Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 156, de Janeiro/Março 2005 (Continuação)

DOCUMENTO

Intervenção do Pe. Mário no 1.º Encontro Fraternizar de Espiritualidade em S. Pedro da Cova

Jesus com o ateísmo em fundo

Conforme anunciado no anterior Jornal, realizou-se no último trimestre de 2004 em S. Pedro da Cova, na sede da Associação Padre Maximino, o 1.º Encontro Fraternizar de espiritualidade com o ateísmo em fundo. Tema em debate: Jesus para o 3.º milénio. Ficou decidido prosseguir estes encontros, uma vez por cada trimestre. O próximo será no dia 6 de Março 2005. A temática é sempre a mesma: Jesus para o 3.º milénio. Da parte da manhã, o encontro foi de profunda reflexão teológica, a partir da comunicação apresentada na hora pelo pe. Mário. Depois do almoço partilhado, houve um tempo de convívio e de partilha de boas notícias e de preocupações, a que se seguiu, a terminar, um momento celebrativo em forma de Eucaristia. Terá sido este o momento menos conseguido do dia, porque ainda não sabemos celebrar com o ateísmo em fundo. Havemos de aprender. E agora não deixem de ler a comunicação integral que o pe. Mário fez no encontro. Pode escandalizar, mas é daqueles escândalos que a verdade sempre provoca.

1. Ao marcar este encontro, foi a sonhar que ele poderia ser o primeiro de muitos outros encontros. Pelo me­nos, quatro em cada ano, um por cada trimestre. Comigo a dinamizar/animar, ou com outras pessoas, a combinar e a encontrar de cada vez. Dinamizar/animar é isso mesmo. Não é substituir o esforço de ninguém. É fazer com que cada uma, cada um de nós dê o melhor de si sobre o tema em debate. Às vezes, damos o pior de nós. Criamos anti-cor­pos. Aqui, nestes encontros, havemos de querer dar sempre o melhor de nós.

Vivemos habitualmente sob a lei do menor esforço, como as virgens lou­cas da parábola mateana, em lugar de vivermos vigilantes, como as virgens sá­bias da mesma parábola. Aqui, have­mos de deixar lá fora a lei do menor es­forço. Estaremos vigilantes e fecun­dos. Seremos como as virgens sábias.

2. Estes são encontros de espiri­tualidade com o ateísmo em fundo, em volta de um tema inesgotável, como é este que escolhemos: Jesus para o ter­ceiro milénio. Este tema só terminará, quando terminar o milénio que agora está nos começos. E nessa altura, daqui a mil anos, acaba apenas a segunda parte da temática – para o terceiro mi­lénio; não terá acabado o mais impor­tan­te da temática – Jesus. Daqui a mil anos, os que prosseguirem estes en­contros terão apenas que reformular o tema, assim: Jesus para o quarto milénio.

Com isto, pretendo apenas dizer que a temática em redor de Jesus é ines­gotável, cada geração sempre ha­verá de se debruçar sobre Jesus, se quiser ser uma geração progressiva­mente humana, cada vez mais liberta para a liberdade.

3. Estes são encontros de espiri­tualidade com o ateísmo em fundo. Por isso, para pessoas com uma espiritu­alidade vivida cada vez mais fora dos templos e longe dos altares; cada vez menos religiosa, porque cada vez mais política; cada vez menos ritualista, por­que cada vez mais secular e profana; cada vez mais no mundo e no Sistema, mas sem ser do mundo nem do Sis­tema; cada vez mais nesta Ordem mun­dial, mas sem ser desta Ordem mundial. Numa palavra, uma espiritualidade cada vez menos eclesiástica, porque cada vez mais jesuânica.

4. O terceiro milénio é o primeiro de­pois do eclodir da Modernidade que ocorreu há pouco mais de duzentos anos. Com a Modernidade, a Humani­dade alcançou a maioridade, em signifi­cativo número dos seus membros e ao nível das instituições. E a verdade é que, pouco mais de duzentos anos de­pois desta copernicana revolução cul­tu­ral, a existência de agnósticos e a­teus, embora ainda não seja um fenó­meno de massas, é já manifestamente para aí que aponta.

As instituições, fora do âmbito das Igrejas, deixaram de ser confessionais como haviam sido até então. O nome de Deus foi expulso, e bem, das Cons­ti­tuições de cada país, dos tribunais, no que respeita, por exemplo, aos for­mulários dos juramentos. E o nosso mun­do está cada vez mais organizado como se Deus não existisse. Pessoal­mente, acho que isto é o que há de mais positivo na Humanidade, desde que ela existe à face da terra! É o ateís­mo, em lugar do deísmo.

A minha alegria, neste particular, é que, com o ateísmo generalizado, pe­lo menos, o nome de Deus já não será tão blasfemado como tem sido atra­vés dos tempos, inclusive, pelos que se con­fes­sam ateus, sinal de que ainda têm sido muito pouco ateus!

5. Pode ser chocante ouvir, mas não posso deixar de o dizer, já de entrada: Deus não serve para nada! Por isso, o ateísmo está a prestar um óptimo serviço à Humanidade. Ao negar Deus, o ateísmo vem dizer que Deus não é preciso para nada; que o mundo pode muito bem funcionar sem Deus. Pela simples razão de que a presença de Deus no mundo e na História não é da ordem da necessidade, mas da ordem da gratuidade.

Os chefes das Igrejas sempre acha­ram e ainda acham que uma afirmação como esta que acabo de fazer aqui é uma blasfémia. E rasgam as suas sa­gra­das vestes em protesto! Ao mesmo tempo, criam movimentos católicos fundamentalistas como a Opus Dei, Co­munhão e Libertação, Comunidade Can­ção Nova, Movimento Focolari, os quais, por sua vez, organizam campa­nhas contra o ateísmo e, por vezes, até contra os ateus. Em contrapartida, já não se importam nada com o deísmo nem com os deístas, como Bush, San­tana Lopes e Paulo Portas. São chefes eclesiásticos deístas que filtram mosqui­tos, e engolem camelos.

Ainda agora, a propósito da Cons­tituição europeia, vimos o triste espectá­culo que deram o Papa de Roma e a Cúria romana e muitas conferências episcopais católicas da Europa.

Feliz­mente, os deputados euro­peus, na sua maioria, não se deixaram arrastar por essa onda e a Constituição aí está sem o nome de Deus a abrir, e sem a explícita referência às chamadas raízes cristãs da Europa. Saúdo, daqui, o bom senso dos deputados. Saúdo o triunfo da inteligência. E da sabedoria.

E ainda dizem por aí os chefes das Igrejas que o Espírito Santo não tra­ba­lha na História. A verdade é que trabalha, e trabalha continuamente. Até trabalha com as “pedras”, quando não pode contar com a cooperação dos que se têm na conta de filhas, filhos de Deus. Só que os chefes das Igrejas não sabem reconhecê-lO nos sinais dos tem­pos, pois ainda continuam a pensar que o Espírito Santo está presente e activo em tudo o que contribua para reforçar o seu próprio poder e a sua própria influência, quando no que o Espírito está verdadeiramente empe­nhado é na promoção da autonomia e da liberdade de cada pessoa e de cada povo!

6. Quando digo que o ateísmo é um sinal dos tempos entre os muitos sinais dos tempos de que está a ser feita a História contemporânea e, como tal, representa um avanço da Huma­ni­dade em ordem à sua plena autonomia e responsabilidade, não estou eclesial­mente sozinho, ao contrário do que pos­sa parecer. Sei que não tenho co­migo, evidentemente, o Papa actual, nem a generalidade das Conferências episcopais. Mas tenho comigo o Concí­lio Vaticano II que deu o golpe de mise­ricórdia no modelo de Igreja Cristan­dade, próprio do deísmo, e saudou o fenómeno do ateísmo como um contri­buto muito positivo que obriga a pró­pria Fé cristã em Deus a purificar-se e as Igrejas cristãs a mudarem as suas práticas pastorais e todas as suas fór­mulas litúrgicas de oração e dos sa­cramentos.

Espantam-se? Atentem então nes­tes parágrafos da Constituição so­bre a Igreja no Mundo contempo­râ­neo, primeiro, no seu n.º 7, depois, no seu n.º 19.

Eis o n.º 7: “As condições novas afectam igualmente a própria vida re­ligiosa. Por um lado, o desenvolvimento do espírito crítico purifica-a de uma concepção mágica do mundo e de re­mi­niscências da superstição, e exige uma adesão cada vez mais pessoal e activa à fé, o que faz que sejam nu­merosos aqueles que atingem um sentido mais vivo de Deus. Por outro lado, multidões sempre mais com­pa­ctas afastam-se da prática da religião. Recusar Deus ou a religião, não se preo­cupar com isso, não é, como nou­tros tempos, um facto excepcional, individual: hoje, com efeito, tal atitude é frequentemente apresentada como uma exigência do progresso científico ou de qualquer humanismo novo.”

Agora, o n.º 19: “A palavra «ateís­mo» designa fenómenos entre si muito diferentes. Com efeito, enquanto uns negam a Deus expressamente, outros pensam que nada se pode afirmar acer­ca dEle; outros ainda apresentam o problema de Deus de tal modo que o mesmo parece não ter sentido. Muitos, ultrapassando indevidamente as fron­tei­ras das ciências positivas, ou preten­dem que tudo se explica só pela razão científica ou, ao contrário, não reco­nhe­cem qualquer verdade absoluta. Alguns exaltam de tal forma o homem, que a fé em Deus resulta enfraquecida, mais preocupados ao que parece com afirmar o homem do que com negar Deus. Outros formam de Deus uma ima­gem tal que, recusando-a, recusam Deus que não é de forma alguma o do Evangelho. Outros nem sequer se põem o problema de Deus: parecem inteira­mente alheios a toda a preocupação religiosa e não entendem por que de­veriam ainda ocupar-se da religião. O ateísmo, além disso, nasce com frequên­cia como protesto violento contra o mal no mundo ou do facto de se atribuir a certos ideais humanos um tal carácter de absoluto que os mesmos são con­siderados indevidamente como Deus. […] Também os crentes têm neste ponto o seu quinhão de responsabilidade. É que o ateísmo, considerado global­men­te não tem origem em si mesmo, mas em várias causas, entre as quais impor­ta contar uma reacção crítica contra as religiões e, em certas zonas, especial­mente contra a religião cristã. É por isso que na génese do ateísmo, os pró­prios crentes podem ter uma parte não pequena, na medida em que, pela negligência na cultura da sua fé, pela exposição defeituosa da doutrina e tam­bém por faltas na sua vida religiosa, moral e social, se pode dizer deles que ocultam, em vez de revelarem, o rosto autêntico de Deus.”

Infelizmente, quase ninguém, da parte dos responsáveis da Igreja cató­lica, acolheu a contribuição do Concílio Vaticano II. E hoje é o que se vê. Temos umas liturgias e umas catequeses ecle­si­ásticas que são verdadeiras fábricas de fazer ateus e de produção de ateís­mo. Mesmo as Comunidades cristãs mais “progressistas” são um desastre, neste campo. Podemos, pois, dizer sem faltar à verdade que o domingo é, actu­almente, o dia da semana em que o no­me de Deus é mais blasfemado e in­vocado em vão. Concretamente, as missas das tv’s e das rádios são, regra geral, o que há de mais ignóbil e de mais aviltante. São a Humanidade no seu pior. Verdadeira manifestação de infantilismo e de preguicite aguda, ser­vi­dos, um e outra, sob a capa de mani­festação de Fé!...

7. Disse e repito que estes são encontros de espiritualidade com o ateís­mo em fundo. Como tal, devem decorrer de tal maneira, que os ateus, elas e eles, possam sentir-se aqui co­mo em sua casa. A linguagem utilizada, a liturgia aqui realizada não os hão-de agredir, pelo contrário, hão-de con­tri­buir para os tornar cada vez mais hu­manos e solidários, sem jamais os forçar a tornar-se crentes. Não irá ser fácil conseguirmos isto. Estamos todos, crentes e ateus, cheios de tiques e de vícios proselitistas, de conquista. Não irá ser fácil, mas temos que fazer por isso. E aqui contamos com o contributo sincero e honesto dos próprios ateus. Também, é claro, com o contributo dos crentes, nomeadamente, dos cristãos jesuânicos, elas e eles.

Para tanto, creio que ateus e cren­tes havemos de cultivar uma grande humildade. Nem os crentes, pelo facto de crerem em Deus; nem os ateus, pelo facto de não crerem em Deus, ha­ve­mos de nos apresentar nestes encon­tros com arrogância, soberba, exibicio­nis­mo, ar de superioridade. Humildade, parece-me a palavra-chave. Não no sentido de humilhação ou de renúncia à inteligência, mas no sentido de aber­tura à Realidade. Como quem pres­sen­te que a Realidade é sempre mais, muito mais do que nós, superficial­men­te podemos apreender. A Realidade tem uma enorme componente de Mis­tério. É Mistério, isto é, revela-se-nos, mas não toda duma vez, antes está continuamente a revelar-se-nos, en­quan­to estivermos na História.

Esta postura de humildade revela honestidade intelectual. E pode levar a que o ateu venha a tornar-se crente jesuânico. E que o crente deísta venha a sentir-se momentaneamente ateu. Ou que o ateu venha a confirmar-se ainda mais no seu ateísmo. E que o crente deísta venha a mudar de Fé e de Deus, pelo menos, de conceito de Deus e adira definitivamente ao Deus de Je­sus.

O fundamental é que todos, ateus e crentes, em feminino e em masculino, cresçamos em Humanidade. Aliás, o ateís­mo que não faça quem o professa crescer em humanidade e em solidarie­dade, isto é, que não faça nascer e de­senvolver em quem o professa entra­nhas de humanidade e de ternura pe­las vítimas deste mundo, tem algo de perverso e de demoníaco. O mesmo se há-de dizer da Fé: se ela não me torna mais humano e mais solidário, mulher/homem com entranhas de humanidade e de ternura, haverei de preocupar-me. Provavelmente, melhor fora então que eu fosse ateu!

8. Não vamos tratar aqui, nestes encontros, da espiritualidade propria­men­te dita. Menos ainda, dos métodos de espiritualidade. Os encontros são de espiritualidade, não sobre espiritua­lidade. São de vivência espiritual que, como se sabe, pode e deve ser prota­gonizada também pelos ateus, já que a espiritualidade não é um exclusivo dos crentes. Nestes encontros, a espi­ritualidade estará sempre presente como um modo de ser e de estar, de viver, em todos os dias e em todos os ambientes. Efectivamente, todas, todos somos pessoas sopradas, por isso, espiritualizadas. Falta apenas saber por que sopro, por que espírito. Muito importará que não seja nunca o sopro ou o espírito do Sistema ou do Império.

O livro do Génesis diz isto de for­ma mítica, poética, por isso, muito bela, quando apresenta o ser humano, mu­lher e homem, primeiro, a ser formado do barro, da terra (em hebraico, ada­mah, donde provém o substantivo co­mum, Adão = ser humano), depois – e sem isso não haveria ser humano – a ser soprado por Deus. No Génesis, fala-se naturalmente de Deus como aquele que sopra, como o Sopro. O contexto cultural da época em que o relato foi escrito assim o exigia. Era impensável dizer de outro modo. Mesmo assim, Deus, naquele relato escrito já depois da experiência histórica do êxodo dos hebreus do Egipto, tinha necessaria­mente uma conotação política forte e fecunda de anti-Sistema, de anti-Impé­rio faraónico. Era o sopro de Deus que ha­­via tirado os hebreus da escra­vatura do Egipto, não o sopro de Deus do faraó.

Hoje, num contexto de ateísmo cada vez mais generalizado, como é o nosso, temos que encontrar outra lin­guagem menos sacral, mais secular, me­nos religiosa, mais política. Dizer ho­je que, para sermos seres humanos, temos que ser soprados por Deus, não nos aquece nem arrefece. Deixa-nos na mesma, tanto aos crentes como aos ateus.

Mas se dissermos que, para ser­mos seres humanos, temos que ser so­prados pelo sopro dos milhares de mi­lhões de empobrecidos à força e de todas as vítimas humanas e da natu­reza, concretamente, daqueles empo­bre­cidos e daquelas vítimas humanas e da natureza com quem eu (cada uma, cada um de nós) me cruzo todos os dias, e que ainda não fui capaz de in­te­­grar na minha vida, muito menos, sentar na minha mesa como minhas irmãs, meus irmãos, então tudo muda de figura.

Ora, esta é uma das maneiras de falar historicamente de Deus num mun­do como o nosso, com o ateísmo em fundo. Historicamente, o sopro de Deus ganha corpo, faz-se sacramento no so­pro de todas as vítimas, de todos os ex­cluídos, de todos os perseguidos, de todos os que ainda não têm lugar à nossa mesa! Concretamente, nos seus gritos, nos seus suspiros, nos seus ge­midos. E na sua aflitiva respiração feita, a maior parte das vezes, de gritantes e perturbantes silêncios.

As Igrejas deste tempo têm que en­tender e sobretudo viver esta teologia, ou então quanto mais falarem de Deus, mais ateísmo fabricam, porque o Deus de que falam é como o Deus do sacer­dote e do levita do tempo e do país de Jesus, que levava um e outro a passa­rem do outro lado do caído na valeta da vida, sinal de que era um Deus cruel, sem entranhas de humanidade, in­solidário!

9. Provimos de séculos e de milé­nios em que o nome de Deus esteve sempre na boca das pessoas. Deus era o maior valor e o maior senhor. Aliás, “Deus, Pátria e Família”, foi a trilogia de todos os fascismos e de todos os im­périos, como ainda hoje o de Bush e Blair. Ou como o da Cristandade Ocidental que continua aí a mexer, apesar do Vaticano II lhe ter aplicado o golpe de misericórdia. Tanto nome de Deus, tan­ta invocação de Deus, mas a verdade é que o nosso mundo tem sido e con­tinua a ser o que se vê. Melhor fora que tivéssemos sido honestamente ateus, em todos esses séculos e milé­nios para trás.

Conhecemos, certamente – temos obrigação de conhecer – os números da desigualdade e da desumanidade do nosso tempo, fruto de tanta invoca­ção do nome de Deus: Cinco das seis partes da Humanidade vivem na pobre­za. Foi no que deram séculos e milénios de vida humana com Deus sempre na boca e nos tratados, com públicas pro­fissões de fé, com religiões para todos os gostos e feitios, com orações e mis­sas aos milhões cada ano, com con­ven­tos e mosteiros, com milhões de fra­des e de freiras, com políticos de missa e de comunhão frequentes e até com con­fessores e directores espirituais pri­vativos.

E não é verdade que, ainda hoje, Bush faz questão de iniciar e de con­cluir as suas reuniões de governação com momentos de oração e de leitura/meditação da Bíblia? Mas o resultado é o que se vê. Que o diga o povo do Ira­que e do Afeganistão. E os prisionei­ros de Guantánamo!

10. Outra coisa seria – e isto é o que haverá de fazer o terceiro milénio – se, em lugar de continuarmos a dizer que somos soprados por Deus, disser­mos que estamos a ser constantemente soprados na consciência pelos milhões e milhões de vítimas das políticas e das economias que, entretanto, adoptamos e realizamos sob a capa do nome de Deus. Na verdade, só este sopro que vem do sub-mundo dos empobrecidos e oprimidos e da Natureza maltratada é que nos humanizará, nos transforma­rá de potenciais monstros em seres hu­manos.

Quer isto dizer que, nestes encon­tros, como na nossa vida de todos os dias, havemos de estar aqui uns com os outros como mulheres e homens so­prados pelos que vivem na base da pirâmide social, pelos últimos da His­tória. Por isso, sem muros. Sem pre­con­­ceitos. Sem jogar à defesa. Desar­ma­dos. Com o nosso melhor sorriso. Com toda a pureza do nosso olhar. Com a hu­mildade da nossa inteligên­cia. Com o máximo do nosso ouvir. Co­mo uma me­nina, um menino, que se deixa sur­preender e fazer pelo outro, até nos fundirmos numa só Humanida­de; não várias Humanidades justapos­tas, mas uma só Humanidade, na di­ver­sidade de rostos, de línguas, de cul­turas, de co­nhecimentos, de espe­ci­a­lidades que se complementam e interligam.

11 Disse há pouco que Deus não serve para nada. E que é mais sau­dável o ateísmo que o deísmo. Deístas são todos os que invocam o nome de Deus, para assim melhor se aprovei­tarem, ti­rarem proveito do nome invo­ca­do. Ali­ás, se as pessoas não pensas­sem em Deus como proveito para o tempo pre­sente e para depois da mor­te, quem é que ainda se dispunha a aceitá-lO na sua vida? Este é sem dú­vida um pe­cado, uma blasfémia que os ateus con­se­quentes não podem co­meter nunca.

Mas a verdade é que provimos de séculos e de milénios de espiritualida­de com o deísmo em fundo. Deus esta­va sempre no topo da pirâmide, a jus­ti­ficá-la e a justificar as hierarquias re­ligio­sas, eclesiásticas e do poder eco­nó­mi­co-financeiro e político. Deus ser­via para dar cobertura aos seus mais hedi­on­dos crimes. Aos seus genocí­dios. Às suas guerras. Às suas conquis­tas. Aos seus latrocínios.

É hora de fecharmos este ciclo te­nebroso da História da Humanidade. Religiões, igrejas, templos, santuários, mesquitas, catedrais, sinagogas, sa­cer­­dotes, liturgias religiosas, missas, rezas, etc, tudo isso fez o deísmo. Para que os grandes melhor pudessem opri­mir e esmagar os pequenos, mantê-los resi­gnados na opressão e na injus­tiça. A religião, toda a religião, tem por trás e por base o deísmo, a manipu­lação do nome de Deus.

Foi o deísmo que criou toda essa tralha religiosa, contra a qual o ateís­mo e os ateus sempre se ergueram e er­guem. Os crentes jesuânicos tam­bém! E fazem uns e outros muito bem. Em no­me da sanidade mental e da digni­dade humana.

12. Temos então que sair urgente­mente do deísmo e da sua espiritua­lidade e passar pelo deserto do ateís­mo, a caminho da Fé de Jesus. Mais do que Fé em Deus, ou Fé em Jesus, interessa à Humanidade, também à que hoje se diz ateia, abrir-se quanto antes à Fé de Jesus e ousar viver a Fé de Jesus, até chegarmos a ser mu­lheres, homens à maneira de Jesus, o de Nazaré. Não se trata de corrermos sem mais para a Fé em Jesus. Trata-se de ser­mos mulheres, homens com a mesma Fé de Jesus. E aqui é bem pro­vável que crentes e ateus nos en­con­tremos pro­fun­da­mente irmanados, como compa­nhei­ros de jornada e de luta, em vidas concretas fecundamente militantes no mundo e na História.

O deísmo, nos séculos passados, fez-nos passar rapidamente para a Fé em Jesus, sem nunca nos ter feito che­gar à Fé de Jesus. E com isso pode ter provocado – e provocou – pelo me­nos de­zasseis séculos de atraso na His­tória da Humanidade. Foi esta a grande trai­ção das cúpulas da Igreja no Império romano. Nasceu então a Cristandade com homens e mulheres, crianças e povos a prestarem culto a Jesus, mas sem partilharem a Fé de Jesus.

Ora, Jesus é, antes de mais, o mo­delo, o paradigma do ser humano. Nele, vemos como havemos de ser mu­lheres, homens. Jesus é a revelação de­finitiva do ser humano, tal como Deus o concebeu e está ainda a tentar criar, agora também com a nossa coo­pe­ração, porque aquele que nos co­me­çou a criar sem nós, não nos pode aca­bar de criar sem nós.

Infelizmente, a Humanidade, ar­ras­tada pelos sacerdotes – ainda hoje as pessoas pensam que foi Deus quem fez os sacerdotes; desconhecem que foram os sacerdotes quem se auto-constituiu como casta à parte e se impôs aos povos e até a Deus! – e por outros deístas pro­fis­sionais, que vivem à custa do no­me de Deus, nem sequer parou em Jesus como revela­ção do ser humano. Passou directa­mente para Jesus como revelação de Deus. Em lugar de apren­der com Jesus a ser mulher, homem à maneira dele, passou logo a adorar Je­sus; em lugar de aprender a ser mulher, homem com a mesma Fé de Jesus, passou logo a ter Fé em Jesus. E hoje, para a maior parte das pessoas, in­clusive, ateus (de)formados pelas catequeses da velha Cristandade católica, dizer Jesus e dizer Deus é praticamente o mesmo! Confundem Deus com Jesus e Jesus com Deus!

13. Tenho para mim que sermos hoje mulheres, homens de espirituali­da­­de com o ateísmo em fundo é sermos mulheres, homens soprados pelo mes­mo sopro com que Jesus foi historica­mente soprado no seu tempo e país. É estarmos animados pela mesma Fé de Jesus. É sermos mulheres, homens do mesmo jeito.

Com Jesus, o Deus do deísmo mor­­reu. E não deixa pena! Na verdade, não há crime, do maior ao mais peque­no, que não tenha sido cometido na História da Humanidade sem a sua co­ni­vência, senão mesmo com o seu di­recto envol­vi­mento, e sempre com a sua inspira­ção, o seu sopro conquistador/opressor e explorador/desumanizador.

O Deus do deísmo sempre esteve e está no princípio e no fim do Sistema de mentira que ainda hoje nos mantém a todas, todos – maiorias desfavore­ci­das e minorias privilegiadas, separadas entre si por um fosso intransponível – cativos na injustiça da presente Ordem mundial que, por isso mesmo, tem que ser dissolvida e substituída quanto an­tes.

Por isso, se em alter­nativa ao Deus do deísmo que morreu, nos acontecer, pelo menos, a algumas, alguns de nós a revelação do Deus de Jesus – as cristãs, os cristãos jesuâni­cos, católicos ou não, testemunhamos com humilda­de a Presença/Acção dEle nas nossas vidas e na História – então é porque Ele é um Deus que se dá bem com o ateís­mo, não suporta o deísmo; gosta de Política, não pode com a re­ligião; sente-se honrado por nos ver cres­cer e viver em autonomia e respon­sa­bili­da­de como se Ele não existisse, insul­tado e agredido, sempre que nós, nas nossas aflições e limita­ções recor­re­mos a Ele, por milagres que só nós, animados pela mesma Fé de Jesus, po­demos e temos que reali­zar.

Deste modo, quantas, quantos de nós hoje cremos em Deus, fora do deís­mo, só podemos apresentar-nos entre as demais pessoas como mulheres, ho­­mens aparentemente ateus, adora­do­res de Deus, mas tão só em espírito e ver­dade, o que significa vivermos de costas para os templos e longe dos altares, plenamente inseridos e com­prometidos até ao sangue com o mun­do e com a História, inevitavelmente olhados e tra­tados como loucos por par­te das maio­rias religiosas que insistem no deísmo e no seu Deus, quando na verdade so­mos simplesmente irmãs, irmãos de to­das as pessoas e de todos os povos, inclusive, dos que nos mal­tratam e ca­lu­niam.

14. Creio que nesta Fé de Jesus, ateus e crentes jesuânicos podemos perfeitamente encontrar-nos e enten­der-nos. Mais do que isso. Devemos encontrar-nos e entender-nos, pois carecemos uns dos outros. Os crentes, para que não descambemos de novo no deísmo e no Deus deísta que está sempre aí a tentar-nos no todo-pode­roso Sistema religioso-eclesiástico, de modo que nunca mais regressemos à Fé religiosa sempre alienante, ópio do po­vo, praticamente a única Fé que as Igre­jas, também a Igreja católica, servi­ram em overdoses às pessoas e aos povos, através dos séculos e continuam ainda hoje a servir. Os ateus, para que não se fechem no seu ateísmo, como num labirinto, pelo contrário, tenham a humildade de encarar a Realidade como Mistério, de modo a viverem sempre abertos aos sinais dos tempos e ao Sopro libertador que os atravessa e reiteradamente nos interpela e de­sins­tala.

Ambos, crentes e ateus, fraternal/sororalmente unidos, havemos de levar por diante, hoje e aqui, de forma actua­li­zada, a crítica sem tréguas que os profetas bíblicos iniciaram, há cerca de três mil anos, contra  a Religião e con­tra a Fé religiosa, crítica essa que é fundamental para que a Humanidade, em cada geração, rejeite todo o tipo de idolatria, sem dúvida, o Pecado do mundo que verdadeiramente ofende a Deus, porque fatalmente infantiliza e escraviza, aliena e humilha as suas filhas, os seus filhos que são todos os seres humanos, sempre estes se dei­xarem ir por essa via de mentira.

15. É, pois, à Fé de Jesus que, ho­je, crentes e ateus nos havemos de abrir, porque é com ela que nos torna­mos verdadeiramente mulheres, ho­mens sem Deus e com Deus, ao mesmo tempo. Sem Deus, porque nós, com a mesma Fé de Jesus, também havemos de ousar viver na História como se Deus não existisse. E com Deus, porque nós com a mesma Fé de Jesus, também havemos de dar pela Presença/Acção de Deus na História e dentro de nós, precisamente, naquele sopro libertador que dia e noite nos atravessa, nos faz ser e que nos faz viver abertos à Rea­lidade mais real que está sempre para além do que os nossos sentidos conse­guem captar e que historicamente ga­nha corpo no corpo de todas as vítimas humanas e da Natureza.

Na verdade, quando vivemos ani­mados pela mesma Fé de Jesus, torna­mo-nos mulheres, homens progressiva­mente abertos ao outro, ao estranho, ao estrangeiro, ao diferente e, sem nun­­ca sabermos bem como nem por­quê, damos connosco a ser militantes por um mundo outro, onde todos – se­res humanos, animais e restante Natu­reza – tenhamos pacificamente lugar.

Mas não só. Quando vivemos ani­mados pela mesma Fé de Jesus, enca­ramos o mundo e a História como se Deus não existisse e, por isso, em lugar de gastarmos o nosso tempo e as nos­sas energias em redor dos templos e dos altares, a repetir até à náusea este­rio­tipadas fórmulas de oração endere­çadas a um destinatário que só existe na nossa imaginação, damos uma volta de 180 graus à nossa vida e passamos a gastar todo o nosso tempo e todas as nossas energias na escuta do outro e – por ele, com ele e nele – na escuta do completamente Outro, que provoca­do­ramente sempre nos pergunta pela irmã, pelo irmão, isto é, sempre nos ati­ra para a Política, concebida, final­mente, como serviço maiêutico, não como Poder (o deísmo é que faz da Po­lítica Poder), como palavra e acção libertadoras e consciencializadoras, por isso, geradoras de voz e de vez, em todos os demais seres humanos que connosco habitam o Planeta, de modo que todos nos tornemos poetas e profetas, protagonistas e mulheres/homens de acção criadora e solidária, num ambiente de planetária alegria e de festa sem fim.

16. Por ter levado, pela primeira vez na História, o Ser Humano, ele pró­prio, até ao limite dos limites, quer na afirmação de si, quer no confronto dué­lico e martirial contra o Sistema deísta de mentira, que mantém as mulheres, os homens e o resto da Criação cativos na injustiça, Jesus de Nazaré consti­tuiu-se no primeiro desta nova Humani­dade sem religião e até sem um Deus para adorar em templos e para ser ser­vido e louvado em altares erguidos den­tro de santuários mais ou menos luxuosos, geridos por clérigos sempre de olho nas ofertas de quem subservi­en­temente lá entra e lá se ajoelha.

Foi também no acto de desenvolver esta sua radical postura, que Jesus se deu progressivamente conta, com in­con­tida alegria, da Presença/Acção de Deus como Sopro/Espírito a trabalhar continuamente na História, e se deixou possuir/habitar sem reservas por Ele, até se experimentar como o seu filho muito amado. Constituiu-se, por isso, para sempre no paradigma do ser hu­mano, na Pedra angular da nova Hu­ma­­nidade e no primogénito de muitas irmãs, de muitos irmãos, crentes e ateus.

Infelizmente, ao contrário de Jesus, muitas, muitos de nós não só ainda não resis­timos até ao limite dos limites ou até ao sangue, como Jesus resistiu, contra o Sistema deísta de mentira, como até nos temos deixado seduzir por esse Sistema, ao ponto de correr­mos a integrar alguma das diversas mi­norias privilegiadas que o servem, a troco de privilégios e outras mordomias que ele habilmente distribui aos seus incondicionais: “Tudo te darei, se, pros­trado, me adorares!” (cf. Lucas 4, 8) E com isso, ajudamos a manter subjuga­das, silenciadas e alienadas na religião, na miséria e na degradação as maio­rias da Humanidade, que só não se le­van­tam numa planetária insurreição, por­que as Igrejas cristãs continuam aí a fazer tudo para as atrair para Fé em Jesus, para cúmulo, travestido por elas num Deus milagreiro, em lugar de as despertarem, a tempo e fora de tempo, para a Fé de Jesus.

Por isso digo, e com isto concluo: Felizes de nós, se, em lugar de persis­tir­mos na tradicional postura de cola­bo­racionistas do Sistema deísta de men­tira que nos mantém a todas, todos cati­vos nesta Ordem mundial de injus­tiça, aceitarmos mudar de rumo, nascer de novo, do Alto, do Sopro que sopra como línguas de fogo das bandas daquelas maiorias. Daremos corpo à Humanida­de no­va, sem Deus para adorar em tem­plos e em outros santuários feitos pelo Sis­te­ma deísta de mentira, e vive­remos com a simplicidade de quem res­pira, a nossa condição de fi­lhas, fi­lhos em estado de maioridade, como Jesus, em cujas consciências habita o Sopro/Espírito que nos faz livres e li­berta­dores, irmãs, irmãos universais.


IGREJA/SOCIEDADE

Poeta Francisco Duarte Mangas

Um homem descativo e portador de fogo

O último livro do director do Jornal Fraternizar Canto(S) nas Margens, editado pela AUSÊNCIA, foi finalmente apresentado no Porto. A sessão decorreu na loja FNAC, de St.ª Catarina. E contou com a presença e a sábia intervenção do poeta Francisco Duarte Mangas, que também é jornalista do "DN", na delegação do Porto. Reproduzimos aqui essa intervenção na íntegra. Na página seguinte, reproduzimos igualmente a intervenção que o Padre Mário, como autor, produziu na mesma ocasião. São dois textos a não perder.

O filho de Maria e de David escreve livros. A palavra, que neste caso é uma generosa rebeldia, acompanha-o des­de menino. Porque os livros, como dis­se Federico Garcia Lorca, espevi­tam a revolta, os livros abrem caminho aos deserdados de justiça.

Qual foi o sonho maior de Kino quando descobriu a pérola no fundo do mar? Kino, humilde pescador de ostras, tinha uma fortuna entre as mãos, a pérola poderia mudar a sua vida, poderia comer a sua pobreza. Perante o olhar de espanto dos vizi­nhos, tão pobres como ele, Kino disse orgulhoso,

«O meu filho irá à escola».

«O meu filho saberá ler e abrirá li­vros, o meu filho escreverá, o meu filho saberá escrever. (…) E essas coisas tornar-nos-ão livres, porque ele terá conhecimentos, saberá. Através dele, teremos conhecimento também».

E, no brilho da pérola, Kino imagi­nava-se já agachado na cabana, junto ao lume, ao lado de Joana, a mulher, enquanto o filho (Coyotito) lia um enor­me livro.

Maria, «uma pobre jornaleira que nun­ca frequentou a escola», também um dia, olhou com ternura o filho, e disse: O meu filho irá à escola. Saberá ler e escrever. O meu filho terá conhe­ci­mentos, e será livre e nós, sendo ele descativo, também seremos livres.

O menino, ao colo da mãe, sorriu. Por certo, não terá percebido o fogo da­quelas palavras, mas as mães sabem falar com os olhos ou com o suave idio­ma das mãos a afagar-nos o rosto. Quando David (um operário que conhe­cia o coração das árvores) chegou a casa, Maria escondeu a pérola que ha­via encontrado nesse dia.

O filho de Maria e de David escreve livros. É um homem livre e feliz nesse seu ofício de partilhar a palavra, como quem divide o pão e a dignidade. A par­tilha da palavra, muitas vezes, é um gesto de profunda coragem. Mas o filho de Maria e de David, como o Kino de Steinbeck, não cede a tempestades. Nunca cedeu, mesmo no Tempo da Imposição do Silêncio foi homem livre - com palavra.

A mesma palavra libertadora que espalha, que partilha hoje, no nosso tempo de incerteza e de recuo histórico.

Palavra libertadora é pois o que vão encontrar em Canto(S) nas Mar­gens, o último livro de Mário de Oli­veira, filho de Maria e David, «padre sem ofício pastoral oficial desde Março de 1973».

Nem trinta anos de democracia fo­ram ainda suficientes para os senhores do templo levantar o «castigo» ao pa­dre Mário da Lixa – era assim que um velho comunista do Minho o nomeava quando eu era criança. E é assim hoje que, fraternamente, o trato.

O Mário nada teme, nada lhe falta porque nada tem. Padre do Povo dos pobres, «ateu dos deuses todos/ que se alimentam de gente», da miséria, da ignorância. Não «troca valores por interesses». É discípulo de Jesus: «vi­ve no meio do mundo», fez caminho ao lado do «Povo mais sofrido».

Quando o filho de Maria e David apren­deu a ler e a escrever, disse à mãe,

«O mundo dos homens tem de ser mudado. É preciso derrubar a velha pirâmide».

A velha pirâmide é um dos cantos que integra o livro que agora se apre­senta. Creio que foi cantado, em Macieira da Lixa, em pleno fascismo português.

Diz assim o poema:

«Na terra dos homens

Pensada em pirâmide

Há poucos em cima

E muitos na base

Na terra dos homens

Pensada em pirâmide

Os poucos de cima

Esmagam a base».

Mas,

«O povo dos pobres

Que vive na base

Vai fazer cair

A velha pirâmide».

É certo que a pirâmide – metáfora da sociedade de classes, do capitalis­mo de outrora, que agora estende os longos braços por toda a parte e se chama globalização – continua ainda de pé.

Precisamente por isso, a interven­ção do padre Mário – seja em forma de livro, seja através do jornal Fraterni­zar, seja nas comunidades de base em que participa – é necessária e corajosa.

Os resignados não pertencem ao reino do seu Deus. O «Deus vivo que nos faz cantar como homens e mulheres livres e protagonistas no mundo e na História».

Este livro, escrito por um homem descativo e portador de fogo, é para ser cantado. Partilhado... até ao dia em que a repressiva pirâmide desapareça na terra dos homens.

Ernest Bloch dizia, Ubi Lenin, ibi Jerusalem. Eu, para terminar, digo: onde está o Mário, a esperança renas­ce!


Pe. Mário na sessão de apresentação do seu livro

Apetecia-me abrir a sessão a cantar e a dançar

Pudesse eu, e abriria esta sessão de apresentação do meu livro Canto(S) nas Margens, a cantar e a dançar os cantos "Despertei para o Amor", com que ele abre e "Globalização", com que ele encerra:

- Despertei para o Amor

quando o Pobre me tocou

tomei partido por ele

tornei-me no que hoje sou

sou ateu dos deuses todos

que se alimentam de gente

onde houver libertação

aí danço de contente

- Com Jesus ressuscitado

o Feminino Humanado

nunca mais temos parança

somos Nova Criatura

enxertados na Ternura

do Deus que connosco dança

E é assim que chegaremos

custe mais ou custe menos

a um Mundo-Comunhão

a riqueza produzida

será toda repartida

eis a Globalização!

Talvez aos nossos políticos e aos nossos economistas falte o toque hu­mano/feminino da Poesia e da Profecia que estes Cantos e este livro contêm. Essa falha explica o desastre humano, social e ecológico das suas economias e das suas políticas. Aliás, o toque hu­ma­no/feminino da Poesia e da Profecia falta hoje no nosso país e no mundo, um e outro to­­talmente dominados e con­trolados pelo Império. Aquela vergonhosa foto da Base das Lajes, com  os 3 + 1 as­sas­sinos do mundo, a a­­nun­ciarem sorridentes o iní­cio da Guer­ra no Iraque, é sobeja­men­te elo­quente.

Sob o Império, até o humor é triste. Por isso, é obsessivamente porno. E que dizer das festas nas discotecas onde a droga faz vítimas em série?

A Poesia e a Profecia, quando fal­tam no mundo, o mundo desaprende de rir. O inverno instala-se em tudo e em todos.

Os poetas e os profetas - elas e eles - são raros. Deveríamos ser todos  poe­tas e profetas. Mas que querem? Poeta e profeta não rimam com funcionário, com alinhado, com súbdito, com vassalo, com obediente, com castrado, muito me­nos, com carreirista. E disto há por aí em demasia!

Poeta e profeta rimam com rebeldia, com dissidência, com combate, com Causas, com Liberdade, com militância, com gratuidade, com entrega da própria vida, com solidariedade, com luta dué­lica, no jeito da mítica luta de David con­­tra Golias. Rimam também com ca­mi­nhar pelas ruas e pela vida com flo­res no olhar, e com as mãos a transbor­dar de ternura, daquela que é capaz de gerar sucessivas insurreições. É então natural que hoje haja um grande défice de poetas e de profetas.

Ser poeta e profeta é ser como um me­nino, uma menina:

Quando for grande vou ser

quero ser como um menino

convidar p'ra minha mesa

quem p'lo mundo é desprezado

acabar com a pobreza

quero ser como um menino

Este livro faz lembrar o poeta Aleixo. É o Aleixo com teologia dentro. É bem uma síntese de todos os meus outros livros editados até agora. O que nos outros é abordado em forma de ensaio, por isso, mais ou menos denso e pesa­do, aqui apresenta-se em forma de can­to, de verso, de quadra, de poema.

Os cantos que eu canto nasceram nas margens, que é onde a Vida com pre­sente e com futuro e também com memória subversiva mais acontece. Con­cretamente, nos grupos, nas comu­nidades cristãs de base, por isso, nos antípodas das cúpulas das pirâmides que teimam em erguer-se em toda a parte, inspiradas pelo sopro demoníaco do Império.

Na ilusão que o Império cria, as pes­soas tendem a subir para as cúpu­las e a concentrar-se nas grandes cida­des. Atraídas pela luz artificial e pela Mentira, são como as borboletas que es­voaçam em redor da chama da vela, até queimarem as asas. Concentram-se aí e aí perdem a saúde, a alegria, o silêncio, a paz, o ar puro, a qualidade de vida. Tornam-se mortos que andam, como árvores.

Mas é nas periferias que a vida a­con­tece. Sob a forma de subversão, de rebeldia, de profecia, de alternativa. Mas quem é que, hoje, ofuscado pelos holofotes da publicidade do Império, ainda crê neste Evangelho? Aliás, não foi no Império, na Roma imperial, que o Movimento de Jesus morreu, ao acei­tar converter-se em Igreja/Religião ca­tó­lica romana, a única no Império?

O livro está dedicado a pessoas com deficiência. São pessoas minhas amigas e de quem sou particularmente amigo. Pessoas assim são as margens em carne viva, em forma humana. Uma dessas pessoas - Irene - está aqui pre­sen­te. É filha dos meus senhorios, a luz dos meus olhos, a primeira pessoa que vejo pela janela, quando, em cada novo dia, me sento ao computador. É uma menina que jamais chegará a adul­ta, por mais anos que viva. E como menina, desperta todos os dias em mim o menino que eu quero ser, à medida que cresço em anos. Diz assim a dedi­catória:

A Amélia, companheira da Comunidade cristã de base de Macieira da Lixa

que, porventura sem o saber, vive per­manentemente mergulhada no Es­sen­cial que é invisível aos olhos e por isso mantém-se firme na Caminhada, como um carro de combate, contra ventos e marés.

A Martinha, de Amarante,

surpreendente canto vivo de alegria e de festa que, embora incapaz de articular uma frase, de dar um passo ou de comer por sua mão, todo o seu corpo parece explodir de felicidade e de comunicação, sempre que me vê entrar na sua casa.

A Víctor Gama, de S. Pedro da Cova,

um indomável trovão humano sentado numa cadeira de rodas que ninguém con­segue calar, quando depara com si­tuações em que outros companheiros com deficiência – elas e eles – são mal­tratados e injustiçados.

A Francelina, companheira da Comunidade cristã de base das Quartas-Feiras,

um vivo e espantoso sacramento, no meio de nós, do desconcertante e libertador humor de Deus.

A José Maia, da Associação Cultural e Recreativa As Formigas de Macieira

que, juntamente com a sua mulher Hu­guette, soube fazer seu o projecto Barracão de Cultura e está a revelar-se capaz de remover montanhas para con­seguir a sua concretização na fre­­­guesia;

e a Irene, sua filha adoptiva

que, nas línguas de fogo da sua ir­re­primível alegria e no impetuoso vento do seu jeito de estar e de viver, é para nós fecunda epifania do Espírito Santo na manhã do Pentecostes.

Nas vossas diferentes deficiências, umas mais profundas, outras me­nos, continuais a ser para mim misteriosos e desafiadores rostos do Deus Vivo que reiteradamente nos salta ao caminho e nos grita a Boa Notícia de que a vida humana em plenitude, só mesmo nas mar­gens consegue ser vivida. Aqui vos deixo a minha pública gratidão.


Director do Jornal Fraternizar foi um dos depoentes

Tribunal Mundial sobre o Iraque

100.000 mortos, ouviram bem?

A sessão decorreu no dia 12 de Novembro 2004, no amplo salão da Cooperativa Árvore, que estava a abarrotar. Nenhuma rádio presente. Nenhuma televisão. Nenhum telejornal. A mais completa conspiração do silêncio. A guerra do silêncio. Como se os tiros e as bombas do Império fossem tigres de papel. Ainda pior que a guerra é esta postura de vassalagem. Os povos não são vassalos. Apenas os chefes, quando vivem agarrados aos privilégios como o cão ao osso. Fiquem, ao menos, com a intervenção integral do pe. Mário.

Introdução

Pedem-me para depor neste Tri­bu­nal Mundial sobre o Iraque. Não posso dizer que não. Aqui estou. De corpo in­teiro. Trago comigo a guerra ainda em curso, apesar de já ter sido dada ofi­cialmente como terminada. Trago co­migo as muitas dezenas de milhar de feridos. As lágrimas e as dores e as afli­ções sem conta de todo um povo. As suas revoltas. As suas justas iras. E as suas cidades, algumas património cultural da Humanidade, sacrilegamente destruídas. Sobretudo, trago comigo os mais de cem mil mortos que a guerra em curso já fez. Cem mil mortos, ouvi­ram bem? Não cabem todos nesta sala, eu sei, mas deixem-nos entrar. Deixem que se sentem connosco nesta sessão. Deixem que invadam as nossas casas. Que perturbem o nosso sono. Que sa­cu­dam as nossas quotidianas rotinas. Que estraguem as nossas festas. São cem mil vidas – a maior parte delas mu­lhe­res e crianças – abruptamente trun­cadas. Cem mil rostos que nos inter­pelam. Cem mil pares de olhos que nos olham fixamente nos olhos. Cem mil bo­cas que perguntam: Que mal te fiz eu, que mal vos fizemos nós, para que inva­dísseis o nosso país, bombardeásseis as nossas cidades e assassinásseis as nossas vidas? Que tipo de seres huma­nos sois vós, os ocidentais? Que tipo de prazer podeis sentir em invadir o nos­so país e em matar-nos indiscrimina­da­mente? Será que sois de outro pla­neta? Será que já não tendes entra­nhas de humanidade? Será que já só tendes interesses lá onde era suposto que deveríeis ter entranhas de huma­nidade e de solidariedade? Porque nos odiais tanto? Se é o nosso petróleo que co­biçais, porque nos matais antes de o roubar? E com que direito o cobiçais? O presidente Saddam Hussein metia-vos medo? A partir de quando? É que hou­ve um tempo em que ele foi consi­derado vosso aliado. As armas dele eram perigosas para vós e para o resto do mundo? E as vossas, será que são armas-faz-de-conta, coisa-de-brincar? Não são armas muito mais sofisticadas que as dele e muito mais mortíferas que as dele? De resto, não foram as vossas armas que nos mataram e que conti­nuam a matar indiscriminadamente no nosso país e em tantos outros pontos do globo? Que medos inconscientes são esses que vos habitam, e que frus­tra­ções individuais e colectivas são es­sas que vos levam a ter tanta necessi­dade de perpetuar uma Ordem Mundi­al em forma de império, incompatível com a existência de pessoas insubor­ná­veis e de povos que prezem a sua di­gni­dade e a sua identidade? Quando deixareis definitivamente a fase da ado­­lescência, para vos assumirdes co­mo indivíduos e povos maduros, adul­tos, a viver em concertação e em diá­logo com os demais, no respeito pelas diferenças? Porque não sois simples­mente humanos, irmãos universais de todos os outros povos que, como vós, habitam o mesmo planeta? Porque tendes tanta necessidade de ser Caim, e de alimentar uma Ordem Mundial à Caim, feita de mentira, que nos mantém a todas, todos cativos na injustiça, quan­do poderíeis ser simplesmente A­bel e criar uma Ordem Mundial à Abel, feita de verdade, que nos libertaria a todas, todos, para a liberdade?

Neste meu depoimento, pedem-me que me pronuncie sumariamente sobre três questões muito concretas. É o que vou fazer, depois desta introdução. Com toda a simplicidade. Não sou juiz de ninguém. Sou apenas uma testemunha viva que vê, que ouve e que lê e, por isso, não pode ignorar. Não condeno nin­guém. Nem peço a condenação de nin­guém. Condeno e peço a condena­ção dos perversos Sistemas económi­co-financeiros e político-religiosos que her­damos e que teimamos em alimen­tar. Sadicamente. São Sistemas idolátri­cos que produzem vítimas humanas e outras aos milhões e, coisa ainda pior, que se alimentam de vítimas humanas e de outras aos milhões. Condeno e peço a condenação das ideologias ab­so­lutistas que nos deformam e nos trans­­formam em monstros. Conquista­dores. Exploradores. Assassinos. Geno­cidas. Imperialistas. Ladrões. Domina­do­res. Opressores. Idólatras. Algozes. Carrascos. Funcionários. Súbditos. Vassalos. Coisas. Minhocas.

É esta a 1ª questão concreta: As acusações contra o Iraque (armas de destruição maciça, exércitos inven­cíveis, suporte de redes terroristas in­ter­nacionais etc.) – que se provaram serem falsas – resultaram de enganos, de erros de informação – ou foram mon­ta­gens para iludir a opinião pública e fazer da guerra um facto consuma­do?

A esta questão respondo:

O Império, como sistema histórico perverso que é, tem ilimitada capacida­de de produzir mentira e de a fazer pas­sar por Verdade. O nosso António Aleixo já o disse duma forma assom­bro­sa­mente sucinta e profunda: “P’rá men­tira ser segura / e atingir profundi­da­de / tem que trazer à mistura / qual­quer coisa de verdade”. O império men­te. É da sua natureza ser mentiroso e pai de mentira. É por isso que gera es­cravos, servos, vassalos, em lugar de se­res humanos. Só a Verdade gera li­berdade, seres humanos livres, cria­do­res, inconfundíveis, únicos, irrepetí­veis, poetas, profetas, artistas, sábios.

Quando mente, o Império faz o que lhe é próprio. Será ingenuidade espe­rar que o Império alguma vez diga a ver­dade. Se o fizer, age contra si pró­prio e entra em colapso. Do Império, sem­pre havemos de esperar a Mentira, feita de pequenas/grandes mentiras em série. E, se não mantemos esta postura frente ao Império, é sinal que já lhe caí­mos nas malhas, já somos seus súb­ditos, seus lacaios, seus vassalos.

No que respeita ao Iraque, não he­sito em responder que o Império só nos deu mentiras. Tudo o que disse foi men­tira. E foi com base nessa Mentira feita de mentiras que tentou colocar a Hu­ma­nidade a favor das suas posições, nomeadamente, da guerra que estava determinado a consumar.

Ao Império interessava invadir o Iraque. Ocupar o Iraque. Apoderar-se do Iraque. Do petróleo do Iraque. Inte­res­sava-lhe um Iraque destruído, sub­misso, súbdito, subserviente, como o que já começa a ter nos funcionários iraquianos que fazem parte do actual governo de transição, em ordem a uma farsa de todo o tamanho chamada elei­ções livres. Como era isso que lhe inte­ressava, foi isso que fez. Quando se deu conta que, se calhar, pela primeira vez na História, a esmagadora maioria da Humanidade não acreditava na sua Mentira, na sua propaganda, estreme­ceu, mas não desistiu.

Aparentemente, o mundo esteve à beira de ficar, pela primeira vez na sua história, sem império de turno. Mas ainda não chegou a hora de tamanho triunfo da Humanidade. E foi então que o Império concebeu e realizou aquela pirueta publicitária nos Açores, com o seu próprio chefe e mais dois compinchas, um imperialista e outro com vonta­de de o ser no próximo futuro. Aos três filhos da Mentira – ou filhos da Puta, ou filhos do Diabo, ou filhos da Besta, conforme nos expressemos, respectiva­mente, na língua popular, na língua teo­lógica do Evangelho de João, na língua teológica do último Apocalipse cristão – juntou-se à última hora um quarto elemento, que o mundo ainda não conhecia. Foi o lacaio dos três, sem aspirações a imperialista. Bastava-lhe um qualquer galho no circo das vaida­des, onde pudesse exibir a sua própria. Pelos vistos, portou-se tão bem, que já recebeu o rebuçado de compensa­ção. Por isso, a Europa que se cuide, que o nosso homem é capaz de tudo para agradar ao Império e ao seu chefe de turno.

No dia seguinte àquela pirueta de circo nos Açores, a guerra eclodiu no Iraque contra o sentir e o querer da mai­o­ria da Humanidade. Porém, a Men­ti­ra do Império ficou sobejamente desmascarada. E a verdade é que ne­nhum dos pressupostos em que o Impé­rio pretendeu fundamentar a invasão e a guerra de destruição maciça do Ira­que se confirmou no terreno. Mesmo assim, o Império mostra-se incapaz de reconhecer a monstruosida­de da sua decisão. Deixaria de ser o Império, se o fizesse.

Entretanto, como ele continua aí arro­gante nos seus pés de barro, tam­bém os seus súbditos não deixam de o aplaudir. De joelhos. Ou mesmo de có­co­ras. Às suas sucessivas blasfémias, os seus súbditos na América e na Euro­pa, repetem sem cessar: “Ámen”. Há muito que renunciaram a ser seres hu­ma­nos. Preferem ser súbditos do Impé­rio. Coisas.

Passo agora à 2.ª questão: Quem construiu, em Portugal, essa cen­tral de intoxicação? Só o governo? A comunicação social – em particular al­guns “fazedores de opinião” – não pode ser responsabilizada por ter alinhado pre­meditadamente nessa campanha de intoxicação e mentira?

A esta segunda questão, res­pon­do: Nem o governo, nem a comuni­ca­ção social criaram no nosso país a central de intoxicação sobre o Iraque, de modo a justificar a criminosa guerra que ainda perdura. O Império é que faz isso em todo o mundo. Por isso é Império. O Império, como deus criador de mentira que é, apenas precisa de instalar pequenas centrais de difusão em todos os países do mundo, para me­lhor poder atingir todos os indivíduos e todos os povos. Os governos dos di­ver­sos países, assim como os media e, porque não dizê-lo?, as Igrejas, ou são ferozmente anti-Império, ou são auto­ma­ti­camente braços compridos do Im­pério, melhor, são o Império encarnado e actuante em cada canto do mundo. Infelizmente, no nosso país, o Império tem hoje um governo à altura de todas as desonestas missões que se propõe, nem que seja através dum pequeno con­tingente de militares da GNR. É um governo feito de súbditos, de funcioná­rios, de humanóides que ainda não che­garam à estatura de seres humanos. Ves­tem arrogância, respiram hipocrisia, servem ignorância, discursam mentiras, realizam ilusionismo, levam-nos até a ca­misa, põem o país a pique para o abis­mo. E tudo isto com a bênção e o placet do Presidente da República, com preocupante vocação para político sui­cida.

Os media, com excepção dos que es­tatutariamente estão obrigados a ser “a voz do dono”, ainda conseguem dar voz aos dissidentes do Império, mesmo quando o respectivo director alinha des­caradamente por ele. Se não são mani­fes­tamente anti-Império (alguma vez será possível ser um dos grandes me­dia e ser, ao mesmo tempo, anti-impé­rio?), também não são descaradamente Im­pério. Basta ver como o Império, na sua maior sucursal no nosso país, que é o actual Governo, anda aflito com tanta insubordinação nas redacções e como desabridamente tenta silenciar as vozes mais incómodas e as consci­ên­cias profissionais mais libertas e coe­rentes.

Houve, é verdade, uns quantos pro­fissionais da comunicação social, pom­po­samente conhecidos como “fazedo­res de opinião” – a mim já não me afe­ctam eles! – que, porventura, ingenua­mente, tomaram por verdade a Mentira do Império. E disseram cobras e lagar­tos contra os camaradas que não lhes seguiram nem seguem os passos. To­dos os dias, de múltiplas maneiras, fo­ram e continuam a ser caixas de resso­nância do Império entre nós.

Tamanha ingenuidade em profissi­o­nais de comunicação social levanta uma questão de fundo: será que, de­pois disto, eles ainda podem manter a carteira profissional de jornalista? Não é condição sine qua non, para se ser jornalista, que já se tenha deixado para trás a consciência ingénua?

E com esta pergunta, entro de imediato na 3.ª questão sobre a qual me pedem que me pronuncie:

Deve-se-lhes, ou não, exigir uma retractação pelo que com todo o des­pudor andaram a “vender”?

No meu entender, não. Eles é que se devem a si mesmos essa retracta­ção. Se o não fizerem, então já nem se­quer podem ser olhados como ingé­nuos. São descarados colaboracionis­tas do Império. Como os publicanos no tempo de Jesus, o de Nazaré.

E vamos então cair-lhes em cima com todo o nosso desprezo, como fazia a sociedade judaica do tempo de Je­sus em relação aos publicanos?

Haverá certamente quem pense que sim e o faça. Não é isso que aqui peço, embora condene com toda a vee­mência essa sua postura de cola­boracionistas do Império. Entendo que essa postura, só por si, já é reveladora de tão grande desumanidade, de tanta baixeza intelectual e de tanta desleal­dade para consigo mesmos, que sou incapaz de vir aqui pedir para eles to­do o nosso desprezo. Para eles, peço sim todo o nosso acolhimento, toda a nossa solicitude, todo o nosso carinho, toda a nossa convivência. Se conse­guir­mos ser plenamente humanos com eles, talvez ainda acabe por despertar, pelo menos, em alguns o gosto de se­rem humanos também. E poderemos, então, vir a ter a alegria de os ver, um dia destes, a organizar em suas casas, à semelhança do que fizeram em seu tempo Mateus e Zaqueu, um banquete de festa, para, desse modo, assina­larem o primeiro dia do resto das suas vidas. Como seres humanos. Visceral­mente anti-Império.


Carta aberta do teólogo González Faus aos prelados espanhóis

Meus irmãos Bispos

Os Bispos do Estado espanhol estão cada vez mais de cabeça perdida, devido às medidas legislativas que o Governo de Zapatero está a tomar contra certos privilégios da Igreja católica. Em lugar de se mostrarem agradecidos e cooperantes, os Bispos fazem ameaças. É por isso mais que oportuna a Carta Aberta que o célebre teólogo J. I. González Faus, sj, lhes dirigiu.

Neste verão, algumas intervenções ou discursos da autoridade eclesiástica provocaram dor e protestos na opinião pública. Tanto, que alguém de entre vós chegou a falar de um renascer do anti-clericalismo e de perseguição con­tra a Igreja. Não ignoro as manifesta­ções sectárias de alguns anti-clericalis­mos hispânicos. Mas receio que o que vós chamais perseguição não seja mais do que a saturação e o fastio duma boa parte da sociedade (tanto de não crentes como de muitos cristãos) con­tra modos de actuar vossos que são para nós difíceis de entender.

Estas linhas pretendem dizer-vos, a partir de dentro e da fraternidade, o que muitas outras vozes dizem a partir de fora e de falta de consideração. Pro­cu­rei contar até cem antes de falar  (não cem segundos, mas cem dias), pa­ra o fazer com calma e sem ressenti­mento. Quero ser cristão e sê-lo com a máxima fidelidade ao Evangelho. Porém, devo confessar-vos que a ins­tituição eclesiástica é a cruz da minha fé. E no curto espaço de que disponho, gostaria de vos dizer porquê:

1. Não estamos a ser testemunhas do Deus Vivo, mas de um passado morto. Como seguidores de Jesus, pa­rece que a nossa tarefa deveria ser: "A­nunciar ao homem de hoje o Mistério mais profundo, mais santo e libertador da sua existência, que o redime do me­do e da auto-alienação, ao qual cha­ma­mos Deus... Mostrar ao homem de hoje o caminho que conduz de maneira credível e concreta para a liberdade de Deus". Em vez disso, moralizamos precipitadamente contra tudo o que nos incomoda. Esquecemos que "a tradição só pode manter-se lá, onde se procu­ra honestamente novos caminhos e no­vos meios de vida". (As duas citações e as que vêm a seguir sem nenhuma outra referência neste texto, são de K. Rahner).

2. A imagem que damos da Igreja não é a de um "sacramento de salva­ção" (sinal de que Deus se identificou gratuita e definitivamente com este mundo pecador), mas a duma institui­ção resmungona e senil que, com base em quesílias, se mostra mais preocupa­da em defender-se a si própria do que em edu­car. Não poucas vezes e no que tem a ver com conteúdos concre­tos, talvez eu próprio estivesse mais perto de vós do que da cultura em que me movi­men­to. Porém, o que a socie­da­de adulta já não suporta é esse tom de que somos os únicos bons e tudo o resto é mau. Por isso:

3. Não damos de modo algum a sen­­sação de amar de verdade este mundo, ao qual, diz o Evangelho que Deus amou tanto, que lhe enviou o seu Filho, não para o condenar, mas para o salvar. Por pior que ele esteja, o objecto do amor de Deus continua a ser este mundo, não a Igreja. Esta deve ser apenas o sinal e o veículo desse amor; e não pode olhar o mundo como o campo do mal, que ela deve diri­gir e controlar, ou do qual se deve afastar, para viver noutra órbita, como se não tivéssemos nada a aprender com ele. "Por que não nos atrevemos a dizer com humil­dade e serenidade, adaptan­do um pou­co uma afirmação de Agosti­nho: muitos dos que Deus tem, também a Igreja tem, e muitos dos que a Igreja tem, Deus não tem?"

4. Não podemos continuar a  crer que toda a sociedade é católica, salvo apenas umas poucas vozes mais ruido­sas que, ou negam a fé ou não a reco­nhe­cem nas proclamações da Institui­ção, mas que, bem vistas as coisas, não passam de minorias sem qual­quer si­gnificado (ainda que amplia­das pelos media). O facto é este: "O com­por­ta­mento de certos católicos, do tipo con­ven­cido, duro e militante, tem algo de primitivis­mo cultural, algo do cará­cter da pequena burguesia que se fe­cha em si mesma e se entrincheira num gue­to. Tais homens fecham-se sobre si e com­por­tam-se como se no mundo só exis­tis­sem cristãos". Mas não é este o mun­do em que hoje nos movemos, sal­­v­o para quem ainda não superou o nacio­nal-catolicismo.

Para dar apenas dois exemplos: surpreende o reducionismo que fazeis da fé cristã a temas de moral sexual; surpreende também a vossa pretensão de que a legislação civil reflicta o que considerais lícito neste campo. Nos evan­gelhos há ape­nas duas passagens referidas à moral sexual e são, certa­mente, exigentes como o é todo o Evan­gelho.

Porém, o olhar de Jesus dirigia-se muito mais ao sofrimento humano, à enfermidade, às opressões realiza­das em nome de Deus ou do Dinheiro, à mulher marginalizada, à possibilidade da paz interior, e a todas essas peque­nas conquistas de liberdade que, quan­­do se verificavam, Jesus as inter­pre­­tava como sinais de que o Reino de Deus estava a chegar.

Muito mais duro é o Evangelho com os ricos, embora este facto pareça que não chega a ser preocupação pas­toral para vós. As vossas palavras parecem-se mais com as do romano Catão, do que com as do judeu Jesus, chamado O Cristo.

O outro exemplo tem a ver com o ensino da religião na escola. É, sem dúvida, um problema ainda por resol­ver. Mas entre os meus muitos amigos não crentes, uns 90 por cento são fruto daquelas aulas de religião na escola franquista. E isto faz-me perguntar: é tão importante assim a obsessão por "gran­des plataformas", quando depois temos tão pouco que dizer às pessoas, a partir de­las? Jesus enviava os seus a pregar, impondo-lhes uma notável po­breza de meios, mas dando uma grande riqueza de conteúdos. Parece que nós, ao con­trá­rio, nos empenhamos em evangeli­zar com grande riqueza de meios, mas com notável pobreza de conteúdos.

Todos rezamos no Breviário: "Aju­da com a tua Graça aos bispos da Igre­ja, para que com gozo e fervor sirvam o teu povo". Esse serviço gozoso impli­ca um grande amor à liberdade: pois, embora os homens abusemos mui­tas vezes dela, só o que resulta duma li­ber­dade total merece o nome de au­tên­tica bondade humana.

E, já agora, desculpem estas mi­nhas palavras. Mas creio estar dentro do magistério eclesiástico e do Cate­cis­mo, que defendem a necessidade da opinião pública e até da crítica na Igreja. Embora depois, como vingança camuflada, as consequências me che­guem por outro lado.


Os 150 anos sobre o dogma da Imaculada Conceição no Sameiro

Ela gosta dos lugares altos!

E os bispos também!...

No dia 8 de Dezembro de 2004, o alto do Sameiro, em Braga, deixou na sombra o alto da Serra d'Aire. Os bispos portugueses trocaram a senhora de Fátima pela senhora do Sameiro. Não admira. Fazia 100 anos que a cabeça da senhora do Sameiro passou a ostentar uma coroa de ouro e safiras!... Além disso, o santuário dela recebeu, nesse dia, a rosa de ouro, oferecida pelo Papa.

Vejam só com o que se ocupa a hierarquia da nossa Igreja. Frequentam os lugares altos, como os sacerdotes das deusas dos cultos do Paganismo do tempo dos profetas bíblicos. Querem-nos convencer, deste modo, que a senhora do sameiro e a senhora de fátima são Maria, mãe de Jesus. Mas então a humilde mulher de Nazaré é, ao mesmo tempo, a senhora do sameiro, a senhora de fátima, a senhora da saúde, a senhora do rosário, a senhora da aparecida, a senhora de lourdes, a senhora do ó, a senhora dos aflitos, a senhora da conceição? Haja modos, senhores bispos!

Está visto que os bispos portugue­ses e o Papa João Paulo II, bispo de Ro­ma, não têm emenda. Dizem-se cris­tãos, mas insistem nos cultos míticos do Paganismo, em honra das múltiplas imagens da deusa virgem e mãe, uma para cada necessidade das muitas que as populações empobrecidas e depri­mi­das conhecem por experiência pró­pria. Em lugar de chamarem a tempo e fora de tempo as populações empobre­cidas e deprimidas para uma prática política libertadora que obrigue a eco­nomia a colocar-se por inteiro ao servi­ço das reais necessidades e das legí­timas aspirações de todas as pessoas e de todos os povos!...

Os profetas bíblicos, 700 anos an­tes de Jesus nascer, já se viam gregos com os cultos idolátricos das popula­ções à imagem da deusa Asterté, cujo santuário era tanto ou mais concorrido que o do Sameiro ou o de Fátima, mas os nossos bispos e o nosso Papa João Paulo II, em lugar de prosseguirem no mes­mo caminho desalienador e de dis­tan­ci­a­mento em relação a estes cultos idolátricos e outros igualmente degra­dan­tes, como o culto ao deus Dinheiro ou ao deus Mercado, preferem proce­der como os sacerdotes do Paganismo e colocam-se do lado da deusa, precisa­mente naquele lugar de destaque que ela sempre reserva aos seus cúmplices. É também por isso que eles vestem dife­rente, usam anel de ou­ro no dedo, fazem-se cobrir com aquela "cartola" flamejante, seguram um bácu­lo de po­der que os afasta dos pobres e de Jesus de Nazaré, ainda que os apro­xime dos príncipes/administradores do antigo Im­pério romano. Nem sequer se dão con­ta do ridículo em que caem. Nem da total contradição com o Evan­gelho de Jesus que lhes cumpre anun­ciar, pois para isso foram ordenados bispos!

E que dizer dos 150 anos da pro­cla­ma­ção do dogma da Imaculada Con­cei­­ção da "Virgem"? (sabiam que este título "Virgem" foi roubado pela Igreja católica romana à mítica deusa virgem e mãe? Era a esta, e não a Maria de Na­zaré, que as populações chamavam "Virgem"!)

Mas então os nossos bispos não sabem, já, que o pecado original histo­rica­mente nunca existiu, como tal, não faz mais qualquer sentido manter na Igreja um dogma como o da Imaculada Con­ceição? Como se pode proclamar que Maria, a mãe de Jesus, foi isenta de pecado original, na sua conceição, no útero da sua própria mãe, se este histo­ricamente nunca existiu? Como se po­de ser isento duma coisa que nunca acon­teceu? Não sabem, já, os bispos que o relato bíblico que o refere não pas­sa dum relato mítico das origens, con­cebido para explicar poeticamente a origem do sofrimento e da "desor­dem" no mundo? Por outro lado, quem pensam os bispos que são, para virem dizer que as nossas mães nos conce­beram em pecado? Alguma vez o acto de amor entre um homem e uma mu­lher é pecado? Só se for na mente per­vertida de algum eclesiástico, nunca na mente de Deus Criador que nos fez co-criadoras, co-criadores com Ele.

É verdade que o Papa Pio IX defi­niu, em 1854, o dogma da Imaculada Conceição de Maria. Problema dele. Co­mo Papa, tinha obrigação acrescida de intuir que todas, todos fomos/somos concebidos em graça, não em peca­do! Deus, não é o Deus da graça? To­das, todos fomos conce­bidos em gra­ça, não apenas Maria, mãe de Je­sus. O que não for assim é insulto a Deus!


Livros do trimestre

Ausência / Nelson Ferraz

À esquerda de Deus

O que poderemos encontrar à esquerda de Deus? Ninguém sabe. Mas todas, todos nós podemos saber o que o escritor Nelson Ferraz nos oferece com este seu mais recente livro, "À esquerda de Deus". Basta procurá-lo num local onde se vendem livros e folheá-lo, ao acaso. Qualquer das crónicas que nos caia debaixo dos olhos prende-nos e dificilmente conseguiremos parar a meio. A solução é pegar no livro e trazê-lo connosco para casa.

Ao todo, são 96 crónicas que "mor­dem" a nossa actualidade. E ainda há a agradável surpresa, logo a abrir, do texto de apresentação de um outro es­critor e jornalista, José Viale Moutinho, de seu nome, que logo de entrada nos ad­verte que "Nunca ninguém levantou voo, que não fosse contra o vento".

Pelos títulos das crónicas, intuímos da oportunidade e da acutilância dos temas abordados. Eis alguns: "Fuinha"; "Os senho­res e os chefes"; "Deus é um gajo por­reiro"; "O bebé da fralda ne­gra"; "É qua­se abril, meu amor"; "Figu­ras e fi­gu­rões"; "Heróis do mar, nobre pol­vo...";  "Os 'Quins' e os 'Cães'"; "A pás­­coa não existe"; "Tachos encomen­da­dos".

A Editora Ausência foi a primeira a deixar-se cativar por esta obra e edi­tou-a. Agora, é a nossa vez!

Notícias Editorial/E. P. Sanders

A verdadeira história de Jesus

Os responsáveis pela edição portuguesa deste livro não hesitaram em escrever no topo direito da capa, ainda antes do título: "Tudo o que se pode, com rigor histórico, saber sobre Jesus". E na contra-capa inseriram várias apreciações empolgadas sobre a obra, a começar pela do Bispo castrense, D. Januário Torgal Ferreira. Só não dizem é que o livro, inexcedivelmente bem traduzido pela teóloga Teresa Martinho e Marian Toldy, chegou a Portugal com 10 anos de atraso sobre a 1.ª edição original. E 10 anos, hoje, é muito tempo, no que respeita a descobertas sobre o Jesus histórico. Mas essa é, sem dúvida, uma das maiores debilidades deste livro.

O autor é um especialista em cris­tianismo e judaísmo de renome mundial. Felizmente, não é o único. Por outro la­do, a chave her­me­nêutica a que recorre, para se aproximar de Jesus, é a da "res­tau­ração escatológica". O que, à par­­tida, pode constituir e constitui de facto uma redução na compreen­são de Jesus, por parte das pessoas deste tempo. Outros especialistas em Jesus histórico preferem a chave política e, com ela, conseguem dar-nos dele uma dimensão nunca antes percebida pelas teologias e pelas cristolo­gias até hoje.

A presente obra, a todos os títulos recomen­dável, melhor, obri­gatória, le­va-nos até à Ga­lileia e à Judeia do século I e até àquele Jesus que se movimen­tou nesses ambi­en­tes, mas não nos apresenta Jesus para hoje, para os nossos aqui e agora. E isso deve-se, entre outros motivos, à chave hermenêutica a que o autor recorreu. Fosse política e não escatológica a chave hermenêutica e outro seria o resultado desta investiga­ção sobre Jesus histórico. A pessoa de Jesus não nos apareceria tão na­que­le então, mas cresceria até ao nos­so hoje e aqui. A obra ganharia outra "força", teria outro impacto e também outro acolhimento entre as nossas concidadãs, os nossos concidadãos.

Mesmo assim, é manifesto que, depois deste livro, as Igrejas não po­dem prosseguir com as suas cateque­ses de crianças e de adultos, como se não tivesse havido este ver­da­deiro "cataclismo".

O livro deixa claro que Jesus teve irmãs e irmãos de sangue, que Maria, mãe de Jesus, não é virgem "antes, durante e depois do parto", que os "mi­la­gres" não são milagres, que Jesus não quis sofrer nem morrer pelos nos­sos pecados. Haverá coragem nas Igre­jas para mudar radicalmente o teor das suas catequeses?

Sal Terrae/L. Boff

A crise como oportunidade de crescimento

A edição original deste livro é em português do Brasil (Animus/Anima Produções Botafogo, RJ). Acaba de aparecer em Espanha, nas Edições Sal Terrae. É uma pérola de espiritualidade a não perder.

O livro, de 209 páginas,  "faz-se" em 4 partes: I. A crise do nosso tempo: riscos e oportunidades. II. A espi­ri­tu­a­li­dade como resposta à crise. III. Espi­ri­tualidade e vida religiosa. IV. Espiritu­a­lidade, Política e Contemplação.

"Para quem sabe cuidar e esperar, até o espinho se converte em flor, e a ter­ra seca em jardim. Porque o Espírito que enche o universo está sempre em actividade, especialmente hoje. Lá, on­de o risco é grande, também o é a ins­pi­ração do Espírito em ordem a um no­vo horizonte de vida e de esperança."

São palavras do autor, no curto preâmbulo da obra. Dizem bem de que tipo é o "sopro" que perpassa em todas as suas páginas. Se gosta de libertação para a liberdade, corra pelo livro!

Sal Terrae/ Len Sperry

Sexo, Sacerdócio e Igreja

O título, só por si, já diz muito. Mas se ao título, acrescentarmos que o autor é doutor em medicina e em filosofia, e professor de psiquiatria no "Medical College" de Wisconsin e já tem mais de 40 livros publicados, está dada a garantia de que se trata duma obra com tudo para ser um êxito. Boa leitura!

"A supressão da exigência do celi­bato acabaria realmente com a pedo­filia dos sacerdotes? De que estamos a falar: de desenvolvimento da identi­da­de de género, ou de desenvolvi­men­to psico-sexual? Quando o menor tem mais de 13 anos, não estamos perante ca­sos de efobofilia? O cumprimento das cláusulas do Estatuto dos bispos, não contribuirá para que aumente ainda mais a escassez de sacerdotes?"

É com estas perguntas, mais do que oportunas, que o autor parte para o seu trabalho. Por elas se vê que o livro interessa a todas as pessoas deste nosso tempo, mas especialmente às pes­soas que têm responsabilidades na Igreja. Assim haja coragem para mergu­lhar nas suas doutas páginas.

Campo das Letras/Volodia Teitelboim

NERUDA

Este livro é um monumento. Como a vida do próprio Neruda. O Chile que serviu de berço ao Poeta explodiu com a sua Poesia e tornou-se todo o universo. Felizes as pessoas que mergulharem nestas páginas. Nunca mais poderão gostar dos Pinochets e dos Bush. Corram então por esta obra e não se assustem diante das suas 568 páginas, aliás, muito poucas, para se falar da vida histórica de um Homem com a estatura de Neruda! Fiquem, para começar, com um pedaço  com que termina o livro, p. 544-545.

"Se se perguntar quanto demorou exactamente no seu regresso a Isla Ne­gra, a estatística responderia com certa e fria precisão: dezanove anos e três meses. Decorreram mais de sete mil di­as e mais de sete mil noites. O país kaf­kiano, das duplas exéquias, ou dos que não têm nenhuma por estarem de­sa­parecidos, no caso de Neruda ofere­ceu-lhe triplos funerais.

Muitas crianças sabem que ele es­creveu um Livro de Perguntas, mas as interrogações continuam a crescer: - Senhor, tem preparada a sua carta de apresentação para o Terceiro Milé­nio? - Comecei a escrevê-la em 1923. - Com que nome? - O que se sabe. - Mas quem é você? - Neftalí por parte da mãe? - Ricardo? Eliecer? «Recordo o dia em que perdi os meus três pri­mei­ros nomes». Don Ninguém ou Don Toda a Gen­te? Quantas e quais foram as suas vidas? As de um sonhador, de um rabelaisiano, de um mulheren­go («não há um primeiro livro sem mulher»), de um pro­feta, de um eco­logista (avant la letre), «um animal de luz dominado / pelos seus erros e a sua folhagem»? Um revolucionário, um construtor de casas, um casamenteiro, um armador de festas e de barcos dentro da garra­fa? Foi alguém que pediu «piedade para estes séculos e seus sobrevi­ven­tes» e, no entanto, embora matassem a verdade à paulada ou com mentiras, foi um homem de esperança, alguém que disse «louvada seja a terra cor de excremento. / As suas cavidades, os seus ovários sacrossantos, / (...) a mal­dita prole que faz a luz do mundo».

Sim. Foi tudo isso e certamente al­guma coisa mais. Mas que coisa mais? Se desejam sabê-lo, perguntem isso à sua poesia. E, em definitivo, quem é e donde vem? «Sou dos vinhedos negros de Parral, / da água de Temuco, / da ter­ra estreita, sou e estou.» É aquilo que foi e o que será.. Um homem que está lá em cima do promontório a olhar o mar."

Trotta/Jon Sobrino

Cartas a Ellacuría

O livro tem apenas 153 páginas, em formato recolhido. Mas que grandeza sopra no seu interior! É um livro como o Evangelho. O Evangelho de Ellacuría, segundo Jon Sobrino. Um mártir que escapou do massacre - na hora, estava em missão no estrangeiro! -escreve cartas ao mártir que mataram. Não é um livro para ler com os olhos. É para escutar com o coração. Mas cuidado. É o Espírito Santo quem nos fala neste livro.

Todos os anos, durante os últimos 15, o teólogo Jon Sobrino aproveitou a da­ta do aniversário do massacre dos je­suítas da UCA (Universidade de San Salvador) e das duas funcionárias que trabalhavam com eles e para eles, para escrever uma carta a Ellacuría, sem dú­vida, o principal cérebro do grupo que o regime ditatorial de então não podia suportar vivo. Nele, dirige-se, evidente­mente, a todos os demais companhei­ros e às duas funcionárias.

O volume recolhe-as todas. Para que mui­tas mais pessoas possam beneficiar desta sã teologia, deste evangelho na continuação do de Jesus. Mergulhem nes­tas páginas. São graça.

Nueva Utopia/Júlio Pérez Pinillos

Os padres operários em Espanha

"Limitar-me-ei a fazer uma crónica narrativa do nascimento e desenvolvimento do colectivo de padres operários de Espanha, que tem início no começo dos anos sessenta, graças ao carisma e ao profetismo de alguns sacerdotes e religiosos." Assim escreve, a abrir, o autor, porventura o padre operário vivo mais conhecido de Espanha e da Europa, por força da sua militância sem desfalecimento.

O livro é o resultado duma tese de licenciatura em Teologia Prática, diri­gida por outro teólogo de Espanha mui­to conhecido, Julio Lois, de seu nome. Como o título indica, está virado sobre­tudo para a realidade eclesial espanho­la, mas ninguém, fora do país vizinho, sai defraudado, se se debruçar sobre o seu conteúdo. Nestas páginas, ganha corpo um modelo de Igreja alternativo ao modelo clerical, de má memória. E isso faz toda a diferença.

Editorial Trotta/E. P. Sanders

Jesus e o Judaísmo

"A finalidade deste livro é investigar duas questões relacionadas entre si no que respeita a Jesus: o que é que ele pretendia e quais as relações dele com os seus contemporâneos no marco do judaísmo. Estas duas questões levam-nos de imediato a outras duas: a causa da sua morte (implicavam as suas intenções uma oposição tal ao judaísmo, que haveria de conduzi-lo à morte?) e o impulso que motivou o aparecimento do cristianismo (a cisão entre o movimento cristão e o judaísmo teve a sua origem numa confrontação histórica entre Jesus e este último?)."

As palavras são do autor, a abrir a introdução. A obra espraia-se ao lon­go de 540 densas páginas e tem todo o aspecto duma obra de tese. Apesar disso, é relativamente acessível a todas as pessoas de fala espanhola e a todas as outras que estejam à vontade com a língua de Cervantes. Se se pode aqui formular uma lamentação, será esta: que uma obra tão determinante, para podermos entender mais profundamen­te Jesus e o movimento radicalmente libertador e igualitário entre mulheres e homens que com ele se iniciou, só ago­ra seja traduzida para uma língua fora da língua inglesa em que original­mente apareceu em 1984, já lá vão pre­cisa­mente 20 anos! Que estiveram a fazer as Igrejas na Ibéria? E as editoras ditas católicas ou da área protestante? Ou será que um tal "descuido" foi inten­cional, para que as populações conti­nu­as­sem vítimas do obscurantismo e se­guissem como "carneiros" as cate­queses eclesiásticas cheias de inver­dades, no que respeita a Jesus e ao mo­vimento que com ele se iniciou?

"Jesus - escreve o autor, em jeito de conclusão da sua investigação -  compreendeu-se a si próprio como o último mensageiro de Deus antes do estabelecimento do Reino. Buscava u­ma nova ordem que seria criada me­diante uma ac­ção poderosa de Deus. Nesta nova ordem, voltariam a reunir-se as dozes tribos, haveria um Templo novo, não haveria necessi­da­de do poder das armas, o divórcio não seria necessário nem seria permitido, os marginalizados - inclusive, os mal­va­dos - teriam o seu lugar e Jesus e os seus discípulos - os pobres, mansos e humildes - seriam os seus dirigentes. Jesus tinha discípulos dedicados que aceitaram as suas expectativas, fize­ram-nas suas e viram-se implicados nu­ma certa transformação delas depois da morte e ressurreição dele. Além dis­so, as massas também o seguiram. Estas sentiram-se atraídas, tanto pelas suas curas, como pela sua mensagem que lhes anunciava um lugar poremi­nente no Reino. Alguns, impressionados pela sua mensagem e pelo seu poder, viram-no como uma das grandes figu­ras do passado de Israel, outros, possi­velmente, como «filho de Deus»."

Mais adiante, escreve o autor: "O que é inquestionavelmente único no ca­so de Jesus é o resultado da sua vida e da sua obra. Estas culminaram na res­surreição e na fundação de um mo­vi­mento que teve continuidade. Não posso oferecer [aqui] uma explicação especial ou uma reconstrução plausível das experiências que os discípulos tive­ram da ressurreição. Nas cartas de Pau­lo podemos observar a força e impor­tância que estas tiveram. No meu en­tender, estas experiências são únicas quanto ao seu efeito. [...] Os discípulos es­tavam preparados para algo. O que re­ceberam inspirou-os e fortaleceu-os. O que é único e diferente é este «o que»." E que tal mergulhar no livro?

Trotta/Juasn Velasco (editor)

A experiência mística.

Estudo interdisciplinar

Em Jesus de Nazaré, a sua vivência mística levou-o a enfrentar o Sistema impiedoso e cruel que mentirosamente se cobria com o nome de Deus. O resultado, como se sabe, foi a morte na cruz, porque o Sistema não perdoa a quem o não adora/idolatra. Fossem assim todas as místicas, todos os místicos e o nosso mundo estaria hoje bem melhor.

Vem isto a propósito do livro que aqui se apresenta, "A experiência mís­tica". Nem sempre quem se debruça so­bre a mística o faz com este critério jesuânico. E o resultado é o que se sa­be. Porque não há mística a sério, quan­do quem a vive se evade do mundo, da Política e da História.

Por isso, é mais do que oportuno este livro coordenado e dirigido por Juan Martín Velasco. Os trabalhos que o "fazem" revelam-se saudavelmente críticos. São assinados, para além do editor, por Jesús García Recio, Julio Trebolle Barrera, San tiago del Cura Elena, Francisco Mora Terurel, Fran­cisco Rafael de Pascual, Carlos Do­mínguez Morano, Felisa Elizondo, Miguel García-Baró, María Jesús Mancho, Pedro Rodríguez Panizo, Amador Vega. Imprescindível.

Sal Terrae/Jean-Marie Muller

A coragem da não violência

"Nós, as civilizações, agora sabemos que somos mortíferas". É com esta afirmação de Paul Valéry, proferida em 1919, que o autor abre o prólogo do seu mais que oportuno livro de mais de 200 páginas. Infelizmente, os líderes das nações fazem orelhas moucas. E a violência continua aí, cada mais sofisticada, na ordem do dia. Basta ver o que se passa hoje no Iraque da nossa vergonha.

O autor sabe do que fala e escre­ve, pois é membro fundador do Movi­mento para uma Alternativa Não Vio­lenta (MAN) e director académico do Ins­titut de Recherche sur la Résolution No-violente des Conflits (IRNC).

"A obra da violência não é senão desequilíbrio, desordem, disputa, desa­cordo, desunião, divisão, dispersão e discórdia. A violência sufoca a evidên­cia e instaura o reinado da confusão. A obra da não violência é moderação, equi­líbrio, ordem, diálogo, acordo, uni­ão, comunhão e concórdia."

Esta é uma afirmação tirada da conclusão do livro. Parece uma verda­de de La Palisse. O difícil é torná-la realidade social entre as nações.

Sal Terrae/Mohandas Gandhi

Escritos essenciais

Esta é uma edição que viu a luz do dia a primeira vez já no remoto ano de 1948. E foi acompanhada na altura pelo próprio Gandhi. Mas mantém ainda hoje toda a actualidade. Como a confirmar que não faltam soluções para melhorarmos o mundo. O que nos tem faltado é coragem para as aplicar.

Quem ainda não conhece o pen­sa­mento de Gandhi tem aqui uma o­por­tunidade para sair da ignorância. Esta obra, elaborada e editada com grande esme­ro, é como uma pequena enciclopédia do pensamento desse eminente apóstolo da não-violência acti­va, uma espécie de Cristo do sécu­lo XX, nascido fora do mundo bíblico, mas não fora da Humanidade, com a qual Deus Criador anda sempre de mãos dadas, para que ela seja cada vez mais protagonista e co-criadora jun­tamente com Ele.

O livro está concebido por temáti­cas. Logo a abrir, vem a temática "Deus", como "verdade e amor". As res­tantes temáticas são: "Disciplina pa­ra compreender a verdade". "Crenças e ideias fundamentais". "Evangelho do trabalho". "Organização industrial: anti­ga e nova". "A distribuição da riqueza". "Um capítulo sobre a luta de classes". "O Congresso em relação com as clas­ses altas e as massas". "Auto-governo político". "A liberdade da Índia: métodos e meios". "Não violência". "Responsabi­lidade no meio das guerras mundiais". "Liderança de Gandhi na luta nacional". "Quando chegou a liberdade". "O satyagraha". "A vida do satyagrahi". "Re­li­­gi­ão e moral". "Os pro­blemas da mu­lher". ""Sobre a edu­ca­ção". "Misce­lâ­nia".

O capítulo "Au­to-governo político" abre com estas pa­la­vras avisadas: "De­­ve­ríamos ale­grar-nos de morrer, se não podemos viver como homens e mu­lhe­res livres". E logo depois: "Do mesmo modo que todo o país é capaz de comer, beber e res­pirar, assim também toda a nação é capaz de manejar os seus próprios as­suntos, por muito mal que o faça". E ainda: "Quando falo de independência política, não penso em imitar de modo algum a Câmara dos Comuns britânica, nem o regime soviético da Rússia,, nem o regime fascista de Itália, nem o regi­me nazi de Alemanha [não esquecer que estas palavras foram proferidas em 1937]. Eles têm sistemas adequados aos seus respectivos temperamentos. Nós temos que ter o nosso próprio siste­ma, adequado ao nosso carácter. O que isto pode implicar vai mais além de quan­to eu possa dizer. Eu chamo-lhe Ramaraj, isto é, soberania do povo ba­seada na pura autoridade moral."

Já na parte final da obra, há um apartado sobre "Civilização europeia". Começa assim: "Indubitavelmente, a civilização europeia é adequada para os europeus, porém significará a ruína da Índia, se nos empenhamos em re­pro­duzi-la. O que não quer dizer que não possamos adoptar e assimilar o que tenha de bom e de assimilável, nem tão pouco significa que os europeus não tenham que se libertar dos males de que a referida civilização sofre. Um desses males é a busca incessante das comodidades materiais e da sua multi­plicação (...), sob as quais vivem escra­vizados.

Nueva Utopia/Enrique de Castro

A Fé a estafa

"Escrevo este livro para os chavales dos nossos bairros, para os meninos da rua, para os okupas, para os imigrantes, e para quantas, quantos vivem solidários com eles." É com este tipo de pessoas que Enrique de Castro, o autor, vive. E é com este tipo de pessoas que ele conta. Tal como Jesus! O conteúdo não pode ser mais explosivo e polémico.

Depois de ter publicado o provoca­dor livro "Deus é ateu", apresenta-se agora com este volume de 255 páginas sobre Jesus de Nazaré. A Igreja é por diversas vezes visada, mas apenas a talhe de foice, por se apresentar afas­ta­da de Jesus e do Evangelho.

Enrique escreve com coração e com sangue. Mas também com invulgar lucidez teológica e bíblica. Nestas pági­nas damo-nos conta das últimas "novi­da­des" sobre Jesus de Nazaré, que a investigação científica nos tem feito che­gar. E isso faz toda a diferença.

A linguagem é simples, para ser en­tendida pelo pé descalço que nunca frequentou nem frequentará a universi­da­de. E por todas, todos que se fizerem um com ele. "Creio na ressurreição dos vivos", grita Enrique, quase a concluir.

Edição de autor/ Manuel Maria

Não-sei-que-diga I

Depois do romance de "caricaturas da Guerra Colonial", Checa é pior que Turra, Manuel Maria , professor na Secundária de Gondomar, surpreende-nos com este livro de crónicas que promete continuar num segundo volume já anunciado por este que acaba de sair. O livro, de 232 páginas, abre com a crónica "O rei vai nu!" e fecha com a crónica "Celebração da paz". Entre uma e outra, estão mais 36. Para ler e mastigar.

As crónicas, que começaram por ver a luz do dia no NOTÍCIAS DE GON­DOMAR, apresentam-se todas datadas. Deste modo, o autor pretende que as leitoras, os leitores comecem por se situar no tempo em que elas nasceram e captem a primitiva força que só o con­texto lhes pode ter dado. Mas, agora, postas em livro, todas e cada uma das cró­nicas adquirem inesperadamente uma outra leitura, pelo simples facto de se fazerem de novo pre­sente na nossa actualidade.

Este é, por isso, um livro datado e actual, ao mesmo tempo. Mergulhemos nele e ousemos assumir sem desfale­cimentos a nossa cidadania.

Editorial Trotta/Juan Antonio Estrada

Por uma ética sem teologia

O autor é doutor em filosofia na Universidade de Granada, onde é professor de Metafísica e de Filosofia da Religião, e também doutor em teologia na Gregoriana de Roma. Jesuíta, integra a "maldita" Associação de Teólogos João XXIII, sedeada em Madrid, e é olhado com suspeição pela Cúria Romana, o que só diz bem dele e da sua forma de estar na vida. O livro, polémico q.b., só espera que quem esteja academicamente preparado para o ler-estudar não deixe de o fazer. Imprescindível.

"Habermas - escreve o autor na in­tro­dução - inicialmente participa na tese popular dos anos sessenta acerca do de­sa­parecimento da religião nas mo­der­nas sociedades desenvolvidas e ques­tio­na-se sobre o significado e a va­lidade das tradições religiosas. De­pois, na década de oitenta e noventa há uma reviravolta: passa duma com­pre­ensão sociológica, evolutiva e mera­mente fun­cionalista da religião para uma maior atenção ao seu significado e às suas ta­refas em relação com per­guntas exis­tenciais e metafísicas que, até então, não havia tido em conta."

Mais adiante, prossegue: "Para Ha­bermas, o pensamento religioso está vin­culado ao mito e à metafísica. Am­bos, segundo a sua reconstrução histórica, encon­tram-se hoje numa fase terminal, sub­s­ti­tu­ídas por ideo­lo­gias racionais, sus­ce­ptí­veis de va­lorização crítico-reflexiva pela filo­sofia. Confia além disso nas possibili­da­des de um hu­ma­nismo ético, co­mo o dos direitos humanos, que tor­naria desnecessá­ria a referência re­ligiosa e geraria uma consciência autónoma, sem dimensões transcen­den­tes, para além das imanentes ao conceito de género humano. Numa palavra, defende uma ética racional sem componentes teológicos e analisa a religião como construção humana pró­pria de sociedades tradicionais, que progressivamente vai sofrendo a ero­são e se vai perdendo no curso evolu­tivo do desenvolvimento humano."

O livro tem quatro partes: I. Uma nova teoria da racionalidade e do pen­samento. II. Da teoria da racionalidade à da acção comunicativa. III. A religião numa época pós-metafísica. IV. O sen­tido teológico da filosofia da história.

É nesta última parte, que o autor analisa os pontos de vista de Haber­mas com os dos teólogos cristãos contemporâneos, nomedamente, o alemão J. B. Metz. "Metz acusa Haber­mas de um discurso desmemorizado. O negativo da História não é integrável numa teoria da Modernidade, que é uma nova versão da filosofia idealista, marcada pelo progresso. A decadência de tradições substantivas memorizan­tes, como as que oferecem as tradições religiosas, contribuiria à desumaniza­ção da sociedade e à perda da moral, que ficaria esvaziada de conteúdos."

Trotta/JJ Tamayo

Fundamentalismos

e diálogo entre religiões

Este livro procura ir ao encontro de múltiplos apelos de teólogas, teólogos de diferentes religiões, filósofas, filósofos, científicos sociais e intelectuais que acompanham com interesse as religiões, os quais, após terem acolhido com entusiasmo a sua obra imediatamente anterior, Novo paradigma teológico (desta mesma Editora), dirigiram-se ao autor para que trabalhasse e aprofundasse cada um dos horizontes aí apenas esboçados. O resultado aqui está. Surpreendente. Entusiasta. Profundo. A não perder por nada desta vida.

Nas suas 300 páginas, a obra com­pleta-se em 10 partes: I. Secularização,  Reli­gião e Sociedade. II. O despertar das religiões: Um retorno contra todo o prognóstico? III. O fundamentalismo re­ligioso. IV. O fundamentalismo econó­mico: a religião do mercado. V. O cristi­a­nis­mo e as religiões. VI. Do choque de civilizações ao diálogo entre reli­giões. VII. Diálogo entre cristianismo e Islão numa perspectiva libertadora. VIII. O medo da Igreja católica ao diálogo inter-religioso. IX. Religiões e direitos humanos. X. Tarefas e desafios das re­ligiões em tempos de globalização.


ÚLTIMA PÁGINA

Casa do Gaiato

O que é que já teria feito Pe. Américo?

A Casa do Gaiato tem estado na berlinda. Chovem acusações daqui e dali, apoiadas em relatórios de técnicos e em testemunhos de antigos e actuais residen­tes. Os responsáveis reagem com indignação. Sempre estiveram aci­ma de qualquer suspeita. Não há-de ser agora que a sua imagem vai ser pos­ta em causa. Por isso, os técnicos que denun­ciam só podem ser "inimi­gos". Fossem católicos de missa e de obrada paga aos respectivos párocos, e só veriam razões para louvar a Obra.

Pelo menos, é o que se pode con­cluir da leitura de um Manifesto anóni­mo, divulgado com todo o destaque na 1.ª página do semanário da Diocese do Porto (VP, n.º 44, 2004), elaborado por um Grupo Promotor, constituído por "Padres e leigos" (sic: padres com "P" maiúsculo e leigos com "l" minúsculo),  e do qual se não conhece nem um no­me. O referido Grupo, em lugar de se interrogar com humildade e sentido de autocrítica fraterna sobre o que, até hoje, já teria feito o fundador da Obra, o nosso querido Pe. Américo, se tivesse podido acompanhá-la, em todos estes anos pós 25 de Abril 74, fecha-se nos cegos elogios do costume e sugere que se promovam visitas de "apoio e de­sa­gravo" às Casas do Gaiato, para as­sim se encher o Livro de Visitantes com muitos nomes e palavras de louvor!

É pena que, em Igreja, continue­mos a ter tanto medo da Verdade. E corramos logo a tentar tapar o sol com a peneira, pior, com missas em série. Não será bem melhor apro­veitar a sau­dável onda de contestação, para se pôr fim à instituição, nascida no negro tem­po do fascismo e da misé­ria imerecida, tal como logo se acabou com a Guerra Colonial? Não seria por aí que já teria avançado o nosso querido Pe. Américo? Ou pensam que ele gostava que hou­vesse cada vez mais crianças abando­nadas para a sua Obra poder crescer? A simples perpetuação da Obra não é já uma agressão às crian­ças? Que tal, começar por atacar as causas do mal?


Barracão de Cultura

A Associação Cultural e Recreativa AS FORMIGAS DE MACIEIRA tem estado, nestas últimas semanas, a divulgar uma boa notícia e a fazer um pedido, uma e outro relacionados com a sua decisão de construir um Barracão de Cultura no campo que lhe foi oferecido para esse fim pela sócia Maria Laura.

É esta a boa notícia: O projecto de arquitectura, concebido e realizado gratuitamente por uma jovem arquitecta do Porto, já foi aprovado pela Câmara Municipal de Felgueiras. A preocupação agora está centrada na elaboração dos outros pequenos projectos afins, da responsabilidade de um engenheiro. A Associação espera ter tudo concluído até à Primavera deste ano 2005, de modo a poder iniciar a construção do edifício ainda durante este mesmo ano. Esta é a boa notícia. Agora, o pedido:

A Associação dispõe de algum dinheiro para poder iniciar a construção do Barracão, mas não para poder levar a construção até ao fim. Por isso, decidiu duas acções: angariar o maior número de sócios que contribuam, no mínimo, com 1 euro por mês (sócios efectivos), ou 5 euros por mês (sócios solidários). Decidiu também sensibilizar pessoas com mais possibilidades financeiras, para que aceitem integrar um Grupo de 10 que contribuam, de imediato, com 5 mil euros cada uma.

Quem não puder integrar este Grupo, e também não quiser fazer-se sócio, poderá sempre partilhar algum do seu dinheiro para o Barracão. Todas as partilhas são bem-vindas.

Trata-se de apostarmos cada vez mais na Cultura que liberta, em lugar de continuarmos a apostar na caridadezinha que deprime. Partilhe!

(Quer partilhar do seu dinheiro para ajudar à construção do Barracão de Cultura e não quer ter o trabalho de enviar pelo correio? Dirija-se a qualquer balcão da Caixa Geral de Depósitos e deposite no respectivo NIB: 003503090003991793035 Obrigado!)


2.º Encontro Fraternizar de Espiritualidade

Dia 6 de Março em S. Pedro da Cova

O 2.º Encontro Fraternizar de espiritualidade com o ateísmo em fundo está marcado para o 1.º domingo de Março 2005, dia 6, a partir das 10h, na sede da Associação Padre Maximino e do Jornal. Quem participou no 1.º decidiu que estes Encontros deveriam ser trimestrais, para assim acompanharmos a periocidade do nosso FRATERNIZAR.

O tema em debate será sempre o mesmo, ainda que visto de ângulos sempre diferentes: Jesus para o Terceiro Milénio. O Encontro tem início às 10h e termina pelas 17h. A meio, há almoço partilhado com o que cada uma/cada um levar. A manhã é de reflexão teológica. A tarde de convívio e partilha de boas notícias. Tome nota na agenda. E apareça! Não se arrependerá.



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