Textos do
Jornal Fraternizar-

Edição nº 155, de Outubro/Dezembro 2004 (Continuação)

DO “CORREIO DA MANHÔ COM A DEVIDA VÉNIA

Nova beata está na forja, garante cardeal

Carla Marina Mendes assina uma reportagem no diário "Correio da Manhã" do dia 11 de Agosto de 2004 que Jornal Fraternizar, contra o que tem sido a sua prática desde o início, não resiste a transcrever aqui na íntegra. Com a devida vénia. Começa por falar da presença em Portugal do cardeal D. Saraiva Martins, o maior fabricador de santos portugueses na Cúria romana. Fala-nos depois sobre a nova igreja que está a ser erguida em Alverca, às portas de Lisboa e que, pelos vistos, é dedicada aos três pastoritos de Fátima, esses mesmos que tiveram a desdita de serem apontados como “videntes” de nossa senhora. Escrevemos “desdita” e escrevemos bem, uma vez que, como se sabe, dois deles – Jacinta e Francisco – morreram de terror e de doença pouco tempo depois dessa inventona. E a mais velhita dos três, Lúcia, uma vez que sobreviveu a toda aquela mentira encenada pelo clero da região, teve que ser sequestrada para o resto da vida como freira num convento de rígida clausura, onde ainda continua, a pobrezinha, às voltas com “visões” de nossas senhoras e de meninos jesus quase contínuas! Sem que ninguém dos grandes da Igreja a libertem para a liberdade e a desenganem das patranhas que lhe meteram na cabeça. O texto é breve, mas invulgarmente saboroso. Ninguém deixe de ler. Acresce ainda um outro pormenor que dá ao trabalho muito “sal e pimenta” que quem, na altura, leu o texto na edição impressa não pôde saborear. São os comentários posteriores de leitoras, leitores à notícia, na página do Correio da Manhã na Internet. Nem imaginam quanto estes comentários são oportunos. Só por si, estes comentários já justificam a leitura. Leiam e riam a bom rir. Porque rir dá saúde. E enquanto riem, reflictam também no tipo de Igreja que muitos de nós, a começar no actual Papa e nos bispos e a acabar em muitas católicas, muitos católicos, teimamos em alimentar, em lugar de, segundo recomenda o Evangelho, a deitarmos fora como ao sal que perdeu a sua força de salgar. Eis.

O cardeal José Saraiva Martins está   de férias em Portugal e aproveitou para visitar ontem as obras da futura igreja paroquial de Alverca, a primeira em todo o Mundo dedicada aos Pasto­rinhos.

Devoto de Jacinta e Francisco Mar­to, D. Saraiva Martins, prefeito da Con­gregação da Causa dos Santos no Va­ticano, órgão máximo da Igreja Católica que decide sobre a escolha dos beatos e santos, não avança uma data para a canonização dos Pastorinhos. Mas em declarações ao CM refere que o caminho está aberto. “É preciso, para a canonização, que haja um milagre. Já se fala de uma possível cura atri­buída aos Pastorinhos, mas o processo tem de ser examinado pelos médicos e, se se confirmar, quem sabe não será uma oportunidade para o Papa regres­sar dentro em breve a Fátima”, afirma.

Mas se ainda não é para já que o número de santos nacionais vai aumen­tar, o mesmo não se pode dizer em rela­ção aos beatos. É que Portugal vai ter, já no próximo ano, mais um nome a juntar à lista: a Madre Rita de Viseu. “Desde que estou na Congregação da Causa dos Santos que costumo dizer, por brincadeira, que todos os anos Por­tu­gal vai ter um beato ou um santo. E tenho cumprido. Primeiro foram os Pas­torinhos, depois Bartolomeu dos Márti­res, a Alexandrina de Balasar e para o ano será uma serva de Viseu, funda­dora de uma congregação.”

Ao todo, estão em curso 2200 pro­cessos de beatificação e canonização, analisados na Congregação da Causa dos Santos, um volume de trabalho que torna o cardeal um homem muito ocu­pado. No entanto, sobra-lhe ainda tem­po para, pela segunda vez, responder positivamente ao convite do pároco de Alverca e confirmar os avanços da obra da Igreja dos Pastorinhos.

Como um dos homens próximos do Sumo Pontífice, D. Saraiva Martins re­conhece que o estado de saúde de João Paulo II é débil, mas não é isso que o impede de governar a Igreja com “o coração e a mente”.

Questionado sobre a sucessão, refere que qualquer cardeal com me­nos de 80 anos pode vir a ocupar a ca­deira de S. Pedro. E sobre a possi­bilidade de ser a vez de um português, responde apenas: “Isso, só o Espírito Santo saberá.”

IGREJA DE ALVERCA

Uma torre de 47 metros de altura irá albergar um carrilhão com 72 sinos, o segundo maior da Europa. Dada a proximidade das Oficinas Gerais de Material Aeronáutico, foi necessário res­peitar a quota máxima estabelecida para a altura dos edifícios, que é de 47,8 metros.

MIRADOURO

Do alto da quase meia centena de metros da torre, a paisagem será in­vejável, mas acessível a todos. É que está prevista a construção de um mi­radouro, situado no topo.

SINOS

Construídos na Holanda, 69 dos 72 sinos foram adquiridos por empresas e comerciantes da zona, como forma de ajudar à concretização da obra. Fal­tam apenas comprar três, para a tornar realidade.

CONSTRUÇÃO

O conjunto religioso está a ser construído sobre 180 estacas de betão, colocadas a uma profundidade de 16 metros, que as fundiu com as rochas. Tudo porque o local é atravessado por um lençol freático.

UM PADRE À ALTURA DO DESAFIO

Feliz. É assim que o padre José Maria Cortes se sente perante o avanço das obras da nova igreja de Alverca. Com mais de mil metros quadrados no total, espaço não vai faltar ao conjunto religioso, mas não é isso que assusta o jovem padre, de 32 anos, em tempos jogador de râguebi e com aspirações a toureiro, que não tem medo de enfren­tar o desafio de a encher de fiéis.

“Espero conseguir desligar-me o mais depressa possível da construção e começar a dar mais atenção às crian­ças e jovens”, refere. E não esconde que é necessário atrair mais pessoas à igreja. No entanto, guarda para si qualquer técnica utilizada para atingir esse fim.

“Espaço vamos ter, depois logo se vê, tudo se consegue resolver”, afirma.

PROJECTO ARROJADO PRECISA DO APOIO DE TODA A POPULAÇÃO

Vai ser a primeira igreja no País e no Mundo dedicada aos Pastorinhos. Por enquanto, ainda pouco mais é do que um conjunto de tijolos, cimento e outros materiais de construção espalha­dos pelo terreno, mas todos acreditam que até final do próximo ano a obra possa estar concluída e a nova igreja de portas abertas aos fiéis.

O conjunto religioso de Alverca vai ser composto pelo espaço da igreja, com capacidade para cerca de 600 pessoas, mais um centro paroquial, um edifício de seis pisos, com 49 lugares de garagem, uma infra-estrutura capaz de fazer frente às necessidades da ci­da­de onde, de acordo com os últimos censos, vivem 30 mil pessoas. “Vai ter uma valência social e uma área de apoio educativo, para além da torre, com um carrilhão composto por 72 si­nos, que terá uma relevância cultural de âmbito nacional”, explica o padre José Maria Cortes. O orgulho é muito, assim como são também grandes as dificuldades.

A obra, orçada em mais de 2,5 mi­lhões de euros, tem contado com o apoio dos habitantes da cidade, mas por enquanto falta ainda a ajuda do Go­verno central. “Apresentámos duas candidaturas para a construção do es­pa­ço social, mas continuamos à espera de uma resposta. E dela pode depender a data da inauguração.”

Comentários na internet

Quinta-feira, 12 Agosto

- Victor C: Como dizia Axel Munt, numa das suas obras literárias: “Orar a Deus faz-se em qualquer lugar, mas operar só num hospital”. Os crentes não venham para aqui com os dogmas da Igreja, que são afirmações apenas e só para os que crêem. Acreditem, mas não chateiem, senão levam de resposta todas as atrocidades e hipocrisias da Igreja.

- Nunes: Um país extremamente ca­rente de postos de trabalho a ne­cessitar destes como o pão para a boca e, continuamos com festanças, jardins, futebóis, estádios, comícios e jantara­das, passeatas e agora, era mesmo o que estava a faltar, igrejas megalóma­nas. Gosto de tudo isto e sou católico, mas... assim não vamos lá.

Quarta-feira, 11 Agosto

- Zagallo - Porto Alegre: Raios me partam! Pela foto confirmo. Ainda não vi um padre que não tivesse um ar feliz, aspecto saudável e barriga gran­de...Para a próxima encarnação quero ser padre.

- Serip: Aí está uma obra que me­rece louvor e apoio. Mais que útil, ne­ces­sária para toda a cidade e não só para os católicos, sobretudo na sua va­lência social. A maior parte dos comen­tários que estão nesta lista vê-se que são feitos por pessoas que falam do que não sabem.

- Luísa Baião: Não uso roupa de marca (o dinheiro é curto), não apoiei a construção de estádios. Ajudo com o que posso directamente, e com a mão esquerda. Os habitantes locais contri­buí­ram, agora peçam o resto ao Vati­cano. O ouro com que se cobrem os san­tinhos chega para matar a fome a muita gente. O tesouro da Igreja é ri­quíssimo. Vamos ser realistas e verda­deiros cristãos.

- Joaquim: As pessoas que co­men­taram até aqui só demonstram igno­rância na área. Seria bom per­guntar que contributo têm dado para causas humanitárias? Possivelmente o dinheiro só chega para o café, roupas de marca, etc.. Possivelmente são pes­soas que louvaram a construção dos 10 estádios que agora estão às mos­cas? Santa ignorância! Se não fazem, ou não sabem fazer, pelo menos dei­xem fazer quem quer, pelo menos se­jam humildes. Felicidades para quem está à frente deste ou de outros pro­jectos.

- António Santos: Que coisa mais curiosa: Em 1917, no lugar da Iria, foi também um padre jovem quem teve a iniciativa de fazer, e de tanto clamar, que se deu o milagre. Em 2004, ele lá está, o milagre. Cada um come do que gosta. Eu ponho de parte, quando não gosto...

- Victor’S: Toda a gente fala, fala, mas pergunta-se: Quanto é a participa­ção do Instituto das OBRAS CRISTÃS para a realização da obra?

- Alverquense: Não estaremos pe­rante mais um caso de branqueamento de capitais? Quem é o construtor?

- Zé da Tanga: Ou muito me en­gano, ou era disto mesmo que estáva­mos a precisar, para resolver os nossos mais prementes problemas, como o do défice, por exemplo... (Lisboa)

- Victor C: De repente pareceu-me que iam construir mais um hospital, depois deixei que a realidade voltasse e lembrei-me dos analfabetos deste país! O mercado religioso em Portugal prolifera e há lugar para todos.

- carlos galrica: Para santos e bea­tas cá estamos nós, no nosso me­lhor. A Igreja não terá outras maneiras mais saudáveis intelectualmente de cha­mar a si todas as atenções?

- Luisa Baião: Temos santos a mais e “obra feita” a menos. Os repre­sentantes de Cristo e de Pedro, vivendo no luxo, sempre de mão estendida na pedincha... Vaticano tão rico para quê? Querem comprar o céu?

- So Rir: Então as pessoas conti­nuam cegas? Acordem, parem de em­pregar mal o vosso dinheiro, alimentan­do uma instituição(?) que é rica, que enriquece às custas do povo e conti­nuará a enriquecer assim. (Alverca)

- a.s.: Um novo convento de Mafra mas para fins religiosos, é o que me parece; temos um país pequeno com grandes obras, e o pior é que o capital não é muito.

- fernanda duro: E ainda há quem duvide das capacidades dos jovens. Aí está uma obra de uma enorme dimen­são, toda ela gizada por um padre jo­vem. Como se vê, os padres não são só papa missas, casamentos, funerais ou baptizados. Hoje vemos os padres jovens a impulsionar a juventude e a so­ciedade e com o seu exemplo, ques­tionarem-nos a nós (ditos) cristãos sobre os valores morais e religiosos, tão esquecidos e afastados de Deus e do próximo. Parabéns, Zé Maria! (Stª Iria)

- Zagallo, Porto Alegre: Alguém me sabe dizer quanto o Estado do Vati­cano paga ao fisco para receber as re­ceitas de Fátima, ou é Segredo de Esta­do? O Dr. Sousa Martins, de Alhandra, já é reconhecido como santo?


DEBATE JUNTOU NO ALGARVE O DIRECTOR

DO JORNAL FRATERNIZAR E O PÁROCO DE VILAR DE PERDIZES

Religião? Mas para quê, se Deus do que gosta é de Política?

Depois dos muitos anos que esteve sem qualquer convite para intervir directamente nas terras do Algarve, o Pe. Mário voltou, finalmente, a ser convidado para participar num debate na belíssima cidade de Lagos. O convite veio da vereadora do Pelouro da Cultura da respectiva Câmara Municipal e juntou, na noite do dia 19 de Agosto último, no salão da Biblioteca Municipal o Pe. Mário, director do Jornal Fraternizar, e o Pe. Fontes, pároco de Vilar de Perdizes, concelho de Montalegre. A temática do debate andou à volta do fenómeno religioso, inclusive, nas suas manifestações mais esotéricas e mais doentias ou perversas.

A moderar, esteve um conhecido jornalista da cidade. Fez tudo para tentar colocar o Pe. Fontes contra o Pe. Mário, mas em vão. O Pe. Fontes, lúcido quanto baste e experiente como pou­cos nestas coisas de lidar com a comu­nicação social, nunca se deixou enre­dar. E sempre se mostrou solidário com o Pe. Mário, mesmo com algumas das suas afirmações mais radicais, inclu­sive, sobre a mentira do fenómeno de Fátima. Apenas cuidou em esclarecer que a esta ou àquela expressão das preferências do Pe. Mário, ele optava por uma outra mais “temperada”. Mas, quanto ao miolo da questão, total soli­dariedade.

Vai daí, o moderador acabou por se assumir no ingrato papel de “advo­gado do diabo”, como sói dizer-se ainda hoje, apesar de já sabermos que o diabo não existe, ainda que efe­ctiva­mente todas, todos ex­perimentemos nas nos­sas vidas a existência do diabólico ou demoníaco, uma mera criação nossa e dos sistemas/leis/tra­dições/rotinas que gera­mos ao longo dos tempos e de­pois mantemos e res­peitamos como se fossem deuses, referências abso­lu­tas, sem nos darmos con­ta que isso é pura e ver­gonhosa idolatria.

Também o Pe. Mário nunca se colo­cou contra o Pe. Fontes. Apenas su­bli­nhou, em várias ocasi­ões, que a ele pouco dizi­am certas manifestações eso­téricas das religiões, uma vez que a sua aten­ção se concentra sobretu­do no que está por trás de tudo isso, na raiz dos fe­nómenos. Pois é aí que as coisas são a doer e qua­se sempre matam. Por trás de um inusitado inte­resse por Deus e pelas coisas da Religião, estão sem­pre, ou quase sem­pre, interesses obs­cu­ros que, a quem assim se com­porta, muito importa manter escondidos e i­gno­rados aos olhos do grande público. Ora, é para esse tipo de “o­cul­to” e de “ocul­tismo” que o Pe. Mário diz que prefere apontar todas as suas baterias, ou não fosse verdade que a Fé que o anima e que ele procura que seja da mesma qualidade da de Jesus de Nazaré, é, tem que ser sinónimo de lucidez, luci­dez, lucidez e mais lucidez! E também audácia, audácia, audácia e mais au­dá­cia. É por isso o Pe. Mário não se mostra disposto a deixar-se enredar pelos fenómenos mais ou menos “fol­cló­ricos” do mundo do religioso, que ser­­vem sobretudo para ajudar a desviar as atenções do “essencial”. E, se por vezes, chega a aceitar entrar por aí, ain­da é para logo conduzir o debate para o “essencial”.

O Pe. Fontes entendeu muito bem esta postura do Pe. Mário e, no final do debate, fez questão de testemu­nhar, perante a interessadíssima as­sem­bleia, que sempre tem lidado com muitos pad­­res colocados como ele à frente de paróquias, mas a verdade é que nunca encontrou neles esta vi­go­rosa Fé que anima o viver do Pe. Mário. Foi bonito de ver e de ouvir.

Entretanto, sobre o debate propri­a­mente dito, o Jornal Fraternizar fica por aqui, pois do que faz questão é de apresentar já a seguir os tópicos que o Pe. Mário preparou para ele, du­rante a viagem de comboio, rumo ao Algarve. Não percam esta luminosa sín­tese. Leiam e debatam. E, se quiserem ter tam­bém convosco o Pe. Mário ao vivo, é só comunicar com ele e acer­tarem datas. Atrevam-se! Eis, pois, os tópicos na íntegra. Polémicos. Sauda­vel­mente polémicos, como convém.

1. O que esperam ouvir de mim? Como padre/presbítero da Igreja cató­lica, cumpre-me a missão de procla­mar/viver/testemunhar o Evangelho/Boa Notícia de Deus e fazê-lo numa cons­tante actualização inculturada da Boa Notícia de Deus que Jesus de Na­zaré historicamente foi e anunciou/tes­te­munhou na Palestina e por causa do que foi crucificado por volta do ano 30 da nossa era, como o mais execrá­vel dos malditos, segundo a Lei de Moisés que, ao tempo, era equivalente à Lei de Deus.

A ordem do princípio é clara: “Ide, fazei discí­pu­los em todas as nações” (Mt 28, 19). “Sereis minhas testemu­nhas em Jeru­salém, em toda a Judeia e Samaria até aos extremos da terra” (At 1, 8).

2. Ora, que boa notícia de Deus posso dar-vos neste século XXI, a propósito da religião? Em síntese, esta que serve de título a um dos meus re­cen­tes livros: “E Deus disse: do que eu gosto é de Política, não de Religião”. Quer dizer: Lá, onde continua a haver religião, de­ve­rá passar a haver Política. Política como a que fez Jesus. Política com Espírito Santo.

3. Aos ateus politicamente compro­metidos com este mundo, com a trans­formação deste mundo (até agora, os filósofos interpretaram o mundo, o que faz falta é transformá-lo), Deus dirá, no termo da História: Vinde, benditas, ben­di­tos de minha Mãe/meu Pai, possuir o Reino que vos está preparado desde o princípio do mundo: porque eu tive fome e destes-me de comer, concreta­mente, lutastes para erradicar de vez a pobreza; era um sem tecto, favelado, portador de sida, imigrante, preso e vós fizestes tudo até me tirar dessas situa­ções de desumanidade.

Às religiosas, aos religiosos que não querem saber de Política e apenas conhecem o caminho de casa para o templo e do templo para casa, dirá: Afastai-vos de mim, malditas, malditos. Porque tive fome e vós destes-me es­mo­las para me manter na pobreza e nunca tivestes a audácia de enfrentar as causas geradoras da pobreza.

4. Sucede, porém, que até agora os benditos aos olhos de Deus – ateus e crentes, mulheres e homens, que vi­vem a paixão política de mudar o mun­do e de erradicar a pobreza – são ge­ralmente olhados e tratados como mal­ditos por todo o tipo de Igrejas, reli­gi­ões, seitas e minorias privilegiadas, todas elas muito deístas e sempre com o nome de Deus na boca. O maior mal­dito de todos os tempos é o próprio Je­sus de Nazaré!

De igual modo, os benditos aos olhos do mundo, entre os quais pon­ti­ficam Igrejas, religiões, seitas e mino­rias privilegiadas, são malditos aos olhos de Deus. (Não enquanto indiví­duos, mas enquanto rostos do Sistema que nos oprime e empobrece). O maior de todos hoje será Bush, enquanto pre­si­dente dos EUA, e o Papa, enquanto chefe de estado do Vaticano.

5. Escandalizo-vos? Mas à luz do Evangelho de Deus, revelado e vivido em Jesus Crucificado/Ressuscitado as coisas são assim. De resto, não foram os sumos sacerdotes e o Sinédrio, mai-lo Império romano que mataram Je­sus?

6. A Religião é a mãe de todas as perversões humanas. O ateísmo conse­quente é um dos caminhos humanos mais próximos do Evangelho de Jesus (a Fé de Jesus, partilhada e prosse­guida pelas suas discípulas, pelos seus discípulos é o caminho) que nos leva à Maioridade humana.

7. Um verdadeiro ateu nunca será idólatra. E um religioso é sempre idóla­tra. Ora, o pecado maior – “o pecado do mundo”, chama-lhe Jesus – e, por isso, o que verdadeiramente degrada o ser humano é a idolatria.

O pecado maior que a Bíblia de­nun­cia e combate é a idolatria. E fá-lo, não por causa de Deus, como se Deus tivesse ciúme de outros deuses. Fá-lo por causa do ser humano. Quan­do abrimos as portas à idolatria, ao culto dos ídolos/deuses, começa aí a nossa degradação.

Ora, a religião é a porta mais larga para a idolatria. Ela própria já é ido­latria. Por isso, quanto mais religião, mais degradação humana.

Será que não temos olhos para ver? O que foram estes séculos passa­dos, senão séculos cheios de religião, de igrejas, de capelas, de santuários, de altares, de imagens de nossas se­nho­ras, de sa­cer­dotes e, ao mesmo tempo, séculos cheios de analfabetos, ignorantes, ingénuos, subdesenvolvi­dos, miseráveis, empo­bre­cidos, aliena­dos, súbditos, subservi­entes?

Querem exemplo mais eloquente disto mesmo, desta degradação huma­na que a religião é e faz, que um qual­quer 13 de Maio em Fátima? Nunca como aí se vê tanta degradação huma­na junta. O ídolo ou deusa “A Virgem” – mas que designação mais absurda e simbolicamente mais castradora, nes­te século XXI!... – humilha, aliena, de­gra­da com requintes de sado-maso­quismo, desapropria/explora as suas devotas, os seus devotos (quando o pobre é levado a dar o seu ouro – brin­cos, alianças, cordões, pulseiras – qua­se sempre guardado para uma “aflição” ou uma doença grave que apareça, é como se desse a própria “alma”. E tudo ela, “A Virgem” – não, senhoras, senhores, não é Maria, a mãe de Jesus, por mais que a hierarquia católica nos queira convencer que é, mas a deusa ou ídolo n.º 1 do nosso povo! – suga e devora como um gigantesco vampiro).

Aquele espectáculo de Fátima está nos antípodas da Fé de Jesus e dos va­lores do Deus de Jesus. É anti-Fé! É anti-Evangelho. É anti-Boa Notícia de Deus. É o Paganismo no seu máximo, ainda que o discurso oficial que lá se (re)produz e faz ouvir inclua certos con­cei­tos e nomes cristãos.

8. A religião é a doença infantil da Humanidade que não a deixa alcançar a maioridade. É o seu pecado original, en­quanto culto dos deuses, medo dos deuses. Com ela, crescem os deuses, diminuem as pessoas e os povos.

Deixem, pois, a religião. Fujam dos templos. Metam-se no mundo. Vivam a Política, mas ao jeito de Jesus de Naza­ré. Sempre conduzidas, conduzidos pelo mesmo Espírito Santo que o con­duziu a ele. A Política é a arte de trans­formar este mundo de selvagem em hu­mano, de religioso em fraterno/so­roral, de pessoas e povos de menori­dade em pessoas e povos de maiori­dade. Façamo-lo em sintonia com o Espírito Santo. Para isso nascemos e viemos ao mundo!


DECLARAÇÃO INTEGRAL DO SIMPÓSIO DAS RELIGIÕES

Novos princípios éticos para o nosso hoje e aqui

Decorreu nos dias 11 e 12 de Julho de 2004, em Barcelona, o Parlamento das Religiões do Mundo. Dentro dele, teve também lugar o Simpósio sobre Teologia Intercultural e Interreligiosa da Libertação, dirigido pelos teólogos Juan José Tamayo e Raúl Fornet-Betancourt. Jornal Fraternizar avança aqui a Declaração na íntegra deste Simpósio. É de apreciar todo este esforço dos teólogos da libertação para curarem as religiões de toda a sua perversão. Se bem que no nosso entender, as religiões não têm conserto, de tão perversas que são. Mesmo assim, trata-se duma Declaração a não perder.

PRINCÍPIOS ÉTICOS E PRÁTICAS LIBERTADORAS DAS RELIGIÕES

PRINCÍPIOS

As Teologias da libertação e as Teologias do diálogo inter-religioso, que procuram responder ao duplo de­safio do grande número de pobres e do grande número de religiões no mun­do, têm caminhado paralelamente, sem nenhum diálogo. Durante os últi­mos anos, iniciou-se uma etapa de fe­cunda colaboração entre elas, centrada no sofrimento humano e no meio ambi­ente como lugar epistemológico, com­pro­metidas com a libertação das dife­rentes opressões por razões de géne­ro, etnia, religião, classe social, e em sintonia com o pensamento crítico, com os movimentos sociais e com as or­ganizações de resistência global.

O encontro entre ambas as ten­dên­cias começa a dar lugar a uma teo­logia inter-religiosa e inter-cultural da li­bertação que não se faz a partir do centro duma única religião ou cultura, mas a partir do pluralismo cultural e religioso.

Na elaboração desta teologia inter­vêm as diferentes tradições religiosas e espirituais do nosso tempo em igual­dade de condições, com a colaboração das disciplinas que se ocupam do estu­do das religiões.

Esta teologia há-de levar a cabo uma crítica das perversões em que as religiões com frequência desembocam: fanatismo, fundamentalismo, sexismo, intolerância, alianças com o poder, falta de democracia interna, ausência de li­berdade, transgressão dos direitos hu­ma­nos, etc. Ao mesmo tempo, deve propor uma ética libertadora, presente na maioria das tradições religiosas e espirituais da humanidade, que pode­mos resumir nos seguintes princípios:

1. Ética da libertação, num mundo dominado por múltiplas e crescentes opressões: Liberta o pobre, o oprimido!

2. Ética da justiça num mundo es­tru­turalmente injusto: Age com justiça nas relações com os teus semelhantes e trabalha na construção duma ordem internacional justa!

3. Ética da gratuidade, num mundo onde impera o cálculo, o interesse, o lu­cro, o negócio: Sê generoso! Tudo o que tens recebeste-lo de graça. Não faças negócio com o gratuito.

4. Ética da compaixão, num mundo marcado pela dor e pelo sofrimento das vítimas: Tem entranhas de misericórdia! Com os que sofrem. Colabora no alívio do seu sofrimento.

5. Ética da alteridade, do acolhi­mento e da hospitalidade para com os estrangeiros, os refugiados, os indocu­mentados, num mundo que exclui os de fora: Reconhece, respeita e acolhe o outro como outro, como diferente, não como clone teu! A diferença enri­quece-te.

6. Ética da solidariedade, num mundo onde impera a endogamia em todos os campos da vida e dos agru­pamentos humanos: etnia, classe, famí­lia, etc: Sê cidadão do mundo! Trabalha por um mundo onde caibamos todas, todos!

7. Ética comunitária fraterno-so­roral, num mundo patriarcal, onde pre­domina a discriminação de género, a vi­olência de género, a divisão sexual do trabalho, a exclusão social de gé­nero, a marginalização religiosa de gé­ne­ro: Colabora na construção duma comunidade de homens e mulheres igu­ais, não clónicos!

8. Ética da paz, inseparável da jus­tiça, num mundo de violência estrutural causada pela injustiça do sistema: Se queres a paz, trabalha pela paz e pela justiça através da não-violência activa!

9. Ética da vida, de todas as vidas, a dos seres humanos e a da natureza, que tem o mesmo direito à vida que o ser humano; da vida dos pobres e opri­midos, que se vê constantemente amea­çada: Defende a vida de todo o ser vi­vente! Vive e ajuda a viver!

10. Ética da incompatibilidade entre Deus e o Dinheiro, num mundo onde co-habitam facilmente a fé em Deus e a adoração aos ídolos, entre eles, o do mercado: Compartilha os bens! A tua acumulação gera o empobrecimento de quem vive à tua volta.

PRÁTICAS LIBERTADORAS

Conscientes de que um diálogo in­ter-­religioso de costas voltadas, na prá­tica, para o sofrimento das pessoas e dos povos do mundo, especialmente o so­frimento global derivado de estru­turas humanas injustas, seria um diálo­go que perderia a sua razão de ser;

Conscientes de que o nosso mundo real está dominado por uma globali­za­ção insolidária ao serviço dos donos dos mercados no contexto de um dos maio­res impérios da história da humani­dade que controla violentamente as estru­turas económicas, sociais, cultu­rais, políticas e os meios de comunicação;

Conscientes de que seria uma trai­ção à vida, à história e às nossas reli­giões não assumir neste parlamento um compromisso público a favor da paz e da justiça,

propomos, neste nosso Simpósio, as seguintes práticas libertadoras:

1. Consideramos fundamental e prioritária a exigência duma democrati­zação dos organismos mundiais multi­laterais, especialmente das Nações Uni­das, a todos os seus níveis, do Fun­do Monetário Internacional e do Banco Mundial. Se isto não é possível com a rapidez que os graves problemas mundiais exigem, haveria que pensar na cria­ção de outros organismos diferen­tes dos actuais e realmente democrá­ticos.

2. As diferentes religiões a que per­tencemos têm a obrigação ética e re­ligiosa de democratizar as suas es­tru­turas de funcionamento interno. Ca­so contrário não terão autoridade mo­ral para exigir democratização à so­ciedade. Nenhuma teologia nem ne­nhum sistema religioso devem justificar que umas quantas pessoas ajam em nome de outras, suplantando a livre vontade seja de quem for, em nome de nenhum princípio religioso ou ético.

3. Cremos que este Parlamento das Religiões e outros movimentos mun­diais inter-religiosos devem estabe­lecer uma estreita relação com o Forum Social Mundial de Porto Alegre e com outros foruns alternativos ao actual sis­tema neo-liberal, com o fim de construir outro mundo melhor e possível.

4. Diante da crescente militariza­ção que gera contínuas guerras, exigi­mos uma aposta decidida pela paz, in­se­parável da justiça, através do diálo­go inter-religioso, a negociação política e a não-violência activa para tornar pos­sível um mundo sem guerras nem terrorismos de nenhuma espécie.

5. O patriarcado é outro obstáculo fundamental no caminho da paz e da justiça. Sem a plena igualdade de ho­mens e de mulheres não é possível cons­truir uma sociedade inter-cultural, inter-religiosa e justa. Por isso as reli­giões devem lutar activamente para eliminar o patriarcado dentro e fora delas próprias.


Livros do Trimestre

A Igreja e o Estado Novo

na obra de D. António Ferreira Gomes

São 670 páginas, mas que ninguém se assuste. O livro vale uma tese de doutoramento, a  do autor, um padre/presbítero da Diocese de Aveiro. Vem prefaciado pelo próprio Bispo local. Mas que não viesse. Trata-se de investigação com carácter científico que muito contribui para entendermos a pessoa do saudavelmente polémico Bispo do Porto - quando teremos outro como ele?! - em especial a difícil relação dos outros bispos com ele, assim como do Regime de Salazar. Vocês nem sabem o que perdem, se perderem a leitura atenta deste livro. Corram então por ele, até porque a tiragem foi diminuta, o que aqui se lamenta, já que a verdade não é para ficar escondida debaixo do alqueire.

Um dos momentos mais chocantes deste livro tem a ver com "o processo diplomático instituído pelo Governo [de Salazar] no objectivo de impor à Santa Sé a remoção de D. António de Bispo do Porto e a proibição deste Prelado pre­si­dir a qualquer diocese portugue­sa". Por aqui se vê "como o Estado Novo interpretava o regime concordatário es­tabelecido com a Santa Sé em Maio de 1940."

O autor salienta, a propósito, que "a análise deste processo e as conce­pções estatais nele reveladas pelo Che­fe do Governo e seus mais leais colabo­radores sobre o papel da Igreja na so­ciedade portuguesa, apresenta-se, na­turalmente, como instrumento importante para se provar se a Igreja era ou não verdadeira­mente livre para cumprir integral­mente a sua mis­são na sociedade portuguesa."

Antes de en­trar no assunto pro­priamente dito, o livro abre com uma longa e expressiva intro­dução geral, na qual a pessoa de D. António surge em toda a sua ori­gi­nalidade e pu­jan­ça.

Vêm depois os seis capítulos da obra: 1. A Igreja em Portugal saída de uma República perseguidora a viver em Concordata. 2. Igreja, Sociedade e Relações Igreja-Sociedade na Obra de D. António Ferreira Gomes. 3. A ques­tão do corporativismo. 4. A ques­tão social portuguesa. 5. O Processo Diplomático. 6. Evangelizador da Paz.

Mergulhar nas páginas deste livro é mergulhar na história recente da Igre­ja católica em Portugal, sobretudo, na sua relação com o Governo de Sa­la­zar. Percebe-se, facilmente, que o Bispo D. António parece ter sido o úni­co que "viu" e, por isso, agiu em con­se­quência, contra a vontade dos res­tantes colegas no episcopado. E pa­gou por isso um alto preço. O "exílio", neste contexto, é uma página negra para os restantes bispos do país, que ainda não foi plenamente assumida, para vergonha deles, já que o pior pe­cado é sempre aquele que não se reconhece atempadamente. Percebe-se também que a hierarquia católica da altura era um deserto de ideias e de coragem. Nenhuma profecia. Cães mudos e domesticados. Ao serviço do dono, do "santo" Salazar, do "benfei­tor" Salazar que "restituíra" à Igreja o rico património que a República de 1910, em boa hora, lhe havia retirado, mas que ela não sossegou enquanto não recuperou. Felizmente, nesta promiscuidade, aconteceu D. António!

Força ética e espiritual da Teologia

da Libertação no contexto da globalização

O autor é um  dos grandes vultos latino-americanos da Teologia da Libertação e um amigo de peito do Jornal Fraternizar. O livro que acaba de editar é mais uma prova disso. No exemplar que nos enviou vem uma dedicatória do seu próprio punho: "Que este livro nos dê luz, esperança e força. Cremos que «outra Igreja é possível»."

O livro consta de três partes e vá­rios capítulos. Primeira parte: "Uma visão histórica da Teologia da Liberta­ção" (cap. 1: a Teologia da Libertação na América Latina e no Caribe, desde 1962 até hoje; cap. 2: Caminhando e fazendo teologia na América Latina: itinerário pessoal; cap. 3: Inquérito mun­dial sobre a situação da teologia no final do séc. XX).

Segunda parte: "Outro mundo é possível: desafios actuais à Teologia da Libertação" (cap. 1: Opção prefe­ren­cial pelos pobres: Identidade irre­nunciável da Teologia da Libertação; cap. 2: Outro mundo é possível. Qual é o sujeito capaz de o construir?; cap. 3: Outra Igreja é possível: a que opta pelos pobres e constrói alternativas; cap. 4: Defesa da vida: terreno privi­legiado da Evangelização; cap. 5: Ter­rorismo, fundamentalismo e idolatria; cap. 6: Futuro do Cristianismo no Oci­dente depois da Guerra contra o Ira­que).

Terceira parte: "Fundamentos para uma reconstrução do Cristianismo" (cap. 1: Leitura Popular da Bíblia; cap. 2: O Jesus da História e dos 4 Evan­gelhos; cap. 3: O movimento de Jesus antes da Igreja segundo os Actos dos Apóstolos).

"A Teologia da Libertação é na actualidade fundamentalmente uma ética liber­ta­dora, em que a de­fesa da vida é um absoluto e a lei e as institui­ções são relativas: «O Sábado foi fei­to para o ser hu­mano e não o ser humano para o Sá­bado, por isso o ser humano é Se­nhor do Sába­do (Mc 2, 27-28). Assumimos ple­namente o Evangelho da Vida e da Li­berdade frente à Lei proclamado por Pau­lo de Tarso: romperam com Cristo todos quantos buscam a justiça na Lei (Gál 5, 4). Na Teologia ética da Liber­tação, as coisas são boas, justas e be­las, se estão ao serviço da vida. Um pro­duto/tecnologia/avanço cien­tífico é bom se está ao serviço da vida."

São palavras do autor, no prólogo. Abrem-nos logo o apetite para lermos o livro todo. Mas diz mais o prólogo: "A força da Teologia da Libertação tem sido desde sempre uma força espiri­tual. Nunca foi uma força económica, política [= partidária] ou ideológica. A Teologia da Libertação foi e é funda­men­talmente uma espiritualidade liber­tadora que nasce do encontro com o Deus da vida no interior de um sistema profundamente idolátrico. Vivemos uma espiritualidade que nos exige estar no mundo sem ser do mundo. A espiri­tu­alidade da libertação não se enfrenta com o ateísmo, mas fundamentalmente com a idolatria. A idolatria é uma per­versão profunda do sentido de Deus, que permite destruir a vida humana e a natureza com boa consciência e sem limites."

Na guerra contra o Iraque, o autor considera que ela representa a derrota do Cristianismo ocidental. O Império venceu. Pelo menos, nos EUA, em que a hierarquia católica ficou calada, em­baraçada pelos escândalos sexuais de muitos dos seus padres.

A Igreja e o extermínio dos judeus

"Este livro procura ser uma introdução histórica ao delicado e controverso problema da postura que a Igreja católica manteve diante da Shoah, mas não pretende fazer uma reconstrução completa e analítica". É o próprio autor quem, logo a abrir, nos  deixa esta advertência. O livro não vai além das 250 páginas. E pode ler-se de um fôlego, dado o aliciante da temática e a seriedade do autor, professor de História Contemporânea da Universidade de Roma Três.

São seis os capítulos:

I. Catolicismo e antisemitismo (1. Antisemitismo tradi­cional e antisemitis­mo moderno; 2. O "ódio antigo"; 3. O an­tisemitismo dos mo­vimentos católicos; 4. Católicos e an­tisemitismo no novo século).

II. A Igreja e o Estado racial (1. Os ca­tólicos e o racismo antisemita; 2. Uma tentativa de revisão? A Igreja de Pio XI e as leis raciais italianas de 1938; 3. O catolicismo e a legislação antise­mi­ta na Europa 1938-1941).

III. Igreja, nazismo e guerra (1. Ca­tolicismo e nazismo; 2. Entre complots e esperanças duma mediação para a paz; 3. Guerra e neutralidade vaticana; 4. Consciência cristã e crimes de guer­ra).

IV. O Vaticano e a "solução final" (1. As informações do Vaticano; 2. Ser informados ou "saber"?; 3. Excomungar Hitler?).

V. Uma eleição dramática (1. Uma ilha no mar do Eixo; 2. Percepção ou auto-percepção de um silêncio; 3. Uma via diplomática frente à tragédia; 4. Era prejudicial falar?; 5. Os limites da acção diplomática; 6. A imparcialidade "sob as janelas do Pa­pa"; 7. As Igrejas lo­cais e a persegui­ção dos judeus)

VI. O peso du­ma mentalidade (1. No­vidade totalitária e tradição antise­mita; 2. Testemunho da verdade e he­ran­ça duma cultu­ra).

O livro reflecte bem todo o drama­tismo da Igreja ca­tó­lica no caso do extermínio dos milhões de judeus por Hitler, nomeadamente, o dramatismo protagonizado pelo Papa Pio XII. E inclina-se mais para a tese da absol­vição do Papa, do que para a tese da sua condenação.

A verdade é que o Papa acabou por se remeter ao silêncio, perante o ge­­nocídio dos judeus. Terá pesado, nes­ta sua decisão que falar/denunciar o genocídio teria provocado um geno­cídio ainda maior. Teria? Nunca sabere­mos. Mas é neste sentido que se pro­nun­ciam os que querem ver Pio XII bea­tificado e canonizado. O livro chega a di­vulgar parte do depoimento de Pas­cualina Lehnert, a francis­cana alemã que durante 40 anos acompanhou o Papa na sua privacidade. Mas o depoi­mento é manifestamente panegírico e não merece qualquer fiabilidade. É um depoimento de quem quer a todo o custo ver canonizado o "seu" papa.

O autor que esforça-se por fazer um trabalho honesto. Mas de certo modo toma partido desde o início pela tese da absolvição. Parece até que meteu mãos a este trabalho com o ob­je­ctivo de reforçar a tese da absolvição.

Mas o facto historicamente  incon­tro­verso é este: seis milhões de judeus foram exterminados pela Alemanha na­zi de Hitler. No Vaticano, Pio XII sabia o que se passava. Escolheu manter o silêncio em público. Apostou na acção diplomática e... perdeu a aposta!...

História do Judaísmo na época do Segundo Templo

O original deste volume de 600 páginas apareceu já há dez anos em Itália, mas a obra mantém todo o interesse de então. Por isso, em boa hora a Editorial Trotta a traduziu e acaba de a editar. Apareça uma editora portuguesa que tenha a mesma audácia. Aparecerá?

O autor é catedrático de Filologia na Universidade de Turim, em Itália, onde começou por ser professor de he­breu e de aramaico. Fundou a revista Henoch que se dedica ao estudo da ju­daística e das origens do cristia­nis­mo. Por estes dados, logo se percebe que o livro não é trabalho de amador, mas apresenta-se com a marca de um especialista com provas dadas.

"Esta obra não pretende ser uma história da Palestina, nem uma história do judaísmo; pretende sobretudo ilus­trar, demarcar e discutir certos aspe­ctos do pensamento judeu pre-cristão que podem servir para compreender melhor as primeiras posições cristãs."

Assim começa por nos esclarecer o próprio autor na introdução. E subli­nha depois: "Nos tempos de Jesus, o judaísmo apresenta-se como uma reli­gião profundamente enraizada na vida espiritual e política da Judeia, uma re­li­gião atravessada por profundas ten­sões, cujas manifestações históricas se percebem tanto na formação de várias seitas ou partidos, como em opções po­líticas estritamente ligadas a moti­vações teológicas. Recordo os fariseus, os saduceus e os essénios, os dois pri­meiros mencionados nos evangelhos, não assim os últimos, em cujo seio sur­giram muitos problemas que tiveram influência no cris­tianismo, seja por herança, seja por oposição consci­ente."

É neste con­tex­to que se de­sen­volve o livro. Daí a sua impor­tância para as I­gre­jas e para todas as pessoas que se reclamam do nome de Jesus e do Cris­tia­nismo.

Mas o autor dá-nos mais um ou­tro importante es­clarecimento: "O presente volume pode considerar-se como uma reelabo­ração de um livro que escrevi há anos, a História do mundo judaico (não tra­duzido em espanhol). Embora pense que os objectivos gerais e o método da obra não mudaram, existem sem dúvida novidades derivadas da ampli­ação dos meus conhecimentos e dos meus interesses."

O livro abre com a época do exílio,  passa depois ao período sadoquita, chega à Palestina e estuda o período que vai do domínio dos selêucidas à des­truição do Segundo Templo. Final­mente, apresenta-nos os grandes te­mas do judaísmo médio.

"O transfundo judeu comum é cla­ríssimo em Jesus e não é preciso falar dele. Nenhum grego teria podido falar de Deus ou do pecado como ele o fez. Apesar disso, mesmo quando a solução é óbvia, cabe perguntar: a qual dos dois tipos de judeu pertencia Jesus? A ori­gem do pensamento do Nazareno deve procurar-se na teologia da Promessa. [...] O pensamento de Jesus deve ler-se sempre sobre este pano de fundo. A linha de demarcação entre a teologia de Jesus e a dos fariseus é a mesma que percorre toda a história de Israel até final do século I, dividindo a teolo­gia da Promessa da teologia da Aliança. Posteriormente, as duas concepções encarnar-se-ão em duas formas distin­tas de Israel reclamando cada uma a sua própria autenticidade.

Yves Congar: Diário de um teólogo (1946-1956)

Chegou a ser um dos principais peritos do Concílio Vaticano II, mas, depois, caiu em desgraça. A Cúria do Vaticano nunca tem sido capaz de suportar a acção do Espírito Santo e, por isso, sempre persegue sem dó nem piedade quem se deixa guiar por Ele. Este Diário de um dos maiores teólogos católicos do século XX é disso gritante testemunho. É um lancinante grito de dor e de raiva. E uma denúncia do que não deve ser a Igreja. Infelizmente parece que a Cúria Romana não tem emenda. Por isso, o que há a fazer é deitá-la fora. Leiam as 500 páginas deste Diário e tirem  as vossas conclusões. Escaldante!

"Quinta-feira, 28 de Fevereiro de 1952. O P. Provincial [Yves Congar é padre dominicano] chamou-me para me pôr ao corrente da decisão do Santo Ofício [um nome pomposo, mas para melhor matar quem se atreve a deixar-se fazer pela Verdade que liberta] refe­rente a mim. Acordamos esta linha de conduta: Como a coisa não se pode es­conder, já que é preciso informar a ti­pografia e os estrangeiros ligados à tra­dução, dizer o que se passa com toda a franqueza. Não andar por aí a apre­goar, mas, se nos for perguntado, dizer a verdade sobre o n.º 1 do Santo Ofício [proibição duma nova edição de um li­vro já editado e da tradução do livro Ver­dadeira e falsa reforma na Igreja]. Como o n.º 3 se refere só a mim e não se sabe como se­rá aplicado, não di­zer nada. Por mim, cumpro rigo­rosamente. (...) O que mais me per­turba é o n.º 3. Po­de paralisar por completo o meu trabalho. Tenho 47 anos; tenho uma obra a realizar, pa­ra a qual estou preparado e ma­duro. Porventura, vou ser condena­do praticamente ao silêncio?"

"3 de Março de 52. Neste momento, atravesso dias extraordinariamente duros. Nada mais tive que dissabores"

"15-16 de Março. Sou como um ho­mem cuja mulher ou filho estão doentes quase a morrer. Ele lutou com todas as forças e a própria luta deu-lhe forças. Teria lutado assim dois ou três anos mais. Mas depois uma noite, a mulher morre. Então toda a fadiga acu­mulada cai-lhe em cima e ele fica ali sem força, sem futuro. O meu trabalho ao qual me dediquei durante anos sem descanso e sem parar está conde­nado a apodrecer em paz. (...) Actual­mente, creio que se tivesse ocasião de me ver envolvido num acidente, não faria nada para o evitar"

"18 e 19 de Março. Nada. Dois dos piores dias de toda a minha vida. Pos­sivelmente, os dois dias piores da mi­nha vida. Recebo cartas que me exor­tam à submissão!!!!! «Eles» deixarão que eu «apodreça». Neste «eles» não posso deixar de incluir o próprio P. Geral (...) daqui em diante é-me impossível falar-lhe, só por entre dentes, não com o meu coração como até ago­ra, apenas com a fria razão de um ho­mem interrogado: um homem diante do juiz de instrução. Tudo isto me faz um mal infinito, insondável."

Mas há mais e pior. Leiam o livro e verão com os vossos olhos!


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Encontro de Cristãs/aos

"Que espiritualidade para o mundo de hoje?" É este o tema do próximo En­contro de cristãs/cristãos, dia 10 de Outubro, com início às 10h, no CREU (Casa dos Padres Jesuítas), Porto. O tema abre-se a dois outros subtemas: espiritualidade e quotidiano; e espiritualidade e compromisso sócio-político. Desta vez, estará connosco a dinamizar a reflexão o Pe. Rui Manuel Grácio das Neves que traz com ele a sensibilidade da Igreja na Nicarágua, onde presentemente vive e lecciona. O almoço será partilhado com o que cada uma/um trouxer.

Encontros Fraternizar

Tema: Jesus para o 3.º milénio

O 1.º "Encontro Fraternizar" de Espiritualidade da libertação com o ateísmo em fundo está marcado para o dia 14 de Novembro, na casa-sede da Associação Padre Maximino. Inicia-se às 10h e termina às 18 h. O tema deste(s) Encontro(s) - JESUS PARA O 3.º MILÉNIO - é desenvolvido, durante a manhã, pelo Pe. Mário, director do Jornal. O almoço, às 13h, será partilhado em clima de Eucaristia, a partir do que cada uma, cada um levar para a mesa comum. A Associação oferece a sopa quente. A parte da tarde é de debate aberto, como num Pentecostes.

Inscreva-se previamente e, no dia, à chegada, partilhe, se puder,  2 euros para Associação. Venha, nem que seja ateu. Irá gostar!


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