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Textos do
Jornal Fraternizar-
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| Edição nº 149, de Abril/Junho 2003 (Continuação) |
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Indignação e também congratulação
Querido Companheiro Juan José Tamayo Acosta:
A minha primeira palavra é de estupefacção e de indignação com o que os actuais inquisidores da Igreja católica estão a fazer contigo. Nunca perceberam nada de Jesus, nem da sua Boa Notícia. Voltariam a excomungá-lo, hoje, se pudessem. E, não satisfeitos com isso, voltariam a matá-lo na praça pública, como o maldito por antonomásia. Se te condenam, por falares tão bem dele, muito mais depressa o condenariam a ele. Não és tu quem os incomoda! Nem outros teólogos como tu. Quem os incomoda, é Jesus, esse mesmo que tu e outros como tu têm conseguido, graças ao Espírito que vos assiste, tornar tão presente e tão actual entre nós. E também tão politicamete interveniente. Obrigado, Tamayo, por teres contribuído tão decisivamente para rasgatar Jesus da beatice e dos altares idolátricos a que ele tem sido votado por certos eclesiásticos católicos, cardeais incluídos!
A minha segunda palavra só pode ser de parabém, de congratulação. Afinal, tu existes, para a Cúria do Vaticano! E a gente a pensar que os "teólogos malditos" já não contavam nada para os inquisidores do Vaticano, mas afinal contam. Tu existes! E perturbas o poder eclesiástico. Congratula-te. Coloca-te em atitude interior de EUCARISTIA. Ao mesmo tempo, e com humildade, continua a dar o melhor de ti em prol da Boa Notícia Jesus, por mais que te queiram desacreditar e desautorizar. É dos "teólogos malditos" que vem a libertação de que a Humanidade tanto carece. Estou contigo. Não conto para nada. Sou um excluído. Nem sequer existo para a Igreja local de que faço parte. Mas estou contigo com todas as minhas
forças. E com a minha comunhão. Sei que sairás ainda mais forte desta condenação inquisitorial. E que a tua palavra irá ser ainda mais escutada. Cultiva o bom-humor que, como sabes, é a arma dos pobres e das vítimas de todos os inquisidores. O Espírito Santo está contigo, agora amais do que nunca.
Abraço-te com toda a ternura do mundo.
Mário (de Portugal)
"Filho de Deus": Metáfora da Teologia cristã
Já que o livro Deus e Jesus, de Juan José Tamayo-Acosta, foi o que oficialmente mais provocou a ira dos inquisidores eclesiásticos católicos, apresentamos aqui, quase na íntegra, o capítulo IV, intitulado, "«Filho de Deus»: Metáfora da Teologia cristã", numa tradução da nossa responsabilidade:
1. OBJECTIVOS:
* Fazer o percurso que o título "Filho de Deus", aplicado a determinadas personalidades religiosas e políticas, fez nas diferentes religiões e culturas.
* Analisar outras aplicações do mesmo título na tradição judeo-cristã: aos/às israelitas, aos cristãos e cristãs, à Sabedoria personificada sob a forma de mulher.
* Descobrir o significado do referido título aplicado a Jesus de Nazaré nas distintas tradições do Novo Testamento: sinópticos, Paulo, escritos de João.
* Descobrir a experiência religiosa dos seguidores na sua relação com Jesus e as primeiras formulações dessa experiência.
* Seguir as formulações ulteriores ao longo da história do cristianismo.
* Analisar as dificuldades que levanta a afirmação da divindade de Jesus, quer entre os cristãos, quer entre os não cristãos.
2. CHAVES PARA A REFLEXÃO
Com o título "filho de Deus", o Novo Testamento pretende expressar a relação pessoal de Jesus com Deus uma relação única que não consegue afirmar-se de forma adequada apenas com a afirmação da humanidade e a manifestação de Deus ao modo humano, o Deus humaníssimo de que fala Schillebeeckx.
Mas por muito única e peculiar que seja a relação paterno-filial entre Deus e Jesus, ela vai mais além dos dois e implica os cristãos e as cristãs que também são filhos e filhas. E a prova é que podem dirigir-se a Deus, com a mesma invocação utilizada por Jesus na oração: Abbá! (Rom 8, 15). Jesus é o primogénito entre muitos irmãos (Rom 8, 29).
"Filho de Deus", um título aplicado desde a antiguidade a faraós e reis
A expressão "filho de Deus" não se aplica pela primeira vez a Jesus no contexto judeu e menos ainda na história das religiões. Emprega-se com frequência no Antigo Oriente, sobretudo no Egipto. O faraó ostentava este título. Ao nascer duma mãe terrena virgem e de um pai divino, tinha duas naturezas: era verdadeiro deus e verdadeiro ser humano. Porém, a revelação da sua condição divina tinha lugar apenas no solene acto de entronização.
As ideias egípcias sobre o faraó como filho de Deus difundiram-se por Israel, sobretudo, com a consolidação da monarquia davídico-salomónica e o título de "filho de Deus" aplicou-se ao rei davídico e ao rei messiânico, cuja vinda se esperava ansiosamente.
Nesta linha se situa o Salmo 2, em cuja origem se encontra o ritual egípcio de entronização do faraó. Cita-se expressamente o "decreto do Senhor": "Tu és meu filho, hoje te gerei" (Sal 2, 7), que era o documento entregue ao rei no momento da entronização. Nesse dia, concedia-se ao rei o título de "filho de Deus". Na mesma linha vai o Salmo 110, 1.
O Novo Testamento cita este Salmo várias vezes e dá-lhe sentido messiânico. O Evangelho de Mateus põe duas vezes na boca de Jesus o primeiro versículo deste Salmo. Uma, em plena disputa com os fariseus (Mt 22, 44) e outra, durante o processo diante do Sinédrio (Mt 26, 63-64). No discurso do Pentecostes, Pedro cita este mesmo Salmo 110, 1 (At 2, 34-36).
Filhos e filhas de Iavé
É de todo conveniente sublinhar que o termo hebraico ben (filho) (= bar em aramaico) não designa apenas nem primariamente a descendência e o parentesco físicos. Trata-se de um conceito associativo que indica pertença ao mesmo povo, ao mesmo Deus, ao mesmo grupo humano, ao mesmo ofício.
Neste sentido, chama-se "filho" ao povo de Deus (Ex 4, 23) e a relação entre Iavé e Israel é a de paternidade-filiação (Jer 31, 9: Dt 14, 1; Is 43, 6).
A literatura sapiencial apresenta o justo sobretudo, o justo sofredor como filho de Deus (Sb 2, 16).
A sabedoria, filha de DeusA partir do exílio na Babilónia, a denominação de filha de Deus aplica-se à sabedoria. Ela chega a personificar-se sob a forma de mulher, a amada que se procura sofregamente (Ben Sira 14, 22-25).
A sabedoria autoapresenta-se como filha de Deus, gerada antes da criação de todas as coisas (Prov 8, 22ss).
"Filho de Deus" aplicado a Jesus nos evangelhos sinópticos
O título "filho de Deus" aplicado a Jesus pelas comunidades cristãs primitivas mergulha as suas raízes no Antigo Testamento. Quase todos os textos veterotestamentários que aplicam a expressão a uma pessoa individual são citados no Novo Testamento.
O título ocupa lugares importantes na estrutura do Evangelho de Marcos. Aparece, sob diferentes modalidades, ao princípio (1, 1.11), no meio (9, 7) e no fim (15, 39), e cinco vezes mais noutras passagens.
Jesus fala duma radical desigualdade entre o que Deus pode, quer e sabe, e o que o Filho pode, quer e sabe (13, 32 e 14, 36).
Que significado devemos dar à confissão de Jesus como Filho de Deus em Marcos? Respondo com B. van Iersel: "Talvez simplesmente que Jesus é o rei messiânico".
Mateus emprega a expressão "Filho de Deus" com mais frequência do que Marcos, embora com menor precisão. Não só a aplica a Jesus, mas também a outras pessoas, como as que trabalham pela paz (5, 9) e as que amam os seus inimigos (5, 45). Quando se refere a Jesus, a expressão costuma limitar-se aos significados da mesma expressão no Antigo Testamento, sobretudo, o messiânico. Em caso algum, chega a produzir-se um deslizar para o significado que lhe atribui a definição dogmática do concílio de Calcedónia, nem sequer quando, no final do Evangelho, Jesus envia os apóstolos a baptizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (28, 19).
Lucas dá ao título o significado messiânico que tem nos outros dois sinópticos. Embora, no relato do nascimento haja um texto que parece ir mais longe, ao relacioná-lo com a procedência divina de Jesus: "O Espírito do Senhor virá sobre ti e o poder do Altíssimo cobrir-te-á com a sua sombra; por isso o que há-de nascer de ti será santo e chamar-se-á Filho de Deus" (1, 35).
Nos Actos, o título aparece duas vezes. A primeira resume a pregação de Paulo nas sinagogas (9, 19-20); a segunda encontra-se no discurso de Paulo na sinagoga de Antioquia da Pisídia.
A cristologia de Paulo: O Ressuscitado, Filho de Deus"Filho de Deus" é o título que caracteriza a cristologia paulina. Porém, Paulo não restringe o título a Jesus. Aplica-o aos que crêem nele e se deixam conduzir pelo Espírito de Deus (Rom 8, 14-18). Vai mais longe e em Gálatas 3, 26 ousa afirmar que todos, judeus e gentios, são filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo.
Contudo, a filiação divina dos cristãos e das cristãs e a de Jesus não se situam ao mesmo nível. Os primeiros são filhos por adopção, Jesus é o Filho próprio de Deus.
Romanos 1, 3-4 recolhe uma confissão cristológica pré-paulina que vincula o título de Filho de Deus com a ressurreição.
Os escritos de João: o Filho UnigénitoNos escritos de João (evangelho e cartas), o uso do título "Filho de Deus" é frequente e tem especial relevância. Coincide em aspectos fundamentais com o de Paulo. Entre o Pai e o Filho existe uma união íntima em todos os níveis: nas palavras e nas obras.
Há algo no Prólogo do evangelho que pode ser problemático: "A Deus ninguém jamais o viu, o Filho Unigénito que está no seio do Pai é que o deu a conhecer" (1, 18).
Contudo, nem deste texto se pode deduzir que o Filho tenha nascido do Pai. De modo algum ele afirma que haja procedência ou nascimento do Filho, de Deus Pai.
Jesus, Deus?
A divindade de Jesus de Nazaré constitui um dos núcleos fundamentais da tradição cristã. É "o selo e a alma do cristianismo" (B. McDermott). Contudo, nunca foi tema de consenso entre os cristãos, os teólogos, os bispos, etc. A divindade de Jesus sempre foi vivida e confessada no meio de fortes e permanentes conflitos doutrinais que provocaram feridas profundas, quando não rupturas, na unidade da fé, tanto nos seus aspectos religiosos, como nas suas implicações políticas.
Nas definições cristológicas houve uma tendência para a absolutização da linguagem. Como disse Rahner, o que eram convenções de linguagem elevou-se à categoria de textos imutáveis.
Hoje, encontramo-nos com posições em confronto. Por um lado, as formulações tradicionais sobre a divindade de Jesus Cristo provocam um profundo mal-estar entre os cristãos e uma forte rejeição nos ambientes culturais alheios ao cristianismo.
Por outro lado, em amplos sectores cristãos há uma tendência a identificar e inclusive, a confundir Jesus com Deus e Deus com Jesus. Isso fica a dever-se a uma educação religiosa desviada, que deve ser corrigida, pois carece de base neotestamentária. Vejamos:
Poucos são os textos do Novo Testamento nos quais se aplica a Jesus o termo "Deus". O próprio Jesus resiste a que o chamem "bom", alegando que só Deus é bom (Mc 10, 18). Em repetidas ocasiões estabelece a diferença com o Pai, a quem chama "meu Deus". Também a carta aos Efésios marca as distâncias entre Deus e Jesus (4, 4-5).
Os textos que apresentam Jesus como Deus oferecem não poucas dificuldades. São textos do género hímnico ou doxológico.
O Prólogo do Evangelho de João fala do Logos (Palavra) como Deus: "A Palavra era Deus". Mas o termo grego theos (Deus), aplicado a Palavra, não leva artigo! Não exprime portanto a identidade pessoal da Palavra com o Pai, a quem noutros textos, se lhe chama Deus, mas com artigo (= o theos). Isto acaba por ser confirmado pelo próprio Evangelho quando põe Jesus a dizer: "O Pai é maior que eu".
Penso que não se pode identificar o significado da frase "a Palavra era Deus" com a confissão do concílio de Niceia que reconhece Jesus Cristo como "Deus verdadeiro de Deus verdadeiro.
Paulo raramente chama a Jesus "Deus". A tendência é reservar esse título para o "Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo" (Rom 15, 6). Até apresenta Cristo subordinado ao Pai (1Cor 3, 23) "Nas cartas de Paulo não descobrimos nada acerca da preexistência e consubstancialidade de Jesus com Deus. Ele é mais do que simples criatura, mas é inferior a Deus" (B. van Iersel).
Podemos, pois, concluir que a identificação de Jesus de Nazaré com Deus não se deduz dos dados do Novo Testamento. Tão pouco se deduz dos ensinamentos cristológicos dos concílios. O concílio de Niceia não diz que Jesus seja Deus, mas que é da mesma natureza que o Pai. O concílio de Calcedónia tão pouco identifica Jesus com Deus, mas fala da convergência ou união das duas naturezas nele, porém sem confusão nem mudança, sem divisão nem separação.
O enigma da cristologia
Jesus, filho de Deus? Estamos, como reconhece M. Hengel, diante do enigma por excelência das origens da cristologia, porém, também diante de um dos problemas fundamentais da teologia e do cristianismo. Vejamos porquê.
Jesus de Nazaré foi crucificado como malfeitor, inimigo do império romano e blasfemo da sua própria religião. Um quarto de século depois, Paulo, um judeu procedente do farisaísmo, a quem Nietzsche considera o "verdadeiro fundador do cristianismo" e Wrede o "segundo fundador do cristianismo", escreve uma carta à comunidade cristã de Filipos, na qual recolhe um antigo hino sobre o crucificado Jesus nestes termos:
"Ele que é de condição divina não considerou como uma usurpação ser igual a Deus; no entanto, esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo. Tornando-se semelhante aos homens e sendo, ao manifestar-se, identificado como homem, rebaixou-se a si mesmo, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Por isso mesmo é que Deus o elevou acima de tudo e lhe concedeu o nome que está acima de todo o nome, para que, ao nome de Jesus, se dobrem todos os joelhos, os dos seres que estão no céu, na terra e debaixo da terra; e toda a língua proclame: Jesus Cristo é o Senhor!, para glória de Deus Pai" (2, 6-11).
O hino tem duas partes. A primeira sublinha a autohumilhação de Cristo. A segunda refere-se à exaltação de Jesus por parte de Deus. Estabelece, além disso, uma relação de causa e efeito entre humilhação e exaltação. E aqui radica o grande paradoxo: que quem não se destacou em vida por nenhuma gesta heróica; que quem não foi soberano, nem teve título de Senhor; que quem acabou os seus dias crucificado como maldito e subversivo aos olhos do Império e da sua própria religião, é considerado "Senhor" e Messias. E, paradoxo ainda maior: o anúncio do Messias crucificado converte-se no núcleo da pregação de Paulo e no centro da Fé cristã. Isto não podia deixar de chocar a mentalidade helenista que nos seus cultos aclamava os "senhores" que tinham tido uma existência gloriosa. Tinha que surpreender igualmente o mundo judaico, para quem o Messias devia ter uma existência gloriosa que Jesus não teve. Por isso, dirá Paulo que o anúncio de um Messias crucificado é "escândalo para os judeus, loucura para os gregos" (1 Cor 1, 23).
A influência do helenismo
Temos que perguntar-nos agora se na génese da cristologia pode falar-se de continuidade entre Jesus e Paulo, ou, pelo contrário, se há que falar de ruptura. As respostas a esta pergunta são plurais e divergentes.
A teologia liberal e a escola da história das religiões apontam Paulo como o responsável pelo ocultamento do Jesus histórico, pelo aparecimento da cristologia e, por último, pela helenização do cristianismo. O Jesus histórico é absorvido pelo Cristo preexistente.
A fé no filho de Deus não pertence à fé judaica, mas constitui uma premissa pagã na qual Paulo fundamenta a sua cristologia. "A figura de um filho de Deus que sofre, morre e volta à vida, é conhecida também pelas religiões mistéricas, e antes de mais, a gnose conhece a figura de um filho de Deus feito homem, do redentor celestial feito homem" (R. Bultmann).
Paulo retira Jesus do horizonte profético que lhe é próprio e coloca-o na esfera metafísica e mítica que lhe é alheia.
O concílio de Calcedónia não soluciona o problema
Os concílios costumam mover-se num duplo plano: a) o da polémica à volta duma questão doutrinal em debate, e b) o das soluções de compromisso entre as partes em conflito.
Por outro lado, as respostas que dão aos problemas doutrinais são parciais e limitadas. Por isso, digo com T. van Bavel: "As gerações futuras não deveriam sobrestimar a terminologia de Calcedónia".
Não se esqueça que muitos bispos participantes no concílio de Calcedónia expressaram a sua desconfiança em relação à terminologia aí usada e relativizaram os novos conceitos a que o concílio recorreu, por não corresponderem à experiência religiosa popular.
Se os bispos mostraram essa desconfiança, por que não havemos de a poder expressar hoje também? Se a muitos bispos participantes no concílio as expressões utilizadas pareceram inadequadas, muito mais hoje, decorridos todos estes séculos.
Não se trata portanto de hoje sermos fiéis à literalidade do texto de Calcedónia, o que nos levaria a sermos fundamentalistas, mas de nos interrogarmos sobre a significação de Jesus o Cristo na vida dos cristãos e cristãs, sobre a sua relevância nas condições de vida hoje, tão distintas daquelas em que a profissão de fé de Calcedónia se formulou.
Na definição de Calcedónia, não aparece nenhuma referência à vida terrena de Jesus de Nazaré, ao seu ministério público, à sua paixão, à sua morte, à experiência da ressurreição vivida por seus seguidores, mulheres e homens. A perspectiva de onde se fala de Jesus é alheia à perspectiva dos relatos evangélicos. O Cristo de Calcedónia é um ser estático, imóvel, sem acção nem paixão, sem actividade nem movimento, sem história nem vida terrena! É verdade que se acentua a sua humanidade, mas não se oferece nem uma só manifestação da mesma. A ruptura com o Jesus histórico é total.
O Cristo de Calcedónia é tão perfeitamente humano que tem mais semelhanças com um retrato robot que com a vida real dos seres humanos que se alegram e entristecem, sofrem e gozam, vivem e morrem, mudam de opinião, sentem medo e inclusive pânico, têm dúvidas de fé e às vezes perdem a fé esperam e desesperam. As qualidades atribuídas a Jesus por Calcedónia não são humanas, mas divinas. E isto tem um nome: é reducionismo transcendentalista.
Por outro lado, a relação entre as duas naturezas, a divina e a humana, é de justaposição. Cada uma tem o seu campo de acção. O que, segundo van Bavel, leva directamente a um "dualismo prático".
Além disso, o Deus de Calcedónia é o Deus eterno, todo-poderoso, inalterável, alheio aos sofrimentos dos seres humanos e da criação, que nem sente nem sofre. O Deus e o Cristo de Calcedónia têm muito pouco a ver com o Deus e o Cristo da Carta aos filipenses e menos ainda com o Iavé compassivo do Êxodo e com o "Servo de Iavé", dos cânticos de Isaías.
Na formulação cristológica de Calcedónia passa-se do campo cultural bíblico ao campo cultural helenístico.
No actual contexto multicultural do cristianismo, julgo ser necessário superar a formulação de Calcedónia. Nem o Jesus do Deus de Calcedónia tem que ver com o Jesus do Deus dos evangelhos, nem o Deus do Jesus de Calcedónia tem que ver com o Deus revelado por e em Jesus: amoroso, que perdoa, reconciliador, solícito, solidário com os que sofrem.
A dialéctica humanidade-divindade
Durante muitos séculos, a afirmação da divindade de Cristo fez-se à custa da humanidade. A figura de Cristo perdia toda a sua força histórica e convertia-se num mito.
Hoje, a relação humanidade-divindade de Cristo não se põe nem se explica por via conceptual grega, sob a ideia de "união hipostática", mas por via relacional. Jesus não vive nem actua para si, nem se prega a si mesmo, nem se considera o centro de nada. A sua vida e a sua pessoa, a sua mensagem e a sua prática são relacionais: estão referidas aos demais Bonhoeffer definiu-o como "ser-para-os-demais" e a Deus-Pai/Mãe.
"Jesus afirma Schillebeeckx põe o epicentro da sua vida em Deus".
Para Jesus, não há estrangeiros, estranhos; todos são próximos, irmãos e irmãs, filhos e filhas de Deus. Com esta sua atitude, revela Deus, não o Deus que se manifesta majestaticamente na natureza, nem o que compete com os poderosos da terra e elimina os inimigos, nem o Deus inacessível a quem só se pode chegar através de intermediários, mas sim o Deus que actua na história e se compromete com a trama humana. Humanidade-divindade em Jesus não são, pois, compartimentos estanques, nem pisos sobrepostos.
A resposta mais adequada à pergunta: "Como é que Jesus é Filho de Deus?" é, na minha opinião, a oferecida pelo próprio Schillebeeckx: "Jesus de Nazaré, o Crucificado ressuscitado, é o Filho de Deus em forma de homem real e contingente". Talvez não se possa dizer mais e melhor. Eu, pelo menos, não sou capaz de o fazer.
Jesus, "Filho de Deus": uma metáfora da teologia cristã
Eu penso que é no concílio de Calcedónia onde se passa do uso metafórico da expressão "Filho de Deus" à sua consideração dogmática. E isso, na minha opinião, constitui uma grave perda para a fé e para a linguagem da fé que tem sempre um carácter metafórico e simbólico.
Coincido a este respeito com B. van Iersel em que "quem chama a Jesus «Deus» fala talvez mais intensamente em metáforas que quem lhe chama cordeiro, caminho, verdade, vida, luz, videira e pão". E isso não constitui nenhuma desvalorização de Jesus de Nazaré. A linguagem metafórica é a que melhor exprime o mistério de Deus.
Se, como afirma Schillebeeckx, os seres humanos são "relato de Deus", Jesus é a metáfora mais expressiva, ou, se se prefere, a metáfora viva de Deus.
O conteúdo do título "Filho de Deus" não tem nada de dogmático. É a síntese certeira do relato de uma vida, a de Jesus, onde se tecem a morte e a ressurreição. Uma vida descrita ao modo parabólico, com todo o seu dramatismo, na narrativa dos vinhateiros homicidas, na qual Jesus é apresentado como o profeta enviado por Deus, não do mesmo nível dos profetas anteriores, mas como o último, o maior e o que mantém uma relação mais profunda com Deus, enquanto filho amado. Uma vida que, graças ao poder vivificador de Deus, consegue vencer o poder da morte!
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Igreja/Sociedade
César Príncipe, na apresentação pública do livro E DEUS DISSE: DO QUE EU GOSTO É DE POLÍTICA, NÃO DE RELIGIÃO
O pe. Mário não é um quisto, é um Cristo
Na sessão de apresentação do novo livro do pe. Mário, E Deus disse: do que eu gosto é de Política, não de Religião, realizada na noite do dia 28 de Fevereiro último, no Auditório do JN, no Porto, o jornalista e escritor César Príncipe entusismou-se tanto que, a dada altura, deixou de ler o texto que previamente havia preparado e passou a referir certos pormenores sobre a vida de alguns padres católicos que, no passado, também foram críticos da sua Igreja e passaram as passas do Algarve por isso. Com este parêntesis, César Príncipe quis sublinhar que a voz e a vez do pe. Mário, apesar de incómodas, não são únicas na Igreja católica. E, no seu entusiasmo, saiu-lhe uma afirmação que fez rir e pensar as pessoas presentes, e que aqui se regista, uma vez que não faz parte do texto que ele na altura partilhou e que o Jornal Fraternizar publica na íntegra. A afirmação é esta: "O pe. Mário, ao contrário do que pensa muita gente, não é um quisto, é um Cristo".
Caríssimos Amigos do Livro, da Verdade e da Liberdade:
"E Deus disse: do que eu gosto é de política, não de religião". E quem o diz por Deus é o padre Mário de Oliveira, agora em mais um livro e que há décadas o tem reafirmado por jornais, rádios e televisões, por espaços sagrados e laicos. Mas tais escritos e ditos poderão ser referenciados, por exemplo, no Velho Testamento, num dos cinco livros de Moisés, Cópia da Lei ou Deuteronómio (6-8-11-13-16-21) ou no Novo Testamento, por exemplo, no Evangelho de Mateus, no Discurso sobre a Igreja (18) ou em Jesus diante do tribunal judaico (26, 47-75). Mas estamos a citar um Evangelho do presente, segundo o presbítero Mário (www. campo-letras.pt).
Desde logo, este padre, que mais estima ser chamado de presbítero, irmão e companheiro, dedica o livro " Deus disse" a dois padres, irmãos e companheiros, Gaspar, do Porto, e Maximino, de Vila Real, este último assassinado, ambos entregues a causas justas contra coisas injustas, a causas legítimas contra causas iníquas. "E Deus disse" é uma colectânea de artigos, antes impressos no Jornal Fraternizar, de que é director (e como é raro e honroso dirigir um jornal de fraternidade num tempo de indústrias do salve-se quem puder; e como é revelador que tal jornal e tal título houvessem encontrado inspiração, feitura e sede em S. Pedro da Cova, terra de minas abandonadas pela iniciativa empresarial, mas de mineiros jamais abandonados pela silicose, a silicose maré negra do carvão, aqui, à nossa costa, há muito arribada.
O ritual de lançamento de um livro não consente resumos nem detalhes de temas e perspectivas. A simples leitura dos títulos nos sugere um universo em expansão de factos, sentimentos e reflexões. Bastaria discorrer um pouco sobre um dos textos para ficarmos cativos da curiosidade e da dialéctica. Logo Mário de Oliveira nos coloca perante a urgência de se "Evangelizar a Política e os Políticos". Tarefa instante da Igreja, que deveria também evangelizar-se e não amancebar-se com o Poder, razão de fundo de outro texto. E passando-se ao segundo artigo de primeira necessidade, "Deus nunca foi à Missa aos domingos", sobram invocações de narrativas divinas e gráficos estatísticos. Com efeito, não apenas Deus terá andado arredio de missas, segundo o padre Mário, também os devotos estão a afastar-se de tal prática, segundo a Conferência Episcopal Portuguesa. Reunida em Fátima, a CEP divulgou indicadores refractários: em 1991, assistiram ao Santo Sacrifício 2 milhões e 44 mil portugueses; em 2001, a frequência cifrou-se em 1 milhão e 933 mil almas. Com uma subtileza: a frequência é dominada por mulheres e idosos. Também o número de comungantes sofreu um deslize de 6%. Com outra subtileza: 70% dos comungantes são do sexo feminino. Onde chegaríamos de constatação em constatação e de comentário em comentário? Por exemplo, a Igreja perdeu o exclusivo, depois a liderança, continuando em perda na Sociedade do Espectáculo e da Informação, no Mundo do Trabalho e da Cultura, vendo-se batida pela Teologia do Mercado, que as Universidades Católicas ajudam a legitimar e a difundir e pelas Catedrais do Consumo, superlotadas de fiéis, de cristãos-velhos e de cristãos-novos. E que terá dito e ainda dirá Deus dos expedientes da Pax Christiana para arrumar ou liquidar tantos e tão bons filhos de Adão e Eva, não só leigos e incréus, mas padres e frades, cónegos e bispos, cardeais e papas? (Exemplos nacionais: Padre Himalaya e Padre Abel Varzim).
Pelos 45 artigos do Fraternizar, agora em livro, se cruzam muitas das evidências, das insatisfações, das angústias e das aspirações de milhões de vivos, que já foram partilhadas por milhões de mortos.
Mário de Oliveira não toca nos assuntos para exibir ciência ou caridade. Toma posição indispondo-se contra a ordem estabelecida, estabelecida pelas armas e restantes apetrechos do poder e do saber, já que o saber também é um poder ou um contrapoder. E a ignorância dos pobres é a maior arma dos ricos, talvez a sua maior riqueza. Perante tal dilema, Mário de Oliveira não vacila em pôr-se do lado do Evangelho. Ele é partícipe e artífice de uma Igreja ética e profética contra uma Igreja cerimonial e administrativa. Ele é companheiro de uma Igreja de mais missões e de menos missas, aliada dos deserdados e não ciosa de territórios, mais voltada para acções de bolso do que para acções de Bolsa. Desde logo, é um crente perguntador, que ambiciona um novo desenho para o Céu e uma nova arquitectura para a Terra. Ele, este mesmo, aqui e hoje connosco, interpela, mais uma vez, os funcionários da Salvação, instando-os a desocupar os cenários litúrgicos e a testemunhar nos locais da guerra e da paz, da miséria e da cegueira. Assim, Mário, apoiando-se em Jeremias (7, 11), apelida de covis de ladrões determinadas Casas de Deus. E com tão incomplacente denúncia está, por certo, a fazer política, aquilo de que Deus gosta. Porque também redunda em política qualquer acto religioso, embora, nesse âmbito, se pretenda iludir o propósito e ocultar a consequência (Exemplos nacionais de Igreja Modernizante e de Igreja Tradicional: Frei António do Desterro, Frei Inácio de São Caetano, Frei Joaquim de Santa Clara Brandão; Cónego Vasco Domingues, Cardeal Alpedrinha). E não será política quanto se faz e não se faz, quanto se diz e se cala? Dizer que não se é político ou que não se faz política é o modo mais cínico ou inconsciente de ser político e de fazer política. E o que nos disse e diz Mateus, o Evangelista? Oiçam Mateus, ex-cobrador de impostos de Herodes Antipas. Oiçam Mateus, com repartição de finanças em Cafarnaum, junto à foz do Jordão, reconvertido num dos 12 Apóstolos, seguidor e semeador da Nova Lei:
"Jesus não veio para destruir a Lei, mas para cumpri-la" (Mt 5, 17-19).
OUVI, Magistrados, Professores, Militares, Polícias!
"Os judeus recusaram Jesus. O reino é entregue aos gentios" (Mt 3, 8s; 21, 43-46; 23).
OUVI, Políticos, Empresários, Sindicalistas, Economistas!
"Antes da eternidade, o Reino é o presente, a sociedade actual" (Mt 3, 2; 4, 17.23; 9, 35; 10, 7; 12, 28).
OUVI, Ministros de Deus, Santos, Virgens, Eremitas!
Também Mateus, no Discurso sobre a Igreja (Mt 18), considera a Igreja um corpo hierárquico, fonte de poder e de sua transmissão, mas de um poder assente no cumprimento da lei.
Querem mais política ou desejam mais religião?
Pois bem, se assim escreve Mateus, escutem o que diz o Deuteronómio, Livro 5. Alguns pontos:
"Eu sou Javé, teu Deus, aquele que te fez sair da terra do Egipto, da casa da escravidão".
OUVE, Carvalho da Silva!
"Trabalharás durante seis dias. O teu escravo e a tua escrava poderão repousar como tu. Recorda que foste escravo na terra do Egipto".
OUVE, Bagão Félix!
"Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem desejarás para ti... o seu boi, nem o seu jumento, ou qualquer outra coisa que pertença ao teu próximo".
OUVE, Santana Lopes!
"Não roubarás".
OUVE, Berlusconi!
"Não matarás".
OUVE, Blair!
"Não pronunciarás o nome de Javé em vão".
OUVE, Bush!
"Não farás para ti nenhuma imagem esculpida, representando algo que esteja no alto do céu, ou cá em baixo sobre a terra...".
OUVE, Lúcia!
Ora, caríssimos irmãos, crentes ou descrentes, todos somos políticos. Nesta esquiva amostragem do Novo e do Velho Testamento, deparámos com instruções sobre Direito Nacional e Internacional, sobre a função da máquina eclesial, sobre a libertação dos servos, sobre o Código Laboral, sobre o Golfo Pérsico ou a Península Coreana, sobre a pilhagem das riquezas nacionais e mundiais, sobre as idolatrias de objectos e pessoas.
E estas citações não foram extraídas das verdades ou versões do padre Mário, presbítero "sem ofício pastoral oficial", sob suspeita do Aparelho Eclesiástico. Estas puras e duras instruções políticas foram retiradas de um dos manuais oficiais do catolicismo, de um Dicionário Bíblico, da 6.ª edição/1983, obra de John Mckenzie, enaltecido biblista norte-americano, SJ, isto é, da Societas Jesus ou Companhia de Jesus, fundada em 1531 e aprovada em 1540. Obra vinda à luz em São Paulo/Brasil, por encargo da Paulus, pois "Paulistas" também se denominaram os jesuítas no Oriente. Tudo isto se atesta e o mais que se aprouver, a fim de que não se insinue qualquer instrumentalização ou desvirtuação das palavras dos profetas, dos evangelistas e do ex-pároco da Lixa, que bem lixado tem sido por se atrever a usar, sem visto prévio, a cabeça e o coração, o poder do Verbo contra o poder da Verba. É nesta esfera de interesses que se operam as clivagens dentro e fora da Igreja: Rahner e Ratzinger são dois paradigmas de pensar a Igreja e de estar na Igreja.
"E Deus disse: do que eu gosto é de política, não de religião". E quem sou eu para discordar do Omnisciente e do Omnipresente? E Deus disse para que vos dissesse: Boa Noite, procurem-me nas livrarias, antes que alguém as mande encerrar, juntamente com outros arguidos de perturbação da ordem, cúmplices do "Acontece". E Deus também disse, autorizando-me a reformular e a contextualizar a sua compaixão pelos centuriões do momento: Não lhes perdoeis, Pai, porque eles sabem o que fazem: querem estátuas ao cónego Melo e a inclusão da literatura, da filosofia, das artes e dos direitos sociais no rol das armas de destruição proibidas pelo Império.
Boa Noite, companheiros. E que Deus vos acompanhe, pois que os templos estão cheios de vendilhões e as ruas de pedófilos. É realmente um perigo entrar na Casa de Deus ou sair da Casa do Homem.
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Também o pe. Mário, como autor do livro, falou sobre a sua obra. Eis o que disse:
Mas então para que servem os sacerdotes?
Mas então, se Deus do que gosta é de Política e não de Religião, para que servem os padres/sacerdotes e os bispos/sacerdotes que se dedicam em exclusivo à religião? Para que servem os líderes religiosos de todas as religiões do mundo? E para que servem os pastores das Igrejas protestantes, tanto os Pastores das Igrejas da Reforma, como os das novas Igrejas que hoje aparecem aí apostados em implantar em todo o mundo, a par da nefasta globalização neoliberal do Mercado total, a Religião do sucesso e dos milagres-a-troco-de-dinheiro?
A minha resposta é esta: Não servem para nada. E o melhor que as pessoas e os povos têm a fazer é dispensar quanto antes os seus serviços religiosos. Digo mais: Quantos mais eles forem e quanto mais dedicados eles forem, tanto pior para as pessoas e para os povos. Pois mais atrapalham as pessoas e os povos. E mais dispendiosos ficam às pessoas e aos povos. Tudo o que eles fazem, como religião, anda inquinado, à partida, e envenena/paralisa as pessoas e os povos. Aliena. Domestica. Converte as pessoas e os povos em pessoas e povos paralíticos, cegos, surdos, mudos mortos. Numa palavra, transforma as pessoas e os povos em servos, súbditos, apolíticos, subservientes, gente sem voz nem vez.
O Cristianismo de Jesus de Nazaré não é uma religião. Como Jesus, o Cristo, também o Cristianismo que dele provém foi concebido e nasceu por obra e graça do Espírito Santo, para ser a via ou o caminho de libertação para a liberdade de todas as pessoas e de todos os povos, qualquer que seja a sua cultura e a sua religião.
Quando digo que o Cristianismo foi concebido e nasceu por obra e graça do Espírito Santo, estou a querer dizer que ele, tal como Cristo, não faz parte de nenhum dos Sistemas que dominam o mundo; estou a querer dizer que ele não é deste mundo dominado/governado pelos poderosos, que são todos mentirosos e assassinos, ladrões e exploradores, genocidas e ecocidas. Tal como hoje se pode constatar no exemplar mais acabado dos poderosos do mundo, o chamado presidente George W. Bush, um ser com tudo de politicamente demente e de lobo voraz (com o público pedido de perdão aos nossos irmãos lobos que, à beira dele, são inocentes cordeiros!)
Pois bem, são os poderosos do mundo, não o Espírito Santo, que criam os Sistemas, também os sistemas religiosos, através dos quais sempre têm conseguido manter enquadradas as maiorias oprimidas e empobrecidas do mundo. Quando falham as religiões e as prédicas moralistas e obscurantistas dos padres/sacerdotes, dos Pastores e dos outros líderes religiosos, entram logo em acção as Escolas e os Media, sobretudo, estes últimos, habilmente controlados por eles e pelos seus homens de mão, a quem pagam bem pago, para que nos sirvam a toda a hora e momento overdoses de novelas e de futebol, ou sessões ininterruptas de sexo pornográfico. E, quando até os Media deles falham felizmente, há sempre quem meta um pauzinho na engrenagem! logo entram em acção os exércitos e os polícias armados até aos dentes, com cães e medonhos carros de combate, submarinos e aviões supersónicos com bombas de destruição maciça, tudo meios altamente eficazes, com poder bastante para nos meter em casa, rabo entre as pernas, cães domesticados, porventura, muito anafados, reverentes e agradecidos ao "grande irmão", que tem tudo de besta e de monstro e nada de fraterno/sororal e de companheiro.
Quando os textos fundantes do Cristianismo dizem que Jesus de Nazaré, o Cristo, foi concebido e nasceu por obra e graça do Espírito Santo, não estão a sugerir que ele foi concebido e que nasceu sem o contributo sexual/amoroso do homem que veio a ser o seu pai biológico. Por favor, não façam dos cristãos e das cristãs da Igreja primitiva pessoas ingénuas. Eles e elas eram a lucidez em pessoa e em movimento. O Evangelho de Mateus chega a dizer que elas e eles são a luz do mundo, o sal da terra e o fermento na massa! Por isso é que foram tão perseguidos pelo Judaísmo, primeiro, e pelo Império romano, depois (hoje, são perseguidos pela cúria do Vaticano e seus cardeais e pelas cúrias episcopais e seus acólitos).
O que elas e eles proclamavam, com essa expressão altamente teológica, é que Jesus de Nazaré, o Cristo, não era do Sistema então imperante, muito menos, do sistema religioso, na época, o mais perigoso e o mais poderoso de todos, uma vez que as sociedades de então eram teocráticas, e os seus chefes lidavam e ainda hoje lidam com a consciência das pessoas e dos povos e conseguiam condicionar, à partida, mesmo antes delas e deles nascerem, todas as suas opções, escolhas, decisões, posturas, concepções de vida, modos concretos de organizarem as suas vidas individuais, familiares e em sociedade.
O que as cristãs e os cristãos da Igreja primitiva querem dizer com essa expressão é que Jesus de Nazaré é o primeiro ser humano concebido e nascido fora do Sistema, de todos os sistemas. Ou, por outras palavras, querem dizer que Jesus é o Homem integral, definitivo, acabado, como aliás todas e todos nós mulheres e homens, ateus incluídos antes e depois dele havemos de ser também, se, entretanto, também aceitarmos nascer de novo, nascer do Alto, do Espírito, isto é, de um Sopro que vem de fora de todos os sistemas, que vem de fora dos ambientes dos privilégios e dos poderes onde se fabricam vítimas humanas e outras e, por isso, é um Sopro que tem tudo a ver com o grito de dor e de raiva, de angústia e de cólera dos humilhados e ofendidos da História, o único Sopro verdadeiramente fecundo, o único verdadeiramente portador de força para libertar para a liberdade quantas e quantos nos deixarmos fazer por ele!
Este livro é um escândalo. Mas um escândalo salutar. Também ele foi concebido e nasceu fora dos sistemas dominantes, a começar, pelo sistema eclesiástico católico e religioso. Mas atenção! não nasceu fora da Igreja de Jesus, o Cristo, essa comunidade de pequenas comunidades sororais e fraternas, constituídas por mulheres e homens intransigentemente iguais entre si, lúcidos e ilustrados quanto baste, o mesmo é dizer, evangelizados, outros Cristo, nos inúmeros e diversificados aqui e agora da Humanidade.
O escândalo que é este livro tem a ver com o escândalo que o Cristianismo de Jesus de Nazaré também foi, é e sempre será, até que toda a humanidade seja outro Cristo. Tem a ver com o escândalo que é o Evangelho ou Boa Notícia de Deus e que, historicamente, aconteceu e se nos revelou no Homem Jesus de Nazaré que acabou crucificado por ordem do pleno dos chefes de todos os sistemas que então dominavam a Judeia e o mundo, e que mantinham enquadradas todas as pessoas e todos os povos, liderados vejam só! pelos chefes do sistema religioso, também pelos chefes do sistema religioso que então dominava a Judeia.
Portanto, é um escândalo, mas um bom escândalo. Um feliz escândalo. Bem na linha do Evangelho. Porém, para muitos dos meus irmãos e irmãs católicos romanos que ainda não caíram na conta de que são discípulos e discípulas de um Condenado político, de um rei que veio a este mundo para dar testemunho da verdade e, por isso, acabou crucificado, também este meu livro é um escândalo, mas no pior dos sentidos, com o qual eles poderão fechar-se ainda mais à libertação que estas páginas lhes oferecem. Se isso acontecer, sou o primeiro a lamentar, mas nada poderei fazer para o evitar.
A esta altura da sua existência autónoma que o livro já leva pouco mais de um mês estou já a imaginar alguns dos meus irmãos e algumas das minhas irmãs, católicos e de outras Igrejas cristãs protestantes, a procurar sofregamente na Bíblia onde é que se encontra esta afirmação tão estranha sobre os gostos de Deus e que dá o título ao livro.
Desenganem-se, que esta afirmação não está lá, tal e qual. Mas desenganem-se também, se pensam que então podem continuar a ocupar-se da sua religião, em lugar de se tornarem políticos na linha de Jesus de Nazaré, o Cristo. Como se este livro não passasse de uma brincadeira de mau gosto, ou, pior ainda, de uma mentira fabricada por um padre/presbítero católico que alguns teimam em pensar que está ressabiado com a hierarquia da sua Igreja, quando, afinal, eu até lhe estou profundamente agradecido!
A verdade é bem outra. Ao contrário do que pensa muita gente das Igrejas e de fora delas, a Palavra de Deus não está toda na Bíblia. Mais: A Palavra de Deus que está na Bíblia só o é verdadeiramente, na medida em que é palavra-parteira de nova Palavra de Deus, inculturada nos diversificados aqui e agora de cada povo. Tudo o que não for assim é idolatria, é converter a Palavra bíblica em ídolo, é idolatria da letra bíblica, com a qual, entretanto, muitos dirigentes religiosos e eclesiásticos, mais ou menos fundamentalistas e fanáticos, nos têm oprimido e amedrontado, submetido e matado, na exacta medida em que, na nossa ingenuidade e cegueira, nos deixamos conduzir e guiar por eles, guias cegos! (Neste particular, as chamadas Testemunhas de Jeová levam hoje a palma na prática desta idolatria da letra bíblica, juntamente com certos pastores de novas Igrejas protestantes que são hábeis em manipular a Bíblia para com ela fazer colossais fortunas)
Desde que as Igrejas traíram a sua vocação original de serem a luz do mundo, o sal da terra, o fermento na massa e a sentinela na cidade uma missão histórica fecundamente política! e aceitaram converter-se em religiões mais ou menos reconhecidas e protegidas pelo império de turno, hoje, o império norte-americano e os seus satélites; desde que aceitaram integrar os sistemas que dominam as pessoas e os povos e se constituíram elas próprias em sistema religioso, deixaram de ser Igrejas verdadeiramente cristãs, instituições concebidas e nascidas por obra e graça do Espírito Santo. Tornaram-se, como todos os demais sistemas concebidos e gerados pelos poderosos, inimigas da Humanidade, cuja acção sempre produz cegos e coxos, surdos e mudos, paralíticos e mortos, mulheres e homens porventura muito activos em redor e no interior dos templos e dos santuários (o de Fátima, em Portugal, é o exemplo mais conseguido e o mais desgraçado, e também o mais vergonhoso aos olhos de pessoas com um mínimo sentido de dignidade humana e de bom gosto), porventura, capazes de irem, durante dias e dias, faça chuva ou faça sol, a pé a Fátima, mas totalmente incapazes de percorrerem o curto caminho da sua casa à casa do seu vizinho desempregado, toxicodependente, acamado, doente incurável, não só o vizinho em sentido geográfico, mas também o vizinho que vive e sofre no outro lado do planeta. E sobretudo totalmente incapazes de se meterem, lúcida e responsavelmente, na Política, para, através dela, transformarem este nosso mundo de selvagem em humano e de humano em fraterno/sororal, segundo o coração de Deus.
E DEUS DISSE: DO QUE EU GOSTO É DE POLÍTICA, NÃO DE RELIGIÃO. Esta afirmação não está, tal e qual, na Bíblia, mas nem por isso deixa de ser Palavra de Deus para o nosso hoje e aqui nacional, europeu e mundial. Digo que esta afirmação é Palavra de Deus, mas não, evidentemente, do Deus da religião, do Deus dos templos, do Deus dos sacerdotes e de outros líderes religiosos que vivem em franco entendimento com os poderosos deste mundo, a cujo restrito núcleo pertencem. É Palavra de Deus, mas daquele Deus que se nos revelou, com escândalo para todos os religiosos de todos os tempos e nações, no Homem de Nazaré, Jesus, o Cristo, a quem os chefes do sistema religioso e os outros mataram, na convicção de que, assim, prestavam um serviço a Deus. Ao Deus da religião e dos sistemas opressores, evidentemente.
Há dezasseis séculos que, nas Igrejas e nas sociedades em geral, deixamos de ouvir esta Palavra de Deus e o Deus que diz esta Palavra. Este livro vem, dezasseis séculos depois do imperador Constantino, proclamá-la, de forma actualizada e fortemente provocativa, precisamente quando acabamos de dar início ao terceiro milénio do Cristianismo e o império de turno é hoje dirigido por um ser politicamente demente, chamado Bush, o sistema religioso-eclesiástico católico maioritário do Ocidente tem por líder máximo o papa/chefe de Estado do Vaticano, João Paulo II, bem nos antípodas do Crucificado Jesus de Nazaré, e o nosso país é governado por um primeiro-ministro que tem todo o ar político de pateta alegre e de inconsciente adolescente, totalmente deslumbrado com o Poder que lhe caiu nas mãos, chamado Durão Barroso.
Com a afirmação que dá o título ao livro, quero dizer aos meus irmãos e às minhas irmãs da Igreja católica, das outras Igrejas cristãs, das religiões não cristãs, e até aos meus irmãos e irmãs ateus e agnósticos, que o Cristianismo, ou volta a nascer de novo, do Alto, do Espírito Santo, ou desaparece da História.
Este título remete-nos a todas e a todos para o início do livro bíblico do Génesis, onde a expressão "E Deus disse" é múltiplas vezes repetida. Remete-nos para os míticos relatos das origens da Humanidade.
Quero com ele dizer que, acatar esta afirmação, eventualmente chocante, como Palavra de Deus para o nosso aqui e agora, e acatar o que de Evangelho libertador as páginas deste livro contêm, é atrevermo-nos, hoje, a um Novo Começo, a uma Nova Criação. Não apenas um Novo Começo para as Igrejas cristãs, mas sobretudo, para a Humanidade. Um Novo começo em que as mulheres, os homens e os povos, em lugar de serem religiosos, como sempre foram até hoje, e viverem em redor dos templos, dos altares e dos ídolos que lá são adorados, ousarão, finalmente, ser fecunda e lucidamente políticos, viverão como sujeitos criadores em pequenas comunidades de irmãs e de irmãos, bem mergulhados no mundo e na História, a cuidar da Terra, para que ela, finalmente, comece a ser o paraíso que, desde o princípio está chamada a ser e que os poderosos, todos eles mentirosos e assassinos, opressores e exploradores, não têm deixado ser.
E que lugar fica para Deus, nesta nova visão das coisas? Para o Deus que gosta de religião, fica cada vez menos lugar e oxalá que depressa não fique nenhum lugar, por não haver mais na terra quem viva para lhe render culto. Para o Deus que gosta de política, fica todo o lugar. Porque o Deus que gosta de Política não vive nem respira nos acanhados e opressivos espaços dos templos e das basílicas, mesmo e sobretudo quando estas custam dez milhões de contos/cinquenta milhões de euros, como deverá vir a custar a nova basílica que se propõem erguer em Fátima (ai se a estupidez pagasse imposto!...). O Deus que gosta de Política vive e respira em todo o Universo, no interior do qual gira o planeta Terra, a nossa casa comum. Porque o Deus que gosta de Política e não de religião não foi outro o Deus que se nos revelou em Jesus de Nazaré é o Deus criador de universos e de paraísos. Gera filhas e filhos à sua imagem e semelhança e, por isso, filhas e filhos co-criadoras e co-criadores, o mesmo é dizer, mulheres e homens políticos, sempre disponíveis para darem a própria vida pela vida do mundo. Como Jesus de Nazaré, o Cristo.
Eis o livro. Acolham-no. Leiam-no. Saboreiem-no. Espalhem-no. Debatam-no. Cantem-no. E dancem por ele ter sido concebido e ter nascido por obra e graça do Espírito Santo. Com ele, a nossa libertação para a liberdade e a libertação da Humanidade e da própria Natureza estão agora muito mais próximas.
Obrigado! |
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O Anjo de Portugal chegou tarde demais a Entre-os-Rios
O mais chocante de tudo ainda foi ver aquele ar de compungida mágoa que todos os intervenientes oficiais puseram na cerimónia de inauguração do monumento público em memória das 59 vítimas mortais de Entre-os-Rios, quando, como é sabido, todas elas resultaram da respectiva ponte ter ruído, precisamente no momento em que o autocarro e o carro particular onde seguiam, a atravessavam, e irremediavelmente se precipitaram a pique nas águas do rio Douro, as quais, criadas para serem fonte de vida, se viram violentamente transformadas pela incúria de certos humanos com responsabilidades empresariais e políticas, em medonha fonte de morte e até em definitiva sepultura da maior parte dos cadáveres que nunca mais chegaram a ser encontrados.
A cerimónia, realizada no primeiro sábado deste ano de 2003, contou com a presença da ministra de Estado e das Finanças, uma vez que o primeiro ministro ainda não tinha regressado das férias de fim de ano que foi passar com a família à mais paradisíaca das ilhas brasileiras, propriedade de um empresário português seu amigo que, pelos vistos, colocou à disposição dele o seu jacto particular e os seus helicópteros, como quem quer deixar bem claro que o país que está de tanga palavra do próprio primeiro ministro não é certamente o país dos membros do governo, muito menos o país dos empresários amigos dos membros do governo. Nestas circunstâncias, o primeiro ministro houve por bem fazer-se substituir pela sua conhecida ministra-mão-de-ferro e sem entranhas de misericórdia, talvez, quem sabe, numa desesperada tentativa de, através dela, ajudar a recauchutar a mediática imagem de todo um governo que todos os dias nos agride com as suas arbitrárias e autoritárias decisões.
A cerimónia contou igualmente com a presença do bispo titular da Diocese do Porto que, na circunstância, entendeu não se fazer substituir por nenhum dos seus vários bispos auxiliares. A presença do bispo do Porto deve-se ao facto de a povoação de Entre-os-Rios integrar um território sobre o qual ele continua a pensar que detém um poder que o Código de Direito Canónico chama "poder de jurisdição", e que ninguém sabe bem o que é, mas que deve fazer rir a bandeiras despregadas o nosso bom Deus, ao ver como certos homens que se dizem servidores seus a tempo inteiro não abrem mão de nenhuma das ninharias mundanas, relacionadas com o poder e os privilégios. Felizmente, hoje, os tempos são outros e um bispo católico residencial já não é mais o proprietário das terras, como antigamente, nem as populações que nelas moram são mais os seus servos da gleba. A Modernidade libertou-nos para sempre desse tremendo poder das trevas clericais e só é pena que ainda nos não tenha libertado também desse outro poder das trevas que hoje veste secular e anda aí disfarçado de democrático, a dizer mentirosamente que o povo tem poder, quando na verdade o povo só tem a desdita de continuar a ser engolido pelas minorias privilegiadas que habilmente o manipulam, sugam e oprimem.
A população de Entre-os-Rios, nomeadamente, os familiares das vítimas, também não se fez rogada e foi lá verter algumas lágrimas de circunstância e, assim, dar alguma compunção à cerimónia que os governantes que nos desgovernam conceberam para deixarem na região e no país a impressão de que, afinal, a tragédia da ponte não foi um gravíssimo crime de omissão, apenas se tratou de um lamentável acidente de percurso!...
O presidente da Câmara lá do sítio, sem dúvida, um dos que mais acabou por aproveitar politicamente com a desgraça das populações, não deixou escapar a oportunidade e logo debitou, através dos media, algumas palavras políticas, a chamar mais uma vez a atenção dos governantes de Lisboa, para que não se esqueçam do Portugal do interior e das suas populações, embora estas, cada vez mais desiludidas com hipócritas apelos deste tipo, há muito que meteram pés a caminho, rumo às grandes cidades e suas periferias, e deixaram o interior entregue a meia dúzia de velhas / de velhos e aos bichos do monte.
Mas a verdade é que, a partir de agora, o monumento às vítimas de Entre-os-Rios está lá, bem visível, no mesmo local onde anteriormente esteve a ponte que ruiu. Chamam-lhe vejam só! o "Anjo de Portugal". E custou uns 800 mil euros, o que dá, na antiga moeda portuguesa, uns 160 mil contos. A verba não terá ido toda para o material utilizado no monumento. O artista que o concebeu e realizou também terá tido a sua avantajada quota-parte, a provar que a desgraça de uns pode ser o enriquecimento de outros, ou não estejamos nós condenados a ter de viver todos os dias num monstruoso sistema económico-político que valoriza o que as pessoas têm e acumulam, muito mais do que o que as pessoas são e partilham gratuitamente.
Na base do monumento, constam os nomes das 59 vítimas mortais. Por isso alguns entenderam que ele deveria chamar-se "monumento contra o esquecimento". Esta designação, não oficial, tem o seu quê de subversivo que, infelizmente, permanecerá escondido aos olhos das pessoas, inclusive de quem a inventou. Não fosse assim e os responsáveis por tão gravíssimo crime de omissão não teriam tido o desplante de virem ao local, vestidos de inocentes cordeiros, inaugurar o monumento, como se a morte das 59 pessoas de Entre-os-Rios não tivesse nada a ver com eles.
O subversivo da designação reside nisto: lá, onde há vítimas humanas e nomes de vítimas humanas, sempre há também carrascos humanos que as produzem. Por acção, ou por omissão. Por isso, embora este monumento registe apenas o nome das 59 vítimas, o que sempre haveremos de recordar, quando olharmos para ele e para os nomes que nele estão gravados, há-de ser o nome dos carrascos que as produziram, quer pela sua incúria política, quer pelo seu demente afã por riqueza a qualquer preço. Porque se os esquecermos e, sobretudo, se não tivermos mão neles e noutros como eles, mais vítimas humanas surgirão no futuro.
Pessoalmente, não sei de quem terá partido a ideia de erguer aquela enorme estátua, em forma de anjo, com asas e tudo. E de quem terá sido a ideia de a baptizar com a designação oficial de "Anjo de Portugal". Mas uma coisa eu sei, e é esta: o mau gosto não podia ter sido maior. E a mentira também.
Primeiro, porque os anjos, de que sempre tem falado a Igreja católica (o respectivo Catecismo católico, apesar de recente, continua a dedicar-lhe alguns parágrafos!), não passam de seres míticos, pura invenção de tempos e de povos primitivos, que o tempo ilustrado se encarregou de provar que não têm qualquer consistência real e histórica.
Segundo, porque chamar àquela estátua "Anjo de Portugal", mais parece um insulto à memória das vítimas e à memória sofrida dos seus familiares. Então, só agora, depois que as 59 pessoas perderam a vida, é que se lembraram de ir a correr colocar no local do crime a estátua de um anjo, para mais com o nome de "Anjo de Portugal"? Mas se o Anjo de Portugal existe, então onde é que ele realmente estava, quando a ponte ruiu e provocou a morte das 59 pessoas? A dormir? Tinha ido de férias para uma qualquer ilha paradisíaca do Brasil ou de outro sítio do planeta? Ou estava num lauto banquete com os governantes do país e com os empresários que enriqueceram e continuam a enriquecer à custa da criminosa extracção a esmo de areias dos rios?
Por isso digo: as populações de Entre-os-Rios e de outras zonas do país que se cuidem, se quiserem que as suas vidas e os seus bens estejam em segurança. Ou são elas próprias anjos de si mesmas e umas para as outras, ou não há anjos que lhes valham, por mais altas que sejam as suas estátuas, e por mais velas que lhes acendam em seu redor.
É certo que a Bíblia fala de anjos e não temos que levá-la a tribunal por isso. Mas já teremos motivos para levar a tribunal quem, com base nessa linguagem mítica e poética da Bíblia, se tem fartado de nos mentir em sucessivas catequeses eclesiásticas que nos têm levado a concluir que os anjos existem e que são seres reais especiais e poderosos, criados por Deus para nos assistirem e protegerem. Nada mais falso. Ou ousamos ser anjos (= portadores de mensagens que contribuem para a nossa qualidade de vida) de nós mesmos e uns para os outros, ou estamos, como povo, cada vez mais entregues às feras. E a prova é que, também em Entre-os-Rios, a ponte ruiu, as pessoas morreram e nenhum anjo veio do céu avisar as populações para terem cuidado.
Houve, é verdade, jornais e jornalistas que alertaram para os perigos em que se encontrava a velha ponte e falaram reiteradamente dos riscos da extracção indevida e criminosa de areias no leito do rio Douro. Mas destes "anjos", ninguém fez caso. E porquê? Porque as catequeses eclesiásticas nunca nos ensinaram que é a este tipo de anjos e só a este tipo de anjos, que devemos prestar atenção. Ou assim, ou continuaremos a correr para o abismo. Acreditem: A estátua do Anjo de Portugal que, desde o início deste ano de 2003, está de asas abertas em Entre-os-Rios, não passa de uma simples escultura que um artista concebeu e criou com as suas próprias mãos, por isso, inevitavelmente, inferior ao próprio artista e inferior a qualquer de nós, seres humanos.
São, por isso, criminosas as catequeses eclesiásticas que, hoje, insistem em falar dos anjos, como seres espirituais, superiores aos humanos. Porque são catequeses que enganam as pessoas e os povos. Desmobilizam as pessoas e os povos do seu dever histórico de sentinelas, que todas e todos havemos de ser, se quisermos usufruir duma vida em segurança e em bem-estar. Em lugar de fazerem de nós pessoas e povos politicamente atentos, corajosos e intervenientes, arrastam-nos para os santuários e para outros locais de culto, onde nos põem de joelhos diante de imagens mortas, a pedir-lhes o que, afinal, está nas nossas mãos fazermos. Ao mesmo tempo que nos despojam do nosso dinheiro e nos roubam a oportunidade de sermos nós próprios, mulheres e homens mergulhados na História, determinados a conduzi-la para diante, até que a humanidade seja uma só família, em redor duma única mesa, sem que ninguém, indivíduo ou povo, fique de fora.
Era esta boa notícia que deveria ter proclamado, sem medo e com audácia profética, o bispo do Porto, na sua qualidade de discípulo qualificado de Jesus de Nazaré, o Cristo, e de responsável maior do Evangelho que a nossa Igreja tem de anunciar aos pobres, a tempo e fora de tempo. Evangelizar os pobres sempre foi e será um ministério eclesial arriscado. Mas para isso é que existem bispos e presbíteros na Igreja e a própria Igreja. Não é para aparecermos ao lado de governantes autoritários e sem entranhas de misericórdia, a lançarmos água benta sobre obras que eles inauguram como se fossem eles os que as custearam, nem para participarmos em jantaradas com empresários ricos que continuam aí a fabricar pobres em massa e, depois, nem sequer consentem que as migalhas que caem das suas lautas mesas cheguem às suas bocas, pelo contrário, ainda se permitem insultá-los com aquele imbecil luxo em que vivem e em que gostam de apodrecer todos os dias.
É tempo de acordarmos, como povo. Quando hoje começamos outra vez a ver os nossos bispos católicos, lado a lado e em franco e cordial entendimento com os governantes de turno que nos desgovernam, não podemos deixar de pensar que estão a querer levar-nos de novo para situações nacionais de desumanidade e de indignidade humana que bradam aos céus. Foi assim no tempo do ditador Salazar, um chefe de governo, cultuado pela generalidade dos bispos católicos de então, que, por sinal, terá começado por dar nas vistas, à frente da pasta das finanças. O pulso de ferro em que depressa se tornou, levou-o a acabar de vez com o que então ainda restava da República, a fazer do nosso povo um povo amordaçado e a transformar o nosso país num Portugal dos pequeninos, servido a toda a hora com alienantes overdoses de fado, de fátima e de futebol.
P. S.
Na sua mensagem de Ano Novo, o cardeal patriarca de Lisboa surpreendeu, quando disse, sem rodeios, que furtar-se ao dever de pagar os impostos ao Estado é imoral. Nisso foi oportuno. Mas depois esqueceu-se de anunciar ao país a sua firme determinação de pôr termo a essa imoralidade institucionalizada que é a nossa Igreja católica continuar isenta do pagamento de impostos ao Estado. Deveria começar por dar o exemplo e ser o primeiro a pôr fim a tal imoralidade. Não o fez. Assim, até os milhares de não-pagantes dos impostos ao Estado podem continuar a escapulir-se a esse dever moral, com base no conhecido argumento "Bem prega frei Tomás!..."
Por outro lado, para quê pagar a tempo e horas, se é sempre de esperar que haja novos perdões fiscais para os reincidentes não-pagantes? Bastará, para tanto, que entre os não-pagantes haja por exemplo um irmão da ministra ou do ministro das finanças que precise de regularizar as suas contas com o Estado, sem ter que pagar os juros de mora, como, pelos vistos, aconteceu agora com o último perdão fiscal do governo PP/PSD! Com tais comportamentos imorais dos próprios governantes que nos desgovernam, ainda haverá moral para exigir moralidade às populações?
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Fátima: O negócio católico está para durar
Com a aproximação do mês de Maio, voltam em força as chamadas peregrinações a Fátima, sobretudo por ocasião dos dias 12 e 13, até Outubro. Pelos vistos, este negócio católico continua e está para durar. Os lucros financeiros são muitos, totalmente isentos de impostos, e nem sequer é preciso fazer muito por isso. Basta continuar a manter lá um padre-reitor do santuário que recebe e canaliza para os bancos todo o dinheiro e todo o ouro que as populações não evangelizadas e tolhidas por ancestrais medos lá vão entregar. E não é que, agora, o reitor do santuário, não satisfeito com o crime institucionalizado que Fátima objectivamente constitui, ainda vai erguer no local, certamente, com o aval da Conferência Episcopal Portuguesa, uma nova e maior basílica, orçada em muitos milhões de euros, para nela acolher os incautos que lá vão à procura de "milagres" e saem de lá depenados, como aconteceu com aquela viúva pobre de que nos fala o Evangelho de Marcos (12, 41-44), que não resistiu e entregou ao tesouro do Templo de Jerusalém - "covil de ladrões", chamou-lhe Jesus - tudo o que tinha para sobreviver?!
O crime da hierarquia católica consiste nisto: primeiro, declarou autênticas as pretensas aparições entre 13 de Maio e 13 de Outubro de 1917, quando era seu indeclinável dever moral ter proclamado ao país e ao mundo que toda aquela intriga não tinha qualquer marca do Espírito de Deus, esse mesmo Espírito que se nos revelou em definitivo na pessoa de Jesus de Nazaré, o Cristo. Depois, em lugar de evangelizar/libertar os pobres que, ao longo dos anos, teimam em correr para lá, alimenta-lhes a mentira e o medo. Finalmente, aceita receber, sem que as mãos lhe queimem, todo o dinheiro e todo o ouro que as populações, nos seus ancestrais medos, prometem e vão depois lá depositar, como se todo este processo respeitasse a mais elementar justiça. Não respeita. E a verdade é que toda esta prática eclesiástica perfaz um crime hediondo, daqueles que não têm perdão, porque as maiores vítimas são as populações pobres que deveriam ser defendidas e protegidas e acabam enganadas e sugadas por quem mais deveria defendê-las e protegê-las.
Jornal Fraternizar convida-vos, por isso, a cantarem com ele este outro "13 de Maio". A música é a mesma que lá se canta. A letra é que é outra. Cantem como quem esconjura de vez todos os medos.
"13 de Maio" libertador
Refrão:
Mas ai de quem
crê nessa intriga
jamais será
alguém na vida
1. De maio a outubro
na Cova da Iria
o q' lá se inventou
a ninguém lembraria
2. Três pobres crianças
nenhuma instrução
contam que tiveram
uma aparição
3. Padres e beatas
esfregam as mãos
apoiam a Lúcia
e os dois irmãos
4. O "milagre" vinha
mesmo a matar
vinha pôr os bispos
de novo a mandar
5. E o povo sedento
de sinais dos céus
fez desta mentira
palavra de Deus!
6. Mas o que ouve Lúcia
da aparição?
os mesmos horrores
da Santa Missão!
7. A todos nos quer ver
de terço na mão
mal sabe a pequena
que o terço é pagão
8. Fala do inferno
como os pregadores
e condena ao fogo os
pobres pecadores
9. Garante que a guerra
irá acabar
É outra mentira
como o sol bailar
10. Mas o maior crime
que o clero produz
é dizer que a "virgem"
é mãe de Jesus
11. E quanto às crianças
que manipulou
fez duas morrer
e à outra castrou
12. Em Fátima nada
nos lembra Maria
é tudo negócio
pura idolatria
13. Mas com tantos crimes
que Fátima tem
quem pode dizer que
se sente lá bem?!
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Paul Gauthier
Recebemos sempre o vosso Jornal, endereçado a Paul Gauthier. Sou a sua companheira Myriam. Paul Gauthier apagou-se na noite de Natal de 2002. Ele foi padre operário em Nazaré, durante dez anos. Escreveu para o Concílio Vaticano II o livro "Jesus, a Igreja e os pobres". No dizer de Leonardo Boff, foi ele o iniciador do movimento "O Evangelho Libertador". Em 1982, escreveu um artigo que teve certo impacto, intitulado "O Evangelho sem padres". Esse artigo foi o culminar de toda uma vida. Apagou-se agora aos 88 anos de idade. As suas cinzas repousam em Nazaré da Galileia.
Myriam Gauthier.
Querida Myriam
Agradeço-lhe a informação sobre o nosso queridíssimo Paul Gauthier. Por mim, não direi que ele se apagou ou se extinguiu. Digo que ele explodiu! Quem vive como ele, a sua morte é uma explosão de vida. Torna-se invisível aos nossos olhos, mas apenas porque a sua nova qualidade de vida é tão superior, que os nossos olhos não conseguem captá-la. Só com os olhos da Fé, que vêem o Invisível, é que poderemos agora vê-lo.
Ao Paul Gauthier devo muito. Foi com ele que despertei para Jesus operário. E descobri o Evangelho como Boa Notícia aos pobres! Agradeço-lhe a notícia da sua PÁSCOA, porque assim estou agora, de forma mais consciente com ele, nessa comunhão ininterrupta que, como ressuscitado, o Paul mantém connosco. E à Myriam, digo: Feliz a mulher que soube ser a companheira de Paul Gauthier! No tempo que lhe resta, faça chegar a toda a parte o pensamento e a vida do Paul! Para que muitas e muitos mais aproveitem e se alegrem com ele.
Fico na comunhão com a Myriam e com o nosso Paul Gauthier. E em perene EUCARISTIA.
Um beijo, Mário |
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Que fazer com estes líderes das religiões e das Igrejas?
Rezaram tanto pela paz e veio a guerra!
Os líderes das principais religiões e Igrejas do mundo, papa e bispos católicos incluídos, bem podem limpar as mãos à parede. Então não é que, nestes últimos tempos, andaram a rezar tanto pela paz e incitaram tanto os respectivos fiéis a fazerem o mesmo e, em vez da paz no Iraque, veio a guerra?! Com estes seus comportamentos, terão reforçado nos respectivos fiéis a convicção de que a paz era fruto das múltiplas orações. Só que o Deus a quem estas orações se dirigiram esteve-se nas tintas. E os líderes das religiões e das Igrejas acabaram por sair ainda mais descredibilizados perante as populações e os povos do mundo. Ao ponto de agora ser legítimo perguntar: Que fazer com estes líderes das religiões e das Igrejas? E que fazer com o Deus a quem eles tanto rezaram e levaram os respectivos fiéis a rezar também? Entre outras coisas, ficou manifesto que o Deus a quem os líderes e respectivos fiéis se dirigiram é totalmente incapaz de travar a loucura política do presidente Bush. Eles bem lhe pediram, em múltiplas línguas e de múltiplos modos, que iluminasse o presidente norte-americano, para que ele acabasse por desistir da guerra a favor da diplomacia e da política, mas a verdade é que Ele deixou-os ficar mal. Deveria estar ou muito cansado, ou muito distraído. Ou então é muito cruel e insensível.
O mais chocante ainda foi constatar que Ele nem sequer foi sensível às redes de oração que, um pouco por toda a parte, também no nosso país, os líderes criaram e puseram em andamento, e que mobilizaram elevado número de crianças católicas, frequentadoras das catequeses paroquiais. Muitas delas prestaram-se, quais ingénuos pastorinhos de Fátima do século XXI, a rezar pela paz, pelo menos, sete avé-marias diárias a nossa senhora de fátima. Só que nem assim Deus se deixou sensibilizar. É mesmo sádico o Deus de todos estes líderes das religiões e das Igrejas. Até parece que se compraz com a guerra, não com a paz; que se compraz em ser um Deus desmancha-prazeres; que só está satisfeito com o sofrimento de inúmeras vítimas humanas; e que, apesar de rogado por milhões, nunca actua.
E agora? Que vão as populações e os povos fazer com tais líderes das religiões e das Igrejas? Continuar a tomá-los a sério e a frequentar os seus cultos e ensinamentos? Ou abandoná-los de vez e ao seu Deus?
Ficou ainda mais claro que todos estes líderes são guias cegos que conduzem as populações e os povos para o precipício da alienação. E que o Deus a quem eles se dirigem também não passa de um ídolo com o qual eles enganam as populações e os povos, para melhor manterem privilégios sem conta, poder, prestígio e influência.
De um Deus e de líderes assim, não temos qualquer necessidade. Basta-nos o Deus de Jesus que até nem gosta de religião, apenas de política e, por isso, sempre nos pede/desafia, como pediu/desafiou Jesus, que entreguemos todos os dias a própria vida pela vida do mundo. E que construamos a paz como fruto duma Nova Ordem Mundial assente na justiça e no Direito.
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© Página criada 9 Abril de 2003
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