Textos do
Jornal Fraternizar-

Edição nº 150, de Julho/Setembro 2003 (Continuação)

Igreja / Sociedade

Juan José Tamayo-Acosta (teólogo espanhol)
Papa em Madrid: Nem a mais leve crítica a Aznar

Receio bastante que o banho de multidão em que o Papa se viu envolvido na sua recente vi­sita a Espanha tenha servido pa­ra fazer passar uma imagem idí­lica da Igreja católica que, em minha opinião, está muito longe da Igreja “realmente existente”, tal como um amplo sector da opinião pública a vê, bem como não poucos cristãos. A primeira impressão é que à hierarquia e­cle­siástica foi dada a possibili­dade de utilizar a viagem papal para lavar a sua imagem nega­tiva, assim como a de algumas ins­tituições católicas, por algumas das suas actuações pouco exem­plares, como Gescartera, os in­ves­ti­mentos de algumas dioceses em paraísos fiscais, os reiterados despedimentos de professores de religião de colégios públicos, que transgridem a legislação la­boral, todas as declarações de Di­reitos Humanos e inclusive a Cons­tituição Espanhola, e a falta de força crítico-profética na socie­dade.

A viagem do Papa não serviu para uma revisão crítica da Igre­ja, mas para legitimar os bispos espanhóis, a quem se pode apli­car o que afirma Georges Berna­nos, sobretudo contemplando a fo­tografia do Papa agarrado à cruz: “Os cristãos são capazes de se instalar comodamente até sob a cruz de Cristo”.

A visita ratificou opções que julgávamos superadas. E fê-lo com grande êxito, superando to­das as expectativas e previ­sões. Os organizadores da viagem opta­ram desde o princípio por um cris­tianismo de massas, mais pa­recido ao da cristandade dos anos cinquenta, que ao cristianis­mo do Concílio Vaticano II. Po­rém, não é o grão de mostarda a imagem do reino de Deus?

O programa da viagem cor­res­pondia a um cristianismo mais próximo do nacional-catolicismo que ao Estado não confessional da Constituição espanhola. Pare­cia que a religião católica voltava a ser a religião oficial do Estado. De novo a aliança entre o trono e o altar. Assim o demonstrou a omni­presença das máximas auto­ri­dades do Estado durante toda a visita: chefe do Estado, chefe do Governo e ministros, presiden­tes do Congresso e do Senado, autoridades municipais e autonó­mi­cas da Comunidade de Madrid. Uma presença não só à chegada e à partida, que pode entender-se por razões de protocolo, mas em todo o lado: recepções priva­das ao Rei e ao presidente do Go­verno com as suas respecti­vas famílias e suas corresponden­tes sessões de fotografias que puderam ser vistas nas revistas cor de rosa. As autoridades não se misturaram com o resto dos fiéis na missa multitudinária da praça de Colombo, mas ocupa­ram lugares destacados e bem vi­síveis. Onde está a separação Igreja-Estado? Quando Dalai La­ma e outros líderes religiosos vi­sitam Espanha recebem o mes­mo tratamento? Nem sequer o procuram.

Penso que esta foi uma das viagens papais de maior signifi­ca­do político, tanto nos gestos como no conteúdo dos discur­sos, onde não apareceu uma ú­ni­­­ca crítica ao Governo por a­ctu­a­ções que ética e evangelica­mente são condenáveis. Também aqui a cúpula da Conferência E­­pis­­copal conseguiu o seu obje­cti­vo. Porém, este neo-nacional-catolicismo é compatível com a autonomia das realidades tempo­rais defendidas pelo Concílio Va­ti­cano II?

A forte carga política da visita fez-se logo sentir com a exclusão da aproximação do Papa de de­terminados líderes políticos, al­guns cristãos confessos e convi­ctos que solicitaram entrevistar-se com ele. Porquê uns líderes políticos, e outros, não? Foi mero acaso que tenham sido excluídos os líderes nacionalistas? Foi por falta de tempo, como explicou o arcebispo de Toledo? Ou esta­va tudo em obrigatória sintonia com a condenação que faria o Papa dos nacionalismos exarcer­ba­dos, com o ideário político do Partido Popular e com o último documento da Conferência Epis­co­pal sobre o terrorismo?

Os discursos do Papa e a res­posta de um amplo sector dos assistentes aos actos massi­vos pautaram-se por um cristia­nis­mo devocional, centrado na fi­gura de Maria, sem qualquer referência ao seguimento de Je­sus de Nazaré. Alguém pode con­tinuar a crer que a reza do terço do rosário é sinal de vita­lidade da fé cristã?

Optou-se por um cristianismo crédulo, mais do que crítico, com alto grau de culto à personali­da­de do Papa, que em certos mo­mentos descambou em “papo­latria”. Parecia que tínhamos re­gressado ao século XIX, quando o culto à personalidade do Papa atingiu o seu zénit com Pio IX (1846-1878), o último papa rei. Esse culto à personalidade do Papa tem alguma coisa a ver com a mensagem de Jesus, que ordena expressamente que não chamemos pai a ninguém, salvo ao “Pai do céu”?

Na organização da visita o­ptou-se pelo cristianismo dos novos movimentos eclesiais, de profundo conteúdo espiritualista e quase nenhum compromisso social e político de sinal liber­tador, e ignorou-se o cristianismo vivido no seio das comunidades de base. A organização da via­gem esteve nas mãos desses mo­vimentos, e a viagem consti­tuiu um apoio aos mesmos. Po­rém, o cristianismo que melhor pode responder às perguntas e in­quietações do nosso tempo é um cristianismo desse tipo?

Se dos gestos e do espectá­culo passamos às mensagens, a primeira impressão com que se fica é que estavam todas em sintonia. Em nenhuma delas pu­de sentir a presença da liberdade do Evangelho. Os que espera­vam que o Papa saísse do dis­cur­so escrito, ficaram defrauda­dos. É verdade que saiu duas ve­zes, mas em aspectos anedó­ticos; uma, para recordar a sua idade, quando lhe chamavam “Papa jovem” e outra, para ratifi­car o bom acolhimento que Es­panha lhe tem feito, quando a multidão gritava em coro: “Juan Pablo Segundo, te quiere todo el mundo”.

O Papa não convidou os bis­pos a respeitar o pluralismo teo­lógico e eclesial, embora o insi­nuasse, quando disse que “as ideias não se impõem, propõem-se”. E os teólogos, sobretudo, os sujeitos à censura, registamos o facto. Mas tenho muito receio que os bispos não tenham visto como ditas a eles aquelas pala­vras e continuem na deles, con­denando os teólogos e as teó­logas que dialogam com a cultura moderna e optam pelos pobres.

Tão pouco o diálogo inter-re­ligioso se viu em nenhum mo­mento. O Papa convidou a guar­dar e a renovar com orgulho a identidade católica de Espanha e a defender as suas raízes cris­tãs. Os redactores dos discursos esqueceram-se de que Espanha tem outras raízes e identidades, além da cristã: judia, muçulmana, renacentista, ilustrada, etc. Uma sociedade de identidade católica e com raízes apenas cristãs não torna quase impossível o diálogo inter-religioso multilateral?

Regressou-se à velha ima­gem de Espanha como reserva es­piritual do Ocidente, desconhe­cendo o processo positivo de se­cularização que se produziu du­rante os últimos trinta anos no nosso país, que permitiu che­gar a uma sociedade e a um Es­tado cultural e religiosamente plurais. Porquê opor cristianismo e secularização, e considerar a se­cularização como um dos gra­ves perigos para a fé, quando o cristianismo se encontra na ori­gem do processo de seculari­za­ção das sociedades ociden­tais?

Os bispos espanhóis optaram por um cristianismo amnésico, sem memória histórica. A viagem teria sido o momento oportuno para pagar uma dívida que a Igre­ja católica tem para com as vítimas da Guerra Civil espanhola pelo seu apoio aos sublevados contra o Governo legítimo da Re­pública e sua posterior legiti­mação da ditadura de Franco qua­se até ao fim. Muitos esperá­vamos que fosse o Papa a pedir perdão em nome da Igreja cató­lica espanhola. Perdoar e perdão não são duas virtudes fundamen­tais do cristianismo? Porquê es­sa resistência a pô-las em prá­tica?

Nos discursos não houve nem a mais leve crítica a Aznar pelo seu apoio à guerra contra o Iraque. Preferiu-se um véu de silêncio sobre uma guerra injus­ta, ilegal e ilegítima, que o Papa tinha anteriormente condenado em tons muito duros. Agora, tudo se resumiu a uma defesa genéri­ca da paz.

Dir-se-á: Para bom entende­dor meia palavra basta. Porém, Aznar não deu mostras de ser bom entendedor; pelo con­trário, ratificou a sua posição. Porquê João Paulo II foi tão con­tun­dente na condenação do ataque ao povo iraquiano, no Va­ti­cano, e tão comedido em Espanha? Houve censura do Go­verno espa­nhol?


Perguntas de um monge ao Papa

Eucaristia: comunhão ou acto de exclusão?

Caro irmão João Paulo II

A sua carta sobre a eucaristia está provocando questionamen­tos em mim e em muitos cristãos. Por isso, tomo a liberdade de co­mentar como a compreendi e faço-lhe algumas perguntas.

Em primeiro lugar, quero a­gra­decer e valorizar o seu teste­munho de fé e de amor ao mi­nistério. É bom saber como o se­nhor interpreta a fé e a missão da Igreja. É baseado neste mes­mo amor que tentarei resumir al­guns pontos sobre os quais gostaria de conversar com o senhor:

1. A Igreja vive da Eucaristia ou do amor solidário ao povo?

“A Eucaristia é o próprio nú­cleo do mistério da Igreja” (n. 1). Isso é verdade no plano dos sinais. Os sacramentos são sinais eficazes que contêm aquilo que eles sinalizam, mas não deixam de ser sinais. Será que esta car­ta não confunde o sinal com a realidade? Dizer que a eucaristia é o núcleo do mistério da Igreja não é como afirmar que o eixo do amor entre duas pessoas é o carinho corporal? O núcleo do mis­tério da Igreja é a eucaristia, ou é a solidariedade, tradução do termo grego ágape? Não é mais correcto dizer que a Igreja vive do amor solidário, serviço e testemunho ao Reino de Deus e isso se expressa como sinal na eucaristia e nos outros sacra­mentos?

A carta dedica um número (20) à relação entre a eucaristia e “a responsabilidade pela terra presente”. Diz que, no 4º Evan­ge­lho, o relato do lava-pés “ilus­tra o profundo significado do sa­cra­mento”. Lembra que Paulo cha­ma de “indigna” à comunhão de uma comunidade que partici­pe da Ceia em contexto de discór­dia e de indiferença pelos pobres (Cf. 1 Cor 11). Entretanto, só to­ca nesta relação entre eucaris­tia e justiça no final do capítulo 1, como se fosse consequência da eucaristia e não o seu pressu­posto fundamental. O que isso de­nota como visão de Igreja e da fé?

2. A Missa, sacrifício a que Deus?

Na carta, o senhor cita várias vezes o Concílio Vaticano II e al­guns documentos do magistério romano recente, mas a doutrina ali expressa sobre a eucaristia é a do Concílio de Trento no sé­culo XVI, que o senhor julga ser actual e propõe como referên­cia dogmática para a Igreja toda (n. 9). Como o senhor está a par de todo o trabalho teológico que, nos últimos séculos, tem si­do elaborado sobre a eucaris­tia, deduzo que o senhor, sim­ples­mente, não acha importante esta evolução. Ao contrário, até na linguagem, recua em relação ao Vaticano II. Fala do “santo sa­crifício da Missa” e não da Ceia do Senhor, como chama os ministros de sacerdotes e não de presbíteros.

A teologia é clara: “A missão torna presente o sacrifício da cruz. Não o repete, nem o multi­plica. O que se repete é a cele­bração memorial” (n 12). Se é as­sim, será que, hoje, a lingua­gem sacrificial ainda é a mais ade­quada para expressar a ver­dade do memorial? Não está pre­sa a uma cultura, presente no Novo Testamento, ligada ao ju­daísmo da época e a outras reli­giões? Como, hoje, falar de Deus Amor se trata de um Pai que precisa que o Filho morra para reconciliar-se com a humani­dade? Será que a fé não é mais ampla do que a explicação da fé em conceitos teológicos, sem­pre ligados a uma cultura deter­minada? Por que impor a todos uma interpretação da fé como se fosse a própria fé, principal­mente quando esta forma de falar da eucaristia já não diz nada a muitos católicos e nos divide dos irmãos de outras Igrejas que, no passado, já foram por isso con­denados? Não seria mais de acordo com a fé na eucaristia, seguir o conselho do papa João XXIII e afirmar a fé de um modo que una os irmãos e não nos divida?

3. Celebração eucarística do­mi­nical e celibato

O senhor insiste em que a eu­caristia é essencial e depende do sacerdote ordenado que a celebra. Repete que as comuni­dades não podem celebrá-la sem o padre e que os cultos domi­ni­cais sem padre não substituem a eucaristia. No Brasil, são mi­lhares de comunidades católicas que, cada domingo, não têm pa­dre e fazem o culto da Pala­vra. O senhor sabe por que to­das estas comunidades não têm padre e por quê algumas só recebem visita de um padre duas vezes por ano. É porque o senhor não aceita abrir mão do celibato obrigatório e ordenar como presbíteros homens casa­dos, dignos e preparados para o ministério. E não reconhece a validade do ministério de pa­dres que casaram e, com alegria, aceitariam exercer o ministério. Sem falar que, na América La­tina, a Igreja Católica é a única das Igrejas ocidentais históricas que não aceita ordenar mulhe­res. O que para o senhor é mais importante: a eucaristia do­mi­nical, como o senhor ensina na encíclica, ou manter como lei obrigatória o costume latino do celibato obrigatório?

4. Ceia de inclusão e de amor

O senhor liga a eucaristia à pessoa de Jesus para afirmar o seu “sacrifício”, mas não faz refe­rência à sua vida concreta. Não lembra como ele comeu com pe­cadores e com gente de má vida. Ele fez de suas refeições, sinais de inclusão e de profecia do Reino de Deus que acolhe a to­dos, especialmente os mais deserdados e excluídos. Por cau­sa da noção de sacerdócio que a nossa Igreja desenvolveu, o senhor repete o que já apare­cia na declaração Dominus Jesus e distingue os cristãos uns dos outros. Só reconhece como “Igre­jas” as ortodoxas e chama as Igre­jas evangélicas de “comunida­des eclesiais”. E proíbe que ca­tólicos comunguem em celebra­ções eucarísticas destas igrejas “para não dar aval a ambigui­dades sobre algumas verdades da fé” (n. 44). O que esta noção de Igreja tem a ver com a ecle­siologia do Concilio Vaticano II? Como continuar o caminho ecu­mé­nico com mais este recuo? Por que desconhecer e claramen­te desprezar os acordos ecuméni­cos já feitos entre algumas Igre­jas? O Documento de Lima sobre baptismo, eucaristia e ministério (1983) é ignorado. O acordo com a Igreja Luterana sobre a justi­ficação é praticamente passado para trás. Porquê? O que é mais importante a clareza intelectual ou a caridade e o testemunho do amor? Será que “a clareza sobre algumas verdades da fé” é mais importante do que a aco­lhida mútua e a unidade real vivida por cristãos que pensam diferente mas celebram com gran­de respeito e carinho o memorial do Senhor, neste contexto de um mundo dividido e no qual as religiões representam forças de oposição e não de unidade?

5. Pergunta final

Formado na teologia e espiri­tua­lidade do Concílio Vaticano II, reconheço o senhor como bis­po de Roma e primaz da unidade entre as Igrejas, mas não como um super-bispo ou definidor da fé das pessoas. Aceito o primado do papa como ministério querido por Deus, mas isso não inclui a no­meação dos bispos, nem a de­finição de um direito universal, ou um catecismo de doutrinas que todos os católicos do mundo devam crer. Por que impor a todas as Igrejas um modelo único de mi­nistérios e uma única liturgia: a romana? Não estaria mais de acordo com a verdade da euca­ristia promover a vida e a liber­dade de todos? Seria o teste­mu­nho: cremos que, assim como as muitas espigas formam um só pão, Deus faz da diversidade das Igrejas e da variedade das ce­lebrações, a unidade de uma só comunhão.

Deixo ao senhor e aos irmãos que lerem estas linhas estas per­gun­tas e fico orando por nossa Igreja para que seja como afir­maram, um dia, os bispos da A­mérica Latina: “uma Igreja au­tenticamente pobre, missionária e pascal, desligada de todo o po­der temporal e corajosamente comprometida na libertação de todo o ser humano e de toda a humanidade” (Medellin. 5, 15 a).

O irmão Marcelo Barros (Bra­sil).

Pe. Mário entrevistado por jornalista do JN

O Evangelho faz algum sentido no meio de tanta iniquidade?

"O Evangelho faz algum sentido no meio de tanta iniquidade?" Esta é uma das muitas perguntas que o jornalista José Reis, do JN formulou ao Pe. Mário, alguns dias depois da saída do seu penúltimo livro "E Deus disse: Do que eu gosto é de política, não de religião". É essa entrevista que o Jornal Fraternizar aqui reproduz integralmente. Para que melhor se conheça o perfil humano e eclesial do seu director que recusa ser uma espécie de "frango de aviário".

1) Para quem já pagou na pri­são os “excessos” da frater­ni­da­de e da liberdade, entre a pa­lavra da insurreição contra a prepotência e a ditadura e a pala­vra da boa-nova que distância vai?

R. Praticamente nenhuma. A palavra da insurreição contra a prepotência e a ditadura já é pa­lavra Boa Notícia, já é Palavra de Deus, do Deus que está histo­ricamente empenhado em criar mu­lheres e homens criadores, ra­di­calmente iguais, livres e frater­nos/sororais. Há sempre Boa No­tícia, lá onde houver libertação.

2) Sempre foste solidário, mas o que te leva a comover tão pro­fun­damente com o que se passa em teu redor?

R. A existência de vítimas hu­manas, com os seus gritantes silêncios, os seus interpeladores olhares, a sua total impotência para mudarem o rumo à História. Misteriosamente, a fraqueza das vítimas é a minha força. Frente a elas, experimento rebentar cá dentro a força da ressurreição/insurreição. E não lhe resisto.

3) Faz algum sentido falar de paz? De qual? E de (que) jus­tiça? E de (que) liberdade?

R. Faz. Mas faz ainda mais sentido viver e fazer a paz. Qual paz? Não, evidentemente, a paz dos impérios. Nem a paz dos ce­mi­térios. Apenas a paz que anda casada com a justiça e a liberdade. E por isso se alimenta de mesas fartas para todos os povos. De sabores e de saberes. E também de afectos, de muitos afectos, que combatem como quem respira por uma Nova Or­dem Económica e Política mun­dial.

4) O bem e o mal: quem é quem, neste cada vez mais ame­ricano e miserável mundo em que vivemos? De que criatividade se poderá falar?

R. O bem e o mal atraves­sam o interior de todas as pes­soas e de todos os povos. Todos so­­mos, ao mesmo tempo, “de­mens” e “sapiens”. Mas há tam­bém e so­bretudo o mal sistémico (“peca­do do mundo”, chama-lhe o Evan­gelho) contra o qual todos - mu­lheres, homens e povos - ha­ve­mos de nos erguer. Foi con­tra este mal sistémico que Jesus de Nazaré se ergueu. E não só. Tam­bém o enfrentou, armado ape­­nas com a força da verdade, na pessoa dos seus mediadores/chefes concretos daquele então. Perdeu a vida neste combate. Mas foi assim que a ganhou para sempre. É ele o meu Mestre, o meu Guia e o meu Caminho.

5) O Evangelho faz algum sen­tido no meio de tanta iniqui­dade?

R. Faz todo o sentido. Tal co­mo a luz que é tanto mais opor­tuna quanto maior é a es­curidão. O Evangelho é essenci­al­mente a PRÁTICA libertadora de Jesus. É o anti-mal e a anti-iniquidade em acção. E se hoje o nosso mundo ainda tem algum sentido é graças à existência de inúmeras mulheres e de inú­meros homens, mesmo ateus e agnósticos, que prosseguem nas suas vidas a mesma prática libertadora de Jesus.

6) A presença de Deus é vi­sível no meio dos homens ou é preciso esgaravatar à procura dela na fímbria da realidade, no domínio das divagações? Para que serve a fé? Em que é que ela enriquece a intervenção huma­na?

R. A Deus nunca ninguém o viu, nem verá. Nem Jesus de Na­zaré viu Deus. E, no entanto, todas e todos podemos ver Deus em Jesus de Nazaré. Tudo o que conhecemos de Deus veio-nos por Jesus, o Cristo. Nele e por ele, ficamos a saber que Deus não está longe, mas é a Com­­panheira / o Companheiro mais íntimo a nós do que nós próprios. A Fé é a relação cons­ciente com o Deus-que-nos-habita-e-transporta, não para O temermos e irmos a correr pres­tar-lhe culto nos templos, mas simplesmente para o deixarmos ser Deus em nós. Tal como Je­sus deixou. Quando isso aconte­ce, tornamo-nos também outros Cristo. E tudo o que somos e fa­ze­mos sai com força libertado­ra e integradora.

7) Aos oprimidos, para além do direito (e do dever) de se revoltarem e de se libertarem, o que lhes resta?

R. Aos oprimidos resta o de­ver de se unirem, porque nin­guém se liberta sozinho. Liberta­mo-nos em comunhão. A revolta dos oprimidos é estéril. A sua violência despojada de um proje­cto alternativo de sociedade e de ser humano também não leva a lado nenhum. Os oprimidos têm que ousar deixar a religião-ópio do povo e assumir a política como acção libertadora e trans­for­madora do mundo. Têm que recusar o degradante papel de as­sistidos, com que os poderes os tratam, para assumirem o nobre papel de sujeitos e de pro­tagonistas que dão corpo nos seus próprios corpos à Utopia de um mundo outro.

8) Mário de Oliveira quem é? E o padre Mário de Oliveira (que alguns olham de viés, como um bicho estranho)? São eles o mesmo?

R. O homem que sou está in­teiro no padre/presbítero que um dia passei também a ser. Ser padre/presbítero é a minha saudável maneira de ser homem-para-os-demais, numa comunhão sem reservas e sem tabus.

9) Visitemos ainda que de relance (o tempo da página não dá para mais) - e se o permitires - a tua infância: brincavas às mis­sas, às confissões? Ou é outra a história da tua vocação? Já então vivias com tanta intensida­de? Até onde chegam as reminis­cências dessa tua inclinação? Lembras-te?

R. Em criança, comecei por ajudar à missa, ainda em latim, e também por brincar às missas. Depois, quando, pelos 13 anos de idade, entrei no seminário, comecei a dizer para mim mesmo que queria ser padre, mas para ser diferente dos padres que conhecia. Ser padre nunca foi para mim um privilégio. É um com­promisso com toda a Humani­dade, a começar pela mais empo­brecida e oprimida. Depressa me despojei do clérigo que o semi­nário formou e me tornei compa­nheiro, amigo e irmão de todas e de todos. Talvez por isso o altar e o templo deixaram de exis­tir para mim. Em seu lugar, está a mesa e estão as “más companhias” com quem me en­con­tro e converso, como e bebo, sonho e combato.

10) Olho para ti com 66 anos e estou a ver um adolescente em efervescência, cheio de luz - como dizer? - a luz da insurrei­ção. Uma insurreição a tempo inteiro pela vida adiante. Assim tem sido ou estou enganado? Ainda é esse, hoje, o teu olhar?

R. Adolescente, não direi. Me­nino, sim. Sou assim como um menino. E quero continuar a ser. Quanto mais entrado em anos, mais menino. Os grandes são de­masiado sisudos. O poder en­tristece. E desumaniza. Faz o­pres­sores que, por sua vez, fa­zem vítimas aos milhões. Nunca fui nem irei por aí. Prefiro ser as­sim como um menino: irreve­rente, dissidente, atrevido, carre­ga­do de futuro, sem bolsa nem alforge.

11) Há algum conflito sério entre a (tua) insubordinação in­terior e o mundo do servilismo que nos rodeia, dominado, em geral, pelas leis do mercado e do consumo, um mundo de so­bre­vivência?

R. O conflito faz parte de mim. Não há um homem livre/uma mulher livre, sem conflito. O “status quo” não gosta de ho­mens/mulheres livres e torna-lhes a vida difícil. Como estes e estas não gostam do “status quo” e fazem a vida difícil aos seus chefes. Recuso-me a ser uma es­pécie de “frango de aviário” com aspecto humano. O mercado é para o ser humano, não o ser humano para o mercado. Comi­go, os tiranos não podem contar. Nem sequer com a minha cumpli­cidade.

12) E entre o sacerdócio e a (tua) afectividade e a (tua) sexua­lidade há alguma luta? Os padres deviam poder casar, ou viver como e com quem quisessem - se o quisessem -, ou isso não é fun­damental?

R. Há sobretudo uma grande paz e uma grande alegria de viver. O meu celibato é pelo Rei­no de Deus. Não é castração. É realização. É plenitude. É en­tre­ga de mim e da minha vida. É um jeito e uma arte de viver em forma de dom. Os outros/as outras são para mim graça, não tentação, companheiras/compa­nhei­ros de jornada, não ocasião de tropeço. É claro que o celi­bato, também o dos padres, só pode ser opcional. O que não for assim é demoníaco e, como tal tem que ser combatido.

13) Sempre te conheci, mesmo nas horas mais adversas, com um sorriso. Com ele, ou através dele, dás razão a ti próprio. É isso? Dir-se-ia que ele é uma espécie de escudo com que en­fren­tas as intempéries. Assim é, ou não?

R. O sorriso é o rosto do meu ser. O Deus em quem creio é a alegria da minha vida. Não sou em quem vive, é Deus quem vive em mim, pelo seu Espírito, mais íntimo a mim do que eu próprio. Mesmo nos momentos mais duros, aí estou inteiro e à escuta. Posso não gargalhar, mas experimento-me sempre em paz e como alguém que não vive para si, mas para os demais. Por isso, realizado e feliz.

14) Acabas de publicar mais um livro. É esse um modo, tam­bém, de exerceres o teu magis­tério? Ou escrever é uma forma de lutar pela libertação?

R. É verdade, acabo de pu­blicar mais um livro eventual­mente chocante, a começar pelo título “E Deus disse: Do que eu gosto é de política, não de religião”. Escrever faz parte de mim. Sou jornalista profissional desde 1975, também para poder ser padre de graça. Os livros são uma outra maneira de viver a missão de padre/presbítero da Igreja e que se resume a Evan­gelizar os pobres. Escandalizo? Mas quem disse que se pode Evangelizar os pobres, sem es­can­dalizar até os próprios po­bres?

15) Além da palavra escrita, que outros amores na tua vida?

R. Como Jesus, também eu quase posso dizer que não te­nho onde reclinar a cabeça. A minha alegria é encontrar-me com os demais, mulheres e homens, de todas as idades, saberes e con­dições sociais. Partilhar com todos Palavra e Pão. Faço-o sem­pre em memória de Jesus. Como numa ininterrupta Eucaristia. É assim que me alimento por den­tro. E cresço em liberdade e em festa militante, à medida que cres­ço em idade.

16) Alguma vez sentiste a Igreja como intrusa nos desígni­os de Deus? E tu, alguma vez te sentiste um intruso nas posições da Igreja?

R. Sim, sobretudo, a Igreja hi­erárquica. Aliás, a simples exis­tência duma hierarquia (= poder sagrado) na Igreja já é uma intromissão nos desígnios de Deus. Porque Deus não é Poder. É Amor. E não qualquer amor, mas o Amor que cria, que fe­cunda, que liberta, que transfor­ma, que humaniza, que ressus­cita. Pela minha parte, experi­mento-me intruso nas posições da Igreja, mas só no que res­peita à Igreja hierárquica, que evangelicamente não tem sequer razão de ser. Em tudo o mais, não sou intruso, sou Igreja com a Igreja.

17) O que dizem o sagrado e o profano à tua maneira de in­tervir no mundo?

R. Não me dizem nada. Para mim, não há sagrado de um lado e profano de outro lado. Toda a realidade ou é humana ou inu­mana. E vivo para que o inu­mano deixe de o ser e se torne humano. Se a Fé cristã não for para tornar mais humano este nosso mundo, é melhor ser ateu. Mas. Nesse caso, também não será Fé cristã, mas Fé religiosa, o mesmo é dizer, idolátrica. As religiões é que falam de sagrado e de profano. Mas as religiões são todas idolátricas. Não foram elas que mataram Jesus de Na­zaré, o Cristo, o Homem por anto­nomásia?


Depois do campo, o Barracão de Cultura

Após o registo nas Finanças do campo que lhe foi doado, a Associação Cultural e Recreativa As Formigas de Macieira da Lixa elaborou uma pormenorizada exposição sobre o Barracão de Cultura que se propõe construir naquele terreno, e enviou-a à Direcção Geral de Contribuições e Impostos, numa tentativa de vir a ser dispensada do pagamento do imposto devido por lei geral. Até à hora do fecho desta edição, não tinha chegado qualquer resposta oficial. A direcção da Associação espera que seja uma resposta favorável, uma vez que todo o dinheiro é pouco para financiar a construção do edifício. Por outro lado, as actividades que a Associação se propõe realizar no Barracão são manifestamente de utilidade pública. Dessa exposição elaborada em diversos pontos, destacamos aqui na íntegra a parte mais substancial, a partir do ponto n.º 6. Para conhecimento das nossas leitoras e leitores que, ao saberem para que servirá a obra, talvez queiram canalizar para a sua construção parte das suas economias. Porque a solidariedade não há-de ser apenas nem sobretudo social. Há-de ser sobretudo cultural. Não é verdade que com populações mais cultas e lúcidas, haverá menos necessidade de solidariedade social? A propósito, fica aqui o endereço da Associação: Formigas de Macieira, Lugar das Cruzes, 4515-408 Macieira da Lixa. Tel. 255 495 264.

No campo que acaba de nos ser doado, que­remos começar em breve a construção de um BAR­RACÃO DE CULTURA, cujo projecto, logo que esteja pronto de arquitecto e aprovado pela Câmara Munici­pal de Felgueiras, havemos de apresentar ao Se­nhor Ministro da Cultura, para que ele o apre­cie e apoie, na me­dida do possí­vel. Não será uma construção lu­xuosa, mas será de certeza um espaço aco­lhedor tanto da população da freguesia, como das populações das diversas fre­guesias em redor, dentro do qual todas elas encon­trarão estímulo a serem mais e mais cultas, o mesmo é dizer, mais e mais hu­ma­nas e solidá­rias.

6. 1. O Barracão de Cultura será um espaço polivalente e mul­­tiusos, com destaque para o teatro, tanto o teatro feito por amadores, como o teatro fei­to por profissionais. Todo o espaço interior do Barracão será assim como um grande palco, onde po­derão passar todo o tipo de espectáculos que habitual­men­te só costumam ser usufruí­dos por quem reside nas grandes cidades. Queremos que, de futu­ro, tudo o que na área dos espe­ctáculos se vier a fazer de bom nas grandes cidades, também venha a ser feito no Barracão de Cultura de Macieira da Lixa.

6. 2. Mas não só. No espaço polivalente do Barracão de Cul­tu­ra, haveremos de dinamizar, ao longo de cada semana, acti­vi­dades de tempos livres para crianças e jovens, mas também convívios e festas para pessoas de idade.

6. 3. Haveremos de fazer fun­cionar uma biblioteca, com ses­sões de leitura de grupo se­guidas de debate, nas quais o livro ganhe vida e se torne ali­mento de cada dia. Sempre que possível, haveremos de trazer ao Barracão de Cultura os au­tores dos livros ainda vivos, para que quem lê passe a sentir-se mais próximo deles e, desse mo­do, os livros adquiram rosto e afe­cto.

6. 4. A internet e toda a gama multimedia que cada vez mais é o quotidiano de todas e de todos nós, especialmente das novas ge­rações que já aí estão a desa­fiar-nos à mudança e ao Novo, também terão no Barracão de Cul­tura todo o nosso acolhi­men­to, para que as nossas po­pu­la­ções sejam populações infor­ma­d­as e esclarecidas, cada vez mais autónomas e com grande sentido crítico.

6. 5. Acolheremos igualmente iniciativas culturais locais de jo­vens e de outras faixas etárias, como cine-clubes, ludotecas, jo­gos de sala e de salão, nos quais sobressaia a dimensão cul­tu­ral e recreativa.

6. 6. O Barracão de Cultura tam­bém será ventre para a poe­sia. Não só para a ler/dizer/de­clamar, mas também para a criar. Promoveremos a criação de Ofi­cinas populares de poesia. Sem nunca nos esquecermos de dar voz e vez aos poetas populares da freguesia e da região.

6. 7. A música também terá um lugar de destaque no espaço do Barracão de Cultura, quer atra­vés da realização de festi­vais de música, ao longo de ca­da ano, quer através da criação duma Escola de Música, onde crianças e jovens poderão apren­der a tocar diversos instrumen­tos. E também ganhará corpo, pe­lo menos, um grupo coral com vozes da região.

6. 8. Os Grupos folclóricos exis­tentes na freguesia e nas fre­guesias em redor terão também no espaço do Barracão de Cultu­ra a grande oportunidade para en­sai­arem sem quaisquer cons­tran­gimentos e, sobretudo, para realizarem os seus festivais na­cionais e internacionais.

6. 9. As outras artes não se­­rão de modo algum esquecidas e terão também lugar no Barra­cão de Cultura, nomeadamente a pintura. Para lá de promover­mos Oficinas de pintura, para cri­anças, jovens e outras pesso­as interessadas, tudo faremos para acolher e expor no seu in­terior as obras de arte de au­tores já consagrados.

6. 10. Promoveremos também no Barracão de Cultura múltiplos jantares culturais, com debates sobre os mais variados temas da actualidade, em cada ano. Se­rão Jantares com Poesia. Jan­tares com Música. Jantares com Política. Jantares com Teologia da libertação. Jantares com Eco­no­mia. Jantares com Humor. Por outras palavras, jantares destina­dos a matar as mais diversas fomes que habitualmente afectam todos os seres humanos, com destaque para as fomes de Pão e de Cultura, de Justiça e de Be­leza.

6. 11. Em síntese, queremos que no Barracão de Cultura nada do que é cultural lhe seja estra­nho. E que nada do que de me­lhor acontecer no país, a nível cultural, fique longe dele e das po­pulações que o venham a fre­quentar. Para que nós e todas as populações em redor benefi­cie­mos de tudo, sem ter­mos que deslocar-nos a gran­des distân­cias. Serão os eventos culturais a ir ao nosso encontro, no Barra­cão de Cultura de Ma­cieira da Lixa.

6. 12. Finalmente, em anexo ao Barracão de Cultura, propo­mo-nos construir também um só­brio mas digno espaço de aco­lhi­mento, estilo Lar, para pesso­as idosas acamadas ou não. O Barracão de Cultura, ali mesmo ao lado, será para estas pesso­as uma espécie de Centro de Dia, onde a vida acontece de forma variada e saudável, e pode­rá proporcionar-lhes bons mo­men­tos de comunhão e muita ale­gria de viver.

Por tudo isto, vimos com todo o respeito requerer a V. Ex.cia, Senhor Director Geral das Contri­buições e Impostos, a isen­ção do pagamento do imposto devido ao campo que nos foi doado.

A isenção, a acontecer, será interpretada por nós como o pri­meiro apoio oficial e institucional do Estado ao Barracão de Cul­tura que, na nossa condição de “For­mi­gas” de Macieira da Lixa, va­mos erguer na nossa freguesia, para benefício do seu povo e das populações das freguesias em redor.

PEDIMOS DEFERIMENTO

Macieira da Lixa, 21 de Abril de 2003.


Crescemos na fé cristã, se crescemos em liberdade

A Comunidade Cristã das Quartas-Feiras que reúne em S. Pedro da Cova, na casa-sede da Associação Padre Maximino, acaba de viver uma experiência interna que se revelou edificante e salutar para os seus membros e que, ao ser agora aqui singelamente partilhada, pode estimular outros e outras a crescerem também em liberdade e em responsabilidade individual e comunitária, pelo menos, tanto quanto nós crescemos. Este é um tipo de crescimento que decorre impreterivelmente da presença actuante da Fé cristã, rectamente entendida e vivida por nós e que, só por si, bastará para colocar as comunidades cristãs praticamente nos antípodas das religiões, uma vez que estas, onde estiverem actuantes, fomentam o medo e o infantilismo individual e colectivo, bem como a mais completa dependência e subserviência em relação aos respectivos líderes, chamem-se sacerdotes ou pastores, gurus ou outra designação qualquer. Esta nossa salutar experiência teve a ver com a leitura/escuta da 1.ª Carta de S. Paulo aos Coríntios.

Pela primeira vez, a comuni­dade decidiu ler/escutar esta carta como escrita e dirigida a si. Por isso, leu-a na íntegra. Não num único encontro, mas em vários, dois, três ou mesmo quatro capítulos por encontro (são 16, no total), devidamente dialogados e comentados, um de cada vez.

Previamente, recordámos o contexto da cidade de Corinto de então. E vimo-nos muito iguais àqueles cristãos e àquelas cris­tãs, numericamente reduzidos, quase perdidos no meio duma grande cidade constituída por muitos milhares de pessoas de múltiplas culturas, línguas e cultos religiosos, todos idolátricos quan­to baste. No final desta experiên­cia, é manifesta a alegria em to­das e todos nós. Vemo-nos ain­da mais confirmados na via Comunidade cristã de base, ver­da­deira alternativa ao desper­so­­nalizante modelo paroquial de Igreja, pelo qual todos nós já pas­samos, e donde nos afastá­mos, uns definitivamente, outros ainda nem tanto, mas todos cada vez mais convictos da verdade desta via.

Apesar de todos sermos já maduros em anos, alguns até já no estatuto de séniores, a verdade é que quase todos nun­ca tinham lido nem ouvido ler esta Carta do apóstolo Paulo. Tantos anos a frequentar a mis­sa ao domingo e dias santos de guarda e nunca deu para fo­lhear a Bíblia, nem os livros da Bíblia hebraica ou Primeiro Tes­­tamento, nem o Segundo Tes­ta­mento, feito de Evange­lhos, Cartas e o Apocalipse!...

O modelo paroquial de Igreja surge assim aos nossos olhos de membros da comunidade cris­tã de base, como um modelo des­graçado e preguiçoso de Igre­ja. Tudo nele é rotina e rito. Tu­do é mais do mesmo, uma es­­pécie de eterno retorno, feito de missas em série, bem pagas pelos "clientes" que são proposi­ta­­damente mantidos na ignorân­cia e no medo do inferno ou do pur­gatório – tudo invenção de clérigos frustrados e oportunistas – e de cuja suposta condenação todos querem ver livres os seus familiares já falecidos e, por isso, ingenuamente se dispõem a pa­gar o que é arbitrariamente exi­gido pelo sacerdote-intermediá­rio.

O espantoso é que não há um pároco ou um bispo, nem um sequer, que, bem na linha do apóstolo Paulo, se atreva a dizer a verdade que liberta, às pessoas que ainda insistem em frequentar os seus cultos e os seus serviços religiosos, nomea­da­mente, a missa à semana e ao domingo, como se esses cul­tos e serviços fossem indispensá­veis para a salvação de vivos e, sobretudo, de defuntos, mes­mo daqueles que, em vida, até nem quiseram saber desses cul­tos e serviços para nada, mas que, depois de morrerem, a fa­mí­lia faz questão de pagar para que lhes sejam regularmente apli­cados (só mesmo a crassa ignorância teológica e um medo de séculos que ainda permanece no inconsciente de tantas pesso­as podem continuar a alimentar tão rendoso negócio clerical ca­tólico, um verdadeiro sacrilégio).

A Carta de Paulo fez-nos entrar na intimidade da comunida­de cristã de Corinto, uma ver­da­deira comunidade de base avant la lêtre, muito semelhante à nossa, de S. Pedro da Cova. É notório que já então a reunião da Comunidade acontecia, não num templo, mas na casa de um dos membros, provavelmente o casal que presidia e animava cada encontro. A cidade na al­tu­ra estava povoada de templos, como as nossas velhas cidades hoje, mas apenas para os cultos dos ídolos, por sinal, bastante se­melhantes aos da senhora/deu­sa de Fátima ou de S. Benti­nho da Porta Aberta, dos nossos dias.

Desses templos, todos os mem­bros da comunidade cristã de Corinto haviam saído, como nós, aqui, na Comunidade de base de S. Pedro da Cova, já saímos do templo paroquial, ou estamos em vias de sair (não, não mudamos de Igreja, apenas de modelo, dentro da mesma Igreja de Jesus), depois que es­cutaram/acolheram o Evangelho de Deus anunciado por Paulo e passaram da religião para a Fé cristã jesuánica, ou, por outras palavras, da idolatria para a liber­dade e responsabilidade. Muitos dos seus familiares ainda por lá permaneciam, o que trazia pro­ble­mas de comportamento no dia a dia, inclusive, ao nível do ca­sal, quando um dos cônjuges se havia libertado dos ídolos e o outro permanecia de pedra e cal na idolatria.

Curiosamente, este foi até um dos problemas da comunidade de Corinto sobre os quais Paulo foi consultado e teve que se pro­nunciar. Edificou-nos sobre­ma­neira a postura do apóstolo e a sua liberdade, relativamente a estes problemas do dia a dia dos membros da comunidade cris­tã de Corinto, uma postura tão nos antípodas da que hoje têm os nossos bispos e a gene­ra­li­dade dos nossos padres/pres­bíteros que mais parecem súbdi­tos e vassalos do poder da Cúria romana e do Código de Direito Canónico, e não seres humanos libertos para a liberdade e res­pon­sa­bilidade.

Todos eles são certamente muito católicos, sobretudo, muito romanos, mas não são nada cris­tãos. Seguem mais o papa e os cardeais da Cúria e os homens fortes do Opus Dei que estão lá infiltrados em tudo quanto é cen­tro de decisão eclesiástica, do que Jesus de Nazaré, o Cristo crucificado/ressuscitado. E, em­bora falem habitualmente no Es­pírito Santo, a verdade é que o amordaçam todos os dias, por mais festas de Pentecostes que ritualmente celebrem cada ano (aca­bam de celebrar mais uma. E que aconteceu para lá do ritu­al? Alguém sabe?)

Constatamos que Paulo levou tão longe a sua liberdade e res­ponsabilidade pessoal, para a qual Cristo o havia libertado, que, a esse propósito, não hesi­tou em determinar que a comuni­dade cristã de Corinto aceitasse desfazer os matrimónios consu­ma­dos, quando um dos cônju­ges, pelo facto de se ter tornado membro da comunidade cristã, passasse a ter graves problemas de convivência familiar e conjugal em sua casa, por parte do outro cônjuge que permanecia nos cultos dos ídolos, ou idolatria. É verdade que a separação não seria automática, nem imposta à força. Não há aqui nenhum lai­vo de sectarismo ou de fanatis­mo, por parte dos membros da comunidade cristã. Pelo contrá­rio, Paulo até reconhece que os membros da comunidade cris­tã podem ser ocasião de edifica­ção para o respectivo cônjuge. Mas, se em vez disso, há distúr­bios e quesílias, discussões e ge­neralizado mau viver, provoca­dos pelo cônjuge não-cristão, então que se se separem.

Esta prática é tão diferente do que tem sido, em todos estes séculos passados, a prática cató­li­ca romana, que não resistimos a transcrever o extracto como boa notícia. Mas ela mais não é do que uma postura decorren­te do facto da Fé cristã nos fazer crescer em liberdade e em responsabilidade. Vejam:

“Se algum irmão tem uma es­posa não crente e esta consente em habitar com ele, não a repu­die. E, se alguma mulher tem um marido não crente e este con­sente em habitar com ela, não o repudie. Pois o marido não crente é santificado pela mu­lher, e a mulher não crente é santificada pelo marido; de outro modo, os vossos filhos se­riam impuros, quando na realida­de são santos. Mas se o não crente quiser separar-se, que se separe, porque em tais circuns­tân­cias nem o irmão nem a irmã estão vinculados. Deus chamou-vos para viverdes em paz” (7, 12-15).

O mais impressionante é a razão que Paulo invoca para justificar comportamento tão livre e tão responsável, por parte dos cristãos e das cristãs, inclusive, nestas questões do matrimónio, ainda hoje tido sempre como in­dis­solúvel pela hierarquia católica, sejam quais forem os quotidianos dos cônjuges que o protagoni­zam. “Fostes chamados por Deus para viverdes em paz”, sublinha Paulo.

Entretanto, todas e todos nós da Comunidade cristã de base de S. Pedro da Cova nos recor­dámos, durante o encontro em que lemos/escutámos este capí­tu­lo da Carta de Paulo, que du­rante os séculos para trás em que as populações dos países do Ocidente viveram sob o “sagra­do” jugo do clero maior, médio e menor, nunca na Igreja se pôde viver esta liberdade que se viveu na Comunidade cristã de Corinto. Os cônjuges têm que manter-se um com o outro, até que a morte os separe, mesmo que um deles faça todos os dias a vida negra ao outro, geralmente, o homem à mulher. Até parece que Deus os chamou para viverem em con­tínua guerra, em contínua tortura. Nunca a Igreja foi capaz de tama­nha liberdade como aqui vemos Paulo ter/viver. Nem sequer algu­ma vez passou pela cabeça das pessoas católicas que essa liber­dade é a essência da Fé cristã, uma vez que lá onde não houver liberdade e responsabilidade pes­so­al e comunitária, também não há Fé cristã. Pode haver muita religião, muita idolatria, muito cul­to, realizado à sombra do santo nome de Jesus, mas tão-só para desumanizar ainda mais as pes­so­as que os frequentam.

Porém, da 1.ª Carta de Paulo aos Coríntios, recebemos agora o estímulo a crescermos mais e mais na Fé cristã jesuánica, o mesmo é dizer, a crescermos mais e mais em liberdade e em respon­sabilidade pessoal e comunitária.

Aliás, os nossos concidadãos e concidadãs só saberão que es­tamos a crescer na fé cristã jesuánica, se nos virem a crescer em liberdade e em responsabi­li­dade, todos os dias. Uma liber­dade que nos habilita a amar os demais, até darmos a própria vida. E uma responsabilidade que nos faz ser solidários e protago­nistas da história, lá onde mais for necessário, para que o nosso país e o nosso mundo progridam em bem-estar e em paz, coisa só possível quando a vida de to­dos os dias for de qualidade em todas as pessoas e em to­dos os povos.

À luz desta Carta de Paulo, não hesitamos em dizer igual­mente que, quando hoje a hie­rar­quia católica, desde o papa aos párocos, com os bispos de permeio, teimar em manter subju­gada a Igreja, nas comunidades concretas em que ela acontece por misteriosa acção do Espírito Santo (e acontece mais nas pe­quenas comunidades cristãs de base do que nas grandes paró­quias territoriais, em que tudo é massificado, rotineiro e opres­si­vo), essas mesmas comunida­des cristãs têm o direito e o de­ver de se rebelarem contra ela, em nome da Fé cristã jesu­ánica que nos faz livres e res­ponsáveis. Deixar-se subjugar pela hierarquia católica e conti­nuar a seguir normas e leis dis­ciplinares impostas por ela ao longo do tempo e que hoje se revelam mais do que caducas e contrárias ao Espírito Santo que faz novas todas as coisas, é renunciar a ser cristão/cristã, é tornar inútil a Páscoa de Jesus de Nazaré, o Cristo, é atirar ao lixo a sua memória subversiva e perigosa, cuja morte – lembra Paulo nesta mesma Carta aos Coríntios – anunciamos, sempre que hoje nos reunimos para co­mer (não fazer de conta que se come!), de modo sacramental­men­te actualizado, a sua Ceia.

Mas atenção! Nestas nossas reflexões comunitárias sobre a 1.ª Carta de Paulo aos Coríntios, também nos foi dado perceber que, hoje, nem sequer havemos de adoptar como nossas as res­postas e as soluções que Pau­lo, no uso da liberdade e da res­ponsabilidade para que Cristo o libertou, entendeu por bem dar aos problemas concretos da­quela comunidade. Como cristãs e cristãos deste início do terceiro milénio, o que temos é que estar tanto como ele, ou ainda mais abertos do que ele, à acção do mesmo Espírito Santo, para, com Ele, por Ele e nEle, encon­trar­mos as respostas novas que os problemas do nosso tempo exigem e os comportamentos libertadores que a consciência da Humanidade tem legitimamen­te direito a esperar e a exigir da Igreja que se diz de Jesus de Nazaré, o Cristo crucificado/res­suscitado. O que, convenha­mos, é uma verdadeira revolu­ção ainda por realizar, se calhar, até por iniciar! Quem na Igreja tem a audácia de ir por aqui?!

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José Comblin (Teólogo belga radicado no Brasil)
Aparições de N.ª S.ª: Está tudo na cabeça das pessoas

À pergunta "Como avalia o fenómeno das aparições de nossa senhora?", o teólogo da libertação belga que vive radicado no Brasil e que acaba de celebrar lúcidos 80 anos de idade, responde, sem rodeios: "É naturalmente um fenómeno na cabeça das pessoas”.

A edição de Junho de 2003 da Revista SEM FRONTEIRAS, dos Missionários Combonianos do Brasil que permuta com o Jornal Fraternizar, inclui uma entrevista com o Pe. José Com­blin, o conhecido teólogo belga da libertação que desde a déca­da de 60 vive radicado no Brasil. A entrevista aconteceu no contex­to da celebração dos 80 anos de vida do teólogo de fama inter­na­cional que foi assessor do Bis­po Hélder Câmara e agora vive junto do Bispo de Paraíba, José Maria Pires.

À pergunta,"Nos últimos a­nos, dizem que as aparições de N.ª S.ª têm aumentado muito. Como o senhor avalia isso?", Comblin responde sem rodeios e sem subterfúgios: "O que acon­tece é naturalmente um fenóme­no na cabeça das pessoas. Algo aparece na imaginação e na ca­beça das pessoas, que é uma re­presentação, que dizem que é de Nossa Senhora. Se for no mun­do branco, ela será branca; se for no mundo indígena, será bron­zeada; no mundo negro, é ne­gra, e fala a língua dos seus. Tudo acontece na cabeça das pes­soas. Em grande parte, é fru­to da miséria. As pessoas que têm uma condição humana digna não vão ter uma aparição de Nos­sa Senhora. Ela sempre apa­rece no mundo dos miseráveis, dos oprimidos.”

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