Textos do
Jornal Fraternizar-

Edição nº 153, de Abril/Junho 2004 (Continuação)

Comissão Nacional de Justiça e Paz. Extractos da Reflexão quaresmal 2004

É inaceitável!...

* Vemos com grande preocupa­ção que se tenha instalado entre os nossos concidadãos e concidadãs uma certa apa­tia e um aparente conformismo pe­rante situações de desigualdade e de exclusão social crescentes, no nosso país e no mun­do. Trata-se de realida­des verdadei­ramente clamorosas. É razão bastan­te para não nos confor­mar­mos com o mundo em que vivemos, nem com o estilo de vida que levamos.

* É inaceitável que o progresso eco­nómico que o nosso país alcançou nos últimos 30 anos e as ajudas co­mu­­nitárias entretanto recebidas não se te­nham traduzido numa redução subs­tan­cial da pobreza, designada­mente nas suas expressões mais se­veras, de falta de alimento e de habitação condi­gna, de dificuldades no acesso à edu­ca­ção e à saúde, de insuficiência de re­cursos bastantes para garantir uma vida digna. Cerca de 1/5 dos nossos con­cidadãos conhecem a pobreza.

* É preocupante que o desem­prego tenha aumentado considera­vel­mente nos últimos anos e afecte, hoje, mais de 400 mil pessoas, das quais boa par­te sem quaisquer pers­pectivas realistas de vir a encontrar um novo emprego, a curto ou médio prazo.

* Para as pessoas empregadas, a duração e as exigências do traba­lho intensificaram-se e absorvem hoje uma parcela cada vez maior do tempo pes­so­al, gerando situações estressan­tes e efeitos colaterais sérios na vida familiar, no relacionamento humano e na saúde das próprias pessoas. O re­curso sistemático ao trabalho extra­or­dinário, muitas vezes com desres­peito das normas legais vigentes e dos pre­ceitos internacionais, é uma prática com que a sociedade e os governos não deveriam pactuar, nem sequer por omissão.

* É intolerável que os níveis de re­muneração média dos trabalhadores e o salário mínimo permaneçam conside­ra­vel­mente abaixo dos valores médios que se verificam nos outros países da União Europeia, em contraste com re­mu­nerações escandalosamente altas de gestores e de outros profissionais, como ainda recentemente foi noticiado pela imprensa. Mais grave ainda é o fa­cto de que os níveis de salário mí­nimo e pensão mínima sejam fixados em valores que, reconhecidamente, fi­cam, no caso do primeiro, muito próxi­mo do limiar de pobreza e, no caso da segunda, abaixo desse limiar. Em situação particularmente gravosa ficam as pessoas naquelas condições que têm de fazer face a despesas com saú­de avultadas, em virtude de padecerem de doença crónica, serem portadoras de deficiência ou simplesmente em ra­zão da sua idade, já que as comparti­ci­pações dos fundos públicos vêm sendo progressivamente reduzidas.

* Por outro lado, os padrões de qualidade dos serviços públicos de educação, de saúde e, de modo geral, dos demais bens públicos, longe de revelarem desejáveis me­lho­rias, pare­cem regredir, provocan­do efeitos parti­cularmente negativos para as pessoas de menores rendi­mentos. Merecem par­ti­cular reparo os investimentos pú­bli­cos que têm sido feitos em obras fa­raónicas e pro­jectos de utilidade social duvidosa, beneficiando apenas deter­mi­nados sectores da população.

* O processo de privatização em curso, nomeadamente no que toca a bens públicos básicos, designada­men­te a água, os correios ou os trans­portes urbanos, para não falar da saúde e da educação, poderão configurar cenários de maior desi­gual­dade e cavar o fosso entre ricos e pobres, acabando por mer­cantilizar direitos humanos e sociais básicos.

* E que pensar do que está a ocor­rer com o parque habitacional que au­mentou consideravelmente em número de fogos disponíveis e quali­da­de da construção, mas não está ao alcance de uma parte significativa da popula­ção, que continua, desi­gna­damente nas grandes cidades, em situação de ha­bitação precária, quando não atirada para bairros pe­ri­féricos de habitat degradado?

* Como encaramos estes problemas? Reconhecemos aí a nossa quota parte de responsabi­lidade?


Igreja/Sociedade

Rir é próprio dos humanos

Por Ivone Gebara (teóloga Brasil)

Jornal Fraternizar acolhe com muita alegria nas suas páginas esta oportuna reflexão teológica, enviada pela Rede de cristãos (bolrede@terra.com.br)  Ninguém deixe de ler e saborear. Quem disse que a teologia é actividade de pessoas sisudas? Ou que Deus gosta da cruz e da dor?

É bem cedo ainda e o autocarro para o centro de Recife está repleto de passageiros. Nem todos conseguiram entrar e o autocarro já se prepara para arrancar, acelera uma vez, e mais uma com força ruidosa e nervosa parece começar a mover-se. Finalmente, mais um passageiro consegue entrar aper­tan­do-se e segurando-se nos corpos dos outros. Os que continuam na para­gem são incensados pela fumaça negra de diesel maculando as camisas bran­cas e os corpos recém-saídos do chu­veiro. Apesar dos pesares é preciso con­tinuar firme, à espera do próximo autocarro.

A porta fecha-se com força e esfor­ço. Mas a porta não vê e infelizmente o braço do último passageiro fica fora. Ele grita, outros gritam, muitos gritam: “Pare motorista! Pare motorista!” O auto­carro pára, abre a porta, e felizmente o braço é salvo apesar de algumas man­chas avermelhadas que ficaram como lembrança. Mas a agitação dentro do veículo era grande, como se outro in­cidente estivesse prestes a acontecer. De repente uma voz masculina e jovem se faz ouvir: “Bem feito, companheiro! Por­que não deixou seu braço em ca­sa?! Quem mandou trazer o braço para o autocarro?!” Risada geral, risada con­tagiante! Alguns riem da risada dos ou­tros. Até o acidentado ri. Segue-se en­tão o momento narrativo comum. Muitos passageiros tinham uma história trágica para contar, história parecida com o su­cedido e esta virava imediatamente motivo de riso. As histórias se mistura­vam e ficava um pedaço de uma, um pedaço de outra nos ouvidos dos que conseguiam ouvir. Ninguém mais fala­va do calor, do incómodo da superlo­ta­ção, das sacudidelas causadas pelos buracos das ruas. O humor trágico tor­nou o dia mais bonito, a viagem mais agradável, as caras mais distendidas, embora sem apagar a tragicidade da vida. O humor não faz esquecer, ape­nas abre uma pausa na dor de cada dia. O humor não resolve problemas, ape­nas nos dá condições subjectivas para encará-los com mais serenidade.

Este é o humor ou o riso trágico, ri­so comum que experimentamos no quo­tidiano da nossa existência. É o riso que ajuda a aguentar os sofrimentos e os medos da vida. É a risada que re­la­tiviza as coisas, que ridiculariza os poderosos, os bêbados, os estropiados; risada que nos torna mais simples e até, talvez, mais amáveis aos nossos próprios olhos.

Rir é o melhor remédio, diz o dita­do popular. Rir de si, das outras, dos outros, rir do que construímos, do que pensamos, do que somos e do que pen­samos que somos. Rir nos devolve a medida do que é ser simplesmente humano.

Haveria outros risos, menos trági­cos, menos marcados pela dor que po­dem ser observados na vida dos grupos humanos? Sim e tantos quantos possa­mos imaginar!

Há o riso da beatitude, o riso da gra­tuidade, o riso da conquista da ter­ra, o riso da saciedade, o riso da beleza, o riso do prazer, o riso do amor, o riso da criança e tantos outros para expres­sar esta dimensão própria do ser huma­no. Há o riso interior, o riso exterior, o riso solitário e o riso conjunto. Há o riso, o sorriso e a gargalhada. Há o ri­so forçado, o riso amarelo, o riso iró­nico, o riso debochado, o riso formal, o riso educado, o riso triste...

Haverá um riso religioso? O riso foi pouco desenvolvido na espirituali­da­de cristã. As lágrimas e os lamentos foram sempre mais abundantes. Era pre­ciso chorar sobre nossos pecados e alegrar-nos apenas com o futuro celeste. Era preciso entristecer-nos por nossas inúmeras culpas e esperar con­tritos a magnanimidade divina. O ser humano que chora chama mais aten­ção do que o que ri.

Para o cristianismo as lágrimas são no próprio homem! Deus sempre foi sério. Deus não brinca e portanto não se pode brincar com Deus. Deus dá me­do ou, ao menos, provoca temor. Re­ligião é coisa séria, muito embora algu­mas poucas vezes possa provocar ale­grias. Mas são alegrias ditas espirituais!

Desde o tempo dos Padres da Igreja, o gozo da vida e a sexualidade foram considerados ofensivos à herança cristã. A vida sexual converte-se pouco a pouco em tristeza e contaminação pe­caminosa. Esta marca se estendeu até os dias de hoje, embora o mundo tenha vivido múltiplas revoluções se­xuais. As oposições dualistas continuam a habitar os nossos corpos e as nossas mentes. Continuamos mais ou menos con­vencidos, sobretudo os teólogos, de que o riso e o prazer, apesar de serem próprios do ser humano, podem ser uma armadilha que o levaria à perdi­ção.

No catolicismo raros foram os san­tos apresentados sorrindo, raros foram os santos que tiveram uma vida pra­zerosa considerada positivamente. Ao contrário, a maior parte das hagiogra­fias, assim como na arte sacra, é cheia de dores, sofrimentos e sacrifícios. A arte religiosa é trágica. As expressões dos mártires são pintadas ou esculpidas por meio de formas sérias e sofridas ou, quando muito, absortas em univer­sos interiores que nos faziam pensar nas realidades para além da terra. Só no além o alívio para este “vale de lá­grimas” seria possível. Só no além as lá­grimas seriam absorvidas num estado de beatitude que só os ícones são ca­pa­zes de retratar. Os olhares fixos num além desconhecido, feições estáveis que não denunciam nem dor nem pra­zer.

O Cristo crucificado, o Senhor das dores, o Senhor ensanguentado e morto, o Senhor quase sucumbindo ao peso da cruz são as imagens que po­vo­am o mundo das nossas memórias religiosas e até mesmo da memória pro­testante popular. Maria, a mãe de Jesus chorando ao pé da cruz, Maria do coração trespassado por sete espa­das, Maria, Pietá acolhendo o filho mor­to nos braços...esta se assemelha às tantas Marias sofridas pelo mundo afora.

A religião está crivada de dor e de sofrimento. Estampando a tragicidade do sofrimento humano, parece, como diria Feuerbach, lembrar a necessidade de consolo, de alívio num mundo sem coração.

Rir de prazer não era sinal de san­tidade. Os amantes da vida, os que buscavam vivê-la com alegria eram suspeitos de terem parte com o de­mónio. O demónio sim, era festeiro, gos­tava de dança, gostava de vinho e de sexo.

Assimilamos o sofrimento a Deus e às coisas de Deus. O sofredor apega-se a Deus. Mas, o “gozador” apega-se ao seu próprio gozo ou, como diz a tradição popular, ao próprio demónio. O demónio parece gostar de rir, de festa, de prazer, de cachaça, de dança. É menos sério do que Deus e por isso está sempre metido nas confusões hu­manas. O demónio é mais parecido con­nosco do que Deus. Por isso fomos ca­pazes de desenhar uma imagem feia do diabo, uma mistura de homem e ani­mal. O diabo é nossa imagem. En­tretanto, não fomos capazes de imagi­nar Deus, ou quando o fizemos, o as­similamos a um velho de barbas e ca­belos brancos, acima de todos os seres, um velho sem Eros, sem paixão presi­dindo ao mundo no meio de nuvens brancas que às vezes se confundem com suas barbas. E o cristianismo não disse que somos “imagem e semelhan­ça de Deus”? De que Deus? Foi preci­so, ao longo dos séculos, negar os nossos prazeres e o nosso riso para nos aproximarmos dessa imagem divi­na!...

Embora se diga que rir é próprio do ser humano, somos animais tristes. Fomos expulsas, expulsos do paraíso. E mais do que expulsas, expulsos, amaldiçoadas, amaldiçoados. E mais do que amaldiçoadas, amaldiçoados, condenadas, condenados a viver sob o peso de nossas necessidades.

Fomos de certa forma cortadas, cortados da nossa harmonia primeira e da harmonia connosco mesmas, con­nosco mesmos. Por isso, vivemos erran­tes e dominadas, dominados pela von­ta­de de prazer e pela necessidade de sobreviver. Vivemos na corda bamba, um passo em falso e caímos... Fora do paraíso a fragilidade é nossa condição! Por isso podemos rir, mas um riso breve, sóbrio, limitado. Nosso “próprio” riso foi controlado pela ideologia da serie­da­de e do anti-prazer!

O Deus Ordenador é sério. Sua lei deve ser cumprida e nela não parece haver lugar para o gozo. Deus não ri. Deus cria. Deus ordena. Deus julga. Deus salva, apesar de descansar no sétimo dia! E os seus ministros conhe­cem sua vontade e sabem como impô-la aos seus fiéis. Os seus ministros sabem como controlar o riso e o pra­zer, sabem dosar a medida certa para que as “ovelhas” não saiam do reba­nho.

Expulsos do paraíso pela tentação consentida, pela fraqueza feminina, pela cumplicidade masculina. Esta é nossa condição! Não se pode mais voltar ao paraíso nesta vida, nesta história. A história não é paraíso, em­bora o tenhamos na lembrança, embora o tenhamos como sonho impossível a nutrir nossas mínimas possibilidades de felicidade.

Somos o que fizeram de nós. E do que nos foi entregue podemos mudar apenas formas, tonalidades, mas a ma­téria saudosa de paraíso continua a mesma. E a saudade do paraíso pode levar à vida e à morte, pode levar ao in­dividualismo egoísta e ao sentimento do outro como meu eu e meu próximo. A saudade do paraíso pode levar ao ódio disfarçado de amor ou ao amor disfarçado de ódio. Posso ser Hitler ou Bush e posso ser Gandhi ou uma avó da Praça de Maio.

Paraíso perdido, amor perdido, ob­je­cto perdido de um sem fim! Riso, mis­turado à mistura da vida!

Rir é próprio do ser humano. Há que rir ou tentar rir, ao menos em pen­sa­mento, rir do que somos sem saber porque somos o que somos.

Jogo de palavras? Jogo da vida num tabuleiro de xadrez?

Buscamos no riso formas de salvar nossa dignidade, formas para redefinir nossa identidade humana. É como se diante da violência que nos rodeia, que nos habita e tece, quiséssemos voltar à memória de quem somos: somos aman­tes, ridentes, sedentas, sedentos de justiça e igualdade. Mas, somos tam­bém assassinas, assassinos, injustas, injustos, e mentirosas, mentirosos. E pelo riso queremos resgatar o melhor que existe em nós mesmas, em nós mesmos.

Ao pensar no riso, embora não es­te­jamos rindo, queremos simplesmente vislumbrar a possibilidade de encontrar de novo nossa alma, de encontrar de novo uma razão de ser que nos devol­va um “coração de carne”.

Reaprender a rir com as coisas belas da vida, reaprender o humor pre­sente no quotidiano nos dará talvez forças para seguir viagem. Não resolve o problema da violência no trânsito, da falta de emprego, da jovem estuprada, do braço ferido pela porta do autocar­ro, do filho chorando de fome, das de­ce­pções políticas, mas alivia, ajuda a respirar e a respirar melhor.

Precisamos de nos ajudar a apren­der a rir para ver se algo novo pode nascer do nosso riso. Rir, porque a mesa está farta, rir, porque em breve a criança esperada vai nascer, rir, porque amanhã é dia de colheita, rir, porque Deus ri com a nossa risada.


Até quando vamos ter que suportar as aberrações da hierarquia católica a propósito do celibato dos padres?

Teve que enviuvar para poder voltar a exercer o ministério presbiteral

É viúvo e padre em exercício numa paróquia do Patriarcado de Lisboa. A­pa­receu recentemente num dos canais privados de televisão, no decorrer du­ma reportagem sobre sexualidade hu­ma­na e celibato eclesiástico, na qual também o director do Jornal Fraternizar participou com uma intervenção que o pe. Mário quis que fosse fecundamente crítica e libertadora. Mas todo aquele ar des­graçado com que esse mesmo padre se apresentou perante as câmaras e que parece ser o mesmo com que habitualmente se apre­senta no altar do templo paroquial onde preside à missa, transformou-o numa espécie de símbolo vivo da cruel­dade com que a nossa Igreja católica continua a tratar os seus mais devotados servidores, nomeadamente, no que respeita à vivência da sua própria se­xualidade. Acompanhem-nos por momentos na reflexão teológico-pastoral que, a este propósito, aqui partilhamos singelamente com vocês. E, se quise­rem, enviem depois comentários e ache­gas sobre esta temática para as páginas do nosso Jornal.

O padre em questão pensa-se protagonista duma experiência muito singular e, por isso, até se dispôs a contá-la ao grande público. Ainda não se terá dado conta da indignidade com que foi e está a ser tratado pela respe­ctiva hierarquia católica.

Eis: Quando estava na força da vida de jovem padre, apaixonou-se inopina­da­mente por uma mulher. E só des­cansou quando casou com ela. Mas teve que abandonar de imediato o exercício do ministério presbiteral. Assim o determina a disciplina canó­nica que a hierarquia da Igreja católica romana faz questão de continuar a manter em vigor, contra ventos e ma­rés, como se tivesse sido ditada dire­cta­mente pelo próprio Deus. No enten­der da hierarquia católica romana, o Matrimónio é um dos sete sacramentos da Igreja, mas apenas para leigos e leigas que o desejem. Os homens ba­pti­zados que aceitarem ser ordenados presbíteros têm que jurar previamente que não casarão nunca. E se, poste­rior­mente, derem o dito por não dito, têm que renunciar de imediato ao exer­cício do ministério presbiteral, para o qual haviam sido ordenados e, ao mesmo tempo, sujeitar-se a viver na Igreja um estatuto de quase rene­ga­dos e de tolerados, privados de ele­mentares direitos eclesiais que hoje já são reconhecidos à generalidade dos chamados fiéis leigos.

Assim sucedeu também com este padre de Lisboa. Os anos passaram. Mas a sua mágoa por ter deixado o exercício do ministério não passou. Por isso, quando recentemente se viu na condição de viúvo, em resultado do natural falecimento da mulher, vol­tou a sonhar com a possibilidade de re­gressar ao altar.

Fez saber a quem de direito a sua inabalável disposição de nunca mais voltar a casar. Ao mesmo tempo que dava a conhecer o sonho que ainda aca­lentava de poder regressar ao exercício do ministério.

O Patriarcado de Lisboa aflito que está, como aliás todas as demais dio­ceses do país, com a actual falta de padres, abriu-lhe de novo as portas e atribuiu-lhe uma paróquia. Desde en­tão, ele aí está outra vez como padre em exercício de funções. Mas já sem a energia e o entusiasmo de antes de casar. Bem pelo contrário. Apresenta-se agora com um preocupante ar des­gra­çado que, mesmo sem o próprio querer, faz dele uma acusação viva contra esta nossa Igreja católica roma­na que continua a ser refinadamente cruel na forma como trata os seus mem­bros, inclusive, os seus mais devotados servidores.

O Jornal Fraternizar não conhece o padre em causa. Mas conhece de sobejo o drama de tantos outros padres que tiveram percursos idênticos ao seu, pelo menos, no que toca à primeira parte. E não pode calar-se. Nem deixar de mostrar toda a sua indignação pe­rante esta disciplina eclesiástica que, desde há séculos, continua a ser imposta aos padres. Contra os seus mais elementares direitos de seres hu­manos. Contra o próprio Evangelho de Jesus. E até contra a prática eclesial das comunidades cristãs do princípio, explicitamente testemunhada em algu­mas cartas incluídas no Segundo Testa­mento da Bíblia.

Dizemo-lo aqui sem rodeios: a dis­ci­pli­na do celibato dos padres não é de instituição divina. De instituição divina é o inalienável direito a optar em consciência, inerente a todo o ser humano. Sem que nenhum poder, mui­to menos a hierarquia eclesiástica, se possa intrometer.

A actual disciplina eclesiástica do celibato dos padres resulta da pura arbitrariedade da hierarquia católica que faz questão de não abrir mão do poder de que dispõe na Igreja, nem dos privilégios que esse poder lhe ga­rante, e cuja manutenção só será pos­sível enquanto essa disciplina conti­nuar estupidamente em vigor.

Na verdade, sem esta cruel disci­plina do celibato obrigatório, os padres nunca mais serão os funcionários dó­ceis e reverentes que sempre foram e que, infelizmente, continuam ainda hoje a ser, na maior parte dos casos.

Só mesmo adolescentes e jovens que durante anos e anos de internato foram educados para verem na renún­cia à própria sexualidade e ao amor erótico o cume da perfeição e da san­tidade – a reportagem televisiva a que aqui nos refirimos mostra, através do depoimento prestado por certos candi­datos a padre, que as coisas continuam a fazer-se tal e qual como há trinta ou cinquenta anos – é que serão depois capazes, uma vez ordenados padres, de ver na dócil obediência e na servil reverência ao bispo monárquico uma su­blimada forma de realização humana.

Aliás, o próprio conceito de sacri­ficialismo, como valor em si mesmo, em que posturas desta natureza se inte­gram, só consegue fazer caminho em ambientes autoritários e no interior de instituições religiosas idolátricas e fun­damentalistas que se alimentam de ví­timas humanas auto-imoladas em sua honra. E tal tem sido a nossa Igreja ca­tólica romana, particularmente, ao nível da sua hierarquia e das suas cúrias, a começar pela mais cruel de todas, a cúria romana.

O celibato pelo Reino de Deus, de que nos fala Jesus no Evangelho de Ma­teus (19, 12) é outra coisa muito dis­tinta. Para começar, não pode ser im­posto a ninguém. Sempre há-de resultar duma opção livre de quem o vive. É uma vivência incomum, do âmbito do carisma, não uma prática generalizada, do âmbito do institucional, exigida e im­posta a todos os padres, indiferencia­damente. Como tal, há-de aparecer co­mo uma opção pessoal contra o com­por­ta­mento corrente. E sempre de modo surpreendente e inesperado.

Trata-se, por isso, duma modalida­de de celibato livre que não gera, como o celibato imposto, homens castrados, obedientes e reverentes ao poder ecle­siástico e à minoria privilegiada que o detém, mas homens saudavelmente dis­­si­dentes, rebeldes e indomáveis. Nun­ca é vivido como privação dos afe­ctos, como renúncia e sacrifício, mas como plena realização pessoal, bem na linha do célebre poema bíblico, Cântico dos Cânticos, e também como entrega gratuita à Humanidade mais sofrida e humilhada e a todas as suas causas. Não ajuda a reforçar a hierarquia, nem a instituição eclesiástica que a alimen­ta, mas denuncia uma e outra com lu­cidez e audácia, nomeadamente, quan­do elas se comportam como se fossem donas absolutas das pessoas. A aposta maior de quem assume e vive livremen­te o celibato pelo Reino de Deus vai inteira para a edificação da Humani­dade definitivamente constituída na fraternidade/sororidade universal, nun­ca para o reforço de nenhum poder, muito menos, do poder sagrado e ecle­­siástico.

Mas este caso do padre de Lisboa, que foi obrigado pela hierarquia cató­lica a abandonar o exercício do mi­nis­tério presbiteral, por se ter casado; e agora que ficou viúvo se viu de novo autorizado por ela a exercer o minis­té­rio revela uma outra realidade ainda mais escabrosa que a anterior, e para a qual queremos aqui também chamar a atenção das pessoas, especialmen­te, das mulheres católicas e não cató­licas.

O caso diz bem qual é, afinal, o grande problema para a hierarquia ca­­tólica: Não é tanto a sexualidade dos homens padres, mas sobretudo as mu­lheres de carne e osso, sexualmente activas. À luz deste caso, é a intimidade sexual com as mulheres, nomeada­mente, a intimidade institucionalizada no matrimónio, que torna os padres im­puros e indignos para poderem con­tinuar a presidir ao altar. Tanto assim que, enquanto essa intimidade matri­mo­nial se mantiver, os padres que a partilharem não poderão continuar a subir ao altar nem poderão presidir aos ritos litúrgicos. Não serão dignos de tocar no cálice e nos demais obje­ctos de culto.

É inacreditável, mas, pelos vistos, é assim que as coisas ainda se pen­sam e se passam ao nível das cúpulas da nossa Igreja católica romana, ape­sar de já estarmos a viver no século XXI.

Esta visão das coisas e estes com­portamentos que constituem uma ver­gonha de todo o tamanho deveriam fazer-nos corar até à raiz dos cabelos. Mas não fazem. E aqui está a compro­vá-lo este caso do Patriarcado de Lisboa: depois de tudo o que lhe fize­ram, este padre, em lugar de se sentir humilhado e ofendido, ainda se acha protagonista duma prática digna de ser dada a conhecer ao grande pú­blico!

À luz deste caso, o Jornal Frater­nizar faz também questão de sublinhar que experimenta grande dificuldade em compreender como é que ainda pode haver mulheres que continuam a ser capazes de frequentar locais ecle­si­ás­ticos presididos exclusivamen­te por ho­mens, aos quais, para cúmulo, a hierar­quia católica proíbe, sob pena de com­pulsivo afastamento das funções, que institucionalizem, sob a forma do sacra­mento do matrimónio, uma relação afe­ctiva com uma mulher, se essa rela­ção acontecer e for da vontade de am­bas as partes fazê-lo.

Como é que uma assembleia li­túrgica, sujeita a tão cruel disciplina ecle­siástica, pode dizer que está reu­nida em nome de Jesus, o Libertador, e que conta com a inspiração e a as­sistência do Espírito Santo?

Finalmente, importa ainda referir, a propósito, mais um dado importante: a fobia ou o medo às mulheres de car­ne e osso, por parte da hierarquia cató­lica, foi ao extremo de a levar a trans­formar a própria mãe carnal de Jesus, a judia Maria de Nazaré, numa mítica mulher sem sexo, ou, pelo menos, se­xualmente não activa.

Tanto assim que, embora a hierar­quia católica admita na sua doutrina oficial que Maria casou com um homem de carne e osso, garante, depois, a pés juntos que, durante os anos que ela partilhou a mesma casa com o esposo, nem uma única vez partilhou com ele um momento de intimidade sexual, nem mesmo para ambos poderem conceber e gerar o filho ou filhos que lhes nasce­ram! Como se aquela palavra evangé­lica que revela/proclama que Maria con­cebeu Jesus por obra do Espírito Santo houvesse de ser interpretada em senti­do sexual e ginecológico e não exclusi­va­mente em sentido teológico!

Posturas destas são mesmo de bra­dar aos céus. Por isso, perguntamos, a terminar: Durante mais quantos sécu­los vamos ter que suportar aberrações eclesiásticas deste calibre?


As estórias com que se fez a celebração mensal da pequena Comunidade cristã de base de Macieira da Lixa

Foi grande a agitação interior ao nível das consciências

Foram múltiplas as estórias ditas no primeiro encontro do ano 2004 da pequena Comunidade de cristãos de base de Macieira da Lixa. Em lugar de dizermos os habituais textos bíblicos, desta vez atrevemo-nos a inovar e abrimos o livro O canto do pássaro, de Tony de Mello, inserido nos dois grossos volumes da sua Obra Completa, acabada de editar, em boa hora, pela Editorial Sal Terrae, de Espanha, e dissemos, como quem declama, algumas das suas mais sugestivas estórias. A mensagem contida nessas estórias é altamente desafiadora e desinstaladora das rotinas em que o Sistema dominante nos quer ver acomodados. Cada estória dita foi imediatamente seguida de diálogo maiêutico, também ele provocador. Ninguém conseguiu ficar indiferente. Foi grande a agitação interior, ao nível das consciências, para não dizer até incomodidade, pelo menos, da parte de alguns dos presentes. Não faltou igualmente quem, perante a força da verdade que se esconde em cada uma destas estórias, optasse por assobiar para o ar, para não ter de se deixar interpelar até à raiz do coração. Mas quantas e quantos estivemos no encontro jamais poderemos deixar de nos vermos à luz que as estórias ditas fizeram acontecer no mais íntimo das nossas consciências. A seu tempo, essa luz há-de levar-nos a novas práticas pessoais e políticas, em salutar dissidência com as práticas que o Sistema dominante pretende impor-nos a todas e a todos. Nunca, como então, seremos tão verdadeiramente humanos e felizes. Até lá, poderemos continuar a assobiar para o ar, mas não passamos de escravos do Sistema. E perdemos o melhor das nossas vidas! São essas estórias ditas por Tony de Mello que o Jornal Fraternizar tem a alegria de aqui partilhar com as suas leitoras e os seus leitores. Não percam uma. E tentem repetir a experiência. Depois duma primeira leitura a solo, experimentem dizer cada uma destas estórias na presença de outras pessoas. E façam também o diálogo maiêutico após cada estória dita e escutada. Verão quanto é intenso o desafio que elas nos fazem. Quem sabe se não nasceremos de novo, do alto, daquele mesmo Espírito que soprou forte em Jesus de Nazaré e fez dele o ser humano por antonomásia. Eis.

Primeira estória:

Uma vez, um profeta chegou a uma cidade decidido a converter os seus habitantes. No início, eram muitas as pessoas que saíam a escutá-lo. Mas, pouco a pouco, foram deixando de aparecer, até que o profeta deixou de ter quem escutasse as suas palavras.

Certo dia, alguém que passou pela cidade disse ao profeta: Por que con­tinuas a pregar? Não vês que a tua mis­são é impossível e que ninguém está disposto a ouvir as tuas palavras?

O profeta respondeu: No início, eu tinha a esperança de fazer as pessoas mudar de vida. Mas agora, se continuo a pregar, é unicamente para que as pessoas não me façam mudar de vida a mim.

Segunda estória:

O filósofo Diógenes estava pobre­mente a comer lentilhas ao jantar, quan­do o viu o filósofo Aristipo, que vivia confortavelmente, graças ao jeito que tinha para adular o monarca. Dis­se-lhe Aristipo: Se tu, Diógenes, apren­desses a ser submisso ao monarca, não terias que passar a vida a comer essa porcaria de lentilhas.

Ao que Diógenes replicou: E se tu, Aristibo, tivesses aprendido a comer lentilhas, não terias que passar a vida a adular o monarca.

Terceira estória:

Quando Kruschev pronunciou a sua famosa denúncia da era estaliniana, contam que um dos presentes no Co­mité Central perguntou: Onde estavas tu, camarada Kruschev, quando foram assassinadas todas essas pessoas ino­centes?

Kruschev parou, olhou em redor todo o auditório e disse: Agradecia que quem me fez esta pergunta tivesse a bondade de se pôr de pé.

A tensão na sala era de cortar à faca. Mas ninguém se levantou.

Então disse Kruschev: Muito bem, já tens aí a resposta, quem quer que tenhas sido o que me fez a pergunta. Eu estava exactamente no mesmo lugar em que tu estás agora!

Quarta estória:

Eu nem queria acreditar no que viam os meus olhos, quando deparei com o nome da loja: A LOJA DA VERDADE. Então, ali vendiam verdade...

A correctíssima funcionária pergun­tou-me que espécie de verdade eu de­sejava comprar: verdade parcial, ou verdade plena.

Respondi que desejava verdade plena. Não desejava fraudes, nem lou­vaminhas, nem racionalizações. O que eu desejava era a verdade nua e crua, clara e absoluta.

A funcionária conduziu-me então a outra secção da loja, onde se vendia a verdade plena.

O vendedor que trabalhava naquela secção olhou-me compassivamente e indicou-me a etiqueta que ostentava o preço e disse: o preço é muito elevado.

Decidido a comprar a verdade plena a qualquer preço, perguntei: Qual é? Ele respondeu: se o senhor levar a ver­dade plena, o preço consiste em nunca mais ter sossego pelo resto da sua vida.

Quinta estória:

Em certa ocasião, Deus mandou prevenir toda gente acerca de um terremoto que haveria de engolir as águas de toda a terra. E advertiu que as águas que substituíssem as desapa­recidas haveriam de enlouquecer as pessoas que delas bebessem.

Apenas o profeta tomou Deus a sério. Transportou até ao poço da mon­ta­nha onde vivia enormes recipientes de água, de modo que esta não lhe faltasse pelo resto da sua vida.

Aconteceu o terremoto, as águas desapareceram, e uma nova água pas­sou a correr pelas fontes, rios e lagos.

Alguns meses mais tarde, o profeta desceu da sua montanha para ver o que se tinha passado. Era verdade: toda a gente se tinha tornado louca e atacava-o e não queria nada com ele, na convicção de que ele era o único louco no mundo.

O profeta regressou à montanha, satisfeito por ter tido a precaução de guardar grande quantidade da antiga água. Porém, à medida que o tempo passava, a solidão tornou-se-lhe insu­portável. Desejava ter companhia hu­mana. Não resistiu e desceu de novo à planície. Mas ao ver-se de novo re­jeitado pelas pessoas, tomou uma de­cisão fatal: deitou fora toda a água que havia guardado, bebeu da nova água e juntou-se aos seus semelhantes na sua loucura.

Sexta estória:

Numa aldeia de pescadores, uma jovem teve um filho de solteira e, de­pois de muito apertada pela família, decidiu-se a revelar quem era o pai da criança: o mestre Zen, que passava o dia a meditar no seu rincão situado fora da aldeia.

Os pais da jovem e um numeroso grupo de vizinhos dirigiram-se ao rin­cão do mestre Zen, interromperam brus­ca­mente a sua meditação, censu­raram a sua hipocrisia e disseram-lhe que ele, já que era o pai da criança, tinha que providenciar pela sua ali­mentação e pela sua educação.

O mestre Zen respondeu unica­men­te: Muito bem, muito bem...

Quando se afastaram, deixando a criança no chão, o mestre Zen reco­lheu-a e fez um contrato com uma mu­lher da aldeia para que ela se encar­regasse dela, a vestisse e alimentasse, que ele lhe pagaria. Mas a sua repu­tação de mestre espiritual ficou de rastos. Ninguém mais se aproximava dele para ouvir os seus ensinamentos.

Um ano depois, a jovem que tinha tido o filho não pôde aguentar mais a situação e acabou por confessar que tinha mentido: o pai do seu filho não era o mestre Zen, mas um jovem que vivia na casa ao lado da casa dela.

Os pais da jovem e todos os habi­tantes da aldeia ficaram cobertos de vergonha. Voltaram junto do mestre Zen para lhe pedir perdão e para que lhes entregasse de volta a criança. O mestre assim fez. E a única coisa que disse foi: Muito bem, muito bem...

Sétima estória:

Uma boneca de sal percorreu mi­lhares de quilómetros de terra firme, até que finalmente chegou junto do mar. Ficou fascinada por aquela massa enor­me de água em movimento, total­mente diferente de tudo o que ela tinha visto antes.

– Quem és tu?, perguntou ao mar a boneca de sal.

O mar, com um sorriso respondeu: Entra e descobre por ti própria quem eu sou.

A boneca meteu-se no mar. Mas à medida que avançava por dentro do mar, ia-se dissolvendo, até que dela nada mais restou. Mas antes de se dis­solver por completo, a boneca ainda pôde exclamar assombrada: Agora já sei quem sou!

Oitava estória:

O enamorado apaixonado bateu à porta da sua amada.

– Quem é?, perguntou, do lado de dentro, a amada.

– Sou eu, disse o amante.

– Então vai-te embora, que nesta casa não cabemos tu e eu.

O rejeitado enamorado foi para o deserto, onde esteve a meditar durante meses aquelas palavras da sua amada. Finalmente, regressou e voltou a cha­mar à porta da sua amada.

– Quem é?

– Sou tu!

E a porta abriu-se imediatamente.

Nona estória:

O mestre espiritual chegou às fron­teiras da aldeia e acampou sob uma árvore para aí passar a noite. De ime­diato, aproximou-se dele a correr um habitante da aldeia e disse-lhe: A pe­dra! A pedra! Dá-me a pedra preciosa!

– Que pedra?, perguntou o mestre.

– A noite passada apareceu-me em sonhos o Senhor Shiva e garantiu-me que se eu viesse ao anoitecer às fron­teiras da aldeia, encontraria um mestre que me daria uma pedra preciosa que me faria rico para sempre.

O mestre procurou na sua bolsa e tirou de lá uma pedra.

– Provavelmente, referia-se a esta, disse, enquanto entregava a pedra ao aldeão. Encontrei-a num carreiro do bosque há uns dias. Podes ficar com ela.

O aldeão ficou a olhar a pedra com assombro. Era um diamante. Talvez o maior diamante do mundo, pois era tão grande como a mão de um homem. Guardou-o e foi-se embora. Toda a noite não conseguiu pregar olho, sempre às voltas na cama.

No dia seguinte, ao amanhecer, foi acordar o mestre e disse-lhe: Dá-me a riqueza espiritual que te permite desprender-te com tanta facilidade até dum diamante como este!

Décima estória:

O meu amigo e eu fomos à feira. Era a Feira Mundial das Religiões. Não era uma feira comercial. Era a feira das religiões. A concorrência era feroz e a publicidade era em tudo igual à duma qualquer feira comercial.

No stand judeu, deram-nos uns fo­lhetos que diziam que Deus tinha mi­sericórdia de todas as pessoas, mas que só os judeus eram o seu povo elei­to. Nenhum outro povo era tão eleito quanto o povo judeu.

No stand muçulmano, soubemos que Deus era misericordioso com todos e que Maomé era o seu único profeta. Mas que a salvação só se alcança, es­cutando o único profeta de Deus.

No stand cristão, descobrimos que Deus é Amor, mas que não há salva­ção fora da Igreja. Ou se pertence à Igreja, ou se corre sério risco de con­de­nação eterna.

Ao sair da feira perguntei ao meu amigo: O que pensas de Deus? E ele respondeu-me: Que é intolerante, fa­ná­tico e cruel.

Quando cheguei a casa, perguntei a Deus: Como suportas estas coisas, Senhor? Não vês que estão a usar mal o teu nome, há séculos e séculos?

Deus respondeu-me: Repara que não fui eu que organizei a feira. E sentiria muita vergonha se a tivesse visitado!


11 de Março: o segundo momento do Apocalipse do século XXI

Nem todas as pessoas sabem - e as Igrejas também não - que o Apocalipse com que termina a nossa Bíblia cristã não encerrou a Revelação de Deus. Abriu-a em definitivo. Com ele e com o Espírito Santo, as Igrejas estão habilitadas a ler para toda a Humanidade a História, nomeadamente, as prepotências, as mentiras, os crimes em massa que o Império de turno e os seus Estados vassalos cometem. Quase sempre impunemente. Porque Deus, o de Jesus, nunca esteve nem estará com os Impérios, por mais que eles invoquem como quem blasfema o seu nome. A reflexão que se segue é a reprodução integral do texto que o director do Jornal Fraternizar escreveu dia 11 de Março 2004, no seu "Diário Aberto" (www.padremariodemacieira.com.sapo.pt)

O dia de hoje, 11 de Março de 2004, fica gravado a sangue na Cons­ciência da Humanidade. Mas com o seu sulco mais profundo na Consciên­cia da Europa. Tal como já aconteceu com um outro dia 11, mas de Setembro de 2001. O massacre que acaba de fa­zer da capital de Espanha uma Guer­nica de Picasso ao vivo, com cento e noventa e oito [200] mortos e cerca de mil e quinhentos feridos, muitos deles muito graves, é o segundo momento de um Apocalipse, ou Revelação - o pri­meiro momento deste Apocalipse ou Revelação foi o massacre de 11 de Se­tembro de 2001 nas torres gémeas em Nova Iorque - que o mundo, em espe­cial, o Ocidente fará bem em abrir, es­cutar e interpretar correctamente, em lugar de correr a meter a cabeça na areia dos protestos de multidões hu­ma­nas nas ruas sem propostas inova­do­ras nas áreas da economia e da po­lítica mundiais que cimentem um próxi­mo futuro outro para a Humanidade, em que nunca mais nenhum povo, ne­nhu­ma cultura, nenhuma minoria, ne­nhuma nação, nenhum país, nenhuma região fiquem de fora da mesa univer­sal dos bens produzidos. E não só a mesa onde diariamente hão-de ser servidos o Pão e o Vinho que satisfaçam todas as nossas fomes corporais, mas também o Pão e o Vinho que satisfaçam todas as nossas fomes de Liberdade, de Cultura, de Desenvolvimento, de Ter­nura, de Espiritualidade, de Afectos, de Originalidade de cada pessoa e de cada povo.

Infelizmente, as primeiras reacções oficiais do primeiro ministro do governo espanhol não foram neste sentido. Apre­sentou-se perante o país e o mundo - ele sabia que nessa hora de tanto so­frimento humano e de tantas mortes de seres humanos no seu país, o mundo es­tava todo de olhos postos nele e de ouvidos atentos às suas palavras - ves­tido de luto, sozinho perante as câma­ras de televisão, como animal político ferido no seu orgulho, a jurar a pés jun­tos que os autores dos atentados serão descobertos, que serão esmaga­dos e que o “terrorismo” será banido da face da terra. Por outras palavras, fez uma declaração de guerra, em tudo semelhante à que fez o politicamente demente presidente George W. Bush, por ocasião do 11 de Setembro de 2001, e cujas consequências estão aí bem à vista, concretamente, em mais este atentado, assim como em outros que, infelizmente, se lhe seguirão, se o Ocidente não arrepiar caminho na sua arrogância económica, política, militar e cultural.

Ouvir José Maria Aznar hoje, foi como ouvir dizer: os bons somos nós, os civilizados somos nós, os santos so­mos nós, os puros somos nós, os hones­tos somos nós. Ele comportou-se como quem diz: quem não for como nós, quem não estiver connosco, nem com a nossa maneira de organizar e dinami­zar a economia do mundo, nem com a nossa maneira de fazer política, nem com a nossa maneira de pensar e orga­nizar a segurança é traidor, é terrorista, é inimigo, é monstro, é a própria encar­na­ção do Mal e, como tal, tem que ser ba­nido sem dó nem piedade do nosso planeta, pois não pertence à nossa raça humana, nem é portador da nossa con­di­ção humana!

Os madrilenos, por sua vez, pelo menos a esmagadora maioria que hoje saiu espontaneamente (?) para as ruas e amanhã irá sair ainda muito mais - es­pontaneamente? Mas então as tele­vi­sões e as rádios não têm muita força mobilizadora? E estão nas mãos de quem? Não é nas mãos de poderosas minorias, cujos interesses egoístas são protegidos pela política do actual Go­ver­no? - afinaram pelo mesmo diapa­são, reproduziram praticamente a mes­ma cassete. Ao mesmo tempo que ex­pressavam a sua dor e a sua revolta, porventura, também o seu ódio, em múl­tiplos monumentos ou altares improvi­sa­dos de flores e de velas acesas, em memória das vítimas do brutal atenta­do. Também aqui, nenhuma inovação, por parte da sociedade civil espanhola nas suas reacções públicas a este tipo de acções políticas violentas, sob a for­ma de atentado, desta vez, um atentado de grandes proporções e de medonhas consequências humanas e sociais.

Compreendo que a dor e a morte de pessoas em acções políticas violen­tas, como o atentado de hoje em Espa­nha, deixem as, os que sobrevivemos a elas num estado de choque tal, e de raiva, e de esmagamento interior, que, no imediato, nem somos sequer capa­zes de reflectir e de analisar o sucedi­do. Talvez, por isso, o silêncio e a imo­bilidade física ainda sejam a maneira mais humana de começar por reagir em momentos assim. Quase como quem ganha tempo para encontrar a linha de rumo humana que nos ajude a sin­to­nizar com o essencial, geralmente, invisível aos olhos e aos primeiros im­pul­sos que rebentam dentro de nós, mais instintivamente emotivos que refle­ctidamente emotivos. Ora, só o que é reflectidamente emotivo é que é profun­da­mente humano e pode contribuir para abrir caminhos ainda não anda­dos, mas que terão que ser abertos e percorridos pela Humanidade, se qui­ser­mos tornar-nos progressivamen­te menos lobos uns para os outros e mais humanos uns com os outros.

Dói-me a alma, quando me vejo pe­rante acções políticas violentas, como o atentado de hoje em Madrid. Por mim, nunca as conceberia, muito menos, as realizaria. Prefiro morrer a matar seja quem for. Mesmo numa hipotética situa­ção de legítima defesa, prefiro morrer a matar, se de todo em todo não conse­guir desarmar o atacante pela via do diálogo, da concertação e da ternura. Tenho para mim que a violência que des­trói vidas humanas não é, nunca será, via de fecundidade. Faz correr sangue e quase sempre de pessoas que todos os dias já são vítimas da violência institucionalizada. Desenca­deia reacções de mais violência, numa verdadeira espiral irracional que, a par­tir de determinado ponto, será de todo impossível fazer parar. A violência é a linguagem da selva, das feras, dos po­de­ro­sos, dos agressores. Mas não po­de­mos esquecer que vivemos perma­nen­te­mente num estado de violência. A violência institucionalizada. Somos súbditos no país e no mundo, mais do que cidadãos do país e do mundo. Com a ingénua ilusão de que somos ci­dadãs, cidadãos. Para cúmulo, ainda querem a toda a força converter-nos em vassalos. Querem que passemos de súbditos a vassalos, isto é, que nos tor­ne­mos súbditos conformados com essa condição, ao ponto de aceitarmos passar a vida a prestar vassalagem a quem nos mantém sob tutela.

Ora, contra esta violência institucio­na­lizada, praticamente ninguém pro­tes­ta. E quando protesta é apenas con­tra certos exageros pontuais dessa vio­lência institucionalizada. A esta luz, ne­nhuma de nós, nenhum de nós pode re­clamar inocência. A cumplicidade com a violência institucionalizada faz-nos alvos privilegiados dos que perdem os escrúpulos da intervenção política feita de acções violentas, inclusive, sob a forma de atentados, como o de hoje. Quando os atentados são de conse­quências pouco significativas, em nú­mero de mortos e de destruição de pa­trimónio, a nossa reacção é também pouco significativa. Só perante acções políticas violentas como o atentado de hoje em Espanha, é que nos erguemos como um todo. Para protestar e conde­nar quem está por trás dessas acções políticas violentas. Nesta hora, dificil­mente aparecem pessoas a protestar e a condenar toda a violência. Também e antes de mais, a violência institucio­na­lizada das minorias poderosas e ar­rogantes nos seus privilégios, geradora da outra. Nesta altura, os protestos e as condenações vão todos para os au­tores dos atentados, geralmente, ac­ções violentas contra a violência institu­cio­nalizada. As populações nem se­quer se apercebem que só protestam e condenam um tipo de violência, a dos que fazem acções violentas contra a vio­lência institucionalizada. A violência institucionalizada, nestes momentos, é como se não existisse. Ou como se fosse coisa boa, positiva, indispensável à vida de todas, todos nós. Mas o mais chocante, nestes momentos, ainda é ver as pessoas a correrem para o lado das minorias poderosas que alimentam a violência institucionalizada, a fim de se manifestarem nas ruas lado a lado com elas contra os autores das acções políticas violentas, sob a forma de aten­tado. Como se só estes fossem violen­tos. E como se só essa forma de violên­cia fosse de reprovar e de condenar.

“Eu vim lançar fogo sobre a terra; e como gostaria que ele já se tivesse ateado! Tenho que receber um baptis­mo, e que angústias as minhas até que ele se realize! Julgais que vim estabe­lecer a paz na Terra? Não, eu vo-lo digo, mas a divisão. Porque daqui por diante, estarão cinco divididos numa só casa; três contra dois e dois contra três; vão dividir-se: o pai contra o filho, e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra.” (Lucas 12, 49-53)

Estas são palavras postas na boca de Jesus, o paradigma do homem-paz. A paz em pessoa, no escrever do após­tolo Paulo. O paradigma do homem-não-violento. Nascido sob o domínio do Templo de Jerusalém e da Ordem mun­dial que o Império romano impunha atra­vés das poderosas legiões do seu exército, Jesus nem por isso se resi­gnou à condição de súbdito do Império, nem sequer à condição de súbdito do Templo de Jerusalém. Muito menos, pas­sou de súbdito a vassalo. Rebelou-se contra esta violência institucio­na­lizada. Não com outra violência arma­da. Mas com a violência do Espírito Santo, que é a violência da Vida-com-dignidade, da Vida-com-direitos-reco­nhecidos, da Vida-com-liberdade, da Vida-com-igualdade-de-oportunidades, da Vida-com-desenvolvimento, da Vida-com-protagonismo-pessoal-e-colectivo, numa palavra, da Vida-com-paz-fruto-da-justiça.

Nem os representantes oficiais do Templo, nem do Império se mostraram dispostos a mudar os seus sistemas eco­nómicos e as suas políticas, garan­tia dos privilégios que usufruíam des­bra­gadamente, num insulto às multi­dões de oprimidos e empobrecidos, como o mesmo Evangelho de Lucas tão plasticamente descreve na sua actua­líssima parábola do Rico e do Pobre Lázaro. Aquele, como o Ocidente hoje, “vestia de púrpura e linho fino e todos os dia fazia esplêndidos banquetes”. Este, como o Terceiro mundo hoje, “ja­zia ao seu portão, coberto de chagas, bem desejava saciar-se com as miga­lhas que caíam da mesa do rico, mas eram os cães que vinham lamber-lhe as chagas” (cf. Lucas 16, 19-31). Por outras palavras, fizeram orelhas mou­cas às suas palavras e às suas acções, algumas delas quase a roçar a violên­cia física, como no caso do Templo de Jerusalém, onde ele andou de chicote em punho, derrubou as bancas do ne­gó­cio e expulsou quem lá vendia e com­prava, numa operação política sim­bó­lica que viria a custar-lhe a vida. Mas na sua hora final, que foi também a hora da verdade da sua vida, Jesus es­colheu, para escândalo dos “Doze” que andavam com ele, deixar-se matar, em lugar de se antecipar e matar ele os seus opositores armados, responsá­veis pela violência institucionalizada que o atingia a ele e a todo o seu povo. Revelou assim que só essa via, a da entrega voluntária da própria vida pela vida do mundo, seria fecunda e desen­cadearia um movimento de libertação radical que haverá de culminar num mundo integralmente humano, dentro duma Ordem mundial constituída na verdade e na justiça, na liberdade e no Amor, e, por isso, a respirar paz por todos os seus poros.

A sua via, manifestamente de porta estreita, ainda está longe de ter sido integrada pela Humanidade. E já vamos no século XXI! O atentado de hoje em Espanha vem dizer-nos que a política e os políticos, infelizmente, continuam a apostar noutras vias. As da violência. Mas não tenhamos ilusões. A pior das violências é a institucionalizada, que é a dos que nos roubam o pão e a di­gni­dade, a voz e a vez, é a que faz de nós súbditos e vassalos, em lugar de cidadãs, cidadãos, mesmo que as mino­rias poderosas que a praticam e man­têm, nem que seja a ferro e fogo, actu­almente enfeitem esta nossa condição com um significativo conjunto de rega­lias materiais em muitas, muitos de nós, certamente, para melhor nos terem sos­segados, acomodados e assim nos levarem a votar neles, em eleições que eles programam, promovem, controlam e, naturalmente, vencem.

Contra esta violência institucionali­za­da, que mantém a verdade cativa na injustiça, mas que as televisões e as rádios das minorias poderosas nunca denunciam como tal, pelo contrário, apresentam como Ordem e como convi­vên­cia pacífica - acabem os exércitos, as polícias e todas as outras institui­ções e estruturas de repressão e de prevenção e logo verão o que sucede a essa Ordem e a essa convivência pacífica! - ergue-se, de quando em vez, a outra violência conjuntural. Por mim, nunca irei por essa via. Gostaria que ninguém fosse. Mas não me peçam para condenar cegamente quem, no seu desespero, decide avançar por ela. O que vivamente condeno é a violência institucionalizada, nomeadamente a do Ocidente, ultimamente, mais arrogante do que nunca, incapaz de reconhecer os seus crimes, verdadeiros genocídios causados pelos seus sistemas económi­cos estruturalmente exploradores e pe­las suas guerras preventivas, como a que continua em curso no Iraque, tam­bém com o apoio do senhor Aznar, pri­meiro ministro do governo de Es­panha, por sinal, contestadíssimo na altura nas ruas das principais cidades do país; e amanhã, provavelmente, apoi­ado por muito maior número de espa­nhóis que acriticamente respon­dem presente aos apelos das televisões e dos rádios das minorias poderosas de Espanha.

Decididamente, a paz não andará amanhã nas ruas de Madrid. Por mais que as pessoas a desejem e clamem por ela. Não há paz, enquanto esta não estiver a beijar continuamente a justi­ça. Já o profeta Isaías o viu e disse: “A paz e a justiça beijam-se”. Por isso a paz é o bem mais precioso da Humani­dade, mas que só acontecerá quando ela aceitar casar com a justiça. Até lá, é a História, sempre aberta. Feita de violência institucionalizada. Contra a qual alguns não resistem a desenvolver acções políticas violentas sob a forma de atentados. Os quais, embora possam deixar (muitos) mortos no terreno, o que os seus autores verdadeiramente pretendem não é isso, mas  que os res­pon­sáveis pela violência instituciona­liza­da abandonem de vez a sua arro­gância e Ordem mundial que os prote­ge e se convertam em simples irmãos e companheiros universais.


ABORTO: Moralismos e hipocrisias de políticos (e) católicos

A questão do aborto levou o Jornal Fraternizar a consultar a nova página-net do seu director. Eis o que encontrámos no"Diário Aberto" do dia 3 Março 04.

O aborto volta a estar hoje na ordem do dia. E as hipocri­sias e os moralismos de certos políticos e de não poucos católi­cos, com a generalidade dos bis­pos residenciais portugueses à frente, também. Mas para sua ver­gonha. O futuro é inevitavel­men­te das consciências críticas, esclarecidas, iluminadas pela ver­dade e pela ternura ou misericór­dia. Já Jesus de Nazaré, o Ho­mem por antonomásia, nos anda a dizer isto há mais de dois mil anos.

Mas os corações empederni­dos e as mentes fundamentalis­tas não há maneira de se deixa­rem humanizar. Preferem a ma­nu­tenção de leis sem coração e sem entranhas de misericór­dia, co­mo aquela que continua em vigor em Portugal contra o abor­to, ao bem efectivo das pessoas de carne e osso. Preferem que as mulheres pobres e não esco­la­ri­zadas - é sabido que é sobre­tudo destas mulheres que fala­mos, quando falamos do aborto e da necessidade duma lei de­cen­te que o viabilize em condi­ções de dignidade e de sanidade pública, porque as outras, já es­colarizadas e com possibilidades económicas, sempre preferirão o recur­so a clínicas privadas no es­trangeiro ou mesmo no nosso país, quando se virem a braços com uma gravidez in­desejada! - continuem a ter que recor­rer ao aborto clandestino, feito em con­di­ções de desumanidade absolu­ta e com manifestos riscos para a sua saúde, e que sejam viola­das na sua privacidade, presas preventivamente, interrogadas por juízes nos tribunais e, por­ven­tura, condenadas a anos de prisão, a viabilizarem com o seu voto a substituição da actual lei por uma outra que admita a pos­sibilidade do recurso ao aborto nos hospitais públi­cos, em condi­ções objectivas que re­velem tole­rância e compreensão para qu­an­tas, um dia, no seu desespero, de­cidiram avançar por aí.

Não se trata de obrigar mulher alguma a abortar. Quando nos ba­temos pela mudança da actual lei por uma outra que descrimina­li­ze a prática do aborto (falo as­sim, porque também eu, como pa­dre católico, me incluo neste mo­vi­mento pro-lei da descrimina­liza­ção do aborto), não estamos a defender que abortar passe a ser um bom método anticonce­ptivo a que se deva recorrer in­dis­cri­minadamente. Muito menos estamos a defender que as mu­lheres pobres que engravidem devam ser obrigadas a abortar. O que defendemos é que nenhu­ma mulher pobre que, alguma vez, se viu constrangida a recor­rer ao aborto, como solução de úl­ti­mo recurso e sempre altamen­te dramática e traumatizante para ela, não se veja encurralada na vida como touro ferido na arena, apenas com a porta do aborto clan­destino como possível saída, ainda para cúmulo, sempre com o risco de vir a ser descoberta, presa, julgada em tribunal e con­de­nada a anos de ca­deia.

O que defendemos é que a so­ci­e­dade portuguesa do século XXI dê provas de já ser suficien­te­mente to­lerante, misericordiosa, compreen­siva, humana e abra ou­tra porta a tais mu­lhe­res, con­cre­tamente, a porta da lega­lidade que lhes ofereça a possibilidade de entrarem num hospital público, exporem a sua situação e, em diá­logo com uma equipa de espe­ci­alistas com entranhas de huma­nidade, encontra­rem uma solução para os seus casos, precisa­mente, aquela solução que cada uma delas, no decorrer desse diá­logo, achar por mais oportuna e con­veniente, sem excluir, evi­den­temente, o recurso ao aborto em boas condi­ções de higiene e de segurança.

Infelizmente, ou muito me en­gano, ou hoje o Parlamento portu­guês vai escrever uma das mais negras páginas da sua história destes quase trinta anos de de­mocracia. Ao que tudo in­dica, va­mos ver deputados do PSD a dobrar a espinha e a própria cons­ciência perante a chamada dis­ciplina de voto imposta pelo líder parlamentar do seu partido. É público que alguns, bastantes mesmo, também se incluem no mo­vimento pro-descriminalização do aborto a que me referi ante­rior­mente, mas hoje vão dar o dito por não dito, ou o não dito por dito. Vão dizer que efectiva­mente se incluem naquele movi­men­to, mas que não votam a fa­vor dele. E, depois, vão pedir, de corda ao pescoço e de ver­go­nha na face, que as mulheres pobres e o país real esperem mais uns tempos, dois anos pe­lo menos, e então, já não reféns do CDS/PP, melhor, do politica­men­te cruel dr. Paulo Portas, po­­de­rão finalmente votar de acor­do com a sua consciência.

Até lá, ninguém, nem mesmo a sua consciência, lhes exija tal coisa. De con­trário, perderiam o lugar e os bene­fícios que ele lhes garante, com todos os de­mais incómodos que ser homem/mulher de convicções sempre a­carreta! Se isto suceder - e tu­do nos diz que não haverá sur­presas, aliás, só possí­veis onde há homens e mulheres a sé­rio! - teremos, como país e co­mo povo, razões de sobra pa­ra vestirmos de luto e chorarmos convulsivamente. Porque trinta anos depois de Abril, os moralis­mos e as hipocrisias de certos políticos parlamentares e de mui­tos católicos sem Evangelho vol­ta­ram a atacar em força e mata­ram de novo a liberdade. E a vida humana em liberdade.


Novos livros do Pe. Mário

Ouvistes o que foi dito aos antigos. EU, PORÉM, DIGO-VOS

Quando esta edição do Jornal Fraternizar estiver a chegar às mãos das pessoas, já deverá estar à disposição nas livrarias mais um livro do pe. Mário, editado pela Cam­po das Letras. Tem por título: Ouvistes o que foi dito aos antigos. EU, PORÉM, DIGO-VOS.

Alguns dias depois, deverá apa­recer um outro livro, editado pela AU­SÊNCIA, de Vila Nova de Gaia. Tem por título: Canto(s) nas Margens (ver local mais abaixo).

O novo livro editado pela Cam­po das Letras é o último da série de ensaios teológicos que o director do Jornal Fraternizar iniciou naquela prestigiada Editora do Porto com o polémico, já clássico, Fátima nunca mais, desde então no seu TOP de vendas.

Ao todo, são 27 textos, cada qual o mais sadiamente atrevido, nos quais o pe. Mário expõe o seu ponto de vista teológico alternativo e li­bertador sobre questões fulcrais que continuam a afectar o quotidiano das pessoas, devido à visão moralis­ta e inumana que sobre elas a teo­logia eclesiástica tem ensinado em catequeses e em pregações mais ou menos terroristas. O livro constitui, por isso, mais uma oportunidade pa­ra as pessoas se libertarem de me­dos e de condenações sem pés nem cabeça que lhes foram incutidos pelos antigos, totalmente à revelia do Evangelho e da sã teologia de Jesus de Nazaré. É também uma oportunida­de para  se confirmarem num Cristianis­mo e numa Igreja  de rosto humano, inteiramente apostados na humaniza­ção do mundo e na promoção do protagonismo histórico e político dos seres humanos, exactamente, como se Deus não existisse.

O livro vem precedido de um texto de abertura, que dá suporte ao título de capa e faz a unidade de todos os textos que se lhe seguem.

Canto(s) nas margens

Como o título indica, este é um livrinho de cantos. Exactamente, aque­les cantos que, ao longo dos últimos anos, o autor escutou e escreveu, no âmbito dos encontros de grupo e de pequenas comunidades cristãs de base que ajudou a formar e que tem gratui­tamente acom­pa­nhado. Trata-se duma obra leve, de apenas 120 páginas, mas recheada de teologia libertadora feita canto, quadra popular, pequeno poe­ma. A maior parte destes cantos podem ser cantados com músicas populares, conforme indicação sugerida no final de cada um deles.

O livrinho abre com uma introdução em prosa, de forte pendor testemunhal, na qual o autor tece considerações várias muito oportunas e vigorosamen­te interpeladoras. É com algumas des­sas palavras que deixamos as leitoras, os leitores, como quem aguça nelas, neles o apetite para o livrinho:

""Estes cantos que escutei e con­tinuo a cantar nas margens com outras companheiras e outros companheiros de Caminhada, são cantos que espan­tam medos. Fazem explodir grilhões e prisões; Afogam alienações. Despertam consciências. Iniciam gestações que vão desaguar em novos nascimentos de mulheres e homens marcados pelo Espírito do Deus Vivo, por isso, com irresistível tendência para a Partilha dos bens e da vida, indomavelmente li­vres, radicalmente iguais entre si, in­condicionalmente solidários com as ví­ti­mas deste mundo, e verdadeiras mu­ra­lhas de aço frente aos seus vitima­do­res ou carrascos. São cantos que fa­zem brotar fraternidades e sororidades teimosamente abertas."


Agora com nova Direcção e já sem ninguém a morar nas instalações

Associação Padre Maximino à procura de um novo rosto

A Associação Padre Maximino, que em Novembro de 2004 vai fazer 18 anos, está a tentar uma reestruturação que, sem perder as finalidades para que foi criada, lhe dê um novo rosto, mais de acordo com as novas circuns­tân­cias e os novos tempos.

É uma fase de mais maturidade e, sobretudo, de responsabilidades acres­cidas para os seus associados que es­tão empenhados em alargá-la a novos sócios, a fim de que mais pessoas e mais capacidades se lancem na tarefa de procurar uma sociedade mais cons­ci­ente e mais solidária, nestes tempos em que a barbárie tantas vezes nos bate à porta.

Como não queremos ser cúmpli­ces, pelas nossas omissões, vamos tentando lançar pequenos luzeiros, a indicar que outro mundo é possível.

Já foram eleitos os novos corpos gerentes. Neste momento, a Direcção está a trabalhar para que o mais rapi­da­mente possível surja um plano de acti­vidades exigente e exequível, a ser apresentado à nova Assembleia Geral, para que seja enriquecido e aprovado e, sobretudo, seja capaz de mobilizar todos os associados, para que dinami­zem outros para as tarefas que são pro­postas.

Às leitoras, aos leitores do Jornal Fraternizar queremos apresentar o projecto do plano de actividades, para que, desde já, se envolvam também e se associem aos nossos projectos, ins­crevendo-se como sócios, participando nas actividades, apresentando novas sugestões e, porque não, apoiando fi­nan­ceiramente esta Associação.

O melhor apoio financeiro e o mais justo seria que todas as leitoras, todos os leitores do FRATERNIZAR se respon­sabilizassem por pagar atempadamen­te a respectiva assinatura.

Para já, queremos convidá-los para os encontros temáticos que vão decor­rer na sede da Associação, em S. Pedro da Cova, nas tardes dos terceiros sába­dos de cada mês. O primeiro vai acon­tecer no dia 24 de Abril, com o tema: 25 de Abril: antes e depois; teste­munhos; e agora? Como inter­vir? Haverá ainda canções próprias e a festa continuará e terá outros con­di­mentos.

Plano de Actividades

Um plano de actividades está sem­pre aberto a novas iniciativas, des­de que respeitem os princípios da Associa­ção. No entanto, vamos programar o seguinte:

1. Actividades já a decorrer:

* Jornal Fraternizar. Tal como foi decidido pela anterior Direcção, só será publicado se tiver financiamento das leitoras, dos leitores para cada edi­ção.

* ATL-Actividades Tempos Livres. Vai continuar até que a Segurança So­cial transfira o Acordo para a Associa­ção de Moradores do Bairro Mineiro.

* Artesanato-Costura. Esperamos ser possível dinamizar esta actividade.

* Comunidade das Quartas-Feiras.

2. Actividades a desenvolver:

* Encontros temáticos abertos a quem estiver interessado. Com perioci­dade mensal. Decorrerão na tarde do 3.º sábado de cada mês. Poderão ser acompanhados de música e poesia. O pri­meiro será no dia 24 de Abril (ver notícia de abertura desta página).

* Noites de música e poesia. Sempre que houver datas festivas ou motivação para o fazer. Poderão ser acompanha­das de grelhados e caldo verde.

* Encontros macro-ecuméminos de Espiritualidade e de Teologia, com a Fé cristã e o Ateísmo em pano de fun­do.

* Criação de um coro infanto-ju­venil.

* Educação ecológica. Em colabo­ração com a Associação de Moradores e a Junta de Freguesia, tentar criar no Bairro Mineiro um dia mensal para lim­peza das ruas e arranjo dos espa­ços ajardinados.

* Passeios culturais. Tentar conhe­cer terras com outras gentes e costu­mes.

* Catalogação dos livros e revistas.


Livros do Trimestre

História do Cristianismo: I. O mundo antigo (Editorial Trotta, Madrid)

Tudo o que  aqui possamos escrever sobre o primeiro  dos quatro volumes previstos desta "História do Cristianismo" será sempre insuficiente, se, entretanto, não tivermos conseguido convencer as pessoas a adquiri-lo, para logo o devorarem, estudarem, debaterem. Nas suas mais de 900 páginas, este volume é  uma obra absolutamente imprescindível.

O presente volume é coordenado por José Fernández Ubiña e Manuel So­tomayor Muro. Os outros três, ainda em gestação, debruçam-se,  respectivamen­te, sobre o mundo medieval (coordena Emilio Mitre Fernández), o mundo mo­der­no (coordena Antonio Luis Cortés Peña) e o mundo contemporâneo (coor­dena Francisco José Carmona Fernán­dez).

Os especialistas em cristianismo antigo que assinam trabalhos neste vo­lume que lhe é dedicado são todos do país vizinho, uns mais conhecidos em Por­tu­gal do que outros. José Louis Sicre escreve sobre "O legado judeu"; Miguel Pérez Fernández, sobre "Jesus de Gali­leia"; Juan Antonio Estrada, sobre  "As pri­meiras comunidades cristãs"; Manuel Sotomayor, sobre "Os grandes centros da expansão do cristianismo", e ainda sobre "Estruturação das igrejas cristãs", "Controvérsias doutrinais nos séculos V e VI", "O cristianismo no Oriente" e "A arte no cristianismo antigo"; José Fer­nández Ubiña, sobre "O cristianismo gre­co-romano" e sobre "Constantino e o triunfo do cristianismo no Império ro­ma­no"; Ramón Teja, sobre "O cristianis­mo e o Império romano"; Maria Victoria Escribano Paño, sobre "O cristianismo marginalizado. Heterodoxos, cismáticos e hereges do séc. IV"; Francis­co Javier Lomas, sobre  "O império cristão"; Mar Mar­cos, sobre "o mo­nacato cristão"; Pablo C. Díaz, so­bre "O cristianis­mo e os povos ger­mánicos";  e Mar­garita Vallejo Girvés, sobre "O Império romano de Bizâncio.Con­flitos religiosos".

Atentemos, por exemplo, nestes brevíssimos extra­ctos do trabalho assinado pelo emi­nen­te teólogo jesuíta, Juan Antonio Estrada: "Jesus de Nazaré era um leigo, sem participação no sacerdócio judeu e morreu profanamente, sem ne­nhuma consagração. O novo de Je­sus era o seu estilo de vida, a sua so­lidariedade e semelhança com os homens, em contraste com a distância e os privilégios que o clero hebreu exigia. (...) O sacerdócio deixou de ser uma dignidade e transformou-se numa forma de ser e de viver que afectava toda a gente. (...) Estas características, que mudaram progressivamente a partir da segunda metade do século II, explicam a rejeição que os cristãos produziam inicialmente, tanto nos ju­deus, como entre os cidadãos do Im­pério romano. Eram acusados de a­teus, pessoas sem religião e ímpios, precisamente devido à ruptura que apresentavam com as tradições da época. (...) A partir do século II, nota-se uma crescente tendência a tomar o Antigo Testamento como referência inspiradora e a sacerdotalizar os car­gos. (...) A comunidade no seu con­junto perdeu protagonismo, e os leigos em particular, a favor duma crescente sacerdotalização dos ministérios, cada vez mais influenciados pelos modelos do Antigo Testamento e das religiões do Império."

Mas a traição mais trágica ao novo de Jesus, viria depois com Constan­tino. Corram a ver neste volume!

Experimentar Deus (L. Boff/ Sal Terrae, Espanha)

É mais um livrinho de bolso, escrito pelo grande teólogo de língua portuguesa, o brasileiro L. Boff. Um total de apenas 160 páginas. Mas uma preciosidade de teologia e de espiritualidade. O original em português é da Editora Sextante, no Rio de Janeiro. É de ler/meditar e chorar por mais.

Um dos capítulos tem por título: "Ma­ta as imagens e aparecerá Deus". São dele estas afirmações: "Pregar um Deus sem o mundo teve como conse­quência a aparecimento de um mundo sem Deus. [...] Ao matar as imagens de Deus, abrimos o espaço para a experi­ência do Deus vivo e verdadeiro, do Mistério inefável e sensível ao coração. Por isso, o ateísmo que nega as repre­sentações de Deus, oferece a possibili­dade duma verdadeira experiência de Deus, o qual habita nas nossas repre­sentações, mas ao mesmo tempo está sempre para além e para quém delas."

Por sua vez, no capítulo: "Como aparece Deus no mundo da tecno-ci­ência?", podem ler-se estas sábias pa­lavras: "Deus não aparece no nosso mundo como um fenómeno. Se o fi­zesse, também seria objecto de análise e de ciência. Já não seria o Deus divino do Mistério; seria um ídolo."

Cristianismo: Memória para o futuro (Duquoc/ Sal Terrae, Espanha)

O original em francês foi editado pelas prestigiadas Éditions du Cerf. O autor é padre dominicano sobejamente conhecido. Não hesitem em mergulhar nas suas 135 páginas.

"A apresentação que vamos fazer- explica o autor - será esquemática, sobretudo porque vamos apresentar os factos referentes a uma hipótese: a fé primitiva manteve-se afastada de toda a vontade de dominação social e polí­tica, e só com o seu êxito no séc. IV (con­ver­são do Império) se deparou com a missão de transformar o mundo segundo a utopia bíblica, interpretada então de um modo novo. Esta interpre­tação duma tarefa sócio-política da fé levou a criar, mais tarde, a cristandade, forma terrena de um messianismo insti­tucional. Foi êxito e ambiguidade. A partir da Reforma, que no século XVI lhe desferiu um golpe mortal, não dei­xou de continuar a ser uma obsessão para a fé ofi­cial. Na década de 70, o concílio Vati­cano II inaugurou o luto por esta orientação; contudo, não dei­xou de alimentar o sonho de certos cristãos num mundo justo e pacífico, sob a realeza de Cristo. Não é im­possível que a fé volte a ser credí­vel, se conseguir superar esta nos­tal­gia e este obstá­culo, reeditando, sem dúvida de ou­tra forma, o seu pro­jecto originário. Seguramente, re­en­contraria assim o alento da espe­rança última, tão pro­vocadora para quantos preferem resignar-se ao sta­tus quo sócio-político. «Lembra-te do teu futuro», diz o quarto mandamento, segundo J.-M. Ouaknin."

Ainda no Prólogo, o autor oferece-nos uma rápida panorámica do seu livro: "Este livro está organizado da maneira seguinte: Consagraremos a pri­meira parte ao nascimento da fé; na segunda parte ocupar-nos-emos da con­solidação da comunidade; na ter­ceira, contemplaremos o seu abalo sís­mico: o sonho político; e na quarta e última parte assistiremos ao luto pela cristandade e ao sobressalto. A história da fé é a história duma travessia na noite, sem concessões nem à resigna­ção nem à desesperança."

O livro encerra com esta proclama­ção: "A fé revela-nos na obscuridade que Deus actua no nosso presente e convida-nos a que a história seja duma maneira profana uma parábola do Rei­no que vem. O rumor do fim do cristia­nis­mo não passa de um falso rumor.

Paralelos do Antigo Testamento (Vários/ Sal Terrae, Espanha)

Ao todo, são 61 escritos ou estórias célebres, originárias da Mesopotâmia, Ásia Menor, Síria-Palestina e Egipto. Algumas delas já foram escutadas no ano 3000 antes de Cristo! Se as ler, vai ficar desconcertado, pois terá de concluir que afinal a Bíblia não é assim tão original como sempre nos tem sido dito. São 375 páginas absolutamente imperdíveis!

 

Quem apenas conhece os relatos do Antigo Testamento, em cada um dos livros que o compõem, tem agora a oportunidade de os poder confrontar com estes outros relatos paralelos extra-bíblicos, contemporâneos ou mesmo anteriores aos dos livros bíblicos. Os autores do livro têm o cuidado de apre­sentar cada selecção de escritos, sob a mesma designação dos conhecidos livros bíblicos. Assim, sob a designação Génesis, encontramos neste volume doze relatos: Hino a Ptah; Hino a Rã; Mito Enuma elis; Epopeia de Guil­gamés; Mito Enu­ma ilu; Mito de A­dapa; Arquivos de Nuzi; Anais de Hat­­shepsut; Anais de Dedumoses; His­tória de Anubis e Bata; Epopeia de Aqhaatu; Epo­peia de Kirta. O mesmo sucede sob a designação de Êxodo, Levíti­co, Números e Deu­teronómio, Josué e Juízes, Rut, Sa­muel e Reis, Crónicas, Esdras e Nehe­mias, Job e Eclesiastes, Salmos e Lamentações, Provérbios, Ben Sirá e Sabedoria, Cântico dos cânticos, Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel, Oseias e Amós.

"Quando eu chego - é do Hino a Rã - começa o dia / quando o todo po­deroso fala, tudo vem à vida. / Não ha­via céu nem terra / não havia terra seca nem répteis na terra. / Então falei e as criaturas vivas apareceram. / Fi-las dormir em Nun o mar / até que houve terra onde pude apoiar-me. / Quando comecei pela primeira vez a criar / quan­do sozinha planeava e desenhava todas as criaturas / não tinha soprado Shu o vento (...)".


Última Página

Pela Paz contra a guerra no Iraque

Também estivemos lá

Foram múltiplas em todo o mundo as manifestações públicas pela Paz contra a guerra no Iraque. As mani­fes­tações ocorreram nas principais cida­des do mundo, também em Lisboa e no Porto. Jornal Fraternizar fez-se pre­sen­te, através do seu director, na mani­festação que se con­centrou na Praça da Batalha, no Porto.

Todas as guerras são crime e não têm qualquer justificação, por mais que os seus autores tentem atirar poeira aos olhos dos povos. A guerra do Ira­que leva já um ano e toda a gente se lembra que foi desencadeada sob o pre­­texto de que Saddam Hussein possuía armas de destruição maciça.

Um ano depois, as armas de des­truição maciça continuam por encontrar no Iraque e, hoje, é manifesto que esse argumen­to não passou de pura mentira inventada pela administração Bush. O crime, por isso, é ainda mais grave. E as consequências negativas para o Oci­dente e para o mundo em geral estão cada vez mais à vista.

Porém, o Ocidente, em lugar de re­co­nhe­cer o crime e desistir da guerra, é contumaz e prossegue com a guerra sem fim à vista, ao mesmo tempo que se mobiliza e se arma ainda mais con­tra o que todos os seus dirigentes à uma classificam como "terrorismo" e "ataques terroristas". A histeria ociden­tal não pode ser maior. E encontra eco em quase todos os media de grande im­pacto.

Os povos do mundo que há um ano atrás se mobilizaram nas ruas das grandes cidades, num derradeiro es­for­­ço para tentar impedir o iminente iní­cio da guerra no Iraque, agora, que a guerra já leva um ano, não se mostra­ram tão aguerridos contra ela. Sinal de que o discurso dos dirigentes dos paí­ses do Ocidente, veiculado pelos media começa a produzir algum efeito. Mas Bush e os seus vassalos dirigentes ocidentais, Durão Barroso incluído, que se cuidem. Porque o que eles chamam de "terrorismo" é fome e sede de Justi­ça! E nenhuma guerra a faz parar.

Jornal Fraternizar informa

Desde o passado dia 15 de Feve­reiro de 2004, o director do Jornal Fra­ter­nizar passou a morar numa casinha alugada na freguesia de Macieira da Lixa. Tão surpreendente mudança cor­res­ponde à vonta­de do próprio pe. Má­rio. Deste modo, a casa-sede da Associ­a­ção Pa­dre Maxi­mino, onde residiu até agora, fica, pela pri­mei­ra vez, sem nin­guém lá a morar, o que po­­de e deve dar início a um novo ciclo na sua exis­tência (ler nesta edição, p. 26).

Com esta mudança de residência e de terra, o pe. Mário deixou, a seu pe­dido, o serviço de presidente da Di­rec­ção da Associação (é agora presi­dente da A. G.). Mantém-se, até ver, como director do Jornal Fraternizar.

É óbvio que a presença do pe. Mário em Macieira da Lixa, onde antes do 25 de Abril 74, foi pároco, com di­reito a duas prisões políticas em Caxias e a dois julgamentos no Tribunal Ple­nário do Porto e de onde acabou por ser compulsi­vamente afastado, há trinta anos, por decisão do então Bispo do Por­to, D. António Ferreira Go­mes, não tem nada a ver com esse seu ve­lho estatuto eclesiástico de então, ainda que tenha tudo a ver com a rela­ção pres­­biteral ao serviço do Evangelho que ele continua empenhado em man­ter gratuita­men­te com aquele povo.

Nesta altura, Macieira da Lixa con­tinua a dispor de pároco residente, por sinal, um jovem padre sensivelmente da mesma idade que o pe. Mário tinha, quando lá exerceu idênticas funções, já então em moldes muito pouco ca­nónico-burocráticos, porque densa­men­te humanos e fraternos.

O facto não impede o pe. Mário de voltar a viver lá evange­li­ca­mente com o povo. Continua a ser seu com­pa­nhei­ro e servi­dor gratuito, sempre na linha da liber­tação e da conscien­cia­lização, como é seu timbre. Não tem qualquer po­der eclesiástico. Não fre­quenta o tem­plo. Não vai à missa ao domingo (ce­lebra em pequenos grupos e peque­nas comunidades). Não se revê naque­le modelo de Igreja. Conti­nu­a a dar corpo a um modelo alternativo de Igre­ja, dentro da mesma Igreja ca­tólica, da qual, como se sabe, é pres­bítero orde­nado, ainda que sem qualquer ofí­cio pastoral oficial. Este novo modelo de Igreja acon­tece fora dos templos, na in­timidade das casas das pessoas que progressivamente se abrem aos de­mais, com os quais constituem pe­que­nas comuni­da­­des cristãs de iguais, vi­va­mente cen­tradas na escuta dialo­ga­da da Pala­vra de Deus e no Pão e no Vinho da vida parti­lhada e gratuita­mente en­tre­gue aos po­bres.

Por isso, quem, agora, quiser con­tactar o pe. Mário, mesmo na sua quali­dade de director do Jornal Fraternizar, deverá ter em conta as altera­ções de telefo­ne, fax, morada e de e-mail, já que ape­nas o seu n.º de telemóvel se mantém igual. Tam­bém poderá entrar e viajar no novo sí­tio que ele criou na net e que sucessi­va­mente actualiza.

Eis:

Morada: Lugar da Maçorra

4615-413 MACIEIRA DA LIXA.

Telf-Fax: 255 496 358

E-mail: padremario@sapo.pt

Sítio-1: www.padremariodalixa.cjb.net

Sítio-2: www.padremariodemacieira.com.sapo.pt


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