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Textos do
Jornal Fraternizar- |
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| Edição nº 155, de Outubro/Dezembro 2004 (Continuação) | |||||||||||||||||
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DO “CORREIO DA MANHÔ COM A DEVIDA VÉNIA Nova beata está na forja, garante cardeal Carla Marina Mendes assina uma reportagem no diário "Correio da Manhã" do dia 11 de Agosto de 2004 que Jornal Fraternizar, contra o que tem sido a sua prática desde o início, não resiste a transcrever aqui na íntegra. Com a devida vénia. Começa por falar da presença em Portugal do cardeal D. Saraiva Martins, o maior fabricador de santos portugueses na Cúria romana. Fala-nos depois sobre a nova igreja que está a ser erguida em Alverca, às portas de Lisboa e que, pelos vistos, é dedicada aos três pastoritos de Fátima, esses mesmos que tiveram a desdita de serem apontados como “videntes” de nossa senhora. Escrevemos “desdita” e escrevemos bem, uma vez que, como se sabe, dois deles Jacinta e Francisco morreram de terror e de doença pouco tempo depois dessa inventona. E a mais velhita dos três, Lúcia, uma vez que sobreviveu a toda aquela mentira encenada pelo clero da região, teve que ser sequestrada para o resto da vida como freira num convento de rígida clausura, onde ainda continua, a pobrezinha, às voltas com “visões” de nossas senhoras e de meninos jesus quase contínuas! Sem que ninguém dos grandes da Igreja a libertem para a liberdade e a desenganem das patranhas que lhe meteram na cabeça. O texto é breve, mas invulgarmente saboroso. Ninguém deixe de ler. Acresce ainda um outro pormenor que dá ao trabalho muito “sal e pimenta” que quem, na altura, leu o texto na edição impressa não pôde saborear. São os comentários posteriores de leitoras, leitores à notícia, na página do Correio da Manhã na Internet. Nem imaginam quanto estes comentários são oportunos. Só por si, estes comentários já justificam a leitura. Leiam e riam a bom rir. Porque rir dá saúde. E enquanto riem, reflictam também no tipo de Igreja que muitos de nós, a começar no actual Papa e nos bispos e a acabar em muitas católicas, muitos católicos, teimamos em alimentar, em lugar de, segundo recomenda o Evangelho, a deitarmos fora como ao sal que perdeu a sua força de salgar. Eis. O cardeal José Saraiva Martins está de férias em Portugal e aproveitou para visitar ontem as obras da futura igreja paroquial de Alverca, a primeira em todo o Mundo dedicada aos Pastorinhos. Devoto de Jacinta e Francisco Marto, D. Saraiva Martins, prefeito da Congregação da Causa dos Santos no Vaticano, órgão máximo da Igreja Católica que decide sobre a escolha dos beatos e santos, não avança uma data para a canonização dos Pastorinhos. Mas em declarações ao CM refere que o caminho está aberto. “É preciso, para a canonização, que haja um milagre. Já se fala de uma possível cura atribuída aos Pastorinhos, mas o processo tem de ser examinado pelos médicos e, se se confirmar, quem sabe não será uma oportunidade para o Papa regressar dentro em breve a Fátima”, afirma. Mas se ainda não é para já que o número de santos nacionais vai aumentar, o mesmo não se pode dizer em relação aos beatos. É que Portugal vai ter, já no próximo ano, mais um nome a juntar à lista: a Madre Rita de Viseu. “Desde que estou na Congregação da Causa dos Santos que costumo dizer, por brincadeira, que todos os anos Portugal vai ter um beato ou um santo. E tenho cumprido. Primeiro foram os Pastorinhos, depois Bartolomeu dos Mártires, a Alexandrina de Balasar e para o ano será uma serva de Viseu, fundadora de uma congregação.” Ao todo, estão em curso 2200 processos de beatificação e canonização, analisados na Congregação da Causa dos Santos, um volume de trabalho que torna o cardeal um homem muito ocupado. No entanto, sobra-lhe ainda tempo para, pela segunda vez, responder positivamente ao convite do pároco de Alverca e confirmar os avanços da obra da Igreja dos Pastorinhos. Como um dos homens próximos do Sumo Pontífice, D. Saraiva Martins reconhece que o estado de saúde de João Paulo II é débil, mas não é isso que o impede de governar a Igreja com “o coração e a mente”. Questionado sobre a sucessão, refere que qualquer cardeal com menos de 80 anos pode vir a ocupar a cadeira de S. Pedro. E sobre a possibilidade de ser a vez de um português, responde apenas: “Isso, só o Espírito Santo saberá.” IGREJA DE ALVERCA Uma torre de 47 metros de altura irá albergar um carrilhão com 72 sinos, o segundo maior da Europa. Dada a proximidade das Oficinas Gerais de Material Aeronáutico, foi necessário respeitar a quota máxima estabelecida para a altura dos edifícios, que é de 47,8 metros. MIRADOURO Do alto da quase meia centena de metros da torre, a paisagem será invejável, mas acessível a todos. É que está prevista a construção de um miradouro, situado no topo. SINOS Construídos na Holanda, 69 dos 72 sinos foram adquiridos por empresas e comerciantes da zona, como forma de ajudar à concretização da obra. Faltam apenas comprar três, para a tornar realidade. CONSTRUÇÃO O conjunto religioso está a ser construído sobre 180 estacas de betão, colocadas a uma profundidade de 16 metros, que as fundiu com as rochas. Tudo porque o local é atravessado por um lençol freático. UM PADRE À ALTURA DO DESAFIO Feliz. É assim que o padre José Maria Cortes se sente perante o avanço das obras da nova igreja de Alverca. Com mais de mil metros quadrados no total, espaço não vai faltar ao conjunto religioso, mas não é isso que assusta o jovem padre, de 32 anos, em tempos jogador de râguebi e com aspirações a toureiro, que não tem medo de enfrentar o desafio de a encher de fiéis. “Espero conseguir desligar-me o mais depressa possível da construção e começar a dar mais atenção às crianças e jovens”, refere. E não esconde que é necessário atrair mais pessoas à igreja. No entanto, guarda para si qualquer técnica utilizada para atingir esse fim. “Espaço vamos ter, depois logo se vê, tudo se consegue resolver”, afirma. PROJECTO ARROJADO PRECISA DO APOIO DE TODA A POPULAÇÃO Vai ser a primeira igreja no País e no Mundo dedicada aos Pastorinhos. Por enquanto, ainda pouco mais é do que um conjunto de tijolos, cimento e outros materiais de construção espalhados pelo terreno, mas todos acreditam que até final do próximo ano a obra possa estar concluída e a nova igreja de portas abertas aos fiéis. O conjunto religioso de Alverca vai ser composto pelo espaço da igreja, com capacidade para cerca de 600 pessoas, mais um centro paroquial, um edifício de seis pisos, com 49 lugares de garagem, uma infra-estrutura capaz de fazer frente às necessidades da cidade onde, de acordo com os últimos censos, vivem 30 mil pessoas. “Vai ter uma valência social e uma área de apoio educativo, para além da torre, com um carrilhão composto por 72 sinos, que terá uma relevância cultural de âmbito nacional”, explica o padre José Maria Cortes. O orgulho é muito, assim como são também grandes as dificuldades. A obra, orçada em mais de 2,5 milhões de euros, tem contado com o apoio dos habitantes da cidade, mas por enquanto falta ainda a ajuda do Governo central. “Apresentámos duas candidaturas para a construção do espaço social, mas continuamos à espera de uma resposta. E dela pode depender a data da inauguração.” Comentários na internet Quinta-feira, 12 Agosto - Victor C: Como dizia Axel Munt, numa das suas obras literárias: “Orar a Deus faz-se em qualquer lugar, mas operar só num hospital”. Os crentes não venham para aqui com os dogmas da Igreja, que são afirmações apenas e só para os que crêem. Acreditem, mas não chateiem, senão levam de resposta todas as atrocidades e hipocrisias da Igreja. - Nunes: Um país extremamente carente de postos de trabalho a necessitar destes como o pão para a boca e, continuamos com festanças, jardins, futebóis, estádios, comícios e jantaradas, passeatas e agora, era mesmo o que estava a faltar, igrejas megalómanas. Gosto de tudo isto e sou católico, mas... assim não vamos lá. Quarta-feira, 11 Agosto - Zagallo - Porto Alegre: Raios me partam! Pela foto confirmo. Ainda não vi um padre que não tivesse um ar feliz, aspecto saudável e barriga grande...Para a próxima encarnação quero ser padre. - Serip: Aí está uma obra que merece louvor e apoio. Mais que útil, necessária para toda a cidade e não só para os católicos, sobretudo na sua valência social. A maior parte dos comentários que estão nesta lista vê-se que são feitos por pessoas que falam do que não sabem. - Luísa Baião: Não uso roupa de marca (o dinheiro é curto), não apoiei a construção de estádios. Ajudo com o que posso directamente, e com a mão esquerda. Os habitantes locais contribuíram, agora peçam o resto ao Vaticano. O ouro com que se cobrem os santinhos chega para matar a fome a muita gente. O tesouro da Igreja é riquíssimo. Vamos ser realistas e verdadeiros cristãos. - Joaquim: As pessoas que comentaram até aqui só demonstram ignorância na área. Seria bom perguntar que contributo têm dado para causas humanitárias? Possivelmente o dinheiro só chega para o café, roupas de marca, etc.. Possivelmente são pessoas que louvaram a construção dos 10 estádios que agora estão às moscas? Santa ignorância! Se não fazem, ou não sabem fazer, pelo menos deixem fazer quem quer, pelo menos sejam humildes. Felicidades para quem está à frente deste ou de outros projectos. - António Santos: Que coisa mais curiosa: Em 1917, no lugar da Iria, foi também um padre jovem quem teve a iniciativa de fazer, e de tanto clamar, que se deu o milagre. Em 2004, ele lá está, o milagre. Cada um come do que gosta. Eu ponho de parte, quando não gosto... - Victor’S: Toda a gente fala, fala, mas pergunta-se: Quanto é a participação do Instituto das OBRAS CRISTÃS para a realização da obra? - Alverquense: Não estaremos perante mais um caso de branqueamento de capitais? Quem é o construtor? - Zé da Tanga: Ou muito me engano, ou era disto mesmo que estávamos a precisar, para resolver os nossos mais prementes problemas, como o do défice, por exemplo... (Lisboa) - Victor C: De repente pareceu-me que iam construir mais um hospital, depois deixei que a realidade voltasse e lembrei-me dos analfabetos deste país! O mercado religioso em Portugal prolifera e há lugar para todos. - carlos galrica: Para santos e beatas cá estamos nós, no nosso melhor. A Igreja não terá outras maneiras mais saudáveis intelectualmente de chamar a si todas as atenções? - Luisa Baião: Temos santos a mais e “obra feita” a menos. Os representantes de Cristo e de Pedro, vivendo no luxo, sempre de mão estendida na pedincha... Vaticano tão rico para quê? Querem comprar o céu? - So Rir: Então as pessoas continuam cegas? Acordem, parem de empregar mal o vosso dinheiro, alimentando uma instituição(?) que é rica, que enriquece às custas do povo e continuará a enriquecer assim. (Alverca) - a.s.: Um novo convento de Mafra mas para fins religiosos, é o que me parece; temos um país pequeno com grandes obras, e o pior é que o capital não é muito. - fernanda duro: E ainda há quem duvide das capacidades dos jovens. Aí está uma obra de uma enorme dimensão, toda ela gizada por um padre jovem. Como se vê, os padres não são só papa missas, casamentos, funerais ou baptizados. Hoje vemos os padres jovens a impulsionar a juventude e a sociedade e com o seu exemplo, questionarem-nos a nós (ditos) cristãos sobre os valores morais e religiosos, tão esquecidos e afastados de Deus e do próximo. Parabéns, Zé Maria! (Stª Iria) - Zagallo, Porto Alegre: Alguém me sabe dizer quanto o Estado do Vaticano paga ao fisco para receber as receitas de Fátima, ou é Segredo de Estado? O Dr. Sousa Martins, de Alhandra, já é reconhecido como santo?
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DEBATE JUNTOU NO ALGARVE O DIRECTOR DO JORNAL FRATERNIZAR E O PÁROCO DE VILAR DE PERDIZES Religião? Mas para quê, se Deus do que gosta é de Política? Depois dos muitos anos que esteve sem qualquer convite para intervir directamente nas terras do Algarve, o Pe. Mário voltou, finalmente, a ser convidado para participar num debate na belíssima cidade de Lagos. O convite veio da vereadora do Pelouro da Cultura da respectiva Câmara Municipal e juntou, na noite do dia 19 de Agosto último, no salão da Biblioteca Municipal o Pe. Mário, director do Jornal Fraternizar, e o Pe. Fontes, pároco de Vilar de Perdizes, concelho de Montalegre. A temática do debate andou à volta do fenómeno religioso, inclusive, nas suas manifestações mais esotéricas e mais doentias ou perversas. A moderar, esteve um conhecido jornalista da cidade. Fez tudo para tentar colocar o Pe. Fontes contra o Pe. Mário, mas em vão. O Pe. Fontes, lúcido quanto baste e experiente como poucos nestas coisas de lidar com a comunicação social, nunca se deixou enredar. E sempre se mostrou solidário com o Pe. Mário, mesmo com algumas das suas afirmações mais radicais, inclusive, sobre a mentira do fenómeno de Fátima. Apenas cuidou em esclarecer que a esta ou àquela expressão das preferências do Pe. Mário, ele optava por uma outra mais “temperada”. Mas, quanto ao miolo da questão, total solidariedade. Vai daí, o moderador acabou por se assumir no ingrato papel de “advogado do diabo”, como sói dizer-se ainda hoje, apesar de já sabermos que o diabo não existe, ainda que efectivamente todas, todos experimentemos nas nossas vidas a existência do diabólico ou demoníaco, uma mera criação nossa e dos sistemas/leis/tradições/rotinas que geramos ao longo dos tempos e depois mantemos e respeitamos como se fossem deuses, referências absolutas, sem nos darmos conta que isso é pura e vergonhosa idolatria. Também o Pe. Mário nunca se colocou contra o Pe. Fontes. Apenas sublinhou, em várias ocasiões, que a ele pouco diziam certas manifestações esotéricas das religiões, uma vez que a sua atenção se concentra sobretudo no que está por trás de tudo isso, na raiz dos fenómenos. Pois é aí que as coisas são a doer e quase sempre matam. Por trás de um inusitado interesse por Deus e pelas coisas da Religião, estão sempre, ou quase sempre, interesses obscuros que, a quem assim se comporta, muito importa manter escondidos e ignorados aos olhos do grande público. Ora, é para esse tipo de “oculto” e de “ocultismo” que o Pe. Mário diz que prefere apontar todas as suas baterias, ou não fosse verdade que a Fé que o anima e que ele procura que seja da mesma qualidade da de Jesus de Nazaré, é, tem que ser sinónimo de lucidez, lucidez, lucidez e mais lucidez! E também audácia, audácia, audácia e mais audácia. É por isso o Pe. Mário não se mostra disposto a deixar-se enredar pelos fenómenos mais ou menos “folclóricos” do mundo do religioso, que servem sobretudo para ajudar a desviar as atenções do “essencial”. E, se por vezes, chega a aceitar entrar por aí, ainda é para logo conduzir o debate para o “essencial”. O Pe. Fontes entendeu muito bem esta postura do Pe. Mário e, no final do debate, fez questão de testemunhar, perante a interessadíssima assembleia, que sempre tem lidado com muitos padres colocados como ele à frente de paróquias, mas a verdade é que nunca encontrou neles esta vigorosa Fé que anima o viver do Pe. Mário. Foi bonito de ver e de ouvir. Entretanto, sobre o debate propriamente dito, o Jornal Fraternizar fica por aqui, pois do que faz questão é de apresentar já a seguir os tópicos que o Pe. Mário preparou para ele, durante a viagem de comboio, rumo ao Algarve. Não percam esta luminosa síntese. Leiam e debatam. E, se quiserem ter também convosco o Pe. Mário ao vivo, é só comunicar com ele e acertarem datas. Atrevam-se! Eis, pois, os tópicos na íntegra. Polémicos. Saudavelmente polémicos, como convém. 1. O que esperam ouvir de mim? Como padre/presbítero da Igreja católica, cumpre-me a missão de proclamar/viver/testemunhar o Evangelho/Boa Notícia de Deus e fazê-lo numa constante actualização inculturada da Boa Notícia de Deus que Jesus de Nazaré historicamente foi e anunciou/testemunhou na Palestina e por causa do que foi crucificado por volta do ano 30 da nossa era, como o mais execrável dos malditos, segundo a Lei de Moisés que, ao tempo, era equivalente à Lei de Deus. A ordem do princípio é clara: “Ide, fazei discípulos em todas as nações” (Mt 28, 19). “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria até aos extremos da terra” (At 1, 8). 2. Ora, que boa notícia de Deus posso dar-vos neste século XXI, a propósito da religião? Em síntese, esta que serve de título a um dos meus recentes livros: “E Deus disse: do que eu gosto é de Política, não de Religião”. Quer dizer: Lá, onde continua a haver religião, deverá passar a haver Política. Política como a que fez Jesus. Política com Espírito Santo. 3. Aos ateus politicamente comprometidos com este mundo, com a transformação deste mundo (até agora, os filósofos interpretaram o mundo, o que faz falta é transformá-lo), Deus dirá, no termo da História: Vinde, benditas, benditos de minha Mãe/meu Pai, possuir o Reino que vos está preparado desde o princípio do mundo: porque eu tive fome e destes-me de comer, concretamente, lutastes para erradicar de vez a pobreza; era um sem tecto, favelado, portador de sida, imigrante, preso e vós fizestes tudo até me tirar dessas situações de desumanidade. Às religiosas, aos religiosos que não querem saber de Política e apenas conhecem o caminho de casa para o templo e do templo para casa, dirá: Afastai-vos de mim, malditas, malditos. Porque tive fome e vós destes-me esmolas para me manter na pobreza e nunca tivestes a audácia de enfrentar as causas geradoras da pobreza. 4. Sucede, porém, que até agora os benditos aos olhos de Deus ateus e crentes, mulheres e homens, que vivem a paixão política de mudar o mundo e de erradicar a pobreza são geralmente olhados e tratados como malditos por todo o tipo de Igrejas, religiões, seitas e minorias privilegiadas, todas elas muito deístas e sempre com o nome de Deus na boca. O maior maldito de todos os tempos é o próprio Jesus de Nazaré! De igual modo, os benditos aos olhos do mundo, entre os quais pontificam Igrejas, religiões, seitas e minorias privilegiadas, são malditos aos olhos de Deus. (Não enquanto indivíduos, mas enquanto rostos do Sistema que nos oprime e empobrece). O maior de todos hoje será Bush, enquanto presidente dos EUA, e o Papa, enquanto chefe de estado do Vaticano. 5. Escandalizo-vos? Mas à luz do Evangelho de Deus, revelado e vivido em Jesus Crucificado/Ressuscitado as coisas são assim. De resto, não foram os sumos sacerdotes e o Sinédrio, mai-lo Império romano que mataram Jesus? 6. A Religião é a mãe de todas as perversões humanas. O ateísmo consequente é um dos caminhos humanos mais próximos do Evangelho de Jesus (a Fé de Jesus, partilhada e prosseguida pelas suas discípulas, pelos seus discípulos é o caminho) que nos leva à Maioridade humana. 7. Um verdadeiro ateu nunca será idólatra. E um religioso é sempre idólatra. Ora, o pecado maior “o pecado do mundo”, chama-lhe Jesus e, por isso, o que verdadeiramente degrada o ser humano é a idolatria. O pecado maior que a Bíblia denuncia e combate é a idolatria. E fá-lo, não por causa de Deus, como se Deus tivesse ciúme de outros deuses. Fá-lo por causa do ser humano. Quando abrimos as portas à idolatria, ao culto dos ídolos/deuses, começa aí a nossa degradação. Ora, a religião é a porta mais larga para a idolatria. Ela própria já é idolatria. Por isso, quanto mais religião, mais degradação humana. Será que não temos olhos para ver? O que foram estes séculos passados, senão séculos cheios de religião, de igrejas, de capelas, de santuários, de altares, de imagens de nossas senhoras, de sacerdotes e, ao mesmo tempo, séculos cheios de analfabetos, ignorantes, ingénuos, subdesenvolvidos, miseráveis, empobrecidos, alienados, súbditos, subservientes? Querem exemplo mais eloquente disto mesmo, desta degradação humana que a religião é e faz, que um qualquer 13 de Maio em Fátima? Nunca como aí se vê tanta degradação humana junta. O ídolo ou deusa “A Virgem” mas que designação mais absurda e simbolicamente mais castradora, neste século XXI!... humilha, aliena, degrada com requintes de sado-masoquismo, desapropria/explora as suas devotas, os seus devotos (quando o pobre é levado a dar o seu ouro brincos, alianças, cordões, pulseiras quase sempre guardado para uma “aflição” ou uma doença grave que apareça, é como se desse a própria “alma”. E tudo ela, “A Virgem” não, senhoras, senhores, não é Maria, a mãe de Jesus, por mais que a hierarquia católica nos queira convencer que é, mas a deusa ou ídolo n.º 1 do nosso povo! suga e devora como um gigantesco vampiro). Aquele espectáculo de Fátima está nos antípodas da Fé de Jesus e dos valores do Deus de Jesus. É anti-Fé! É anti-Evangelho. É anti-Boa Notícia de Deus. É o Paganismo no seu máximo, ainda que o discurso oficial que lá se (re)produz e faz ouvir inclua certos conceitos e nomes cristãos. 8. A religião é a doença infantil da Humanidade que não a deixa alcançar a maioridade. É o seu pecado original, enquanto culto dos deuses, medo dos deuses. Com ela, crescem os deuses, diminuem as pessoas e os povos. Deixem, pois, a religião. Fujam dos templos. Metam-se no mundo. Vivam a Política, mas ao jeito de Jesus de Nazaré. Sempre conduzidas, conduzidos pelo mesmo Espírito Santo que o conduziu a ele. A Política é a arte de transformar este mundo de selvagem em humano, de religioso em fraterno/sororal, de pessoas e povos de menoridade em pessoas e povos de maioridade. Façamo-lo em sintonia com o Espírito Santo. Para isso nascemos e viemos ao mundo!
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DECLARAÇÃO INTEGRAL DO SIMPÓSIO DAS RELIGIÕES Novos princípios éticos para o nosso hoje e aqui
Decorreu nos dias 11 e 12 de Julho de 2004, em Barcelona, o Parlamento das Religiões do Mundo. Dentro dele, teve também lugar o Simpósio sobre Teologia Intercultural e Interreligiosa da Libertação, dirigido pelos teólogos Juan José Tamayo e Raúl Fornet-Betancourt. Jornal Fraternizar avança aqui a Declaração na íntegra deste Simpósio. É de apreciar todo este esforço dos teólogos da libertação para curarem as religiões de toda a sua perversão. Se bem que no nosso entender, as religiões não têm conserto, de tão perversas que são. Mesmo assim, trata-se duma Declaração a não perder. PRINCÍPIOS ÉTICOS E PRÁTICAS LIBERTADORAS DAS RELIGIÕES PRINCÍPIOS As Teologias da libertação e as Teologias do diálogo inter-religioso, que procuram responder ao duplo desafio do grande número de pobres e do grande número de religiões no mundo, têm caminhado paralelamente, sem nenhum diálogo. Durante os últimos anos, iniciou-se uma etapa de fecunda colaboração entre elas, centrada no sofrimento humano e no meio ambiente como lugar epistemológico, comprometidas com a libertação das diferentes opressões por razões de género, etnia, religião, classe social, e em sintonia com o pensamento crítico, com os movimentos sociais e com as organizações de resistência global. O encontro entre ambas as tendências começa a dar lugar a uma teologia inter-religiosa e inter-cultural da libertação que não se faz a partir do centro duma única religião ou cultura, mas a partir do pluralismo cultural e religioso. Na elaboração desta teologia intervêm as diferentes tradições religiosas e espirituais do nosso tempo em igualdade de condições, com a colaboração das disciplinas que se ocupam do estudo das religiões. Esta teologia há-de levar a cabo uma crítica das perversões em que as religiões com frequência desembocam: fanatismo, fundamentalismo, sexismo, intolerância, alianças com o poder, falta de democracia interna, ausência de liberdade, transgressão dos direitos humanos, etc. Ao mesmo tempo, deve propor uma ética libertadora, presente na maioria das tradições religiosas e espirituais da humanidade, que podemos resumir nos seguintes princípios: 1. Ética da libertação, num mundo dominado por múltiplas e crescentes opressões: Liberta o pobre, o oprimido! 2. Ética da justiça num mundo estruturalmente injusto: Age com justiça nas relações com os teus semelhantes e trabalha na construção duma ordem internacional justa! 3. Ética da gratuidade, num mundo onde impera o cálculo, o interesse, o lucro, o negócio: Sê generoso! Tudo o que tens recebeste-lo de graça. Não faças negócio com o gratuito. 4. Ética da compaixão, num mundo marcado pela dor e pelo sofrimento das vítimas: Tem entranhas de misericórdia! Com os que sofrem. Colabora no alívio do seu sofrimento. 5. Ética da alteridade, do acolhimento e da hospitalidade para com os estrangeiros, os refugiados, os indocumentados, num mundo que exclui os de fora: Reconhece, respeita e acolhe o outro como outro, como diferente, não como clone teu! A diferença enriquece-te. 6. Ética da solidariedade, num mundo onde impera a endogamia em todos os campos da vida e dos agrupamentos humanos: etnia, classe, família, etc: Sê cidadão do mundo! Trabalha por um mundo onde caibamos todas, todos! 7. Ética comunitária fraterno-sororal, num mundo patriarcal, onde predomina a discriminação de género, a violência de género, a divisão sexual do trabalho, a exclusão social de género, a marginalização religiosa de género: Colabora na construção duma comunidade de homens e mulheres iguais, não clónicos! 8. Ética da paz, inseparável da justiça, num mundo de violência estrutural causada pela injustiça do sistema: Se queres a paz, trabalha pela paz e pela justiça através da não-violência activa! 9. Ética da vida, de todas as vidas, a dos seres humanos e a da natureza, que tem o mesmo direito à vida que o ser humano; da vida dos pobres e oprimidos, que se vê constantemente ameaçada: Defende a vida de todo o ser vivente! Vive e ajuda a viver! 10. Ética da incompatibilidade entre Deus e o Dinheiro, num mundo onde co-habitam facilmente a fé em Deus e a adoração aos ídolos, entre eles, o do mercado: Compartilha os bens! A tua acumulação gera o empobrecimento de quem vive à tua volta. PRÁTICAS LIBERTADORAS Conscientes de que um diálogo inter-religioso de costas voltadas, na prática, para o sofrimento das pessoas e dos povos do mundo, especialmente o sofrimento global derivado de estruturas humanas injustas, seria um diálogo que perderia a sua razão de ser; Conscientes de que o nosso mundo real está dominado por uma globalização insolidária ao serviço dos donos dos mercados no contexto de um dos maiores impérios da história da humanidade que controla violentamente as estruturas económicas, sociais, culturais, políticas e os meios de comunicação; Conscientes de que seria uma traição à vida, à história e às nossas religiões não assumir neste parlamento um compromisso público a favor da paz e da justiça, propomos, neste nosso Simpósio, as seguintes práticas libertadoras: 1. Consideramos fundamental e prioritária a exigência duma democratização dos organismos mundiais multilaterais, especialmente das Nações Unidas, a todos os seus níveis, do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. Se isto não é possível com a rapidez que os graves problemas mundiais exigem, haveria que pensar na criação de outros organismos diferentes dos actuais e realmente democráticos. 2. As diferentes religiões a que pertencemos têm a obrigação ética e religiosa de democratizar as suas estruturas de funcionamento interno. Caso contrário não terão autoridade moral para exigir democratização à sociedade. Nenhuma teologia nem nenhum sistema religioso devem justificar que umas quantas pessoas ajam em nome de outras, suplantando a livre vontade seja de quem for, em nome de nenhum princípio religioso ou ético. 3. Cremos que este Parlamento das Religiões e outros movimentos mundiais inter-religiosos devem estabelecer uma estreita relação com o Forum Social Mundial de Porto Alegre e com outros foruns alternativos ao actual sistema neo-liberal, com o fim de construir outro mundo melhor e possível. 4. Diante da crescente militarização que gera contínuas guerras, exigimos uma aposta decidida pela paz, inseparável da justiça, através do diálogo inter-religioso, a negociação política e a não-violência activa para tornar possível um mundo sem guerras nem terrorismos de nenhuma espécie. 5. O patriarcado é outro obstáculo fundamental no caminho da paz e da justiça. Sem a plena igualdade de homens e de mulheres não é possível construir uma sociedade inter-cultural, inter-religiosa e justa. Por isso as religiões devem lutar activamente para eliminar o patriarcado dentro e fora delas próprias.
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Livros do Trimestre A Igreja e o Estado Novo na obra de D. António Ferreira Gomes São 670 páginas, mas que ninguém se assuste. O livro vale uma tese de doutoramento, a do autor, um padre/presbítero da Diocese de Aveiro. Vem prefaciado pelo próprio Bispo local. Mas que não viesse. Trata-se de investigação com carácter científico que muito contribui para entendermos a pessoa do saudavelmente polémico Bispo do Porto - quando teremos outro como ele?! - em especial a difícil relação dos outros bispos com ele, assim como do Regime de Salazar. Vocês nem sabem o que perdem, se perderem a leitura atenta deste livro. Corram então por ele, até porque a tiragem foi diminuta, o que aqui se lamenta, já que a verdade não é para ficar escondida debaixo do alqueire. Um dos momentos mais chocantes deste livro tem a ver com "o processo diplomático instituído pelo Governo [de Salazar] no objectivo de impor à Santa Sé a remoção de D. António de Bispo do Porto e a proibição deste Prelado presidir a qualquer diocese portuguesa". Por aqui se vê "como o Estado Novo interpretava o regime concordatário estabelecido com a Santa Sé em Maio de 1940." O autor salienta, a propósito, que "a análise deste processo e as concepções estatais nele reveladas pelo Chefe do Governo e seus mais leais colaboradores sobre o papel da Igreja na sociedade portuguesa, apresenta-se, naturalmente, como instrumento importante para se provar se a Igreja era ou não verdadeiramente livre para cumprir integralmente a sua missão na sociedade portuguesa." Antes de entrar no assunto propriamente dito, o livro abre com uma longa e expressiva introdução geral, na qual a pessoa de D. António surge em toda a sua originalidade e pujança. Vêm depois os seis capítulos da obra: 1. A Igreja em Portugal saída de uma República perseguidora a viver em Concordata. 2. Igreja, Sociedade e Relações Igreja-Sociedade na Obra de D. António Ferreira Gomes. 3. A questão do corporativismo. 4. A questão social portuguesa. 5. O Processo Diplomático. 6. Evangelizador da Paz. Mergulhar nas páginas deste livro é mergulhar na história recente da Igreja católica em Portugal, sobretudo, na sua relação com o Governo de Salazar. Percebe-se, facilmente, que o Bispo D. António parece ter sido o único que "viu" e, por isso, agiu em consequência, contra a vontade dos restantes colegas no episcopado. E pagou por isso um alto preço. O "exílio", neste contexto, é uma página negra para os restantes bispos do país, que ainda não foi plenamente assumida, para vergonha deles, já que o pior pecado é sempre aquele que não se reconhece atempadamente. Percebe-se também que a hierarquia católica da altura era um deserto de ideias e de coragem. Nenhuma profecia. Cães mudos e domesticados. Ao serviço do dono, do "santo" Salazar, do "benfeitor" Salazar que "restituíra" à Igreja o rico património que a República de 1910, em boa hora, lhe havia retirado, mas que ela não sossegou enquanto não recuperou. Felizmente, nesta promiscuidade, aconteceu D. António! Força ética e espiritual da Teologia da Libertação no contexto da globalização O autor é um dos grandes vultos latino-americanos da Teologia da Libertação e um amigo de peito do Jornal Fraternizar. O livro que acaba de editar é mais uma prova disso. No exemplar que nos enviou vem uma dedicatória do seu próprio punho: "Que este livro nos dê luz, esperança e força. Cremos que «outra Igreja é possível»." O livro consta de três partes e vários capítulos. Primeira parte: "Uma visão histórica da Teologia da Libertação" (cap. 1: a Teologia da Libertação na América Latina e no Caribe, desde 1962 até hoje; cap. 2: Caminhando e fazendo teologia na América Latina: itinerário pessoal; cap. 3: Inquérito mundial sobre a situação da teologia no final do séc. XX). Segunda parte: "Outro mundo é possível: desafios actuais à Teologia da Libertação" (cap. 1: Opção preferencial pelos pobres: Identidade irrenunciável da Teologia da Libertação; cap. 2: Outro mundo é possível. Qual é o sujeito capaz de o construir?; cap. 3: Outra Igreja é possível: a que opta pelos pobres e constrói alternativas; cap. 4: Defesa da vida: terreno privilegiado da Evangelização; cap. 5: Terrorismo, fundamentalismo e idolatria; cap. 6: Futuro do Cristianismo no Ocidente depois da Guerra contra o Iraque). Terceira parte: "Fundamentos para uma reconstrução do Cristianismo" (cap. 1: Leitura Popular da Bíblia; cap. 2: O Jesus da História e dos 4 Evangelhos; cap. 3: O movimento de Jesus antes da Igreja segundo os Actos dos Apóstolos). "A Teologia da Libertação é na actualidade fundamentalmente uma ética libertadora, em que a defesa da vida é um absoluto e a lei e as instituições são relativas: «O Sábado foi feito para o ser humano e não o ser humano para o Sábado, por isso o ser humano é Senhor do Sábado (Mc 2, 27-28). Assumimos plenamente o Evangelho da Vida e da Liberdade frente à Lei proclamado por Paulo de Tarso: romperam com Cristo todos quantos buscam a justiça na Lei (Gál 5, 4). Na Teologia ética da Libertação, as coisas são boas, justas e belas, se estão ao serviço da vida. Um produto/tecnologia/avanço científico é bom se está ao serviço da vida." São palavras do autor, no prólogo. Abrem-nos logo o apetite para lermos o livro todo. Mas diz mais o prólogo: "A força da Teologia da Libertação tem sido desde sempre uma força espiritual. Nunca foi uma força económica, política [= partidária] ou ideológica. A Teologia da Libertação foi e é fundamentalmente uma espiritualidade libertadora que nasce do encontro com o Deus da vida no interior de um sistema profundamente idolátrico. Vivemos uma espiritualidade que nos exige estar no mundo sem ser do mundo. A espiritualidade da libertação não se enfrenta com o ateísmo, mas fundamentalmente com a idolatria. A idolatria é uma perversão profunda do sentido de Deus, que permite destruir a vida humana e a natureza com boa consciência e sem limites." Na guerra contra o Iraque, o autor considera que ela representa a derrota do Cristianismo ocidental. O Império venceu. Pelo menos, nos EUA, em que a hierarquia católica ficou calada, embaraçada pelos escândalos sexuais de muitos dos seus padres. A Igreja e o extermínio dos judeus "Este livro procura ser uma introdução histórica ao delicado e controverso problema da postura que a Igreja católica manteve diante da Shoah, mas não pretende fazer uma reconstrução completa e analítica". É o próprio autor quem, logo a abrir, nos deixa esta advertência. O livro não vai além das 250 páginas. E pode ler-se de um fôlego, dado o aliciante da temática e a seriedade do autor, professor de História Contemporânea da Universidade de Roma Três. São seis os capítulos: I. Catolicismo e antisemitismo (1. Antisemitismo tradicional e antisemitismo moderno; 2. O "ódio antigo"; 3. O antisemitismo dos movimentos católicos; 4. Católicos e antisemitismo no novo século). II. A Igreja e o Estado racial (1. Os católicos e o racismo antisemita; 2. Uma tentativa de revisão? A Igreja de Pio XI e as leis raciais italianas de 1938; 3. O catolicismo e a legislação antisemita na Europa 1938-1941). III. Igreja, nazismo e guerra (1. Catolicismo e nazismo; 2. Entre complots e esperanças duma mediação para a paz; 3. Guerra e neutralidade vaticana; 4. Consciência cristã e crimes de guerra). IV. O Vaticano e a "solução final" (1. As informações do Vaticano; 2. Ser informados ou "saber"?; 3. Excomungar Hitler?). V. Uma eleição dramática (1. Uma ilha no mar do Eixo; 2. Percepção ou auto-percepção de um silêncio; 3. Uma via diplomática frente à tragédia; 4. Era prejudicial falar?; 5. Os limites da acção diplomática; 6. A imparcialidade "sob as janelas do Papa"; 7. As Igrejas locais e a perseguição dos judeus) VI. O peso duma mentalidade (1. Novidade totalitária e tradição antisemita; 2. Testemunho da verdade e herança duma cultura). O livro reflecte bem todo o dramatismo da Igreja católica no caso do extermínio dos milhões de judeus por Hitler, nomeadamente, o dramatismo protagonizado pelo Papa Pio XII. E inclina-se mais para a tese da absolvição do Papa, do que para a tese da sua condenação. A verdade é que o Papa acabou por se remeter ao silêncio, perante o genocídio dos judeus. Terá pesado, nesta sua decisão que falar/denunciar o genocídio teria provocado um genocídio ainda maior. Teria? Nunca saberemos. Mas é neste sentido que se pronunciam os que querem ver Pio XII beatificado e canonizado. O livro chega a divulgar parte do depoimento de Pascualina Lehnert, a franciscana alemã que durante 40 anos acompanhou o Papa na sua privacidade. Mas o depoimento é manifestamente panegírico e não merece qualquer fiabilidade. É um depoimento de quem quer a todo o custo ver canonizado o "seu" papa. O autor que esforça-se por fazer um trabalho honesto. Mas de certo modo toma partido desde o início pela tese da absolvição. Parece até que meteu mãos a este trabalho com o objectivo de reforçar a tese da absolvição. Mas o facto historicamente incontroverso é este: seis milhões de judeus foram exterminados pela Alemanha nazi de Hitler. No Vaticano, Pio XII sabia o que se passava. Escolheu manter o silêncio em público. Apostou na acção diplomática e... perdeu a aposta!... História do Judaísmo na época do Segundo Templo O original deste volume de 600 páginas apareceu já há dez anos em Itália, mas a obra mantém todo o interesse de então. Por isso, em boa hora a Editorial Trotta a traduziu e acaba de a editar. Apareça uma editora portuguesa que tenha a mesma audácia. Aparecerá? O autor é catedrático de Filologia na Universidade de Turim, em Itália, onde começou por ser professor de hebreu e de aramaico. Fundou a revista Henoch que se dedica ao estudo da judaística e das origens do cristianismo. Por estes dados, logo se percebe que o livro não é trabalho de amador, mas apresenta-se com a marca de um especialista com provas dadas. "Esta obra não pretende ser uma história da Palestina, nem uma história do judaísmo; pretende sobretudo ilustrar, demarcar e discutir certos aspectos do pensamento judeu pre-cristão que podem servir para compreender melhor as primeiras posições cristãs." Assim começa por nos esclarecer o próprio autor na introdução. E sublinha depois: "Nos tempos de Jesus, o judaísmo apresenta-se como uma religião profundamente enraizada na vida espiritual e política da Judeia, uma religião atravessada por profundas tensões, cujas manifestações históricas se percebem tanto na formação de várias seitas ou partidos, como em opções políticas estritamente ligadas a motivações teológicas. Recordo os fariseus, os saduceus e os essénios, os dois primeiros mencionados nos evangelhos, não assim os últimos, em cujo seio surgiram muitos problemas que tiveram influência no cristianismo, seja por herança, seja por oposição consciente." É neste contexto que se desenvolve o livro. Daí a sua importância para as Igrejas e para todas as pessoas que se reclamam do nome de Jesus e do Cristianismo. Mas o autor dá-nos mais um outro importante esclarecimento: "O presente volume pode considerar-se como uma reelaboração de um livro que escrevi há anos, a História do mundo judaico (não traduzido em espanhol). Embora pense que os objectivos gerais e o método da obra não mudaram, existem sem dúvida novidades derivadas da ampliação dos meus conhecimentos e dos meus interesses." O livro abre com a época do exílio, passa depois ao período sadoquita, chega à Palestina e estuda o período que vai do domínio dos selêucidas à destruição do Segundo Templo. Finalmente, apresenta-nos os grandes temas do judaísmo médio. "O transfundo judeu comum é claríssimo em Jesus e não é preciso falar dele. Nenhum grego teria podido falar de Deus ou do pecado como ele o fez. Apesar disso, mesmo quando a solução é óbvia, cabe perguntar: a qual dos dois tipos de judeu pertencia Jesus? A origem do pensamento do Nazareno deve procurar-se na teologia da Promessa. [...] O pensamento de Jesus deve ler-se sempre sobre este pano de fundo. A linha de demarcação entre a teologia de Jesus e a dos fariseus é a mesma que percorre toda a história de Israel até final do século I, dividindo a teologia da Promessa da teologia da Aliança. Posteriormente, as duas concepções encarnar-se-ão em duas formas distintas de Israel reclamando cada uma a sua própria autenticidade. Yves Congar: Diário de um teólogo (1946-1956) Chegou a ser um dos principais peritos do Concílio Vaticano II, mas, depois, caiu em desgraça. A Cúria do Vaticano nunca tem sido capaz de suportar a acção do Espírito Santo e, por isso, sempre persegue sem dó nem piedade quem se deixa guiar por Ele. Este Diário de um dos maiores teólogos católicos do século XX é disso gritante testemunho. É um lancinante grito de dor e de raiva. E uma denúncia do que não deve ser a Igreja. Infelizmente parece que a Cúria Romana não tem emenda. Por isso, o que há a fazer é deitá-la fora. Leiam as 500 páginas deste Diário e tirem as vossas conclusões. Escaldante! "Quinta-feira, 28 de Fevereiro de 1952. O P. Provincial [Yves Congar é padre dominicano] chamou-me para me pôr ao corrente da decisão do Santo Ofício [um nome pomposo, mas para melhor matar quem se atreve a deixar-se fazer pela Verdade que liberta] referente a mim. Acordamos esta linha de conduta: Como a coisa não se pode esconder, já que é preciso informar a tipografia e os estrangeiros ligados à tradução, dizer o que se passa com toda a franqueza. Não andar por aí a apregoar, mas, se nos for perguntado, dizer a verdade sobre o n.º 1 do Santo Ofício [proibição duma nova edição de um livro já editado e da tradução do livro Verdadeira e falsa reforma na Igreja]. Como o n.º 3 se refere só a mim e não se sabe como será aplicado, não dizer nada. Por mim, cumpro rigorosamente. (...) O que mais me perturba é o n.º 3. Pode paralisar por completo o meu trabalho. Tenho 47 anos; tenho uma obra a realizar, para a qual estou preparado e maduro. Porventura, vou ser condenado praticamente ao silêncio?" "3 de Março de 52. Neste momento, atravesso dias extraordinariamente duros. Nada mais tive que dissabores" "15-16 de Março. Sou como um homem cuja mulher ou filho estão doentes quase a morrer. Ele lutou com todas as forças e a própria luta deu-lhe forças. Teria lutado assim dois ou três anos mais. Mas depois uma noite, a mulher morre. Então toda a fadiga acumulada cai-lhe em cima e ele fica ali sem força, sem futuro. O meu trabalho ao qual me dediquei durante anos sem descanso e sem parar está condenado a apodrecer em paz. (...) Actualmente, creio que se tivesse ocasião de me ver envolvido num acidente, não faria nada para o evitar" "18 e 19 de Março. Nada. Dois dos piores dias de toda a minha vida. Possivelmente, os dois dias piores da minha vida. Recebo cartas que me exortam à submissão!!!!! «Eles» deixarão que eu «apodreça». Neste «eles» não posso deixar de incluir o próprio P. Geral (...) daqui em diante é-me impossível falar-lhe, só por entre dentes, não com o meu coração como até agora, apenas com a fria razão de um homem interrogado: um homem diante do juiz de instrução. Tudo isto me faz um mal infinito, insondável." Mas há mais e pior. Leiam o livro e verão com os vossos olhos!
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ÚLTIMA PÁGINA Encontro de Cristãs/aos "Que espiritualidade para o mundo de hoje?" É este o tema do próximo Encontro de cristãs/cristãos, dia 10 de Outubro, com início às 10h, no CREU (Casa dos Padres Jesuítas), Porto. O tema abre-se a dois outros subtemas: espiritualidade e quotidiano; e espiritualidade e compromisso sócio-político. Desta vez, estará connosco a dinamizar a reflexão o Pe. Rui Manuel Grácio das Neves que traz com ele a sensibilidade da Igreja na Nicarágua, onde presentemente vive e lecciona. O almoço será partilhado com o que cada uma/um trouxer. Encontros Fraternizar Tema: Jesus para o 3.º milénio O 1.º "Encontro Fraternizar" de Espiritualidade da libertação com o ateísmo em fundo está marcado para o dia 14 de Novembro, na casa-sede da Associação Padre Maximino. Inicia-se às 10h e termina às 18 h. O tema deste(s) Encontro(s) - JESUS PARA O 3.º MILÉNIO - é desenvolvido, durante a manhã, pelo Pe. Mário, director do Jornal. O almoço, às 13h, será partilhado em clima de Eucaristia, a partir do que cada uma, cada um levar para a mesa comum. A Associação oferece a sopa quente. A parte da tarde é de debate aberto, como num Pentecostes. Inscreva-se previamente e, no dia, à chegada, partilhe, se puder, 2 euros para Associação. Venha, nem que seja ateu. Irá gostar!
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