Textos do
Jornal Fraternizar-

Edição nº 152, de Janeiro/Março 2004 (Continuação)

Outras cartas

MENSAGEM SATÂNICA

Paróquias de Campo Maior. An­tónio João Pires Roque: Te­mos recebido, nestas Paróquias, dois pasquins blasfemos que fe­rem profundamente a Mãe Igreja e a Santíssima Virgem, logo fe­rem-nos a nós Católicos.

Exigimos que doravante ces­sem o envio dos mesmos, a fim de que a mensagem satânica não continue a conspurcar a nossa caixa de correio.

Os pasquins são endereça­dos ao Reverendo Cónego Do­na­­ci­ano Afonso, distinto Pároco de Campo Maior (que nunca os descintou) e ao Reverendo Padre Jorge de Matos que, há muitos anos, não está nestas Paró­quias.

Assim, repetimos novamente, exigimos que não voltem a ser remetidos tão abjectos papéis. Se persistirem na remessa accio­naremos os meios legais ao nos­so alcance.

A partir de agora todos se­rão devolvidos.

Continuamos a pedir a Nossa Senhora de Fátima a conversão dos pecadores, em especial os sa­cerdotes blasfemos e obstina­dos no pecado.

QUE EMBUSTE!

S. João de Ovar. Bruno Miguel Meu caro amigo: Não o conheço pessoalmente, mas atrevo-me a tratá-lo como amigo. Conheci-o através da televisão, num saudo­so “Conversas Secretas” com Ba­ptista Bastos. Irónico, não? Ver e ouvir alguém tão lúcido, tão sim­ples, tão humano nesse “me­dium” que hoje é o principal mo­tor dos medíocres, dos idiotas, dos poderosos – como aquele que deu graças a N.ª S.ª de Fátima por ter desviado as man­chas do “Prestige” das nos­sas santas águas...

Mais tarde, reencontrei-o nes­­se grande livro Fátima nunca mais e uma posterior visita ao santuário só serviu para confirmar tudo o que li. Que embuste nos querem impingir!...

Entretanto, trabalhei num jor­nal chamado Notícias de Lourosa – esta terra diz-lhe alguma coisa? – e um dos meus projectos pas­sava por entrevistá-lo. Não foi pos­sível, porque o jornalismo aca­bou para mim, no momento em que percebi que também aí nos pe­quenos jornais de província quem aparece, quem é promo­vido, são os medíocres, os idiotas que pululam nas autarquias, nas empresas, nos clubes desportivos, nas estruturas partidárias, etc.

Mudei de profissão, mas conti­nuei a ler Eça, Saramago, Tabu­chi, Ari dos Santos, Jorge Amado, Steinbeck e, claro, Mário de Oli­veira. Como Farpas. Mas com ter­nura, um livro obrigatório para quem se recusa a pactuar com “esta merda que se chama mun­do”, como muito bem disse Sara­mago.

Como quero continuar a lê-lo, e sabendo que publica periodi­ca­mente o Jornal Fraternizar, ve­nho por este meio manifestar o interesse em assinar o seu jornal, juntando os euros corresponden­tes ao valor da assinatura anual. Um grande abraço e um até bre­ve.

TOTAL IDENTIFICAÇÃO

Porto. Mariana Leite: Caro Pater (ou deverei dizer Frater?) Mário: Chamo-me Mariana, tenho 18 anos e sou do Porto. Comprei o seu livro E Deus disse: do que eu gosto é de política, não de religião (título bem comprido, hem?), na Feira do Livro, onde ali­ás me deu um autógrafo (e dois beijinhos!).

Bom, o motivo pelo qual lhe es­crevo provém da total identifi­cação com as vigas mestras do pensamento que estabeleceu no livro. Sou uma pessoa que desco­briu Deus – o/a Eter(no) – que une como o ar todos os humanos e (cada um a si), há pouco tempo. Isto porque toda a minha infân­cia foi vivida com uma noção de Deus lá fora, tão lá fora, até de­sa­parecer totalmente. Acho que tinha 9 anos, quando deixei de achar que esse tal Deus das ladainhas e das catequeses exis­tiria. Claro que tive momentos de “fraqueza”: a necessidade de pertencer a um grupo, a uma instituição, é muito impor­tante para qualquer um, sobre­tudo, entre os adolescentes.

A família da minha mãe é toda católica. Tão, tão católica (com excepção da minha mãe que se abstém um pouco), que me minhocou a cabeça para que, aos 7 anos (e enlevada pela festa de um casamento) fos­se baptizada. Não tinha al­ma, e iria para o inferno, arder com os piores facínoras da Hu­ma­nidade (bem, na altura não sabia, mas provavelmente tam­bém com muitos clérigos – inqui­sidores, pregadores, “evangeli­za­dores” do Império).

Ora bem, agora que já me expus um bocadinho, vamos à coisa em si. Gostaria muito de poder assinar o jornal onde pu­blicou primeiramente as cróni­cas, o Fraternizar. Já lhe deitei os olhos na internet, mas viva o papel entre os dedos! É de resto por isso que lhe escrevo –poder-lhe-ia mandar um e-mail, mas isso não dá o mesmo gosto nem a mesma “intimidade”. Mes­mo assim, subscrevo o meu en­dereço na net.

Outra coisa que me interes­sou muito foram as comunida­des cristãs de base, e gostaria de obter mais informações (curi­osidade).

Finalmente, uma questão (qua­se) idiota, mas para mim, imperativa. Isto advém da minha mais recente e verdadeira tenta­tiva de me aproximar/deixar transbordar por Deus. A ques­tão é que tentei uma primeira aproximação através do que me era familiar – a Igreja católica. Falei com um padre, de resto bastante jovem, mas que me “ob­jectou” a possibilidade de per­tencer ao Reino de Deus (o etéreo Reino da Igreja) por um motivo meramente político: sou comunista. Ó diabo! (há-de ter pensado o tal padre). Mas en­tão eu, e nós (falo pelos meus companheiros, pais, namora­do...) não somos parte do mun­do? Não podemos ter um Deus, o/a verdadeiro/a Matrix/criador universal? Era esta a pergunta.

Bem, tenho muito assunto pa­ra escrever, mas reservo-o (espero que haja) para a próxima oportu­nidade. Isto, claro está, se não for chatear muito! Um grande bei­jinho.

NÃO ME IDENTIFICO MINIMAMENTE

Estoril. Cândida Silva: Sr. Mário de Oliveira: Por favor, não volte a enviar-me o seu jornal. Já não aguento mais os seus ódi­os, as suas raivas, as suas frus­trações. As suas obsessões. Não me identifico minimamente con­sigo, na realidade, já não sei o quê nem quem o senhor é.

APOIO E LOUVO

Guimarães. Manuel Reis: Aqui vai um cheque de... para a pró­xima anuidade do Jornal Fraterni­zar, esperando e fazendo votos que ele não morra!

Chegou-me hoje o último n.º de Out.º/Dez.º 03. Já gastei duas horas com ele. Se me pedes um juízo pessoal, apoio e louvo a ne­cessária radicalização (a pala­vra é imprópria... mas é só para nos entendermos!) que ele tem sa­bido assumir. Olha, e até gostei daquela “Liturgia fúnebre/festiva”, a que presidiste e providenciaste em Macieira da Lixa. É preciso fazer cair todas as máscaras e ca­ra­manchões, todas as duplica­ções que as religiões institucio­nais trouxeram à vida do “Sócio-Anthropos”, impedindo este de se tornar adulto e se libertar. Uma delícia, o texto de José M. Cas­tillo. Coincide com a minha te­se do Primado absoluto do Jus­to sobre o Verdadeiro e constitui uma boa desmontagem do Cristi­anismo histórico-doutrinal. Aí vai um forte e afectuoso abraço.

POLÉMICAS DOUTRINAIS

Ponta Delgada. Pe. Nuno Fili­pe: Cordiais saudações e votos de bem-estar, no Senhor. Che­gou-me às mãos o livro Inquérito aos assinantes do Jornal Fraterni­zar, que estou lendo para conse­guir uma ideia o mais possível ob­je­ctiva sobre o Jornal Fraterni­zar, que V. Rev. dirige. Melhor: as ideias que há muito vem divul­gando e que não são aceitáveis, muitas delas, ao confrontá-las com a Mensagem de Jesus (não me mande o jornal, porque há mui­to que o conheço; já o li e não consigo concordar com mui­to do que diz).

Lamento estas polémicas dou­trinais. Jesus quer que os seus discípulos estejam unidos. A divisão vem do Diabo (palavra que literalmente quer dizer Di­visão). Confrange-me o coração ver que se levantam polémicas apaixonadas, que servem para afastar a muitos do Caminho, a Verdade e a Vida, que é Jesus, como ele próprio disse.

Da minha parte, continuo muito ligado a Nossa Senhora (a Senhora do meu coração). Es­tive em Fátima o mês pas­sado. Rezei muito na Capelinha das Aparições. Chamem-me sen­ti­mentalista, se quiserem. Ma­ria é minha Mãe! Tenho na minha mesa de trabalho a sua imagem. Gosto de olhar para Ela e rezo à minha vontade.

Caríssimo P. Mário: Peço-lhe encarecidamente que reveja a sua posição em referência à Igreja, santa e pecadora, é cer­to, mas não vamos aumentar os pecados. O seu caso é sin­gularíssimo. Peço-lhe que não vá para a TV dizer inconveniên­cias. Erros palpáveis. Não fale mais de Fátima. Se não concor­da, deixe os outros concordar.

Não estou a repreender. Es­tou tentando ajudá-lo a acertar o passo com quem se mantém fiel à Igreja, incluindo, é claro, a hierarquia. Fico rezando por si. Que a nossa Mãe o inspire e ajude. Com votos de muita saú­de e bem-estar.

N. D.

Pe. Nuno Filipe. Meu caro companheiro: Recebi a sua carta. Reparei que tem e-mail. E prefiro responder/conversar consigo por este meio. É mais rápido e dire­cto. Não sei se lhe chega sem interferências, ou se passa por outros olhos. Arrisco. De resto, o que lhe digo pode ser lido por toda a gente. Tal como a sua carta que teve a amabilidade de me escrever. E que agradeço.

Não lamente as polémicas dou­trinais. Alegre-se com elas. Então não sabe que Jesus foi o maior polemista no seu tempo e país? Quer maior polémica do que ele trabalhar sistematica­mente em dia de sábado? E, de­pois, ainda argumentar, em defe­sa das suas propositadas infrac­ções à lei do descanso sabático, com palavras como as que o 4.º Evangelho põe na sua boca – “O meu Pai trabalha continuamen­te e eu também trabalho”? Será que o Pe. Nuno Filipe desconhe­ce que Jesus foi um homem em conflito, e precisamente com as autoridades constituídas que, no seu tempo, se pensava que eram escolhidas pelo próprio Deus? Não é verdade que, por via disso, nós, as cristãs e os cristãos, sem­pre seremos discípulos de um Crucificado, que é Jesus de Nazaré, de um rebelde, muito jus­ta­mente condenado à morte e executado, segundo os precei­tos da Lei de Moisés, interpreta­dos pelos chefes dos sacerdotes e seus teólogos de serviço? Por­que havemos então de lamentar as polémicas doutrinais, quais­quer que sejam, e em especial as polémicas doutrinais em torno de Fátima e da sua senhora cega, surda e muda?

O Pe. Nuno Filipe confessa-se um homem “muito ligado a Nos­sa Senhora (a Senhora do meu coração)”, diz textualmente. Neste particular, sou eu quem la­menta esta sua postura. Porque ela não está nada de acordo com a prática de Jesus. Já imaginou Jesus em Fátima? Já imaginou Je­sus a fazer sua esta confissão que me faz? Alguma vez ele po­deria dizer que está muito ligado a Nossa Senhora e que ela é a senhora do seu coração?

Por mim, lamento esta sua pos­tura. É uma postura em total con­tradição com a Fé Cristã je­suánica. Se já tiver lido o meu livro FÁTIMA NUNCA MAIS sabe­rá que nossa senhora significa nossa deusa. Não tem nada a ver com Maria, a mãe de Jesus. Trata-se simplesmente duma deu­sa mítica que depois de dois mil anos de cristianismo conti­nua a ser adorada/idolatrada, e constitui a prova inequívoca de que o politeísmo pagão não foi erradicado da mente e do in­consciente colectivo das popula­ções. Pelos vistos, nem mesmo de certos padres. Não estranho, depois que nos foi dado ver que até o nosso Papa João Paulo II vai pelo mesmo caminho!... Como é que a imagem morta duma deusa mítica pode ser a senhora/dona do seu coração? Já pensou o que isto significa? O que lhe diria um psicanalista?

Uma coisa me magoa na sua carta: É esse ar de santidade/vir­tude com que se me dirige. O Pe. Nuno Filipe nunca se põe em causa. Só eu é que estou per­dido e, se não arrepio cami­nho, estou tramado. Eu é que es­tou a ser infiel à Igreja. O Pe. Nuno Filipe e os outros padres e os bispos que vão a Fátima e rezam na capelinha das aparições, não. São todos muito exemplares e até se permitem corrigir-me e admoestar-me, para que eu volte ao rebanho dos que se mantêm fiéis à Igreja. Por outro lado, a que título me diz que reza por mim e não é capaz de me pedir que reze por si? Então não sabe que Jesus a única coisa que de­testou nos seus conterrâneos foi a virtude/santidade dos fariseus, e não os pecadores públicos? Não, Pe. Nuno Filipe, não reze por mim, como quem pede a mi­nha conversão à deusa/senhora de Fátima. Pelo contrário, alegre-se com a minha vida. Aprenda com Deus, o de Jesus, a gostar das pessoas como elas são, nas suas diferenças. Sem moralismos. E deixe-se interpelar por este meu jeito de ser presbítero da Igreja católica, pela minha postura fe­cun­damente protestante e pelas salutares polémicas que a minha vida tem desencadeado e continu­ará, certamente, a desencadear. Afinal, se pensar bem, Deus gosta dos pecadores e para eles veio em Jesus de Nazaré, seu filho muito amado, o maldito segundo a Lei. Olhe que Deus gosta é do filho mais novo que deixou a casa paterna e espatifou tudo com meretrizes. Foi a este que Ele fez uma festa de arromba, enquan­to o filho mais velho, muito cum­pridor da lei e muito virtuoso, nem sequer foi capaz de se inte­grar nessa festa.

Apesar de tudo, obrigado pela sua carta. Escrever-me, revela que ainda me reconhece e se preocupa comigo. Mas em lugar de querer que eu me torne um devoto de nossa senhora e passe a rezar na capelinha das aparições, deixe-se interpelar por este meu jeito de ser e de viver, aparentemente secular e ateu de todos os deuses e deusas que se alimentam de gente. Quem sabe se não acabará por ser menos de nossa senhora e mais do Deus Mãe/Pai que nos habita e nos trabalha continua­men­te para nos fazer à sua ima­gem e semelhança?

Aceite o meu abraço compa­nheiro.

Padre Mário.

FAZ FALTA À IGREJA

Lisboa. Pedro Manuel: Serve a presente carta para iniciar a as­sinatura do seu Jornal. Soli­citar-lhe-ia ainda que me envie o 1.º n.º deste ano 2003, refe­rente aos meses de Jan.º/Março.

Gostaria de lhe dizer que sou com muita alegria cristão católico. Conheci-o como muitos portu­gue­ses através da “publicidade” que a TV lhe oferece. Depois comprei o seu livro Fátima nunca mais. Aqui tomei conhecimento do seu sítio na internet onde o conheci mais e onde igualmente tomei conhecimento do seu jor­nal. Mais coisa menos coisa, tenho uma Cristologia muito iden­tificada com a sua, bem como um modo de apostolado bem à imagem do próprio Jesus: Amor, Vida, Serviço, Fraternidade e Jus­tiça. Aliás como entre outros, D. António Ferreira Gomes, D. Manuel Martins, D. Januário Tor­gal Ferreira, António Matos Fer­reira (Prof. UCP – História) e D. António Monteiro. Por outro lado, há aspectos do seu pensamento e acção com os quais não con­cordo tanto, mas isso só numa conversa que me desse o prazer de ter consigo, aquando duma pas­sagem minha aí na zona nor­te.

Embora saiba que é uma re­conciliação quase impossível, o que eu mais posso lamentar é o hiato que existe entre si e a Igreja, pois considero que a sua afirmação cristã faz muita falta à mensagem da própria Igreja. Mesmo assim continue sempre a utilizar o título de padre, para que todas as pessoas vejam que é mais que legítimo, sendo uma obrigação moral e de consciência o que muitos outros homens da Igreja deveriam também tomar. Com os melhores cumprimentos em Cristo Jesus.

SERÁ QUE O JORNAL CORRE MESMO O RISCO DE ENCERRAR?

Caldas de S. Jorge. José Pin­to da Silva: As melhores sauda­ções, caro Mário. Na última pági­na do nº. 151 do Fraternizar dei­xaste uma mensagem (N.D.) que me deixou a pensar, sobre­tudo a parte “De contrário, desa­parecemos. A decisão é sua.”

Completaram-se 16 anos de vida que, numa pessoa é ado­lescência, mas num órgão de co­municação é idade adulta. De­zasseis anos que viveu o  jornal, de certeza com muitas dificulda­des, mas lá foi marchando e, não sendo embora leitor desde o início, não me recordo de ter lido um tão aflitivo apelo. Será mesmo assim, o jornal corre o ris­co de encerrar, ou trata-se de uma forma de vitimização para “tocar corações”? Enfim, uma té­cnica publicitária comercial?

Vou crer que não é este o caso e que se está numa situa­ção de real dificuldade, que o risco de não continuidade existe mesmo. Neste caso poder-se-á perguntar – e não tenho a pre­ten­são de saber da verdadeira vida económica do jornal e da entidade proprietária – se, ulti­mamente, tem havido perda de assinantes e de apoiantes. E se for o caso, poder-se-á per­guntar se haverá alguma razão objectiva para que tal ocorra, devendo dizer-se que, com a pas­sagem a trimestral, os custos terão sido reduzidos substancial­mente. Espero eu.

Poderá a dificuldade acresci­da que sentem as famílias mais pobres nos tempos que correm ser um factor, considerando-se que o grosso dos leitores perten­cerá a este estrato. É capaz de não ser essa a primordial razão tendo-se em conta que a assi­na­tura não é assim elevada.

O que receio, e não afirmo, longe de mim, é se, porventura, nos últimos tempos a radicaliza­ção do jornal fixando-se nalguns temas que mexem com a socie­dade portuguesa, e não só com a católica, ou que se diz católi­ca, mas também com os que pro­fessam outra corrente cristã ou mesmo com muitos que, sen­tindo-se agnósticos, sentem em si a mágoa sentida pelos que se sentem mais mexidos no seu interior.

Não precisas, caro Mário, de ensinamentos e muito menos de quem sabe bem menos, mas acei­tarás que te diga que eu próprio, não discordando de ti em muitos princípios, não sinto o mesmo quanto à forma como lanças os temas para debate.  Seja no que respeita ao que di­zes do papa actual e na forma como o dizes, seja na forma co­mo tratas a actual hierarquia da igreja portuguesa e como tra­tas tudo o que seja hierarquia, como se, num mundo organiza­do, fosse possível viver-se sem cadeias hierárquicas. Tu mesmo, no meio em que te inseres, en­cadeias-te numa hierarquia, mais ou menos rígida, com leis mais ou menos flexíveis. E todas as es­pécies do reino animal se or­ganizaram em hierarquias e, não servindo de exemplo para nós, vale mais o que tem mais força.

O fenómeno de Fátima, e sabes o que penso sobre ele porque te dei cópia do que es­crevi à direcção do Santuário, atra­vessa, queiramos ou não, trans­versal e longitudinalmente, a sociedade portuguesa, e não só. E atravessa-a com os laivos que, melhor que eu, conheces. E as pessoas, milhões delas, que acreditam no fenómeno, mes­mo que ele não tenha sido o que é  propalado, ficam absolu­ta­mente sideradas com o que dizes e como o dizes. E, se é teu desígnio espalhar a verdade, acho que tens que dar mel e não só vinagre.

Receio que seja sobretudo a forma de expor a doutrina que leva a que as pessoas aceitem menos o jornal, o apoiem menos, o leiam menos (conheço quem o recebe, o não lê e não o paga, quem o paga, mas não o lê – con­sideração à tua pessoa, o pa­gamento, protesto, a não leitu­ra). E isso dará razão aos teus receios.

Por outro lado, não deixarás de reconhecer que tens dado es­paço demasiado à política pura e, não podendo ser considerado o órgão oficial de nenhum partido político, o “Fraternizar” descarre­ga demasiada bílis política nas suas páginas e com uma ten­dência demasiado marcante. Tu, porque sofrido politicamente, po­derás ter razão para, numa visão política, teres aversão a tudo o que cheire a alguma direita ou meia esquerda. Mas o jornal, se tem que viver, tem que ser para outros que não tu sozinho. E os que te seguem de olhos fecha­dos, não chegarão para manter de pé um jornal.

Será possível dar uma virada aos critérios? Eu, que não sou in­fluenciável, continuo a receber o jornal, a lê-lo (não como uma cartilha) e a apoiá-lo. Mas eu e mais alguns quantos como eu, se­remos poucos, ou não bastan­tes. Um forte abraço.

ASSINATURA A FAVOR DE UM AMIGO

Algés. Gabriela: Em 2 de No­vembro de 2003, enviei-lhe o meu cheque de... para a minha assi­natura e agora junto outro che­que de... para uma nova assi­natura a favor de um amigo, pe­dindo-lhe o favor de lhe enviar ainda este mês os números ante­riores 150 e 151. Essa pessoa é um advogado com um desape­go natural que oferece a muitos os seus serviços gratuitamente, mas vive imerso na maior de­pressão não confiando que o bem sustenta o ser humano devi­do à sua imersão diária no seu lado negro. Costumava enviar-lhe a versão portuguesa do Le Monde Diplomatique como forma de lhe mostrar que há consciên­cia social activa, mas é uma vis­ão desprovida de espiritualidade, por isso muito limitada. Optei por avançar a partir deste mês com o Fraternizar, confiando que lhe abra os horizontes da alma para o sentido do percurso não visível que é afinal onde se en­contra a nossa realidade.

NÃO FALO MUITO COM PADRES

E-mail. Maria Ferreira: Padre Mário, em primeiro lugar, dizer que estou a ler o seu livro Fátima Nunca Mais e a adorar, é empres­tado, só não o compro porque actu­almente estou no desempre­go, como muita gente infelizmen­te.

Outro assunto, eu não falo muito com padres, pelo menos com os da minha cidade, porque são muito arcaicos, quando esti­ve em Espanha falava muito com um padre mexicano que era im­pecável. Eu não sou das pesso­as mais crentes, tenho muitas dú­vidas sobre Deus (sem querer ofender), por exemplo, quando fa­le­ceu a minha avó, de repente senti necesidade de ir à missa, que com o tempo me passou.

Outra coisa é que há 3 anos tive uma depressão e embora agora esteja quase boa ainda tenho dificuldades em muitas coi­sas e as pessoas, por exemplo a minha mãe, perdem a paciên­cia comigo porque pensam que eu não quero fazer as coisas, não perecebem que não consigo ainda. E há um problema que me preocupa, eu tive esta depres­são por viver em Madrid, mas não sei se hei-de voltar ou não porque o meu namorado está lá, e ao mesmo tempo tenho me­do de voltar a cair na depres­são. Conto-lhe tudo isto porque necessitava de uma opinião obje­ctiva. Espero que algum dia tenha tempo para me responder. Um abraço.

N. D.

Querida Maria Ferreira: Estive fora toda a semana. Acabo de ler, agora mesmo, a sua carta. E apresso-me a conversar já consi­go, ainda antes de continuar a ler o restante correio electrónico.

Isso de depressões é compli­cado. Pior do que não gostar de falar com padres. A maior parte das vezes, somos uns chatos, car­re­gados de moralismo que tre­sanda. Não me admira que não seja muito frequentadora de pa­dres. Eu também não sou. E vivo melhor assim.

Deus? Bom, Deus é um pro­ble­ma, porque nunca ninguém O viu! Mas ainda bem, digo eu. Já viu o que seria se pudéssemos ver Deus? Tinha que ser um Deus muito à nossa medida, portanto, um deusito de trazer por casa (ria, que faz bem. Uma boa risada por dia e sairá mais depressa da depressão!)

Isso de passar a ir à missa, só porque lhe morreu a avó, não lembraria ao diabo. Lembrou a si, que felizmente não é o diabo. Ainda bem que já voltou a deixar de andar por essas casas. Se volta a frequentá-las, acaba ainda mais deprimida. Fuja dessas ca­sas, porque Deus foi o primeiro a fugir. Ele não habita nelas. A­cre­dite.

Há uma maneira infantil de abordar a questão de Deus. Nunca vá por aí. Acabará ateia! E ainda bem. Se é verdade que a Deus só damos por Ele, se formos co­mo as meninas/como os meni­nos, já não é verdade que Deus seja “coisa” de crianças. Deus é para adultas e adultos, daquelas e daqueles que não atiram as suas responsabilidades históricas para as costas largas de Deus. A Maria Ferreira é daquelas que se aguenta nas canetas, mesmo quando tudo desaba à sua volta, ou é daquelas que, nessas altu­ras, se apressa a perguntar: - Mas afinal onde está Deus que permite tudo isto? Se for das que integram este último grupo, está a dois passos do ateísmo. Mas também a dois passos de ter de viver na pior das orfan­dades, quando, afinal, podia vi­ver no maior dos entusiasmos (sabia que a palavra entusiasmo significa “com Deus dentro”?), mesmo quando tudo parece desabar à sua volta.

Há-de ir para Madrid? Ou há-de ficar por cá? Se tem lá o na­mo­rado, faça o que lhe diz o coração. Mas não deixe de ouvir também o que lhe diz a razão! E, já agora, oiça também o pare­cer do namorado.

Um abraço e um beijo de co­munhão, exten­sivo ao seu na­mo­rado.

UM ESTANDARTEZINHO?

Algés. Gabriela: Quando lhe escrevi em Dezembro de 2002, assinava com um abraço confian­te. Passou-se quase um ano, durante o qual a decomposição existente neste País começou a tornar-se mais visível e contra­riamente ao sentimento de de­pres­são geral publicitada pela comunicação social e expressa nas mensagens dos foruns, quer da internt, quer da rádio, eu agar­ro-me à confiança. Confian­ça, no seu significado de “fiar com”. Coisas de mulheres, dirão, mas o puxar da linha para estar­mos juntos em pensamento e acção e acordarmos consciênci­as, pertence a todos.

O sofrimento e a indignação estão a bater a muitas portas e será talvez o caminho mais rápi­do para que todos possam que­rer a mudança. Mas quem trará a mudança? Somos todos nós, claro, mas a minha alma lusa tem saudades do Encoberto, an­seia por um sinal, por alguém que empunhe o estandarte do ideal e da missão e dê ordem de marcha para o Mundo da So­li­dariedade. Esta saudade lu­sitana que se vai alargando a muitos pode ser perigosa e tra­duz-se por vezes na frase que já li várias vezes: “Volta Salazar que estás perdoado!” Um povo sem espiritualidade nem ideais está pronto a ser comandado pe­lo senhor que se segue... Mas mesmo assim no aqui e ago­ra, confio e sei que fio com muita gente, mas já agora, Padre Mário, que tal empunhar um es­tandartezinho?!. Um grande abraço.

UMA BÊNÇÃO

Braga. Paulo Espírito Santo: Foi com enorme satisfação que pude ouvir a sua participação no fórum da TSF de hoje, relati­vamente aos actos litúrgicos proi­bidos pelo Vaticano. A sua palavra é uma benção para a alma!

Recordo-lhe que há uns tem­pos atrás tentei falar com o director do Correio do Minho, jornal de Braga concorrente do ul­tra-conservador Diário do Mi­nho, mas as tentativas revelaram-se um fracasso, pois nem obtive qualquer resposta à possibilidade de incluirem as suas crónicas no referido jornal! Pelos vistos, os vários poderes instalados, nes­te caso concreto, o camarário, não tentam colidir entre si, per­pe­tuando-se, como muitas vezes bem tem dito o caro P. Mário.

Para finalizar, uma confidên­cia: sou amigo de um ex-jesuíta, angolano que me contou que aquando da realização de uns en­contros entre jesuítas da pe­nín­sula, havia um jesuíta espa­nhol que perguntava sempre pe­lo P. Mário, afirmando que os portugueses teimavam em não re­conhecer-lhe a devida impor­tância! Eu, pela parte que me toca, tento contribuir para que a sua voz seja cada vez mais ouvida!

Um bem-haja, P. Mário!

N.D.

Caro Paulo: Bem-haja pelas suas palavras de estímulo. O seu nome é uma responsabilidade. Tem que ser um homem como Je­sus de Nazaré, para dizer com o seu nome, um homem que se deixa conduzir pelo Espírito San­to. Por isso, um homem liberto e libertador. Seja!

Fiquei surpreendido, quando a TSF me convidou a participar no Forum de ontem. Há muito que isso não acontecia. O que eu disse foi um pouco do muito que há para dizer. A Cúria do Va­ticano não tem emenda. É mes­mo cruel. E desta vez conseguiu escandalizar até as católicas não ilustradas das paróquias. Os te­lejornais de ontem à noite foram disso prova. Ora, quando isto su­cede, é sinal de que este mo­delo de Igreja não tem mais per­nas para andar. Por mais que a Cú­ria do Vaticano queira. O futu­ro é do Espírito Santo que no Concílio Vaticano II rasgou outro caminho e está apostado no mo­delo de uma Igreja comunhão.

Não sei se sabe, mas já fui jornalista, durante dez anos, no CORREIO DO MINHO. Então, as minhas crónicas fizeram furor. E acabei por sofrer um mês de sus­pensão, enquanto respondia a um inquérito instaurado pela Administração. Ficou tudo em águas de bacalhau. Mas, depois, foi-me retirado o espaço das crónicas. E estive um ano pratica­mente parado na redacção. Ganha­va, mas não me davam que fazer. Finalmente, a Administração sus­pendeu a saída do jornal, a pre­texto duma “reestruturação”. Era para ser uma suspensão de um mês, acabou por arrastar-se por um ano. E creio que não se arras­tou por mais tempo, porque eu, entretanto, negociei a minha saí­da do jornal, para poder fundar, com outros companheiros e ou­tras companheiras o Jornal Fra­ter­nizar.

Não estranho que nem respon­dessem à sua proposta. O Costa Guimarães (suponho que conti­nua a ser o director) já assistiu, como jornalista do Correio do Minho, a todo este folhetim da Admi­nistração comigo.

Um abraço de comunhão.

NÃO HAVERÁ AULAS DE MORAL PARA MIM

E-mail. Justiniano: Olá! O meu nome é Justiniano e sou es­tu­dante de Teologia da Univer­sidade cátólica. Ingressei neste curso porque me tinha sentido cha­mado à vida sacerdotal. De­pois de conhecer a realidade das estruturas comecei a separar o essencial do supérfluo, sentin­do-me muito desagradado com a hierarquia. Estou a pagar um preço demasiado alto por não me calar, chamando-me de here­ge a ateu. Sei que irei ficar de­sem­pregado, não haverá aulas de moral para mim.

Leio algumas coisas do pe. Mário e reconheço a posição con­vi­cta, felicitando por não ser es­cra­vo de normas, mas livre para a sua própria consciência. Gosto muito da sua forma de pensar, considero uma pessoa inteligen­tís­sima e gosto muito de ler os seus escritos. Por isso gostaria de receber também o Fraternizar.

Envio-lhe a minha morada pa­ra que possa receber o jornal e me digam como posso pagar a as­sinatura. Sem mais assunto de momento, um abraço amigo de “companheiro e irmão”.

FUNDAR A FÉ CRISTÃ

E-mail. Bruno: Viva! Tenho uma ligação à Igreja Evangélica e sou um grande admirador das suas posições teológicas e soci­ais. Cheguei a dizer em tempos que talvez fosse a pessoa com cuja leitura cristã eu mais me con­seguia identificar. Neste mo­mento decorre na Blogosfera - em excelente espaço de informa­ção e debate - uma discussão acer­ca da contingência histórica que assistiu à formação do Novo Tes­tamento, onde se questiona em que medida o cânone esta­belecido pelo Catolicismo permite fundar a fé cristã. Algo seme­lhante ao que faz com os livros do Velho Testamento em Nem Adão e Eva, nem Pecado Origi­nal, sendo notável o modo co­mo relaciona a escrita bíblica com o nacionalismo da casa de David. A questão é que o Novo Tes­tamento é mesmo o funda­mento da fé cristã, e o questio­na­mente dos seus conteúdos vai ao âmago da fé informada na Palavra. Sendo esta a temática central acerca da qual gostaria de ler a sua opinão, coloco-o a par de algumas das mais impor­tantes contribuições para esse mesmo debate. Muito gostaria que pudesse contribuir com o seu conhecimento, mesmo com al­gum artigo que já tenha publi­cado.

N. D.

Agradeço a sua mensagem. E as palavras de estímulo. Tam­bém eu gostava de criar um blog. Tenho já o “sítio”, mas é uma coisa pesada e de difícil manejo. Gostava de paralelamente criar um espaço mais ligeiro e interve­niente. Como fazer? É gratuito, ou tem que se pagar?

Quanto à questão que me co­loca, aqui avanço alguns tópicos:

1. A fé cristã não se funda­menta nos livros do Novo Testa­mento. Fundamenta-se numa pes­soa e num Acontecimento: em Je­sus de Nazaré e na sua morte/ressurreição. Não houvesse Jesus de Nazaré crucificado/resssuci­tado e não haveria Fé cristã. Nem tão pouco haveria Novo Testamen­to. É a prática radicalmente libert­adora e integradora e a palavra fecundamente maiêutica de Jesus, reveladoras de um Deus outro e de um Homem outro, que estão na origem da Fé cristã. Por isso é que pode haver muitas pessoas que sabem tudo e mais alguma coisa sobre o Novo Testamento e não têm Fé cristã. Porque esta é encontro vivencial com a pes­soa de Jesus e com o seu Espí­rito. Um encontro que muda o nosso ser e faz de nós novas cria­turas, outros Jesus, aqui e agora.

2. Os Evangelhos canónicos são obra das comunidades cristãs da segunda geração. O mais pri­mi­tivo será o de Marcos. E o mais tardio, o de João. Antes, terá havido um documento ou Fonte Q, do conhecimento da co­munidade que escreve o Evan­gelho de Marcos e os outros dois Sinópticos, mas que desapa­receu. Os especialistas tentam re­constituí-lo. Há propostas con­cretas de texto que circulam e contam com generalizada aceita­ção.

3. Mas atenção: os Evangelhos canónicos não são biografias de Jesus. Nem livros de historia­do­res, pelo menos, como hoje nós entendemos um historiador. Nem são reportagens jornalísti­cas. São densos relatos teológi­cos. Não têm preocupação de fi­de­lidade histórica. Por vezes, até distorcem os factos históri­cos, para melhor poderem ser fiéis à teologia que pretendem proclamar. Não nos apresentam Jesus histórico em directo, como numa reportagem jornalística da actualidade. São já uma interpre­tação do Jesus histórico. Por isso, são diferentes entre si. To­dos testemunham sobre Jesus, mas em função dos problemas com que cada comunidade que es­creve se vê confrontada na al­tura.

4. Hoje, não falta quem pre­ten­da chegar a Jesus, ele mesmo, e às suas palavras autênticas. Não é possível. Jesus não escre­veu livros. Viveu num contexto social e cultural que privilegiava a comunicação oral. E utilizou-a até ao extremo. Mas também não é necessário chegar ao Jesus histórico, ele mesmo. Muitos dos que o conheceram em directo, não só não creram nele, como até o mataram! O fundamental é a pessoa de Jesus, como tal, e o tipo de morte que sofreu. E a consequente ressurreição que, algum tempo depois, foi perce­bi­da e proclamada pelas primei­ras comunidades de discípulas e de discípulos. Não há aconteci­mento mais revelador do que este. É a luz que este acontecimento irradia que muda a História. Ele vem dizer que Deus, afinal, não está com os agentes do poder, como sempre se pensou, mas com as suas vítimas. Esta Boa Not­ícia para os pobres e oprimi­dos do mundo (má notícia para os agentes do poder) é uma revo­lução. Tudo no mundo está orga­ni­zado ao contrário, ainda hoje. É por isso que as Igrejas que vi­vem para dar força aos agentes do poder e elas próprias se tor­nam agentes do poder, são Igre­jas que se comportam como Ju­das, ou ainda pior do que Judas. Em lugar de Igrejas-mártires (= Igrejas-testemunhas), são Igrejas traidoras. Matam a profecia e, de­pois, para compensar, entre­têm-se com actos de culto que não passam de alienação.

5. Mas no Novo Testamento, temos outros livros que podem ser lidos como documentos histó­ricos. São as cartas. Sabemos hoje que as Cartas autênticas de Paulo são anteriores aos pró­prios Evangelhos. Começam a ser escritas por volta do ano 50, ao passo que o Evangelho de Mar­cos terá sido escrito por volta do ano 70. O interessante é saber­mos que Paulo nunca teria escrito estas cartas, se Jesus não tivesse existido e não se tivesse tornado a Boa Notícia de Deus, o Evan­gelho de Deus.

Aproveito para o felicitar por este trabalho em que está envol­vido com outras pessoas. Mas não esqueça que o mais impor­tante é conhecer realmente Jesus e deixarmo-nos possuir e condu­zir pelo seu Espírito ou Sopro, até nos tornarmos mulheres e homens do seu jeito, hoje e aqui.

Um abraço companheiro e irmão

Mário

O QUE DEUS GOSTA

E-mail. Maria da Graça: Pa­dre Mário: Permita-me que lhe diga que o que Deus gosta e pre­cisa é de homens como o se­nhor. O seu livro, que comprei na festa da Alegria, em Braga, acompanhou-me nas férias e du­rante três dias senti a força das suas palavras libertadoras e da sua esperança. Felizmente criar­am raízes. Nem a todas as pala­vras o vento leva e as suas ga­nham raízes rapidamente, co­mo as plantas silvestres que ti­ram da terra árida tudo o que pre­cisam para viver. Bem haja por dizer o que deve, atitude ra­ríssima entre os nossos irmãos. Gostava de lhe dizer que daí retirei paz, esperança, optimismo e força, muita força. As suas palavras rasgam brumas e recei­os, mas não escandalizam. O que escandaliza é este mundo.

Guardo o seu livro entre os meus predilectos, recomendo-o aos amigos especiais e gostarei muito de o apresentar daqui a uns anos às minhas filhas. Estou certa que serão actualíssimas e necessárias as suas palavras para a sua formação humana e cristã (quem dera o contrário!). Aceite um reconhecido e fraterno abraço Maria da Graça

N.D.

Querida Maria da Graça: Mas que estímulo, as suas palavras! No meio de tanta aridez e incom­preensão, as suas palavras são bál­samo e brisa que me acariciam. Bem-haja! Prosseguirei neste com­bate pela verdade que é também combate pela liberdade. A Ordem mundial em que nos movimenta­mos é perversa, porque só favorece minorias privilegiadas em cada país. Não garante a todas as pes­soas e a todos os povos, por igu­al, as mesmas possibilidades. Pelo contrário, deixa de fora da mesa que deveria ser comum a esmagadora maioria da Humani­dade. Por isso, é uma Ordem mun­dial que retém a verdade cativa na injustiça. Se não temos consci­ência desta realidade, poderemos pensar que estamos no melhor dos mundos. E faremos tudo para aproveitar dele, sem nos questio­narmos. E sem nos tornarmos mi­litantes em prol duma Ordem mun­dial outra que urge buscar e edificar.

No meu horizonte, tenho sem­pre o ser-viver de Jesus de Nazaré. A sua morte crucificada revela uma vida militante não apenas re­formista, mas revolucionária, ra­dicalmente libertadora, que pode bem ser chamada Nova Criação. É ele o meu mestre. Procuro viver permanentemente aberto ao seu Espírito ou Sopro, para ser hoje um homem com as mesmas cara­cterísticas dele, mas nas actuais circunstâncias que são as nossas. Por isso, sou incapaz de me limi­tar a reproduzir mais do mesmo, como fazem geralmente as Igrejas e os seus líderes tradicionais.

Fico muito feliz com o seu tes­temunho. Acredite: ele constitui para mim vigoroso alimento na caminhada. Aceite o meu beijo de comunhão e a minha alegria.

Brasil. Luís Guerreiro: Envio aqui a minha pequena contribui­ção anual para que o Jornal Fra­ternizar possa continuar a viver. Sem ele, a Igreja em Portugal fi­caria bem mais pobre. Sem um profetismo que nos abale e de­sen­raíze, tenderemos a ficar para­dos na quietude das nossas cer­tezas, enquanto o mundo passa. Pe­na que o jornal agora só apa­reça de três em três meses. O seu efeito é menor. Como leitor, estou-lhe muito grato por estes 16 anos de publicação.

Lisboa. Maria Helena: Segue o cheque. Aproveito para enviar os meus votos para esta quadra que atravessamos, e fiquei triste por saber que está em perigo a continuação do jornal que tanto gosto de receber e ler. Mais não posso ajudar, visto que estou já reformada há quin­ze anos e agora começam os pro­blemas de saúde devido não só à idade, como resultado de 36 anos a trabalhar no duro.

Escariz. António Machado: Vai fazer um ano que o sr. teve a gentileza de me visitar para falarmos de certas hesitações da minha parte sobre algumas obras que eu tinha lido sobre o Cristianismo. E como eu disse na ocasião e continuo a afirmar, só um teólogo como o sr. pode elucidar quem quer que seja, uma vez que queira ser elucidado. Porque também sei que nestes 1.700 anos de Catolicismo que sempre distorceu o Cristianismo, é muito difícil fazer-se compreender explicando a verdade.

Ultimamente, estou a ler um livro com o título Mentiras Fundamentais da Igreja Católica, de Pepe Rodríguez. Já vou na segunda leitura e tem-me dado muito que reflectir.

Se não fosse abusar da sua bondade, gostava imenso de tro­car algumas impressões com o sr. a esse respeito e outras coisas. Mas desta vez não o quero maçar para que faça a viagem até minha casa, eu irei ter com o sr. num dia em que estiver mais disponível, onde podemos ir almoçar juntos e con­versar.

Junto envio cheque para pa­ga­mento da assinatura de apoio e que este continue sempre.

N. D.

Caro António: Venha quando quiser. Só lhe peço que me avise com alguma antecedência, para eu não me comprometer com ou­tras pessoas ou com outras ini­ciativas. Basta um telefonema prévio a dizer em que dia tencio­na vir. E esteja à vontade para se fazer acompanhar de outros amigos e amigas, se assim o en­tender. Um abraço.


Igreja/Sociedade

Um pontificado com contradições fatais

Por Hans Küng (Teólogo suiço)

Jornal Fraternizar teve acesso a esta reflexão sobre os 25 anos de pontificado do Papa João Paulo II. E orgulha-se de a apresentar aqui, numa tradução da sua responsabilidade. Quando por toda essa Europa fora as vozes mais sonantes foram de aplauso, é salutar escutar a lúcida crítica deste eminente teólogo europeu. Ninguém deixe de ler.

No dia 17 de Outubro de 1979 publiquei um balanço do primeiro ano no cargo do papa João Paulo II. O artigo apareceu em várias publicações de diveros países do mundo e, dois meses depois, foi-me retirada a autorização ecle­siástica para ensinar como teólo­go católico!

Porém, os 25 anos de pontifi­cado vieram confirmar aquela mi­nha crítica. Para mim, este Papa não é o maior do século XX. É o mais contraditório do século XX. É um Papa com muitos e mui­to grandes dotes, mas com muitas decisões equivocadas. Em síntese: a sua política externa exi­ge conversão a toda a gente, e reforma e diálo­go. Mas depois, em crassa contradição com esta sua política externa, está a sua política interna, que aponta à res­tauração do status quo contra o Concílio e à negação do diálo­go intraeclesiástico. Este carácter contraditório do pontificado do Papa João Paulo II manifesta-se em dez complexas situações muito precisas, a saber:

1. O mesmo homem que de­fen­de, fora de portas, os direitos humanos nega-os no interior da Igreja a bispos, teólogos e mulhe­res. Tanto assim que o Vaticano ainda hoje não pode subscrever a Declara­ção de Direitos Huma­nos do Conselho da Europa; seria necessário mudar primeiro demasi­a­dos cânones do direito canónico medieval-absolutista. A separa­ção de poderes é desconhecida na Igreja católica. Em caso de con­flito, a mesma autoridade a­ctua como legisladora, fiscal e juiz.

Consequências: um episcopa­do servil e uma situação jurídica insustentável. Quem litigue com uma instância eclesiástica superi­or não tem praticamente nenhu­ma oportunidade de que esta lhe faça justiça.

2. Ele é um grande admirador de Maria, até prega excelsos ideais femininos, mas depois hu­milha as mulheres e nega-lhes a ordenação sacerdotal: sendo atractivo para muitas mulheres católicas tradicionais, este Papa afasta as mulheres modernas, às quais quer excluir «infalivel­mente» das ordens maiores para todo o sempre. E, no caso da an­ti­concepção, inclui-as no que ele chama a «cultura da morte».

Consequências: divisão entre o conformismo externo e a auto­no­mia interna da consciência, que em casos como o do conflito dos conselheiros de mulheres grávidas também as afasta dos bispos afectos a Roma, o que provoca o crescente êxodo de quantas ainda continuavam a ser fiéis à Igreja.

3. Ele é um pregador contra a pobreza massiva e a miséria do mundo, mas, ao mesmo tem­po, com a sua posição sobre a regulação da natalidade e da ex­plosão demográfica, torna-se corresponsável dessa mesma mi­séria: o Papa, que tanto nas suas numerosas viagens como na conferência sobre população da ONU no Cairo tomou posição contra a pílula e o preservativo, poderá ter maior responsabilida­de que qualquer estadista no cres­cimento demográfico descon­trolado de numerosos países e na extensão da sida em África.

Consequências: inclusive nos paí­ses tradicionalmente católicos como Irlanda, Espanha e Polóni­a, existe uma crescente rejeição da moral sexual e do rigorismo ca­tó­lico romano no tema do a­bor­to.

4. Ele é um propagandista da imagem do sacerdócio mascu­lino e celibatário que é corres­pon­sável pela catastrófica falta de padres, pelo colapso do sacer­dócio em muitos países e pelo escândalo da pedofilia no clero, um dado hoje impossível de esca­mo­tear: Mas que aos sacerdotes continue a ser proibido o matri­mónio não é mais do que um e­xem­plo de como este Papa tam­bém põe de parte a doutrina da Bí­­blia e a grande tradição cató­lica do primeiro milénio (que des­conhecem as leis do celibato e­cle­siástico),a favor do direito ca­nónico procedente do século XI.

Consequências: os sacerdo­tes são cada vez mais escassos, a sua substituição é inexistente, quase metade das paróquias ca­rec­em de párocos ordenados e celebrantes regulares da eucaris­tia. Estes factos não podem ser escondidos com a crescente im­por­tação de sacerdotes da Poló­nia, Índia e África e tornam mes­mo inevi­tável a fusão de paró­quias em «unidades eclesiais».

5. Ele é o impulsionador de um número inflacionista de beati­fi­ca­ções lucrativas e, ao mesmo tempo instaura com poder ditato­ri­al, a Inquisição contra teólogos, sacerdotes, religiosos e bispos in­có­modos: são perseguidos in­qui­sitorialmente sobretudo aque­les crentes que sobressaem pelo seu pensamento crítico e pela sua enérgica vontade reformista.

Do mesmo modo que Pio XII perseguiu os teólogos mais impor­tantes da sua época (Chenu, Congar, De Lubac, Rahner, Tei­lhard de Chardin), João Paulo II (e o seu Grande Inquisidor Ratzinger) perseguiu Schillebe­eckx, Balasuriiya, Boff, Bulányi, Curran, assim como o bispo Gail­lot (de Evreux) e o arcebispo Hun­tington (de Seatle).

Consequências: uma Igreja de polícias em que proliferam os denunciantes, o medo e a fal­ta de liberdade. Os bispos au­to­assumem-se como governado­res romanos, quando deveriam autoassumir-se como servidores do povo cristão. E os teólogos, ou escrevem em conformidade com o Vaticano, ou remetem-se ao silêncio.

6. Ele é um panegirista do ecu­menismo, mas depois hipo­teca as relações com as igrejas ortodoxas e reformistas e impede o reconhecimento dos seus sa­cerdotes e a comunidade euca­rística de evangélicos e católicos: o Papa poderia, tal como foi re­co­mendado repetidas vezes pelas comissões ecuménicas de estudo e é prática de muitos pá­rocos, reconhecer os eclesiás­ticos e as celebrações da comu­nhão das igrejas não católicas e permitir a hospitalidade euca­rística. Também poderia moderar a exagerada ambição medieval de poder frente às igrejas orien­tais e reformadas. Mas prefere manter o sistema de poder roma­no.

Consequências: o entendi­men­to ecuménico ficou bloquea­do depois do Concílio Vaticano II. Já nos séculos XI e XVI o pa­pado demonstrou ser o maior obstáculo à unidade das igrejas cristãs em liberdade e plurali­da­de.

7. Ele foi um participante como bispo no Concílio Vaticano II, mas depois como papa, des­preza a colegialidade do Papa com os bispos, decidida nesse concílio, e não deixa de celebrar em cada ocasião que se lhe ofe­rece o absolutismo triunfalista do papado: em substituição das palavras programáticas concilia­res (aggiornamento, diálogo, co­le­gialidade, abertura ecuménica), regressa nas palavras e nos actos à «restauração», «doutri­na», «obediência», «rerromani­za­ção».

Consequências: Não deve­mos enganar-nos com as múltiplas mani­festações papais: são mi­lhões os que sob este pontifica­do já «fugiram da Igreja» ou se retiraram para um exílio interior. A animosidade de grande parte da opinião pública e dos meios de comunicação em relação à ar­rogância hierárquica intensifi­cou-se de forma ameaçadora.

8. Ele é um representante do diálogo com as religiões do mundo, mas depois desqualifica-as a todas como formas deficitá­rias de fé: o Papa gosta de reu­nir à sua volta dignitários de outras religiões. Mas não dá muita atenção teológica às suas demandas. Pelo contrário, inclusi­ve sob o signo do diálogo, conti­nua a conceber-se, na relação com eles, como um «missionário» à maneira antiga.

Consequências: a desconfi­an­ça para com o imperialismo ca­tólico romano está hoje tão espalhada como antigamente. E isto não só entre as igrejas cris­tãs, mas também no judaísmo e no islão, para já não falar da Índia e da China.

9. Ele é um poderoso advo­gado da moral privada e pública e um comprometido paladino da paz, mas, ao mesmo tempo, devido a esse seu rigorismo dis­tante da realidade, perde cre­di­bi­lidade como autoridade moral: as posições rigoristas em maté­rias de fé e de moral escava­caram a eficácia dos justificados esforços morais do Papa.

Consequências: embora para alguns católicos ou secularistas tradicionais ele seja um super­star, este Papa propiciou a perda de autoridade do seu pontificado por culpa do seu autoritarismo. Apesar de nas suas viagens, encenadas com eficácia mediá­tica, ele se apresentar como um comunicador carismático (ainda que ao mesmo tempo incapaz de diálogo e obsessivamente nor­mativo dentro de portas), a ver­da­de é que carece da credibilida­de de um João XXIII.

10. Ele é um Papa que, no ano 2000 concordou, embora com custo, em reconhecer publi­ca­mente as suas culpas, mas depois não tirou as consequên­cias práticas deste seu gesto: só pediu perdão para as faltas dos «filhos e das filhas da Igre­ja», não para as do «Santo Pa­dre» nem para as da «própria Igre­ja».

Consequências: a reticente con­fissão pública não teve con­se­quências: nada de conversão efectiva, apenas palavras, nada de actos. Em lugar de se orientar pela bússula do Evangelho, que diante dos erros actuais aponta na direcção da liberdade, da com­paixão e do amor aos seres hu­manos, Roma continua a re­ger-se pelo direito medieval que, em lugar duma mensagem de alegria, oferece uma anacrónica mensagem de ameaça com de­cre­tos, catecismos e sanções.

Não se pode passar por alto o papel do Papa polaco no co­lapso do império soviético. Mas este não se desmoronou por ac­ção do Papa, mas em consequên­cia das contradições socio-eco­nómicas do próprio sistema sovi­ético.

A profunda tragédia pessoal do Papa João Paulo II é esta: o seu modelo de Igreja poloco (medieval-contrarefor­mista-anti­moderna) não pôde trasladar-se para o «resto» do mundo católi­co. Acabou por ser a própria Polónia a sair influenciada pela evolução moderna.

Para a Igreja católica, este pon­tificado, apesar dos seus as­pectos positivos, revela-se, no final, como um desastre. Um Papa em declínio que não abdi­ca do seu poder, embora o pu­des­se fazer, é para muitos o símbolo duma Igreja que por trás da sintilante fachada está anqui­lo­sada e decrépita.

Se o próximo Papa quisesse continuar a política deste pontifi­cado, não faria senão potenciar ainda mais a monstruosa acumu­lação de problemas e tornaria qua­se insuperável a crise estrutu­ral da Igreja católica.

Um novo papa tem, por isso, que decidir-se a mudar o rumo e conduzir a Igreja para a reno­va­ção,seguindo o espírito de Jo­­ão XXIII e os impulsos refor­mis­tas do Concílio Vaticano II.


O homem do papamóvel

Texto-poema extraído do livro COMO FARPAS. MAS COM TERNURA

do Pe. Mário de Oliveira (Editora Ausência, V N Gaia, 2003)

Papamóvel. O protótipo

do homem abrigado é o homem

do papamóvel. Não lhe basta

a segurança dos palácios

do Vaticano. Nem os milhares

de polícias que mobiliza em seu

redor quando com frequência passeia

a sua prepotência moralista

pelo mundo sob o disfarce

de viagens pastorais. É tão cego

que nunca se deu conta

da contradição. Corre Ceca e Meca

para anunciar Deus aos seus

contemporâneos que ele acha

que estão afastados dEle

mas continua a viver nos palácios

do Vaticano que mais parecem

bunkers à prova de cataclismos

e de bombardeamentos. E quando

se afasta de toda aquela segurança

corre a refugiar-se no interior

do seu papamóvel com vidros

à prova de bala. Nenhuma é

a sua Fé em Deus e nos seres

humanos. Um pastor assim

é pastor ou o medo em pessoa?

Os mercenários é que vêem lobos

em tudo quanto não controlam. E

correm a abrigar-se. Passam a vida

abrigados. Defendidos. O pastor

a sério dá a vida pelos demais.

Não gosta de morrer antes de tempo

mas também não tem medo

de morrer antes de tempo. Ele sabe

que a vida só se ganha

e conserva quando se expõe

e se dá. Confia tanto nos humanos

como ele que pode morrer às mãos

deles. Mas é assim que faz crescer

a confiança dentro da História.

O medo é o pior dos males. Cria

deuses e deusas que depois

nunca mais deixam de nos oprimir

aterrorizar e infernizar a vida.

Salvé, Primavera!

Primavera, a nossa querida companheira de Guimarães, das Comunidades Cristãs de Base, ressuscitou definitivamente no passado dia 11 de Novembro 2003. O funeral, como ela coerentemente deixou dito foi, civil, por isso, sem a presença manifestamente sinistra do pároco e das suas exéquias. A filha mais velha, Sara, esteve serena e determinada no acolhimento às pessoas amigas que participaram. E esclareceu as que se mostravam surpreendidas com este modo de proceder. No cemitério, houve uma pausa junto da urna sempre fechada, antes desta descer à terra. Presidiu a mesma filha, ladeada da irmã Marta. Falou da Mãe Primavera. Louvou e agradeceu. Outras pessoas falaram também. Quem quis. Também o pe. Mário que acompanhou a Primavera desde 1972. Aqui ficam as suas palavras.

Querida Primavera

São para ti as minhas pala­vras neste momento. Tu és a protagonista desta Páscoa que nos congregou aqui esta tarde.

Estamos perante os teus res­tos mortais. Eles são o que visi­velmente nos resta de ti. Porque tu és agora corpo ressuscitado. Para sempre! E é contigo definiti­vamente ressuscitada, vivente, que nos encontramos daqui em di­ante e viveremos a mais inten­sa e fecunda comunhão. Estes teus restos mortais damo-los à ter­ra, para que se tornem matéria orgânica, por isso, viva. Não! Não és passado. És eterno pre­sen­te. E presente sempre novo.

Contigo percebemos, ao lon­go destes anos de porfiado com­ba­te que travaste contra a doen­ça, que a vida de cada ser huma­no não cabe toda, para todo o sempre, dentro do Tempo e do Es­paço. Como já não coube, para todo o sempre, dentro do útero ma­terno e, por isso, dele saiu, pa­ra poder ser mais. Percebe­mos que chega uma altura em que a vida de cada ser humano atinge um desenvolvimento tal, que explode! Aquilo que, errada­men­te, chamamos morte é, afinal, uma explosão de vida. A maior de todas. Mais do que a do nos­so próprio natal!

Não é verdade que também o Universo onde gira o planeta Terra que habitamos, e que ainda está ainda em expansão, é o re­sultado da explosão de uma estrela? Quem pode dizer hoje que a explosão dessa estrela, há quinze mil milhões de anos, foi a sua morte?

Explodir é a indispensável o­pe­ração por onde a vida de ca­da ser humano tem que pas­sar, para que se criem as novas condições que nos permitam ser/viver mais e melhor!

Também tu, querida Prima­ve­ra, cresceste tanto em quali­dade de vida; tornaste-te mulher tão consciente, tão consciência, que já não cabias mais no enve­lhecido e debilitado corpo que foste até ontem. E explodiste. Com isso, tornaste-te corpo glori­o­so, por isso invisível aos nos­sos olhos e demais sentidos. Mas mais presente entre nós do que nunca. Mais activa entre nós do que nunca. Mais vivente entre nós do que nunca. Salvé, Primavera ressuscitada!

Este é o teu primeiro mo­men­to de um Dia sem ocaso! E como chegaste aqui?

Eu sei que nunca foste mu­lher de rotinas. Mesmo assim, a tua vida nunca mais foi a mesma, desde a­que­la Páscoa de 1972, em Ma­cieira da Lixa, quando eu era lá pároco, por sinal, uma Páscoa sem compasso mas com mesa partilhada, e em que tu foste pre­­sen­ça bem activa e decisiva.

Tornaste-te, desde então, mu­lher progressivamente lúcida. Li­berta. Responsável. Insubmissa. In­domável. Autónoma. Líder ao jei­to da parteira. Atenta aos sinais dos tempos. Acolhedora. Irmã e companheira universal. Mulher de causas e com causas. Crítica. Clarividente. Sábia. Doutora sem canudos, mas verdadeira doutora entre doutores. Mestra. Mulher avi­sada. Mãe de duas filhas que levam hoje as tuas marcas, ves­tem os teus valores que são tam­bém os valores das Comunidades cristãs de base, à sombra das quais cresceram, sem jamais per­de­rem a originalidade de cada uma: tão determinada e tão lí­der, a Sara; tão meiga e tão frontal, a Marta. Tão mulheres de causas e com causas, ambas! Dois exemplos de filhas que nos dizem que, afinal, esta nossa so­ciedade é mais, muito mais do que o que nos mostram os Big Brother, as telenovelas estupidifi­can­tes e os futebóis servidos em estádios de luxo, num país que, entretanto, conta no seu passivo com dois milhões de pobres e quase 500 mil desempregados!

O meu bem-haja, querida Pri­mavera, a minha alegria, o meu pa­rabém, as minhas palmas, a mi­nha Eucaristia, por teres tido a audácia de levar tão longe e tão alto a vida humana, na sua expressão de mulher! Que a tua explosão ocorrida ontem seja a nossa explosão. Que a tua ressur­reição seja a nossa ressurreição. E que na luz em que te tornaste para o mundo, nós percebamos, duma vez por todas, que viver em dimensão humana é viver em rebeldia, em dissidência, em a­colhimento, em entrega incondi­ci­onal às grandes causas da Hu­manidade, mediante fecundos com­bates políticos em prol duma Ordem Mundial outra, bem à me­dida dos seres humanos todos, longe das mediocridades, das ro­tinas e do sempre a mesma coisa.

Finalmente, às tuas amigas e aos teus amigos, entre os quais me incluio, que tivemos o raro privilégio de sermos acompa­nhados por ti ao longo dos anos, até este der­ra­deiro momento da tua ex­plo­são defini­ti­va, atrevo-me a lançar este apelo:

Quando hoje ao fim da tar­de, nos sentarmos à mesa em nos­sas casas, ou mesmo num res­taurante, façamos a ceia em memória da Primavera. O Pão que comermos é o seu corpo. O Vinho que bebermos é o seu sangue. São a sua vida entregue ao mundo, também a nós. E sem­pre em comunhão com ela, parti­lhemos não só o que a Primavera foi, é, para nós, mas também e sobretudo, como vamos ser de­pois desta sua explosão definiti­va.

A concluir estas minhas pala­vras, deixem-me cantar convosco uma das estrofes de um canto das Comunidades que a Primave­ra bem conhece e muito gosta: Quem luta por uma terra de fra­ter­nidade/ não conhece a mor­te/ comunga a dor do seu povo/mas ressuscitar é a sua sorte.


Exorcismos?

Haja respeito pelas pessoas doentes!

De vez em quando, algumas das nossas televisões caem na tentação de nos mostrarem casos de pessoas com doenças mais ou menos estranhas e até com algo de bizarro. Mas não lhes chamam assim. Preferem chamar-lhes “casos de possessão diabólica”. E desde o início do respectivo telejornal até muito perto do final, anunciam repetidamente a apresentação de mais um desses casos, tudo num contexto que só pode ser o do puro espectáculo televisivo em busca de audiências, de onde está ausente qualquer vestígio de sensibilidade e de respeito para com as pessoas em causa. Quando, finalmente, o caso é posto perante os nossos olhos, logo confirmámos que ele envolve mulheres, de condição empobrecida e sem escolaridade; de consciência manifestamente ingénua; nascidas e crescidas em ambientes de forte influência eclesiástica católica e religiosa; tolhidas e psiquicamente destroçadas, sobretudo, devido às reiteradas agressões com que, ao longo dos séculos, as religiões e todo o seu arsenal de deuses e de demónios, à mistura com nossas senhoras disto e daquilo, impunemente as atacaram, bem como à generalidade das populações empobrecidas e mal escolarizadas em que elas se integram. E não é que, uma vez por outra, as televisões que isto promovem ainda conseguem encontrar padres católicos que se prestam a assumir o papel de “exorcistas” de serviço (a troco de dinheiro, ou de quê?) neste seu espectáculo televisivo? E não é que depois os vemos em plena actividade de exorcistas-palhaço, num surpreendente tu-cá-tu-lá com os “demónios”, só possível entre velhos conhecidos e amigos/inimigos que reciprocamente se necessitam? Mas a verdade é que tudo isto é uma dor de alma e uma indignidade humana absolutamente intolerável. Para cúmulo, ainda se lhe acrescenta a blasfema invocação do nome de Jesus, o Senhor.

Infelizmente, ainda hoje é fre­quen­te ouvir dizer, entre as po­pulações sob influência eclesiás­tica católica e integradas por um cristianismo mais pagão do que jesuánico, que Jesus de Nazaré foi um grande exorcista. E isto no pior dos sentidos, concreta­men­te, no sentido mais literal, de que ele expulsou muitos de­mó­nios do corpo das pessoas. O que constitui um disparate de todo o tamanho.

Mas aquelas e aqueles que se têm por mais sabidos em Bíblia são até capazes de referir de me­mória, em defesa do seu pon­to de vista, casos concretos rela­ta­dos pelos Evangelhos, nos quais Jesus aparece a dar ordens aos demónios para que saiam do corpo das pessoas. E o curi­o­so é que, pelos vistos, os demó­nios são tão bem educados, que acabam sempre por lhe obedecer e lá deixam as pessoas em paz!

De todos esses casos concre­tos, um há que as televisões co­mo as que temos no nosso país certamente adorariam que ocorresse também hoje para o poderem mostrar em directo e em exclusivo. Trata-se do caso daquele homem de quem se diz que vivia nos túmulos e que par­tia todo o tipo de correntes, sem que alguém conseguisse ter mão nele (cf. Mc 5, 1-20).

Jesus encontra-se fisicamente com o homem e no duro diálogo que se trava entre ambos, o ho­mem aparece tão identificado com o demónio, que é este que toma a palavra, em vez dele, para revelar a Jesus que não é só um, mas uma legião de de­mónios, portanto, um poder em tudo semelhante a uma daquelas muitas legiões do prepotente exér­cito romano que então ocu­pava e oprimia o país dos ju­deus, sem que estes lhe pudes­sem fazer frente.

O relato termina com toda aquela legião de demónios a sair do homem e a correr a me­ter-se numa grande vara de por­cos que, pelos vistos, teria tido o azar de andar a pastar ali por perto. E todos os porcos acaba­ram no fundo do mar! Mas o im­portante é que depois de todos estes duros debates e combates ideológicos o homem em causa lá ficou completamente senhor de si próprio e em paz!

Infelizmente, o mesmo já não tem acontecido às pessoas que, ao longo destes séculos de cristi­anismo mais pagão que jesuáni­co, têm continuado a ouvir e a ler esta estória ou parábola teo­lógica e outras semelhantes a ela que abundam nos Evangelhos Sinópticos. É que as pessoas sem­pre têm sido levadas a pensar que eram mesmo demónios a sério (alguém sabe o que serão demónios a sério?) e que, no ca­so, seriam mesmo seis mil (o Evangelho diz “muitos”), tantos co­mo os soldados duma legião do exército romano. Nunca as ca­te­queses eclesiásticas foram capazes de chamar a atenção das pessoas para os pormenores literários e teológicos do relato evan­gélico, concretamente, para os termos “legião” e “porcos”, que nos dão uma chave de leitu­ra completamente outra e profun­damente oportuna para todos os tempos e culturas.

Efectivamente, o que o relato denuncia e combate é a presen­ça prepotente no país de Jesus das legiões romanas e da sua ide­ologia/idolatria, que reduziam à condição de não-seres huma­nos o povo que se deixasse le­­var/corromper por elas. Muitos de­veriam ser os judeus colabora­ci­o­nistas que adoptavam os fal­sos valores do Império e que, por via disso, acabavam feitos em frangalhos na sua identidade, como o homem (representa um co­lectivo) de quem aqui se fala, ainda que, porventura, alcanças­sem uma situação materialmente melhorada.

O Evangelho o que faz é ilu­minar e consciencializar as pes­so­as que se encontram nes­sa situação, para que se libertem dela. De contrário, perderão a sua identidade e a sua digni­dade e acabarão reduzidas a porcos (na altura, sinónimo popu­lar de ro­manos, por serem idó­latras e, por isso, “impuros” como os por­cos), isto é, pessoas “im­puras”, idó­latras, pagãs.

 

É indiscutível que são múlti­plos nos Evangelhos Sinópticos os casos ditos “possessos do demónio” ou “possessos de espí­ritos impuros”. Mas o que as pes­soas geralmente nunca repa­ra­ram, inclusive as que se têm por mais sabidas em Bíblia, é que o quarto Evangelho canóni­co, mais conhecido por Evange­lho de João, por sinal, o último a ser composto, não nos apre­senta um único caso. Todos os casos relatados encontram-se ex­clusivamente nos três Sinópticos, com maior incidência, no de Mar­cos, por sinal, o primeiro a ser composto. Este dado deveria fa­zer-nos pensar, antes de abrir­mos a boca, para debitarmos pseudo-conhecimentos da Bíblia.

Se Jesus fosse um “exorcis­ta”, no sentido literal do termo, o Evangelho de João não deixa­ria de o proclamar. Não o faz, por­que percebeu, ao contrário de nós ocidentais, que as estó­rias que os Sinópticos nos con­tam têm um alcance exclusiva­mente teológico e de modo algum se compadecem com a charla­ta­nice das nossas catequeses ecle­siásticas nem com a charla­tanice de certos “padres exorcis­tas” ou de outros vampiros hu­manos, sempre prontos a vive­rem à custa do sangue (e do dinheiro) que su­gam às suas ví­timas, no caso, pessoas porta­do­ras de doenças do foro psi­qui­átrico ainda não suficiente­mente conhecidas e controladas pela ciência, muito menos sufi­cientemente compreendidas e explicadas pela generalidade das pessoas privadas de conheci­mentos científicos, como são qua­­se todos os familiares desse tipo de doentes.

Os contemporâneos de Jesus tinham por costume atribuir aos “demónios” todo o tipo de doen­ças e outros males para os quais ainda não havia explicação sufi­cientemente convincente e efi­caz. Faziam-no, porque os códi­gos mítico-culturais da altura as­sim o determinavam. Os próprios Sinópticos não fogem à regra, porque são relatos datados e vê­em-se na necessidade de re­correr a esses códigos para anun­ciarem Jesus e a sua sub­ver­siva prática radicalmente li­bertadora dos oprimidos/das opri­midas e universalmente integra­do­ra das excluídas/dos excluí­dos.

Mas o Evangelho de João que vem alguns anos depois e acontece noutro contexto já não segue esses códigos. É muito mais directo e subversivo. Apre­senta-nos Jesus em discurso di­recto. Cáustico. Como um chicote libertador. Como a Luz que dissi­pa toda a treva obscurantista das consciências. Como a Verda­de que liberta na raiz, para que as pessoas nasçam do Alto, do Sopro/Espírito outro que não faz parte do Sistema, e se tornem sau­davelmente dissidentes, única maneira de serem humanas den­tro duma sociedade que se quer normali­zada.

Já se deram conta, por exem­plo, que neste Evangelho de Jo­ão, Jesus chama de caras “diabo” (tradução do termo grego “dia­bállô”, que por sua vez é tradu­ção do termo hebraico “Satán” (satanás) e que significa “adver­sá­rio ou opositor mentiroso) a Judas Iscariotes, um dos Doze? (precisamente, o grupo do qual os nossos bispos católicos gos­tam tanto de dizer que são os su­cessores!...).

Ora oiçam: “Disse-lhes Jesus: «Não vos escolhi eu a vós, os Do­ze? Contudo, um de vós é um diabo.» Referia-se a Judas, filho de Simão Iscariotes, pois esse é que viria a entregá-lo, sen­do embora um dos Doze.” (Jo 6, 70-71)

Mas o Evangelho de João não se fica por aqui. Na mais dura discussão teológica que Jesus trava com os seus maiores adver­sários, os chefes dos sacer­dotes e os fariseus, chega a di­zer que eles são filhos do “dia­bo”, preci­sa­mente, quando eles mais exi­giam ser reconhecidos como exem­plares fi­lhos de Abra­ão e filhos de Deus. Eis o texto:

“Temos um só pai que é Deus. Disse-lhes Jesus: «Se Deus fos­se vosso pai, ter-me-íeis amor, pois é de Deus que eu saí e vim. Não vim de mim próprio, mas foi Ele que me enviou. Porque não entendeis a minha linguagem? Por­que não podeis ouvir a minha palavra? Vós ten­des por pai o diabo, e quereis re­a­lizar os dese­jos do vosso pai. Ele foi assas­sino desde o princí­pio, e não es­teve pela verdade, porque nele não há verdade. Quando fala men­tira, fala do que lhe é pró­prio, porque é mentiroso e pai da mentira. Por isso não acredi­tais em mim, porque vos digo a verdade.” (Jo 8, 41-45)

Quando então as televisões que hoje temos no país voltarem a cair na tentação de nos mos­trarem mais casos de “possessão diabólica” ou “demoníaca”, saiba­mos que estão a chafurdar no terreno da charlatanice e da in­dignidade contra pessoas con­cre­tas que deverão merecer todo o nosso respeito e simpatia, pois são pessoas portadoras de gra­ves doenças do foro psiquiátrico. E mesmo que as televisões con­sigam encontrar um padre cató­lico que se preste ao papel de “exorcista” de serviço, para dar mais colorido e picante àquele triste espectáculo televisivo, sai­bam que, nesse caso, a charla­ta­nice é ainda maior.

Nem adianta que o padre ca­tólico em causa argumente que a Igreja tem um “Ritual dos Exor­cismos” e que os padres, antes de terem sido ordenados de diá­cono e de presbítero, foram to­dos ordenados de “Exorcista”.

É de facto assim: a Igreja tem esse Ritual e, durante sécu­los, até teve certos padres espe­cial­mente destacados para as fun­ções oficiais de “Exorcista” em cada diocese.

Mas saibam que tudo isso serve apenas para en­cenar me­lhor o tamanho da men­tira eclesi­ástica católica romana que, a este propósito, nos têm impin­gido.

Todas essas práticas e dou­trinas, mesmo que realizadas com o aval da hierarquia cató­lica, têm por “pai” o “diabo”, isto é, a Mentira institucionalizada e contri­buem decisivamente para manter as populações na opres­são, no obscurantismo e na cla­morosa condição de assassina­das-que-ainda-respiram,para que nem sequer elas possam reagir, mes­mo que sejam sistemática e vil­mente exploradas e roubadas do que têm e do que não têm, a começar pela sua dignidade de seres humanos!

Já pensamos do que seria deste tipo de Igreja católica ro­mana que temos, mais pagã e idólatra que jesuánica, e do que seria de todas essas seitas ditas cristãs que atrevidamente nos batem à porta e querem a todo o custo que escutemos as suas terríficas doutrinas bíblicas, se uma e outras não pudessem invo­car a mítica figura do diabo ou demónio, apresentado durante todos estes séculos passados como um ser espiritual real?

Era também assim que se pensava no tempo de Jesus. Mas ele, felizmente, em vez de se deixar embrulhar e amedrontar por essas figuras míticas, deu-lhes conteúdo histórico e político. Diabo ou demónio, para Jesus, era, por exemplo, Judas, o último dos Doze, era Pedro, o primeiro dos Doze (Mt 16, 23), era o Im­pé­rio romano no país, eram os chefes dos sacerdotes e os fariseus com as suas doutrinas de mentira, era a Sinagoga que tolhia e lavava o cérebro a quem a frequentava aos sábados, nu­ma palavra, eram todos aqueles que se arrogavam privilégios so­bre o povo e, depois, ainda en­con­tra(va)m argumentos teológi­cos ou outros para os justificar.

Não lhe perdoaram e mataram-no na cruz. Mas não o silencia­ram, nem acabaram com ele de vez. Desde então ele é o Res­sus­citado, altamente subversivo e perigoso contra o Sistema, men­tiroso e assassino. E o gran­de irmão e companheiro nos nos­sos desassogados caminhos de Emaús.


A crueldade do Deus da beata Madre

Teresa de Calcutá e de S. Daniel Comboni

A ela bastou fazer um milagre, para ser solenemente declarada beata pelo Papa João Paulo II. A ele, foi preciso fazer dois milagres, para ser solenemente declarado santo pelo mesmo Papa João Paulo II. São assim as regras da Cúria Romana, às quais, pelos vistos, até Deus tem que obedecer. E é se quer ter cardeais de vermelho garrido vestidos, de barrete enfiado na cabeça, de báculo na mão e de anel no dedo a subir todos os dias o altar e a repetir pela enésima vez os mesmos enjoativos louvores e os mesmos estúpidos ritos em sua honra! E se quer ter em todo o mundo milhões de devotos, sobretudo, devotas, dispostos a frequentar as igrejas e a invocar o seu nome, na esperança de múltiplos benefícios que Ele lhes dê em troca, por exemplo, curas milagrosas que até alguns médicos (!) vêm depois reconhecer que não há explicação científica para elas, apesar deles, entretanto, nunca terem desistido de lhes fornecer medicamentos a tempo e horas e de realizar as intervenções cirúrgicas consideradas adequadas a cada caso. Não faça Deus de vez em quando um desses milagrezitos de trazer por casa e acabará por perder todos esses milhões de devotas e devotos que insistem em correr para ele, não porque querem aprender com Ele a serem humanos e fraternos/sororais com todos os indivíduos e povos que vivem no planeta, imigrantes incluídos, mas impelidos por um instintivo e refinado egoísmo que os leva a querer que até Deus esteja ao serviço dos seus mesquinhos interesses. Como sucedeu paradigmaticamente com aquela multidão de pessoas conterrâneas de Jesus de Nazaré, que, no testemunhar teológico do Evangelho de João (cap. 6), o procuravam porque pensavam que ele lhes garantiria comida de graça. Mas logo zarparam de junto dele, a sete pés, quando ele lhes disse que o pão que lhes havia dado era o seu corpo e o seu sangue, isto é, era uma comida com o seu Espírito que se destinava a fazer de cada uma delas/de cada um deles outros tantos Jesus, mulheres e homens totalmente gratuitos e incondicionalmente entregues aos demais, numa comunhão efectiva e ininterrupta sem fronteiras, capazes, inclusive de fazerem não só as mesmas obras que ele, mas até maiores (cf. João 14, 12).

A beata em causa, como é fá­cil de perceber, é a Madre Te­re­sa de Calcutá. O santo em cau­sa é Daniel Comboni. O mun­do comoveu-se com a beatificação dela e com a canonização dele. E muitos milhares de pessoas, pro­venientes de múltiplos países, também da Índia e da África, aproveitaram para fazer turismo religioso até Roma.

Os comerciantes da cidade, à semelhança do que fizeram, vin­te séculos atrás, os seus ante­passados da cidade de Éfeso, em relação aos muitos milhares de peregrinos que visitavam o famoso templo em honra da mila­greira deusa Ártemis (cf. At 19) – quem se atreve a desmentir que estamos perante a mesma cren­dice, só que agora em novos moldes e com novos figurantes? – deram largas à sua imaginação e apressaram-se a fabricar “santi­nhos” em todos os formatos e feitios e muitas outras recorda­ções mais requintadas da nova beata e do novo santo, o que lhes terá rendido bom dinheiro. Era o mês das colheitas e por isso esse foi o seu “S. Miguel” 2003.

Importante, agora, é que a Con­gregação romana para a cau­sa dos santos, com o nosso acrí­tico cardeal Saraiva à cabeça, nunca mais feche esta fábrica católica de fazer beatas e bea­tos, santas e santos. Os comer­ci­antes do turismo religioso de Ro­ma agradecem. E até contri­bui­rão com algumas ofertas, em sinal de reconhecimento. Se mais não for, entrarão numa das mui­tas igrejas católicas da cidade, por sinal, cada vez mais às mos­cas, e acenderão umas quantas velas eléctricas, em troca da in­trodução de outras tantas moe­das de 50 cêntimos, ou de um euro ou de dois euros, na respe­ctiva ranhura do cofre.

O negócio religioso precisa des­tas beatificações e canoniza­ções para continuar em alta. E os cofres da Cúria romana tam­bém, já que todo aquele fausto dos palácios do Estado do Vatica­no alguém tem que o sustentar. Para tanto, é preciso que nem Deus se descuide na tarefa que lhe compete em todo este negó­cio. Em concreto, terá que conti­nuar a fazer milagres à lista, exa­ctamente nas alturas que o seu todo-poderoso Papa de Ro­ma exigir.

De contrário, arrisca-se a que até a sua todo-poderosa Igreja católica romana vá à falência, tam­bém no que respeita a finan­ças, porque no que respeita à Verdade e à fidelidade a Jesus, o Cristo Crucificado pelo Império e pelo Templo de Jerusalém con­luiados, há muito que ela já foi.

Sacrílega ironia do Jornal Fra­ternizar? Sim, ironia, mas não sacrílega. Nem de mau gosto. Se duvidam, abram qualquer um dos livros dos Profetas bíblicos, ou, sobretudo, qualquer um dos quatro Evangelhos canónicos que a nossa Igreja católica conti­nua a dizer – e bem! – que são a Palavra de Deus. E facilmente concluirão que esta maneira de dizer as coisas é ironia, sim, mas de bom gosto.

Só mesmo consciências obs­cu­recidas e ingénuas, crendeiras e beatas no pior sentido do ter­mo podem aceitar comportamen­tos eclesiásticos como estes que a nossa Igreja acaba de prota­gonizar em redor da beatificação da Madre Teresa de Calcutá e da canonização de Daniel Com­bo­ni.

Então não dá para ver que comportamentos eclesiásticos destes são geradores de mais e mais ateísmo no mundo? Na ver­dade, um Deus que faz mila­gres à lista, por ordem do pode­roso chefe de Estado do Vati­ca­no (funções que despudorada­men­te acumula com o ministério de Bispo de Roma e com o cui­dado fraternal por todas as Igre­jas locais do mundo); um Deus que cura uma mulher indiana – quando é que Ele começa a cu­rar também homens?! – entre mi­­lhares de outras tão doentes e tão pobres quanto a Monika, mas das quais Ele já não se importa que apodreçam na en­xer­ga do barraco e nem consi­gam entrada no Hospital das frei­ras católicas (e porque é que Ele não cura ninguém nos hos­pitais comuns? Será que só é sim­pático para com as doentes dos hospitais geridos por freiras católicas?); um Deus que para cúmulo realiza esta cura indivi­dual (ao menos que fosse uma cura colectiva, a favor de todas as doentes que estavam na altura naquele hospital), pressionado por uma “cunha” metida pela Ma­dre Teresa de Calcutá, que, pelos vistos, fazia questão de ser declarada beata o mais rapi­damente possível, antes que este papa seu amigo pessoal morra e seja beatificado e cano­nizado ainda antes dela; um Deus que cura uma muçulmana su­danesa entre milhões de ou­tras mulheres de África tão do­entes ou mais do que Lubna Abdel Aziz, mas de todas estas Ele já não quer saber para nada; um Deus que, para cúmulo, realiza esta outra cura, pressio­na­do por uma “cunha” metida pelo beato Daniel Comboni que, pelos vistos, estaria a sentir-se frustrado por há anos continuar na ínfima categoria de beato e pre­cisava de passar urgente­mente ao escalão mais alto de santo – só pode ser um Deus cruel e sádico que nós, seres hu­manos, havemos recusar. Em nome da dignidade humana. Em nome da solidariedade universal. E – porque não dizê-lo? – tam­bém em nome da Fé cristã jesu­ánica. A qual, como reza a Carta aos Hebreus (12, 2), tão esque­cida e desprezada entre as cú­pulas da nossa Igreja, tem o seu fundamento último em Jesus de Nazaré, o Filho muito amado de Deus, a quem Ele, seu Pai/Mãe, felizmente, não fez o mila­gre de o livrar da cruz em que cri­minosa e injustamente o exe­cutaram, e, assim, com esta sua presença-ausência deu um ine­quívoco sinal ao mundo de que, ao contrário dos ídolos feitos à medida dos nossos egoísmos e dos nossos interesses corporati­vos, respeita quase até ao es­cân­dalo a nossa autonomia de seres humanos e a nossa respon­sabilidade histórica e política, a fim de que nos tornemos mu­lheres e homens à sua imagem e semelhança, tão criadoras e criadores quanto Ele, tão salva­doras e salvadores uns dos ou­tros quanto Ele!

Mas se já era repugnante um Deus que hipoteticamente pode curar os doentes e não os cura, apenas cura uma ou duas mulheres entre milhões e, mesmo assim, devido a ter sido pressionado pela "cunha" de uma freira candidata a beata ou pela "cunha" de um padre beato candidato a santo, Ele ainda se torna mais repugnante, quando temos a pachorra de ler os rela­tos oficiais com as circunstâncias em que estas curas ocorreram e nos quais a Cúria Romana se apoiou para reconhecer que se tra­taram de autênticos milagres que só Deus poderia realizar, e não são o resultado da acção médica humana contra a doença.

Primeiro. Ambos os milagres ocorreram em hospitais geridos por freiras católicas. O dela foi na Casa para moribundos que as próprias companheiras sobre­vi­ventes de Madre Teresa têm a funcionar em Patirão, na Índia. O dele foi no Hospital Materni­dade Santa Maria, fundado e ge­rido pelas suas “filhas” Missio­nárias Combonianas, no Sudão (África).

Portanto, duas instituições ge­ri­das por pessoas que perten­cem às congregações fundadas, respectivamente, pela então can­di­data a beata e agora beata, e pelo então beato candidato a santo, agora santo. As quais, ex­pressamente dizem que inter­vieram na “produção” de cada um dos milagres. E nas quais, por isso, é de todo impossível a isen­ção, por mais que elas o qui­sessem! Só um cego é que não vê que os supostos milagres interessavam e de que maneira às pessoas que os relatam.

Segundo. No que respeita à cura atribuída a Madre Teresa, diz o relato duma das suas “fi­lhas” que elas quiseram que uma irmã da “miraculada” escrevesse para a casa-mãe das Missioná­rias, em Calcutá, a contar como tudo tinha acontecido. Mas ela não o fez. Tinha mais em que pen­sar, pois andava às voltas com o seu próprio casamento. Na sua falta, avançou uma das freiras, precisamente, a Irmã Bar­tholomea, superiora do convento na mesma cidade em que fica a Casa dos moribundos, onde acon­teceu o milagre!

“Às dezassete horas – conta a Irmã – fomos rezar, durante meia hora, junto de Monika que naquele momento estava particu­larmente aflita, e eu disse men­talmente: «Madre, hoje é o teu dia. Tu amas todos aqueles que se encontram nas nossas casas. Monika está muito doente, por fa­vor cura-a.» Recitámos em in­glês nove vezes o «Lembrai-vos», a oração que Madre Teresa gos­tava muito de repetir (...) Segui­da­mente colocámos sobre o ventre da doente uma medalha mi­lagrosa que tinha tocado o corpo da Madre após a sua morte.”

Passou a noite e na manhã do dia seguinte, Monika já se le­vantou e disse à vizinha de cama: “já não sinto dores e o tu­mor desapareceu”. Era o dia 7 de Setembro. No dia 29 do mesmo mês foi a uma consulta de controlo e o médico declarou-a curada.

Como se vê, a receita para obter uma cura, por intermédio de Madre Teresa de Calcutá é sim­ples. Basta uma ordem men­tal da superiora do convento dada à falecida Madre Teresa, para que ela cure a doente; a se­guir, não vá a ordem não resul­tar, recitar emm inglês nove vezes – não pode ser nem mais uma, nem menos uma! – o “Lem­brai-vos ó piíssima virgem Maria”; ter à mão uma medalha milagrosa que tenha tocado no cadáver de Ma­dre Teresa e pô-la em con­tacto com o corpo da doente; fi­nal­men­te, ir dormir e esperar pela manhã seguinte. O milagre é garantido! Palavra de Bartho­lomea, superiora das Missionárias da Caridade em Patirón, Índia!

No caso da cura atribuída a Daniel Comboni, as coisas foram semelhantes: “Colocámos debai­xo do travesseiro da mulher ago­nizante – quem o garante é a irmã Assunta Xotta, comboniana, uma das interessadas no milagre – uma imagem de Comboni e confiamos a ele a saúde dela. Eu tentava explicar à mãe da do­ente e à própria paciente quem era Comboni e pedia a ela que invocasse a sua inter­ces­são. Tinha um certo receio, porque era muçulmana. Contudo, expliquei a ela que Comboni vi­veu aqui para levar a todos o amor do Senhor. Ele amou o Su­dão e os sudaneses. Morreu aqui, no meio desse povo. Nós sabemos que ele agora se en­contra junto de Deus e é seu ami­go. Por isso, podemos pedir a ele favores. É o que estamos fazendo”.

Resultado: uma semana de­pois, a doente deixava o hospi­tal. Curada. Até à próxima doen­ça, certamente! Entretanto, o hos­pital Maternidade onde isto suce­deu passou a ser chamado pela comunicação social local de “hos­pital dos anjos da caridade”. E to­dos os institutos combonia­nos, ao saberem que já tinha si­do con­se­guido o segundo mila­gre indispensável para a canoni­zação do seu fundador – o pri­meiro dos dois milagres já se ti­nha da­do no Brasil, com uma me­nina de dez anos – decidiram financiar a construção de um novo hospital, em substituição do velho que foi demolido. Tudo, é claro, em memória de Comboni! E as irmãs combonianas que continuam à frente da nova ca­sa, agora apetrechada de tudo o que é bom em termos hospita­lares, nunca foram tão felizes.

(Digam lá se ter um fundador santo, ou mesmo simples beato, não dá jeito aos seus “filhos” e “filhas”. Mas que jeito!...)

P.S. Por favor, não nos dei­xemos escandalizar com o que aca­bámos de ler. Escandalizemo-nos, e até à indignação, com es­tas práticas eclesiásticas cató­licas romanas tão pouco decen­tes. Elas apontam para uma ima­gem de Deus que, se fosse au­têntica, era mesmo um Deus cruel. Por isso, não nos deixe­mos iludir, nem mesmo com o aparato de certas cerimónias papais televisionadas para todo o mundo. Abramo-nos digna­mente ao Deus Vivo, o de Je­sus, o único que canta e dan­ça, quando nos vê crescer em sabe­doria e em ciência, e a fazer todos os dias e em toda a parte, tanto no campo da saúde, como em todos os outros campos hu­ma­nos, aqueles “milagres” que ne­nhuma reza, nenhuma novena, nenhuma medalha milagrosa, ne­nhum santinho, nenhuma relí­quia, nenhuma candidata a beata, nenhum beato candidato a santo conseguem fazer.

Estes, sim, são os únicos “mi­la­gres” que nos dignificam e glorificam o Deus Vivo, porque não acontecem só de vez em qu­ando e para uma entre milhões de mulheres e de crianças, mas para muitas mulheres e para mui­tos homens e para muitas crian­ças.

Falta apenas estendê-los a todas as pessoas do planeta, in­dependentemente de terem ou não terem dinheiro para pagar. Mas a nossa Humanidade ainda há-de chegar lá! Prossigamos a luta nessa direcção, que vale bem a pena!

Livros do trimestre

Editorial Trotta / Hans Küng

Liberdade Conquistada

O livro ultrapassa as 600 páginas de memórias. Mas depois de lidas, ainda sabem a pouco. Por isso, é bem-vindo o segundo volume já prometido pelo mais famoso teólogo europeu da actualidade. E também o mais saudavelmente polémico e dissidente. Ler estas Memórias de Hans Küng, nascido em 1928 na Suíça, é respirar liberdade. E ficar contagiado por ela. A Igreja de que aqui se testemunha é outra loiça. É bem a casa dos seres humanos. Mas é uma Igreja quase nos antípodas da Igreja da Cúria romana que tanto tem maltratado este cristão católico. Para mal dela.

Uma agradável surpresa para uma leitora/um leitor português é encontrar neste livro de Memó­rias, várias referências ao chama­do fenómeno de Fátima. Nas pgs. 206-207, por exemplo, Küng co­me­ça por contar a visita que fez a Lourdes e da que já não fez a Fátima, por achar que não valia a pena.

Escreve assim sobre Lourdes: "O que me desagrada teologica­men­te em Lourdes é que se apre­sente Maria rainha do céu sozinha, sem o seu Filho, repartindo graças ela mesma com ambas as mãos [...] Não há aqui lugar para o «so­lus Christus» [= só Cristo] como mediador [...] As pregações sobre Maria às multidões que sou obri­gado a escutar, desagradam-me mais do que me ajudam."

Logo a seguir, escreve sobre Fátima: "As minhas dúvidas au­mentam ainda mais, quando pen­so no segundo caso célebre de apa­rições de Maria: Fátima." Infor­ma que leu 414 páginas do có­nego Nunes Formigão, publicadas em 1937, sob o pseudónimo de Vis­con­de de Montelo. E acrescen­ta: "Fica para mim claro: não tenho necessi­dade de viajar até lá. Com a minha «logís­ti­ca», Otto Kar­rer envia esse material, junta­mente com u­ma carta de advertência, a diversos car­de­ais (entre eles Montini) e bispos. Porque a partir de vá­rios indícios (du­as virgens distintas ao mes­mo tempo, aparições também a outras pes­so­as, conhecimento prévio das revelações), ele tem a convicção de que ao menos no caso de Fá­ti­ma, embora também confir­ma­do por papas, se trata de pro­jecções piedosas e contradi­tó­rias de umas crianças (mais exactamente da mais velha das três). Tudo pode explicar-se fa­cilmente: a sua mãe tinha-lhes falado já de outras aparições em La Salette, onde a rainha do céu tinha aparecido a uns pas­toritos em 1846. A mim, a análise crítica de Karrer conven­ceu-me plenamente. Nautural­men­te, as peregrinações conti­nu­am em Fátima como se não houvesse qualquer dúvida.Mais, Paulo VI (Montini) e João Paulo II (Wojtyla) darão podero­sa co­ber­tura ao lugar com inter­ven­ções pessoais. Desde o século XIX papismo e marianismo vão de mãos dadas."

São múltiplos e fundamen­tais os outros assuntos trazidos à ribalta por este volu­me de me­mórias. O eminente teólogo suíço é uma enciclopédia viva, não só da evolução do pensa­men­to teológico, mas também da História da Igreja do século XX. As suas memórias ficarão para sempre ligadas à História da Igreja. Impossível saber o que foi a Igreja católica do séc. XX, sem este volume e o que se aguarda proximamente.Ainda bem que ele o está a escrever.

Campo das Letras / Fernando e Maria Rosa Redondo

Do capitalismo para o Digitalismo

"Especialistas de todos os saberes, uni-vos!" É com esta palavra de ordem, a fazer lembrar a velha palavra de ordem do Manifesto, "Proletários de todo o mundo, uni-vos!" que termina este livro de 180 páginas. As últimas 80 são quatro anexos, cada qual o mais oportuno (embora o segundo seja todo em inglês e sem tradução) e alguma bibliografia. Tudo neste livro é surpreendente. Desde o título ao conteúdo e à própria linguagem. Toda a nossa atenção à mensagem. Que por aqui pode estar a passar o Futuro.

"O capitalismo - escrevem os autores a concluir o primeiro Ane­xo - não é só um sistema social gerador de enormes injustiças; o seu maior fracasso consiste em não ser capaz de pôr ao ser­­viço da humanidade a força criativa de milhões de cérebros. Obedecendo à lógica mesquinha do assalariamento não pode, ape­sar dos enormes meios te­cno­lógicos de que dispõe, fazê-lo. Lutemos pelo Socialismo que será como o abater de um dique que barra a inteligência humana. Milhões e milhões de cérebros hu­manos, em cooperação, en­con­trarão soluções mesmo para os problemas que sempre nos pareceram eternos."

Na introdução ao livro, os au­tores - ela e ele - esclarecem: "O nosso objectivo é demonstrar a necessidade de reajustar o paradigma marxista e dar contri­butos nesse sentido. Partimos do princípio de que o desenvolvi­mento da tecnologia está a criar condições para a emergência de um novo modo de produção já não baseado no assalariamento, sendo previsível para breve o sur­gimento de um novo conjunto de relações de produção e de­pois a sua rápida generalização tal como aconteceu com o as­sa­lariamento no século XIX. Tudo leva a crer que a luta dos que se reclamam pro­gressistas será travada a partir desse no­vo modo de pro­­du­ção (o Di­gi­talismo) e que os instrumentos teóricos tradi­cio­nais terão que ser ajusta­dos para se man­terem ade­qua­dos nessa no­va fase. Se se mantiver a actual esquizo­frenia política que, por «fidelidade» ao paradi­gma marxista, insiste em lutar nos moldes tradicionais contra um adversário (o Capitalismo) que em grande medida já é outro, então as perspectivas são som­brias."

Prosseguem depois: "Propo­mo-nos portanto identificar os tra­ços da sociedade actual que não foram previstos, e não são explicados, pela teoria marxista. O objectivo, podemos enunciá-lo desde já, é proceder aos ajus­ta­mentos da teoria que permi­tam, assimilando a realidade actual, devolver-lhe a qualidade de instrumento para a acção."

O livro inclui mais quatro ca­pí­tulos: Um novo Modo de Pro­du­ção; Rea­justar a Teoria do Va­lor; A supe­ração do Capitalis­mo; Conclusão - uma teoria para os trabalhado­res de hoje.

Para a "superação do Capita­lis­mo", os autores enun­ciam cin­co linhas, que desenvol­vem es­que­maticamente: 1. Pri­ma­­do do tra­balho, logo do co­nhe­ci­mento; 2. Democratização da distribuição dos excedentes; 3. Cobertura dos riscos e finan­ciamentos; 4. Ga­rantias no aces­so à informa­ção; 5. Passagem à prática.

"Todos perguntarão como, a­onde e quando ocorrerá o de­sen­volvimento do [novo] Modo de Pro­du­ção. (...) Se é o conhe­ci­mento dos trabalhadores que faz mover, e render, os meios de produção porque é que os tra­balhadores não acabam com o Capitalismo recusando o seu co­nhecimento aos patrões e es­ta­belecendo-se «por conta pró­pria»?”

Última página

S.O.S. da Direcção do Jornal Fraternizar

Antes de mais, um abraço e um beijo neste início de 2004 que é também o ano 17 de publicação do nosso Jornal Fraternizar.

Quero comunicar-lhes que a continuação do nosso Fraternizar em papel está seriamente ameaçada. A Associação Padre Maximino, sua proprietária e editora, está sem verbas. Os custos de correio são elevados, a juntar aos da tipografia e outros encargos estruturais. Acresce que as pessoas que o recebem se "esquecem" de partilhar do seu dinheiro connosco. E não temos subsídios de ninguém, nem incluímos publicidade paga nas nossas páginas. Por isso, embora nos custe, suspenderemos de imediato a edição do Fraternizar em papel, logo que deixe de haver dinheiro para o financiar. Admitimos prosseguir com a sua publicação na internet. Por favor, compreendam-nos!

P. S. Os encontros de leitoras e leitores foram suspensos. Não há quem os prepare e promova.

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