Textos do
Jornal Fraternizar-

Edição nº 148, de Janeiro/Março 2003 (Continuação)

Os bispos e os domingos

Os responsáveis maiores da nossa Igreja católica continuam preocupados com o que se passa aos domingos, nomeadamente, com o número cada vez menor de pessoas nas missas. Pelos vistos, agora, até as mulheres portuguesas e europeias, com especial incidência nas mais novas, estão a deixar de frequentar as missas ao domingo, mesmo que alguns dos padres que a elas presidem sejam ainda novos, e a música que aí se toque e cante tenha um certo sabor a discoteca falida.

A linguagem fria dos números não deixa margem para dúvidas. Por este andar, mais uns anitos, e nem mulheres haverá nas missas ao domingo. Mais preocupante ainda para os responsáveis maiores da Igreja católica é que, por este andar, uns anitos mais, e nem padres haverá que presidam às missas, já que os que hoje ainda se ocupam dessas coisas (é espantoso como pode haver homens com formação superior que aceitam passar a vida inteira a fazer sempre as mesmas coisas, a repetir sempre os mesmos ritos religiosos, sem nunca se interrogarem a sério sobre a validade ou a inutilidade do que fazem!) atingiram já, na sua maioria, a idade da reforma, se na Igreja se aplicasse o princípio que já é lei na sociedade laboral, de reforma aos 65 anos.

Os responsáveis maiores da nossa Igreja católica acham que o domingo é o dia do Senhor e de modo algum podem conformar-se que ele seja assim tão abandalhado pela população que, entretanto, continua a dizer-se católica, tão católica quanto portuguesa, tão católica quanto fatimista. Tal como os nossos bispos católicos, tão católicos quanto portugueses, tão católicos quanto fatimistas, de tal modo que agora até parece que nunca mais conseguem desprender-se de Fátima nem da sua senhora cega, surda e muda, embora seja ela – diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és – que está a torná-los a todos também cegos, surdos e mudos, mesmo quando todos eles parecem ver, ouvir e falar.

Efectivamente, os bispos da nossa Igreja católica vêem, mas não vêem o que devem ver. Ouvem, mas não ouvem o que devem ouvir. E, embora falem e muito, não dizem nunca o que devem dizer. Quase só vêem o mundo das coisitas eclesiásticas, com que diariamente se ocupam e que são tão inócuas e alienantes, que nunca chegam a ser notícia nos media. Quase só ouvem o que diz o papa no Vaticano (por exemplo, a última Nota Pastoral, datada de 14 de Novembro de 2002, sobre o "Código do Trabalho", da autoria do ministro catolicão, Bagão Félix, faz dezoito citações de João Paulo II, duas de Paulo VI, três do Concílio Vaticano II, duas da própria Conferência Episcopal portuguesa, nenhuma de escritoras e escritores contemporâneos e nenhuma do Evangelho de Jesus!). E, quando falam do alto das suas cátedras ou catedrais, ou dos altares das paróquias aonde se deslocam, com pompa e circunstância, para presidirem a ritos sacramentais a que eles enganadoramente chamam "Sacramento do Crisma" (mas o Espírito Santo pode lá ter alguma coisa a ver com todo aquele folclore eclesiástico e litúrgico a que os bispos católicos rotineiramente se prestam, por entre massagens-de-óleo-na-testa-e-outros-gestos-faz-de-conta?); ou quando escrevem documentos conjuntos, a que chamam Notas Pastorais, é quase sempre para repetirem até à náusea o que toda a gente já sabe que eles vão dizer e, por isso, já ninguém liga, tão velhas e tão moralistas são as palavras e as reflexões que saem das suas bocas e das suas penas episcopais.

Só mesmo os bispos e todos os demais eclesiásticos que insistem em ser gente separada das outras pessoas e em ter um estatuto à parte e de privilégio na sociedade é que ainda não perceberam que a nossa Igreja católica, tal como eles insistem em mantê-la, tão distante do quotidiano das populações e tão nos antípodas do galvanizador Projecto libertador de Jesus o Cristo, não interessa um chavo às populações activas e politicamente intervenientes. Assim como não lhes interessa um chavo nenhuma das outras Igrejas, por mais reformadas que elas se digam. Aliás, nem mesmo Deus se interessa por nenhuma das Igrejas que por aí vemos fortemente hierarquizadas, cujas cúpulas gostam de comer à mesa dos privilégios que o Dinheiro e o Poder sempre concedem a quem os reconhecer e reverenciar!...

As Igrejas, como por aí as vemos de mãos dadas com os privilégios, só interessam aos próprios eclesiásticos que vivem delas e delas tiram muito proveito material, seja sob a clara luz do dia, graças à ingenuidade das populações que lhes dão o que têm e o que não têm, seja sob a tenebrosa escuridão de negócios sujos onde até pode entrar a lavagem de dinheiro e tráficos vários que envolvem muitos milhões (a Polícia que investigue sem descanso e não se coíba de o fazer, a pretexto de que é preciso respeitar a "liberdade religiosa", porque nem toda a riqueza que por aí se ostenta se explicará sob a cláusula de "ofertas dos fiéis" ou de colectas dos "dízimos").

Foram os próprios eclesiásticos, através dos séculos, que nos tentaram convencer de que as Igrejas, em que eles são os chefes incontestados, são coisa de Deus, quando elas, historicamente, são coisa de homens e de homens mais ou menos frustrados, com insaciável sede de mando, de domínio, de poder absoluto, o pior de todos os poderes absolutos, porque o único que chega a dominar e a controlar as próprias consciências das pessoas e dos povos. Coisa de Deus, segundo nos ensinou de forma definitiva Jesus o Cristo, é apenas o Reino de Deus, ainda e sempre em construção na História. E as Igrejas só terão valor e credibilidade, na medida em que souberem estar, aqui e agora, ao serviço da sua construção, com humildade e sempre ao jeito da parteira, nunca ao jeito da mãe matriarca e castradora, menos ainda ao jeito do pai patriarca e autoritário, dogmático, estilo monarca absoluto, como é ainda hoje o papa de Roma e cada bispo na sua diocese e cada pároco na sua paróquia, tudo homens, e homens sem mulher, elevados(?) à condição de clérigos, uma espécie de funcionários do religioso e do divino, quase sempre sem entranhas de misericórdia, sensíveis ao dinheiro e ao seu status clerical, uma espécie de alter ego (= outro eu) de deus-Diabo na terra, sempre acima de toda a suspeita, em quem ingenuamente se confia e a quem se faz questão de rapidamente enriquecer, sem nunca se lhe exigir contas de nada, como se costuma proceder com os deuses, os quais sempre exigem contas à gente, sem que nunca as dêem eles a ninguém, ou eles não fossem deuses para isso mesmo!

Eu sei que há excepções. Todos sabemos que há excepções. Conhecemo-las e admiramo-las. Mas as excepções só confirmam a regra e a regra é que faz a História. As excepções ajudam a dar à História um pouco de sal e pimenta, mas os regos fundos, aqueles que deixam indeléveis marcas são feitos pela regra, não pelas excepções. Isto, para além de serem pesadíssimas as sanções aplicadas contra os prevaricadores da regra, punidos sempre de forma exemplar e bem publicitada, para que jamais haja a veleidade, por parte das maiorias, de fazer da excepção regra e da regra excepção.

É por isso que daqui, desta tribuna Fraternizar, quero dizer aos queridos bispos da nossa Igreja católica que escusam de andar aflitos com o domingo e com as acentuadas ausências das pessoas nas missas que os poucos padres ainda no activo correm a celebrar em diversos templos levantados nas diversas paróquias do país e da Europa, numa lufa-lufa que tem tudo de estéril e até de prejudicial à Fé cristã vivida em comunidade.

Saibam os queridos bispos da nossa Igreja católica que é preferível deixar as pessoas descansar um pouco mais ao domingo, em lugar de as submeterem a mais e mais estresse, por sinal, o pior de todos, já que a verdade católica é que, ou as pessoas vão à missa, ou contraem um pecado mortal, de cada vez que deixarem de lá ir (escrever isto é caricato, mas, que se saiba, o Mandamento da Igreja que obriga a ouvir missa inteira aos domingos e festas de guarda ainda está em vigor e, desde que foi publicado, obriga as pessoas sob pena de pecado mortal!...)

E que dizer, a este propósito, das crianças matriculadas nas catequeses paroquiais, obrigadas a frequentá-las, ao sábado ou domingo, assim como à missa, como se fosse uma obrigação escolar mais? Entretanto, que se saiba, os conteúdos de tais catequeses, se alguma marca deixam para o futuro, é sobretudo negativa, uma vez que têm conduzido a um galopante aumento do ateísmo/agnosticismo, hoje cada vez mais generalizado nas sociedades ocidentais, todas elas catequizadas à força, quando os ateus/agnósticos de hoje foram crianças.

É tempo, então, queridos Bispos da nossa Igreja católica, de parardes um pouco para reflectir. Não. Não o façais mais em Fátima, que é a terra de opressão por antonomásia de Portugal e da Europa, e também a terra de mentira e de refinado paganismo religioso. Muito menos, o façais à sombra da imagem da senhora de Fátima cega, surda e muda que lá tem o seu culto idolátrico público e no qual vós, queridos Bispos, até tendes caído na tentação de vos integrar e mesmo presidir, como sucessores dos velhos sacerdotes dos cultos idolátricos em honra da mítica Grande Deusa virgem e mãe.

Nesses ambientes, dificilmente escutareis o Espírito Santo, muito pelo contrário, ficareis ainda mais tolhidos e oprimidos, cegos, surdos e mudos, quando é tão urgente inventar caminhos não andados e falar novas línguas, sobretudo, entender e fazer-se entender em todas as novas línguas que são hoje faladas pela Humanidade em toda a terra.

Como Jesus outrora, ide de preferencia para o deserto, durante quarenta dias e quarenta noites. Permanecei lá sem comer nem beber nada do que a Ideologia neoliberal e religiosa, tecida de mentira, está hoje continuamente a fazer passar por verdade. Fixai a vossa atenção nos Sinais dos tempos e acolhei, como Maria, mãe de Jesus, outrora acolheu, o Espírito Santo que nos fala nesses Sinais e a partir deles.

Reconhecereis, com incontida alegria, que, afinal, o Espírito Santo está na iminência de fazer acontecer Hoje um Novo Começo ou uma Nova Criação na História, onde não haverá mais lugar para nada do que ainda tenha que ver com a velha Cristandade ocidental, de tão má memória.

Acreditai neste Evangelho ou Boa Notícia que aqui vos transmito, desde as margens e periferias onde tenho sido obrigado a viver como presbítero sem ofício pastoral pelo vosso anti-evangélico Direito Canónico. E tende a audácia de mudar radicalmente de ser e de viver. Deixai as rotinas para os rotineiros. Deixai de viver para o eclesiástico e para todas as suas alienações e infantilidades. Deixai de continuar a congregar pessoas frustradas para actividades que não valem um chavo e que só servem para as alimentar ainda mais na sua frustração. Mobilizai, duma vez por todas, as pessoas para Projectos libertadores e transformadores da realidade que as galvanizem e as façam nascer do Alto, do Espírito Santo e lhes dêem asas para elas finalmente serem pessoas com causas concretas pelas quais valha a pena darem a própria vida.

O domingo, como dia do Senhor, não existe. Será que não sabeis isso? Ou tem-vos faltado a coragem para o dizer às pessoas e aos povos? O Domingo como dia do Senhor foi invenção da velha Cristandade ocidental. Isso de dizer que é o dia do Senhor, porque Jesus ressuscitou ao Domingo, é uma peta de todo o tamanho, como tendes obrigação de reconhecer. A intenção pode até ter sido boa, no início, quando uma tal afirmação foi posta a correr. Mas não tem qualquer fundamento teológico nem cristológico. Porque a Ressurreição de Jesus não ocorreu ao terceiro dia, como diz a letra do Credo, mas sim no mesmo instante em que Jesus foi crucificado e morto.

Como sabeis, para um corpo ressuscitado, não há primeiros nem terceiros dias. Isso são calendários nossos e nós, seres ainda na História, é que podemos precisar de um bom pedaço de tempo, correspondente à expressão "terceiro dia", para finalmente cairmos na conta da misteriosa Presença entre nós e connosco do Ressuscitado Jesus, o Primogénito de uma multidão incontável de irmãs e de irmãos.

A partir da Ressurreição de Jesus o Cristo, todos os dias são dias do Senhor, porque ele está aí ininterruptamente activo, a trabalhar na edificação do Reino de Deus, juntamente com o seu Abbá, ou Deus-Pai/Mãe e o Espírito Santo. Ele mesmo o disse peremptoriamente aos teólogos oficiais do Templo de Jerusalém que o criticavam por fazer o bem às pessoas (também para nós, hoje, "trabalhar" há-de ser igual a fazer o bem às pessoas e à Natureza): "O meu Pai trabalha continuamente e eu também trabalho" (Jo 5, 17).

E quanto à Memória de Jesus que, como prosseguidoras e prosseguidores da sua Causa, nos foi recomendado por ele próprio que fizéssemos ("Fazei isto em memória de mim!"), ela pode muito bem acontecer hoje no decorrer de verdadeiras comidas fraternais/sororais partilhadas em pequenas comunidades de iguais, alimento de outras tantas vidas entregues como a de Jesus o Cristo, em prol da vida e vida em abundância em todas as pessoas e em todos os povos da terra, e que não podem deixar de incluir sempre a Partilha da riqueza, não na base de caridadezinha e de bancos alimentares contra a fome (mas que vergonha que tenhamos de regressar a práticas destas no século XXI e depois de dois mil anos a celebrar continuamente Eucaristias, pelos vistos, sem Eucaristia, meras missas rezadas ou solenes, verdadeiras mentiras e sacrilégios que sempre acabam por adoecer e matar quem as faz – cf. 1Cor 11, 20-30), mas na base de sistemas económicos de real Partilha da riqueza produzida, segundo as necessidades de cada pessoa e de cada povo.


LIVROS DO TRIMESTRE

Espiritualidade

Por Leonardo Boff

É um livrinho de bolso, de 93 páginas. Dedicado pelo autor ao deputado brasileiro Chico Alencar, "que impregnou a política de espiritualidade e a espiritualidade de política". Esta dedicatória diz praticamente tudo sobre este livrinho-divulgação do maior teólogo cristão do Brasil e nosso amigo e irmão de caminhada.

A espiritualidade de que aqui se fala não é desencarnada, nem se dá bem de costas voltadas para o mundo e para os combates a travar pela sua transformação. Pelo contrário, é uma espiritualidade que alimenta os combates e alimenta-se deles. Como a espiritualidade de Jesus!

Logo a abrir, o autor faz-nos esta oportuna advertência: "É importante manter sempre o nosso espírito crítico, porque com a espiritualidade também se pode fazer dinheiro. Há verdadeiras empresas que, para criarem um exército de seguidores, manejam os diferentes discursos da espiritualidade, que muitas vezes falam mais aos seus bolsos que aos seus corações". O autor sabe do que fala, ou não fosse no Brasil que ultimamente têm surgido espiritualidades e Igrejas para todos os gostos, mas todas com o objectivo de fazer fortuna, à sombra do nome de Deus, de Jesus, da Igreja e da evangelização. Sem dúvida, o destaque maior vai para a Igreja Universal do Reino de Deus, do campo protestante-evangélico, e para a Comunidade Canção Nova, da área católica mais reaccionária.

O livrinho subdivide-se em vários capítulos, todos muito curtos. Um destes capítulos leva por título "Jesus pregou o Reino e, em seu lugar, veio a Igreja".

São deste capítulo as seguintes palavras: "Fixemos bem uma coisa: Jesus não anunciou nenhuma Igreja. O que anunciou foi o Reino de Deus e a transformação interior (conversão). Posteriormente, em lugar do Reino, surgiu a Igreja como comunidade de fiéis que criam em Jesus. Porém, o produto desta evolução, quase inevitável, é algo diferente e que não pode ser identificado de modo algum com a experiência original de Jesus; é algo que subjaz à Igreja e suas instituições, porém que não se identifica com elas. Uma coisa é a fonte de água cristalina, e outra a sua canalização para ser aproveitada pelos seres humanos. O cano por onde circula a água não é a água. Infelizmente, os cristãos identificaram com frequência o Reino de Deus com a Igreja, e Jesus com o Papa, com o bispo ou com o sacerdote. Esta identificação representa uma patologia e uma degeneração: o meio transforma-se em fim. Em vez de se apresentar como caminho de salvação, a Igreja apresenta-se, erroneamente, como a própria salvação, como se a imagem do pão fosse o próprio pão. Em lugar de serem representantes de Deus e do povo religioso, as autoridades eclesiásticas ocupam o lugar do próprio Deus, dada a reverência e a obediência absoluta que exigem. A Igreja, ao contrário, deve ser como a vela acesa: o que ilumina é a chama, não a vela; esta não é mais que o suporte para que arda a chama, irradiando luz e calor. A vela é a Igreja, e a chama é Jesus e a sua experiência fundante."


As origens da Eucaristia no Evangelho de Lucas

Por Eugene LaVerdiere

Já se tinham dado conta de que o Evangelho de Lucas é uma narrativa de comidas e viagens? Pois é verdade. Este livro, de 229 páginas, chama-nos a atenção para esse facto e, de repente, vemos Jesus a outra luz e entendemos muito mais profundamente o sentido e a importância da Eucaristia, ela própria uma comida mais, melhor, a comida por excelência, onde o anfitrião, Jesus, é também o Pão que se dá a comer e o Vinho que se dá a beber. Podem crer: este é um daqueles livros imperdíveis!

São dez as comidas de Jesus, na narrativa Boa Notícia de Lucas. As três primeiras acontecem dentro do relato das origens da Igreja no ministério de Jesus: 1. O banquete em casa de Levi (5, 27-39); A comida em casa de um fariseu (7, 36-50); A fracção do pão em Betsaida (9, 10-17).

As quatro comidas seguintes situam-se dentro do relato da grande viagem até Jerusalém e da paixão: 4. A hospitalidade oferecida em casa de Marta (10, 38-42); 5. Uma segunda comida em casa de um fariseu (11, 37-54); 6. Uma terceira comida do mesmo tipo, neste caso em dia de sábado (14, 1-35); 7. A hospitalidade oferecida por Zaqueu (19,1-10);8.A última Ceia (27,7-38).

As duas últimas comidas acontecem como experiências de ressurreição: 9.A comida em Emaús, em casa de dois discípulos (24, 13-35); e a comida com a comunidade inteira em Jerusalém, imediatamente antes da Ascenção (24, 36-49).

"Grande parte do ensinamento de Jesus teve lugar durante as comidas", reconhece o autor. O que é verdade, na narrativa de Lucas.

Subjacente às comidas de Jesus narradas por Lucas está o contexto das primitivas comunidades cristãs, concretamente, o ambiente helenístico e romano em que elas viviam. Num e noutro ambiente, eram frequentes os "simpósios", nos quais só se podia participar por convite do anfitrião, geralmente, alguém de muitas posses e a residir em casas-palácio ou apalaçadas, dentro da cidade ou numa grande casa de campo. Os escravos só entravam para servir os convidados, nunca eram convidados!

Nestes ambientes de escandalosa discriminação social, uma das melhores e mais eficazes maneiras a que as comunidades cristãs primitivas podiam recorrer para anunciar Jesus era apresentá-lo à mesa, ora no papel de convidado, ora no de anfitrião.

Seremos capazes de imaginar o impacto/escândalo que, em tais contextos, representava promover comidas fraternais/sororais, em que até os escravos participavam em pé de igualdade, ao mesmo nível dos cidadãos romanos ou dos senhores gregos? Era a subversão total dos valores sociais estabelecidos. Mas essa subversão fazia e faz parte do núcleo do Evangelho, da Boa Notícia que Jesus, o Cristo, constitui. Sem necessidade de recorrer a grandes discursos, quase bastava sentar à mesma mesa, escravos e senhores, mulheres e homens, crianças e velhos, numa comunidade de iguais. Esta postura de vida era a grande pregação feita prática. Que, só por si, anunciava a realidade do Reino de Deus.

O livro deixa-nos um grave problema, ainda que o autor, professor do Novo Testamento em Chicago, não o explicite. E é este: Que tipo de práticas/vivências hão as Igrejas cristãs promover hoje, nos contextos que são os nossos, e que tenham a mesma força subversiva e revolucionária destas comidas de Jesus?


O nascimento do Cristianismo. O que sucedeu nos anos imediatamente posteriores à execução de Jesus?

Por John Dominic Crossan

São mais de 600 páginas escritas por um dos maiores especialistas católicos da actualidade sobre Jesus e o seu projecto libertador. Será pecado grave não ler-estudar esta obra. Não é de fácil leitura. Mas que é imprescindível, é. Escandaliza mentes pias? Ainda bem. Porque mentes pias sem verdade é crassa alienação. O contrário do Cristianismo. Esta edição em castelhano vem prologada por Andrés Torres Queiruga, outra sumidade em interpretação bíblica.

"Que formas de cristianismo estavam presentes antes de Paulo, sem Paulo e inclusive se Paulo não tivesse existido?" É para iluminar esta questão que aparece este livro. Uma obra densa, cheia de pormenores, minuciosa. "Quem comece por Paulo, interpretará Jesus duma maneira incorrecta; quem comece por Jesus, interpretará Paulo duma maneira diferente".

O autor lança mão de um novo método de trabalho, para tentar chegar a "tocar" no Jesus histórico, sem o qual também não há o Jesus da Fé cristã. Este novo método consiste numa "combinação interdisciplinar de antropologia, história, arqueologia e literatura".

Crossan entusiasma-se tanto e entusiasma tanto, que o seu livro prende a nossa atenção como um bom romance. E deixa-nos diante de um Jesus histórico espantosamente revolucionário. A milhas de distância de outros seres humanos que marcaram a História, mas nenhum nenhum deles tanto como ele.

Não deixa de surpreender que o próprio Torres Queiruga que prologa a edição em língua castelhana, se confesse fascinado com este livro. São dele, estas considerações sobre o livro e o seu autor:

"Não resisto a uma consideração. Sempre que alguém propõe algo novo, rompendo esquemas habituais, aparecem aqueles que não vêem mais que um desafio para a tradição ou um perigo para a fé. Demasiadas vezes passam inclusive à desclassificação do autor. Aconteceu na América e pode acontecer aqui. Parecer-me-ia enormemente injusto no caso de Crossan. As suas interpretações poderão convencer ou não, agradar ou desagradar. Mas seria cegueira não perceber o seu direito a manifestar honesta e claramente as suas convicções, longamente elaboradas e duramente trabalhadas. Sobretudo, quando ele se confessa crente e não esconde a sua paixão pela figura de Jesus."

"Este livro - escreve o autor, logo a abrir o prefácio - trata sobre os anos perdidos do cristianismo mais primitivo, sobre os anos 30 e 40 do século I, sobre aquelas obscuras décadas imediatamente posteriores à execução de Jesus.

E mais adiante: "O título é O nascimento do cristianismo e requere duas explicações. Em primeiro lugar, sobre a palavra nascimento. Ordinariamente, as concepções são mais privadas e ocultas que os nascimentos. A concepção do cristianismo foi o movimento do reino de Deus, quando Jesus e os seus primeiros companheiros viviam na resistência radical mas não violenta contra o desenvolvimento urbano de Herodes Antipas e o comercialismo rural de Roma na Baixa Galileia dos finais dos anos 20. O nascimento do cristianismo teve lugar na continuação desse movimento, quando aqueles mesmos companheiros se esforçavam não só por imitar a vida de Jesus, mas também por entender a sua morte. Este livro trata sobre aquele nascimento (...)


O tempo e o espaço em que vivi

Por Miguel Urbano Rodrigues

O autor resiste a chamar-lhe Livro de Memórias, mas é disso que se trata. E bem. Porque a vida do jornalista e escritor Miguel Urbano Rodrigues está cheia de vivências que enriquecem culturalmente quem a conhecer. Este é o primeiro volume duma trilogia anunciada. Venham então os outros dois volumes. Porque este, de 256 páginas, já delicia quem deu pela sua saída e não o deixou abandonado no posto de venda.

Para espicaçar o interesse de leitoras e leitores distraídos, aqui se transcreve um naco de prosa com sabor a romance. É uma memória eventualmente chocante, tinha o autor uns 24 anos. Mas muito elucidativa dos costumes da época. Vem nas pgs 55-56 e tem a ver com uma freira. Ocorreu no regresso do autor de uma viagem a Madrid:

"No meu compartimento do velho Lusitânia Expresso viajavam duas freiras. Uma idosa e outra jovem. Pela conversa delas percebi que eram asturianas e iriam tomar em Lisboa um barco para a Colômbia. Pertenciam a uma ordem missionária.

Sentavam-se junto à janela, uma em frente da outra. Quando as luzes se apagaram, pela meia-noite, a mais velha sugeriu que trocassem de lugares, porque não gostava de viajar de costas para a locomotiva. A moça ficou então a meu lado.

Pela primeira vez olhei para ela com atenção. Não era bonita nem feia. Achei que cheirava a convento. Tinha uma pele muito branca, com sardas, e madeixas rebeldes de uma cabeleira ruiva obrigavam-na repetidas vezes a levar as mãos à touca engomada. O diferente nela eram os olhos, de um azul forte. Não os pousou, então, em mim.

Como o frio apertava (...) a freirinha colocou sobre os joelhos um grande cobertor, cujas pontas me beneficiava. Transcorrido algum tempo senti o calor do seu corpo. Os solavancos do combóio tinham aproximado dele a minha perna. Ela não se moveu. Não reagiu a uma leve pressão minha. (...)

Tinha os olhos cerrados, mas percebi pelo movimento dos lábios que não dormia. Simulava. A companheira ressonava.

Minutos depois, a minha mão, correndo sob a manta, imobilizava-se na fronteira da sua coxa esquerda. Ela consentiu. Eu agia sem coordenar as ideias, instintivamente. (...)

A jovem que os meus dedos tocavam não era uma grande dama. Mas por ser freira irradiava o encanto do inacessível aparente.

Do contacto passei à carícia. Ela permaneceu sempre passiva. (...) A meio da madrugada, levantou-se e passou por mim sem pedir licença. Deixei correr um minuto e segui-a. O corredor permanecia deserto. No fim da carruagem a porta do WC ficara entreaberta. Empurrei-a e entrei. Ela estava sentada no tampo da sanita. Fitava-me. Os seus olhos azuis, muito abertos, eram belíssimos.

Não proferi uma palavra. Mais do que excitado, eu sentia-me como se vogasse no espaço. (...)

Ela tinha os lábios entreabertos. Beijei-a com suavidade e permaneceu passiva. Peguei-lhe nas mãos e levantou-se sem resistência.

Não lhe vi o sexo, sequer o acariciei. Penetrei nela quase mecanicamente. E foi mecânico para mim o prazer. O que sentiria ela? Lembro-me que usava umas calcinhas de tecido áspero, de corte quase medieval. Foi difícil baixá-las.

Ela saiu primeiro. Eu não voltei ao compartimento."


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