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Textos do
Jornal Fraternizar- |
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| Edição nº 150, de Julho/Setembro 2003 (Continuação) | ||||||||||||||||||||
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Igreja / Sociedade Juan José Tamayo-Acosta (teólogo espanhol) |
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| Perguntas de um monge ao Papa Eucaristia: comunhão ou acto de exclusão? Caro irmão João Paulo II A sua carta sobre a eucaristia está provocando questionamentos em mim e em muitos cristãos. Por isso, tomo a liberdade de comentar como a compreendi e faço-lhe algumas perguntas. Em primeiro lugar, quero agradecer e valorizar o seu testemunho de fé e de amor ao ministério. É bom saber como o senhor interpreta a fé e a missão da Igreja. É baseado neste mesmo amor que tentarei resumir alguns pontos sobre os quais gostaria de conversar com o senhor: 1. A Igreja vive da Eucaristia ou do amor solidário ao povo? “A Eucaristia é o próprio núcleo do mistério da Igreja” (n. 1). Isso é verdade no plano dos sinais. Os sacramentos são sinais eficazes que contêm aquilo que eles sinalizam, mas não deixam de ser sinais. Será que esta carta não confunde o sinal com a realidade? Dizer que a eucaristia é o núcleo do mistério da Igreja não é como afirmar que o eixo do amor entre duas pessoas é o carinho corporal? O núcleo do mistério da Igreja é a eucaristia, ou é a solidariedade, tradução do termo grego ágape? Não é mais correcto dizer que a Igreja vive do amor solidário, serviço e testemunho ao Reino de Deus e isso se expressa como sinal na eucaristia e nos outros sacramentos? A carta dedica um número (20) à relação entre a eucaristia e “a responsabilidade pela terra presente”. Diz que, no 4º Evangelho, o relato do lava-pés “ilustra o profundo significado do sacramento”. Lembra que Paulo chama de “indigna” à comunhão de uma comunidade que participe da Ceia em contexto de discórdia e de indiferença pelos pobres (Cf. 1 Cor 11). Entretanto, só toca nesta relação entre eucaristia e justiça no final do capítulo 1, como se fosse consequência da eucaristia e não o seu pressuposto fundamental. O que isso denota como visão de Igreja e da fé? 2. A Missa, sacrifício a que Deus? Na carta, o senhor cita várias vezes o Concílio Vaticano II e alguns documentos do magistério romano recente, mas a doutrina ali expressa sobre a eucaristia é a do Concílio de Trento no século XVI, que o senhor julga ser actual e propõe como referência dogmática para a Igreja toda (n. 9). Como o senhor está a par de todo o trabalho teológico que, nos últimos séculos, tem sido elaborado sobre a eucaristia, deduzo que o senhor, simplesmente, não acha importante esta evolução. Ao contrário, até na linguagem, recua em relação ao Vaticano II. Fala do “santo sacrifício da Missa” e não da Ceia do Senhor, como chama os ministros de sacerdotes e não de presbíteros. A teologia é clara: “A missão torna presente o sacrifício da cruz. Não o repete, nem o multiplica. O que se repete é a celebração memorial” (n 12). Se é assim, será que, hoje, a linguagem sacrificial ainda é a mais adequada para expressar a verdade do memorial? Não está presa a uma cultura, presente no Novo Testamento, ligada ao judaísmo da época e a outras religiões? Como, hoje, falar de Deus Amor se trata de um Pai que precisa que o Filho morra para reconciliar-se com a humanidade? Será que a fé não é mais ampla do que a explicação da fé em conceitos teológicos, sempre ligados a uma cultura determinada? Por que impor a todos uma interpretação da fé como se fosse a própria fé, principalmente quando esta forma de falar da eucaristia já não diz nada a muitos católicos e nos divide dos irmãos de outras Igrejas que, no passado, já foram por isso condenados? Não seria mais de acordo com a fé na eucaristia, seguir o conselho do papa João XXIII e afirmar a fé de um modo que una os irmãos e não nos divida? 3. Celebração eucarística dominical e celibato O senhor insiste em que a eucaristia é essencial e depende do sacerdote ordenado que a celebra. Repete que as comunidades não podem celebrá-la sem o padre e que os cultos dominicais sem padre não substituem a eucaristia. No Brasil, são milhares de comunidades católicas que, cada domingo, não têm padre e fazem o culto da Palavra. O senhor sabe por que todas estas comunidades não têm padre e por quê algumas só recebem visita de um padre duas vezes por ano. É porque o senhor não aceita abrir mão do celibato obrigatório e ordenar como presbíteros homens casados, dignos e preparados para o ministério. E não reconhece a validade do ministério de padres que casaram e, com alegria, aceitariam exercer o ministério. Sem falar que, na América Latina, a Igreja Católica é a única das Igrejas ocidentais históricas que não aceita ordenar mulheres. O que para o senhor é mais importante: a eucaristia dominical, como o senhor ensina na encíclica, ou manter como lei obrigatória o costume latino do celibato obrigatório? 4. Ceia de inclusão e de amor O senhor liga a eucaristia à pessoa de Jesus para afirmar o seu “sacrifício”, mas não faz referência à sua vida concreta. Não lembra como ele comeu com pecadores e com gente de má vida. Ele fez de suas refeições, sinais de inclusão e de profecia do Reino de Deus que acolhe a todos, especialmente os mais deserdados e excluídos. Por causa da noção de sacerdócio que a nossa Igreja desenvolveu, o senhor repete o que já aparecia na declaração Dominus Jesus e distingue os cristãos uns dos outros. Só reconhece como “Igrejas” as ortodoxas e chama as Igrejas evangélicas de “comunidades eclesiais”. E proíbe que católicos comunguem em celebrações eucarísticas destas igrejas “para não dar aval a ambiguidades sobre algumas verdades da fé” (n. 44). O que esta noção de Igreja tem a ver com a eclesiologia do Concilio Vaticano II? Como continuar o caminho ecuménico com mais este recuo? Por que desconhecer e claramente desprezar os acordos ecuménicos já feitos entre algumas Igrejas? O Documento de Lima sobre baptismo, eucaristia e ministério (1983) é ignorado. O acordo com a Igreja Luterana sobre a justificação é praticamente passado para trás. Porquê? O que é mais importante a clareza intelectual ou a caridade e o testemunho do amor? Será que “a clareza sobre algumas verdades da fé” é mais importante do que a acolhida mútua e a unidade real vivida por cristãos que pensam diferente mas celebram com grande respeito e carinho o memorial do Senhor, neste contexto de um mundo dividido e no qual as religiões representam forças de oposição e não de unidade? 5. Pergunta final Formado na teologia e espiritualidade do Concílio Vaticano II, reconheço o senhor como bispo de Roma e primaz da unidade entre as Igrejas, mas não como um super-bispo ou definidor da fé das pessoas. Aceito o primado do papa como ministério querido por Deus, mas isso não inclui a nomeação dos bispos, nem a definição de um direito universal, ou um catecismo de doutrinas que todos os católicos do mundo devam crer. Por que impor a todas as Igrejas um modelo único de ministérios e uma única liturgia: a romana? Não estaria mais de acordo com a verdade da eucaristia promover a vida e a liberdade de todos? Seria o testemunho: cremos que, assim como as muitas espigas formam um só pão, Deus faz da diversidade das Igrejas e da variedade das celebrações, a unidade de uma só comunhão. Deixo ao senhor e aos irmãos que lerem estas linhas estas perguntas e fico orando por nossa Igreja para que seja como afirmaram, um dia, os bispos da América Latina: “uma Igreja autenticamente pobre, missionária e pascal, desligada de todo o poder temporal e corajosamente comprometida na libertação de todo o ser humano e de toda a humanidade” (Medellin. 5, 15 a). O irmão Marcelo Barros (Brasil). |
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| Pe. Mário entrevistado por jornalista do JN O Evangelho faz algum sentido no meio de tanta iniquidade? "O Evangelho faz algum sentido no meio de tanta iniquidade?" Esta é uma das muitas perguntas que o jornalista José Reis, do JN formulou ao Pe. Mário, alguns dias depois da saída do seu penúltimo livro "E Deus disse: Do que eu gosto é de política, não de religião". É essa entrevista que o Jornal Fraternizar aqui reproduz integralmente. Para que melhor se conheça o perfil humano e eclesial do seu director que recusa ser uma espécie de "frango de aviário". 1) Para quem já pagou na prisão os “excessos” da fraternidade e da liberdade, entre a palavra da insurreição contra a prepotência e a ditadura e a palavra da boa-nova que distância vai? R. Praticamente nenhuma. A palavra da insurreição contra a prepotência e a ditadura já é palavra Boa Notícia, já é Palavra de Deus, do Deus que está historicamente empenhado em criar mulheres e homens criadores, radicalmente iguais, livres e fraternos/sororais. Há sempre Boa Notícia, lá onde houver libertação. 2) Sempre foste solidário, mas o que te leva a comover tão profundamente com o que se passa em teu redor? R. A existência de vítimas humanas, com os seus gritantes silêncios, os seus interpeladores olhares, a sua total impotência para mudarem o rumo à História. Misteriosamente, a fraqueza das vítimas é a minha força. Frente a elas, experimento rebentar cá dentro a força da ressurreição/insurreição. E não lhe resisto. 3) Faz algum sentido falar de paz? De qual? E de (que) justiça? E de (que) liberdade? R. Faz. Mas faz ainda mais sentido viver e fazer a paz. Qual paz? Não, evidentemente, a paz dos impérios. Nem a paz dos cemitérios. Apenas a paz que anda casada com a justiça e a liberdade. E por isso se alimenta de mesas fartas para todos os povos. De sabores e de saberes. E também de afectos, de muitos afectos, que combatem como quem respira por uma Nova Ordem Económica e Política mundial. 4) O bem e o mal: quem é quem, neste cada vez mais americano e miserável mundo em que vivemos? De que criatividade se poderá falar? R. O bem e o mal atravessam o interior de todas as pessoas e de todos os povos. Todos somos, ao mesmo tempo, “demens” e “sapiens”. Mas há também e sobretudo o mal sistémico (“pecado do mundo”, chama-lhe o Evangelho) contra o qual todos - mulheres, homens e povos - havemos de nos erguer. Foi contra este mal sistémico que Jesus de Nazaré se ergueu. E não só. Também o enfrentou, armado apenas com a força da verdade, na pessoa dos seus mediadores/chefes concretos daquele então. Perdeu a vida neste combate. Mas foi assim que a ganhou para sempre. É ele o meu Mestre, o meu Guia e o meu Caminho. 5) O Evangelho faz algum sentido no meio de tanta iniquidade? R. Faz todo o sentido. Tal como a luz que é tanto mais oportuna quanto maior é a escuridão. O Evangelho é essencialmente a PRÁTICA libertadora de Jesus. É o anti-mal e a anti-iniquidade em acção. E se hoje o nosso mundo ainda tem algum sentido é graças à existência de inúmeras mulheres e de inúmeros homens, mesmo ateus e agnósticos, que prosseguem nas suas vidas a mesma prática libertadora de Jesus. 6) A presença de Deus é visível no meio dos homens ou é preciso esgaravatar à procura dela na fímbria da realidade, no domínio das divagações? Para que serve a fé? Em que é que ela enriquece a intervenção humana? R. A Deus nunca ninguém o viu, nem verá. Nem Jesus de Nazaré viu Deus. E, no entanto, todas e todos podemos ver Deus em Jesus de Nazaré. Tudo o que conhecemos de Deus veio-nos por Jesus, o Cristo. Nele e por ele, ficamos a saber que Deus não está longe, mas é a Companheira / o Companheiro mais íntimo a nós do que nós próprios. A Fé é a relação consciente com o Deus-que-nos-habita-e-transporta, não para O temermos e irmos a correr prestar-lhe culto nos templos, mas simplesmente para o deixarmos ser Deus em nós. Tal como Jesus deixou. Quando isso acontece, tornamo-nos também outros Cristo. E tudo o que somos e fazemos sai com força libertadora e integradora. 7) Aos oprimidos, para além do direito (e do dever) de se revoltarem e de se libertarem, o que lhes resta? R. Aos oprimidos resta o dever de se unirem, porque ninguém se liberta sozinho. Libertamo-nos em comunhão. A revolta dos oprimidos é estéril. A sua violência despojada de um projecto alternativo de sociedade e de ser humano também não leva a lado nenhum. Os oprimidos têm que ousar deixar a religião-ópio do povo e assumir a política como acção libertadora e transformadora do mundo. Têm que recusar o degradante papel de assistidos, com que os poderes os tratam, para assumirem o nobre papel de sujeitos e de protagonistas que dão corpo nos seus próprios corpos à Utopia de um mundo outro. 8) Mário de Oliveira quem é? E o padre Mário de Oliveira (que alguns olham de viés, como um bicho estranho)? São eles o mesmo? R. O homem que sou está inteiro no padre/presbítero que um dia passei também a ser. Ser padre/presbítero é a minha saudável maneira de ser homem-para-os-demais, numa comunhão sem reservas e sem tabus. 9) Visitemos ainda que de relance (o tempo da página não dá para mais) - e se o permitires - a tua infância: brincavas às missas, às confissões? Ou é outra a história da tua vocação? Já então vivias com tanta intensidade? Até onde chegam as reminiscências dessa tua inclinação? Lembras-te? R. Em criança, comecei por ajudar à missa, ainda em latim, e também por brincar às missas. Depois, quando, pelos 13 anos de idade, entrei no seminário, comecei a dizer para mim mesmo que queria ser padre, mas para ser diferente dos padres que conhecia. Ser padre nunca foi para mim um privilégio. É um compromisso com toda a Humanidade, a começar pela mais empobrecida e oprimida. Depressa me despojei do clérigo que o seminário formou e me tornei companheiro, amigo e irmão de todas e de todos. Talvez por isso o altar e o templo deixaram de existir para mim. Em seu lugar, está a mesa e estão as “más companhias” com quem me encontro e converso, como e bebo, sonho e combato. 10) Olho para ti com 66 anos e estou a ver um adolescente em efervescência, cheio de luz - como dizer? - a luz da insurreição. Uma insurreição a tempo inteiro pela vida adiante. Assim tem sido ou estou enganado? Ainda é esse, hoje, o teu olhar? R. Adolescente, não direi. Menino, sim. Sou assim como um menino. E quero continuar a ser. Quanto mais entrado em anos, mais menino. Os grandes são demasiado sisudos. O poder entristece. E desumaniza. Faz opressores que, por sua vez, fazem vítimas aos milhões. Nunca fui nem irei por aí. Prefiro ser assim como um menino: irreverente, dissidente, atrevido, carregado de futuro, sem bolsa nem alforge. 11) Há algum conflito sério entre a (tua) insubordinação interior e o mundo do servilismo que nos rodeia, dominado, em geral, pelas leis do mercado e do consumo, um mundo de sobrevivência? |
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Depois do campo, o Barracão de Cultura |
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| Crescemos na fé cristã, se crescemos em liberdade A Comunidade Cristã das Quartas-Feiras que reúne em S. Pedro da Cova, na casa-sede da Associação Padre Maximino, acaba de viver uma experiência interna que se revelou edificante e salutar para os seus membros e que, ao ser agora aqui singelamente partilhada, pode estimular outros e outras a crescerem também em liberdade e em responsabilidade individual e comunitária, pelo menos, tanto quanto nós crescemos. Este é um tipo de crescimento que decorre impreterivelmente da presença actuante da Fé cristã, rectamente entendida e vivida por nós e que, só por si, bastará para colocar as comunidades cristãs praticamente nos antípodas das religiões, uma vez que estas, onde estiverem actuantes, fomentam o medo e o infantilismo individual e colectivo, bem como a mais completa dependência e subserviência em relação aos respectivos líderes, chamem-se sacerdotes ou pastores, gurus ou outra designação qualquer. Esta nossa salutar experiência teve a ver com a leitura/escuta da 1.ª Carta de S. Paulo aos Coríntios. Pela primeira vez, a comunidade decidiu ler/escutar esta carta como escrita e dirigida a si. Por isso, leu-a na íntegra. Não num único encontro, mas em vários, dois, três ou mesmo quatro capítulos por encontro (são 16, no total), devidamente dialogados e comentados, um de cada vez. Previamente, recordámos o contexto da cidade de Corinto de então. E vimo-nos muito iguais àqueles cristãos e àquelas cristãs, numericamente reduzidos, quase perdidos no meio duma grande cidade constituída por muitos milhares de pessoas de múltiplas culturas, línguas e cultos religiosos, todos idolátricos quanto baste. No final desta experiência, é manifesta a alegria em todas e todos nós. Vemo-nos ainda mais confirmados na via Comunidade cristã de base, verdadeira alternativa ao despersonalizante modelo paroquial de Igreja, pelo qual todos nós já passamos, e donde nos afastámos, uns definitivamente, outros ainda nem tanto, mas todos cada vez mais convictos da verdade desta via. Apesar de todos sermos já maduros em anos, alguns até já no estatuto de séniores, a verdade é que quase todos nunca tinham lido nem ouvido ler esta Carta do apóstolo Paulo. Tantos anos a frequentar a missa ao domingo e dias santos de guarda e nunca deu para folhear a Bíblia, nem os livros da Bíblia hebraica ou Primeiro Testamento, nem o Segundo Testamento, feito de Evangelhos, Cartas e o Apocalipse!... O modelo paroquial de Igreja surge assim aos nossos olhos de membros da comunidade cristã de base, como um modelo desgraçado e preguiçoso de Igreja. Tudo nele é rotina e rito. Tudo é mais do mesmo, uma espécie de eterno retorno, feito de missas em série, bem pagas pelos "clientes" que são propositadamente mantidos na ignorância e no medo do inferno ou do purgatório tudo invenção de clérigos frustrados e oportunistas e de cuja suposta condenação todos querem ver livres os seus familiares já falecidos e, por isso, ingenuamente se dispõem a pagar o que é arbitrariamente exigido pelo sacerdote-intermediário. O espantoso é que não há um pároco ou um bispo, nem um sequer, que, bem na linha do apóstolo Paulo, se atreva a dizer a verdade que liberta, às pessoas que ainda insistem em frequentar os seus cultos e os seus serviços religiosos, nomeadamente, a missa à semana e ao domingo, como se esses cultos e serviços fossem indispensáveis para a salvação de vivos e, sobretudo, de defuntos, mesmo daqueles que, em vida, até nem quiseram saber desses cultos e serviços para nada, mas que, depois de morrerem, a família faz questão de pagar para que lhes sejam regularmente aplicados (só mesmo a crassa ignorância teológica e um medo de séculos que ainda permanece no inconsciente de tantas pessoas podem continuar a alimentar tão rendoso negócio clerical católico, um verdadeiro sacrilégio). A Carta de Paulo fez-nos entrar na intimidade da comunidade cristã de Corinto, uma verdadeira comunidade de base avant la lêtre, muito semelhante à nossa, de S. Pedro da Cova. É notório que já então a reunião da Comunidade acontecia, não num templo, mas na casa de um dos membros, provavelmente o casal que presidia e animava cada encontro. A cidade na altura estava povoada de templos, como as nossas velhas cidades hoje, mas apenas para os cultos dos ídolos, por sinal, bastante semelhantes aos da senhora/deusa de Fátima ou de S. Bentinho da Porta Aberta, dos nossos dias. Desses templos, todos os membros da comunidade cristã de Corinto haviam saído, como nós, aqui, na Comunidade de base de S. Pedro da Cova, já saímos do templo paroquial, ou estamos em vias de sair (não, não mudamos de Igreja, apenas de modelo, dentro da mesma Igreja de Jesus), depois que escutaram/acolheram o Evangelho de Deus anunciado por Paulo e passaram da religião para a Fé cristã jesuánica, ou, por outras palavras, da idolatria para a liberdade e responsabilidade. Muitos dos seus familiares ainda por lá permaneciam, o que trazia problemas de comportamento no dia a dia, inclusive, ao nível do casal, quando um dos cônjuges se havia libertado dos ídolos e o outro permanecia de pedra e cal na idolatria. Curiosamente, este foi até um dos problemas da comunidade de Corinto sobre os quais Paulo foi consultado e teve que se pronunciar. Edificou-nos sobremaneira a postura do apóstolo e a sua liberdade, relativamente a estes problemas do dia a dia dos membros da comunidade cristã de Corinto, uma postura tão nos antípodas da que hoje têm os nossos bispos e a generalidade dos nossos padres/presbíteros que mais parecem súbditos e vassalos do poder da Cúria romana e do Código de Direito Canónico, e não seres humanos libertos para a liberdade e responsabilidade. Todos eles são certamente muito católicos, sobretudo, muito romanos, mas não são nada cristãos. Seguem mais o papa e os cardeais da Cúria e os homens fortes do Opus Dei que estão lá infiltrados em tudo quanto é centro de decisão eclesiástica, do que Jesus de Nazaré, o Cristo crucificado/ressuscitado. E, embora falem habitualmente no Espírito Santo, a verdade é que o amordaçam todos os dias, por mais festas de Pentecostes que ritualmente celebrem cada ano (acabam de celebrar mais uma. E que aconteceu para lá do ritual? Alguém sabe?) Constatamos que Paulo levou tão longe a sua liberdade e responsabilidade pessoal, para a qual Cristo o havia libertado, que, a esse propósito, não hesitou em determinar que a comunidade cristã de Corinto aceitasse desfazer os matrimónios consumados, quando um dos cônjuges, pelo facto de se ter tornado membro da comunidade cristã, passasse a ter graves problemas de convivência familiar e conjugal em sua casa, por parte do outro cônjuge que permanecia nos cultos dos ídolos, ou idolatria. É verdade que a separação não seria automática, nem imposta à força. Não há aqui nenhum laivo de sectarismo ou de fanatismo, por parte dos membros da comunidade cristã. Pelo contrário, Paulo até reconhece que os membros da comunidade cristã podem ser ocasião de edificação para o respectivo cônjuge. Mas, se em vez disso, há distúrbios e quesílias, discussões e generalizado mau viver, provocados pelo cônjuge não-cristão, então que se se separem. Esta prática é tão diferente do que tem sido, em todos estes séculos passados, a prática católica romana, que não resistimos a transcrever o extracto como boa notícia. Mas ela mais não é do que uma postura decorrente do facto da Fé cristã nos fazer crescer em liberdade e em responsabilidade. Vejam: “Se algum irmão tem uma esposa não crente e esta consente em habitar com ele, não a repudie. E, se alguma mulher tem um marido não crente e este consente em habitar com ela, não o repudie. Pois o marido não crente é santificado pela mulher, e a mulher não crente é santificada pelo marido; de outro modo, os vossos filhos seriam impuros, quando na realidade são santos. Mas se o não crente quiser separar-se, que se separe, porque em tais circunstâncias nem o irmão nem a irmã estão vinculados. Deus chamou-vos para viverdes em paz” (7, 12-15). O mais impressionante é a razão que Paulo invoca para justificar comportamento tão livre e tão responsável, por parte dos cristãos e das cristãs, inclusive, nestas questões do matrimónio, ainda hoje tido sempre como indissolúvel pela hierarquia católica, sejam quais forem os quotidianos dos cônjuges que o protagonizam. “Fostes chamados por Deus para viverdes em paz”, sublinha Paulo. Entretanto, todas e todos nós da Comunidade cristã de base de S. Pedro da Cova nos recordámos, durante o encontro em que lemos/escutámos este capítulo da Carta de Paulo, que durante os séculos para trás em que as populações dos países do Ocidente viveram sob o “sagrado” jugo do clero maior, médio e menor, nunca na Igreja se pôde viver esta liberdade que se viveu na Comunidade cristã de Corinto. Os cônjuges têm que manter-se um com o outro, até que a morte os separe, mesmo que um deles faça todos os dias a vida negra ao outro, geralmente, o homem à mulher. Até parece que Deus os chamou para viverem em contínua guerra, em contínua tortura. Nunca a Igreja foi capaz de tamanha liberdade como aqui vemos Paulo ter/viver. Nem sequer alguma vez passou pela cabeça das pessoas católicas que essa liberdade é a essência da Fé cristã, uma vez que lá onde não houver liberdade e responsabilidade pessoal e comunitária, também não há Fé cristã. Pode haver muita religião, muita idolatria, muito culto, realizado à sombra do santo nome de Jesus, mas tão-só para desumanizar ainda mais as pessoas que os frequentam. Porém, da 1.ª Carta de Paulo aos Coríntios, recebemos agora o estímulo a crescermos mais e mais na Fé cristã jesuánica, o mesmo é dizer, a crescermos mais e mais em liberdade e em responsabilidade pessoal e comunitária. Aliás, os nossos concidadãos e concidadãs só saberão que estamos a crescer na fé cristã jesuánica, se nos virem a crescer em liberdade e em responsabilidade, todos os dias. Uma liberdade que nos habilita a amar os demais, até darmos a própria vida. E uma responsabilidade que nos faz ser solidários e protagonistas da história, lá onde mais for necessário, para que o nosso país e o nosso mundo progridam em bem-estar e em paz, coisa só possível quando a vida de todos os dias for de qualidade em todas as pessoas e em todos os povos. À luz desta Carta de Paulo, não hesitamos em dizer igualmente que, quando hoje a hierarquia católica, desde o papa aos párocos, com os bispos de permeio, teimar em manter subjugada a Igreja, nas comunidades concretas em que ela acontece por misteriosa acção do Espírito Santo (e acontece mais nas pequenas comunidades cristãs de base do que nas grandes paróquias territoriais, em que tudo é massificado, rotineiro e opressivo), essas mesmas comunidades cristãs têm o direito e o dever de se rebelarem contra ela, em nome da Fé cristã jesuánica que nos faz livres e responsáveis. Deixar-se subjugar pela hierarquia católica e continuar a seguir normas e leis disciplinares impostas por ela ao longo do tempo e que hoje se revelam mais do que caducas e contrárias ao Espírito Santo que faz novas todas as coisas, é renunciar a ser cristão/cristã, é tornar inútil a Páscoa de Jesus de Nazaré, o Cristo, é atirar ao lixo a sua memória subversiva e perigosa, cuja morte lembra Paulo nesta mesma Carta aos Coríntios anunciamos, sempre que hoje nos reunimos para comer (não fazer de conta que se come!), de modo sacramentalmente actualizado, a sua Ceia. Mas atenção! Nestas nossas reflexões comunitárias sobre a 1.ª Carta de Paulo aos Coríntios, também nos foi dado perceber que, hoje, nem sequer havemos de adoptar como nossas as respostas e as soluções que Paulo, no uso da liberdade e da responsabilidade para que Cristo o libertou, entendeu por bem dar aos problemas concretos daquela comunidade. Como cristãs e cristãos deste início do terceiro milénio, o que temos é que estar tanto como ele, ou ainda mais abertos do que ele, à acção do mesmo Espírito Santo, para, com Ele, por Ele e nEle, encontrarmos as respostas novas que os problemas do nosso tempo exigem e os comportamentos libertadores que a consciência da Humanidade tem legitimamente direito a esperar e a exigir da Igreja que se diz de Jesus de Nazaré, o Cristo crucificado/ressuscitado. O que, convenhamos, é uma verdadeira revolução ainda por realizar, se calhar, até por iniciar! Quem na Igreja tem a audácia de ir por aqui?! |
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| Última Página José Comblin (Teólogo belga radicado no Brasil) Aparições de N.ª S.ª: Está tudo na cabeça das pessoas À pergunta "Como avalia o fenómeno das aparições de nossa senhora?", o teólogo da libertação belga que vive radicado no Brasil e que acaba de celebrar lúcidos 80 anos de idade, responde, sem rodeios: "É naturalmente um fenómeno na cabeça das pessoas”. A edição de Junho de 2003 da Revista SEM FRONTEIRAS, dos Missionários Combonianos do Brasil que permuta com o Jornal Fraternizar, inclui uma entrevista com o Pe. José Comblin, o conhecido teólogo belga da libertação que desde a década de 60 vive radicado no Brasil. A entrevista aconteceu no contexto da celebração dos 80 anos de vida do teólogo de fama internacional que foi assessor do Bispo Hélder Câmara e agora vive junto do Bispo de Paraíba, José Maria Pires. À pergunta,"Nos últimos anos, dizem que as aparições de N.ª S.ª têm aumentado muito. Como o senhor avalia isso?", Comblin responde sem rodeios e sem subterfúgios: "O que acontece é naturalmente um fenómeno na cabeça das pessoas. Algo aparece na imaginação e na cabeça das pessoas, que é uma representação, que dizem que é de Nossa Senhora. Se for no mundo branco, ela será branca; se for no mundo indígena, será bronzeada; no mundo negro, é negra, e fala a língua dos seus. Tudo acontece na cabeça das pessoas. Em grande parte, é fruto da miséria. As pessoas que têm uma condição humana digna não vão ter uma aparição de Nossa Senhora. Ela sempre aparece no mundo dos miseráveis, dos oprimidos.” |
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© Página criada 6 Julho de 2003 |
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