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Textos do
Jornal Fraternizar-
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| Edição nº 151, de Outubro/Dezembro 2003 (Continuação) |
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Igreja/Sociedade
XXIII Congresso de Teologia de Madrid
As mulheres, vítimas maiores da globalização, terão que assumir-se como insustituíveis protagonistas da mudança
As mulheres, vítimas maiores da globalização, terão que assumir-se como insubstituíveis protagonistas da mudança. A conclusão não foi assim formulada, tal e qual, pelo XXIII Congresso de Teologia de Madrid, realizado entre os dias 4 e 7 de Setembro último, mas é assim que o Jornal Fraternizar a formula. O Congresso não a formulou assim, porque sempre está mais virado para a teo-logia do que para a teo-praxia. Porém, do que hoje mais carecemos é de seres humanos que tudo façam para chegarem a "praticar Deus", em lugar de se limitarem a "pensar Deus". Só praticar Deus salvará a Humanidade e o mundo. Mas apenas aquele Deus que ninguém vê e que se nos revelou definitivamente em Jesus de Nazaré como a Boa Notícia para os pobres. Depois de séculos e séculos de práticas religioso-idolátricas e moralistas, agressivamente patriarcais, que levaram o planeta à beira do abismo em que ele hoje se encontra, terão que ser mulheres libertas dos falsos valores patriarcais, e homens ao jeito de Jesus, a protagonizarem a radical e global mudança que há-de pôr fim à cruel globalização neoliberal que nos mata.
O Congresso é feito de conferências de tese, de comunicações mais curtas e de mesas redondas, seguidas, qualquer delas, de períodos de perguntas e/ou de achegas por parte dos participantes que queiram fazê-lo e que se aproximam do microfone para esse fim. E encerra com uma liturgia eucarística (ver caixa, p. 19). Nos intervalos, há informais conversas de corredor, convívio fraternal/sororal, contactos com livros de algumas editoras da especialidade e artigos de artesanato, provenientes de países africanos e da América Latina.
Desta vez, as conferências de tese deram grande ênfase a mulheres, filósofas e teólogas, felizmente, bem a par, senão mesmo militantes, elas próprias, dos movimentos feministas. O destaque vai inteiro para a professora Ana de Miguel, da Universidade A Corunha, e para a teóloga brasileira Sílvia Regina da Silva que, na sua exposição, comunicou intensamente com o seu corpo liberto de preconceitos moralistas e encantou a assembleia, apesar do seu "portinhol". O que os participantes não entendiam com o discurso, entenderam com os gestos, o riso rasgado, os braços nus, enfim, todo o seu corpo de mulher fecundamente comunicativo.
"Mudança de valores, a partir da perspectiva de género", foi o tema que Ana de Miguel desenvolveu com mestria. Arrasou o patriarcalismo e os seus falsos valores, todos ao serviço do poder opressor e discriminador, sem esquecer o patriarcalismo no interior da Igreja católica, hoje, a instituição mais misógina do Ocidente, em flagrante contradição com o Evangelho ou Boa Notícia de Deus, que são a prática e a palavra de Jesus de Nazaré. "O mundo que hoje temos foi concebido e feito pelos homens", reconheceu Ana de Miguel. Por isso, não é um mundo que se apresente. Ou as mulheres mais conscientes e mais preparadas e bem femininas assumem a ruptura com este mundo patriarcal, fabricador de monstros e de monstruosidades, e apostam tudo na mudança até darem corpo, juntamente com homens com práticas ao jeito de Jesus, a uma Ordem mundial da vida que responda às necessidades mais prementes de todos os seres, não apenas, dos humanos, ou acabaremos sem amanhã.
A esperança da Humanidade reside, pois, nas mulheres, até agora, ostracizadas pelos machos e sistematicamente remetidas à esfera do privado. Elas terão que ser capazes de romper com esta opressão global patriarcal, e ocupar as trincheiras do público, lá onde se decide sobre modelos e práticas económicas globais, para que passem a ser modelos e práticas amigas dos seres humanos sem excepção e do conjunto dos seres que fazem o planeta e o univeso.
Momento "quente" da intervenção de Ana de Miguel foi a referência aos casais de homossexuais e de lésbicas. "Ou lhes reconhecemos os mesmos direitos dos casais heterossexuais, ou pura e simplesmente não os reconhecemos como seres humanos como os heterossexuais". A firme postura de Ana de Miguel não foi pacífica, mas acabou aceite pela generalidade dos cerca de mil participantes do Congresso.
Mais consensual foi outra postura dela, relativamente às "virtudes" das mulheres, como a abnegação incondicional. "As mulheres abnegadas, que o são sempre, sem nunca exigirem dos filhos e dos demais a quem se dão, respeito e reciprocidade na entrega, acabam por ser fabricadoras de monstros de egoísmo." Abnegação, só mesmo a que sabe exigir respeito e reciprocidade, ou, por outras palavras, a que sabe gerar abnegação naquelas e naqueles com quem se é abnegado.
A teóloga brasileira dissertou com esfusiante alegria sobre os "novos caminhos de libertação na América Latina". Pelo que testemunhou, o continente continua a ser martirizado, juntamente com o continente africano, mas de modo algum resigna-se a ficar à margem da História. Anda grávido de futuro. No seu ventre crescem novas teologias e novas teopraxias, cada qual a mais surpreendente e fecundamente libertadora. Nesta altura, até já estão a ser ensaiados nas Comunidades cristãs os primeiros passos duma teologia e duma teopraxia gay, que vê no Deus de Jesus, não condenações e anátemas, mas o criador tanto de heterossexuais como de homossexuais e de lésbicas, sem qualquer discriminação.
Ficou claro, ao ouvirmos Sílvia da Silva que nós, europeus e europeias, carecemos de viver à escuta destas irmãs e destes irmãos latinoamericanos. O que nelas e neles falta em bem-estar material parece sobrar em sentido da vida e em Fé cristã verdadeiramente humanizadora do mundo.
Fundamental será que o próprio Vaticano, em lugar de anátemas ao que vem de lá, adopte posturas de discípulo e acolha o Deus da vida que nos chama a fazermos crescer a vida em todos os seres e em todos os povos.
Dos intervenientes masculinos, foram oportunas, as conferências de Jesus Peláez, professor de Novo Testamento na Universidade de Córdoba, que dissertou sobre "valores evangélicos e alternativas éticas para uma nova sociedade". E José Luís Moral, da Universidade Pontifícia Salesianum, que abordou a problemática dos jovens, à luz da Modernidade e da pós-modernidade.
"Os jovens de hoje sentem-se perdidos e para que demos por eles, cantam, dançam, pintam, fazem barulho, tudo de forma frenética, para que finalmente os olhemos nos olhos e os amemos, não de forma paternalista ou maternalista, mas como quem promove autonomias e sujeitos distintos do que fomos, aquando da nossa juventude".
Luis Moral reconhece que "os jovens de hoje são os mais integrados de toda a história. Estão condenados a ser jovens durante quase toda a vida", o que os torna irresponsáveis por muito tempo. O dramático é que hoje ser jovem é que está a dar, ao ponto de os próprios adultos, mulheres e homens, pelarem-se todos por parecerem jovens toda a vida.
No fundo, parece que hoje ninguém quer ser adulto, autónomo, responsável. No meio de tanta aparência de liberdade, é, afinal, enorme o medo da liberdade, uma vez que esta acarreta a responsabilidade.
No que respeita ao Cristianismo e às Igrejas, Luis Moral reconheceu que os jovens até poderiam querer ser cristãos, mas o que vêem por aí, tanto nas Igrejas tradicionais como nas mais recentes, e na generalidade das cristãs e dos cristãos, "não os seduz". E por isso acham que não vale a pena ser cristão ou cristã. "Reconhecem os valores finalistas, mas não têm vontade para os realizar, para os viver. Lutar não é com eles. Só desfrutar a vida".
Não vão por aí os donos do mundo que o fazem assim para os jovens, mas eles é que não embarcam nele. Por isso, há que "estar com os jovens", duma forma libertadora, para que eles se "sintam necessários" e ousem práticas outras, na linha da fecundidade e não mais na linha da irresponsabilidade.
Faltou aqui dizer - Luis Moral foi mais sociólogo do que teólogo, na sua exposição - que os jovens, pelo facto de o serem, estão em condições mais favoráveis para se aperceberem da presença do Mistério de Deus na História. A sua irreverência e dissidência, o seu não alinhamento com os modelos do passado, torna-os mais preparados para praticarem Deus, o de Jesus, que é um Deus que não gosta de religião, mas de política, que trabalha continuamente com alegria, como quem desfruta a vida, não como quem a carrega às costas, que come e bebe, dança e canta, ao mesmo tempo que é criador de novos céus e duma nova terra.
Só Igrejas outras, discretamente presentes nas discotecas e nos centros comerciais, não nos templos nem nos moralismos bafientos de certo clero ou no oportunismo de certos pastores, poderão despertar nos jovens de hoje a chispa da Fé cristã que há-de derrubar o poder das multinacionais e mudar o mundo e a vida, para que um e outra sejam feitos de afectos e de projectos que dêem montanhas de prazer realizar.
Jesús Peláez alertou que para o facto de que a Fé cristã jesuánica não forma pessoas-gheto, a viver uns quantos valores que as outras pessoas não-cristãs não viveriam. Os valores evangélicos são basicamente valores humanos. Ser cristão é ser mulher ou homem humano até à plenitude. A expressão "filiação divina", no Novo Testamento, não representa uma fuga do mundo, ou um ser humano que tem que viver à parte dos demais. É sinónimo de ser humano integral, completo, acabado, que alcançou o seu pleno desenvolvimento. A graça, sempre foi dito, mas nem sempre foi assumido na prática eclesial, não supre a natureza, potencia-a para que ela o seja em plenitude.
Modelo acabado de ser humano é Jesus de Nazaré, o Homem. Ser cristão/ser cristã é sermos humanos como Jesus. Não se trata de sermos como Deus, no sentido em que as religiões sempre falaram, em que o humano e o mundano não interessavam para nada. Trata-se de ser como Deus, mas como o Deus que se nos revelou em Jesus, que é um Deus que se péla todo por ser humano, um igual a nós, em tudo, excepto no pecado, enquanto negação de humanidade. É sermos mulheres e homens com entranhas de misericórdia, capazes de cuidarmos de nós próprios e dos demais, com o desvelo duma mãe e dum pai que promovem autonomias, em lugar de alimentarem dependências.
Peláez sublinhou, na sua intervenção que Jesus morto e ressuscitado deu-nos o seu Espírito ou Sopro para que vivamos no mundo e na História, tal como ele viveu, com a mesma frontalidade, a mesma capacidade de resistência aos ídolos do mercado e do império, que são deuses que se alimentam de gente e por isso gostam de religiões cheias de crueldade, onde abundam sacrifícios e ritos que nos despersonalizam e nos alienam.
Não é por aqui que havemos de ir, como cristãs e cristãos, de olhos postos em Jesus ressuscitado. É no mundo e na História que havemos de viver, lado a lado com os demais homens e mulheres. Sem complexos nem de superioridade nem de inferioridade. Apenas com entranhas de misericórdia, cada vez mais humanos, mas sempre do jeito de Jesus de Nazaré. Por isso presenças fecundas que tornam fecundo o mundo e despertam nos demais o gozo da entrega da própria vida pela vida do mundo. Não como quem se sacrifica, mas como quem se realiza, cresce em humanidade, em solidariedade, em responsabilidade, em comunhão. E em liberdade.
"Opção pela austeridade solidária", foi um dos apelos mais vigorosos que nos fez Peláez. É a opção fundamental de quem quiser ser humano, neste mundo negativamente marcado pela globalização neoliberal.
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Mensagem do Congresso
1. Estamos a viver uma mudança de era, que provocou uma verdadeira revolução em todos os campos da vida humana: biogenética, bioética, informática, política, economia, modelos de casal, sexualidade e homossexualidade; uma profunda mudança dos valores e inclusive uma perda de referentes éticos. Essa revolução pôs em crise os valores morais em geral e de maneira especial não poucos dos valores que defendem as religiões.
2. A sociedade actual rege-se pelos princípios do neoliberalismo: o individualismo e a negação da dimensão comunitária e social da vida humana; a competetividade, o lucro, o próprio interesse, a acumulação e a idolatria do dinheiro; Adora-se o ouro do bezerro, mais do que ao bezerro de ouro.
3 As mulheres são as que se sentem mais negativamente afectadas pelo modelo económico neoliberal, já que sendo as que mais contribuem para gerar riqueza, através de intermináveis jornadas de trabalho, são também as que menos desfrutam dela. Os valores que se impõem na sociedade são os criados pelo patriarcado que mantém submetidas as mulheres, contra as quais se exerce toda a espécie de violência: em casa, nas relações sexuais, no trabalho, nas ruas, nos locais de lazer, nos cartazes publicitários, na educação, nas religiões, na vida política, na economia, etc. A violência contra as mulheres, as crianças, assim como contra os sectores indefesos da sociedade, é inerente à ideologia do patriarcado e constitui uma das suas práticas habituais.
4 A própria Igreja católica, sobretudo, nalguns da sua hierarquia e dos seus movimentos organizados, renunciou ao anúncio e à prática dos valores evangélicos e instalou-se comodamente no sistema do qual recebe pingues [= “gordos”] benefícios, e efectuou uma inversão dos valores até tornar irreconhecível a mensagem e a práctica de Jesus de Nazaré. Substituiu a defesa da ortopraxia pela ortodoxia, o Evangelho pelos dogmas, a obediência à autoridade das vítimas pela obediência cega às autoridades religiosas, a adoração a Deus pela papolatria [= adoração ao papa], a liberdade pela submissão, a fé crítica pela fé ingénua, o seguimento de Jesus Cristo pela aplicação rígida do Código de Direito Canónico, o perdão e a misericórdia pelo anátema; a construção do reino de Deus pela construção duma Igreja hierárquica, tornando efectiva a frase de Loisy: “Jesus anunciou o reino e o que veio foi a Igreja”; a defesa e a imposição de um único modelo de família, o matrimónio; a condenação de outros modelos, como as uniões de facto, e da homossexualidade qualificada como doença, desvio natural e desordem moral. Tudo isso, à mistura com apelos a determinados textos bíblicos lidos com um certo tom fundamentalista. Opõe-se à experimentação e à utilização de células-mãe, inclusive quando estas têm fins terapêuticos. Sob o princípio de salvar uma vida que não tem futuro, impede-se a salvação de muitas vidas, a cura de numerosas doenças e a superação do sofrimento humano. Pretende-se impor a todos os católicos os critérios morais da hierarquia, sem prévio debate interno, e os critérios de um sector do catolicismo a toda a cidadania.
5 É necessária uma mudança de valores em sintonia com as transformações produzidas na sociedade, que há-de traduzir-se:
* na proposta de uma ética cívica, caracterizada pela tolerância, pelo respeito à liberdade de consciência e pelo serviço à comunidade, que obriga a todos por igual em deveres e direitos;
* na busca de uma ética comum a todas as religiões que defende o bem do ser humano, os máximos de humanidade não-negociáveis, e se expressa na regra de ouro formulada por todas elas, desde Confúcio até Maomé, passando por Moisés e Jesus de Nazaré;
* a ética, que emana da pregação e da práctica libertadora de Jesus de Nazaré, expressa-se de maneira exemplar nas Bem-aventuranças e traduz-se na opção pelos pobres, na solidariedade com os excluídos e na compaixão com as vítimas;
* a defesa duma cultura da solidariedade, da paz, da justiça, da defesa da natureza e da igualdade entre homens e mulheres, eliminando toda a discriminação por razões de género, de etnia, de classe, de cultura ou de religião.
6 Na América Latina estão a surgir novos sujeitos históricos que abrem novos caminhos de libertação e reclamam o reconhecimento dos direitos de quantos alguma vez foram considerados como sujeitos: religiões acusadas de supersticiosas, povos tidos por atrasados, raças e etnias subjugadas, mulheres dupla e triplamente excluídas, comunidades camponesas, indígenas, afro-latino-americanas humilhadas na sua identidade cultural.
7 Na África, está a produzir-se uma mudança de valores que pretendem compaginar tradição e modernidade. Numerosos movimentos de libertação opõem-se à imposição por parte do Ocidente de determinados valores e modelos de vida que pretendem eliminar suas especificidades, a sua concepção comunitária, e pretendem compaginar a própria identidade cultural e religiosa, aberta ao diálogo com outras culturas e religiões, com a luta contra a globalização neoliberal que exclui todo o continente.
8 A juventude vive mergulhada numa sociedade débil e de risco, e no horizonte da “cultura do prazer”, alheia na sua maioria aos valores religiosos, mas talvez não à experiência da fé. A sua forma de vida anuncia o nascimento de novos valores e podem ser a metáfora e a profecia da nova cidadania.
9 É necessário realizar até ao fim a grande revolução dos valores, que comece pelo próprio ser humano e se alargue até às estruturas. Uma revolução que implica:
* a libertação da nossa riqueza e bem-estar sobreabundantes e a opção por uma cultura do compartilhar;
* a libertação do nosso consumo, com que acabamos por nos consumirmos a nós próprios, e a opção pela austeridade;
* a libertação da nossa prepotência que nos torna potentes perante os demais, mas impotentes perante nós próprios, e a opção pela virtude que se afirma na debilidade;
* a libertação do nosso domínio sobre os outros, a quem tratamos como objectos de usar-e-deitar-fora, e sobre a natureza, da qual nos apropriamos como se se tratasse de um bem sem dono, e a opção por umas relações simétricas e não opressivas;
* a libertação da nossa apatia perante o sofrimento humano, e a opção pela misericórdia com as pessoas que sofrem;
* a libertação da nossa suposta inocência ética, da nossa falsa neutralidade política e da nossa tendência a lavar a mãos perante os problemas do mundo, e a opção pelo compromisso na vida política, nos movimentos sociais e nas organizações não governamentais;
* a libertação de todo o poder opressor, e a opção pelas virtudes que não têm que ver com o domínio: a amizade, o diálogo, a convivência, o prazer de viver, o desfrute, a gratuidade, a solidariedade, a compaixão, a proximidade, o desprendimento, a contemplação, o poder como serviço, a autoridade como promotora de fraternidade, a fraternidade/sororidade.
* a libertação da nossa tendência a excluir, e a opção por um mundo onde caibamos todas e todos.
Com a aprovação desta mensagem, comprometemo-nos a pô-la em prática na nossa vida pessoal, na sociedade e nas igrejas.
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Celebração Eucarística encerrou Congresso
Muito ruído, nenhuma profecia
Ainda não foi desta que o Jornal Fraternizar saiu saudavelmente "incomodado" e profeticamente interpelado da celebração eucarística de encerramento do Congresso. Deu para perceber que houve um grande esforço, relativamente, aos anos anteriores, para acertar, mas o caminho seguido não foi ainda o mais correcto.
Fazer memória de Jesus não pode limitar-se a cantar uns cânticos extraídos de um CD que vende no mercado, colocar um grupo jovem a conduzir a seu bel-prazer uma assembleia maioritariamente envelhecida e levá-la a executar uns quantos passos de dança, bater umas palmas, erguer os braços e exibir artificiais sorrisos de felicidade e de fraternidade. Muito menos pode limitar-se a fazer da celebração uma sessão de exercícios como num ginásio - agora, sorrimos, agora, indigamo-nos, agora temos paciência, agora dançamos, agora sentamo-nos à mesa com Jesus, agora pedimos a Deus, agora comungamos, agora vamos ser como meninos.
Fazer memória de Jesus crucificado/ressuscitado há-de ser sobretudo ajudar a criar um ambiente favorável a escutarmos o Espírito que fez dele um homem-para-os-demais e que nos fala nos sinais dos tempos. É por isso que não pode haver celebração sem profecia. Mas, infelizmente, foi o que aconteceu nesta. Houve muito barulho, muito movimento, e nenhuma profecia. Sintomaticamente, quando, a dado momento, uma voz de entre a assembleia gritou para lembrar as guerras na Palestina e no Iraque, estranhamente, ausentes desta Memória de Jesus que ali estávamos a realizar, logo um dos "animadores" responsáveis saiu a silenciá-la, em nome da pureza ideológica em que deveria decorrer a celebração! E assim se fez. Só que pureza ideológica é tudo o que Jesus crucificado/ressuscitado nunca quis. Ou não fosse verdade que os clamores dos milhões e milhões de vítimas humanas que não têm lugar nesta Ordem Mundial do Império sempre serão tidos como "impuros", por parte da ideologia dominante, hoje, a ideologia da globalização neoliberal.
Por outro lado, Fazer Memória de Jesus exige também comida partilhada que nos alimente o corpo e a vida militante, até fazer de nós mulheres e homens entregues pela vida do mundo, como Jesus.
Ora, embora houvesse proclamação da Palavra (um extracto do profeta Jeremias e as Bem-aventuranças de Mateus), não foi, depois, dada a palavra a nenhum profeta para nos ajudar a ver este nosso tempo como Deus, o de Jesus, o vê, em ordem a nos comprometermos na sua transformação. Nem sequer o presbítero que presidiu se viu nessa hora. Aliás, ele foi mais um robot do que um presidente da assembleia. O que disse não foi nada seu, apenas leu o que outros escreveram para que ele dissesse, exactamente, como a assembleia.
Comer juntos (era hora de almoçar!) foi coisa que também não se viu. Nem se pensou em tal. Cada um teve que ir depois comer em sua casa, ou no restaurante!...
Entretanto, o único momento em que a assembleia largou o papel e pôde expressar-se, logo se pôs a pedir a Deus! Como os pagãos! O que perfaz mais uma tragédia.
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Jornal Fraternizar comenta reportagem da revista PÚBLICA
Noviços jesuítas, de que Deus?
São dez jovens rapazes e, se todos aguentarem até ao fim as diferentes provações do noviciado que se propuseram realizar, sob a orientação do respectivo mestre de noviços, padre Vasco Pinto de Magalhães, numa casa de retiros em Coimbra, quando aquele terminar, ao fim dos dois anos consecutivos programados, terão subido o primeiro degrau da longa escada que os levará a ser, um dia, padres jesuítas. A Revista PÚBLICA de 3 de Agosto de 2003 fez uma reportagem sobre eles. Jornal Fraternizar leu-a com atenção. E toma a liberdade de a comentar criticamente nas suas páginas. Para que o século XXI e o terceiro milénio do Cristianismo não venham a ser uma simples repetição de crenças mais ou menos bobas e de práticas religiosas e devocionais que quase toda a gente continua a pensar e a dizer que têm tudo a ver com Jesus de Nazaré, quando, afinal, não passam de crenças e de práticas herdadas do primitivo Paganismo que imperou por estas terras, quando fomos colónia do Império Romano, e que ainda hoje, infelizmente, continuam a devorar-nos a alma. Ninguém mais lhes chama Paganismo, porque este, para conseguir sobreviver no confronto com o Evangelho Jesus e com a via radicalmente libertadora que ele abriu, habilmente se travestiu de catolicismo romano e de religião católica, sem se preocupar minimamente com esses e outros novos nomes com que, depois da queda do Império romano, os novos senhores de Roma e do Ocidente as cúpulas da nossa Igreja católica o baptizaram. Ou não fosse verdade que o que fundamentamente conta nestas coisas são, não os nomes e os rótulos,mas os conteúdos e a substância.
Tudo na reportagem nos diz que estes dez noviços jesuítas pensam que estão a preparar-se para virem a ser companheiros de Jesus, o Crucificado que Deus ressuscitou. Mas quando, amanhã, os ventos da Ilustração e da Modernidade e, sobretudo, o Vento ou o Sopro (Espírito) do Evangelho de Deus que é Jesus de Nazaré lhes inundarem a consciência e os fizerem cair do cavalo, como sucedeu outrora com o jovem Saulo de Tarso (cf. Actos 9), talvez acabem todos a descobrir que, afinal, estão a preparar-se para serem sacerdotes de míticos deuses e deusas que, ao contrário do Deus de Jesus, do que mais se agradam é de cruéis sacrifícios humanos, de preferência, jovens, de preferência, escorreitos, inteligentes, competentes, esbeltos, generosos, e com ambição de virem a integrar a elite privilegiada do mundo que, em cada tempo e lugar, sempre costuma comandar/dirigir as maiorias subdesenvolvidas, ao mesmo tempo que habilmente as enquadra/domestica com todo o tipo de acções de beneficência e de bem-fazer, não só, as de carácter social/material, mas sobretudo as de carácter devocional/religioso, estilo, reza diária do terço/rosário, agora, acrescida de novos mistérios, os luminosos, e missas ritualizadas a granel, com as quais a nossa Igreja católica tem andado a mascarar, há sucessivas gerações, a Eucaristia e a Memória subversiva e perigosa de Jesus!
A reportagem tem ares de modernidade q.b. mas só na linguagem. Os conteúdos, bem analisados, revelam que os dez noviços estão sujeitos a um regime que substancialmente é apenas mais do mesmo do que sempre se fez nos clássicos seminários diocesanos e nas múltiplas ordens religiosas masculinas e femininas, nos últimos séculos.
A casa em que vivem, por mais natural que pareça ser, não deixa de ser um ambiente artificial, porventura, aparentemente muito aberto ao exterior, mas só isso. Como tal, um ambiente que condiciona os jovens rapazes e os pode levar a formar convicções e a tomar decisões contrárias à sua natureza humana na pujança da vida e nada conformes à liberdade do Evangelho de Jesus, dom maior de Deus à humanidade em geral e a cada ser humano, em particular.
As pessoas com quem os jovens regularmente lidam e convivem, a quem mais ouvem e que mais influenciam as suas consciências, são pessoas eclesiásticas, no caso, padres jesuítas, uns permanentes, outros ocasionais, mas todos bem marcantes para quem, como eles ali vivem internados, com muito poucas saídas à família (apenas duas noites por cada ano, sublinha a PÚBLICA) e praticamente sem nenhuma vida social, já que as actividades em que se envolvem, dentro e fora de casa, são sobretudo eclesiásticas, por exemplo, dar catequese nas paróquias de confiança das redondezas!
Para cúmulo, o superior da casa, padre Carlos Carneiro, acumula esta sua função de poder sobre os dez jovens com uma outra, ideologicamente nada inocente: está incumbido de percorrer o país à procura de candidatos a jesuítas. O que faz com que ele, mesmo inconscientemente, sempre se veja nesse papel, também quando acompanha o dia a dia destes jovens rapazes.
Se todos eles chegarem ao fim e fizerem os votos de pobreza, de obediência e de castidade exigidos a qualquer candidato a padre jesuíta, a sua acção será considerada um êxito. Se eles desertarem da Ordem e decidirem ser no mundo simplesmente homens que crêem em Jesus Crucificado/Ressuscitado e, por isso, homens que fazem suas as Causas dele, no jeito que em cada momento das suas vidas lhes for mais favorável, então a sua acção poderá ser olhada como um fracasso institucional, embora seja um êxito do Espírito Santo que, pelo menos hoje, não parece nada interessado em manter toda essa gama de “famílias religiosas” que por aí proliferam e que dão por diversos nomes, alguns bem caricatos e até ofensivos da dignidade de quem os ostenta, mas que fazem jus à memória/vaidade dos respectivos fundadores ou fundadoras.
Estes jovens noviços (o mesmo se diga de todos os outros, raparigas e rapazes, das demais ordens ou institutos religiosos) precisam de saber que os tradicionais três votos de pobreza, obediência e castidade, que haverão de assumir por toda a vida, se optarem por ser padres jesuítas, não são uma invenção de Deus, pelo menos, do Deus definitivamente revelado em Jesus Crucificado/Ressuscitado.
São invenção dos seres humanos que, nos seus ancestrais medos, imaginaram que, acima deles e a mandar neles, havia deuses e deusas mais ou menos sádicos e cruéis que só seriam amansados e se nos tornariam favoráveis, se nós nos dispuséssemos a sacrificar em sua honra o que temos de melhor, concretamente, as nossas filhas e os nossos filhos, precisamente, os mais escorreitos e os mais generosos.
Momentos houve em que, em lugar das filhas e dos filhos, os seres humanos sacrificavam os animais mais escorreitos que possuíam. E a estes, iam ao ponto de os imolar de modo cruento sobre os altares levantados em honra dos deuses e das deusas.
As filhas e os filhos, geralmente, não eram imolados de modo cruento sobre os altares, mas apenas segregados da família e da colectividade para se tornarem propriedade dos deuses e das deusas. Passavam, por isso, a viver nos espaços reservados aos deuses e às deusas os templos e suas imediações onde, como noviços, eram educados pelos sacerdotes a fim de se tornarem mais tarde sacerdotes/sacerdotizas, inteiramente consagrados às coisas santas e sagradas, e ocupados em exclusividade com as acções litúrgicas de apaziguamento a esses deuses e deusas, bem como de louvor e de acção de graças pelos favores supostamente recebidos deles e delas.
O próprio Jesus de Nazaré, como o Evangelho ou a Boa Notícia de Deus que é no meio de nós e connosco, conheceu estas práticas religiosas (algumas delas vêm referidas na própria Bíblia hebraica e eram coisa corrente no judaísmo levítico-sacerdotal), mas não foi nunca por elas.
A via que ele historicamente protagonizou e que manifestamente inaugurou não é mais do mesmo religioso. Faz ruptura com todo esse tipo de práticas religiosas e sacrificiais, geradoras de menoridade individual e colectiva, e constitui-se como um Novo e Definitivo Começo, o da maioridade individual e colectiva de toda a Humanidade. Como tal, a sua é uma via radicalmente alternativa à via religiosa, provocada e alimentada pelos ancestrais medos dos deuses e das deusas, medos que ainda hoje permenecem no inconsciente da generalidade dos seres humanos, por isso, sem audácia para assumirem a sua liberdade e a sua responsabilidade na História.
Com Jesus, não há nem conventos, nem templos, nem espaços sagrados, nem sacerdotes, nem monges. Há seres humanos que vivem no meio dos demais e que um dia se descobrem chamados à missão de os consciencializar e libertar (= Evangelizar) dos ancestrais medos para a liberdade, para que, finalmente, todos eles se assumam como protagonistas na História e levem toda a Criação à sua plena realização.
Também há Deus, não mais como invenção/criação dos nossos ancestrais medos, mas como a máxima expressão da nossa liberdade, porque misteriosa e gratuita Presença/Acção no nosso ser/viver, mais íntima a nós do que nós próprios, que nos potencia e faz de nós seres-para-os-demais, não na castração, não na segregação, não na imolação, não no sacrifício, não nos votos de pobreza, obediência e castidade, mas na cada vez mais plena realização pessoal e na livre e alegre entrega da própria vida, segundo aqueles jeitos concretos que se revelarem mais oportunos nas circunstâncias concretas em que essa entrega historicamente se faz, e não segundo esquemas sacrificialistas inalteráveis, como os votos, por exemplo, aos quais depois quem os faz sempre se sentirá obrigado, como se eles fossem o valor maior, independentemente das circunstâncias em que vier a ter de viver.
Neste particular, o exemplo de vocação ou chamamento do jovem Samuel bíblico (cf. I Livro de Samuel 3) é bem paradigmático, ainda hoje.
O jovem começou por fazer o que estes dez jovens candidatos a padres jesuítas estão a fazer nestes dois anos. Aceitou, como eles agora aceitaram, ser segregado da casa dos seus pais e do seu mundo de todos os dias. Aceitou ser conduzido para o Templo e para a sua escola/seminário, para aí realizar o noviciado que o prepararia para, mais tarde, depois da morte do sacerdote Eli, continuar a garantir ao povo mais do mesmo religioso, no Templo.
Inopinadamente, porém, algo profundamente revelador aconteceu na sua consciência, sem que o sacerdote Eli, seu mestre de noviços, o pudesse impedir.
O jovem Samuel apercebeu-se então, quase fisicamente, que o Deus que o chamava não era mais um desses deuses e deusas que moram em casas feitas por mãos humanas e que se deixam manipular pelos respectivos sacerdotes, mediante a repetição de certos ritos, sempre os mesmos, de preces, sempre as mesmas, da oblação de sacrifícios, sempre os mesmos, e das promessas-faz-de-conta.
O Deus que o chamava irrompia na sua vida como um ladrão e convidava-o a inaugurar um Novo Começo na polis (= cidade), isto é, na Política, não na Religião, em que o próprio Samuel seria um dos principais protagonistas no processo de libertação do povo. Não lhe exigia sacrifícios, em determinados dias e horas, nem votos de pobreza, de obediência e de castidade, nem a execução repetitiva de quaisquer outros esquemas sacrificiais ancestrais, todos eles mais ou menos bobos. Deus apenas lhe reclamava disponibilidade total, para poder ser Deus nele e com ele.
Assim há-de ser também nestes nossos tempos que são os tempos definitivos da maioridade humana, inaugurados há dois mil anos por Jesus, o Crucificado/Ressuscitado que destronou, duma vez por todas, os tempos da menoridade humana, onde as religiões e os sacerdotes eram (são) os nossos tutores e pedagogos. Mas também os nossos opressores que nos impediam (impedem) de crescer em liberdade e em responsabilidade.
Por isso, quando, um dia destes, os dez jovens noviços candidatos a padres jesuítas escutarem e acolherem a Boa Notícia ou Evangelho de Deus, pode ser que lhes aconteça como ao jovem Samuel, noviço em casa do sacerdote Eli. E, como ele, em lugar de continuarem segregados naquela casa de Coimbra, a preparar-se para amanhã garantirem mais do mesmo religioso à Humanidade do terceiro milénio, quem sabe se não ousarão protagonizar nas suas vidas fecundas e libertadoras rupturas, acompanhadas de novos começos, bem na esteira da Ruptura e do Novo Começo que Jesus de Nazaré, o Ser Humano de maioridade plena, inaugurou com o seu ser/viver totalmente conduzido pelo Espírito libertador de Deus, que o habitou em permanência e em plenitude.
Teremos razões de sobra para cantar e dançar nesse dia!
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Congregação do Verbo Divino. Eram dois beatos. A partir de Outubro 2003, são dois santos
Motivos para festejar ou chorar?
A Congregação dos Missionários do Verbo Divino parece ter motivos de sobra para festejar. O seu fundador, Pe. Arnaldo Janssen, e um dos dois primeiros missionários enviados por ele em missão para a China, Pe. José Freinademetz, são canonizados no dia 5 deste mês de Outubro de 2003. Ambos eram beatos. Passam agora à categoria de santos, pela mão de João Paulo II, o papa que ficará na História da Igreja como o maior fabricador de beatos e de santos. Pode parecer blasfemo, mas apetece perguntar: O que leva João Paulo II a fabricar tantos beatos e tantos santos? Serão nobres motivos de fé cristã católica, ou prosaicos motivos financeiros que garantam ao Estado do Vaticano e à respectiva Cúria mais verbas para ambos poderem levar por diante os seus projectos de dominação católica romana em todo o mundo?
A questão só é escandalosa aos ouvidos de fiéis mais ou menos ingénuos, que ignoram o que se passa dentro dos muros daquele pequeno Estado romano onde se encontra a sede da nossa Igreja católica. Dinheiro, muito dinheiro, é o que a Cúria romana precisa e busca conseguir por todos os meios, mesmo os menos honestos. E se hoje ela já não vende indulgências, pode muito bem vender beatos e santos. Alguém sabe quanto custa fazer um beato e um santo na Igreja católica? Não se sabe, porque, também aqui, o segredo é a alma do negócio.
É claro que as múltiplas congregações religiosas pelam-se todas por poderem proclamar ao resto do mundo que o seu fundador ou a sua fundadora são pelo menos beatos. Mas o melhor mesmo é que ele ou ela sejam santos. A canonização da fundadora ou do fundador é, de certo modo, a canonização da Congregação, como tal, e dos seus membros
Custear a fabricação de um beato/de uma beata e de um santo/de uma santa não deve ser fácil. Não é coisa que esteja ao alcance de todas as bolsas. Mas que é um bom investimento, lá isso é. Já pensaram nos lucros que um novo beato/uma nova beata e um novo santo/uma nova santa garantem a quem depois explora os seus cultos?
Vejam só os lucros que as duas infelizes crianças beatas de Nossa Senhora de Fátima rendem ao respectivo santuário e, embora muitíssimo menos, à sua família de sangue que explora a casa onde ambas viveram, nos Valinhos. E não é só ao nível financeiro, tudo dinheiro vivo que entra nos cofres do santuário sem quaisquer impostos ao Estado. É também ao nível social e religioso, o prestígio que dá à instituição que explora o seu culto...
Temos consciência do chocante destas nossas considerações. Dirão que nem parecem de uma publicação que se assume como de inspiração cristã e eclesial. Mas são. Porque o que é chocante é que estas coisas aconteçam. Sob a aparência de pura nobreza moral e para maior glória de Deus. Porque assim ninguém as desmascara e denuncia.
É claro que, no meio de tudo isto, há também muita gente bem intencionada. E nem se apercebe do negócio que pode estar subjacente a toda esta movimentação. Mas é de gente bem intencionada, à mistura com uma grande dose de ingenuidade, que estas coisas se fazem.
Aliás, mesmo que os factos venham depois confirmar o que aqui acaba de ser escrito, concretamente, mesmo que as pessoas envolvidas nas situações venham a constatar mais adiante que ter um beato/uma beata ou um santo/uma santa na família religiosa dá efectivamente muito jeito, muito prestígio e também muito dinheiro, acabam por achar isso natural e são até capazes de dar graças a Deus. Não se apercebem do perverso que está subjacente a todo o processo. Para elas, é tudo para glória e honra de Deus!...
Acontece, porém, que segundo a teologia cristã mais fiel ao Evangelho de Deus revelado definitivamente em Jesus de Nazaré, o Senhor, ninguém é santo senão Deus! O próprio Jesus ripostou a quem, atrevidamente, lhe chamou simplesmente “bom mestre”. Porque entendia que “bom” só mesmo Deus! (cf. Marcos 10, 17-18)
Houve, é certo, quem lhe gritasse: “Sei quem tu és: o santo de Deus” (cf. Marcos 1, 23-24). Mas o Evangelho testemunha que quem assim o apelidou foram “os espíritos impuros”, o que significa: uma voz inspirada nos antípodas da fecunda influência de Deus universalmente libertador e Pai/Mãe de todos os povos, não apenas de um.
Por outro lado, a vida real de todos os dias mostra que, em redor dos santuários onde existem imagens de santas e de santos expostas ao culto público dos fiéis, sempre se desenvolve uma indústria e um comércio santeiros de incrível mau gosto, capaz de pôr os cabelos em pé ao mais desprevenido. O que se passa, por exemplo, em redor do recinto do santuário de Fátima é deveras exemplar, neste campo.
Mas o pior, do ponto de vista da Fé cristã e da teologia cristã, portanto, do ponto de vista do que há de melhor e de mais nobre nos seres humanos, é a promoção da idolatria que os cultos públicos em honra das imagens das santas e dos santos inevitavelmente acabam por fazer acontecer.
As populações, apesar de baptizadas, nunca foram verdadeiramente evangelizadas e por isso, nunca renunciaram de verdade aos cultos dos deuses e das deusas do paganismo que herdaram nos seus genes e que perduram no seu imaginário religioso. Nunca se libertaram dos ancestrais medos que eles alimentam. Nunca desistiram de recorrer aos seus apregoados favores, mediante promessas de todo o tipo, quanto mais bizarras melhor, e mediante sacrifícios de toda a ordem, quanto mais escabrosos melhor. E se as imagens deles e delas já não aparecem hoje publicamente expostas ao culto (as imagens das deusas ainda aparecem, sob a conhecida designação de Nossa Senhora da Saúde, do Ó, do Alívio, das Vitórias, das Dores, e de muitas mais), as populações encontram em seu lugar e com o mesmo falso valor simbólico as imagens dos santos e das santas, às quais recorrem, nomeadamente, em momentos de aflição, que são quase todos os momentos das suas vidas. E ai de quem lhes diga que o santo ou a santa não passa de um pedaço de madeira ou de barro que um qualquer santeiro de feira, e/ou escultor de nomeada conceberam e fizeram sair das suas mãos. São capazes de nos comerem vivos, como é próprio de todos os seguidores dos ídolos (experimentem também dizer a um rico que a sua riqueza acumulada é a cruz dos povos crucificados e verão como ele, se vos tomar a sério, vos fulmina com o seu olhar de ódio, porque ódio, juntamente com fanatismo é o que todos os ídolos fazem nascer nos seus súbditos, por maioria de razão, o ídolo Dinheiro, hoje tão cultuado no nosso mundo dominado pelas multinacionais e seus governos).
Pois bem, é por tudo isto que começámos por escrever, a abrir esta reflexão, que a Congregação dos Missionários do Verbo Divino “parece ter motivos de sobra para festejar”. Porque, se os seus membros forem capazes de ver as coisas à luz do que aqui fica dito, então terão motivos de sobra para chorar. Porque esta pode ser e vê-se que está a ser a via da Cúria do Vaticano, mas não é de certeza a via de Jesus, nem há-de ser nunca a via da Igreja que se reclama do seu nome. Não deveria ser a via desta Congregação, para mais que se reclama de missionária, nem, evidentemente, de nenhuma outra, na Igreja de Jesus (o espantoso é que nem os companheiros do inesquecível Pe. Américo, do Gaiato, resistem à tentação e já estão a trabalhar para que ele seja beato e depois santo. Até já distribuiram uma pagela com a sua fotografia e uma oração a pedir a Deus o indispensável milagre!!!...).
“Ai de vós, quando todos disserem bem de vós” (cf. Lc 6, 26). “Ai de vós (...) que edificais sepulcros aos profetas e adornais os túmulos dos justos, dizendo: «Se tivéssemos vivido no tempo dos nossos pais, não teríamos sido seus cúmplices no sangue dos profetas!» Deste modo, confessais que sois filhos dos que assassinaram os profetas. Acabai então de encher a medida dos vossos pais!” (cf. Mt 23, 29-32).
São palavras de Jesus que desmascaram os comportamentos dos homens que ocupavam postos de responsabilidade no seu país, em tudo semelhantes aos comportamentos dos homens que hoje estão à frente da Cúria romana.
De resto, quem lê o livro (ver texto a seguir) com a biografia do Pe. José Freinademetz, o missionário do Verbo Divino que viveu e morreu na China, fica ainda mais confirmado nas palavras que o Evangelho de Mateus põe na boca de Jesus e que acabámos agora mesmo de reproduzir. É assim: primeiro, a Igreja, na pessoa de alguns dos seus membros com poder hierárquico ou sagrado, infernizam a vida de um seu companheiro; e depois dele morrer, apressa-se a fazer dele um santo. Não é isto perversão? E não é esta perversão que a Cúria do Vaticano (por favor, não confundam a Igreja católica com ela) acaba por canonizar, ao canonizar, agora, o Pe. José Freinademetz?
Um livro cheio de factos eclesiasticamente incorrectos
A biografia que o livro “José Freinademetz. Um tirolês que amou os chineses”, da autoria de Carlos Pepe SVD e José Manuel Vergara, e acabado de editar pela Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, não é de certeza a biografia oficial do novo santo que o papa João Paulo II vai proclamar no dia 5 de Outubro. As suas 267 páginas estão cheias de factos eclesiasticamente incorrectos que não deveriam ser divulgados ao grande público, embora os autores tentem depois enquadrá-los e justificá-los, para que as leitoras e os leitores não se escandalizem por aí além. Um dos subtítulos do capítulo III, por exemplo, chega ao ponto de referir pormenores (quase) escabrosos sobre “Um bispo que fez de José santo”, tão cruéis foram as posturas dele para com o biografado. Só que o bispo em causa tinha começado por ser missionário verbita, companheiro de José na China. E veja-se só como as coisas funcionam no sistema eclesiástico! acumulava as funções de bispo com as de superior da Congregação (numa congregação de irmãos ou de irmãs, ainda há lugar para um superior ou uma superiora?!) naquele imenso país! Mas o mais grave é que o fundador da Congregação, Pe. Arnaldo Janssen, que agora vai ser também proclamado santo, juntamente com o Pe. José, sabia de tudo e manteve-o anos a fio nas funções de superior! Já agora, por que não canonizam também o referido bispo?
O livro lê-se como um romance trágico. Mas mais do que lido, deverá ser demoradamente meditado e debatido, no interior da nossa Igreja, antes de mais, pelos actuais membros da Congregação dos Missionários do Verbo Divino e pelos das outras Congregações missionárias masculinas e femininas. E porquê?
Primeiro, porque nas suas páginas perpassa uma concepção de Missão que nunca deveria ter sido praticada, nem por esta Congregação, pomposamente chamada “Verbo Divino” (vejam bem este pretensiosismo!), nem por nenhuma outra das múltiplas que por aí nasceram, de há cem anos a esta parte, e que se mantêm no activo, embora, hoje, a braços com manifesta carência de “vocações” que lhes garantam futuro. Missão assim, mais parece uma invasão e uma conquista. Sem meios bélicos, é certo (esses ficam a cargo dos governos dos países do Ocidente, aos quais os missionários pertencem), mas com fortes meios ideológicos e culturais de dominação dos povos, já de si, condenados a viver em condições de subdesenvolvimento e mesmo de miséria, por isso, numa situação de confrangedora dependência em relação aos missionários e às estruturas que os apoiam, todas elas cheias de sinais exteriores de riqueza.
Segundo, porque os missionários não vão propriamente Evangelizar os pobres, como sempre deveria fazer a Igreja que se reclama de discípula de Jesus. Este livro revela que eles vão sobretudo como uma espécie de braço religioso do poder conquistador e colonial do Ocidente, para o reforçarem naquela região em concreto, e para manterem domesticados os povos, graças a normas moralistas e devoções religiosas próprias do sistema eclesiástico ocidental missionários há, sobretudo, portugueses, que chegam a incutir nos povos de África e da Ásia, a devoção à Senhora de Fátima!... que não têm nada a ver com o Evangelho libertador de Deus, nem com Jesus de Nazaré, o único Senhor que nos faz a todos senhores e não súbditos de nada nem de ninguém, bispo, papa, imperador, ou o que forem.
Terceiro, porque, a fazer fé neste livro, com o que os missionários mais se preocupam é com implantar naquelas terras e entre aqueles povos, no mais curto espaço de tempo, uma estrutura eclesiástica, em tudo idêntica à que, nesta altura, está em profunda decadência e falência nos países do Ocidente, com suas dioceses territoriais, estilo empresas eclesiásticas, com o seu bispo monarca absoluto à frente de cada uma, estilo gestor de empresas, abnegadamente servido - e esse é o mal - por um clero, ora generoso, ora prepotente, por sua vez coadjuvado por numeroso exército de leigas e de leigos sem qualquer poder de decisão na Igreja, estilo funcionários de empresa, capatazes, os clérigos, subalternos, os leigos e as leigas.
Outro aspecto, com o seu quê de escabroso, que também é aflorado neste livro, é o financiamento das Missões e dos missionários. Quem os financia? E a troco de quê?
O livro deixa perceber que, afinal, o missionário pode ir, individualmente, sem bolsa nem alforge, mas a Congregação que o envia não é uma instituição pobre. Pode começar pobre, mas depressa enriquece e cresce em património.
A ajudar neste enriquecimento, estão também os “choradinhos” dos missionários, endereçados aos endinheirados dos países de onde partiram. É claro que também há pessoas remediadas que partilham muito do pouco que têm, mas, mesmo nestes casos, é preciso perguntar pelas motivações destas suas decisões.
Aqui, a julgar não só pelo que diz o livro, mas também pelo que repetem à saciedade as revistas que cada Congregação missionária edita, mensalmente, em diversas línguas, as motivações não serão as mais evangélicas.
Há campanhas de angariação de fundos que são em tudo idênticas às de qualquer empresa de lotaria. “Colabore com os missionários e habilite-se a centenas de prémios!”, escreve uma destas revistas, por sinal, propriedade duma Congregação missionária com relevantes serviços prestados no terreno.
E que dizer do aliciante da reza diária duma missa por todos os benfeitores dos missionários, que cada Congregação geralmente, anuncia na respectiva revista? Mas então os frutos da Missa que a Congregação missionária reza, expressamente, pelos benfeitores (na hipótese de um tal ritual produzir frutos, o que é seriamente para duvidar, uma vez que Deus não é negociante nem empresário que se deixe influenciar pelo dinheiro que lhe damos) só a estes beneficiam? Não beneficiam toda a gente, especialmente, a mais carenciada, que nem sequer se pode dar ao luxo de ser “benfeitor dos missionários”, muito menos, assumir, anos a fio, uma “bolsa de estudo”? Recorrer a meios como estes (há piores, muito piores!) para que a Congregação se mantenha rica e detentora de casas e mais casas, algumas com funções de hotel isento de impostos ao Estado (a este propósito, vão ver o que se passa com certas casas de frades e de freiras em Fátima, por exemplo), é honesto? Dignifica a Congregação que os promove e as pessoas que, ingenuamente, se dispõem a entrar neste jogo de interesses, realizado a pretexto das “Missões”?
Pensemos seriamente nisto. E ousemos práticas mais conformes ao Evangelho. De contrário, pode haver muitos missionários perseguidos, não por causa do Evangelho, como sempre nos querem fazer crer, mas por causa de se comportarem como agentes dos interesses imperialistas da Cúria da Igreja católica Romana e como legitimadores religiosos do Poder conquistador e colonialista dos países do Ocidente.
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Incêndios florestais
Nota dos Bispos esquece a srª de Fátima
Provavelmente, é a primeira vez que tal acontece. Mas é um facto que Jornal Fraternizar gostosamente regista e sublinha. A Nota Pastoral dos Bispos católicos portugueses, a propósito dos incêndios de verão que dizimaram o interior do nosso país, não faz qualquer referência à Senhora de Fátima. No apelo final, os Bispos referem-se directamente a Deus e deixam no total esquecimento a deusa de Fátima.
Se foi uma decisão consciente, é de saudar. Quem redigiu a Nota é capaz de se ter lembrado da sr.ª de Fátima, mas teve o bom senso de silenciar a sua invocação. Terá prevalecido o sentimento de vergonha. Afinal, se a sr.ª de Fátima servisse para alguma coisa, em casos como este, teria evitado os incêndios florestais. Mas como o poderia ter feito, se ela nem as igrejas e basílicas onde a sua imagem é cultuada protege dos ladrões e dos fogos/tremores de terra, quando calha destes ocorrerem?!
Na circunstância, os Bispos terão percebido que era caricato apelar à "protecção" e à "bênção" de Nossa Senhora de Fátima, como muitas vezes o fizeram no passado, em idênticas circunstâncias. E como o fez, por exemplo, o catolicão Paulo Portas, ministro de Estado e da Defesa, aquando do desastre ecológico do "Prestige", nas águas do mar da Galiza. Segundo o ministro, a desgraça não atingiu as águas do mar de Portugal, porque nós, ao contrário dos galegos, temos a Senhora de Fátima para nos proteger! (O espantoso é que ninguém o demitiu do cargo, o que diz bem do nível de exigência cultural e ética que se tem para alguém ocupar essas funções no nosso país!)
Mas a Nota dos Bispos esqueceu também a autocrítica. É que, se hoje há tão pouco respeito pela Natureza é porque a Igreja andou séculos a falar em "Dominai a terra", quando deveria ter falado em "Cuidai da terra".
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As primeiras presbíteras católicas reagem à sanção de excomunhão imposta pelo Vaticano
Essa doutrina não vem de Deus!
A Cúria do Vaticano não tem emenda. Usa e abusa do santo nome de Deus. Como se Deus estivesse ali no bolso dos cardeais e demais eclesiásticos que por lá se passeiam, sempre pronto a canonizar as suas decisões. Não está. Muito menos, está disponível para canonizar as suas decisões, geralmente, desumanas e discriminatórias, sobretudo, quando elas têm em vista as mulheres católicas.
Foi o que aconteceu com as primeiras sete mulheres ordenadas presbíteras, à revelia da Cúria do Vaticano, mas não à revelia da Igreja, já que a ordenação foi presidida por dois bispos, cujos nomes são mantidos em segredo, pelo menos, por enquanto.
Em lugar de se deixar interpelar pelo acontecimento e ver nele um sinal do Espírito de Deus que em Jesus de Nazaré se nos revelou como um Deus que não faz acepção de pessoas, seja qual for o seu sexo ou tendência sexual, os homens da Congregação para a Doutrina da Fé (quatorze cardeais e dois bispos) caíram sobre as sete mulheres com o castigo máximo eclesiástico para estes "crimes", a saber, a excomunhão.
As sete presbíteras, porém, em lugar de correrem a Roma a pedir perdão, reagiram em bloco com o cúmulo da dignidade humana que a Fé cristã jesuánica sempre fomenta, lá onde tiver despertado, por pura graça. Ao Decreto de excomunhão da Cúria do Vaticano, responderam sem papas na língua e com firmeza teológica: "Vemo-nos chamadas a transgredir a lei/doutrina discriminatória contra as mulheres (cânon 1024), porque ela não vem de Deus. Foi imposta por homens às mulheres dentro da Igreja". Assim mesmo! E, logo a seguir, socorrem-se ainda do lúcido e audaz exemplo da primitiva Igreja de Jerusalém, concretamente, dos apóstolos Pedro e João, quando ostensivamente desobedeceram aos chefes religiosos do Judaísmo, e dizem com eles: "Devemos obedecer a Deus, antes que aos homens" (Actos 4, 19-20).
São estes os nomes das sete mulheres ordenadas presbíteras, que ficarão como semente duma Igreja católica outra, já sem a Cúria do Vaticano e sem o Estado do Vaticano, e também sem os cardeais (onde é que no exemplo de Jesus se pode fundamentar a existência destes funcionários eclesiásticos-mor?). Fixemo-los, porque são nomes de mulheres assinaladas pelo Espírito Santo para fazerem novas todas as coisas, a começar pela própria Igreja católica: Ida Raming, dra. em teologia; Iris Müller, dra. em teologia; Gisela Forster, dra. em filosofia; Adelinde Roitinger; Dagmar Celeste; e Pia Brummer.
O decreto de excomunhão foi assinado em Dezembro de 2002. Em Janeiro de 2003, foi comunicado à porta-voz do grupo. O caso deveria ter suscitado grande debate no interior da nossa Igreja. Não suscitou. Infelizmente, não há na nossa Igreja o salutar costume do debate. Roma pode fazer o que muito bem entender, que ninguém se importa por aí além.
Este caso vem dizer que o Vaticano não tem emenda. Primeiro, na pessoa do Papa João Paulo II, faz publicar uma doutrina em que se declara, para todo o sempre, que "a Igreja não pode ordenar mulheres". Depois, espera que toda a gente acate esta decisão, sem se interrogar se ela está conforme ao Deus de Jesus. Estas sete mulheres não acataram e ousaram aceitar ser ordenadas presbíteras. O papa excomungou-as. Excomungou-as?! Ou excomungou-se?!
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Uniões homossexuais
A crueldade do Vaticano
É por demais conhecida a crueldade da generalidade dos cardeais que estão à frente das diversas Congregações da Cúria do Vaticano, a começar pelo cardeal Ratzinger que preside à Congregação para a Doutrina da Fé. Por isso, já quase nem estranhamos o tom das "Considerações sobre projectos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais", de Agosto passado.
O documento tem a marca pessoal do cardeal Ratzinger, o mesmo que, em nome de certa ortodoxia, não se importa de excomungar alguns dos melhores teólogos e biblistas da actualidade, só porque eles, felizmente, não dizem amen com ele. Mas - gravidade das gravidades! - o documento foi também aprovado sem reservas pelo Papa. Pelo que a crueldade do cardeal Ratzinger passa a ser também a crueldade do próprio Papa!...
Vê-se, assim, que nem a idade avançada em que se encontra, nem as doenças de que padece têm tornado o Papa mais humano e mais misericordioso. Com mágoa o reconhecemos. Gostaríamos tanto que ele, entre nós, fosse o discípulo mais fiel de Jesus, esse mesmo que carregou com as nossas dores e compartilhou a mesa com publicanos e pecadores, prostitutas incluídas... Mas, pelos vistos, ele prefere ser cruel como os antigos deuses e deusas do Paganismo do Império romano, dos quais faz questão de continuar a ser o sumo pontífice/imperador, em vez de ser o servo dos servos de todos os humanos, seja qual for a sua orientação sexual.
É preciso que a Igreja, como tal, se levante contra estas "Considerações" da Cúria do Vaticano. Quando o Papa não é capaz de reconhecer aos homossexuais e às lésbicas os mesmos direitos que diz reconhecer aos heterossexuais, como pode estar nele o Espírito de Deus Pai/Mãe de todos os seres humanos? Ou será que para o Papa os homossexuais e as lésbicas não são seres humanos?
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Resoluções do 2.º Sínodo Europeu de Mulheres
Assumimos o processo de mudança em vez de lhe resistirmos
De 5 a 10 de Agosto último, reuniu em Barcelona o 2.º Sínodo Europeu de Mulheres. Estiveram mais de 700 mulheres da Europa e de todo o mundo. Sem qualquer discriminação. Todas irmanadas na luta contra a exclusão de que continuam a ser vítimas. E dispostas a derrubar o sistema que as oprime, empobrece e deixa ficar à margem. Dispostas também a transformar o mundo, para que ele seja a casa comum que está chamado a ser. Jornal Fraternizar não pôde estar prsente, mas teve acesso às resoluções aprovadas e assumidas por todas. E aqui as partilha integralmente. Eis.
Preâmbulo
Nós, mais de 700 mulheres, provenientes de toda a Europa e do mundo: Este e Oeste, Sul e Norte, negras, brancas, de diferentes etnias, origens sociais, orientação sexual, fé religiosa, diferentes idades, capacidades, meios económicos, reunidas em Barcelona, de 5 a 10 de Agosto de 2003, para o 2.º Sínodo Europeu de Mulheres, com o tema Ousarmos avançar na diversidade (compartilhar culturas), dirigimo-nos a nós mesmas e às nossas respectivas instituições sociais, políticas, religiosas e a todas as pessoas de boa vontade, para exprimir as nossas preocupações, desejos e compromissos, a fim de se continuar a construir a Europa que desejamos.
Nós, as europeias, estamos a reinventar, a redefinir e a renogociar a nossa identidade individual e colectiva como identidade aberta, na emergência de um tipo de individualismo altruísta ou colectivo.
Esta situação está ensombrada pelo risco constante e pela incerteza. Embora, com frequência, pareça não haver caminhos para a negociação no meio do risco em que vivemos (desemprego, violência, desequilíbrio ecológico, conflitos bélicos, discriminação, corrupção, medos, inseguranças...), buscamos alternativas à actual situação.
Padecemos diversos tipos de violência (sobrecarga de identidade: de género, etnia, orientação sexual, religião...; económica, social, política, académica, sexual...), geradora de sofrimento e indignação.
Posto que não queremos sentir-nos vítimas nunca mais, decidimos transformar os nossos medos e as nossas indignações em pensamento e acções criativas.
Nós, as mulheres participamos activamente nos processos de mudança da Europa. Como parte da sua diversidade e enquanto individualidades colectivas, procuramos criar uma alternativa ao poder estabelecido e ao catastrofismo.
Assumimos o processo de mudança, trabalhando com ele em vez de lhe resistirmos.
Temos que forjar uma nova linguagem para descrever o que está a suceder. Impulsionamos a emergência de novos parâmetros políticos europeus.
Ratificamos a resolução do 1.º Sínodo Europeu de Mulheres, com o lema As mulheres mudam a Europa, que agora queremos continuar a desenvolver.
RESOLUÇÕES
I. Âmbito social e económico
Os princípios do neoliberalismo impõem-se em todas as esferas da vida. Os objectivos lucrativos do crescimento económico ameaçam destruir os fundamentos da nossa existência, prejudicam a terra, multiplicam a miséria, e incrementam o número de empobrecidas e empobrecidos e de excluídas e excluídos. Nós, as mulheres, somos as mais afectadas por este processo.
Comprometemo-nos a:
* mudar o sistema dominante de livre mercado por um sistema económico justo e sustentável;
* lutar por uma maior qualidade de vida, liberdade e segurança económica para todas as mulheres, que torne viável uma distribuição equitativa da riqueza e que esteja em equilíbrio com os recursos naturais;
* promover políticas públicas que conciliem a vida familiar e e pessoal das mulheres com o trabalho;
* usar responsavelmente os recursos da terra e pedir aos poderes públicos que escolham as opções mais ecológicas no seu funcionamento;
* exigir políticas migratórias que proporcionem às mulheres melhores condições de vida e maior participação democrática;
II. Âmbito político
As instituições políticas exercem sistematicamente diferentes formas de violência e discriminação contra as mulheres.
Nós entendemos a política como a arte do consenso construído mediante o diálogo na diversidade de interesses. Um diálogo que chegue a transformar o nosso comportamento quotidiano e o das nossas comunidades. Este tempo de caos e de risco exige-nos reinventar tantas políticas quantas as respostas novas que precisemos.
Comprometemo-nos a:
* desenvolver um sistema democrático sobre valores que garantam a participação real das mulheres;
* denunciar reiteradamente toda a discriminação e violência contra nós no âmbito jurídico, político, sexual, educativo, religioso..., especialmente, o tráfico de mulheres e os maus tratos;
* apoiar os métodos não-violentos para a resolução de conflitos: construir a paz e prevenir as guerras;
*denunciar o fundamentalismo religioso e político;
*animar e apoiar criticamente a liderança política das mulheres;
* construir sociedades abertas à diversidade cultural e religiosa;
* trabalhar pela mudança das estruturas homofóbicas e heterossexistas nas sociedades, nas instituições religiosas e nos meios de comunicação;
* reforçar as acções contra a discriminação de lésbicas e de uniões do mesmo sexo na legislação e nas instituições;
* tomar consciencia da prevalência e dos efeitos do racismo na política, na economia, na cultura. Admitimos o fracasso colectivo que supõe a sua manutenção e comprometemo-nos a trabalhar para encontrar novas formas para lutar contra ele.
III. Desenvolvimento pessoal e identidade
Estamos conscientes de que para descobrir as nossas identidades individuais e crescer como mulheres, devemos desenvolver e fortalecer a nossa auto-estima, confiar nas nossas experiências, e tomar as nossas próprias decisões.
Comprometemo-nos a:
* continuar a desenvolver as redes de mulheres que nos ajudam na nossa vida pessoal, relacional, laboral, valorizando especialmente a solidariedade;
* compartilhar através destas redes as nossas experiências e, apoiadas naquelas que nos precederam, transmiti-las às novas gerações;
* pedir às instituições políticas e educativas e às igrejas que adoptem a perspectiva de género;
* exigir às instituições políticas e educativas, às igrejas e aos meios de comunicação, uma mudança de estruturas que visibilizem as mulheres e as integrem nos processos de controlo e tomada de decisões.
IV. Espiritualidade
As aqui presentes consideramos que a espiritualidade é central nas nossas vidas, uma espiritualidade diferente na sua origem e expressão e conectada com a nossa forma de experimentar a vida como mulheres.
Comprometemo-nos a:
* explorar e compartilhar em rede interesses e necessidades espirituais;
* acompanhar-nos e apoiar-nos mutuamente no desenvolvimento da autoconsciência e da reflexão;
* animar as mulheres das religiões tradicionais a utilizar aquilo que lhes seja útil e a abandonar quanto lhes seja opressivo. Pensar por nós próprias com consciência crítica e desafiar qualquer tendência de fundamentalismo religioso;
* denunciar todas as formas de abuso e, particularmente, os abusos sexuais nas nossas comunidades de fé, e pedir apoio e compensação para as afectadas;
* celebrar e viver a nossa espiritualidade em comunidades inclusivas e abertas;
* exigir às religiões/igrejas:
- formas alternativas de culto;
- a utilização duma linguagem inclusiva, também para a divindade;
- que aceitem e acolham em vez de culpar e condenar;
- que permitam às mulheres aceder a todos os miniestérios.
Não nos daremos por vencidas, porque por toda a parte se escuta o desejo das mulheres de mudar e de transformar o mundo.
Barcelona, 10 Agosto 2003
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Jornal Fraternizar tem todo o gosto em partilhar consigo mais uns versos escutados pelo pe. Mário, durante uns dias de férias na Póvoa do Varzim. São para cantar com aquela música dos Açores bem conhecida em todo o país. Acolha este Evangelho. E viva-o!
Globalização
Refrão
Ponha aqui o seu pezinho
devagar devagarinho
no jeito duma escritura
vamos juntos trabalhar
novo mundo edificar
de Partilha e de Ternura
1 Muitos pais e muitas mães
acumulam os seus bens
para os deixar em herança
pensam que a felicidade
se faz sem fraternidade
longe de toda a mudança
Os pais/mães que eu mais gosto
aqueles em quem aposto
para um Amanhã melhor
são os que “puxam” pelos filhos
p’ra que vivam nos sarilhos
um Amor sempre maior
2 Ai dos ricos diz Jesus
os seus luxos são a cruz
do Povo crucificado
maldita a sua riqueza
fruto de tanta pobreza
e tanto Povo roubado
Os pobres sempre terão
um lugar no coração
do nosso Deus Criador
ao lutarem pelo Pão
mudam este mundo-cão
num mundo de mais amor
3 De que vale a riqueza
se não põe termo à pobreza
num mundo tão dividido?
Se ela casa co’a ternura
promove a Paz e Cultura
liberta o Povo oprimido
Se teus filhos/tuas filhas
forem mais que simples ilhas
num mundo em transformação
p’ra servir são os primeiros
dos pobres são companheiros
casam co’a Revolução
4 Cada terra com seu templo
difunde a todo o momento
ópio e resignação
um Barracão de Cultura
há-de ser a estrutura
que produz libertação
Com Política de esquerda
és um Povo que não verga
às ordens do deus-Dinheiro
e ao seu sistema de morte
que nos tem traçado a sorte
liquidarás por inteiro
5 Da terra e não do céu
foi o que Deus mais pediu
- Ocupem-se sem demora!
mas logo a Religião
ditou sua perversão
- Busquem Deus a toda a hora!
Se quisermos ser de Deus
temos que deixar os Céus
ocuparmo-nos da Terra
viver uma Economia
sem laivos de idolatria
e que afogue toda a guerra
6 É de Fátima a Senhora
que sem dó tanto explora
os povos mais oprimidos
mas que Deusa mais cruel
toda branca toda fel
engodo de deprimidos
E a quem insiste em dizer
que a Senhora tem a ver
com Maria a de Jesus
não hesito em afirmar
que é mentira esse falar
um pecado contra a Luz
7 É por isso que este Papa
fatimista que se farta
ao esta Deusa adorar
peca contra a Fé cristã
faz notória acção pagã
que urge aqui denunciar
Nosso Deus é Pai e Mãe
é Amor e é também
Liberdade e Salvação
quem então fora de Deus
presta culto à “Mãe dos Céus”
continua a ser pagão
8 Um mundo de analfabetos
governado por espertos
não é casa é prisão
um Povo que estudo e lê
fica culto já se vê
faz do mundeo uma mansão
Quem estuda e trabalha
faz a vida avançar
no Ser e na Qualidade
respira Sabedoria
veste Paz e Alegria
é presença de Humildade
9 Quando a Sabedoria
decidiu naquele dia
vir viver no nosso meio
escolheu uma Mulher
recusou todo o Poder
fez-se Jesus no seu seio
Desde então a Humanidade
avança p’rá Liberdade
se cresce em Sabedoria
- Venham sábios e poetas
avôs meninos e netas
dêem corpo à Utopia!
10 Após tantas gerações
governados por canhões
entre em cena a Poesia!
O Princípio Masculino
dê lugar ao Feminino
promotor de autonomia
Digna de memória eterna
é Maria Madalena
a Mulher da Liberdade
pois viu no Ressuscitado
o Feminino Humanado
fonte de Graça e Verdade
11 Com Jesus Ressuscitado
o Feminino Humanado
nunca mais temos parança
somos Nova Criatura
enxertados na Ternura
do Deus que connosco dança
E é assim que chegaremos
custe mais ou custe menos
a um Mundo-Comunhão
a riqueza produzida
será toda repartida
é a Globalização!
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© Página criada 2 Outubro de 2003
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