativa AS FORMIGAS DE MACIEIRA tem estado, nestas últimas semanas, a divulgar uma boa notícia e a fazer um pedido, uma e outro relacionados com a sua decisão de construir um Barracão de Cultura no campo que lhe foi oferecido para esse fim pela sócia Maria Laura.
É esta a boa notícia: O projecto de arquitectura, concebido e realizado gratuitamente por uma jovem arquitecta do Porto, já foi aprovado pela Câmara Municipal de Felgueiras. A preocupação agora está centrada na elaboração dos outros pequenos projectos afins, da responsabilidade de um engenheiro. A Associação espera ter tudo concluído até à Primavera deste ano 2005, de modo a poder iniciar a construção do edifício ainda durante este mesmo ano. Esta é a boa notícia. Agora, o pedido:
A Associação dispõe de algum dinheiro para poder iniciar a construção do Barracão, mas não para poder levar a construção até ao fim. Por isso, decidiu duas acções: angariar o maior número de sócios que contribuam, no mínimo, com 1 euro por mês (sócios efectivos), ou 5 euros por mês (sócios solidários). Decidiu também sensibilizar pessoas com mais possibilidades financeiras, para que aceitem integrar um Grupo de 10 que contribuam, de imediato, com 5 mil euros cada uma.
Quem não puder integrar este Grupo, e também não quiser fazer-se sócio, poderá sempre partilhar algum do seu dinheiro para o Barracão. Todas as partilhas são bem-vindas.
Trata-se de apostarmos cada vez mais na Cultura que liberta, em lugar de continuarmos a apostar na caridadezinha que deprime. Partilhe!
(Quer partilhar do seu dinheiro para ajudar à construção do Barracão de Cultura e não quer ter o trabalho de enviar pelo correio? Dirija-se a qualquer balcão da Caixa Geral de Depósitos e deposite no respectivo NIB: 003503090003991793035 Obrigado!)
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2.º Encontro Fraternizar de Espiritualidade
Dia 6 de Março em S. Pedro da Cova
O 2.º Encontro Fraternizar de espiritualidade com o ateísmo em fundo está marcado para o 1.º domingo de Março 2005, dia 6, a partir das 10h, na sede da Associação Padre Maximino e do Jornal. Quem participou no 1.º decidiu que estes Encontros deveriam ser trimestrais, para assim acompanharmos a periocidade do nosso FRATERNIZAR.
O tema em debate será sempre o mesmo, ainda que visto de ângulos sempre diferentes: Jesus para o Terceiro Milénio. O Encontro tem início às 10h e termina pelas 17h. A meio, há almoço partilhado com o que cada uma/cada um levar. A manhã é de reflexão teológica. A tarde de convívio e partilha de boas notícias. Tome nota na agenda. E apareça! Não se arrependerá.
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