Textos do
Jornal Fraternizar-

Edição nº 154, de Julho/Setembro 2004 (Continuação)

Igreja/Sociedade

Concordata católico-fascista de 1940 continua aí reciclada

Deveria ter acabado de vez. Até porque entretanto já foi aprovada e está em vigor a Lei sobre a Liberdade religiosa que regulamenta a vida de todas as Igrejas existentes no nosso país. Em vez disso, a Concordata católico-fascista de 1940 continua aí. Reciclada. Por sinal, bastante mal reciclada. É bem a expressão do país que hoje somos e da Igreja católica que hoje temos em Portugal. Um país sem liderança. Sem competência. Sem alegria. Sem política decente. E uma Igreja católica sem profecia. Sem carisma. Sem presença politicamente maiêutica. Sem Fé vivida ao jeito de Jesus de Nazaré. Sobretudo, sem causas históricas que actualizem a do Reino/Reinado de Deus que tanto fez andar Jesus, nas terras da Palestina, e que mereçam a entrega da nossa própria vida, hoje, como ele entregou a sua, outrora. Numa palavra, esta Concordata reciclada é bem a expressão dum país e duma Igreja confrangedoramente caídos na idolatria e no paganismo.

Já nem os sucessivos êxitos do FC do Porto chegam para levantar o moral do país. E nem as sucessivas peregrina­ções de milhares de pessoas a Fátima, nem as sucessivas fornadas de beatifi­ca­ções e canonizações que o actual papa incontroladamente leva por dian­te conseguem levantar o moral da Igre­ja católica em Portugal. Tanto aqueles como estas acabam até por ser experi­men­tados pela população portuguesa como outros tantos momentos mais do enorme desconforto que há anos nos persegue e nos deprime.

No que diz respeito ao país e às vitórias do FC do Porto, os jogadores e o respectivo treinador ganharam ba­lúrdios (em comparação com o treina­dor, quanto terá ganho também o pre­sidente do Clube?!), mas a verdade é que, enquanto isso aconteceu, milhares e milhares de portugueses perderam o seu mísero posto de trabalho e, con­sequentemente, a vida das respectivas famílias entrou em colapso e em deses­pero.

Só por ironia nos podemos alegrar, ao ver os estádios cheios, mesmo em dias de semana, pois tal só é possível porque, neste momento, são centenas de milhar os desempregados no país. E centenas de milhar os reformados, cuja reforma não dá para mandar tocar um cego.

Nem a campanha eleitoral para a Europa que entretanto, se iniciou e con­cluiu, conseguiu animar o país. Muito menos animou a Igreja católica em Portugal, ao que se sabe, demasia­do ocupada com o cuidado dos altares e das missas pelos mortos, como se a política fosse coisa do demo, e não de Deus.

Os candidatos, malcriados q.b., pelo menos, da banda da chamada coliga­ção, mais pareceram bonecos anima­dos que se passearam pelas feiras e por algumas ruas das grandes cidades, a repetir gestos do passado que já não dizem nada no presente. Também fize­ram lembrar aqueles grupos católicos que hoje ainda se comportam como se os tempos continuassem a ser rurais, e por isso no dia de Páscoa lá vão de opas vermelhas, ruas e caminhos fora, como palhaços a fingir alegria a jorros. Vão tão alienados, que nem se dão conta da contradição viva que são. Di­zem que vão anunciar a ressurreição do crucificado, mas a imagem que exi­bem continua a ser a do crucificado pregado numa cruz. Como quem grita aos quatro ventos que tudo aquilo que a Igreja faz é mentira. É faz-de-conta. Triste. Ritual. Sem novidade.

O mesmo se diga do país que so­mos. É um país cheio de oportunistas. Com minorias espertalhonas à cata de mais e mais mordomias. Sem nenhum amor ao próximo. Sem nenhum amor aos pobres. É um país sem um laivo de espiritualidade. Sem tempo nem dis­posição para ler um livro. A sonhar ape­nas com êxitos fáceis. E com mais e mais privilégios. Como alguns dos que a Concordata reciclada de 2004 insiste em consagrar e garantir, tanto ao Estado português, como à Igreja católica que aqui está.

Mas muito pior do que o texto da Concordata agora reciclada, ainda é a situação de nacional mancebia polí­tico-católica que nestes dias se vive des­caradamente em Portugal. Sob a batuta governamental da dupla Paulo Portas/Durão Barroso e a completa in­diferença do país popular e mesmo in­telectual. Quem então nos há-de livrar de toda esta indignidade nacional que vai muito para além da letra da Concor­data agora reciclada?

Dos 33 artigos que completam a “nova” Concordata de 2004, Jornal Fra­­ternizar permite-se transcrever o artigo 26, respeitante aos bens da Igreja católica. Leiam esta prosa e di­gam lá se uma Igreja que aceita viver instalada nestes privilégios, relativa­mente a outras instituições e associa­ções culturais e recreativas, alguma vez pode viver a liberdade para a qual Jesus Cristo nos libertou.

É óbvio que, na hora de ter que enfrentar o Poder, ela escolherá as pa­lavras e os modos de o fazer, para nunca cair em desgraça perante ele e, desse modo, nunca pôr em perigo todos estes privilégios de ordem ma­terial.

Por outro lado, com que cara pode a Igreja católica em Portugal entrar em cheio na luta pela plena cidadania das portuguesas, dos portugueses, no que respeita ao cumprimento do pagamento das contribuições e impostos que forem achados justos, se ela é a primeira a fi­car isenta desse pagamento, não por­que se reconhece que é manifestamen­te pobre e não tem ouro nem prata para dar, mas apenas porque é a todo-pode­rosa Igreja católica?

Leiam, pois, com atenção o artigo 26. E releiam-no, se for caso disso. Depois, pasmem! Como pode uma Igre­ja como a católica, que se arroga de discípula de Jesus e de estar ao serviço do Reino/Reinado de Deus, aceitar todo este rol de privilégios de natureza eco­nó­mica e financeira?

“Artigo 26

1. A Santa Sé, a Conferência Epis­copal Portuguesa, as dioceses e de­mais jurisdições eclesiásticas, bem co­mo outras pessoas jurídicas canónicas constituídas pelas competentes autori­dades eclesiásticas para a prossecução de fins religiosos, desde que lhes te­nha sido reconhecida personalidade civil nos termos dos artigos 9 e 10, não estão sujeitas a qualquer imposto sobre:

a) As prestações dos crentes para o exercício do culto e ritos;

b) Os donativos para a realização dos seus fins religiosos;

c) O resultado das colectas públicas com fins religiosos;

d) A distribuição gratuita de publi­ca­ções com declarações, avisos ou instruções religiosas e sua afixação nos lugares de culto.

2. A Santa Sé, a Conferência E­pis­copal Portuguesa, as dioceses e de­mais jurisdições eclesiásticas, bem como outras pessoas jurídicas canó­nicas constituídas pelas competentes autoridades eclesiásticas para a pros­secução de fins religiosos, às quais tenha sido reconhecida personalidade civil nos termos dos artigos 9 e 10, estão isentas de qualquer imposto ou contribuição geral, regional ou local, sobre:

a) Os lugares de culto ou outros prédios ou parte deles directamente destinados à realização de fins reli­giosos;

b) As instalações de apoio directo e exclusivo às actividades com fins religiosos;

c) Os seminários ou quaisquer es­ta­belecimentos destinados à formação eclesiástica ou ao ensino da religião católica;

d) As dependências ou anexos dos prédios descritos nas alíneas a) a c) a uso de instituições particulares de solidariedade social;

e) Os jardins e logradouros dos pré­dios descritos nas alíneas a) a d) desde que não estejam destinados a fins lucrativos;

f) Os bens móveis de carácter reli­gioso, integrados nos imóveis referidos nas alíneas anteriores ou que deles sejam acessórios.

3. A Santa Sé, a Conferência Epis­copal Portuguesa, as dioceses e de­mais jurisdições eclesiásticas, bem co­mo outras pessoas jurídicas canónicas constituídas pejas competentes autori­dades eclesiásticas para a prossecução de fins religiosos, desde que lhes te­nha sido reconhecida personalidade civil nos termos dos artigos 9 e 10, es­tão isentas do imposto de selo e de to­dos os impostos sobre a transmissão de bens que incidam sobre:

a) Aquisições onerosas de bens imóveis para fins religiosos;

b) Quaisquer aquisições a título gratuito de bens para fins religiosos;

c) Actos de instituição de fundações, uma vez inscritas no competente registo do Estado nos termos do artº 10.

4. A autoridade eclesiástica res­pon­sável pelas verbas que forem destina­das à Igreja Católica, nos termos do artigo seguinte, está isenta de qualquer imposto sobre essa fonte de rendi­mento.

5. As pessoas jurídicas canónicas, referidas nos números anteriores, quan­do também desenvolvam actividades com fins diversos dos religiosos, assim considerados pelo direito português, como, entre outros, os de solidariedade social, de educação e cultura, além dos comerciais e lu­crativos, ficam su­jeitas ao regime fiscal aplicável à respectiva activi­dade.

6. A Repúbli­ca Portuguesa as­segura que os donativos feitos às pessoas jurí­dicas canónicas, referidas nos nú­meros anteriores, às quais tenha si­do reco­nhe­ci­da per­sonalidade ci­vil nos termos des­­ta Concorda­ta, produzem o efeito tributário de dedução à co­le­cta, nos ter­mos e limites do di­reito português.”

Como se vê, apenas o n.º 5 deste artigo 26 não isenta do re­gime fiscal as ins­ti­tuições da Igreja católica que bus­cam “fins diversos dos religiosos”, con­cretamente, “os de solidarie­da­de so­cial, de e­du­cação e cultu­ra, além dos co­mer­ciais e lucrati­vos”.

Deste modo, o vastíssimo patri­mónio da Igreja, casas paroquiais, templos e cape­las, catedrais, paços episcopais, se­minários, conventos de frades e de freiras, o santuário de Fátima e todo o movimento de dinheiro que por lá acon­tece, as ofertas dos fiéis e todo o outro património eclesiástico não têm que pagar impostos ao Estado. E, se algum daqueles edifícios eclesiásticos tiver sido declarado “monumento na­cional”, ainda é o Estado que tem que se chegar à frente, quando forem ne­cessárias obras de conservação e de res­tauro, geralmente, muito dispendio­sas.

É o que reza o Artigo 22, parágrafo 1:

”Os imóveis que, nos termos do artigo VI da Concordata de 7 de Maio de 1940, estavam ou tenham sido clas­sificados como «monumentos nacio­nais» ou como de «interesse público» con­tinuam com afectação permanente ao serviço da Igreja. Ao Estado cabe a sua conservação, reparação e res­tauro de harmonia com plano estabe­lecido de acordo com a autoridade eclesiás­tica, para evitar perturbações no serviço religioso; à Igreja incumbe a sua guar­da e regime interno, desi­gnadamente no que respeita ao ho­rário de visitas, na direcção das quais poderá intervir um funcionário nomea­do pelo Estado.”

Secretismo

E que dizer do secretismo que ro­deou a gestação e o parto da nova Con­cordata 2004? Tudo aconteceu co­mo se as cidadãs e os cidadãos, as cató­licas e os católicos fôssemos ove­lhas e carneiros, a quem nem os go­ver­nan­tes nem os bispos têm que dar quais­quer satisfações. Tudo se fez nas nos­sas costas. Mas o mais impressio­nante ainda é constatar que, mesmo assim, depois de todo este desprezo pelas pes­soas, ninguém no país e na Igreja católi­ca quis saber, ninguém pro­testou, nin­guém se indignou. Também por isso se diz aqui que esta Concordata 2004 é bem a expressão do país que hoje so­mos e da Igreja católica que hoje te­mos em Portugal.

Surpreendente, também, está a ser o comportamento das restantes Igrejas que actuam no nosso país. Duma ma­neira geral, aceitaram o facto consu­ma­do da Concordata reciclada. Como já auferem alguns dos privilégios que dantes eram exclusivo da Igreja cató­lica – a Lei da Liberdade religiosa a­briu-lhes essa porta – já se dão por sa­­tis­feitas e agradecidas. E todas elas ficaram como “cães mudos”, perante o Estado e o empório do Vaticano.

Às populações compete interrogar-se perante comportamentos eclesiais assim. Concretamente: para que ser­vem Igrejas tão acomodadas como as que actuam entre nós? E para que ser­vem os seus líderes, se têm mais faro de mercenário do que de pastor; e se são líderes para usufruir privilégios, quando deveriam servir desinte­res­sa­damente as pessoas?


DR. MANUEL REIS, NA APRESENTAÇÃO DO LIVRO DO PE. MÁRIO

Jesuanismo e Cristianismo em confronto

A sessão de lançamento do último livro do Pe. Mário, Ouvistes o que foi dito aos antigos. EU, PORÉM, DIGO-VOS, decorreu, na tarde do dia 5 de Junho passado, em plena Feira do Livro do Porto. Sobre o livro falaram dois convidados e amigos do autor, respectivamente, João Teixeira Lopes, deputado do Bloco de Esquerda pelo Círculo do Porto, e Prof. Dr. Manuel Reis, actualmente a residir em Guimarães. Na impossibilidade de reproduzirmos as palavras do primeiro interveniente, que falou a partir de tópicos, deixamos aqui o principal da extensa (17 pp. A4) e  altamente erudita comunicação do Dr. Manuel Reis, na qual o mestre pôs em confronto Jesuanismo e Cristianismo.

O Pe. Mário nasceu em 1937; eu em 1936. As nossas trajectórias de vida foram muito semelhantes. Em nome de uma Identidade pessoal conquista­da a pulso (socraticamente!...), a Igreja católica romana viu-se forçada a irra­diar-nos do seu seio, movida por uma força extrínseca (demoníaca) que já se havia constituído, desde há muito, na sua “pseudo-consciência interna”. Mas o nosso percurso foi feito em nome da fidelidade ao Evangelho de Jesus.

O Mário, conheci-o pessoalmente no nosso primeiro encontro de Maio-Junho de 1969, num pequeno restaurante em Macieira da Lixa, onde ele era pároco. Eu tinha ido à Cooperativa “Confronto” fazer uma conferência sobre Cristia­nis­mo e Marxismo. Aí encontrei o Ma­nuel Serra, que tinha saído da pri­são, na véspera. Resolvemos, depois, ir até Macieira da Lixa, fazer uma visita ao Mário, que estava a ser julgado no Tribunal Plenário do Porto. Encontrámo-lo bem disposto e confiante.

O Padre Mário (eu não gosto, pes­soalmente, de lhe atribuir este epíteto; mas ele aprecia-o e usa-o nas suas es­critas…) é autor de mais de uma vintena de livros e opúsculos, onde avulta, sem dúvida, o “Fátima nunca mais”. São, todos eles, saudavelmente escritos po­lé­micos, de combate e ruptura, de fideli­dade ao Evangelho e amor indesmen­tível a Jesus de Nazaré e à Humanida­de, pela qual todos nós nos devemos bater sem tréguas. Mário de Oliveira é fundador e director do bem conhecido “Jornal Fraternizar”, desde há pelo 16 anos, se bem me recordo: uma publica­ção periódica, que tem congregado e estimulado muitos cristãos/católicos pro­gressistas e, ao mesmo tempo, como não podia deixar de ser, perturbado e abalado gente conservadora e agarra­da às ortodoxias e às dogmáticas do passado.

Oh!, o Concílio Vaticano II/1961-65!... Como foi decisivo, para as nossas trajectórias pessoais, e para todo o Mun­do Cristão e o Ocidente!... Mas como tem sido contrariado e reduzido a pó pelo pontificado de João Paulo II, que leva já um quarto de século!...

Aprecio muito a vida e a obra do Padre Mário de Oliveira. Todavia, se me perguntarem se estou a 100% com os seus escritos e o seu pensamento, eu terei de responder que não. Mas isso só nos enobrece e fecunda o diá­logo entre os dois. O princípio de Iden­tidade é dual: na sua dinâmica tensio­nal, ele tem uma vertente de busca da Identidade (identidade-pessoal) mas, simultaneamente, ele tem de jogar com as situações e os aspectos da con­tradição, em demanda da Não-con­tra­dição e da Identidade.

É neste jogo prismático que o perfil do Mário se foi definindo, caracterizan­do e afirmando. Impôs-se, desde logo, ao seu carácter pessoal, ser diferente dos outros padres, diferente do tipo tradicional do padre-eclesiástico, já na sua condição de capelão-militar, já como padre diocesano, vinculado à dio­cese do Porto. Que é que o impelia a ser diferente do padrão tradicional dos eclesiásticos? O imperativo categórico de imitar e ser parecido com Jesus, o Jesus da Boa-Nova para a Liberta­ção-Emancipação radical dos Indiví­duos e dos Povos. É, seguramente, a esta luz que ele plasma e configura o seu modelo próprio de padre/presbítero das ekklesias, supostamente inspiradas em Jesus, segundo os textos do Novo Testamento, e, no seu caso concreto, da Igreja (cristã/católica) que está no Porto. A este propósito, leiam-se aten­tamente os dois parágrafos das pp. 7-8, do livro em referência. (…)

Além disso, Mário de Oliveira está atento e vigilante para a necessidade de um dizer-fazer crítico sobre a re­ligião e tudo quanto lhe diga respeito, para o imperativo de desmascarar a religião, “que sempre se tem feito pas­sar pelo que de melhor as pessoas e os povos realizam, quando, afinal, não passa de pura idolatria encapotada e de culto/cultivo do medo, quando é fre­quentada pelas maiorias empobrecidas e oprimidas, de culto(cultivo da hipo­crisia, quando é frequentada pelas mi­norias privilegiadas e poderosas” (p. 11).

E, na página seguinte, depois de re­sumir a sua odisseia ou via-sacra, ele assegura à puridade: “É por demais manifesto que sou um padre/presbítero muito diferente da generalidade dos padres/presbíteros conhecidos pelos antigos. Não digo que sou melhor nem pior. Sou diferente”. É óbvio que é mui­to, muitíssimo diferente.

Eu só me pergunto (pelo que a mim me concerne) se os novos, em con­tras­te com os antigos, a Nova Alian­ça em contraste com a Antiga, ainda carece de padres/presbíteros!... É que, à luz do Evangelho de Jesus, toda a ins­titucionalização da religião é mortí­fera, a curto, a médio e a longo prazos. Quando Marx afirmou o apotegma “a religião é o ópio do povo”, ele esque­ceu-se de acrescentar o adjectivo insti­tucionalizada!... A religião institu­cio­na­lizada, enquanto tal, por conse­guinte, é que é, efectiva e verdadeira­mente, o ópio do povo; e, nessa óptica, não faltava razão a Nietzsche, quando afirmava que o Cristianismo (histórico e doutrinal) não passa de um Plato­nis­mo para o povo. Certamente que o Padre Mário de Oliveira já não se surpreendeu ao verificar que o seu nome havia sido retirado, arbitraria­mente, ou seja, sem explicação nem au­dição/argumentação da outra parte, do “Anuário Católico de Portugal” (p. 141). Possivelmente, a mando directo do próprio bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes. Mário de Oliveira sabia dos cognomes que lhe eram atribuídos na diocese: “maldito”, “o crítico”, este segundo, ao que parece, pela mão do próprio “Ordinarius Loci”, patenteado na homilia da Festa de Pentecostes de 1976.

Na p. 340 do livro “Profecia e Liber­dade em D. António Ferreira Gomes” (pp. 141-2), há uma passagem da refe­rida homilia, que Mário de Oliveira re­cor­da e transcreve, com toda a perti­nência. Socorrendo-se do então muito célebre livro de Herbert Marcuse, “o Homem Unidimensional”, o bispo (co­me­tendo um erro de paralogismo se­melhante à presença do nome de Pi­latos no Credo cristão…), procura cen­su­rar o que entende por unidimen­sio­nalismo cristão. E fazendo alusão a “o crítico”, (como acontecia em do­cu­mentos político-societários na Idade Média) fá-lo nos termos seguintes (p. 142): “Pois não se chegou ao ponto de recusar-se total e liminarmente a E­xor­tação Apostólica Evangelii Nuntian­di, pela razão expressa de nela o Papa Paulo VI admitir os vários níveis do ser e do existir humanos ou, conforme ex­pressas palavras do crítico, por o Papa fazer «dicotomia entre libertação eco­nó­mica, política, social, cultural e evan­gélica, entre libertações puramente hu­ma­nas e a salvação em Jesus Cristo»?! Ao que se vê e ouve, a estes «cristãos não-religiosos» basta a luta de classes, contanto que exclusiva e levada à raiva e ao paroxismo…”

Na mundividência cristã-católica de D. António, o que verdadeiramente e acima de tudo interessava era a Igreja Institucionalizada… daí o seu pro­ce­di­mento em termos de Contabilidade e Administração: há os que estão den­tro da Igreja e fazem da obediência ao Chefe a suprema virtude, e há os que estão fora dela ou se vão colocando fora do rebanho. «Extra Ecclesiam nulla salus» - era o mote tradicional. Assim os comentários críticos do Mário ao do­cu­mento de Paulo VI punham-no fora da Igreja. Triste e miserável concep­ção, esta, da Igreja, que dizem de Jesus Cristo!... Sete anos antes, em 1969, aquando da publicação do meu livro, na Moraes Editores, «Igreja sem Cris­tianismo ou Cristianismo sem Igreja?!», o mesmo D. António, comentando a obra numa reunião de Jucistas, teve o cuidado de concluir e alertar que o au­tor desse livro já se achava ipso facto, fora da Igreja!... A ladainha é sempre a mesma, ou seja, a que é ditada pela sempiterna Cultura do Poder-Domina­ção d’abord.

Como poderia o Padre Mário, man­tendo-se as coisas institucionalmen­te como estão, ter o seu lugar próprio dentro do sistema eclesiástico da Dio­cese? Não se esquecendo, obviamen­te, das procelas alterosas experiencia­das ao longo da Viagem da Vida, o Má­rio deixou registada esta reflexão muito sentida e dorida (p. 143): “A verdade é que, depois deste episódio [os comen­tários críticos à Evangelii Nuntiandi], nunca mais mereci a confiança pastoral do Bispo D. António. E tenho permane­cido até hoje como padre sem paróquia, sem ofício pastoral por nomeação epis­co­pal. Mas de modo algum padre sem Igreja ou sem exercício do ministério presbiteral. Não me vêem no interior dos templos e nos altares, mas vêem-me dentro do mundo, nos «media» e nu­ma permanente relação de proximi­da­de com todas as mulheres e com todos os homens, a começar pelos mais oprimidos e empobrecidos. E também os ateus e agnósticos”.

Algumas Observações e Co­men­tários sobre o Livro em refe­rência.

O Mário foi, também, jornalista de profissão. Como Paulo que, para não ser pesado às ekklesías, que fundava e assistia, se entregava ao ofício de cesteiro. O estilo e a escrita do Padre Má­rio são claros e incisivos; ousa en­fren­tar as situações e os problemas, tais quais elas e eles se põem, com ra­dicalidade, intrepidez e realismo crí­tico. Os próprios temas, que desenvolve com mestria, são surpreendidos e a­gar­rados a partir das situações con­cretas, experienciadas pelos homens e pelas mulheres, nossos contempo­râneos. As exigências da nossa con­tem­poraneidade estão sempre presen­tes e são satisfeitas.

A estilística frapée, própria do jorna­lismo hodierno, que procura impressio­nar e até abalar a opinião pública e os sentimentos esteriotipados, está bem presente, inclusive nos títulos dos capítulos do livro. Por exemplo: A vai­da­de do Papa João Paulo II não tem limites!!! (p. 179); O pecado sem perdão do Cardeal Patriarca de Lisboa (p. 191). O bem achado slo­gan do Noé (um dos participantes no 5.º Encontro de Cristãos, na Casa Diocesana de Aveiro, no final do séc. XX), «A fé sem luta é como carro sem rodas», serviu magnificamente de título a todo um capítulo do livro (p. 207). Quanto à actualização teoló­gica e cultural e correspondente atmos­fera crítica, o discurso do Mário é bem iluminado e chega a ser esplendoroso. Nesta vertente, gostámos, muito especi­al­mente, do capítulo que dá pelo título sugestivo: Eucaristia, ou sacrílego negócio? (p. 197)

(…)

No capítulo subordinado ao título Alá ou Deus? Maomé ou Jesus?, des­tacamos o parágrafo seguinte (p. 83): “É com Jesus de Nazaré, e só com ele, que aprendemos a ser ateus de todos os deuses, chame-se ele Alá ou Javé, Pai ou outro nome qualquer que nós, seres humanos, lhe atribuamos. Deus nunca é o que dizemos que é. Nun­ca é o que imaginamos que é. Nun­ca é o que pensamos que é. Deus nun­ca é o que vemos, palpamos, cheira­mos, pensamos, imaginamos. Se fosse, seria automaticamente inferior a nós, seria obra das nossas mãos, da nossa inteligência, da nossa mente, dos nos­sos desejos, da nossa imaginação. Deus só pode ser o totalmente Outro”.

Este discurso crítico é, sem dúvida, o melhor que se pode tecer e formular no horizonte da chamada «Teologia Ne­gativa» e «teologia mística», iniciada pelo Pseudo-Dionísio Areopagita, no «corpus dionisyacum» (a partir do séc. V) e continuada, na Idade Média, por Mestre Eckhart (séc. XIV). (…)

Ainda no concernente a esta pro­ble­mática, apreciámos a coragem do Mário em pôr em causa o próprio fenó­meno fundador da revelação, nas gran­­des religiões institucionalizadas. Refira-se, por exemplo, o parágrafo se­guinte (p. 79): “A este respeito, vou ain­da mais longe e afirmo que nem se­quer é cor­re­cto falarmos em revelação de Deus, mesmo que esta acontecesse em todos os povos, em pé de igualda­de. Na verdade, quem pode garantir que é de Deus o que este homem ou aquela mulher ou aquele grupo diz ser palavra de Deus? Quem entre os seres humanos, alguma vez, teve ou terá aces­so a Deus? Quem alguma vez viu Deus? Quem alguma vez ouviu Deus? Não é Mentira tudo o que alguém ousa dizer sobre Deus, sobretudo, quando o diz no tom de quem parece ter a defi­ni­tiva e última palavra? (ou no tom de de­finição dogmática, como faz a nossa Igreja católica?)”. (…)

Mas já insinuámos, no princípio des­ta intervenção, que não estávamos sintonizados a 100% com a mundivi­dên­cia e o pensamento do Amigo Má­rio, expendidos e configurados ao lon­go deste seu livro.

O Mário utiliza duas ou três vezes o adjectivo jesuânico... Mas eu acabo por verificar que ele não o utiliza na mesma acepção de ruptura com o Cris­tianismo (histórico e doutrinal de Paulo), em que eu o emprego, desi­gna­da­mente em «Sócrates e Jesus/Es­ses Desconhecidos! As Duas Revela­ções gêmeas» (Edicon, São Paulo, 2001). No meu horizonte crítico, eu te­nho de perguntar-me que sentido válido e legítimo é que pode ter uma profissão de fé jesuânica, emitida por uma pes­soa que se considera padre/presbítero da Igreja cristã-católica!...

Enternece-me e aprecio positiva­men­te o que vejo escrito na p. 14 do li­vro em causa: "espero singelamente contribuir para restituir ao Cristianismo e à Igreja o rosto e o sopro jesuânicos que um e outra têm que voltar a ter, para serem de novo um cristianismo e uma Igreja abertamente amigos e com­pa­nheiros das pessoas e dos povos, cheios de misericórdia e tolerantes para com todas as nossas fragilidades, por isso, bem nos antípodas do sacrifi­cialismo doentio tão do gosto das deu­sas e dos deuses dos cultos dos misté­rios do Paganismo".

Bastará invocar, obviamente para o condenar, o sacrificialismo doen­tio, oriundo do Paganismo e expresso nos seus típicos «bodes expiatórios», como se tais cultos e ritos fossem ex­clusivos das religiões pagãs?... Temos de reconhecer que um discurso assim continua a «branquear» e a rasurar as substantivas diferenças abissais que separam, à partida, o Jesuanismo e o Cristianismo, a arquitectura filosófi­co-antropológica da mundividência je­suânica e a correspondente arquite­ctu­ra da mundividência cristã.

Abreviando e resumindo, salientare­mos, aqui, tão-só as duas teses/dogmas estruturais, que fezem a diferença es­sencial entre as duas mundividências: a dogmática da Incarnação e a dog­má­tica da Redenção. Ambas são tri­bu­tárias da sempiterna Cultura do Poder-Condomínio e não se com­pre­en­dem nem se justificam dentro da Cultura antropológica da Liberdade Responsável primacial e primor­dial, pela qual ainda se bateu, no séc. IV, o Cristianismo de Pelágio, que des­conhecia a doutrina do pecado original, e o chamado Cristianismo céltico não esqueceu de todo.

Ora, no concernente à Incarna­ção, sua teoria e ideologia, o Cristia­nis­mo histórico e doutrinal das Igrejas pouco ou nada inovou, em confronto com as religiões mistéricas do Paganis­mo. Ele emerge, ideológico-cultural­mente, na esteira daquele padrão deus/homem mítico que, na bacia do Mediterrâneo e no Médio-Oriente (on­de nasceu a Civilização), grassava um pouco por toda a parte, há cerca de 20 séculos: Átis (na Ásia Menor), Adónis (na Síria), Osíris (no Egipto), Dionísios (na Grécia), Baco (na Sicília e na Itália), Mitra e o mitraísmo (na Pérsia).

No atinente à Soteriologia, ou seja, no que diz respeito à doutrina clássica do sacrifício redentor personificado na Crucifixão/Ressurreição de Cristo (procedente de Paulo e das suas Car­tas em geral, que não apenas da Carta aos Hebreus, que, sendo embora da escola paulina e não propriamente do pu­nho de Paulo, é sem dúvida a mais apodíctica e categórica, na doutrina), - o que há a concluir, expressa e mani­festamente, é que: a) uma tal doutrina dogmática (essencialíssima ao Cristia­nismo) se coaduna perfeitamente com a teoria da libertação/salvação vicária/vicariante, apoiada esta, por sua vez, na paulina/agostiniana doutrina tradi­cional do «pecado original»; b) essa dou­trina enquadra-se geometricamente (cavilha quadrada em buraco quadra­do) na Potestas mono-árquica e hierár­quica e na Cultura do Poder-Domina­ção d'abord, a qual se acha nos antí­podas, quer da Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial, quer da teoria socrática do «Dois-em-Um».

Neste pelouro filosófico-crítico, convém fazer uma advertência sócio-política muito importante: As nossas dificuldades e desconfianças estrutu­rais no Ocidente, em evoluir da demo­cracia representativa (puramente representativa) para a democracia par­ticipativa e directa, prendem-se, intrínseca e nuclearmente, com uma idiossincracia própria dos ocidentais, que procede directamente dessa dou­trina teológica da Redenção vicária/vicariante. O próprio Despotismo ilu­mi­nado (que assomou, ultimamente, por exemplo, na «preemptive war» de George W. Bush, e na teoria da «guerra preventiva» de alguns políticos ociden­tais), e que na Cultura ocidental nunca foi expressamente censurado e comba­tido, tem a sua raiz nessa doutrina sote­riológica.

Ao ler atentamente os temas e pro­blemas seleccionados neste livro do Mário e o vibrante e donairoso carácter teológico e jornalístico, que o Autor sou­be injectar na discussão e argu­men­tação expressas nestes textos, eu tenho de confessar que sou, por vezes, assaltado pela questão/dúvida de saber se, por trás do discurso e da linguagem, está o padre/presbítero da Igreja cristã-católica, ou o homem verdadeiramente jesuânico. A questão é pertinente e a dúvida pode até ser substantiva, e não puramente retórica...

(...) Significa isto que, nesse terri­tório de questões teológicas e eclesiais, há todo um vasto e complexo empreen­di­mento de Desconstrução (herme­nêu­ti­ca e filosófico-cultural) à Jacques Derrida, que é necessário e urgente re­to­mar e refazer. Mas, curiosamente - o que reforça a minha dúvida -, essa Des­construção, o Mário também a faz, talvez não sistematicamente, mas por vezes, ele fá-la, de modo brilhante. (Um bom exemplo disto é o seu texto, in­cluído neste livro, a que já aludimos, subordinado ao título: Eucaristia, ou sacrílego negócio?, pp. 197 e ss.)

Mas o Mário nunca foi homem de de­sistir às primeiras impressões; e a odisseia da sua vida leva-me a respeitá-lo muito e a tomá-lo como um «corredor de fundo». Eis por que o outro lado da minha dúvida é avivado pela sua perti­naz reivindicação da dimensão jesuâ­nica, muito embora mantendo-a homo­lo­gada e confundida com o Cristianismo. Um parágrafo, onde essa dimensão je­su­ânica aparece, reza assim (p. 74): "Decidi meter mãos a este empreendi­mento, mas com a condição de jamais renunciar à consciência crítica que a minha condição de cristão jesuânico [sublinhado meu] sempre exige de mim. Por isso, de modo algum tenho aqui a preocupação de alinhar no politicamen­te correcto e - com toda a fronatlidade o declaro - recuso entrar na paranóia de dizer que tudo o que é muçulmano é bom, como agora parece estar na mo­da. Ou que tudo o que está no Alcorão é bom. Não é. Como não é bom tudo o que é católico. Nem é bom tudo o que está na Bíblia judaico-cristã".

O Mário declara, muito justamente, recusar e fugir do politicamente cor­recto. Mas, por exemplo, no capítulo titu­lado Homossexuais: acabe-se já com a discriminação!, ele pare­ce precipitar-se para os modismos, ditados pelo «politicamente corre­cto». Não vou aqui esmiuçar as questões envolvidas e assaltar a fortaleza sobre esta matéria. Pretendo, tão só, en pas­sant, chamar a atenção para alguns ilo­gismos na argumentação, que sur­gem, por exemplo, no parágrafo se­guin­te (p. 177): "Ora, em Jesus de Na­zaré, a humanidade como Deus a criou, revela-se não patriarcal e [não] ma­chis­ta, nem sequer heterossexual à maneira do patriarcalismo hebraico, em que o masculino domina o femini­no, mas numa igualdade radical entre mulher e homem, e na qual tanto as ten­dências heterossexuais como as homossexuais são naturais e legítimas e representam, por isso, não um mal, mas um enriquecimento para a humani­dade no seu conjunto".

Em 1970, eu e um grupo de univer­sitários publicámos, em Coimbra, na Liv.-Ed. Almedina, um livro antológico titulado: «Igualdade Radical para a Mulher». O livro teve três dias de vida, antes de ser apreendido, na totalidade dos seus 1000 exemplares impressos, pela PIDE/DGS. Foi também motivo e objecto de um processo «jurídico», mo­vido pelo Senado da Univ. de Coim­bra, que acabou por expulsar de Dire­ctor Artístico do CELUC, o autor destas linhas. Quanto a mim, ainda hoje pos­so subscrever tudo quanto assinei nes­se livro!...

Mas voltemos ao parágrafo do Má­rio: Da igualdade radical entre ho­mem e mulher, preconizada, sem dúvida, pela doutrina e pela prática de Jesus (Paulo já é muito diferente... vd., vg., 1 Cor. 14, 43-36; 11, 2-16), não se segue logicamente, não se po­de seguir, que as tendências he­terossexuais e as homosse­xu­ais sejam igualmente naturais e le­gí­timas. Afirmar uma proposição de­clarativa desta índole encerra um ilo­gismo e tem de afirmar-se que é um sofisma. O próprio Jesus não é nenhum eunuco, ou don juan, como tantas ve­zes o têm interpretado ou pintado... Segundo os textos do Qumran, sabe­mos que ele casou duas vezes: a pri­meira com Maria Madalena; e a se­gunda com a bispa Lídia, de Antioquia, uma vez que Maria Madalena, a partir de certa altura, começou a simpatizar mais com a doutrina do irmão de Jesus, Tiago (nascido já dentro do casamento, legalmente formalizado, de Maria e José), o qual adoptava uma linha de observância estrita da Lei judaica. No cap. 7 da 1 Cor., Paulo fala deste caso paradigmático: a Igreja chamou-lhe «pri­­vilégio paulino», ou seja, a possibi­lidade de dissolução do vínculo matri­monial «propter religionis causam», ad­mi­tida e reconhecida por Paulo, tendo em vista o caso ocorrido entre Maria Madalena e o Senhor Jesus.

Nestas matérias da Sexualidade humana e, de resto, em todas as ques­tões humanas e/ou psico-sociais, é mis­ter manter a atenção desperta para a edificação de um Pensamento de na­tureza genética e genealógica, o úni­co padrão de pensamento capaz de reunir e salvaguardar a união indisso­lúvel das raízes e da utopia. Em função da passagem pelo teste do pensa­men­to genético e genealógico, é pre­ci­­so, por conseguinte, mantermo-nos atentos ao background do Passado, firmar bem as raízes no Passado, para viver crítica e adultamente o Presente e poder iluminar a preparação adequa­da do Futuro, uma vez que - como diria Antonio Machado - caminante, no hay camino, se hace camino al andar!

Eis por que, sem este fato de treino, ou couraça que nos respalda e funda­menta o viver e o seu processus hu­mani­zado, o que nos pode vir a cair em sorte, com toda a naturalidade e a inércia das coisas, é a eterna lei do pêndulo entre Sila e Caríbedes, ditada pelas Modas e modismos do Presente, afinal, a corveia paga à sempiterna Cultura do Poder-Dominação d'abord. Desta tentação, ou deste pecado (!...), eu tenho sempre muito medo, - confesso. (...)


PALAVRAS DO PE. MÁRIO A ENCERRAR A SESSÃO

“Deixem-se explodir pela força libertadora que sopra neste livro”

Se eu fosse o profeta Jeremias bí­blico, teria motivos de sobra para me lamentar. E certamente já teria amaldi­çoado o dia em que nasci, esse dia 8 de Março de 1937, quando disseram à ti Maria do Grilo, minha mãe - Nas­ceu-te um filho, um rapaz!

Fui baptizado, 15 dias depois de ter nascido e ordenado presbítero, 25 anos depois de ter sido baptizado. Mas a Igreja que me baptizou e ordenou presbítero não tem querido saber para nada desses dois sacramentos com que me assinalou e atirou comigo para a mar­gem, pior, continua a proceder co­mi­go, desde há uns trinta anos a esta parte, como se eu simplesmente tivesse deixado de existir. E isto sem que haja coragem para me julgar nos seus tri­bu­nais (é verdade, a Igreja também tem tribunais, mas quando lhe dá jeito, com­porta-se como se os não tivesse!). Bas­tou que o bispo castrense, D. António dos Reis Rodrigues, primeiro, e o bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, depois, me declarassem, cada qual a seu modo, "padre irrecuperável", para que a Igreja que está no Porto, todo o Presbitério incluído, acatasse aquele veredicto.

O bispo comporta-se, na sua dio­cese, como o imperador Constantino, no séc. IV, em Roma: concentra nas suas mãos todo o poder: o legislativo, o executivo e o judicial-canónico. Quem não lhe cair em graça; quem dissentir da sua orientação pastoral (como, aliás, quem dissentir do pároco, na pa­róquia); quem pautar a sua vida por outra teologia, a teologia jesuânica da libertação; quem ousar ser discípulo de Jesus, o Crucificado/Resssucitado, difi­cil­mente terá mais hipóteses na Igreja a que ele preside. Pode não ser canoni­camente excomungado, mas passa a ser tratado como não-existente, o que é mil vezes pior. Com os membros das outras Igrejas cristãs, do ramo protes­tante, ainda se dialoga, pelo menos, simula-se um certo desejo de unidade e algum ecumenismo. Mas com este tipo de membros como eu, embora sejamos da mesma Igreja, deixa de haver contactos! Simplesmente, não existimos.

O mais impressionante é que, en­tre­tanto, a vida eclesial rola, como se nada de anormal tivesse acontecido. Sucedem-se as missas diárias e aos domingos, as visitas pastorais, o natal e a páscoa e o pentecostes, os crismas em tudo quanto é sítio. Como se não hou­vesse aqui nenhuma espécie de crime nem de pecado contra o irmão e contra o Espírito Santo.

Ora, que fique claro duma vez por todas: O que eu sou, em Igreja, sou-o pela graça de Deus. Sou-o por força do baptismo no Espírito Santo. E por força do sacramento da Ordem que me assinalou, dentro da simbólica por que se rege a nossa Igreja, para o serviço maiêutico, altamente subversivo, de Evangelizar os pobres.

Por isso, ao ver como sou tratado, tenho que concluir que nem a Igreja acredita no que faz. Concretamente, nem a Igreja acredita nos sacramentos que celebra. Ainda pensa que baptizar é simplesmente integrar alguém no sis­te­ma eclesiástico. E que ordenar al­guém de presbítero é fazer duma pes­so­a baptizada um mero funcionário ecle­siástico ao serviço do respectivo bispo diocesano. Por isso, quando o baptiza­do, à medida que cresce em anos e em consciência, se rebela, fecunda e in­concidionalmente, perante o sistema eclesiástico, eis que a Igreja, em lugar de se alegrar e fazer eucaristia e dizer "Está aqui o dedo, a marca do Espírito Santo!", assanha-se toda e tudo faz para escorraçar quem assim se mani­fes­ta. Sem cuidar de ver se está aí ou não a força do Espírito Santo, que é, como se sabe, à luz da prática subver­siva de Jesus, a fonte de toda a dissi­dência.

Igualmente, quando o ordenado de presbítero, em lugar de se comportar como mero funcionário eclesiástico, subserviente e sem consciência crítica, inesperadamente se afirma como ho­mem incondicionalmente entregue ao serviço maiêutico da libertação da hu­ma­nidade, a partir dos mais oprimidos e excluídos que são os empobrecidos, e que hoje voltam a ser milhares de milhões em todo o mundo, eis que a Igreja hierárquica, em lugar de se ale­grar e de se deixar interpelar até à raiz por essa vida, por esse carisma, por essa concreta manifestaão do Espírito Santo, fecha-se mais e mais na concha do seu poder e dos seus privilégios e trata como «louco» aquele membro que assim se comporta.

O Evangelho de Mateus bem ad­verte e a contra-capa deste meu livro faz questão de o sublinhar: "Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás. Aquele que matar terá de responder em juízo. Eu, porém, digo-vos: Quem se irritar contra o seu irmão será réu pe­rante o tribunal; quem lhe chamar «imbecial» será réu diante do Coselho; e quem lhe chamar «louco» será réu da Geena do fogo". Mas nem assim a Igreja hierárquica quer saber. Na sua soberba e na sua arrogância, acha que, agora, todos estes séculos depois de Jesus, até ele tem que se sujeitar a ela, não ela a Jesus. Vai daí, prefere viver com um cadáver, pomposamente reverenciado no panteão da sua cruz de ouro e prata e no panteão do seu altar, até do seu sacrário, a ter que suportar todas as surpresas, todas as «tempestades», todos os «ciclones», todo o «Novo», que o Ressuscitado e o seu Espírito continuamente desenca­deiam na História, gostem ou não gos­tem os hierarcas e demais podero­sos do mundo. Basta ver a facilidade com que a Igreja, na pessoa do papa, anate­matiza, excomunga, despreza, condena as suas irmãs, os seus irmãos "rebel­des", concre­ta­mente, as teólogas, os teólogos da libertação, os padres ope­rários que vivem longe dos templos e dos altares, ao mesmo tempo que aco­lhe, com pompa e circunstância, os as­sas­sinos da actualidade, como por exem­plo Georges W. Bush, com quem ainda ontem, dia 4 de Junho de 2004, trocou presentes e elogios, inclusive, apontou-o como exemplo de governan­te que favorece políticas ao serviço da vida!...

Não sou Jeremias, embora sempre o tenha tido presente na minha vida. Por isso, não me lamento. Não escrevo lamentações. Em vez disso, continuo a cantar a vida, o Espírito Santo que me fez padre/presbítero assim. E rio com vontade. E festejo. E danço. Vivo conti­nu­a­mente de braços abertos para abra­çar até quem se tem por meu inimigo. Acolho quem me rejeita ou despreza. Bendigo quem me amaldiçoa.

Depois destes anos todos, continuo aí como um menino. E canto: Quando for grande vou ser, quero ser como um menino; convidar prá minha mesa quem pelo mundo é deprezado; acabar com a pobreza, quero ser como um menino.

Este livro é, certamente, o que tem mais de mim. Vereis que não tem aze­dume. Não tem ressentimento. Não tem arrogância. É a expressão da liberdade que eu sou e vivo em Igreja e no mun­do, graças ao Espírito de Jesus ressus­ci­tado. Leiam-no e verão. Porque na li­berdade, não há temor. Não há ran­cor. Não há ressentimento. Só há ter­nura e combate contra os sistemas, também o eclsiástico, que nos querem subservientes, domesticados, tutelados, resignados. Leiam-no e deixem-se ex­plo­dir pela força libertadora que nele sopra, como a grande Páscoa do sé­culo XX e do terceiro milénio.


HANS KÜNG

É o Vaticano que pede: Denunciem os padres criativos

O eminente teólogo HANS KÜNG, de Tübingen, reage nos termos que seguem à instrução vaticana sobre Liturgia, a qual chega a pedir aos fiéis que denunciem os padres criativos. Leiam e ajam.

A nova instrução do Vaticano sobre a liturgia Redemptionis Sacramentum espalha um clima de desconfiança nas comunidades e fala mesmo do direito dos fiéis a denunciarem os padres litur­gicamente mais criativos! Toda a opo­sição a esta Instrução!

a. Mostremos que somos cristãs, cristãos adultos! Não deixemos cair em saco roto a abertura litúrgica do Concí­lio! Continuemos a viver experiências es­pirituais; continuemos a criar litur­gias vivas e adultas.

b. Sublinhemos nas nossas comu­ni­dades o facto de que a liturgia não diz respeito apenas aos bispos ou aos padres. Ela diz respeito a todo o corpo místico da Igreja.

c. Continuemos a promover a pre­gação dos leigos, mulheres e homens, ou o diálogo livre entre os participan­tes no decorrer da celebração eucarís­tica.

d. Desenvolvamos as formas litúr­gicas propostas pelos leigos, contanto que sejam aceites pela comunidade.

e. Não fiquemos indiferentes à de­sertificação das missas dominicais. Ela acontece por­que as pessoas não com­pre­endem a linguagem litúrgica oficial e não se sentem atingidas pelas fór­mulas tradicionais.

f. Utilizemos as possibilidades exis­tentes de formação litúrgica para os leigos; se as acções de formação para os agentes pastorais vierem a ser redu­zidas ou suprimidas devido à Instrução romana, organizemos com outras co­mu­nidades acções de formação alter­nativas.

g. Solicitemos às teólogas, aos teólogos, sejam clérigos, sejam leigos, que continuem a assegurar o seu ser­viço às comunidades, por sinal, tão apreciado e utilizado por elas.

h. Convidemos todos os membros das nossas comunidades a dirigir a sua eventual crítica ao conselho da comu­nidade, ao pároco, ou ao grupo litúr­gico, para que estes, por sua vez, aler­tem a instância superior.

i. Animemos os nossos padres para que se não deixem intimidar pelas a­meaças nem pelas denúncias sugeri­das pela Instrução romana.

j. Convidemos o nosso bispo a pro­testar para Roma contra esta Ins­trução e a exigir mais liberdade para as Igrejas locais.

“É um paradoxo que, agora que as igrejas estão cada vez mais às mos­cas, o Vaticano não encontre nada me­lhor para fazer, que incutir normas li­túrgicas ultrapassadas, numa deses­pe­rada tentativa de dificultar o cami­nho de acesso a uma Ceia ecuménica e comuni­tária.”


CÚRIA DO VATICANO ENTREGA LIVRO DO PAPA A EDITORA DE BERLUSCONI

Dá dinheiro? É bom!

Depois do sucesso financeiro que foi a venda dos direitos editoriais do livro "No limiar da esperança", de João Paulo II, à transnacional editorial Mondadori, de Berlusconi, a Cúria do Vaticano volta a repetir a receita de sucesso financeiro e acaba de entregar à mesma transnacional o novo livro do papa, titulado "Levantai-vos, vamos!"

 O livro é já saudado como mais um "best-seller" de vendas. E não ad­mira que o seja. As empresas do actual chefe de Governo italiano estão habi­tuadas a fazer dinheiro, sem olharem aos meios utilizados. O facto escandaliza a parcela da Igreja mais próxima do Evangelho de Jesus, por ver que, afi­nal, o Vaticano não tem quaisquer es­crú­pu­los de natureza ética, à hora de es­co­lher uma Editorial para os livros do seu chefe-mor.

Pelos vistos, na Cúria, já nem cui­dado há em salvar as aparên­cias. O objectivo é vender e fazer dinheiro, mui­to dinheiro, nem que seja com recurso a uma transnacional como a Mondadori, de Berlusconi, que tem tudo de adora­dora do deus "Mamon", de que fala Jesus no Evangelho, e contra o qual diz que a sua incompatibilidade pes­soal e de projecto de vida é total.

Fica assim claro que a pos­tura da Cúria do Vaticano não coincide com a de Jesus. Pois é com este tipo de em­presas e de empresários que os carde­ais da Cúria se sentem a jeito.

O título do novo livro remete-nos para o Getsémani e para a agonia de Jesus, quando os três discípulos, com Pedro à cabeça, dormiram e depois o abandonaram. Hoje, a Cúria romana em lugar de dormir, prefere fazer como Judas e corre a negociar com em­pre­sários ado­radores do deus "Mamon", enquanto Jesus continua aí em agonia na História, no corpo das vítimas.


LIVROS DO TRIMESTRE

A revolução perdida. Memórias 3

(Editorial Trotta / Ernesto Cardenal)

"Muito antes de existir a Frente Sandinista, já eu era sandinista, desde a adolescência". Assim se inicia este terceiro volume de Memórias do maior poeta latinoamericano vivo, Ernesto Cardenal. O presente volume conta em pormenor o "raspanete" público que o actual papa João Paulo II lhe dirigiu, aquando da sua visita à Nicarágua, quando Ernesto, sem deixar o ministério ordenado, aceitou integrar o Governo sandinista, como ministro da Cultura. É um livro com todos os encantos de um romance bem concebido, mas muito mais do que isso. Corram por ele.

O livro transporta-nos para os ambientes da guerrilha contra o ditador Somoza que aterrorizava a Nicarágua, com o aval dos EUA e a bênção da hierarquia católica do país. Cardenal viu-se, desde muito cedo, do outro lado da barricada, juntamente com a juven­tude do seu povo. E a luta foi de vida ou de morte. Duélica. Felizmente, ven­ceu a poesia sobre a ditadura, a ternura sobre a violência, a verdade sobre a men­tira, a liberdade sobre o medo, o amor sobre o cinismo.

Ernesto Cardenal não teve que pe­gar em armas. Mas foi escolhido pelos companheiros para levar a todas as partes do mundo a revolução sandinista na sua marcha vitoriosa. Os apoios que granjeou foram mais do que muitos e, sobretudo, plenamente eficientes. Somo­za (e a sua ditadura) viu-se cada vez mais isolado e acabou por afundar-se frente à dignida­de de um povo em insurreição ar­mada, condu­zida pelo amor, não pelo ódio.

Entre os paí­ses visitados pelo poeta e padre, também se inclui Portugal. O livro não deixa de o registar com a­gra­do.

"Os dias di­fíceis e jubilosos que não voltarão" é um capítulo que ainda hoje nos galvaniza. Aí se dá conta da outra insurreição, já depois da insurreição armada, a insur­reição contra o analfabetismo, com brigadas de estudantes por todos os rincões do país, onde nem sequer fal­taram as oficinas de poesia e de ou­tras artes, com o povo como prota­gonista.

Outro capítulo verdadeiramente es­tonteante vem com o título sugestivo e polémico: "Graças a Deus e à Revo­lução". Terá sido esta frase, colocada em grande destaque no aeroporto, que enfureceu o papa e o tirou do sé­rio, ao ponto de chegar quase a in­sul­tar o povo sandinista, durante a sua visita ao país. Vem tudo aqui.

O Messias antes de Jesus

(Editorial Trotta / Israel Knohl)

"Proponho-me mostrar [neste livro de 126 páginas] que Jesus se considerou a si mesmo o messias, e que acreditou verdadeiramente que este personagem seria rejeitado pelo povo, condenado à morte e que ressuscitaria ao terceiro dia, precisamente porque se pensava que foi isso que aconteceu a um dirigente messiânico que tinha vivido uma geração antes de Jesus."

É daqui que parte este conhecido especialista em Bíblia, consciente de que está a remar contra mais de cem anos de investigação bíblica. A sua tese só é possível, graças à descoberta dos Manuscritos do Mar Morto que vieram pôr em causa muitas verdades que se tinham por definitivas e que não passavam de pura imaginação.

O que é, de certo modo, pertur­bador neste livro é que quase tudo o que os Evan­gelhos nos dizem sobre Jesus Mes­sias já havia sido dito, um século antes, sobre um outro servo sofre­dor. Parece até que os Evange­lhos se limitaram a aplicar a Jesus o que nesses tex­tos se diz do mes­sias como servo sofredor.

Mas para o autor deste livro, imprescindível a todos os títulos, este dado "é o elo perdido que nos faltava para compreender como o cristianismo surgiu do judaísmo. Jesus nasceu aproximadamente nos anos em que morreu esse messias. A personalidade messiânica de Jesus tor­na-se mais clara quando se põe em relação com a vida e a morte desse messias. A reconstrução da história desta figura messiânica assassinada permite-nos pela primeira vez oferecer um contexto histórico para os textos do Novo Testamento relacionados com a concepção messiânica de Jesus."

O autor chega ao pormenor de nos relatar um dia na vida deste messias.

Ética e Moral

(Sal Terrae / Leonardo Boff)

"Que revolução ética e moral importa fazer para curar a maior chaga que envergonha a humanidade (...): os milhões e milhares de milhões de seres humanos que gritam desesperadamente ao céu pedindo um pouco de compaixão e misericórdia em forma de pão, de água potável, de saúde, de casa, de reconhecimento e de inclusão na família humana?"

É daqui que parte o nosso querido teólogo de língua portuguesa, o bra­sileiro L. Boff, em mais um livrinho de bolso de 134 páginas. Podem procurá-lo também na edição original em português do Brasil. É urgente meditar estas páginas. Para mudarmos de comportamentos, antes que seja tarde demais.

"Temos que transformar-nos em pessoas éticas, no sentido que postu­lava Aristóteles, quando, na sua Ética a Nicómano, sentenciava: «Não filoso­famos para saber o que é a virtude, mas para nos tornarmos pessoas virtu­osas». Por isso passamos duma com­pre­ensão teórica do ethos, do ethos que busca, a outras vertebrações prá­ticas do ethos: o ethos que cuida, o ethos que ama, o ethos que se com­padece, o ethos que se responsabiliza e o ethos que se solidariza."

Para L. Boff, "não temos mais alter­nativa que consolidar esse caminho já aberto." É avançar por ele, ou morrer.

Vítimas do pecado

(Editorial Trotta / José M. Castillo)

É mais uma pérola teológica de sã espiritualidade que o eminente e "maldito"   jesuíta ibérico nos oferece neste livro de 220 páginas. A sua leitura não pode ser mais acessível. Felizes as pessoas que se "perderem" nos seus meandros. Só podem regressar mais libertas.

"Antigamente, os jovens que que­riam ajudar os outros entravam num seminário, ou metiam-se num convento, enquanto que agora encaminham-se para um «voluntariado», ou fundam uma ONG. As pessoas não estão mais dispostas a renunciar à sua humani­dade e, sobretudo, à sua felicidade. Ora, tal como estão as coisas, o que é de Deus e o que é da religião relacio­nam-se cada dia menos com a humani­dade e com a felicidade das pessoas. E é claro, enquanto Deus e a religião continuarem a ter esta imagem pública, será difícil que os seres humanos quei­ram crer em Deus e aceitem praticar a religião."

São palavras do autor na introdu­ção. É ainda nela que ele nos avança este esclarecimento: "Jesus de Nazaré foi tão sensível  a tudo o que é hu­ma­no, que, segun­do os relatos evan­gélicos, para ele foi mais importante remediar os sofri­mentos das pes­soas que cumprir com as observân­cias religiosas. Pre­cisamente por isso teve que su­portar os conflitos e a contradição que a sua maneira de falar e de viver provocou diante dos dirigentes religiosos do seu povo e do seu tempo."

São sete os capítulos do livro: 1. Jesus, um judeu que mudou de vida; 2. João Baptista e o pecado; 3. Jesus e o sofrimento; 4. Os perigos do mora­lismo; 5. O pecado ou o sofrimento?; 6. As vítimas do pecado; 7. Outra moral, outra Igreja, outra espiritualidade.

A obra remata com uma conclusão, titulada: "A genialidade do Evangelho". Aí podemos ler por exemplo: "Jesus or­ganizou a sua vida em função das ne­ces­sidades dos mais necessitados des­te mundo. E não em função dos seus próprios deveres, inclusive, quando o que estava em jogo eram os seus pró­prios deveres religiosos. Por isso a reli­gião do seu povo e do seu tempo viu em Jesus uma ameaça e um perigo que não pôde suportar. Essa é a razão por que o mataram."

Eis o livro. Agora é correr por ele.

Lula: o presidente dos pobres

(Campo das Letras / Paolo Manzo. Prefácio de Gilberto Gil)

O livro abre com uma citação. É dela este extracto que sintetiza todo o livro: "O candidato da esquerda, Lula, não pode ser eleito, porque os mercados, o mesmo será dizer, os Estados Unidos, não querem. Respondendo a Soros, Joseph Stiglitz, Prémio Nobel para a Economia e ex-número dois do Banco Mundial, reflectiu acerca do assunto com estas palavras: «Penso que para a política económica do mundo Bush é muito mais perigoso do que qualquer candidato brasileiro. E se eu tiver de escolher entre Bush e Lula escolho Lula»."

O livro tem pouco mais de cem páginas, mas constitui um hino à es­perança dos empobrecidos do mundo. Anuncia um futuro diferente para o planeta. Em que os pobres conduzirão a política, em lugar de permane­cerem eterna­men­te como menores tutelados pelos ricos que, depois ainda por cima, vestem de benfei­to­res.

Foi difícil a Lu­la chegar a Presi­dente do Brasil. Mais difícil será con­cretizar o pro­grama que o cata­pultou a tão alto cargo político. Mas aí reside o cerne da questão. Para que a esperança dos empobrecidos não saia defraudada, é isso que Lula tem que conseguir fazer.

"Estamos certos de que Lula - escreve o autor do livro, memo a con­cluir o seu trabalho - como já mostrou nas suas primeiras opções de governo, percorrerá o caminho da democracia participativa. Um desafio que encontra­rá resistências, mas Lula, velho sin­dicalista, saberá encontrar energias e formas de mediação que não permi­tirão ao Brasil entrar numa fase de duro conflito social. Em suma, Lula, para realizar os seus projectos, preci­sará, além do consenso do seu povo, da ajuda da comunidade internacional, para que isso seja «gratuito» e não con­dicionado."


ÚLTIMA PÁGINA

XXIV Congresso de Teologia

José M. Castillo a abrir

E Jon Sobrino a encerrar

O XXIV Congresso de Teologia de Madrid realiza-se de 9 a 12 de Se­tem­bro de 2004 em Madrid, na sala de actos das Comisiones Obreras. Os dois eminentes teólogos jesuítas de língua espanhola, José M. Castillo e Jon Sobri­no, abrem e encerram, respectivamente os trabalhos. O tema geral em debate, este ano, é "espiritualidade para um mundo novo".

"Situação sócio-religiosa da nossa sociedade" é o tema confiado a José M. Castillo, logo após as palavras de sau­dação do teólogo Juan José Ta­mayo Acosta, secretário geral da Asso­ciação de Teólogas e Teólogos João XXIII, promotora maior do Congresso.

Nos dias seguintes, haverá oportu­ni­dade para escutar outros teólogos. Na sexta-feira, ao final da tarde, a teó­lo­ga beneditina, Maria Lourdes Solé tenta responder a uma pergunta carre­gada de actualidade: "A Mística hoje tem sentido?"

O dia de sábado tem três confe­rências de fundo. O teólogo Raimon Panikkar disserta sobre Movimentos orientais de espiritualidade; Juan Flo­ribert Kabemba, da República do Congo, desenvolve o tema Espirituali­dade, tradições religiosas e cristianismo na África negra; e pelas 17 horas é a vez de Ana Maria Schlûtter nos brindar com a sua conferência sobre Espiri­tualidade para um mundo novo.

A conferência de Jon Sobrino, no domingo, ime­dia­tamente antes da cele­bra­ção euca­rística de encerramento, trata de Es­piritualidade da libertação a partir do seguimento de Jesus na América La­tina.

Se à qualidade dos interve­nientes, se juntar a acção do Espírito, este XXIV Con­gresso só pode ser um êxito.

Partilha com o Barracão de Cultura

Quem desejar partilhar do seu dinheiro para ajudar à construção do Barracão de Cultura pode fazê-lo directamente na Conta da Associação Cultural e Recreativa As Formigas de Macieira em qualquer balcão da Caixa Geral de Depósitos.  Eis o respectivo NIB: 00350309039917930.


Início Livros Publicados Diário Dados Biográficos

e-mail de contacto
© Página criada 8 Julho de 2004