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Textos do
Jornal Fraternizar- |
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| Edição nº 152, de Janeiro/Março 2004 (Continuação) | ||||||||||||||||||||||
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Outras cartas
MENSAGEM SATÂNICA Paróquias de Campo Maior. António João Pires Roque: Temos recebido, nestas Paróquias, dois pasquins blasfemos que ferem profundamente a Mãe Igreja e a Santíssima Virgem, logo ferem-nos a nós Católicos. Exigimos que doravante cessem o envio dos mesmos, a fim de que a mensagem satânica não continue a conspurcar a nossa caixa de correio. Os pasquins são endereçados ao Reverendo Cónego Donaciano Afonso, distinto Pároco de Campo Maior (que nunca os descintou) e ao Reverendo Padre Jorge de Matos que, há muitos anos, não está nestas Paróquias. Assim, repetimos novamente, exigimos que não voltem a ser remetidos tão abjectos papéis. Se persistirem na remessa accionaremos os meios legais ao nosso alcance. A partir de agora todos serão devolvidos. Continuamos a pedir a Nossa Senhora de Fátima a conversão dos pecadores, em especial os sacerdotes blasfemos e obstinados no pecado.
QUE EMBUSTE! S. João de Ovar. Bruno Miguel Meu caro amigo: Não o conheço pessoalmente, mas atrevo-me a tratá-lo como amigo. Conheci-o através da televisão, num saudoso Conversas Secretas com Baptista Bastos. Irónico, não? Ver e ouvir alguém tão lúcido, tão simples, tão humano nesse medium que hoje é o principal motor dos medíocres, dos idiotas, dos poderosos como aquele que deu graças a N.ª S.ª de Fátima por ter desviado as manchas do Prestige das nossas santas águas... Mais tarde, reencontrei-o nesse grande livro Fátima nunca mais e uma posterior visita ao santuário só serviu para confirmar tudo o que li. Que embuste nos querem impingir!... Entretanto, trabalhei num jornal chamado Notícias de Lourosa esta terra diz-lhe alguma coisa? e um dos meus projectos passava por entrevistá-lo. Não foi possível, porque o jornalismo acabou para mim, no momento em que percebi que também aí nos pequenos jornais de província quem aparece, quem é promovido, são os medíocres, os idiotas que pululam nas autarquias, nas empresas, nos clubes desportivos, nas estruturas partidárias, etc. Mudei de profissão, mas continuei a ler Eça, Saramago, Tabuchi, Ari dos Santos, Jorge Amado, Steinbeck e, claro, Mário de Oliveira. Como Farpas. Mas com ternura, um livro obrigatório para quem se recusa a pactuar com esta merda que se chama mundo, como muito bem disse Saramago. Como quero continuar a lê-lo, e sabendo que publica periodicamente o Jornal Fraternizar, venho por este meio manifestar o interesse em assinar o seu jornal, juntando os euros correspondentes ao valor da assinatura anual. Um grande abraço e um até breve.
TOTAL IDENTIFICAÇÃO Porto. Mariana Leite: Caro Pater (ou deverei dizer Frater?) Mário: Chamo-me Mariana, tenho 18 anos e sou do Porto. Comprei o seu livro E Deus disse: do que eu gosto é de política, não de religião (título bem comprido, hem?), na Feira do Livro, onde aliás me deu um autógrafo (e dois beijinhos!). Bom, o motivo pelo qual lhe escrevo provém da total identificação com as vigas mestras do pensamento que estabeleceu no livro. Sou uma pessoa que descobriu Deus o/a Eter(no) que une como o ar todos os humanos e (cada um a si), há pouco tempo. Isto porque toda a minha infância foi vivida com uma noção de Deus lá fora, tão lá fora, até desaparecer totalmente. Acho que tinha 9 anos, quando deixei de achar que esse tal Deus das ladainhas e das catequeses existiria. Claro que tive momentos de fraqueza: a necessidade de pertencer a um grupo, a uma instituição, é muito importante para qualquer um, sobretudo, entre os adolescentes. A família da minha mãe é toda católica. Tão, tão católica (com excepção da minha mãe que se abstém um pouco), que me minhocou a cabeça para que, aos 7 anos (e enlevada pela festa de um casamento) fosse baptizada. Não tinha alma, e iria para o inferno, arder com os piores facínoras da Humanidade (bem, na altura não sabia, mas provavelmente também com muitos clérigos inquisidores, pregadores, evangelizadores do Império). Ora bem, agora que já me expus um bocadinho, vamos à coisa em si. Gostaria muito de poder assinar o jornal onde publicou primeiramente as crónicas, o Fraternizar. Já lhe deitei os olhos na internet, mas viva o papel entre os dedos! É de resto por isso que lhe escrevo poder-lhe-ia mandar um e-mail, mas isso não dá o mesmo gosto nem a mesma intimidade. Mesmo assim, subscrevo o meu endereço na net. Outra coisa que me interessou muito foram as comunidades cristãs de base, e gostaria de obter mais informações (curiosidade). Finalmente, uma questão (quase) idiota, mas para mim, imperativa. Isto advém da minha mais recente e verdadeira tentativa de me aproximar/deixar transbordar por Deus. A questão é que tentei uma primeira aproximação através do que me era familiar a Igreja católica. Falei com um padre, de resto bastante jovem, mas que me objectou a possibilidade de pertencer ao Reino de Deus (o etéreo Reino da Igreja) por um motivo meramente político: sou comunista. Ó diabo! (há-de ter pensado o tal padre). Mas então eu, e nós (falo pelos meus companheiros, pais, namorado...) não somos parte do mundo? Não podemos ter um Deus, o/a verdadeiro/a Matrix/criador universal? Era esta a pergunta. Bem, tenho muito assunto para escrever, mas reservo-o (espero que haja) para a próxima oportunidade. Isto, claro está, se não for chatear muito! Um grande beijinho.
NÃO ME IDENTIFICO MINIMAMENTE Estoril. Cândida Silva: Sr. Mário de Oliveira: Por favor, não volte a enviar-me o seu jornal. Já não aguento mais os seus ódios, as suas raivas, as suas frustrações. As suas obsessões. Não me identifico minimamente consigo, na realidade, já não sei o quê nem quem o senhor é.
APOIO E LOUVO Guimarães. Manuel Reis: Aqui vai um cheque de... para a próxima anuidade do Jornal Fraternizar, esperando e fazendo votos que ele não morra! Chegou-me hoje o último n.º de Out.º/Dez.º 03. Já gastei duas horas com ele. Se me pedes um juízo pessoal, apoio e louvo a necessária radicalização (a palavra é imprópria... mas é só para nos entendermos!) que ele tem sabido assumir. Olha, e até gostei daquela Liturgia fúnebre/festiva, a que presidiste e providenciaste em Macieira da Lixa. É preciso fazer cair todas as máscaras e caramanchões, todas as duplicações que as religiões institucionais trouxeram à vida do Sócio-Anthropos, impedindo este de se tornar adulto e se libertar. Uma delícia, o texto de José M. Castillo. Coincide com a minha tese do Primado absoluto do Justo sobre o Verdadeiro e constitui uma boa desmontagem do Cristianismo histórico-doutrinal. Aí vai um forte e afectuoso abraço.
POLÉMICAS DOUTRINAIS Ponta Delgada. Pe. Nuno Filipe: Cordiais saudações e votos de bem-estar, no Senhor. Chegou-me às mãos o livro Inquérito aos assinantes do Jornal Fraternizar, que estou lendo para conseguir uma ideia o mais possível objectiva sobre o Jornal Fraternizar, que V. Rev. dirige. Melhor: as ideias que há muito vem divulgando e que não são aceitáveis, muitas delas, ao confrontá-las com a Mensagem de Jesus (não me mande o jornal, porque há muito que o conheço; já o li e não consigo concordar com muito do que diz). Lamento estas polémicas doutrinais. Jesus quer que os seus discípulos estejam unidos. A divisão vem do Diabo (palavra que literalmente quer dizer Divisão). Confrange-me o coração ver que se levantam polémicas apaixonadas, que servem para afastar a muitos do Caminho, a Verdade e a Vida, que é Jesus, como ele próprio disse. Da minha parte, continuo muito ligado a Nossa Senhora (a Senhora do meu coração). Estive em Fátima o mês passado. Rezei muito na Capelinha das Aparições. Chamem-me sentimentalista, se quiserem. Maria é minha Mãe! Tenho na minha mesa de trabalho a sua imagem. Gosto de olhar para Ela e rezo à minha vontade. Caríssimo P. Mário: Peço-lhe encarecidamente que reveja a sua posição em referência à Igreja, santa e pecadora, é certo, mas não vamos aumentar os pecados. O seu caso é singularíssimo. Peço-lhe que não vá para a TV dizer inconveniências. Erros palpáveis. Não fale mais de Fátima. Se não concorda, deixe os outros concordar. Não estou a repreender. Estou tentando ajudá-lo a acertar o passo com quem se mantém fiel à Igreja, incluindo, é claro, a hierarquia. Fico rezando por si. Que a nossa Mãe o inspire e ajude. Com votos de muita saúde e bem-estar.
N. D. Pe. Nuno Filipe. Meu caro companheiro: Recebi a sua carta. Reparei que tem e-mail. E prefiro responder/conversar consigo por este meio. É mais rápido e directo. Não sei se lhe chega sem interferências, ou se passa por outros olhos. Arrisco. De resto, o que lhe digo pode ser lido por toda a gente. Tal como a sua carta que teve a amabilidade de me escrever. E que agradeço. Não lamente as polémicas doutrinais. Alegre-se com elas. Então não sabe que Jesus foi o maior polemista no seu tempo e país? Quer maior polémica do que ele trabalhar sistematicamente em dia de sábado? E, depois, ainda argumentar, em defesa das suas propositadas infracções à lei do descanso sabático, com palavras como as que o 4.º Evangelho põe na sua boca O meu Pai trabalha continuamente e eu também trabalho? Será que o Pe. Nuno Filipe desconhece que Jesus foi um homem em conflito, e precisamente com as autoridades constituídas que, no seu tempo, se pensava que eram escolhidas pelo próprio Deus? Não é verdade que, por via disso, nós, as cristãs e os cristãos, sempre seremos discípulos de um Crucificado, que é Jesus de Nazaré, de um rebelde, muito justamente condenado à morte e executado, segundo os preceitos da Lei de Moisés, interpretados pelos chefes dos sacerdotes e seus teólogos de serviço? Porque havemos então de lamentar as polémicas doutrinais, quaisquer que sejam, e em especial as polémicas doutrinais em torno de Fátima e da sua senhora cega, surda e muda? O Pe. Nuno Filipe confessa-se um homem muito ligado a Nossa Senhora (a Senhora do meu coração), diz textualmente. Neste particular, sou eu quem lamenta esta sua postura. Porque ela não está nada de acordo com a prática de Jesus. Já imaginou Jesus em Fátima? Já imaginou Jesus a fazer sua esta confissão que me faz? Alguma vez ele poderia dizer que está muito ligado a Nossa Senhora e que ela é a senhora do seu coração? Por mim, lamento esta sua postura. É uma postura em total contradição com a Fé Cristã jesuánica. Se já tiver lido o meu livro FÁTIMA NUNCA MAIS saberá que nossa senhora significa nossa deusa. Não tem nada a ver com Maria, a mãe de Jesus. Trata-se simplesmente duma deusa mítica que depois de dois mil anos de cristianismo continua a ser adorada/idolatrada, e constitui a prova inequívoca de que o politeísmo pagão não foi erradicado da mente e do inconsciente colectivo das populações. Pelos vistos, nem mesmo de certos padres. Não estranho, depois que nos foi dado ver que até o nosso Papa João Paulo II vai pelo mesmo caminho!... Como é que a imagem morta duma deusa mítica pode ser a senhora/dona do seu coração? Já pensou o que isto significa? O que lhe diria um psicanalista? Uma coisa me magoa na sua carta: É esse ar de santidade/virtude com que se me dirige. O Pe. Nuno Filipe nunca se põe em causa. Só eu é que estou perdido e, se não arrepio caminho, estou tramado. Eu é que estou a ser infiel à Igreja. O Pe. Nuno Filipe e os outros padres e os bispos que vão a Fátima e rezam na capelinha das aparições, não. São todos muito exemplares e até se permitem corrigir-me e admoestar-me, para que eu volte ao rebanho dos que se mantêm fiéis à Igreja. Por outro lado, a que título me diz que reza por mim e não é capaz de me pedir que reze por si? Então não sabe que Jesus a única coisa que detestou nos seus conterrâneos foi a virtude/santidade dos fariseus, e não os pecadores públicos? Não, Pe. Nuno Filipe, não reze por mim, como quem pede a minha conversão à deusa/senhora de Fátima. Pelo contrário, alegre-se com a minha vida. Aprenda com Deus, o de Jesus, a gostar das pessoas como elas são, nas suas diferenças. Sem moralismos. E deixe-se interpelar por este meu jeito de ser presbítero da Igreja católica, pela minha postura fecundamente protestante e pelas salutares polémicas que a minha vida tem desencadeado e continuará, certamente, a desencadear. Afinal, se pensar bem, Deus gosta dos pecadores e para eles veio em Jesus de Nazaré, seu filho muito amado, o maldito segundo a Lei. Olhe que Deus gosta é do filho mais novo que deixou a casa paterna e espatifou tudo com meretrizes. Foi a este que Ele fez uma festa de arromba, enquanto o filho mais velho, muito cumpridor da lei e muito virtuoso, nem sequer foi capaz de se integrar nessa festa. Apesar de tudo, obrigado pela sua carta. Escrever-me, revela que ainda me reconhece e se preocupa comigo. Mas em lugar de querer que eu me torne um devoto de nossa senhora e passe a rezar na capelinha das aparições, deixe-se interpelar por este meu jeito de ser e de viver, aparentemente secular e ateu de todos os deuses e deusas que se alimentam de gente. Quem sabe se não acabará por ser menos de nossa senhora e mais do Deus Mãe/Pai que nos habita e nos trabalha continuamente para nos fazer à sua imagem e semelhança? Aceite o meu abraço companheiro. Padre Mário.
FAZ FALTA À IGREJA Lisboa. Pedro Manuel: Serve a presente carta para iniciar a assinatura do seu Jornal. Solicitar-lhe-ia ainda que me envie o 1.º n.º deste ano 2003, referente aos meses de Jan.º/Março. Gostaria de lhe dizer que sou com muita alegria cristão católico. Conheci-o como muitos portugueses através da publicidade que a TV lhe oferece. Depois comprei o seu livro Fátima nunca mais. Aqui tomei conhecimento do seu sítio na internet onde o conheci mais e onde igualmente tomei conhecimento do seu jornal. Mais coisa menos coisa, tenho uma Cristologia muito identificada com a sua, bem como um modo de apostolado bem à imagem do próprio Jesus: Amor, Vida, Serviço, Fraternidade e Justiça. Aliás como entre outros, D. António Ferreira Gomes, D. Manuel Martins, D. Januário Torgal Ferreira, António Matos Ferreira (Prof. UCP História) e D. António Monteiro. Por outro lado, há aspectos do seu pensamento e acção com os quais não concordo tanto, mas isso só numa conversa que me desse o prazer de ter consigo, aquando duma passagem minha aí na zona norte. Embora saiba que é uma reconciliação quase impossível, o que eu mais posso lamentar é o hiato que existe entre si e a Igreja, pois considero que a sua afirmação cristã faz muita falta à mensagem da própria Igreja. Mesmo assim continue sempre a utilizar o título de padre, para que todas as pessoas vejam que é mais que legítimo, sendo uma obrigação moral e de consciência o que muitos outros homens da Igreja deveriam também tomar. Com os melhores cumprimentos em Cristo Jesus.
SERÁ QUE O JORNAL CORRE MESMO O RISCO DE ENCERRAR? Caldas de S. Jorge. José Pinto da Silva: As melhores saudações, caro Mário. Na última página do nº. 151 do Fraternizar deixaste uma mensagem (N.D.) que me deixou a pensar, sobretudo a parte De contrário, desaparecemos. A decisão é sua. Completaram-se 16 anos de vida que, numa pessoa é adolescência, mas num órgão de comunicação é idade adulta. Dezasseis anos que viveu o jornal, de certeza com muitas dificuldades, mas lá foi marchando e, não sendo embora leitor desde o início, não me recordo de ter lido um tão aflitivo apelo. Será mesmo assim, o jornal corre o risco de encerrar, ou trata-se de uma forma de vitimização para tocar corações? Enfim, uma técnica publicitária comercial? Vou crer que não é este o caso e que se está numa situação de real dificuldade, que o risco de não continuidade existe mesmo. Neste caso poder-se-á perguntar e não tenho a pretensão de saber da verdadeira vida económica do jornal e da entidade proprietária se, ultimamente, tem havido perda de assinantes e de apoiantes. E se for o caso, poder-se-á perguntar se haverá alguma razão objectiva para que tal ocorra, devendo dizer-se que, com a passagem a trimestral, os custos terão sido reduzidos substancialmente. Espero eu. Poderá a dificuldade acrescida que sentem as famílias mais pobres nos tempos que correm ser um factor, considerando-se que o grosso dos leitores pertencerá a este estrato. É capaz de não ser essa a primordial razão tendo-se em conta que a assinatura não é assim elevada. O que receio, e não afirmo, longe de mim, é se, porventura, nos últimos tempos a radicalização do jornal fixando-se nalguns temas que mexem com a sociedade portuguesa, e não só com a católica, ou que se diz católica, mas também com os que professam outra corrente cristã ou mesmo com muitos que, sentindo-se agnósticos, sentem em si a mágoa sentida pelos que se sentem mais mexidos no seu interior. Não precisas, caro Mário, de ensinamentos e muito menos de quem sabe bem menos, mas aceitarás que te diga que eu próprio, não discordando de ti em muitos princípios, não sinto o mesmo quanto à forma como lanças os temas para debate. Seja no que respeita ao que dizes do papa actual e na forma como o dizes, seja na forma como tratas a actual hierarquia da igreja portuguesa e como tratas tudo o que seja hierarquia, como se, num mundo organizado, fosse possível viver-se sem cadeias hierárquicas. Tu mesmo, no meio em que te inseres, encadeias-te numa hierarquia, mais ou menos rígida, com leis mais ou menos flexíveis. E todas as espécies do reino animal se organizaram em hierarquias e, não servindo de exemplo para nós, vale mais o que tem mais força. O fenómeno de Fátima, e sabes o que penso sobre ele porque te dei cópia do que escrevi à direcção do Santuário, atravessa, queiramos ou não, transversal e longitudinalmente, a sociedade portuguesa, e não só. E atravessa-a com os laivos que, melhor que eu, conheces. E as pessoas, milhões delas, que acreditam no fenómeno, mesmo que ele não tenha sido o que é propalado, ficam absolutamente sideradas com o que dizes e como o dizes. E, se é teu desígnio espalhar a verdade, acho que tens que dar mel e não só vinagre. Receio que seja sobretudo a forma de expor a doutrina que leva a que as pessoas aceitem menos o jornal, o apoiem menos, o leiam menos (conheço quem o recebe, o não lê e não o paga, quem o paga, mas não o lê consideração à tua pessoa, o pagamento, protesto, a não leitura). E isso dará razão aos teus receios. Por outro lado, não deixarás de reconhecer que tens dado espaço demasiado à política pura e, não podendo ser considerado o órgão oficial de nenhum partido político, o Fraternizar descarrega demasiada bílis política nas suas páginas e com uma tendência demasiado marcante. Tu, porque sofrido politicamente, poderás ter razão para, numa visão política, teres aversão a tudo o que cheire a alguma direita ou meia esquerda. Mas o jornal, se tem que viver, tem que ser para outros que não tu sozinho. E os que te seguem de olhos fechados, não chegarão para manter de pé um jornal. Será possível dar uma virada aos critérios? Eu, que não sou influenciável, continuo a receber o jornal, a lê-lo (não como uma cartilha) e a apoiá-lo. Mas eu e mais alguns quantos como eu, seremos poucos, ou não bastantes. Um forte abraço.
ASSINATURA A FAVOR DE UM AMIGO Algés. Gabriela: Em 2 de Novembro de 2003, enviei-lhe o meu cheque de... para a minha assinatura e agora junto outro cheque de... para uma nova assinatura a favor de um amigo, pedindo-lhe o favor de lhe enviar ainda este mês os números anteriores 150 e 151. Essa pessoa é um advogado com um desapego natural que oferece a muitos os seus serviços gratuitamente, mas vive imerso na maior depressão não confiando que o bem sustenta o ser humano devido à sua imersão diária no seu lado negro. Costumava enviar-lhe a versão portuguesa do Le Monde Diplomatique como forma de lhe mostrar que há consciência social activa, mas é uma visão desprovida de espiritualidade, por isso muito limitada. Optei por avançar a partir deste mês com o Fraternizar, confiando que lhe abra os horizontes da alma para o sentido do percurso não visível que é afinal onde se encontra a nossa realidade.
NÃO FALO MUITO COM PADRES E-mail. Maria Ferreira: Padre Mário, em primeiro lugar, dizer que estou a ler o seu livro Fátima Nunca Mais e a adorar, é emprestado, só não o compro porque actualmente estou no desemprego, como muita gente infelizmente. Outro assunto, eu não falo muito com padres, pelo menos com os da minha cidade, porque são muito arcaicos, quando estive em Espanha falava muito com um padre mexicano que era impecável. Eu não sou das pessoas mais crentes, tenho muitas dúvidas sobre Deus (sem querer ofender), por exemplo, quando faleceu a minha avó, de repente senti necesidade de ir à missa, que com o tempo me passou. Outra coisa é que há 3 anos tive uma depressão e embora agora esteja quase boa ainda tenho dificuldades em muitas coisas e as pessoas, por exemplo a minha mãe, perdem a paciência comigo porque pensam que eu não quero fazer as coisas, não perecebem que não consigo ainda. E há um problema que me preocupa, eu tive esta depressão por viver em Madrid, mas não sei se hei-de voltar ou não porque o meu namorado está lá, e ao mesmo tempo tenho medo de voltar a cair na depressão. Conto-lhe tudo isto porque necessitava de uma opinião objectiva. Espero que algum dia tenha tempo para me responder. Um abraço.
N. D. Querida Maria Ferreira: Estive fora toda a semana. Acabo de ler, agora mesmo, a sua carta. E apresso-me a conversar já consigo, ainda antes de continuar a ler o restante correio electrónico. Isso de depressões é complicado. Pior do que não gostar de falar com padres. A maior parte das vezes, somos uns chatos, carregados de moralismo que tresanda. Não me admira que não seja muito frequentadora de padres. Eu também não sou. E vivo melhor assim. Deus? Bom, Deus é um problema, porque nunca ninguém O viu! Mas ainda bem, digo eu. Já viu o que seria se pudéssemos ver Deus? Tinha que ser um Deus muito à nossa medida, portanto, um deusito de trazer por casa (ria, que faz bem. Uma boa risada por dia e sairá mais depressa da depressão!) Isso de passar a ir à missa, só porque lhe morreu a avó, não lembraria ao diabo. Lembrou a si, que felizmente não é o diabo. Ainda bem que já voltou a deixar de andar por essas casas. Se volta a frequentá-las, acaba ainda mais deprimida. Fuja dessas casas, porque Deus foi o primeiro a fugir. Ele não habita nelas. Acredite. Há uma maneira infantil de abordar a questão de Deus. Nunca vá por aí. Acabará ateia! E ainda bem. Se é verdade que a Deus só damos por Ele, se formos como as meninas/como os meninos, já não é verdade que Deus seja coisa de crianças. Deus é para adultas e adultos, daquelas e daqueles que não atiram as suas responsabilidades históricas para as costas largas de Deus. A Maria Ferreira é daquelas que se aguenta nas canetas, mesmo quando tudo desaba à sua volta, ou é daquelas que, nessas alturas, se apressa a perguntar: - Mas afinal onde está Deus que permite tudo isto? Se for das que integram este último grupo, está a dois passos do ateísmo. Mas também a dois passos de ter de viver na pior das orfandades, quando, afinal, podia viver no maior dos entusiasmos (sabia que a palavra entusiasmo significa com Deus dentro?), mesmo quando tudo parece desabar à sua volta. Há-de ir para Madrid? Ou há-de ficar por cá? Se tem lá o namorado, faça o que lhe diz o coração. Mas não deixe de ouvir também o que lhe diz a razão! E, já agora, oiça também o parecer do namorado. Um abraço e um beijo de comunhão, extensivo ao seu namorado.
UM ESTANDARTEZINHO? Algés. Gabriela: Quando lhe escrevi em Dezembro de 2002, assinava com um abraço confiante. Passou-se quase um ano, durante o qual a decomposição existente neste País começou a tornar-se mais visível e contrariamente ao sentimento de depressão geral publicitada pela comunicação social e expressa nas mensagens dos foruns, quer da internt, quer da rádio, eu agarro-me à confiança. Confiança, no seu significado de fiar com. Coisas de mulheres, dirão, mas o puxar da linha para estarmos juntos em pensamento e acção e acordarmos consciências, pertence a todos. O sofrimento e a indignação estão a bater a muitas portas e será talvez o caminho mais rápido para que todos possam querer a mudança. Mas quem trará a mudança? Somos todos nós, claro, mas a minha alma lusa tem saudades do Encoberto, anseia por um sinal, por alguém que empunhe o estandarte do ideal e da missão e dê ordem de marcha para o Mundo da Solidariedade. Esta saudade lusitana que se vai alargando a muitos pode ser perigosa e traduz-se por vezes na frase que já li várias vezes: Volta Salazar que estás perdoado! Um povo sem espiritualidade nem ideais está pronto a ser comandado pelo senhor que se segue... Mas mesmo assim no aqui e agora, confio e sei que fio com muita gente, mas já agora, Padre Mário, que tal empunhar um estandartezinho?!. Um grande abraço.
UMA BÊNÇÃO Braga. Paulo Espírito Santo: Foi com enorme satisfação que pude ouvir a sua participação no fórum da TSF de hoje, relativamente aos actos litúrgicos proibidos pelo Vaticano. A sua palavra é uma benção para a alma! Recordo-lhe que há uns tempos atrás tentei falar com o director do Correio do Minho, jornal de Braga concorrente do ultra-conservador Diário do Minho, mas as tentativas revelaram-se um fracasso, pois nem obtive qualquer resposta à possibilidade de incluirem as suas crónicas no referido jornal! Pelos vistos, os vários poderes instalados, neste caso concreto, o camarário, não tentam colidir entre si, perpetuando-se, como muitas vezes bem tem dito o caro P. Mário. Para finalizar, uma confidência: sou amigo de um ex-jesuíta, angolano que me contou que aquando da realização de uns encontros entre jesuítas da península, havia um jesuíta espanhol que perguntava sempre pelo P. Mário, afirmando que os portugueses teimavam em não reconhecer-lhe a devida importância! Eu, pela parte que me toca, tento contribuir para que a sua voz seja cada vez mais ouvida! Um bem-haja, P. Mário!
N.D. Caro Paulo: Bem-haja pelas suas palavras de estímulo. O seu nome é uma responsabilidade. Tem que ser um homem como Jesus de Nazaré, para dizer com o seu nome, um homem que se deixa conduzir pelo Espírito Santo. Por isso, um homem liberto e libertador. Seja! Fiquei surpreendido, quando a TSF me convidou a participar no Forum de ontem. Há muito que isso não acontecia. O que eu disse foi um pouco do muito que há para dizer. A Cúria do Vaticano não tem emenda. É mesmo cruel. E desta vez conseguiu escandalizar até as católicas não ilustradas das paróquias. Os telejornais de ontem à noite foram disso prova. Ora, quando isto sucede, é sinal de que este modelo de Igreja não tem mais pernas para andar. Por mais que a Cúria do Vaticano queira. O futuro é do Espírito Santo que no Concílio Vaticano II rasgou outro caminho e está apostado no modelo de uma Igreja comunhão. Não sei se sabe, mas já fui jornalista, durante dez anos, no CORREIO DO MINHO. Então, as minhas crónicas fizeram furor. E acabei por sofrer um mês de suspensão, enquanto respondia a um inquérito instaurado pela Administração. Ficou tudo em águas de bacalhau. Mas, depois, foi-me retirado o espaço das crónicas. E estive um ano praticamente parado na redacção. Ganhava, mas não me davam que fazer. Finalmente, a Administração suspendeu a saída do jornal, a pretexto duma reestruturação. Era para ser uma suspensão de um mês, acabou por arrastar-se por um ano. E creio que não se arrastou por mais tempo, porque eu, entretanto, negociei a minha saída do jornal, para poder fundar, com outros companheiros e outras companheiras o Jornal Fraternizar. Não estranho que nem respondessem à sua proposta. O Costa Guimarães (suponho que continua a ser o director) já assistiu, como jornalista do Correio do Minho, a todo este folhetim da Administração comigo. Um abraço de comunhão.
NÃO HAVERÁ AULAS DE MORAL PARA MIM E-mail. Justiniano: Olá! O meu nome é Justiniano e sou estudante de Teologia da Universidade cátólica. Ingressei neste curso porque me tinha sentido chamado à vida sacerdotal. Depois de conhecer a realidade das estruturas comecei a separar o essencial do supérfluo, sentindo-me muito desagradado com a hierarquia. Estou a pagar um preço demasiado alto por não me calar, chamando-me de herege a ateu. Sei que irei ficar desempregado, não haverá aulas de moral para mim. Leio algumas coisas do pe. Mário e reconheço a posição convicta, felicitando por não ser escravo de normas, mas livre para a sua própria consciência. Gosto muito da sua forma de pensar, considero uma pessoa inteligentíssima e gosto muito de ler os seus escritos. Por isso gostaria de receber também o Fraternizar. Envio-lhe a minha morada para que possa receber o jornal e me digam como posso pagar a assinatura. Sem mais assunto de momento, um abraço amigo de companheiro e irmão.
FUNDAR A FÉ CRISTÃ E-mail. Bruno: Viva! Tenho uma ligação à Igreja Evangélica e sou um grande admirador das suas posições teológicas e sociais. Cheguei a dizer em tempos que talvez fosse a pessoa com cuja leitura cristã eu mais me conseguia identificar. Neste momento decorre na Blogosfera - em excelente espaço de informação e debate - uma discussão acerca da contingência histórica que assistiu à formação do Novo Testamento, onde se questiona em que medida o cânone estabelecido pelo Catolicismo permite fundar a fé cristã. Algo semelhante ao que faz com os livros do Velho Testamento em Nem Adão e Eva, nem Pecado Original, sendo notável o modo como relaciona a escrita bíblica com o nacionalismo da casa de David. A questão é que o Novo Testamento é mesmo o fundamento da fé cristã, e o questionamente dos seus conteúdos vai ao âmago da fé informada na Palavra. Sendo esta a temática central acerca da qual gostaria de ler a sua opinão, coloco-o a par de algumas das mais importantes contribuições para esse mesmo debate. Muito gostaria que pudesse contribuir com o seu conhecimento, mesmo com algum artigo que já tenha publicado.
N. D. Agradeço a sua mensagem. E as palavras de estímulo. Também eu gostava de criar um blog. Tenho já o sítio, mas é uma coisa pesada e de difícil manejo. Gostava de paralelamente criar um espaço mais ligeiro e interveniente. Como fazer? É gratuito, ou tem que se pagar? Quanto à questão que me coloca, aqui avanço alguns tópicos: 1. A fé cristã não se fundamenta nos livros do Novo Testamento. Fundamenta-se numa pessoa e num Acontecimento: em Jesus de Nazaré e na sua morte/ressurreição. Não houvesse Jesus de Nazaré crucificado/resssucitado e não haveria Fé cristã. Nem tão pouco haveria Novo Testamento. É a prática radicalmente libertadora e integradora e a palavra fecundamente maiêutica de Jesus, reveladoras de um Deus outro e de um Homem outro, que estão na origem da Fé cristã. Por isso é que pode haver muitas pessoas que sabem tudo e mais alguma coisa sobre o Novo Testamento e não têm Fé cristã. Porque esta é encontro vivencial com a pessoa de Jesus e com o seu Espírito. Um encontro que muda o nosso ser e faz de nós novas criaturas, outros Jesus, aqui e agora. 2. Os Evangelhos canónicos são obra das comunidades cristãs da segunda geração. O mais primitivo será o de Marcos. E o mais tardio, o de João. Antes, terá havido um documento ou Fonte Q, do conhecimento da comunidade que escreve o Evangelho de Marcos e os outros dois Sinópticos, mas que desapareceu. Os especialistas tentam reconstituí-lo. Há propostas concretas de texto que circulam e contam com generalizada aceitação. 3. Mas atenção: os Evangelhos canónicos não são biografias de Jesus. Nem livros de historiadores, pelo menos, como hoje nós entendemos um historiador. Nem são reportagens jornalísticas. São densos relatos teológicos. Não têm preocupação de fidelidade histórica. Por vezes, até distorcem os factos históricos, para melhor poderem ser fiéis à teologia que pretendem proclamar. Não nos apresentam Jesus histórico em directo, como numa reportagem jornalística da actualidade. São já uma interpretação do Jesus histórico. Por isso, são diferentes entre si. Todos testemunham sobre Jesus, mas em função dos problemas com que cada comunidade que escreve se vê confrontada na altura. 4. Hoje, não falta quem pretenda chegar a Jesus, ele mesmo, e às suas palavras autênticas. Não é possível. Jesus não escreveu livros. Viveu num contexto social e cultural que privilegiava a comunicação oral. E utilizou-a até ao extremo. Mas também não é necessário chegar ao Jesus histórico, ele mesmo. Muitos dos que o conheceram em directo, não só não creram nele, como até o mataram! O fundamental é a pessoa de Jesus, como tal, e o tipo de morte que sofreu. E a consequente ressurreição que, algum tempo depois, foi percebida e proclamada pelas primeiras comunidades de discípulas e de discípulos. Não há acontecimento mais revelador do que este. É a luz que este acontecimento irradia que muda a História. Ele vem dizer que Deus, afinal, não está com os agentes do poder, como sempre se pensou, mas com as suas vítimas. Esta Boa Notícia para os pobres e oprimidos do mundo (má notícia para os agentes do poder) é uma revolução. Tudo no mundo está organizado ao contrário, ainda hoje. É por isso que as Igrejas que vivem para dar força aos agentes do poder e elas próprias se tornam agentes do poder, são Igrejas que se comportam como Judas, ou ainda pior do que Judas. Em lugar de Igrejas-mártires (= Igrejas-testemunhas), são Igrejas traidoras. Matam a profecia e, depois, para compensar, entretêm-se com actos de culto que não passam de alienação. 5. Mas no Novo Testamento, temos outros livros que podem ser lidos como documentos históricos. São as cartas. Sabemos hoje que as Cartas autênticas de Paulo são anteriores aos próprios Evangelhos. Começam a ser escritas por volta do ano 50, ao passo que o Evangelho de Marcos terá sido escrito por volta do ano 70. O interessante é sabermos que Paulo nunca teria escrito estas cartas, se Jesus não tivesse existido e não se tivesse tornado a Boa Notícia de Deus, o Evangelho de Deus. Aproveito para o felicitar por este trabalho em que está envolvido com outras pessoas. Mas não esqueça que o mais importante é conhecer realmente Jesus e deixarmo-nos possuir e conduzir pelo seu Espírito ou Sopro, até nos tornarmos mulheres e homens do seu jeito, hoje e aqui. Um abraço companheiro e irmão Mário
O QUE DEUS GOSTA E-mail. Maria da Graça: Padre Mário: Permita-me que lhe diga que o que Deus gosta e precisa é de homens como o senhor. O seu livro, que comprei na festa da Alegria, em Braga, acompanhou-me nas férias e durante três dias senti a força das suas palavras libertadoras e da sua esperança. Felizmente criaram raízes. Nem a todas as palavras o vento leva e as suas ganham raízes rapidamente, como as plantas silvestres que tiram da terra árida tudo o que precisam para viver. Bem haja por dizer o que deve, atitude raríssima entre os nossos irmãos. Gostava de lhe dizer que daí retirei paz, esperança, optimismo e força, muita força. As suas palavras rasgam brumas e receios, mas não escandalizam. O que escandaliza é este mundo. Guardo o seu livro entre os meus predilectos, recomendo-o aos amigos especiais e gostarei muito de o apresentar daqui a uns anos às minhas filhas. Estou certa que serão actualíssimas e necessárias as suas palavras para a sua formação humana e cristã (quem dera o contrário!). Aceite um reconhecido e fraterno abraço Maria da Graça N.D. Querida Maria da Graça: Mas que estímulo, as suas palavras! No meio de tanta aridez e incompreensão, as suas palavras são bálsamo e brisa que me acariciam. Bem-haja! Prosseguirei neste combate pela verdade que é também combate pela liberdade. A Ordem mundial em que nos movimentamos é perversa, porque só favorece minorias privilegiadas em cada país. Não garante a todas as pessoas e a todos os povos, por igual, as mesmas possibilidades. Pelo contrário, deixa de fora da mesa que deveria ser comum a esmagadora maioria da Humanidade. Por isso, é uma Ordem mundial que retém a verdade cativa na injustiça. Se não temos consciência desta realidade, poderemos pensar que estamos no melhor dos mundos. E faremos tudo para aproveitar dele, sem nos questionarmos. E sem nos tornarmos militantes em prol duma Ordem mundial outra que urge buscar e edificar. No meu horizonte, tenho sempre o ser-viver de Jesus de Nazaré. A sua morte crucificada revela uma vida militante não apenas reformista, mas revolucionária, radicalmente libertadora, que pode bem ser chamada Nova Criação. É ele o meu mestre. Procuro viver permanentemente aberto ao seu Espírito ou Sopro, para ser hoje um homem com as mesmas características dele, mas nas actuais circunstâncias que são as nossas. Por isso, sou incapaz de me limitar a reproduzir mais do mesmo, como fazem geralmente as Igrejas e os seus líderes tradicionais. Fico muito feliz com o seu testemunho. Acredite: ele constitui para mim vigoroso alimento na caminhada. Aceite o meu beijo de comunhão e a minha alegria.
Brasil. Luís Guerreiro: Envio aqui a minha pequena contribuição anual para que o Jornal Fraternizar possa continuar a viver. Sem ele, a Igreja em Portugal ficaria bem mais pobre. Sem um profetismo que nos abale e desenraíze, tenderemos a ficar parados na quietude das nossas certezas, enquanto o mundo passa. Pena que o jornal agora só apareça de três em três meses. O seu efeito é menor. Como leitor, estou-lhe muito grato por estes 16 anos de publicação.
Lisboa. Maria Helena: Segue o cheque. Aproveito para enviar os meus votos para esta quadra que atravessamos, e fiquei triste por saber que está em perigo a continuação do jornal que tanto gosto de receber e ler. Mais não posso ajudar, visto que estou já reformada há quinze anos e agora começam os problemas de saúde devido não só à idade, como resultado de 36 anos a trabalhar no duro.
Escariz. António Machado: Vai fazer um ano que o sr. teve a gentileza de me visitar para falarmos de certas hesitações da minha parte sobre algumas obras que eu tinha lido sobre o Cristianismo. E como eu disse na ocasião e continuo a afirmar, só um teólogo como o sr. pode elucidar quem quer que seja, uma vez que queira ser elucidado. Porque também sei que nestes 1.700 anos de Catolicismo que sempre distorceu o Cristianismo, é muito difícil fazer-se compreender explicando a verdade. Ultimamente, estou a ler um livro com o título Mentiras Fundamentais da Igreja Católica, de Pepe Rodríguez. Já vou na segunda leitura e tem-me dado muito que reflectir. Se não fosse abusar da sua bondade, gostava imenso de trocar algumas impressões com o sr. a esse respeito e outras coisas. Mas desta vez não o quero maçar para que faça a viagem até minha casa, eu irei ter com o sr. num dia em que estiver mais disponível, onde podemos ir almoçar juntos e conversar. Junto envio cheque para pagamento da assinatura de apoio e que este continue sempre.
N. D. Caro António: Venha quando quiser. Só lhe peço que me avise com alguma antecedência, para eu não me comprometer com outras pessoas ou com outras iniciativas. Basta um telefonema prévio a dizer em que dia tenciona vir. E esteja à vontade para se fazer acompanhar de outros amigos e amigas, se assim o entender. Um abraço. |
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Igreja/Sociedade
Um pontificado com contradições fatais Por Hans Küng (Teólogo suiço)
Jornal Fraternizar teve acesso a esta reflexão sobre os 25 anos de pontificado do Papa João Paulo II. E orgulha-se de a apresentar aqui, numa tradução da sua responsabilidade. Quando por toda essa Europa fora as vozes mais sonantes foram de aplauso, é salutar escutar a lúcida crítica deste eminente teólogo europeu. Ninguém deixe de ler. No dia 17 de Outubro de 1979 publiquei um balanço do primeiro ano no cargo do papa João Paulo II. O artigo apareceu em várias publicações de diveros países do mundo e, dois meses depois, foi-me retirada a autorização eclesiástica para ensinar como teólogo católico! Porém, os 25 anos de pontificado vieram confirmar aquela minha crítica. Para mim, este Papa não é o maior do século XX. É o mais contraditório do século XX. É um Papa com muitos e muito grandes dotes, mas com muitas decisões equivocadas. Em síntese: a sua política externa exige conversão a toda a gente, e reforma e diálogo. Mas depois, em crassa contradição com esta sua política externa, está a sua política interna, que aponta à restauração do status quo contra o Concílio e à negação do diálogo intraeclesiástico. Este carácter contraditório do pontificado do Papa João Paulo II manifesta-se em dez complexas situações muito precisas, a saber:
1. O mesmo homem que defende, fora de portas, os direitos humanos nega-os no interior da Igreja a bispos, teólogos e mulheres. Tanto assim que o Vaticano ainda hoje não pode subscrever a Declaração de Direitos Humanos do Conselho da Europa; seria necessário mudar primeiro demasiados cânones do direito canónico medieval-absolutista. A separação de poderes é desconhecida na Igreja católica. Em caso de conflito, a mesma autoridade actua como legisladora, fiscal e juiz. Consequências: um episcopado servil e uma situação jurídica insustentável. Quem litigue com uma instância eclesiástica superior não tem praticamente nenhuma oportunidade de que esta lhe faça justiça.
2. Ele é um grande admirador de Maria, até prega excelsos ideais femininos, mas depois humilha as mulheres e nega-lhes a ordenação sacerdotal: sendo atractivo para muitas mulheres católicas tradicionais, este Papa afasta as mulheres modernas, às quais quer excluir «infalivelmente» das ordens maiores para todo o sempre. E, no caso da anticoncepção, inclui-as no que ele chama a «cultura da morte». Consequências: divisão entre o conformismo externo e a autonomia interna da consciência, que em casos como o do conflito dos conselheiros de mulheres grávidas também as afasta dos bispos afectos a Roma, o que provoca o crescente êxodo de quantas ainda continuavam a ser fiéis à Igreja.
3. Ele é um pregador contra a pobreza massiva e a miséria do mundo, mas, ao mesmo tempo, com a sua posição sobre a regulação da natalidade e da explosão demográfica, torna-se corresponsável dessa mesma miséria: o Papa, que tanto nas suas numerosas viagens como na conferência sobre população da ONU no Cairo tomou posição contra a pílula e o preservativo, poderá ter maior responsabilidade que qualquer estadista no crescimento demográfico descontrolado de numerosos países e na extensão da sida em África. Consequências: inclusive nos países tradicionalmente católicos como Irlanda, Espanha e Polónia, existe uma crescente rejeição da moral sexual e do rigorismo católico romano no tema do aborto.
4. Ele é um propagandista da imagem do sacerdócio masculino e celibatário que é corresponsável pela catastrófica falta de padres, pelo colapso do sacerdócio em muitos países e pelo escândalo da pedofilia no clero, um dado hoje impossível de escamotear: Mas que aos sacerdotes continue a ser proibido o matrimónio não é mais do que um exemplo de como este Papa também põe de parte a doutrina da Bíblia e a grande tradição católica do primeiro milénio (que desconhecem as leis do celibato eclesiástico),a favor do direito canónico procedente do século XI. Consequências: os sacerdotes são cada vez mais escassos, a sua substituição é inexistente, quase metade das paróquias carecem de párocos ordenados e celebrantes regulares da eucaristia. Estes factos não podem ser escondidos com a crescente importação de sacerdotes da Polónia, Índia e África e tornam mesmo inevitável a fusão de paróquias em «unidades eclesiais».
5. Ele é o impulsionador de um número inflacionista de beatificações lucrativas e, ao mesmo tempo instaura com poder ditatorial, a Inquisição contra teólogos, sacerdotes, religiosos e bispos incómodos: são perseguidos inquisitorialmente sobretudo aqueles crentes que sobressaem pelo seu pensamento crítico e pela sua enérgica vontade reformista. Do mesmo modo que Pio XII perseguiu os teólogos mais importantes da sua época (Chenu, Congar, De Lubac, Rahner, Teilhard de Chardin), João Paulo II (e o seu Grande Inquisidor Ratzinger) perseguiu Schillebeeckx, Balasuriiya, Boff, Bulányi, Curran, assim como o bispo Gaillot (de Evreux) e o arcebispo Huntington (de Seatle). Consequências: uma Igreja de polícias em que proliferam os denunciantes, o medo e a falta de liberdade. Os bispos autoassumem-se como governadores romanos, quando deveriam autoassumir-se como servidores do povo cristão. E os teólogos, ou escrevem em conformidade com o Vaticano, ou remetem-se ao silêncio.
6. Ele é um panegirista do ecumenismo, mas depois hipoteca as relações com as igrejas ortodoxas e reformistas e impede o reconhecimento dos seus sacerdotes e a comunidade eucarística de evangélicos e católicos: o Papa poderia, tal como foi recomendado repetidas vezes pelas comissões ecuménicas de estudo e é prática de muitos párocos, reconhecer os eclesiásticos e as celebrações da comunhão das igrejas não católicas e permitir a hospitalidade eucarística. Também poderia moderar a exagerada ambição medieval de poder frente às igrejas orientais e reformadas. Mas prefere manter o sistema de poder romano. Consequências: o entendimento ecuménico ficou bloqueado depois do Concílio Vaticano II. Já nos séculos XI e XVI o papado demonstrou ser o maior obstáculo à unidade das igrejas cristãs em liberdade e pluralidade.
7. Ele foi um participante como bispo no Concílio Vaticano II, mas depois como papa, despreza a colegialidade do Papa com os bispos, decidida nesse concílio, e não deixa de celebrar em cada ocasião que se lhe oferece o absolutismo triunfalista do papado: em substituição das palavras programáticas conciliares (aggiornamento, diálogo, colegialidade, abertura ecuménica), regressa nas palavras e nos actos à «restauração», «doutrina», «obediência», «rerromanização». Consequências: Não devemos enganar-nos com as múltiplas manifestações papais: são milhões os que sob este pontificado já «fugiram da Igreja» ou se retiraram para um exílio interior. A animosidade de grande parte da opinião pública e dos meios de comunicação em relação à arrogância hierárquica intensificou-se de forma ameaçadora.
8. Ele é um representante do diálogo com as religiões do mundo, mas depois desqualifica-as a todas como formas deficitárias de fé: o Papa gosta de reunir à sua volta dignitários de outras religiões. Mas não dá muita atenção teológica às suas demandas. Pelo contrário, inclusive sob o signo do diálogo, continua a conceber-se, na relação com eles, como um «missionário» à maneira antiga. Consequências: a desconfiança para com o imperialismo católico romano está hoje tão espalhada como antigamente. E isto não só entre as igrejas cristãs, mas também no judaísmo e no islão, para já não falar da Índia e da China.
9. Ele é um poderoso advogado da moral privada e pública e um comprometido paladino da paz, mas, ao mesmo tempo, devido a esse seu rigorismo distante da realidade, perde credibilidade como autoridade moral: as posições rigoristas em matérias de fé e de moral escavacaram a eficácia dos justificados esforços morais do Papa. Consequências: embora para alguns católicos ou secularistas tradicionais ele seja um superstar, este Papa propiciou a perda de autoridade do seu pontificado por culpa do seu autoritarismo. Apesar de nas suas viagens, encenadas com eficácia mediática, ele se apresentar como um comunicador carismático (ainda que ao mesmo tempo incapaz de diálogo e obsessivamente normativo dentro de portas), a verdade é que carece da credibilidade de um João XXIII.
10. Ele é um Papa que, no ano 2000 concordou, embora com custo, em reconhecer publicamente as suas culpas, mas depois não tirou as consequências práticas deste seu gesto: só pediu perdão para as faltas dos «filhos e das filhas da Igreja», não para as do «Santo Padre» nem para as da «própria Igreja». Consequências: a reticente confissão pública não teve consequências: nada de conversão efectiva, apenas palavras, nada de actos. Em lugar de se orientar pela bússula do Evangelho, que diante dos erros actuais aponta na direcção da liberdade, da compaixão e do amor aos seres humanos, Roma continua a reger-se pelo direito medieval que, em lugar duma mensagem de alegria, oferece uma anacrónica mensagem de ameaça com decretos, catecismos e sanções.
Não se pode passar por alto o papel do Papa polaco no colapso do império soviético. Mas este não se desmoronou por acção do Papa, mas em consequência das contradições socio-económicas do próprio sistema soviético. A profunda tragédia pessoal do Papa João Paulo II é esta: o seu modelo de Igreja poloco (medieval-contrareformista-antimoderna) não pôde trasladar-se para o «resto» do mundo católico. Acabou por ser a própria Polónia a sair influenciada pela evolução moderna. Para a Igreja católica, este pontificado, apesar dos seus aspectos positivos, revela-se, no final, como um desastre. Um Papa em declínio que não abdica do seu poder, embora o pudesse fazer, é para muitos o símbolo duma Igreja que por trás da sintilante fachada está anquilosada e decrépita. Se o próximo Papa quisesse continuar a política deste pontificado, não faria senão potenciar ainda mais a monstruosa acumulação de problemas e tornaria quase insuperável a crise estrutural da Igreja católica. Um novo papa tem, por isso, que decidir-se a mudar o rumo e conduzir a Igreja para a renovação,seguindo o espírito de João XXIII e os impulsos reformistas do Concílio Vaticano II. |
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O homem do papamóvel Texto-poema extraído do livro COMO FARPAS. MAS COM TERNURA do Pe. Mário de Oliveira (Editora Ausência, V N Gaia, 2003)
Papamóvel. O protótipo do homem abrigado é o homem do papamóvel. Não lhe basta a segurança dos palácios do Vaticano. Nem os milhares de polícias que mobiliza em seu redor quando com frequência passeia a sua prepotência moralista pelo mundo sob o disfarce de viagens pastorais. É tão cego que nunca se deu conta da contradição. Corre Ceca e Meca para anunciar Deus aos seus contemporâneos que ele acha que estão afastados dEle mas continua a viver nos palácios do Vaticano que mais parecem bunkers à prova de cataclismos e de bombardeamentos. E quando se afasta de toda aquela segurança corre a refugiar-se no interior do seu papamóvel com vidros à prova de bala. Nenhuma é a sua Fé em Deus e nos seres humanos. Um pastor assim é pastor ou o medo em pessoa? Os mercenários é que vêem lobos em tudo quanto não controlam. E correm a abrigar-se. Passam a vida abrigados. Defendidos. O pastor a sério dá a vida pelos demais. Não gosta de morrer antes de tempo mas também não tem medo de morrer antes de tempo. Ele sabe que a vida só se ganha e conserva quando se expõe e se dá. Confia tanto nos humanos como ele que pode morrer às mãos deles. Mas é assim que faz crescer a confiança dentro da História. O medo é o pior dos males. Cria deuses e deusas que depois nunca mais deixam de nos oprimir aterrorizar e infernizar a vida. |
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Salvé, Primavera!
Primavera, a nossa querida companheira de Guimarães, das Comunidades Cristãs de Base, ressuscitou definitivamente no passado dia 11 de Novembro 2003. O funeral, como ela coerentemente deixou dito foi, civil, por isso, sem a presença manifestamente sinistra do pároco e das suas exéquias. A filha mais velha, Sara, esteve serena e determinada no acolhimento às pessoas amigas que participaram. E esclareceu as que se mostravam surpreendidas com este modo de proceder. No cemitério, houve uma pausa junto da urna sempre fechada, antes desta descer à terra. Presidiu a mesma filha, ladeada da irmã Marta. Falou da Mãe Primavera. Louvou e agradeceu. Outras pessoas falaram também. Quem quis. Também o pe. Mário que acompanhou a Primavera desde 1972. Aqui ficam as suas palavras.
Querida Primavera São para ti as minhas palavras neste momento. Tu és a protagonista desta Páscoa que nos congregou aqui esta tarde. Estamos perante os teus restos mortais. Eles são o que visivelmente nos resta de ti. Porque tu és agora corpo ressuscitado. Para sempre! E é contigo definitivamente ressuscitada, vivente, que nos encontramos daqui em diante e viveremos a mais intensa e fecunda comunhão. Estes teus restos mortais damo-los à terra, para que se tornem matéria orgânica, por isso, viva. Não! Não és passado. És eterno presente. E presente sempre novo. Contigo percebemos, ao longo destes anos de porfiado combate que travaste contra a doença, que a vida de cada ser humano não cabe toda, para todo o sempre, dentro do Tempo e do Espaço. Como já não coube, para todo o sempre, dentro do útero materno e, por isso, dele saiu, para poder ser mais. Percebemos que chega uma altura em que a vida de cada ser humano atinge um desenvolvimento tal, que explode! Aquilo que, erradamente, chamamos morte é, afinal, uma explosão de vida. A maior de todas. Mais do que a do nosso próprio natal! Não é verdade que também o Universo onde gira o planeta Terra que habitamos, e que ainda está ainda em expansão, é o resultado da explosão de uma estrela? Quem pode dizer hoje que a explosão dessa estrela, há quinze mil milhões de anos, foi a sua morte? Explodir é a indispensável operação por onde a vida de cada ser humano tem que passar, para que se criem as novas condições que nos permitam ser/viver mais e melhor! Também tu, querida Primavera, cresceste tanto em qualidade de vida; tornaste-te mulher tão consciente, tão consciência, que já não cabias mais no envelhecido e debilitado corpo que foste até ontem. E explodiste. Com isso, tornaste-te corpo glorioso, por isso invisível aos nossos olhos e demais sentidos. Mas mais presente entre nós do que nunca. Mais activa entre nós do que nunca. Mais vivente entre nós do que nunca. Salvé, Primavera ressuscitada! Este é o teu primeiro momento de um Dia sem ocaso! E como chegaste aqui? Eu sei que nunca foste mulher de rotinas. Mesmo assim, a tua vida nunca mais foi a mesma, desde aquela Páscoa de 1972, em Macieira da Lixa, quando eu era lá pároco, por sinal, uma Páscoa sem compasso mas com mesa partilhada, e em que tu foste presença bem activa e decisiva. Tornaste-te, desde então, mulher progressivamente lúcida. Liberta. Responsável. Insubmissa. Indomável. Autónoma. Líder ao jeito da parteira. Atenta aos sinais dos tempos. Acolhedora. Irmã e companheira universal. Mulher de causas e com causas. Crítica. Clarividente. Sábia. Doutora sem canudos, mas verdadeira doutora entre doutores. Mestra. Mulher avisada. Mãe de duas filhas que levam hoje as tuas marcas, vestem os teus valores que são também os valores das Comunidades cristãs de base, à sombra das quais cresceram, sem jamais perderem a originalidade de cada uma: tão determinada e tão líder, a Sara; tão meiga e tão frontal, a Marta. Tão mulheres de causas e com causas, ambas! Dois exemplos de filhas que nos dizem que, afinal, esta nossa sociedade é mais, muito mais do que o que nos mostram os Big Brother, as telenovelas estupidificantes e os futebóis servidos em estádios de luxo, num país que, entretanto, conta no seu passivo com dois milhões de pobres e quase 500 mil desempregados! O meu bem-haja, querida Primavera, a minha alegria, o meu parabém, as minhas palmas, a minha Eucaristia, por teres tido a audácia de levar tão longe e tão alto a vida humana, na sua expressão de mulher! Que a tua explosão ocorrida ontem seja a nossa explosão. Que a tua ressurreição seja a nossa ressurreição. E que na luz em que te tornaste para o mundo, nós percebamos, duma vez por todas, que viver em dimensão humana é viver em rebeldia, em dissidência, em acolhimento, em entrega incondicional às grandes causas da Humanidade, mediante fecundos combates políticos em prol duma Ordem Mundial outra, bem à medida dos seres humanos todos, longe das mediocridades, das rotinas e do sempre a mesma coisa.
Finalmente, às tuas amigas e aos teus amigos, entre os quais me incluio, que tivemos o raro privilégio de sermos acompanhados por ti ao longo dos anos, até este derradeiro momento da tua explosão definitiva, atrevo-me a lançar este apelo: Quando hoje ao fim da tarde, nos sentarmos à mesa em nossas casas, ou mesmo num restaurante, façamos a ceia em memória da Primavera. O Pão que comermos é o seu corpo. O Vinho que bebermos é o seu sangue. São a sua vida entregue ao mundo, também a nós. E sempre em comunhão com ela, partilhemos não só o que a Primavera foi, é, para nós, mas também e sobretudo, como vamos ser depois desta sua explosão definitiva. A concluir estas minhas palavras, deixem-me cantar convosco uma das estrofes de um canto das Comunidades que a Primavera bem conhece e muito gosta: Quem luta por uma terra de fraternidade/ não conhece a morte/ comunga a dor do seu povo/mas ressuscitar é a sua sorte. |
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Exorcismos? Haja respeito pelas pessoas doentes!
De vez em quando, algumas das nossas televisões caem na tentação de nos mostrarem casos de pessoas com doenças mais ou menos estranhas e até com algo de bizarro. Mas não lhes chamam assim. Preferem chamar-lhes casos de possessão diabólica. E desde o início do respectivo telejornal até muito perto do final, anunciam repetidamente a apresentação de mais um desses casos, tudo num contexto que só pode ser o do puro espectáculo televisivo em busca de audiências, de onde está ausente qualquer vestígio de sensibilidade e de respeito para com as pessoas em causa. Quando, finalmente, o caso é posto perante os nossos olhos, logo confirmámos que ele envolve mulheres, de condição empobrecida e sem escolaridade; de consciência manifestamente ingénua; nascidas e crescidas em ambientes de forte influência eclesiástica católica e religiosa; tolhidas e psiquicamente destroçadas, sobretudo, devido às reiteradas agressões com que, ao longo dos séculos, as religiões e todo o seu arsenal de deuses e de demónios, à mistura com nossas senhoras disto e daquilo, impunemente as atacaram, bem como à generalidade das populações empobrecidas e mal escolarizadas em que elas se integram. E não é que, uma vez por outra, as televisões que isto promovem ainda conseguem encontrar padres católicos que se prestam a assumir o papel de exorcistas de serviço (a troco de dinheiro, ou de quê?) neste seu espectáculo televisivo? E não é que depois os vemos em plena actividade de exorcistas-palhaço, num surpreendente tu-cá-tu-lá com os demónios, só possível entre velhos conhecidos e amigos/inimigos que reciprocamente se necessitam? Mas a verdade é que tudo isto é uma dor de alma e uma indignidade humana absolutamente intolerável. Para cúmulo, ainda se lhe acrescenta a blasfema invocação do nome de Jesus, o Senhor.
Infelizmente, ainda hoje é frequente ouvir dizer, entre as populações sob influência eclesiástica católica e integradas por um cristianismo mais pagão do que jesuánico, que Jesus de Nazaré foi um grande exorcista. E isto no pior dos sentidos, concretamente, no sentido mais literal, de que ele expulsou muitos demónios do corpo das pessoas. O que constitui um disparate de todo o tamanho. Mas aquelas e aqueles que se têm por mais sabidos em Bíblia são até capazes de referir de memória, em defesa do seu ponto de vista, casos concretos relatados pelos Evangelhos, nos quais Jesus aparece a dar ordens aos demónios para que saiam do corpo das pessoas. E o curioso é que, pelos vistos, os demónios são tão bem educados, que acabam sempre por lhe obedecer e lá deixam as pessoas em paz! De todos esses casos concretos, um há que as televisões como as que temos no nosso país certamente adorariam que ocorresse também hoje para o poderem mostrar em directo e em exclusivo. Trata-se do caso daquele homem de quem se diz que vivia nos túmulos e que partia todo o tipo de correntes, sem que alguém conseguisse ter mão nele (cf. Mc 5, 1-20). Jesus encontra-se fisicamente com o homem e no duro diálogo que se trava entre ambos, o homem aparece tão identificado com o demónio, que é este que toma a palavra, em vez dele, para revelar a Jesus que não é só um, mas uma legião de demónios, portanto, um poder em tudo semelhante a uma daquelas muitas legiões do prepotente exército romano que então ocupava e oprimia o país dos judeus, sem que estes lhe pudessem fazer frente. O relato termina com toda aquela legião de demónios a sair do homem e a correr a meter-se numa grande vara de porcos que, pelos vistos, teria tido o azar de andar a pastar ali por perto. E todos os porcos acabaram no fundo do mar! Mas o importante é que depois de todos estes duros debates e combates ideológicos o homem em causa lá ficou completamente senhor de si próprio e em paz!
Infelizmente, o mesmo já não tem acontecido às pessoas que, ao longo destes séculos de cristianismo mais pagão que jesuánico, têm continuado a ouvir e a ler esta estória ou parábola teológica e outras semelhantes a ela que abundam nos Evangelhos Sinópticos. É que as pessoas sempre têm sido levadas a pensar que eram mesmo demónios a sério (alguém sabe o que serão demónios a sério?) e que, no caso, seriam mesmo seis mil (o Evangelho diz muitos), tantos como os soldados duma legião do exército romano. Nunca as catequeses eclesiásticas foram capazes de chamar a atenção das pessoas para os pormenores literários e teológicos do relato evangélico, concretamente, para os termos legião e porcos, que nos dão uma chave de leitura completamente outra e profundamente oportuna para todos os tempos e culturas. Efectivamente, o que o relato denuncia e combate é a presença prepotente no país de Jesus das legiões romanas e da sua ideologia/idolatria, que reduziam à condição de não-seres humanos o povo que se deixasse levar/corromper por elas. Muitos deveriam ser os judeus colaboracionistas que adoptavam os falsos valores do Império e que, por via disso, acabavam feitos em frangalhos na sua identidade, como o homem (representa um colectivo) de quem aqui se fala, ainda que, porventura, alcançassem uma situação materialmente melhorada. O Evangelho o que faz é iluminar e consciencializar as pessoas que se encontram nessa situação, para que se libertem dela. De contrário, perderão a sua identidade e a sua dignidade e acabarão reduzidas a porcos (na altura, sinónimo popular de romanos, por serem idólatras e, por isso, impuros como os porcos), isto é, pessoas impuras, idólatras, pagãs.
É indiscutível que são múltiplos nos Evangelhos Sinópticos os casos ditos possessos do demónio ou possessos de espíritos impuros. Mas o que as pessoas geralmente nunca repararam, inclusive as que se têm por mais sabidas em Bíblia, é que o quarto Evangelho canónico, mais conhecido por Evangelho de João, por sinal, o último a ser composto, não nos apresenta um único caso. Todos os casos relatados encontram-se exclusivamente nos três Sinópticos, com maior incidência, no de Marcos, por sinal, o primeiro a ser composto. Este dado deveria fazer-nos pensar, antes de abrirmos a boca, para debitarmos pseudo-conhecimentos da Bíblia. Se Jesus fosse um exorcista, no sentido literal do termo, o Evangelho de João não deixaria de o proclamar. Não o faz, porque percebeu, ao contrário de nós ocidentais, que as estórias que os Sinópticos nos contam têm um alcance exclusivamente teológico e de modo algum se compadecem com a charlatanice das nossas catequeses eclesiásticas nem com a charlatanice de certos padres exorcistas ou de outros vampiros humanos, sempre prontos a viverem à custa do sangue (e do dinheiro) que sugam às suas vítimas, no caso, pessoas portadoras de doenças do foro psiquiátrico ainda não suficientemente conhecidas e controladas pela ciência, muito menos suficientemente compreendidas e explicadas pela generalidade das pessoas privadas de conhecimentos científicos, como são quase todos os familiares desse tipo de doentes. Os contemporâneos de Jesus tinham por costume atribuir aos demónios todo o tipo de doenças e outros males para os quais ainda não havia explicação suficientemente convincente e eficaz. Faziam-no, porque os códigos mítico-culturais da altura assim o determinavam. Os próprios Sinópticos não fogem à regra, porque são relatos datados e vêem-se na necessidade de recorrer a esses códigos para anunciarem Jesus e a sua subversiva prática radicalmente libertadora dos oprimidos/das oprimidas e universalmente integradora das excluídas/dos excluídos. Mas o Evangelho de João que vem alguns anos depois e acontece noutro contexto já não segue esses códigos. É muito mais directo e subversivo. Apresenta-nos Jesus em discurso directo. Cáustico. Como um chicote libertador. Como a Luz que dissipa toda a treva obscurantista das consciências. Como a Verdade que liberta na raiz, para que as pessoas nasçam do Alto, do Sopro/Espírito outro que não faz parte do Sistema, e se tornem saudavelmente dissidentes, única maneira de serem humanas dentro duma sociedade que se quer normalizada. Já se deram conta, por exemplo, que neste Evangelho de João, Jesus chama de caras diabo (tradução do termo grego diabállô, que por sua vez é tradução do termo hebraico Satán (satanás) e que significa adversário ou opositor mentiroso) a Judas Iscariotes, um dos Doze? (precisamente, o grupo do qual os nossos bispos católicos gostam tanto de dizer que são os sucessores!...). Ora oiçam: Disse-lhes Jesus: «Não vos escolhi eu a vós, os Doze? Contudo, um de vós é um diabo.» Referia-se a Judas, filho de Simão Iscariotes, pois esse é que viria a entregá-lo, sendo embora um dos Doze. (Jo 6, 70-71) Mas o Evangelho de João não se fica por aqui. Na mais dura discussão teológica que Jesus trava com os seus maiores adversários, os chefes dos sacerdotes e os fariseus, chega a dizer que eles são filhos do diabo, precisamente, quando eles mais exigiam ser reconhecidos como exemplares filhos de Abraão e filhos de Deus. Eis o texto: Temos um só pai que é Deus. Disse-lhes Jesus: «Se Deus fosse vosso pai, ter-me-íeis amor, pois é de Deus que eu saí e vim. Não vim de mim próprio, mas foi Ele que me enviou. Porque não entendeis a minha linguagem? Porque não podeis ouvir a minha palavra? Vós tendes por pai o diabo, e quereis realizar os desejos do vosso pai. Ele foi assassino desde o princípio, e não esteve pela verdade, porque nele não há verdade. Quando fala mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira. Por isso não acreditais em mim, porque vos digo a verdade. (Jo 8, 41-45)
Quando então as televisões que hoje temos no país voltarem a cair na tentação de nos mostrarem mais casos de possessão diabólica ou demoníaca, saibamos que estão a chafurdar no terreno da charlatanice e da indignidade contra pessoas concretas que deverão merecer todo o nosso respeito e simpatia, pois são pessoas portadoras de graves doenças do foro psiquiátrico. E mesmo que as televisões consigam encontrar um padre católico que se preste ao papel de exorcista de serviço, para dar mais colorido e picante àquele triste espectáculo televisivo, saibam que, nesse caso, a charlatanice é ainda maior. Nem adianta que o padre católico em causa argumente que a Igreja tem um Ritual dos Exorcismos e que os padres, antes de terem sido ordenados de diácono e de presbítero, foram todos ordenados de Exorcista. É de facto assim: a Igreja tem esse Ritual e, durante séculos, até teve certos padres especialmente destacados para as funções oficiais de Exorcista em cada diocese. Mas saibam que tudo isso serve apenas para encenar melhor o tamanho da mentira eclesiástica católica romana que, a este propósito, nos têm impingido. Todas essas práticas e doutrinas, mesmo que realizadas com o aval da hierarquia católica, têm por pai o diabo, isto é, a Mentira institucionalizada e contribuem decisivamente para manter as populações na opressão, no obscurantismo e na clamorosa condição de assassinadas-que-ainda-respiram,para que nem sequer elas possam reagir, mesmo que sejam sistemática e vilmente exploradas e roubadas do que têm e do que não têm, a começar pela sua dignidade de seres humanos!
Já pensamos do que seria deste tipo de Igreja católica romana que temos, mais pagã e idólatra que jesuánica, e do que seria de todas essas seitas ditas cristãs que atrevidamente nos batem à porta e querem a todo o custo que escutemos as suas terríficas doutrinas bíblicas, se uma e outras não pudessem invocar a mítica figura do diabo ou demónio, apresentado durante todos estes séculos passados como um ser espiritual real? Era também assim que se pensava no tempo de Jesus. Mas ele, felizmente, em vez de se deixar embrulhar e amedrontar por essas figuras míticas, deu-lhes conteúdo histórico e político. Diabo ou demónio, para Jesus, era, por exemplo, Judas, o último dos Doze, era Pedro, o primeiro dos Doze (Mt 16, 23), era o Império romano no país, eram os chefes dos sacerdotes e os fariseus com as suas doutrinas de mentira, era a Sinagoga que tolhia e lavava o cérebro a quem a frequentava aos sábados, numa palavra, eram todos aqueles que se arrogavam privilégios sobre o povo e, depois, ainda encontra(va)m argumentos teológicos ou outros para os justificar. Não lhe perdoaram e mataram-no na cruz. Mas não o silenciaram, nem acabaram com ele de vez. Desde então ele é o Ressuscitado, altamente subversivo e perigoso contra o Sistema, mentiroso e assassino. E o grande irmão e companheiro nos nossos desassogados caminhos de Emaús. |
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A crueldade do Deus da beata Madre Teresa de Calcutá e de S. Daniel Comboni
A ela bastou fazer um milagre, para ser solenemente declarada beata pelo Papa João Paulo II. A ele, foi preciso fazer dois milagres, para ser solenemente declarado santo pelo mesmo Papa João Paulo II. São assim as regras da Cúria Romana, às quais, pelos vistos, até Deus tem que obedecer. E é se quer ter cardeais de vermelho garrido vestidos, de barrete enfiado na cabeça, de báculo na mão e de anel no dedo a subir todos os dias o altar e a repetir pela enésima vez os mesmos enjoativos louvores e os mesmos estúpidos ritos em sua honra! E se quer ter em todo o mundo milhões de devotos, sobretudo, devotas, dispostos a frequentar as igrejas e a invocar o seu nome, na esperança de múltiplos benefícios que Ele lhes dê em troca, por exemplo, curas milagrosas que até alguns médicos (!) vêm depois reconhecer que não há explicação científica para elas, apesar deles, entretanto, nunca terem desistido de lhes fornecer medicamentos a tempo e horas e de realizar as intervenções cirúrgicas consideradas adequadas a cada caso. Não faça Deus de vez em quando um desses milagrezitos de trazer por casa e acabará por perder todos esses milhões de devotas e devotos que insistem em correr para ele, não porque querem aprender com Ele a serem humanos e fraternos/sororais com todos os indivíduos e povos que vivem no planeta, imigrantes incluídos, mas impelidos por um instintivo e refinado egoísmo que os leva a querer que até Deus esteja ao serviço dos seus mesquinhos interesses. Como sucedeu paradigmaticamente com aquela multidão de pessoas conterrâneas de Jesus de Nazaré, que, no testemunhar teológico do Evangelho de João (cap. 6), o procuravam porque pensavam que ele lhes garantiria comida de graça. Mas logo zarparam de junto dele, a sete pés, quando ele lhes disse que o pão que lhes havia dado era o seu corpo e o seu sangue, isto é, era uma comida com o seu Espírito que se destinava a fazer de cada uma delas/de cada um deles outros tantos Jesus, mulheres e homens totalmente gratuitos e incondicionalmente entregues aos demais, numa comunhão efectiva e ininterrupta sem fronteiras, capazes, inclusive de fazerem não só as mesmas obras que ele, mas até maiores (cf. João 14, 12).
A beata em causa, como é fácil de perceber, é a Madre Teresa de Calcutá. O santo em causa é Daniel Comboni. O mundo comoveu-se com a beatificação dela e com a canonização dele. E muitos milhares de pessoas, provenientes de múltiplos países, também da Índia e da África, aproveitaram para fazer turismo religioso até Roma. Os comerciantes da cidade, à semelhança do que fizeram, vinte séculos atrás, os seus antepassados da cidade de Éfeso, em relação aos muitos milhares de peregrinos que visitavam o famoso templo em honra da milagreira deusa Ártemis (cf. At 19) quem se atreve a desmentir que estamos perante a mesma crendice, só que agora em novos moldes e com novos figurantes? deram largas à sua imaginação e apressaram-se a fabricar santinhos em todos os formatos e feitios e muitas outras recordações mais requintadas da nova beata e do novo santo, o que lhes terá rendido bom dinheiro. Era o mês das colheitas e por isso esse foi o seu S. Miguel 2003. Importante, agora, é que a Congregação romana para a causa dos santos, com o nosso acrítico cardeal Saraiva à cabeça, nunca mais feche esta fábrica católica de fazer beatas e beatos, santas e santos. Os comerciantes do turismo religioso de Roma agradecem. E até contribuirão com algumas ofertas, em sinal de reconhecimento. Se mais não for, entrarão numa das muitas igrejas católicas da cidade, por sinal, cada vez mais às moscas, e acenderão umas quantas velas eléctricas, em troca da introdução de outras tantas moedas de 50 cêntimos, ou de um euro ou de dois euros, na respectiva ranhura do cofre. O negócio religioso precisa destas beatificações e canonizações para continuar em alta. E os cofres da Cúria romana também, já que todo aquele fausto dos palácios do Estado do Vaticano alguém tem que o sustentar. Para tanto, é preciso que nem Deus se descuide na tarefa que lhe compete em todo este negócio. Em concreto, terá que continuar a fazer milagres à lista, exactamente nas alturas que o seu todo-poderoso Papa de Roma exigir. De contrário, arrisca-se a que até a sua todo-poderosa Igreja católica romana vá à falência, também no que respeita a finanças, porque no que respeita à Verdade e à fidelidade a Jesus, o Cristo Crucificado pelo Império e pelo Templo de Jerusalém conluiados, há muito que ela já foi.
Sacrílega ironia do Jornal Fraternizar? Sim, ironia, mas não sacrílega. Nem de mau gosto. Se duvidam, abram qualquer um dos livros dos Profetas bíblicos, ou, sobretudo, qualquer um dos quatro Evangelhos canónicos que a nossa Igreja católica continua a dizer e bem! que são a Palavra de Deus. E facilmente concluirão que esta maneira de dizer as coisas é ironia, sim, mas de bom gosto. Só mesmo consciências obscurecidas e ingénuas, crendeiras e beatas no pior sentido do termo podem aceitar comportamentos eclesiásticos como estes que a nossa Igreja acaba de protagonizar em redor da beatificação da Madre Teresa de Calcutá e da canonização de Daniel Comboni. Então não dá para ver que comportamentos eclesiásticos destes são geradores de mais e mais ateísmo no mundo? Na verdade, um Deus que faz milagres à lista, por ordem do poderoso chefe de Estado do Vaticano (funções que despudoradamente acumula com o ministério de Bispo de Roma e com o cuidado fraternal por todas as Igrejas locais do mundo); um Deus que cura uma mulher indiana quando é que Ele começa a curar também homens?! entre milhares de outras tão doentes e tão pobres quanto a Monika, mas das quais Ele já não se importa que apodreçam na enxerga do barraco e nem consigam entrada no Hospital das freiras católicas (e porque é que Ele não cura ninguém nos hospitais comuns? Será que só é simpático para com as doentes dos hospitais geridos por freiras católicas?); um Deus que para cúmulo realiza esta cura individual (ao menos que fosse uma cura colectiva, a favor de todas as doentes que estavam na altura naquele hospital), pressionado por uma cunha metida pela Madre Teresa de Calcutá, que, pelos vistos, fazia questão de ser declarada beata o mais rapidamente possível, antes que este papa seu amigo pessoal morra e seja beatificado e canonizado ainda antes dela; um Deus que cura uma muçulmana sudanesa entre milhões de outras mulheres de África tão doentes ou mais do que Lubna Abdel Aziz, mas de todas estas Ele já não quer saber para nada; um Deus que, para cúmulo, realiza esta outra cura, pressionado por uma cunha metida pelo beato Daniel Comboni que, pelos vistos, estaria a sentir-se frustrado por há anos continuar na ínfima categoria de beato e precisava de passar urgentemente ao escalão mais alto de santo só pode ser um Deus cruel e sádico que nós, seres humanos, havemos recusar. Em nome da dignidade humana. Em nome da solidariedade universal. E porque não dizê-lo? também em nome da Fé cristã jesuánica. A qual, como reza a Carta aos Hebreus (12, 2), tão esquecida e desprezada entre as cúpulas da nossa Igreja, tem o seu fundamento último em Jesus de Nazaré, o Filho muito amado de Deus, a quem Ele, seu Pai/Mãe, felizmente, não fez o milagre de o livrar da cruz em que criminosa e injustamente o executaram, e, assim, com esta sua presença-ausência deu um inequívoco sinal ao mundo de que, ao contrário dos ídolos feitos à medida dos nossos egoísmos e dos nossos interesses corporativos, respeita quase até ao escândalo a nossa autonomia de seres humanos e a nossa responsabilidade histórica e política, a fim de que nos tornemos mulheres e homens à sua imagem e semelhança, tão criadoras e criadores quanto Ele, tão salvadoras e salvadores uns dos outros quanto Ele!
Mas se já era repugnante um Deus que hipoteticamente pode curar os doentes e não os cura, apenas cura uma ou duas mulheres entre milhões e, mesmo assim, devido a ter sido pressionado pela "cunha" de uma freira candidata a beata ou pela "cunha" de um padre beato candidato a santo, Ele ainda se torna mais repugnante, quando temos a pachorra de ler os relatos oficiais com as circunstâncias em que estas curas ocorreram e nos quais a Cúria Romana se apoiou para reconhecer que se trataram de autênticos milagres que só Deus poderia realizar, e não são o resultado da acção médica humana contra a doença.
Primeiro. Ambos os milagres ocorreram em hospitais geridos por freiras católicas. O dela foi na Casa para moribundos que as próprias companheiras sobreviventes de Madre Teresa têm a funcionar em Patirão, na Índia. O dele foi no Hospital Maternidade Santa Maria, fundado e gerido pelas suas filhas Missionárias Combonianas, no Sudão (África). Portanto, duas instituições geridas por pessoas que pertencem às congregações fundadas, respectivamente, pela então candidata a beata e agora beata, e pelo então beato candidato a santo, agora santo. As quais, expressamente dizem que intervieram na produção de cada um dos milagres. E nas quais, por isso, é de todo impossível a isenção, por mais que elas o quisessem! Só um cego é que não vê que os supostos milagres interessavam e de que maneira às pessoas que os relatam.
Segundo. No que respeita à cura atribuída a Madre Teresa, diz o relato duma das suas filhas que elas quiseram que uma irmã da miraculada escrevesse para a casa-mãe das Missionárias, em Calcutá, a contar como tudo tinha acontecido. Mas ela não o fez. Tinha mais em que pensar, pois andava às voltas com o seu próprio casamento. Na sua falta, avançou uma das freiras, precisamente, a Irmã Bartholomea, superiora do convento na mesma cidade em que fica a Casa dos moribundos, onde aconteceu o milagre! Às dezassete horas conta a Irmã fomos rezar, durante meia hora, junto de Monika que naquele momento estava particularmente aflita, e eu disse mentalmente: «Madre, hoje é o teu dia. Tu amas todos aqueles que se encontram nas nossas casas. Monika está muito doente, por favor cura-a.» Recitámos em inglês nove vezes o «Lembrai-vos», a oração que Madre Teresa gostava muito de repetir (...) Seguidamente colocámos sobre o ventre da doente uma medalha milagrosa que tinha tocado o corpo da Madre após a sua morte. Passou a noite e na manhã do dia seguinte, Monika já se levantou e disse à vizinha de cama: já não sinto dores e o tumor desapareceu. Era o dia 7 de Setembro. No dia 29 do mesmo mês foi a uma consulta de controlo e o médico declarou-a curada. Como se vê, a receita para obter uma cura, por intermédio de Madre Teresa de Calcutá é simples. Basta uma ordem mental da superiora do convento dada à falecida Madre Teresa, para que ela cure a doente; a seguir, não vá a ordem não resultar, recitar emm inglês nove vezes não pode ser nem mais uma, nem menos uma! o Lembrai-vos ó piíssima virgem Maria; ter à mão uma medalha milagrosa que tenha tocado no cadáver de Madre Teresa e pô-la em contacto com o corpo da doente; finalmente, ir dormir e esperar pela manhã seguinte. O milagre é garantido! Palavra de Bartholomea, superiora das Missionárias da Caridade em Patirón, Índia!
No caso da cura atribuída a Daniel Comboni, as coisas foram semelhantes: Colocámos debaixo do travesseiro da mulher agonizante quem o garante é a irmã Assunta Xotta, comboniana, uma das interessadas no milagre uma imagem de Comboni e confiamos a ele a saúde dela. Eu tentava explicar à mãe da doente e à própria paciente quem era Comboni e pedia a ela que invocasse a sua intercessão. Tinha um certo receio, porque era muçulmana. Contudo, expliquei a ela que Comboni viveu aqui para levar a todos o amor do Senhor. Ele amou o Sudão e os sudaneses. Morreu aqui, no meio desse povo. Nós sabemos que ele agora se encontra junto de Deus e é seu amigo. Por isso, podemos pedir a ele favores. É o que estamos fazendo. Resultado: uma semana depois, a doente deixava o hospital. Curada. Até à próxima doença, certamente! Entretanto, o hospital Maternidade onde isto sucedeu passou a ser chamado pela comunicação social local de hospital dos anjos da caridade. E todos os institutos combonianos, ao saberem que já tinha sido conseguido o segundo milagre indispensável para a canonização do seu fundador o primeiro dos dois milagres já se tinha dado no Brasil, com uma menina de dez anos decidiram financiar a construção de um novo hospital, em substituição do velho que foi demolido. Tudo, é claro, em memória de Comboni! E as irmãs combonianas que continuam à frente da nova casa, agora apetrechada de tudo o que é bom em termos hospitalares, nunca foram tão felizes. (Digam lá se ter um fundador santo, ou mesmo simples beato, não dá jeito aos seus filhos e filhas. Mas que jeito!...)
P.S. Por favor, não nos deixemos escandalizar com o que acabámos de ler. Escandalizemo-nos, e até à indignação, com estas práticas eclesiásticas católicas romanas tão pouco decentes. Elas apontam para uma imagem de Deus que, se fosse autêntica, era mesmo um Deus cruel. Por isso, não nos deixemos iludir, nem mesmo com o aparato de certas cerimónias papais televisionadas para todo o mundo. Abramo-nos dignamente ao Deus Vivo, o de Jesus, o único que canta e dança, quando nos vê crescer em sabedoria e em ciência, e a fazer todos os dias e em toda a parte, tanto no campo da saúde, como em todos os outros campos humanos, aqueles milagres que nenhuma reza, nenhuma novena, nenhuma medalha milagrosa, nenhum santinho, nenhuma relíquia, nenhuma candidata a beata, nenhum beato candidato a santo conseguem fazer. Estes, sim, são os únicos milagres que nos dignificam e glorificam o Deus Vivo, porque não acontecem só de vez em quando e para uma entre milhões de mulheres e de crianças, mas para muitas mulheres e para muitos homens e para muitas crianças. Falta apenas estendê-los a todas as pessoas do planeta, independentemente de terem ou não terem dinheiro para pagar. Mas a nossa Humanidade ainda há-de chegar lá! Prossigamos a luta nessa direcção, que vale bem a pena! |
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Livros do trimestre
Editorial Trotta / Hans Küng Liberdade Conquistada O livro ultrapassa as 600 páginas de memórias. Mas depois de lidas, ainda sabem a pouco. Por isso, é bem-vindo o segundo volume já prometido pelo mais famoso teólogo europeu da actualidade. E também o mais saudavelmente polémico e dissidente. Ler estas Memórias de Hans Küng, nascido em 1928 na Suíça, é respirar liberdade. E ficar contagiado por ela. A Igreja de que aqui se testemunha é outra loiça. É bem a casa dos seres humanos. Mas é uma Igreja quase nos antípodas da Igreja da Cúria romana que tanto tem maltratado este cristão católico. Para mal dela.
Uma agradável surpresa para uma leitora/um leitor português é encontrar neste livro de Memórias, várias referências ao chamado fenómeno de Fátima. Nas pgs. 206-207, por exemplo, Küng começa por contar a visita que fez a Lourdes e da que já não fez a Fátima, por achar que não valia a pena. Escreve assim sobre Lourdes: "O que me desagrada teologicamente em Lourdes é que se apresente Maria rainha do céu sozinha, sem o seu Filho, repartindo graças ela mesma com ambas as mãos [...] Não há aqui lugar para o «solus Christus» [= só Cristo] como mediador [...] As pregações sobre Maria às multidões que sou obrigado a escutar, desagradam-me mais do que me ajudam." Logo a seguir, escreve sobre Fátima: "As minhas dúvidas aumentam ainda mais, quando penso no segundo caso célebre de aparições de Maria: Fátima." Informa que leu 414 páginas do cónego Nunes Formigão, publicadas em 1937, sob o pseudónimo de Visconde de Montelo. E acrescenta: "Fica para mim claro: não tenho necessidade de viajar até lá. Com a minha «logística», Otto Karrer envia esse material, juntamente com uma carta de advertência, a diversos cardeais (entre eles Montini) e bispos. Porque a partir de vários indícios (duas virgens distintas ao mesmo tempo, aparições também a outras pessoas, conhecimento prévio das revelações), ele tem a convicção de que ao menos no caso de Fátima, embora também confirmado por papas, se trata de projecções piedosas e contraditórias de umas crianças (mais exactamente da mais velha das três). Tudo pode explicar-se facilmente: a sua mãe tinha-lhes falado já de outras aparições em La Salette, onde a rainha do céu tinha aparecido a uns pastoritos em 1846. A mim, a análise crítica de Karrer convenceu-me plenamente. Nauturalmente, as peregrinações continuam em Fátima como se não houvesse qualquer dúvida.Mais, Paulo VI (Montini) e João Paulo II (Wojtyla) darão poderosa cobertura ao lugar com intervenções pessoais. Desde o século XIX papismo e marianismo vão de mãos dadas."
São múltiplos e fundamentais os outros assuntos trazidos à ribalta por este volume de memórias. O eminente teólogo suíço é uma enciclopédia viva, não só da evolução do pensamento teológico, mas também da História da Igreja do século XX. As suas memórias ficarão para sempre ligadas à História da Igreja. Impossível saber o que foi a Igreja católica do séc. XX, sem este volume e o que se aguarda proximamente.Ainda bem que ele o está a escrever.
Campo das Letras / Fernando e Maria Rosa Redondo Do capitalismo para o Digitalismo
"Especialistas de todos os saberes, uni-vos!" É com esta palavra de ordem, a fazer lembrar a velha palavra de ordem do Manifesto, "Proletários de todo o mundo, uni-vos!" que termina este livro de 180 páginas. As últimas 80 são quatro anexos, cada qual o mais oportuno (embora o segundo seja todo em inglês e sem tradução) e alguma bibliografia. Tudo neste livro é surpreendente. Desde o título ao conteúdo e à própria linguagem. Toda a nossa atenção à mensagem. Que por aqui pode estar a passar o Futuro.
"O capitalismo - escrevem os autores a concluir o primeiro Anexo - não é só um sistema social gerador de enormes injustiças; o seu maior fracasso consiste em não ser capaz de pôr ao serviço da humanidade a força criativa de milhões de cérebros. Obedecendo à lógica mesquinha do assalariamento não pode, apesar dos enormes meios tecnológicos de que dispõe, fazê-lo. Lutemos pelo Socialismo que será como o abater de um dique que barra a inteligência humana. Milhões e milhões de cérebros humanos, em cooperação, encontrarão soluções mesmo para os problemas que sempre nos pareceram eternos." Na introdução ao livro, os autores - ela e ele - esclarecem: "O nosso objectivo é demonstrar a necessidade de reajustar o paradigma marxista e dar contributos nesse sentido. Partimos do princípio de que o desenvolvimento da tecnologia está a criar condições para a emergência de um novo modo de produção já não baseado no assalariamento, sendo previsível para breve o surgimento de um novo conjunto de relações de produção e depois a sua rápida generalização tal como aconteceu com o assalariamento no século XIX. Tudo leva a crer que a luta dos que se reclamam progressistas será travada a partir desse novo modo de produção (o Digitalismo) e que os instrumentos teóricos tradicionais terão que ser ajustados para se manterem adequados nessa nova fase. Se se mantiver a actual esquizofrenia política que, por «fidelidade» ao paradigma marxista, insiste em lutar nos moldes tradicionais contra um adversário (o Capitalismo) que em grande medida já é outro, então as perspectivas são sombrias." Prosseguem depois: "Propomo-nos portanto identificar os traços da sociedade actual que não foram previstos, e não são explicados, pela teoria marxista. O objectivo, podemos enunciá-lo desde já, é proceder aos ajustamentos da teoria que permitam, assimilando a realidade actual, devolver-lhe a qualidade de instrumento para a acção." O livro inclui mais quatro capítulos: Um novo Modo de Produção; Reajustar a Teoria do Valor; A superação do Capitalismo; Conclusão - uma teoria para os trabalhadores de hoje. Para a "superação do Capitalismo", os autores enunciam cinco linhas, que desenvolvem esquematicamente: 1. Primado do trabalho, logo do conhecimento; 2. Democratização da distribuição dos excedentes; 3. Cobertura dos riscos e financiamentos; 4. Garantias no acesso à informação; 5. Passagem à prática. "Todos perguntarão como, aonde e quando ocorrerá o desenvolvimento do [novo] Modo de Produção. (...) Se é o conhecimento dos trabalhadores que faz mover, e render, os meios de produção porque é que os trabalhadores não acabam com o Capitalismo recusando o seu conhecimento aos patrões e estabelecendo-se «por conta própria»? |
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S.O.S. da Direcção do Jornal Fraternizar
Antes de mais, um abraço e um beijo neste início de 2004 que é também o ano 17 de publicação do nosso Jornal Fraternizar. Quero comunicar-lhes que a continuação do nosso Fraternizar em papel está seriamente ameaçada. A Associação Padre Maximino, sua proprietária e editora, está sem verbas. Os custos de correio são elevados, a juntar aos da tipografia e outros encargos estruturais. Acresce que as pessoas que o recebem se "esquecem" de partilhar do seu dinheiro connosco. E não temos subsídios de ninguém, nem incluímos publicidade paga nas nossas páginas. Por isso, embora nos custe, suspenderemos de imediato a edição do Fraternizar em papel, logo que deixe de haver dinheiro para o financiar. Admitimos prosseguir com a sua publicação na internet. Por favor, compreendam-nos! P. S. Os encontros de leitoras e leitores foram suspensos. Não há quem os prepare e promova. |
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© Página criada 7 Janeiro de 2004 |
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