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Textos do
Jornal Fraternizar- |
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| Edição nº 153, de Abril/Junho 2004 (Continuação) | |||||||||||||||||||||||||
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Comissão Nacional de Justiça e Paz. Extractos da Reflexão quaresmal 2004 É inaceitável!... * Vemos com grande preocupação que se tenha instalado entre os nossos concidadãos e concidadãs uma certa apatia e um aparente conformismo perante situações de desigualdade e de exclusão social crescentes, no nosso país e no mundo. Trata-se de realidades verdadeiramente clamorosas. É razão bastante para não nos conformarmos com o mundo em que vivemos, nem com o estilo de vida que levamos. * É inaceitável que o progresso económico que o nosso país alcançou nos últimos 30 anos e as ajudas comunitárias entretanto recebidas não se tenham traduzido numa redução substancial da pobreza, designadamente nas suas expressões mais severas, de falta de alimento e de habitação condigna, de dificuldades no acesso à educação e à saúde, de insuficiência de recursos bastantes para garantir uma vida digna. Cerca de 1/5 dos nossos concidadãos conhecem a pobreza. * É preocupante que o desemprego tenha aumentado consideravelmente nos últimos anos e afecte, hoje, mais de 400 mil pessoas, das quais boa parte sem quaisquer perspectivas realistas de vir a encontrar um novo emprego, a curto ou médio prazo. * Para as pessoas empregadas, a duração e as exigências do trabalho intensificaram-se e absorvem hoje uma parcela cada vez maior do tempo pessoal, gerando situações estressantes e efeitos colaterais sérios na vida familiar, no relacionamento humano e na saúde das próprias pessoas. O recurso sistemático ao trabalho extraordinário, muitas vezes com desrespeito das normas legais vigentes e dos preceitos internacionais, é uma prática com que a sociedade e os governos não deveriam pactuar, nem sequer por omissão. * É intolerável que os níveis de remuneração média dos trabalhadores e o salário mínimo permaneçam consideravelmente abaixo dos valores médios que se verificam nos outros países da União Europeia, em contraste com remunerações escandalosamente altas de gestores e de outros profissionais, como ainda recentemente foi noticiado pela imprensa. Mais grave ainda é o facto de que os níveis de salário mínimo e pensão mínima sejam fixados em valores que, reconhecidamente, ficam, no caso do primeiro, muito próximo do limiar de pobreza e, no caso da segunda, abaixo desse limiar. Em situação particularmente gravosa ficam as pessoas naquelas condições que têm de fazer face a despesas com saúde avultadas, em virtude de padecerem de doença crónica, serem portadoras de deficiência ou simplesmente em razão da sua idade, já que as comparticipações dos fundos públicos vêm sendo progressivamente reduzidas. * Por outro lado, os padrões de qualidade dos serviços públicos de educação, de saúde e, de modo geral, dos demais bens públicos, longe de revelarem desejáveis melhorias, parecem regredir, provocando efeitos particularmente negativos para as pessoas de menores rendimentos. Merecem particular reparo os investimentos públicos que têm sido feitos em obras faraónicas e projectos de utilidade social duvidosa, beneficiando apenas determinados sectores da população. * O processo de privatização em curso, nomeadamente no que toca a bens públicos básicos, designadamente a água, os correios ou os transportes urbanos, para não falar da saúde e da educação, poderão configurar cenários de maior desigualdade e cavar o fosso entre ricos e pobres, acabando por mercantilizar direitos humanos e sociais básicos. * E que pensar do que está a ocorrer com o parque habitacional que aumentou consideravelmente em número de fogos disponíveis e qualidade da construção, mas não está ao alcance de uma parte significativa da população, que continua, designadamente nas grandes cidades, em situação de habitação precária, quando não atirada para bairros periféricos de habitat degradado? * Como encaramos estes problemas? Reconhecemos aí a nossa quota parte de responsabilidade?
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Igreja/Sociedade Rir é próprio dos humanos Por Ivone Gebara (teóloga Brasil)
Jornal Fraternizar acolhe com muita alegria nas suas páginas esta oportuna reflexão teológica, enviada pela Rede de cristãos (bolrede@terra.com.br) Ninguém deixe de ler e saborear. Quem disse que a teologia é actividade de pessoas sisudas? Ou que Deus gosta da cruz e da dor? É bem cedo ainda e o autocarro para o centro de Recife está repleto de passageiros. Nem todos conseguiram entrar e o autocarro já se prepara para arrancar, acelera uma vez, e mais uma com força ruidosa e nervosa parece começar a mover-se. Finalmente, mais um passageiro consegue entrar apertando-se e segurando-se nos corpos dos outros. Os que continuam na paragem são incensados pela fumaça negra de diesel maculando as camisas brancas e os corpos recém-saídos do chuveiro. Apesar dos pesares é preciso continuar firme, à espera do próximo autocarro. A porta fecha-se com força e esforço. Mas a porta não vê e infelizmente o braço do último passageiro fica fora. Ele grita, outros gritam, muitos gritam: “Pare motorista! Pare motorista!” O autocarro pára, abre a porta, e felizmente o braço é salvo apesar de algumas manchas avermelhadas que ficaram como lembrança. Mas a agitação dentro do veículo era grande, como se outro incidente estivesse prestes a acontecer. De repente uma voz masculina e jovem se faz ouvir: “Bem feito, companheiro! Porque não deixou seu braço em casa?! Quem mandou trazer o braço para o autocarro?!” Risada geral, risada contagiante! Alguns riem da risada dos outros. Até o acidentado ri. Segue-se então o momento narrativo comum. Muitos passageiros tinham uma história trágica para contar, história parecida com o sucedido e esta virava imediatamente motivo de riso. As histórias se misturavam e ficava um pedaço de uma, um pedaço de outra nos ouvidos dos que conseguiam ouvir. Ninguém mais falava do calor, do incómodo da superlotação, das sacudidelas causadas pelos buracos das ruas. O humor trágico tornou o dia mais bonito, a viagem mais agradável, as caras mais distendidas, embora sem apagar a tragicidade da vida. O humor não faz esquecer, apenas abre uma pausa na dor de cada dia. O humor não resolve problemas, apenas nos dá condições subjectivas para encará-los com mais serenidade. Este é o humor ou o riso trágico, riso comum que experimentamos no quotidiano da nossa existência. É o riso que ajuda a aguentar os sofrimentos e os medos da vida. É a risada que relativiza as coisas, que ridiculariza os poderosos, os bêbados, os estropiados; risada que nos torna mais simples e até, talvez, mais amáveis aos nossos próprios olhos. Rir é o melhor remédio, diz o ditado popular. Rir de si, das outras, dos outros, rir do que construímos, do que pensamos, do que somos e do que pensamos que somos. Rir nos devolve a medida do que é ser simplesmente humano. Haveria outros risos, menos trágicos, menos marcados pela dor que podem ser observados na vida dos grupos humanos? Sim e tantos quantos possamos imaginar! Há o riso da beatitude, o riso da gratuidade, o riso da conquista da terra, o riso da saciedade, o riso da beleza, o riso do prazer, o riso do amor, o riso da criança e tantos outros para expressar esta dimensão própria do ser humano. Há o riso interior, o riso exterior, o riso solitário e o riso conjunto. Há o riso, o sorriso e a gargalhada. Há o riso forçado, o riso amarelo, o riso irónico, o riso debochado, o riso formal, o riso educado, o riso triste... Haverá um riso religioso? O riso foi pouco desenvolvido na espiritualidade cristã. As lágrimas e os lamentos foram sempre mais abundantes. Era preciso chorar sobre nossos pecados e alegrar-nos apenas com o futuro celeste. Era preciso entristecer-nos por nossas inúmeras culpas e esperar contritos a magnanimidade divina. O ser humano que chora chama mais atenção do que o que ri. Para o cristianismo as lágrimas são no próprio homem! Deus sempre foi sério. Deus não brinca e portanto não se pode brincar com Deus. Deus dá medo ou, ao menos, provoca temor. Religião é coisa séria, muito embora algumas poucas vezes possa provocar alegrias. Mas são alegrias ditas espirituais! Desde o tempo dos Padres da Igreja, o gozo da vida e a sexualidade foram considerados ofensivos à herança cristã. A vida sexual converte-se pouco a pouco em tristeza e contaminação pecaminosa. Esta marca se estendeu até os dias de hoje, embora o mundo tenha vivido múltiplas revoluções sexuais. As oposições dualistas continuam a habitar os nossos corpos e as nossas mentes. Continuamos mais ou menos convencidos, sobretudo os teólogos, de que o riso e o prazer, apesar de serem próprios do ser humano, podem ser uma armadilha que o levaria à perdição. No catolicismo raros foram os santos apresentados sorrindo, raros foram os santos que tiveram uma vida prazerosa considerada positivamente. Ao contrário, a maior parte das hagiografias, assim como na arte sacra, é cheia de dores, sofrimentos e sacrifícios. A arte religiosa é trágica. As expressões dos mártires são pintadas ou esculpidas por meio de formas sérias e sofridas ou, quando muito, absortas em universos interiores que nos faziam pensar nas realidades para além da terra. Só no além o alívio para este “vale de lágrimas” seria possível. Só no além as lágrimas seriam absorvidas num estado de beatitude que só os ícones são capazes de retratar. Os olhares fixos num além desconhecido, feições estáveis que não denunciam nem dor nem prazer. O Cristo crucificado, o Senhor das dores, o Senhor ensanguentado e morto, o Senhor quase sucumbindo ao peso da cruz são as imagens que povoam o mundo das nossas memórias religiosas e até mesmo da memória protestante popular. Maria, a mãe de Jesus chorando ao pé da cruz, Maria do coração trespassado por sete espadas, Maria, Pietá acolhendo o filho morto nos braços...esta se assemelha às tantas Marias sofridas pelo mundo afora. A religião está crivada de dor e de sofrimento. Estampando a tragicidade do sofrimento humano, parece, como diria Feuerbach, lembrar a necessidade de consolo, de alívio num mundo sem coração. Rir de prazer não era sinal de santidade. Os amantes da vida, os que buscavam vivê-la com alegria eram suspeitos de terem parte com o demónio. O demónio sim, era festeiro, gostava de dança, gostava de vinho e de sexo. Assimilamos o sofrimento a Deus e às coisas de Deus. O sofredor apega-se a Deus. Mas, o “gozador” apega-se ao seu próprio gozo ou, como diz a tradição popular, ao próprio demónio. O demónio parece gostar de rir, de festa, de prazer, de cachaça, de dança. É menos sério do que Deus e por isso está sempre metido nas confusões humanas. O demónio é mais parecido connosco do que Deus. Por isso fomos capazes de desenhar uma imagem feia do diabo, uma mistura de homem e animal. O diabo é nossa imagem. Entretanto, não fomos capazes de imaginar Deus, ou quando o fizemos, o assimilamos a um velho de barbas e cabelos brancos, acima de todos os seres, um velho sem Eros, sem paixão presidindo ao mundo no meio de nuvens brancas que às vezes se confundem com suas barbas. E o cristianismo não disse que somos “imagem e semelhança de Deus”? De que Deus? Foi preciso, ao longo dos séculos, negar os nossos prazeres e o nosso riso para nos aproximarmos dessa imagem divina!... Embora se diga que rir é próprio do ser humano, somos animais tristes. Fomos expulsas, expulsos do paraíso. E mais do que expulsas, expulsos, amaldiçoadas, amaldiçoados. E mais do que amaldiçoadas, amaldiçoados, condenadas, condenados a viver sob o peso de nossas necessidades. Fomos de certa forma cortadas, cortados da nossa harmonia primeira e da harmonia connosco mesmas, connosco mesmos. Por isso, vivemos errantes e dominadas, dominados pela vontade de prazer e pela necessidade de sobreviver. Vivemos na corda bamba, um passo em falso e caímos... Fora do paraíso a fragilidade é nossa condição! Por isso podemos rir, mas um riso breve, sóbrio, limitado. Nosso “próprio” riso foi controlado pela ideologia da seriedade e do anti-prazer! O Deus Ordenador é sério. Sua lei deve ser cumprida e nela não parece haver lugar para o gozo. Deus não ri. Deus cria. Deus ordena. Deus julga. Deus salva, apesar de descansar no sétimo dia! E os seus ministros conhecem sua vontade e sabem como impô-la aos seus fiéis. Os seus ministros sabem como controlar o riso e o prazer, sabem dosar a medida certa para que as “ovelhas” não saiam do rebanho. Expulsos do paraíso pela tentação consentida, pela fraqueza feminina, pela cumplicidade masculina. Esta é nossa condição! Não se pode mais voltar ao paraíso nesta vida, nesta história. A história não é paraíso, embora o tenhamos na lembrança, embora o tenhamos como sonho impossível a nutrir nossas mínimas possibilidades de felicidade. Somos o que fizeram de nós. E do que nos foi entregue podemos mudar apenas formas, tonalidades, mas a matéria saudosa de paraíso continua a mesma. E a saudade do paraíso pode levar à vida e à morte, pode levar ao individualismo egoísta e ao sentimento do outro como meu eu e meu próximo. A saudade do paraíso pode levar ao ódio disfarçado de amor ou ao amor disfarçado de ódio. Posso ser Hitler ou Bush e posso ser Gandhi ou uma avó da Praça de Maio. Paraíso perdido, amor perdido, objecto perdido de um sem fim! Riso, misturado à mistura da vida! Rir é próprio do ser humano. Há que rir ou tentar rir, ao menos em pensamento, rir do que somos sem saber porque somos o que somos. Jogo de palavras? Jogo da vida num tabuleiro de xadrez? Buscamos no riso formas de salvar nossa dignidade, formas para redefinir nossa identidade humana. É como se diante da violência que nos rodeia, que nos habita e tece, quiséssemos voltar à memória de quem somos: somos amantes, ridentes, sedentas, sedentos de justiça e igualdade. Mas, somos também assassinas, assassinos, injustas, injustos, e mentirosas, mentirosos. E pelo riso queremos resgatar o melhor que existe em nós mesmas, em nós mesmos. Ao pensar no riso, embora não estejamos rindo, queremos simplesmente vislumbrar a possibilidade de encontrar de novo nossa alma, de encontrar de novo uma razão de ser que nos devolva um “coração de carne”. Reaprender a rir com as coisas belas da vida, reaprender o humor presente no quotidiano nos dará talvez forças para seguir viagem. Não resolve o problema da violência no trânsito, da falta de emprego, da jovem estuprada, do braço ferido pela porta do autocarro, do filho chorando de fome, das decepções políticas, mas alivia, ajuda a respirar e a respirar melhor. Precisamos de nos ajudar a aprender a rir para ver se algo novo pode nascer do nosso riso. Rir, porque a mesa está farta, rir, porque em breve a criança esperada vai nascer, rir, porque amanhã é dia de colheita, rir, porque Deus ri com a nossa risada.
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Até quando vamos ter que suportar as aberrações da hierarquia católica a propósito do celibato dos padres? Teve que enviuvar para poder voltar a exercer o ministério presbiteral
É viúvo e padre em exercício numa paróquia do Patriarcado de Lisboa. Apareceu recentemente num dos canais privados de televisão, no decorrer duma reportagem sobre sexualidade humana e celibato eclesiástico, na qual também o director do Jornal Fraternizar participou com uma intervenção que o pe. Mário quis que fosse fecundamente crítica e libertadora. Mas todo aquele ar desgraçado com que esse mesmo padre se apresentou perante as câmaras e que parece ser o mesmo com que habitualmente se apresenta no altar do templo paroquial onde preside à missa, transformou-o numa espécie de símbolo vivo da crueldade com que a nossa Igreja católica continua a tratar os seus mais devotados servidores, nomeadamente, no que respeita à vivência da sua própria sexualidade. Acompanhem-nos por momentos na reflexão teológico-pastoral que, a este propósito, aqui partilhamos singelamente com vocês. E, se quiserem, enviem depois comentários e achegas sobre esta temática para as páginas do nosso Jornal. O padre em questão pensa-se protagonista duma experiência muito singular e, por isso, até se dispôs a contá-la ao grande público. Ainda não se terá dado conta da indignidade com que foi e está a ser tratado pela respectiva hierarquia católica. Eis: Quando estava na força da vida de jovem padre, apaixonou-se inopinadamente por uma mulher. E só descansou quando casou com ela. Mas teve que abandonar de imediato o exercício do ministério presbiteral. Assim o determina a disciplina canónica que a hierarquia da Igreja católica romana faz questão de continuar a manter em vigor, contra ventos e marés, como se tivesse sido ditada directamente pelo próprio Deus. No entender da hierarquia católica romana, o Matrimónio é um dos sete sacramentos da Igreja, mas apenas para leigos e leigas que o desejem. Os homens baptizados que aceitarem ser ordenados presbíteros têm que jurar previamente que não casarão nunca. E se, posteriormente, derem o dito por não dito, têm que renunciar de imediato ao exercício do ministério presbiteral, para o qual haviam sido ordenados e, ao mesmo tempo, sujeitar-se a viver na Igreja um estatuto de quase renegados e de tolerados, privados de elementares direitos eclesiais que hoje já são reconhecidos à generalidade dos chamados fiéis leigos. Assim sucedeu também com este padre de Lisboa. Os anos passaram. Mas a sua mágoa por ter deixado o exercício do ministério não passou. Por isso, quando recentemente se viu na condição de viúvo, em resultado do natural falecimento da mulher, voltou a sonhar com a possibilidade de regressar ao altar. Fez saber a quem de direito a sua inabalável disposição de nunca mais voltar a casar. Ao mesmo tempo que dava a conhecer o sonho que ainda acalentava de poder regressar ao exercício do ministério. O Patriarcado de Lisboa aflito que está, como aliás todas as demais dioceses do país, com a actual falta de padres, abriu-lhe de novo as portas e atribuiu-lhe uma paróquia. Desde então, ele aí está outra vez como padre em exercício de funções. Mas já sem a energia e o entusiasmo de antes de casar. Bem pelo contrário. Apresenta-se agora com um preocupante ar desgraçado que, mesmo sem o próprio querer, faz dele uma acusação viva contra esta nossa Igreja católica romana que continua a ser refinadamente cruel na forma como trata os seus membros, inclusive, os seus mais devotados servidores. O Jornal Fraternizar não conhece o padre em causa. Mas conhece de sobejo o drama de tantos outros padres que tiveram percursos idênticos ao seu, pelo menos, no que toca à primeira parte. E não pode calar-se. Nem deixar de mostrar toda a sua indignação perante esta disciplina eclesiástica que, desde há séculos, continua a ser imposta aos padres. Contra os seus mais elementares direitos de seres humanos. Contra o próprio Evangelho de Jesus. E até contra a prática eclesial das comunidades cristãs do princípio, explicitamente testemunhada em algumas cartas incluídas no Segundo Testamento da Bíblia. Dizemo-lo aqui sem rodeios: a disciplina do celibato dos padres não é de instituição divina. De instituição divina é o inalienável direito a optar em consciência, inerente a todo o ser humano. Sem que nenhum poder, muito menos a hierarquia eclesiástica, se possa intrometer. A actual disciplina eclesiástica do celibato dos padres resulta da pura arbitrariedade da hierarquia católica que faz questão de não abrir mão do poder de que dispõe na Igreja, nem dos privilégios que esse poder lhe garante, e cuja manutenção só será possível enquanto essa disciplina continuar estupidamente em vigor. Na verdade, sem esta cruel disciplina do celibato obrigatório, os padres nunca mais serão os funcionários dóceis e reverentes que sempre foram e que, infelizmente, continuam ainda hoje a ser, na maior parte dos casos. Só mesmo adolescentes e jovens que durante anos e anos de internato foram educados para verem na renúncia à própria sexualidade e ao amor erótico o cume da perfeição e da santidade a reportagem televisiva a que aqui nos refirimos mostra, através do depoimento prestado por certos candidatos a padre, que as coisas continuam a fazer-se tal e qual como há trinta ou cinquenta anos é que serão depois capazes, uma vez ordenados padres, de ver na dócil obediência e na servil reverência ao bispo monárquico uma sublimada forma de realização humana. Aliás, o próprio conceito de sacrificialismo, como valor em si mesmo, em que posturas desta natureza se integram, só consegue fazer caminho em ambientes autoritários e no interior de instituições religiosas idolátricas e fundamentalistas que se alimentam de vítimas humanas auto-imoladas em sua honra. E tal tem sido a nossa Igreja católica romana, particularmente, ao nível da sua hierarquia e das suas cúrias, a começar pela mais cruel de todas, a cúria romana. O celibato pelo Reino de Deus, de que nos fala Jesus no Evangelho de Mateus (19, 12) é outra coisa muito distinta. Para começar, não pode ser imposto a ninguém. Sempre há-de resultar duma opção livre de quem o vive. É uma vivência incomum, do âmbito do carisma, não uma prática generalizada, do âmbito do institucional, exigida e imposta a todos os padres, indiferenciadamente. Como tal, há-de aparecer como uma opção pessoal contra o comportamento corrente. E sempre de modo surpreendente e inesperado. Trata-se, por isso, duma modalidade de celibato livre que não gera, como o celibato imposto, homens castrados, obedientes e reverentes ao poder eclesiástico e à minoria privilegiada que o detém, mas homens saudavelmente dissidentes, rebeldes e indomáveis. Nunca é vivido como privação dos afectos, como renúncia e sacrifício, mas como plena realização pessoal, bem na linha do célebre poema bíblico, Cântico dos Cânticos, e também como entrega gratuita à Humanidade mais sofrida e humilhada e a todas as suas causas. Não ajuda a reforçar a hierarquia, nem a instituição eclesiástica que a alimenta, mas denuncia uma e outra com lucidez e audácia, nomeadamente, quando elas se comportam como se fossem donas absolutas das pessoas. A aposta maior de quem assume e vive livremente o celibato pelo Reino de Deus vai inteira para a edificação da Humanidade definitivamente constituída na fraternidade/sororidade universal, nunca para o reforço de nenhum poder, muito menos, do poder sagrado e eclesiástico. Mas este caso do padre de Lisboa, que foi obrigado pela hierarquia católica a abandonar o exercício do ministério presbiteral, por se ter casado; e agora que ficou viúvo se viu de novo autorizado por ela a exercer o ministério revela uma outra realidade ainda mais escabrosa que a anterior, e para a qual queremos aqui também chamar a atenção das pessoas, especialmente, das mulheres católicas e não católicas. O caso diz bem qual é, afinal, o grande problema para a hierarquia católica: Não é tanto a sexualidade dos homens padres, mas sobretudo as mulheres de carne e osso, sexualmente activas. À luz deste caso, é a intimidade sexual com as mulheres, nomeadamente, a intimidade institucionalizada no matrimónio, que torna os padres impuros e indignos para poderem continuar a presidir ao altar. Tanto assim que, enquanto essa intimidade matrimonial se mantiver, os padres que a partilharem não poderão continuar a subir ao altar nem poderão presidir aos ritos litúrgicos. Não serão dignos de tocar no cálice e nos demais objectos de culto. É inacreditável, mas, pelos vistos, é assim que as coisas ainda se pensam e se passam ao nível das cúpulas da nossa Igreja católica romana, apesar de já estarmos a viver no século XXI. Esta visão das coisas e estes comportamentos que constituem uma vergonha de todo o tamanho deveriam fazer-nos corar até à raiz dos cabelos. Mas não fazem. E aqui está a comprová-lo este caso do Patriarcado de Lisboa: depois de tudo o que lhe fizeram, este padre, em lugar de se sentir humilhado e ofendido, ainda se acha protagonista duma prática digna de ser dada a conhecer ao grande público! À luz deste caso, o Jornal Fraternizar faz também questão de sublinhar que experimenta grande dificuldade em compreender como é que ainda pode haver mulheres que continuam a ser capazes de frequentar locais eclesiásticos presididos exclusivamente por homens, aos quais, para cúmulo, a hierarquia católica proíbe, sob pena de compulsivo afastamento das funções, que institucionalizem, sob a forma do sacramento do matrimónio, uma relação afectiva com uma mulher, se essa relação acontecer e for da vontade de ambas as partes fazê-lo. Como é que uma assembleia litúrgica, sujeita a tão cruel disciplina eclesiástica, pode dizer que está reunida em nome de Jesus, o Libertador, e que conta com a inspiração e a assistência do Espírito Santo? Finalmente, importa ainda referir, a propósito, mais um dado importante: a fobia ou o medo às mulheres de carne e osso, por parte da hierarquia católica, foi ao extremo de a levar a transformar a própria mãe carnal de Jesus, a judia Maria de Nazaré, numa mítica mulher sem sexo, ou, pelo menos, sexualmente não activa. Tanto assim que, embora a hierarquia católica admita na sua doutrina oficial que Maria casou com um homem de carne e osso, garante, depois, a pés juntos que, durante os anos que ela partilhou a mesma casa com o esposo, nem uma única vez partilhou com ele um momento de intimidade sexual, nem mesmo para ambos poderem conceber e gerar o filho ou filhos que lhes nasceram! Como se aquela palavra evangélica que revela/proclama que Maria concebeu Jesus por obra do Espírito Santo houvesse de ser interpretada em sentido sexual e ginecológico e não exclusivamente em sentido teológico! Posturas destas são mesmo de bradar aos céus. Por isso, perguntamos, a terminar: Durante mais quantos séculos vamos ter que suportar aberrações eclesiásticas deste calibre?
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As estórias com que se fez a celebração mensal da pequena Comunidade cristã de base de Macieira da Lixa Foi grande a agitação interior ao nível das consciências
Foram múltiplas as estórias ditas no primeiro encontro do ano 2004 da pequena Comunidade de cristãos de base de Macieira da Lixa. Em lugar de dizermos os habituais textos bíblicos, desta vez atrevemo-nos a inovar e abrimos o livro O canto do pássaro, de Tony de Mello, inserido nos dois grossos volumes da sua Obra Completa, acabada de editar, em boa hora, pela Editorial Sal Terrae, de Espanha, e dissemos, como quem declama, algumas das suas mais sugestivas estórias. A mensagem contida nessas estórias é altamente desafiadora e desinstaladora das rotinas em que o Sistema dominante nos quer ver acomodados. Cada estória dita foi imediatamente seguida de diálogo maiêutico, também ele provocador. Ninguém conseguiu ficar indiferente. Foi grande a agitação interior, ao nível das consciências, para não dizer até incomodidade, pelo menos, da parte de alguns dos presentes. Não faltou igualmente quem, perante a força da verdade que se esconde em cada uma destas estórias, optasse por assobiar para o ar, para não ter de se deixar interpelar até à raiz do coração. Mas quantas e quantos estivemos no encontro jamais poderemos deixar de nos vermos à luz que as estórias ditas fizeram acontecer no mais íntimo das nossas consciências. A seu tempo, essa luz há-de levar-nos a novas práticas pessoais e políticas, em salutar dissidência com as práticas que o Sistema dominante pretende impor-nos a todas e a todos. Nunca, como então, seremos tão verdadeiramente humanos e felizes. Até lá, poderemos continuar a assobiar para o ar, mas não passamos de escravos do Sistema. E perdemos o melhor das nossas vidas! São essas estórias ditas por Tony de Mello que o Jornal Fraternizar tem a alegria de aqui partilhar com as suas leitoras e os seus leitores. Não percam uma. E tentem repetir a experiência. Depois duma primeira leitura a solo, experimentem dizer cada uma destas estórias na presença de outras pessoas. E façam também o diálogo maiêutico após cada estória dita e escutada. Verão quanto é intenso o desafio que elas nos fazem. Quem sabe se não nasceremos de novo, do alto, daquele mesmo Espírito que soprou forte em Jesus de Nazaré e fez dele o ser humano por antonomásia. Eis.
Primeira estória: Uma vez, um profeta chegou a uma cidade decidido a converter os seus habitantes. No início, eram muitas as pessoas que saíam a escutá-lo. Mas, pouco a pouco, foram deixando de aparecer, até que o profeta deixou de ter quem escutasse as suas palavras. Certo dia, alguém que passou pela cidade disse ao profeta: Por que continuas a pregar? Não vês que a tua missão é impossível e que ninguém está disposto a ouvir as tuas palavras? O profeta respondeu: No início, eu tinha a esperança de fazer as pessoas mudar de vida. Mas agora, se continuo a pregar, é unicamente para que as pessoas não me façam mudar de vida a mim. Segunda estória: O filósofo Diógenes estava pobremente a comer lentilhas ao jantar, quando o viu o filósofo Aristipo, que vivia confortavelmente, graças ao jeito que tinha para adular o monarca. Disse-lhe Aristipo: Se tu, Diógenes, aprendesses a ser submisso ao monarca, não terias que passar a vida a comer essa porcaria de lentilhas. Ao que Diógenes replicou: E se tu, Aristibo, tivesses aprendido a comer lentilhas, não terias que passar a vida a adular o monarca. Terceira estória: Quando Kruschev pronunciou a sua famosa denúncia da era estaliniana, contam que um dos presentes no Comité Central perguntou: Onde estavas tu, camarada Kruschev, quando foram assassinadas todas essas pessoas inocentes? Kruschev parou, olhou em redor todo o auditório e disse: Agradecia que quem me fez esta pergunta tivesse a bondade de se pôr de pé. A tensão na sala era de cortar à faca. Mas ninguém se levantou. Então disse Kruschev: Muito bem, já tens aí a resposta, quem quer que tenhas sido o que me fez a pergunta. Eu estava exactamente no mesmo lugar em que tu estás agora! Quarta estória: Eu nem queria acreditar no que viam os meus olhos, quando deparei com o nome da loja: A LOJA DA VERDADE. Então, ali vendiam verdade... A correctíssima funcionária perguntou-me que espécie de verdade eu desejava comprar: verdade parcial, ou verdade plena. Respondi que desejava verdade plena. Não desejava fraudes, nem louvaminhas, nem racionalizações. O que eu desejava era a verdade nua e crua, clara e absoluta. A funcionária conduziu-me então a outra secção da loja, onde se vendia a verdade plena. O vendedor que trabalhava naquela secção olhou-me compassivamente e indicou-me a etiqueta que ostentava o preço e disse: o preço é muito elevado. Decidido a comprar a verdade plena a qualquer preço, perguntei: Qual é? Ele respondeu: se o senhor levar a verdade plena, o preço consiste em nunca mais ter sossego pelo resto da sua vida. Quinta estória: Em certa ocasião, Deus mandou prevenir toda gente acerca de um terremoto que haveria de engolir as águas de toda a terra. E advertiu que as águas que substituíssem as desaparecidas haveriam de enlouquecer as pessoas que delas bebessem. Apenas o profeta tomou Deus a sério. Transportou até ao poço da montanha onde vivia enormes recipientes de água, de modo que esta não lhe faltasse pelo resto da sua vida. Aconteceu o terremoto, as águas desapareceram, e uma nova água passou a correr pelas fontes, rios e lagos. Alguns meses mais tarde, o profeta desceu da sua montanha para ver o que se tinha passado. Era verdade: toda a gente se tinha tornado louca e atacava-o e não queria nada com ele, na convicção de que ele era o único louco no mundo. O profeta regressou à montanha, satisfeito por ter tido a precaução de guardar grande quantidade da antiga água. Porém, à medida que o tempo passava, a solidão tornou-se-lhe insuportável. Desejava ter companhia humana. Não resistiu e desceu de novo à planície. Mas ao ver-se de novo rejeitado pelas pessoas, tomou uma decisão fatal: deitou fora toda a água que havia guardado, bebeu da nova água e juntou-se aos seus semelhantes na sua loucura. Sexta estória: Numa aldeia de pescadores, uma jovem teve um filho de solteira e, depois de muito apertada pela família, decidiu-se a revelar quem era o pai da criança: o mestre Zen, que passava o dia a meditar no seu rincão situado fora da aldeia. Os pais da jovem e um numeroso grupo de vizinhos dirigiram-se ao rincão do mestre Zen, interromperam bruscamente a sua meditação, censuraram a sua hipocrisia e disseram-lhe que ele, já que era o pai da criança, tinha que providenciar pela sua alimentação e pela sua educação. O mestre Zen respondeu unicamente: Muito bem, muito bem... Quando se afastaram, deixando a criança no chão, o mestre Zen recolheu-a e fez um contrato com uma mulher da aldeia para que ela se encarregasse dela, a vestisse e alimentasse, que ele lhe pagaria. Mas a sua reputação de mestre espiritual ficou de rastos. Ninguém mais se aproximava dele para ouvir os seus ensinamentos. Um ano depois, a jovem que tinha tido o filho não pôde aguentar mais a situação e acabou por confessar que tinha mentido: o pai do seu filho não era o mestre Zen, mas um jovem que vivia na casa ao lado da casa dela. Os pais da jovem e todos os habitantes da aldeia ficaram cobertos de vergonha. Voltaram junto do mestre Zen para lhe pedir perdão e para que lhes entregasse de volta a criança. O mestre assim fez. E a única coisa que disse foi: Muito bem, muito bem... Sétima estória: Uma boneca de sal percorreu milhares de quilómetros de terra firme, até que finalmente chegou junto do mar. Ficou fascinada por aquela massa enorme de água em movimento, totalmente diferente de tudo o que ela tinha visto antes. Quem és tu?, perguntou ao mar a boneca de sal. O mar, com um sorriso respondeu: Entra e descobre por ti própria quem eu sou. A boneca meteu-se no mar. Mas à medida que avançava por dentro do mar, ia-se dissolvendo, até que dela nada mais restou. Mas antes de se dissolver por completo, a boneca ainda pôde exclamar assombrada: Agora já sei quem sou! Oitava estória: O enamorado apaixonado bateu à porta da sua amada. Quem é?, perguntou, do lado de dentro, a amada. Sou eu, disse o amante. Então vai-te embora, que nesta casa não cabemos tu e eu. O rejeitado enamorado foi para o deserto, onde esteve a meditar durante meses aquelas palavras da sua amada. Finalmente, regressou e voltou a chamar à porta da sua amada. Quem é? Sou tu! E a porta abriu-se imediatamente. Nona estória: O mestre espiritual chegou às fronteiras da aldeia e acampou sob uma árvore para aí passar a noite. De imediato, aproximou-se dele a correr um habitante da aldeia e disse-lhe: A pedra! A pedra! Dá-me a pedra preciosa! Que pedra?, perguntou o mestre. A noite passada apareceu-me em sonhos o Senhor Shiva e garantiu-me que se eu viesse ao anoitecer às fronteiras da aldeia, encontraria um mestre que me daria uma pedra preciosa que me faria rico para sempre. O mestre procurou na sua bolsa e tirou de lá uma pedra. Provavelmente, referia-se a esta, disse, enquanto entregava a pedra ao aldeão. Encontrei-a num carreiro do bosque há uns dias. Podes ficar com ela. O aldeão ficou a olhar a pedra com assombro. Era um diamante. Talvez o maior diamante do mundo, pois era tão grande como a mão de um homem. Guardou-o e foi-se embora. Toda a noite não conseguiu pregar olho, sempre às voltas na cama. No dia seguinte, ao amanhecer, foi acordar o mestre e disse-lhe: Dá-me a riqueza espiritual que te permite desprender-te com tanta facilidade até dum diamante como este! Décima estória: O meu amigo e eu fomos à feira. Era a Feira Mundial das Religiões. Não era uma feira comercial. Era a feira das religiões. A concorrência era feroz e a publicidade era em tudo igual à duma qualquer feira comercial. No stand judeu, deram-nos uns folhetos que diziam que Deus tinha misericórdia de todas as pessoas, mas que só os judeus eram o seu povo eleito. Nenhum outro povo era tão eleito quanto o povo judeu. No stand muçulmano, soubemos que Deus era misericordioso com todos e que Maomé era o seu único profeta. Mas que a salvação só se alcança, escutando o único profeta de Deus. No stand cristão, descobrimos que Deus é Amor, mas que não há salvação fora da Igreja. Ou se pertence à Igreja, ou se corre sério risco de condenação eterna. Ao sair da feira perguntei ao meu amigo: O que pensas de Deus? E ele respondeu-me: Que é intolerante, fanático e cruel. Quando cheguei a casa, perguntei a Deus: Como suportas estas coisas, Senhor? Não vês que estão a usar mal o teu nome, há séculos e séculos? Deus respondeu-me: Repara que não fui eu que organizei a feira. E sentiria muita vergonha se a tivesse visitado!
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11 de Março: o segundo momento do Apocalipse do século XXI Nem todas as pessoas sabem - e as Igrejas também não - que o Apocalipse com que termina a nossa Bíblia cristã não encerrou a Revelação de Deus. Abriu-a em definitivo. Com ele e com o Espírito Santo, as Igrejas estão habilitadas a ler para toda a Humanidade a História, nomeadamente, as prepotências, as mentiras, os crimes em massa que o Império de turno e os seus Estados vassalos cometem. Quase sempre impunemente. Porque Deus, o de Jesus, nunca esteve nem estará com os Impérios, por mais que eles invoquem como quem blasfema o seu nome. A reflexão que se segue é a reprodução integral do texto que o director do Jornal Fraternizar escreveu dia 11 de Março 2004, no seu "Diário Aberto" (www.padremariodemacieira.com.sapo.pt) O dia de hoje, 11 de Março de 2004, fica gravado a sangue na Consciência da Humanidade. Mas com o seu sulco mais profundo na Consciência da Europa. Tal como já aconteceu com um outro dia 11, mas de Setembro de 2001. O massacre que acaba de fazer da capital de Espanha uma Guernica de Picasso ao vivo, com cento e noventa e oito [200] mortos e cerca de mil e quinhentos feridos, muitos deles muito graves, é o segundo momento de um Apocalipse, ou Revelação - o primeiro momento deste Apocalipse ou Revelação foi o massacre de 11 de Setembro de 2001 nas torres gémeas em Nova Iorque - que o mundo, em especial, o Ocidente fará bem em abrir, escutar e interpretar correctamente, em lugar de correr a meter a cabeça na areia dos protestos de multidões humanas nas ruas sem propostas inovadoras nas áreas da economia e da política mundiais que cimentem um próximo futuro outro para a Humanidade, em que nunca mais nenhum povo, nenhuma cultura, nenhuma minoria, nenhuma nação, nenhum país, nenhuma região fiquem de fora da mesa universal dos bens produzidos. E não só a mesa onde diariamente hão-de ser servidos o Pão e o Vinho que satisfaçam todas as nossas fomes corporais, mas também o Pão e o Vinho que satisfaçam todas as nossas fomes de Liberdade, de Cultura, de Desenvolvimento, de Ternura, de Espiritualidade, de Afectos, de Originalidade de cada pessoa e de cada povo. Infelizmente, as primeiras reacções oficiais do primeiro ministro do governo espanhol não foram neste sentido. Apresentou-se perante o país e o mundo - ele sabia que nessa hora de tanto sofrimento humano e de tantas mortes de seres humanos no seu país, o mundo estava todo de olhos postos nele e de ouvidos atentos às suas palavras - vestido de luto, sozinho perante as câmaras de televisão, como animal político ferido no seu orgulho, a jurar a pés juntos que os autores dos atentados serão descobertos, que serão esmagados e que o “terrorismo” será banido da face da terra. Por outras palavras, fez uma declaração de guerra, em tudo semelhante à que fez o politicamente demente presidente George W. Bush, por ocasião do 11 de Setembro de 2001, e cujas consequências estão aí bem à vista, concretamente, em mais este atentado, assim como em outros que, infelizmente, se lhe seguirão, se o Ocidente não arrepiar caminho na sua arrogância económica, política, militar e cultural. Ouvir José Maria Aznar hoje, foi como ouvir dizer: os bons somos nós, os civilizados somos nós, os santos somos nós, os puros somos nós, os honestos somos nós. Ele comportou-se como quem diz: quem não for como nós, quem não estiver connosco, nem com a nossa maneira de organizar e dinamizar a economia do mundo, nem com a nossa maneira de fazer política, nem com a nossa maneira de pensar e organizar a segurança é traidor, é terrorista, é inimigo, é monstro, é a própria encarnação do Mal e, como tal, tem que ser banido sem dó nem piedade do nosso planeta, pois não pertence à nossa raça humana, nem é portador da nossa condição humana! Os madrilenos, por sua vez, pelo menos a esmagadora maioria que hoje saiu espontaneamente (?) para as ruas e amanhã irá sair ainda muito mais - espontaneamente? Mas então as televisões e as rádios não têm muita força mobilizadora? E estão nas mãos de quem? Não é nas mãos de poderosas minorias, cujos interesses egoístas são protegidos pela política do actual Governo? - afinaram pelo mesmo diapasão, reproduziram praticamente a mesma cassete. Ao mesmo tempo que expressavam a sua dor e a sua revolta, porventura, também o seu ódio, em múltiplos monumentos ou altares improvisados de flores e de velas acesas, em memória das vítimas do brutal atentado. Também aqui, nenhuma inovação, por parte da sociedade civil espanhola nas suas reacções públicas a este tipo de acções políticas violentas, sob a forma de atentado, desta vez, um atentado de grandes proporções e de medonhas consequências humanas e sociais. Compreendo que a dor e a morte de pessoas em acções políticas violentas, como o atentado de hoje em Espanha, deixem as, os que sobrevivemos a elas num estado de choque tal, e de raiva, e de esmagamento interior, que, no imediato, nem somos sequer capazes de reflectir e de analisar o sucedido. Talvez, por isso, o silêncio e a imobilidade física ainda sejam a maneira mais humana de começar por reagir em momentos assim. Quase como quem ganha tempo para encontrar a linha de rumo humana que nos ajude a sintonizar com o essencial, geralmente, invisível aos olhos e aos primeiros impulsos que rebentam dentro de nós, mais instintivamente emotivos que reflectidamente emotivos. Ora, só o que é reflectidamente emotivo é que é profundamente humano e pode contribuir para abrir caminhos ainda não andados, mas que terão que ser abertos e percorridos pela Humanidade, se quisermos tornar-nos progressivamente menos lobos uns para os outros e mais humanos uns com os outros. Dói-me a alma, quando me vejo perante acções políticas violentas, como o atentado de hoje em Madrid. Por mim, nunca as conceberia, muito menos, as realizaria. Prefiro morrer a matar seja quem for. Mesmo numa hipotética situação de legítima defesa, prefiro morrer a matar, se de todo em todo não conseguir desarmar o atacante pela via do diálogo, da concertação e da ternura. Tenho para mim que a violência que destrói vidas humanas não é, nunca será, via de fecundidade. Faz correr sangue e quase sempre de pessoas que todos os dias já são vítimas da violência institucionalizada. Desencadeia reacções de mais violência, numa verdadeira espiral irracional que, a partir de determinado ponto, será de todo impossível fazer parar. A violência é a linguagem da selva, das feras, dos poderosos, dos agressores. Mas não podemos esquecer que vivemos permanentemente num estado de violência. A violência institucionalizada. Somos súbditos no país e no mundo, mais do que cidadãos do país e do mundo. Com a ingénua ilusão de que somos cidadãs, cidadãos. Para cúmulo, ainda querem a toda a força converter-nos em vassalos. Querem que passemos de súbditos a vassalos, isto é, que nos tornemos súbditos conformados com essa condição, ao ponto de aceitarmos passar a vida a prestar vassalagem a quem nos mantém sob tutela. Ora, contra esta violência institucionalizada, praticamente ninguém protesta. E quando protesta é apenas contra certos exageros pontuais dessa violência institucionalizada. A esta luz, nenhuma de nós, nenhum de nós pode reclamar inocência. A cumplicidade com a violência institucionalizada faz-nos alvos privilegiados dos que perdem os escrúpulos da intervenção política feita de acções violentas, inclusive, sob a forma de atentados, como o de hoje. Quando os atentados são de consequências pouco significativas, em número de mortos e de destruição de património, a nossa reacção é também pouco significativa. Só perante acções políticas violentas como o atentado de hoje em Espanha, é que nos erguemos como um todo. Para protestar e condenar quem está por trás dessas acções políticas violentas. Nesta hora, dificilmente aparecem pessoas a protestar e a condenar toda a violência. Também e antes de mais, a violência institucionalizada das minorias poderosas e arrogantes nos seus privilégios, geradora da outra. Nesta altura, os protestos e as condenações vão todos para os autores dos atentados, geralmente, acções violentas contra a violência institucionalizada. As populações nem sequer se apercebem que só protestam e condenam um tipo de violência, a dos que fazem acções violentas contra a violência institucionalizada. A violência institucionalizada, nestes momentos, é como se não existisse. Ou como se fosse coisa boa, positiva, indispensável à vida de todas, todos nós. Mas o mais chocante, nestes momentos, ainda é ver as pessoas a correrem para o lado das minorias poderosas que alimentam a violência institucionalizada, a fim de se manifestarem nas ruas lado a lado com elas contra os autores das acções políticas violentas, sob a forma de atentado. Como se só estes fossem violentos. E como se só essa forma de violência fosse de reprovar e de condenar. “Eu vim lançar fogo sobre a terra; e como gostaria que ele já se tivesse ateado! Tenho que receber um baptismo, e que angústias as minhas até que ele se realize! Julgais que vim estabelecer a paz na Terra? Não, eu vo-lo digo, mas a divisão. Porque daqui por diante, estarão cinco divididos numa só casa; três contra dois e dois contra três; vão dividir-se: o pai contra o filho, e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra.” (Lucas 12, 49-53) Estas são palavras postas na boca de Jesus, o paradigma do homem-paz. A paz em pessoa, no escrever do apóstolo Paulo. O paradigma do homem-não-violento. Nascido sob o domínio do Templo de Jerusalém e da Ordem mundial que o Império romano impunha através das poderosas legiões do seu exército, Jesus nem por isso se resignou à condição de súbdito do Império, nem sequer à condição de súbdito do Templo de Jerusalém. Muito menos, passou de súbdito a vassalo. Rebelou-se contra esta violência institucionalizada. Não com outra violência armada. Mas com a violência do Espírito Santo, que é a violência da Vida-com-dignidade, da Vida-com-direitos-reconhecidos, da Vida-com-liberdade, da Vida-com-igualdade-de-oportunidades, da Vida-com-desenvolvimento, da Vida-com-protagonismo-pessoal-e-colectivo, numa palavra, da Vida-com-paz-fruto-da-justiça. Nem os representantes oficiais do Templo, nem do Império se mostraram dispostos a mudar os seus sistemas económicos e as suas políticas, garantia dos privilégios que usufruíam desbragadamente, num insulto às multidões de oprimidos e empobrecidos, como o mesmo Evangelho de Lucas tão plasticamente descreve na sua actualíssima parábola do Rico e do Pobre Lázaro. Aquele, como o Ocidente hoje, “vestia de púrpura e linho fino e todos os dia fazia esplêndidos banquetes”. Este, como o Terceiro mundo hoje, “jazia ao seu portão, coberto de chagas, bem desejava saciar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico, mas eram os cães que vinham lamber-lhe as chagas” (cf. Lucas 16, 19-31). Por outras palavras, fizeram orelhas moucas às suas palavras e às suas acções, algumas delas quase a roçar a violência física, como no caso do Templo de Jerusalém, onde ele andou de chicote em punho, derrubou as bancas do negócio e expulsou quem lá vendia e comprava, numa operação política simbólica que viria a custar-lhe a vida. Mas na sua hora final, que foi também a hora da verdade da sua vida, Jesus escolheu, para escândalo dos “Doze” que andavam com ele, deixar-se matar, em lugar de se antecipar e matar ele os seus opositores armados, responsáveis pela violência institucionalizada que o atingia a ele e a todo o seu povo. Revelou assim que só essa via, a da entrega voluntária da própria vida pela vida do mundo, seria fecunda e desencadearia um movimento de libertação radical que haverá de culminar num mundo integralmente humano, dentro duma Ordem mundial constituída na verdade e na justiça, na liberdade e no Amor, e, por isso, a respirar paz por todos os seus poros. A sua via, manifestamente de porta estreita, ainda está longe de ter sido integrada pela Humanidade. E já vamos no século XXI! O atentado de hoje em Espanha vem dizer-nos que a política e os políticos, infelizmente, continuam a apostar noutras vias. As da violência. Mas não tenhamos ilusões. A pior das violências é a institucionalizada, que é a dos que nos roubam o pão e a dignidade, a voz e a vez, é a que faz de nós súbditos e vassalos, em lugar de cidadãs, cidadãos, mesmo que as minorias poderosas que a praticam e mantêm, nem que seja a ferro e fogo, actualmente enfeitem esta nossa condição com um significativo conjunto de regalias materiais em muitas, muitos de nós, certamente, para melhor nos terem sossegados, acomodados e assim nos levarem a votar neles, em eleições que eles programam, promovem, controlam e, naturalmente, vencem. Contra esta violência institucionalizada, que mantém a verdade cativa na injustiça, mas que as televisões e as rádios das minorias poderosas nunca denunciam como tal, pelo contrário, apresentam como Ordem e como convivência pacífica - acabem os exércitos, as polícias e todas as outras instituições e estruturas de repressão e de prevenção e logo verão o que sucede a essa Ordem e a essa convivência pacífica! - ergue-se, de quando em vez, a outra violência conjuntural. Por mim, nunca irei por essa via. Gostaria que ninguém fosse. Mas não me peçam para condenar cegamente quem, no seu desespero, decide avançar por ela. O que vivamente condeno é a violência institucionalizada, nomeadamente a do Ocidente, ultimamente, mais arrogante do que nunca, incapaz de reconhecer os seus crimes, verdadeiros genocídios causados pelos seus sistemas económicos estruturalmente exploradores e pelas suas guerras preventivas, como a que continua em curso no Iraque, também com o apoio do senhor Aznar, primeiro ministro do governo de Espanha, por sinal, contestadíssimo na altura nas ruas das principais cidades do país; e amanhã, provavelmente, apoiado por muito maior número de espanhóis que acriticamente respondem presente aos apelos das televisões e dos rádios das minorias poderosas de Espanha. Decididamente, a paz não andará amanhã nas ruas de Madrid. Por mais que as pessoas a desejem e clamem por ela. Não há paz, enquanto esta não estiver a beijar continuamente a justiça. Já o profeta Isaías o viu e disse: “A paz e a justiça beijam-se”. Por isso a paz é o bem mais precioso da Humanidade, mas que só acontecerá quando ela aceitar casar com a justiça. Até lá, é a História, sempre aberta. Feita de violência institucionalizada. Contra a qual alguns não resistem a desenvolver acções políticas violentas sob a forma de atentados. Os quais, embora possam deixar (muitos) mortos no terreno, o que os seus autores verdadeiramente pretendem não é isso, mas que os responsáveis pela violência institucionalizada abandonem de vez a sua arrogância e Ordem mundial que os protege e se convertam em simples irmãos e companheiros universais.
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ABORTO: Moralismos e hipocrisias de políticos (e) católicos
A questão do aborto levou o Jornal Fraternizar a consultar a nova página-net do seu director. Eis o que encontrámos no"Diário Aberto" do dia 3 Março 04.
O aborto volta a estar hoje na ordem do dia. E as hipocrisias e os moralismos de certos políticos e de não poucos católicos, com a generalidade dos bispos residenciais portugueses à frente, também. Mas para sua vergonha. O futuro é inevitavelmente das consciências críticas, esclarecidas, iluminadas pela verdade e pela ternura ou misericórdia. Já Jesus de Nazaré, o Homem por antonomásia, nos anda a dizer isto há mais de dois mil anos. Mas os corações empedernidos e as mentes fundamentalistas não há maneira de se deixarem humanizar. Preferem a manutenção de leis sem coração e sem entranhas de misericórdia, como aquela que continua em vigor em Portugal contra o aborto, ao bem efectivo das pessoas de carne e osso. Preferem que as mulheres pobres e não escolarizadas - é sabido que é sobretudo destas mulheres que falamos, quando falamos do aborto e da necessidade duma lei decente que o viabilize em condições de dignidade e de sanidade pública, porque as outras, já escolarizadas e com possibilidades económicas, sempre preferirão o recurso a clínicas privadas no estrangeiro ou mesmo no nosso país, quando se virem a braços com uma gravidez indesejada! - continuem a ter que recorrer ao aborto clandestino, feito em condições de desumanidade absoluta e com manifestos riscos para a sua saúde, e que sejam violadas na sua privacidade, presas preventivamente, interrogadas por juízes nos tribunais e, porventura, condenadas a anos de prisão, a viabilizarem com o seu voto a substituição da actual lei por uma outra que admita a possibilidade do recurso ao aborto nos hospitais públicos, em condições objectivas que revelem tolerância e compreensão para quantas, um dia, no seu desespero, decidiram avançar por aí. Não se trata de obrigar mulher alguma a abortar. Quando nos batemos pela mudança da actual lei por uma outra que descriminalize a prática do aborto (falo assim, porque também eu, como padre católico, me incluo neste movimento pro-lei da descriminalização do aborto), não estamos a defender que abortar passe a ser um bom método anticonceptivo a que se deva recorrer indiscriminadamente. Muito menos estamos a defender que as mulheres pobres que engravidem devam ser obrigadas a abortar. O que defendemos é que nenhuma mulher pobre que, alguma vez, se viu constrangida a recorrer ao aborto, como solução de último recurso e sempre altamente dramática e traumatizante para ela, não se veja encurralada na vida como touro ferido na arena, apenas com a porta do aborto clandestino como possível saída, ainda para cúmulo, sempre com o risco de vir a ser descoberta, presa, julgada em tribunal e condenada a anos de cadeia. O que defendemos é que a sociedade portuguesa do século XXI dê provas de já ser suficientemente tolerante, misericordiosa, compreensiva, humana e abra outra porta a tais mulheres, concretamente, a porta da legalidade que lhes ofereça a possibilidade de entrarem num hospital público, exporem a sua situação e, em diálogo com uma equipa de especialistas com entranhas de humanidade, encontrarem uma solução para os seus casos, precisamente, aquela solução que cada uma delas, no decorrer desse diálogo, achar por mais oportuna e conveniente, sem excluir, evidentemente, o recurso ao aborto em boas condições de higiene e de segurança. Infelizmente, ou muito me engano, ou hoje o Parlamento português vai escrever uma das mais negras páginas da sua história destes quase trinta anos de democracia. Ao que tudo indica, vamos ver deputados do PSD a dobrar a espinha e a própria consciência perante a chamada disciplina de voto imposta pelo líder parlamentar do seu partido. É público que alguns, bastantes mesmo, também se incluem no movimento pro-descriminalização do aborto a que me referi anteriormente, mas hoje vão dar o dito por não dito, ou o não dito por dito. Vão dizer que efectivamente se incluem naquele movimento, mas que não votam a favor dele. E, depois, vão pedir, de corda ao pescoço e de vergonha na face, que as mulheres pobres e o país real esperem mais uns tempos, dois anos pelo menos, e então, já não reféns do CDS/PP, melhor, do politicamente cruel dr. Paulo Portas, poderão finalmente votar de acordo com a sua consciência. Até lá, ninguém, nem mesmo a sua consciência, lhes exija tal coisa. De contrário, perderiam o lugar e os benefícios que ele lhes garante, com todos os demais incómodos que ser homem/mulher de convicções sempre acarreta! Se isto suceder - e tudo nos diz que não haverá surpresas, aliás, só possíveis onde há homens e mulheres a sério! - teremos, como país e como povo, razões de sobra para vestirmos de luto e chorarmos convulsivamente. Porque trinta anos depois de Abril, os moralismos e as hipocrisias de certos políticos parlamentares e de muitos católicos sem Evangelho voltaram a atacar em força e mataram de novo a liberdade. E a vida humana em liberdade.
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Novos livros do Pe. Mário
Ouvistes o que foi dito aos antigos. EU, PORÉM, DIGO-VOS Quando esta edição do Jornal Fraternizar estiver a chegar às mãos das pessoas, já deverá estar à disposição nas livrarias mais um livro do pe. Mário, editado pela Campo das Letras. Tem por título: Ouvistes o que foi dito aos antigos. EU, PORÉM, DIGO-VOS. Alguns dias depois, deverá aparecer um outro livro, editado pela AUSÊNCIA, de Vila Nova de Gaia. Tem por título: Canto(s) nas Margens (ver local mais abaixo). O novo livro editado pela Campo das Letras é o último da série de ensaios teológicos que o director do Jornal Fraternizar iniciou naquela prestigiada Editora do Porto com o polémico, já clássico, Fátima nunca mais, desde então no seu TOP de vendas. Ao todo, são 27 textos, cada qual o mais sadiamente atrevido, nos quais o pe. Mário expõe o seu ponto de vista teológico alternativo e libertador sobre questões fulcrais que continuam a afectar o quotidiano das pessoas, devido à visão moralista e inumana que sobre elas a teologia eclesiástica tem ensinado em catequeses e em pregações mais ou menos terroristas. O livro constitui, por isso, mais uma oportunidade para as pessoas se libertarem de medos e de condenações sem pés nem cabeça que lhes foram incutidos pelos antigos, totalmente à revelia do Evangelho e da sã teologia de Jesus de Nazaré. É também uma oportunidade para se confirmarem num Cristianismo e numa Igreja de rosto humano, inteiramente apostados na humanização do mundo e na promoção do protagonismo histórico e político dos seres humanos, exactamente, como se Deus não existisse. O livro vem precedido de um texto de abertura, que dá suporte ao título de capa e faz a unidade de todos os textos que se lhe seguem. Canto(s) nas margens Como o título indica, este é um livrinho de cantos. Exactamente, aqueles cantos que, ao longo dos últimos anos, o autor escutou e escreveu, no âmbito dos encontros de grupo e de pequenas comunidades cristãs de base que ajudou a formar e que tem gratuitamente acompanhado. Trata-se duma obra leve, de apenas 120 páginas, mas recheada de teologia libertadora feita canto, quadra popular, pequeno poema. A maior parte destes cantos podem ser cantados com músicas populares, conforme indicação sugerida no final de cada um deles. O livrinho abre com uma introdução em prosa, de forte pendor testemunhal, na qual o autor tece considerações várias muito oportunas e vigorosamente interpeladoras. É com algumas dessas palavras que deixamos as leitoras, os leitores, como quem aguça nelas, neles o apetite para o livrinho: ""Estes cantos que escutei e continuo a cantar nas margens com outras companheiras e outros companheiros de Caminhada, são cantos que espantam medos. Fazem explodir grilhões e prisões; Afogam alienações. Despertam consciências. Iniciam gestações que vão desaguar em novos nascimentos de mulheres e homens marcados pelo Espírito do Deus Vivo, por isso, com irresistível tendência para a Partilha dos bens e da vida, indomavelmente livres, radicalmente iguais entre si, incondicionalmente solidários com as vítimas deste mundo, e verdadeiras muralhas de aço frente aos seus vitimadores ou carrascos. São cantos que fazem brotar fraternidades e sororidades teimosamente abertas."
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Agora com nova Direcção e já sem ninguém a morar nas instalações Associação Padre Maximino à procura de um novo rosto
A Associação Padre Maximino, que em Novembro de 2004 vai fazer 18 anos, está a tentar uma reestruturação que, sem perder as finalidades para que foi criada, lhe dê um novo rosto, mais de acordo com as novas circunstâncias e os novos tempos. É uma fase de mais maturidade e, sobretudo, de responsabilidades acrescidas para os seus associados que estão empenhados em alargá-la a novos sócios, a fim de que mais pessoas e mais capacidades se lancem na tarefa de procurar uma sociedade mais consciente e mais solidária, nestes tempos em que a barbárie tantas vezes nos bate à porta. Como não queremos ser cúmplices, pelas nossas omissões, vamos tentando lançar pequenos luzeiros, a indicar que outro mundo é possível. Já foram eleitos os novos corpos gerentes. Neste momento, a Direcção está a trabalhar para que o mais rapidamente possível surja um plano de actividades exigente e exequível, a ser apresentado à nova Assembleia Geral, para que seja enriquecido e aprovado e, sobretudo, seja capaz de mobilizar todos os associados, para que dinamizem outros para as tarefas que são propostas. Às leitoras, aos leitores do Jornal Fraternizar queremos apresentar o projecto do plano de actividades, para que, desde já, se envolvam também e se associem aos nossos projectos, inscrevendo-se como sócios, participando nas actividades, apresentando novas sugestões e, porque não, apoiando financeiramente esta Associação. O melhor apoio financeiro e o mais justo seria que todas as leitoras, todos os leitores do FRATERNIZAR se responsabilizassem por pagar atempadamente a respectiva assinatura. Para já, queremos convidá-los para os encontros temáticos que vão decorrer na sede da Associação, em S. Pedro da Cova, nas tardes dos terceiros sábados de cada mês. O primeiro vai acontecer no dia 24 de Abril, com o tema: 25 de Abril: antes e depois; testemunhos; e agora? Como intervir? Haverá ainda canções próprias e a festa continuará e terá outros condimentos. Plano de Actividades Um plano de actividades está sempre aberto a novas iniciativas, desde que respeitem os princípios da Associação. No entanto, vamos programar o seguinte: 1. Actividades já a decorrer: * Jornal Fraternizar. Tal como foi decidido pela anterior Direcção, só será publicado se tiver financiamento das leitoras, dos leitores para cada edição. * ATL-Actividades Tempos Livres. Vai continuar até que a Segurança Social transfira o Acordo para a Associação de Moradores do Bairro Mineiro. * Artesanato-Costura. Esperamos ser possível dinamizar esta actividade. * Comunidade das Quartas-Feiras. 2. Actividades a desenvolver: * Encontros temáticos abertos a quem estiver interessado. Com periocidade mensal. Decorrerão na tarde do 3.º sábado de cada mês. Poderão ser acompanhados de música e poesia. O primeiro será no dia 24 de Abril (ver notícia de abertura desta página). * Noites de música e poesia. Sempre que houver datas festivas ou motivação para o fazer. Poderão ser acompanhadas de grelhados e caldo verde. * Encontros macro-ecuméminos de Espiritualidade e de Teologia, com a Fé cristã e o Ateísmo em pano de fundo. * Criação de um coro infanto-juvenil. * Educação ecológica. Em colaboração com a Associação de Moradores e a Junta de Freguesia, tentar criar no Bairro Mineiro um dia mensal para limpeza das ruas e arranjo dos espaços ajardinados. * Passeios culturais. Tentar conhecer terras com outras gentes e costumes. * Catalogação dos livros e revistas.
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Livros do Trimestre
História do Cristianismo: I. O mundo antigo (Editorial Trotta, Madrid)
Tudo o que aqui possamos escrever sobre o primeiro dos quatro volumes previstos desta "História do Cristianismo" será sempre insuficiente, se, entretanto, não tivermos conseguido convencer as pessoas a adquiri-lo, para logo o devorarem, estudarem, debaterem. Nas suas mais de 900 páginas, este volume é uma obra absolutamente imprescindível. O presente volume é coordenado por José Fernández Ubiña e Manuel Sotomayor Muro. Os outros três, ainda em gestação, debruçam-se, respectivamente, sobre o mundo medieval (coordena Emilio Mitre Fernández), o mundo moderno (coordena Antonio Luis Cortés Peña) e o mundo contemporâneo (coordena Francisco José Carmona Fernández). Os especialistas em cristianismo antigo que assinam trabalhos neste volume que lhe é dedicado são todos do país vizinho, uns mais conhecidos em Portugal do que outros. José Louis Sicre escreve sobre "O legado judeu"; Miguel Pérez Fernández, sobre "Jesus de Galileia"; Juan Antonio Estrada, sobre "As primeiras comunidades cristãs"; Manuel Sotomayor, sobre "Os grandes centros da expansão do cristianismo", e ainda sobre "Estruturação das igrejas cristãs", "Controvérsias doutrinais nos séculos V e VI", "O cristianismo no Oriente" e "A arte no cristianismo antigo"; José Fernández Ubiña, sobre "O cristianismo greco-romano" e sobre "Constantino e o triunfo do cristianismo no Império romano"; Ramón Teja, sobre "O cristianismo e o Império romano"; Maria Victoria Escribano Paño, sobre "O cristianismo marginalizado. Heterodoxos, cismáticos e hereges do séc. IV"; Francisco Javier Lomas, sobre "O império cristão"; Mar Marcos, sobre "o monacato cristão"; Pablo C. Díaz, sobre "O cristianismo e os povos germánicos"; e Margarita Vallejo Girvés, sobre "O Império romano de Bizâncio.Conflitos religiosos". Atentemos, por exemplo, nestes brevíssimos extractos do trabalho assinado pelo eminente teólogo jesuíta, Juan Antonio Estrada: "Jesus de Nazaré era um leigo, sem participação no sacerdócio judeu e morreu profanamente, sem nenhuma consagração. O novo de Jesus era o seu estilo de vida, a sua solidariedade e semelhança com os homens, em contraste com a distância e os privilégios que o clero hebreu exigia. (...) O sacerdócio deixou de ser uma dignidade e transformou-se numa forma de ser e de viver que afectava toda a gente. (...) Estas características, que mudaram progressivamente a partir da segunda metade do século II, explicam a rejeição que os cristãos produziam inicialmente, tanto nos judeus, como entre os cidadãos do Império romano. Eram acusados de ateus, pessoas sem religião e ímpios, precisamente devido à ruptura que apresentavam com as tradições da época. (...) A partir do século II, nota-se uma crescente tendência a tomar o Antigo Testamento como referência inspiradora e a sacerdotalizar os cargos. (...) A comunidade no seu conjunto perdeu protagonismo, e os leigos em particular, a favor duma crescente sacerdotalização dos ministérios, cada vez mais influenciados pelos modelos do Antigo Testamento e das religiões do Império." Mas a traição mais trágica ao novo de Jesus, viria depois com Constantino. Corram a ver neste volume! Experimentar Deus (L. Boff/ Sal Terrae, Espanha)
É mais um livrinho de bolso, escrito pelo grande teólogo de língua portuguesa, o brasileiro L. Boff. Um total de apenas 160 páginas. Mas uma preciosidade de teologia e de espiritualidade. O original em português é da Editora Sextante, no Rio de Janeiro. É de ler/meditar e chorar por mais. Um dos capítulos tem por título: "Mata as imagens e aparecerá Deus". São dele estas afirmações: "Pregar um Deus sem o mundo teve como consequência a aparecimento de um mundo sem Deus. [...] Ao matar as imagens de Deus, abrimos o espaço para a experiência do Deus vivo e verdadeiro, do Mistério inefável e sensível ao coração. Por isso, o ateísmo que nega as representações de Deus, oferece a possibilidade duma verdadeira experiência de Deus, o qual habita nas nossas representações, mas ao mesmo tempo está sempre para além e para quém delas." Por sua vez, no capítulo: "Como aparece Deus no mundo da tecno-ciência?", podem ler-se estas sábias palavras: "Deus não aparece no nosso mundo como um fenómeno. Se o fizesse, também seria objecto de análise e de ciência. Já não seria o Deus divino do Mistério; seria um ídolo."
Cristianismo: Memória para o futuro (Duquoc/ Sal Terrae, Espanha)
O original em francês foi editado pelas prestigiadas Éditions du Cerf. O autor é padre dominicano sobejamente conhecido. Não hesitem em mergulhar nas suas 135 páginas. "A apresentação que vamos fazer- explica o autor - será esquemática, sobretudo porque vamos apresentar os factos referentes a uma hipótese: a fé primitiva manteve-se afastada de toda a vontade de dominação social e política, e só com o seu êxito no séc. IV (conversão do Império) se deparou com a missão de transformar o mundo segundo a utopia bíblica, interpretada então de um modo novo. Esta interpretação duma tarefa sócio-política da fé levou a criar, mais tarde, a cristandade, forma terrena de um messianismo institucional. Foi êxito e ambiguidade. A partir da Reforma, que no século XVI lhe desferiu um golpe mortal, não deixou de continuar a ser uma obsessão para a fé oficial. Na década de 70, o concílio Vaticano II inaugurou o luto por esta orientação; contudo, não deixou de alimentar o sonho de certos cristãos num mundo justo e pacífico, sob a realeza de Cristo. Não é impossível que a fé volte a ser credível, se conseguir superar esta nostalgia e este obstáculo, reeditando, sem dúvida de outra forma, o seu projecto originário. Seguramente, reencontraria assim o alento da esperança última, tão provocadora para quantos preferem resignar-se ao status quo sócio-político. «Lembra-te do teu futuro», diz o quarto mandamento, segundo J.-M. Ouaknin." Ainda no Prólogo, o autor oferece-nos uma rápida panorámica do seu livro: "Este livro está organizado da maneira seguinte: Consagraremos a primeira parte ao nascimento da fé; na segunda parte ocupar-nos-emos da consolidação da comunidade; na terceira, contemplaremos o seu abalo sísmico: o sonho político; e na quarta e última parte assistiremos ao luto pela cristandade e ao sobressalto. A história da fé é a história duma travessia na noite, sem concessões nem à resignação nem à desesperança." O livro encerra com esta proclamação: "A fé revela-nos na obscuridade que Deus actua no nosso presente e convida-nos a que a história seja duma maneira profana uma parábola do Reino que vem. O rumor do fim do cristianismo não passa de um falso rumor. Paralelos do Antigo Testamento (Vários/ Sal Terrae, Espanha)
Ao todo, são 61 escritos ou estórias célebres, originárias da Mesopotâmia, Ásia Menor, Síria-Palestina e Egipto. Algumas delas já foram escutadas no ano 3000 antes de Cristo! Se as ler, vai ficar desconcertado, pois terá de concluir que afinal a Bíblia não é assim tão original como sempre nos tem sido dito. São 375 páginas absolutamente imperdíveis!
Quem apenas conhece os relatos do Antigo Testamento, em cada um dos livros que o compõem, tem agora a oportunidade de os poder confrontar com estes outros relatos paralelos extra-bíblicos, contemporâneos ou mesmo anteriores aos dos livros bíblicos. Os autores do livro têm o cuidado de apresentar cada selecção de escritos, sob a mesma designação dos conhecidos livros bíblicos. Assim, sob a designação Génesis, encontramos neste volume doze relatos: Hino a Ptah; Hino a Rã; Mito Enuma elis; Epopeia de Guilgamés; Mito Enuma ilu; Mito de Adapa; Arquivos de Nuzi; Anais de Hatshepsut; Anais de Dedumoses; História de Anubis e Bata; Epopeia de Aqhaatu; Epopeia de Kirta. O mesmo sucede sob a designação de Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio, Josué e Juízes, Rut, Samuel e Reis, Crónicas, Esdras e Nehemias, Job e Eclesiastes, Salmos e Lamentações, Provérbios, Ben Sirá e Sabedoria, Cântico dos cânticos, Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel, Oseias e Amós. "Quando eu chego - é do Hino a Rã - começa o dia / quando o todo poderoso fala, tudo vem à vida. / Não havia céu nem terra / não havia terra seca nem répteis na terra. / Então falei e as criaturas vivas apareceram. / Fi-las dormir em Nun o mar / até que houve terra onde pude apoiar-me. / Quando comecei pela primeira vez a criar / quando sozinha planeava e desenhava todas as criaturas / não tinha soprado Shu o vento (...)".
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Pela Paz contra a guerra no Iraque Também estivemos lá
Foram múltiplas em todo o mundo as manifestações públicas pela Paz contra a guerra no Iraque. As manifestações ocorreram nas principais cidades do mundo, também em Lisboa e no Porto. Jornal Fraternizar fez-se presente, através do seu director, na manifestação que se concentrou na Praça da Batalha, no Porto. Todas as guerras são crime e não têm qualquer justificação, por mais que os seus autores tentem atirar poeira aos olhos dos povos. A guerra do Iraque leva já um ano e toda a gente se lembra que foi desencadeada sob o pretexto de que Saddam Hussein possuía armas de destruição maciça. Um ano depois, as armas de destruição maciça continuam por encontrar no Iraque e, hoje, é manifesto que esse argumento não passou de pura mentira inventada pela administração Bush. O crime, por isso, é ainda mais grave. E as consequências negativas para o Ocidente e para o mundo em geral estão cada vez mais à vista. Porém, o Ocidente, em lugar de reconhecer o crime e desistir da guerra, é contumaz e prossegue com a guerra sem fim à vista, ao mesmo tempo que se mobiliza e se arma ainda mais contra o que todos os seus dirigentes à uma classificam como "terrorismo" e "ataques terroristas". A histeria ocidental não pode ser maior. E encontra eco em quase todos os media de grande impacto. Os povos do mundo que há um ano atrás se mobilizaram nas ruas das grandes cidades, num derradeiro esforço para tentar impedir o iminente início da guerra no Iraque, agora, que a guerra já leva um ano, não se mostraram tão aguerridos contra ela. Sinal de que o discurso dos dirigentes dos países do Ocidente, veiculado pelos media começa a produzir algum efeito. Mas Bush e os seus vassalos dirigentes ocidentais, Durão Barroso incluído, que se cuidem. Porque o que eles chamam de "terrorismo" é fome e sede de Justiça! E nenhuma guerra a faz parar. Jornal Fraternizar informa
Desde o passado dia 15 de Fevereiro de 2004, o director do Jornal Fraternizar passou a morar numa casinha alugada na freguesia de Macieira da Lixa. Tão surpreendente mudança corresponde à vontade do próprio pe. Mário. Deste modo, a casa-sede da Associação Padre Maximino, onde residiu até agora, fica, pela primeira vez, sem ninguém lá a morar, o que pode e deve dar início a um novo ciclo na sua existência (ler nesta edição, p. 26). Com esta mudança de residência e de terra, o pe. Mário deixou, a seu pedido, o serviço de presidente da Direcção da Associação (é agora presidente da A. G.). Mantém-se, até ver, como director do Jornal Fraternizar. É óbvio que a presença do pe. Mário em Macieira da Lixa, onde antes do 25 de Abril 74, foi pároco, com direito a duas prisões políticas em Caxias e a dois julgamentos no Tribunal Plenário do Porto e de onde acabou por ser compulsivamente afastado, há trinta anos, por decisão do então Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, não tem nada a ver com esse seu velho estatuto eclesiástico de então, ainda que tenha tudo a ver com a relação presbiteral ao serviço do Evangelho que ele continua empenhado em manter gratuitamente com aquele povo. Nesta altura, Macieira da Lixa continua a dispor de pároco residente, por sinal, um jovem padre sensivelmente da mesma idade que o pe. Mário tinha, quando lá exerceu idênticas funções, já então em moldes muito pouco canónico-burocráticos, porque densamente humanos e fraternos. O facto não impede o pe. Mário de voltar a viver lá evangelicamente com o povo. Continua a ser seu companheiro e servidor gratuito, sempre na linha da libertação e da consciencialização, como é seu timbre. Não tem qualquer poder eclesiástico. Não frequenta o templo. Não vai à missa ao domingo (celebra em pequenos grupos e pequenas comunidades). Não se revê naquele modelo de Igreja. Continua a dar corpo a um modelo alternativo de Igreja, dentro da mesma Igreja católica, da qual, como se sabe, é presbítero ordenado, ainda que sem qualquer ofício pastoral oficial. Este novo modelo de Igreja acontece fora dos templos, na intimidade das casas das pessoas que progressivamente se abrem aos demais, com os quais constituem pequenas comunidades cristãs de iguais, vivamente centradas na escuta dialogada da Palavra de Deus e no Pão e no Vinho da vida partilhada e gratuitamente entregue aos pobres. Por isso, quem, agora, quiser contactar o pe. Mário, mesmo na sua qualidade de director do Jornal Fraternizar, deverá ter em conta as alterações de telefone, fax, morada e de e-mail, já que apenas o seu n.º de telemóvel se mantém igual. Também poderá entrar e viajar no novo sítio que ele criou na net e que sucessivamente actualiza. Eis: Morada: Lugar da Maçorra 4615-413 MACIEIRA DA LIXA. Telf-Fax: 255 496 358 E-mail: padremario@sapo.pt Sítio-1: www.padremariodalixa.cjb.net Sítio-2: www.padremariodemacieira.com.sapo.pt
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© Página criada 1 Abril de 2004 |
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