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Textos do
Jornal Fraternizar- |
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| Edição nº 147, de Outubro/Dezembro 2002 (Continuação) | ||||||||||||||||||||
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Documento Natal: As mentiras das Igrejas Como qualquer outro ser humano, também Jesus de Nazaré nasceu apenas uma vez. Mas as Igrejas, tanto a católica como as protestantes, obrigam-no a nascer todos os anos. É o Natal (= nascimento) de Jesus, impreterivelmente fixado no dia 25 de Dezembro, feriado nacional obrigatório em todos os países que foram berço da Cristandade e que hoje ainda mantêm relações diplomáticas com o Estado do Vaticano e o seu chefe máximo, o Papa, sucessor do imperador de Roma! (A escolha do dia 25 de Dezembro teve um objectivo eclesiástico muito concreto: substituir e fazer esquecer a festa do Natal do deus-Sol que os sacerdotes do Paganismo celebravam todos os anos e à qual todos os povos do Império efusivamente se associavam, tal como hoje ainda sucede, só que, agora, sob o nome do "Menino Jesus" ou do "Deus menino") Nem se insista em negar a evidência dos factos, com recurso a um eufemismo de carregar pela boca, em que são hábeis as Igrejas, como é virem a correr dizer que o Natal é apenas a celebração do aniversário do nascimento de Jesus. Não é. O que as Igrejas celebram no dia 25 de Dezembro de cada ano é um novo nascimento de Jesus. Todos os anos, obrigam Jesus a ser outra vez "Menino Jesus". Todos os anos obrigam Jesus a ser concebido no ventre da Virgem Maria "por obra e graça do Espírito Santo" uma afirmação puramente teológica baseada na letra dos Evangelhos da Infância de Mateus e de Lucas, mas que as Igrejas interpretaram e continuam a interpretar como histórica, e com isso não hesitam em negar a pés juntos, ainda hoje, que José é o pai biológico de Jesus. Só que numa celebração do aniversário de alguém, o aniversariante jamais volta a ser bebé, como as Igrejas fazem com Jesus. Todos os anos, as Igrejas nos apresentam Jesus no presépio, pequenino entre animais, sob a representação duma imagem de menino envolto em panos, e dão-no a beijar, no final das Eucaristias que, entretanto veja-se a incongruência destas atitudes litúrgicas! celebram sacramentalmente a sua morte/ressurreição que ocorreu quando Jesus chegou a homem adulto e foi de tal modo interveniente, que teve que ser morto, tão incómodo se havia tornado no interior do Sistema dominante. Todos os anos, as Igrejas nos mentem com quantos dentes têm na boca com todos aqueles delírios que repetem até à demência acerca de Jesus e do seu natal que ocorreu apenas uma vez, mas que elas fingem que ocorre todos os anos e sobre o qual historicamente pouco mais sabemos do que nada, já que nem o dia, nem o ano, nem a terra do seu nascimento se sabem ao certo. Mas se acharem que a anterior afirmação anterior é forte demais, podem substituí-la por estoutra: Todos os anos as Igrejas nos dizem inverdades sobre o natal de Jesus, que são de bradar aos céus! E que têm que ser denunciadas/desmascaradas duma vez por todas. Em nome da verdade. E da dignidade da Fé cristã. Para ver se as Igrejas finalmente têm a audácia de se assumirem como Igrejas cristãs sem fingimento e sem dolo. Porque só a verdade liberta. Só a verdade nos faz livres. Só a verdade nos faz humanos, do mesmo jeito de Jesus, onde não haverá mais lugar para a alienação nem para o infantilismo, ainda que haja todo o lugar para a simplicidade e para sermos adultos/adultas como meninos/como meninas com outros meninos/com outras meninas. Jornal Fraternizar decidiu, por isso, elaborar nesta edição uma reflexão teológica, a partir de alguns capítulos do livro No y amén. Invitación a la duda, da teóloga feminista Uta Ranke-Heinemann, editado, há alguns anos, pela Editorial Trotta de Madrid. Não se trata duma tradução. Mas duma adaptação livre, da nossa exclusiva responsabilidade, feita com o intuito de tornar a mensagem daquela teóloga europeia ainda mais jornalística, sem contudo trair o seu pensamento original. Por favor, não se escandalizem. Nem passem adiante. Menos ainda fechem os olhos para não verem. Leiam tudo até ao fim. E, se for caso disso, voltem a ler mais uma e outra vez. Se quiserem ir mais longe e mais fundo, convidem outras pessoas conhecidas e amigas e leiam em grupo, por entre o indispensável debate. Temos consciência de que estamos a remar contra mais de dezasseis séculos de mentiras e de obscurantismo eclesiástico. Mas é mais uma razão para não desfalecermos. Tantos séculos sem verdade hão-de levar-nos a dar o grito do Ipiranga, esse mesmo que faz das escravas e dos escravos mulheres e homens libertos para a liberdade. Depois de lerem tudo até ao fim, não se virem contra o Jornal Fraternizar, nem contra o seu director. Virem-se contra as Igrejas que nos têm mentido e enganado, que nos têm catequizado com fábulas, como se fossem a verdade de Deus (cf. 2ª Timóteo 4, 3-5). Apesar de tudo, compreendemos o que, durante estes séculos para trás, se passou com as Igrejas. Mas não podemos pactuar com o que elas continuam a praticar, porque é mentira o que fazem. As Igrejas ocupam, desde há dezasseis séculos, o espaço que anteriormente estava ocupado pelas religiões politeístas do Paganismo. E, em lugar de evangelizarem as pessoas e os povos, deixaram-se paganizar por elas e por eles. Acabaram por adoptar os seus mitos, os seus deuses e as suas deusas. Passaram a presidir aos seus cultos nos mesmos templos e noutros novos que entretanto construíram. E ainda hoje atribuem a Jesus de Nazaré, o Cristo, o que os mitos do Paganismo diziam acerca dos seus deuses e das suas deusas. Mas Jesus não é a reprodução ou o clone do mítico deus-mor do Paganismo que todos os anos morria e ressuscitava. Não! Jesus é o filho de Maria e de José, a quem Deus, logo após ele ter sido baptizado por João no Jordão, identificou como o seu Filho muito amado (cf. Mc 1, 10-11) e a quem, pela sua Ressurreição dos mortos, constituiu para sempre como Senhor e Messias (cf. At 2, 36). Com ele, por ele e nele, a Humanidade alcançou o seu zénite e, desde então, sabemos o que é ser homem/ser mulher e como é que havemos de ser/viver para sermos verdadeiramente homem/mulher à imagem e semelhança de Deus. E felizes seremos se o formos do jeito de Jesus, o Cristo. Não do jeito dos poderosos líderes religiosos e políticos que o mataram. Eis, pois, a reflexão teológica que preparamos para si. Sente-se. Respire fundo. E deixe que a verdade penetre fundo na sua mente e se torne consciência pessoal! Sem nunca se esquecer que foi para a liberdade que Cristo nos libertou! (Gálatas 5, 1) Protoevangelho de Tiago Entre os muitos livros apócrifos do Novo Testamento, destacam-se os chamados Evangelhos da infância, tecidos de lendas que acabaram por ter muito mais influência na piedade e no imaginário dos católicos, mormente ao nível popular, do que os quatro Evangelhos canónicos. São evangelhos que descrevem pormenores manifestamente lendários e maravilhosos da infância de Jesus. O mais conhecido destes evangelhos é o Protoevangelho de Tiago. Foi escrito por volta do ano 150. Descreve, por exemplo, a lenda do milagroso nascimento de Maria. Vai ao ponto de inventar nomes próprios para os pais dela, nomes que ainda hoje são referidos como se fossem reais e históricos: Joaquim e Ana, mais conhecidos por São Joaquim e Santa Ana!... Apresenta a vida de Maria como se fosse uma virgem no templo de Jerusalém. Diz textualmente: "Maria permaneceu no templo como uma pombinha e era alimentada por um anjo"!!! Mas é com base nesta lenda que a Igreja católica criou a festa litúrgica da "apresentação da bem-aventurada Virgem Maria", que tem lugar no dia 21 de Novembro de cada ano. E que foi decretada para toda a Igreja, em 1585 (finais do século XVI), pelo papa Sixto V. O Protoevangelho de Tiago descreve também o casamento de Maria com José. E sublinha tanto a virgindade física de Maria, que chega a dizer que o seu corpo nem sequer foi afectado pelo parto de Jesus. E para tentar convencer as pessoas mais crédulas, vai ao ponto de inventar uma lenda que mais parece pornografia teológica, a propósito da qual dá largas a fantasias sexuais eventualmente chocantes. Vejam: "Quando a parteira saiu da gruta, Salomé foi ao seu encontro. E a parteira disse-lhe: «Salomé, Salomé, tenho que te contar uma coisa maravilhosa até hoje nunca vista: eis que uma virgem deu à luz, e a prova é que o parto não provocou quaisquer estragos no seu corpo de mulher». Mas Salomé respondeu: «Pela vida do Senhor meu Deus, não acreditarei em tal coisa, se não me for permitido meter lá o meu dedo para examinar o seu corpo». Salomé introduziu o seu dedo na zona genital de Maria, mas de repente pôs-se aos gritos: «Ai de mim! A minha maldade e a minha incredulidade são culpadas. Por tentar a Deus, eis que a minha mão ficou carbonizada e separou-se do meu corpo". E pôs-se de joelhos em oração. Apareceu então um anjo do céu e disse: «Salomé, Salomé, o Senhor escutou a tua oração. Aproxima a tua mão do menino, toma-o ao colo e haverá de novo alegria e felicidade para ti». Salomé aproximou-se do menino, tomou-o ao colo. E de repente ficou curada e saiu em paz da gruta". É, pois, com base neste Protoevangelho de Tiago que ainda hoje se diz que Jesus nasceu numa gruta (o Evangelho de Lucas fala apenas em manjedoira de um suposto estábulo). E que se garante palavra de parteira e da sua amiga Salomé! que o hímen do corpo de Maria não foi rompido nem sequer no acto do menino Jesus nascer. É também com base neste Protoevangelho e nesta lenda da parteira não com base nos Evangelhos canónicos que a Igreja católica definiu, mais tarde, como dogma de fé, a virgindade de Maria antes do parto, no parto, e depois do parto!... Mas o Protoevangelho de Tiago serviu ainda para ajudar a solucionar outros problemas relacionados com Maria e Jesus. Por exemplo, o problema dos irmãos e das irmãs de Jesus. A imagem literária da concepção virginal, difundida por toda a Antiguidade encontra-se também no Novo Testamento, em Mateus e Lucas era para ser interpretada apenas como a antiga imagem literária da criação de Adão a partir do pó da terra, no livro do Génesis. Não era para ser tomada à letra, como veio a ser, aquando da posterior obsessão católica pela virgindade, que mais não é do que uma manifestação doentia da aversão católica pelo sexo. Trata-se duma simples imagem literária, com a qual se pretendia sublinhar a misteriosa intervenção de Deus no aparecimento do "Segundo Adão" que é Jesus (cf. 1 Cor 15), à semelhança do que já tinha acontecido anteriormente na criação do "Primeiro Adão", o ser humano, homem/mulher. Não era, pois, uma afirmação científica sobre a integridade sexual de Maria, antes, durante e depois do parto. Tão pouco pretendia glorificar a virgindade, em detrimento do matrimónio. Pelo contrário, pretendia sublinhar a total comunhão solidária de Jesus com toda a humanidade, desde o princípio, a qual estava também muito bem representada nos irmãos e nas irmãs dele, mencionados igualmente por Mateus 13 e Marcos 6, os filhos e as filhas que Maria e José tiveram depois de terem tido Jesus: quatro irmãos Tiago, José, Simão e Judas e pelo menos duas irmãs, cujos nomes nunca são divulgados. As narrativas de partos virginais na Antiguidade pagã e nas narrativas de Mateus e Lucas (capítulos 1 e 2), que é influenciado por aquelas, não são histórias de castidade sobre a mãe, mas histórias de glorificação do respectivo filho. Não pretendiam glorificar a virgindade da mãe, mas unicamente chamar a atenção para a personalidade do filho. Um exemplo: Em Atenas, conta o seu sobrinho Espeusipo, estava difundida a saga de que Platão era filho do deus Apolo; que até ao nascimento de Platão, o pai deste, Ariston, se tinha abstido de ter relações sexuais com a esposa. A mesma coisa se dirá mais tarde de José, o pai carnal de Jesus: "E não a conhecia, até que Maria deu à luz um filho" (Mt 1, 25). E como Platão teve depois irmãos (por exemplo, a mãe de Espeusipo), assim Jesus teve depois irmãos e irmãs (Mt 13, 55 sgs), segundo o mesmo Evangelho de Mateus que refere o seu literário nascimento virginal. Porém, com o avanço das influências gnósticas avessas ao sexo, exercidas sobre o cristianismo primitivo, passou a entender-se a imagem literária da concepção virginal de Maria, como virgindade antes do parto e como o começo duma história de castidade que teria sido por toda a vida. Acabou também por se converter essa imagem na afirmação pura e simples da virgindade absoluta de Maria. Com isso, os irmãos e as irmãs de Jesus tornaram-se um grave problema. E tudo quanto tem a ver com filhos e com a criação normal de filhos passa a ter de ser mantido longe da Virgem Maria. É assim que tudo, em seu ambiente pessoal, foi limpo de tudo o que diga respeito a descendência humana, porque os filhos, se existissem, fariam com que, de alguma maneira, tropeçássemos na sexualidade. E Maria, com o tempo, acabou transformada pela Igreja católica numa espécie de mulher mítica e sem sexo! O espantoso é que entre os pagãos, apesar da imagem do nascimento virginal também ser de frequente uso literário, nunca se excluiu, no futuro, à virgem em causa o exercício da sua capacidade de conceber de forma normal e de dar à luz outros filhos. Pensemos, por exemplo, nos irmãos de Platão. Apenas a neurótica aversão católica ao sexo pôde levar àquela interpretação da virgindade de Maria. É por isso que, ao contrário do que acontece com os irmãos e as irmãs de Platão, que foram naturalmente assumidos, os irmãos e as irmãs de Jesus tornaram-se um problema, filhos problemáticos. E uma espécie de mácula infamante para a virgindade da sua própria mãe! Como tal, perderam até o direito à existência. Foram teologicamente abortados e eliminados!... E como se conseguiu isto? O Protoevangelho de Tiago não esteve com meias medidas e inventou a lenda de que José, esposo de Maria, era já viúvo, quando casou com ela e levou com ele para o novo lar os filhos do seu primeiro casamento! Os irmãos e as irmãs de Jesus seriam por isso apenas meio-irmãos e meio-irmãs. É com base nesta lenda inventada que a Igreja católica, avessa ao sexo, pôde proclamar como dogma a virgindade de Maria depois do parto, terceira e última parte da virgindade absoluta e perpétua de Maria, a qual seria de todo indefensável, perante a simples existência de irmãos e de irmãs carnais de Jesus. Vejam só como o Protoevangelho imagina e conta as coisas: "Ao chegar Maria aos doze anos, os sacerdotes reuniram-se para deliberar sobre o seu futuro imediato. Disseram: eis que Maria completou os seus doze anos no templo do Senhor; que faremos com ela para que não chegue a manchar o santuário [com o seu primeiro sangue menstrual]? E disseram ao sumo sacerdote: Tu que tens o culto ao teu cuidado, entra no Santo dos Santos e ora por ela; o que o Senhor te disser é o que faremos. O sumo sacerdote entrou no sancta sanctorum e orou por ela. E eis que um anjo do Senhor apareceu e disse: «Zacarias, Zacarias, vai e reúne todos os viúvos do povo e aquele sobre quem o Senhor realizar um sinal assombroso, desse ela será mulher». Saíram os arautos por toda a região da Judeia e, ao som da trombeta do Senhor, todos os viúvos se juntaram. José, deixando a sua terra, juntou-se a eles e, uma vez todos juntos, tomou cada um a sua vara e caminharam à procura do sumo sacerdote. E só a vara de José floriu. Então o sumo sacerdote disse a José: «A ti caiu em sorte receber sob a tua guarda a Virgem do Senhor». José replicou: «Tenho filhos e estou velho, enquanto que ela é uma donzela. Não quero ser objecto de troça por parte dos filhos de Israel». O sacerdote retorquiu: «Teme o Senhor teu Deus, e lembra-te do que ele fez com Datan, Abiron e Coré: como se abriu a terra e foram enterrados vivos nela por causa da sua rebelião. Teme tu também, José, não vá suceder que sobrevenha a mesma coisa com a tua casa». José, então, cheio de temor, recebeu Maria sob a sua protecção". Assustado pelas ameaças de maldição proferidas pelo sumo sacerdote [os sacerdotes de todas as religiões sempre foram e ainda são peritos em aberrações destas], José mostrou-se disposto a casar com Maria. É nesta piedosa(?) lenda que se inspiraram os pintores para, ao longo dos séculos, nos apresentarem um José ancião, em contraste com a donzela Maria. Mas é também com base neste artificialismo literário que o narrador do Protoevangelho garante que a virgindade física de Maria não corre perigo, o que seria difícil de garantir se José, seu marido, estivesse na pujança da sua fogosidade juvenil! Entretanto, nos séculos posteriores, esta lenda criada pelo autor do Protoevangelho, que acabou por transformar os irmãos e as irmãs de Jesus em enteados de Maria, foi considerada manifestamente insuficiente. E por isso todos os irmãos e irmãs de Jesus acabarão por ser expulsos da casa de Maria, bem como de todo o edifício dogmático católico, o qual, com essa decisão, ficou reduzido a um edifício doutrinal cheio de nada, ou, o que é o mesmo, cheio de lendas e de inverdades. Quem se encarregou desta operação de expulsar de casa os filhos e as filhas de Maria, depois deles terem sido transformados em filhos e filhas apenas de José, foi um dos mais famosos Padres da Igreja, Jerónimo, de seu nome, por volta do ano 419/420 (em recompensa pelos serviços prestados, a Igreja acabou por o canonizar depois da morte, e hoje é invocado como São Jerónimo!). Foi este Padre da Igreja que se insurgiu contra o Protoevangelho de Tiago e declarou que crer que José teve filhos de um anterior matrimónio "é uma fantasia ímpia e apócrifa". Em seu entender, a uma Maria virgem só podia cair em sorte um José virgem. Vai daí, Jerónimo eliminou não só os enteados de Maria e meio-irmãos de Jesus, de que fala a lenda do Protoevangelho de Tiago, mas eliminou também os irmãos e as irmãs de Jesus de que nos fala o Novo Testamento. Para o seu lugar, inventou o que ele chama os primos e as primas de Jesus. E assim passou a ser, até hoje, em praticamente todos os comentários exegéticos católicos do Evangelho de Mateus e de Marcos. Inclusive, no seu tempo, Jerónimo manteve uma acalorada diatribe com o leigo Helvídio, só porque este afirmava, com base no Novo Testamento (Mc 6 e Mt 13), que Jesus teve irmãos e irmãs, o que perfazia, por parte de Helvídio, a negação pura e simples da virgindade de Maria depois do parto. Jerónimo redigiu em 383 um libelo Contra Helvídio sobre a virgindade perpétua de Maria. Os argumentos a que recorre são praticamente os mesmos a que ainda hoje os teólogos católicos também recorrem, sempre que alguém fala dos irmãos e das irmãs de Jesus. Segundo Jerónimo, Maria pôs o fundamento para a virgindade, tanto para homens como para mulheres, já que, em seu entender, na pessoa dela, torna-se manifesto a superioridade moral da virgindade!... Só que a verdade é totalmente outra. Não é como pensava e defendia Jerónimo e continuam a pensar e a defender os teólogos católicos celibatários até João Paulo II. A verdade é esta: valorizou-se a virgindade [em sentido sexual-genital], não porque Maria foi sempre virgem, mas Maria foi e continua a ser oficialmente apresentada como sempre virgem, mesmo contra a verdade dos factos, porque então se idolatrava, e ainda se idolatra, a virgindade. Deste modo, a lenda do parto virginal, que começou no Novo Testamento com o objectivo de glorificar Jesus, segundo o costume duma lenda helenística de filho de deus, acabou por redundar, pela aversão gnóstico-católica ao sexo, na criação de um casal fantasmagórico, sexual e genitalmente virgem, no qual José perde todos os seus filhos de um anterior casamento, e Maria conserva apenas um. "Tu afirmas escreve Jerónimo contra Helvídio que Maria não permaneceu virgem, depois do parto, mas eu vou mais longe e afirmo que até José permaneceu virgem"!... Finalmente, para poder mandar ao diabo de forma definitiva os irmãos e as irmãs de Jesus, a Igreja católica tirou da circulação o Protoevangelho de Tiago que se lhes referia explicitamente. Encarregou-se desta decisão o famoso Decretum Gelasianum pontifício do século VI, que, no seu arrazoado, aproveitou algumas afirmações anteriores do papa Dâmaso (366-384), contemporâneo de Jerónimo. Vai daí, o Protoevangelho de Tiago acabou no Índex dos "livros proibidos", como um livro que não só deve ser "repudiado", mas também "eliminado por toda a Igreja católica, apostólica, romana e condenado por toda a eternidade sob o vínculo indissolúvel de anátema, juntamente com o seu autor". Entretanto, o ponto central da lenda do neotestamentário parto virginal deixou de ser o Filho, e passou a ser a Virgem. Uns irmãos não causariam dano a Jesus. Nem à sua divindade, pelo contrário, teriam até sublinhado a co-humanidade de Jesus mediante a bela imagem deste como irmão de irmãos e de irmãs. Porém, a suposta virgindade perpétua da sua mãe não permitia que Jesus tivesse irmãos e irmãs. Pelo que, para poder afirmar a virgindade perpétua da sua mãe, teve de se negar os irmãos e as irmãs de Jesus. Ou seja, até Jesus, o Cristo, teve de ceder o seu lugar à Mariologia católica!... O tema dos "malditos" irmãos e irmãs de Jesus foi então solucionado, por parte dos católicos, com a sua despromoção, desde Jerónimo, à categoria de simples parentes afastados. E ainda hoje se argumenta concretamente que "em textos influenciados pelo semitismo é frequente empregar o termo «irmão» para referir parentes mais afastados" (J. Blinzler). Porém, é notório que o Novo Testamento sabe muito bem distinguir entre irmãos e parentes: por exemplo, quando os pais de Jesus dão pela falta do filho, aos doze anos, em Jerusalém, procuram-no entre os "parentes" (Lc 2, 44). E o próprio Jesus distingue entre irmãos e parentes: "Quando deres um banquete ou uma ceia, não convides os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes..." (Lc 14, 12). Ainda hoje, os irmãos e as irmãs neotestamentários de Jesus lutam desesperadamente pela sobrevivência. Os teólogos católicos sempre têm afirmado que os irmãos também podem ser parentes; e jamais admitiram alguma vez admitirão?! que os irmãos também podem ser irmãos, e as irmãs, irmãs. Há um outro pormenor do Protoevangelho de Tiago que escandalizou Jerónimo: é a presença das parteiras, na hora do nascimento de Jesus. No seu escrito Contra Helvídio diz: "Não intervieram parteiras nem outras mulheres. Maria, ela mesma, envolveu em panos o menino, ela mesma foi mãe e parteira. «Reclinou-o numa manjedoira, porque não havia lugar para eles na hospedaria (Lc 2, 7)». Esta passagem desmente também as fantasias dos apócrifos, porque Maria em pessoa envolveu em panos o menino". As parteiras foram dispensadas no nascimento de Jesus, porque, segundo Jerónimo, em Maria não se verificaram dores nem dificuldades de parto. Maria fez tudo sem parteiras. Porque as dores do parto e tudo o que está relacionado com o parto assim opinam muitos teólogos católicos até hoje são maldição e castigo de Deus segundo Génesis 3, 16, quando Deus diz a Eva depois do mítico pecado original: "Com dores darás à luz os filhos". Jerónimo pensava a este propósito o mesmo que Agostinho, seu contemporâneo, que aponta as razões para o nascimento de Jesus ter tido lugar sem intervenção da parteira: Maria concebeu Jesus de modo virginal, sem ter que se envergonhar do prazer sexual, por isso também deu à luz sem dores (Enchiridion 34): "Porque Maria não concebeu sem pudor (sine pudore), tão pouco deu à luz com dor (cum dolore)". Tomás de Aquino, no século XIII, o principal responsável pela aversão católica ao sexo até hoje, repete este estribilho de Agostinho e insurge-se também contra a "apresentação falsa" do Protoevangelho apócrifo, contra o qual já Jerónimo se havia insurgido, e com razão, segundo ele. Apenas para as outras mulheres mães persiste, segundo a teologia feita por celibatários católicos, a maldição de Deus e a indispensável ajuda da parteira. Ignoram estes teólogos católicos que também os pagãos chegaram a escrever o mesmo que os Evangelhos canónicos da Infância, a propósito do parto de algumas das suas celebridades. Plutarco, por exemplo, escreve: "O nascimento de Cícero teve lugar, segundo se diz, sem dificuldades nem dores". E, com isso, estes autores pagãos não pretendiam afirmar especiais merecimentos por parte dos intervenientes nos partos. Apenas recorriam a uma imagem literária em vigor, no seu tempo, quando pretendiam apresentar determinada personalidade aos seus concidadãos. Tal como fizeram os Evangelhos da Infância de Mateus e de Lucas. Óvulo feminino Mas há mais "revelações" a fazer, a propósito, do chamado "parto virginal" de Jesus, e que as Igrejas todas continuam propositadamente a esconder do comum dos fiéis, para assim poderem prosseguir com as suas catequeses tecidas de inverdades. Continuem a ler com atenção. A concepção de Mateus e de Lucas de um parto virginal, apesar de utilizar a expressão helenística pagã, duma "procriação", contém um sentido teológico muito profundo. Pretende apresentar Deus como o único e soberano agente, como o criador. O nascimento de Jesus não deveria conter, sob nenhum aspecto, um contributo procriador humano; não só um contributo procriador não-masculino, mas também não-humano. A formação de Jesus devia ser obra criadora exclusiva de Deus, comparável à formação do mítico Adão bíblico, que se pensava ter sido formado por Deus a partir do barro. A verdade, porém, é que uma mulher não é um pedaço de barro. Toda a história pretensamente miraculosa do nascimento virginal de certas personalidades, também a do nascimento virginal de Jesus, foi concebida num tempo em que nada se sabia sobre a existência de um óvulo feminino. Este só veio a ser descoberto em 1827 pelo médico K. E. von Baer, professor em Konigsberg e em São Petersburgo. Até esta descoberta, pensava-se que a mulher não dava qualquer outro contributo na concepção de um filho, senão ser como o barro do mítico jardim do Éden, onde o homem deveria depositar o sémen, do qual e só do qual, assim se pensava o filho nascia e crescia. A esta concepção do parto virginal, estava subjacente a conhecida biologia aristotélica, segundo a qual a mulher era apenas o recipiente para o princípio masculino, o único procriador. Dentro desta maneira de ver as coisas, própria do seu tempo, Mateus e Lucas podiam pensar que, se excluíssem, no seu relato teológico, a intervenção de um pai terreno na procriação de Jesus, Deus apareceria inequivocamente como o único agente criador. Nem um nem outro sabiam que, para procriar um ser humano, são necessários dois parceiros igualmente activos, de modo que, mesmo que Deus substitua o homem, nem por isso se converte na única parte activa. Porém, desde a descoberta do óvulo feminino em 1872 e, com ela, a descoberta de que a mulher participa com metade na procriação, torna-se insustentável a concepção tradicional do parto virginal, inclusive como simples imagem literário-teológica duma exclusiva actuação procriadora de Deus; ao contrário do que sucede com a imagem mítica de que Adão foi formado do barro, ideia perfeitamente sustentável. O óvulo feminino contrapõe-se à ideia expressa no parto virginal, de que Deus é o único agente, tal como anteriormente se contrapunha o sémen masculino. Não só o sémen masculino, mas também o óvulo feminino excluem, na parte que cabe a cada um, a actuação soberana, única, de Deus. Não há, pois, uma acção exclusiva de Deus na procriação de Jesus. Desde a descoberta do óvulo feminino, ficamos a saber que tem que se ver a actuação de Deus, no nascimento de Jesus, como uma acção necessariamente concertada entre Deus e a mulher Maria. Porém, esta não é a concepção original que Mateus e Lucas têm de um parto virginal, porque isto significaria admitir uma relação sexual de Deus com uma mulher; relação que, se não fosse igual, seria muito semelhante à cópula entre homem e mulher. Se então se tivesse conhecido o óvulo feminino, teria sido necessário excluí-lo também da concepção literário-teológica do parto virginal, tal como se excluiu o contributo masculino, porque um óvulo feminino significa, tal como o sémen masculino, a destruição da ideia de fundo que se encontra por trás dessa concepção, isto é, a ideia de que Deus é o único princípio activo no aparecimento de Jesus. Foi esta lacuna no conhecimento sobre o óvulo feminino que serviu de fundamento à ideia duma concepção virginal, por obra do Espírito Santo num espaço isento de sexo. Depois da descoberta do óvulo feminino, continuar a afirmar o parto virginal de Maria significa reduzir Deus a simples substituto do homem. Mas a Igreja sabe como proceder para manter as coisas como estão: basta-lhe continuar a considerar em vigor a biologia aristotélica!... Se, pelo contrário, ousar ter em consideração o óvulo feminino a única posição em conformidade com o conhecimento que hoje temos da biologia humana então terá que mudar o Credo e passar a dizer: "Concebido cinquenta por cento pelo poder do Espírito Santo". Não o fazer, é o mesmo que não reconhecer um óvulo em Maria. Só que, nesse caso, Maria nunca teria sido a mãe carnal de Jesus, tal como a Igreja diz que José não é o pai carnal de Jesus. Apenas teria sido a barriga de aluguer de Jesus! Mas há ainda que ter em conta o seguinte: numa concepção virginal, como a que a Igreja defende para Jesus, a primeira célula de Jesus seria sempre feminina. E se a primeira célula feminina, que é o óvulo feminino, começasse milagrosamente a dividir-se sem a intervenção do sémen masculino, duma tal gravidez só poderia resultar um ser humano feminino. Por isso, num momento qualquer, antes do nascimento de Jesus, o feto que originalmente era feminino teria que ser transformado num feto masculino, o que suporia uma mutação trans-sexual de Jesus. Um "milagre" que ninguém, nem mesmo o papa João Paulo II, se atreve a reconhecer, muito menos, a introduzir no Credo! Herodes Ao escrever no seu Evangelho de Infância a espantosa história de Herodes que mandou assassinar os meninos de Belém, Mateus não teve qualquer preocupação de fidelidade histórica. A sua preocupação é outra: a de poder afirmar o cumprimento de mais uma profecia bíblica e assim levar os ouvintes do relato a concluir que Jesus de Nazaré era o messias! Não temos, por isso, que pôr luto por essas mortes!... Toda esta história, assim como a dos três reis do Oriente que com ela se mistura e confunde, não passa de uma fábula e foi escrita assim por causa duma profecia. Escreve Mateus: "Assim se cumpriu o que foi dito pelo profeta Jeremias: Ouviu-se um grito em Ramá, choro e grande lamento: é Raquel que chora seus filhos e não quer ser consolada, pois já não existem" (Mt 2, 17-18; Jer 31, 15). Acontece, porém, que Ramá, de que fala Jeremias não é de modo algum um lugar concreto situado a 8 km ao norte da Cidade Santa nem tão pouco Belém é a localidade situada a 8 km ao sul de Jerusalém. Por outro lado, Jeremias, no seu texto, não está a falar de um assassinato de meninos, pois os filhos de Raquel estão prisioneiros e não mortos, o que inclusive leva o profeta a prometer: "Eles regressão do país inimigo" (Jer 31, 16). A narrativa do assassinato de meninos também a encontramos noutros tempos e lugares. A ela anda ligada um misto de fábula e de saga. No essencial, Mateus recupera a fábula de Êxodo 1, 15 e sgs. E não faz mais do que utilizar a forma concreta que esta história de Moisés tomou entretanto no círculo cultural judaico e de que é exemplo elucidativo a forma contada por Flávio Josefo, falecido por volta do ano 100 dC: "Um dos seus escribas sagrados, homens muito astutos para predizer os acontecimentos, disse ao rei que por aquela época nasceria um menino israelita que, quando fosse grande, derrubaria o domínio dos egípcios e exaltaria os israelitas. E o rei teve tanto medo que mandou matar todos os meninos, atirando-os ao rio" (Antiguidades 2, 9, 2). Esta perseguição dos meninos israelitas ordenada pelo faraó é o pano de fundo bíblico para Mateus falar também da perseguição contra os meninos de Belém ordenada por Herodes. O evangelista enriquece o seu conto do assassinato de meninos com algumas outras citações tiradas do Antigo Testamento, que se referem a outras fases da vida de Moisés, mas já adulto. Segundo o Êxodo, Moisés adulto teve que fugir do faraó por ter morto um egípcio (Ex 2, 12 sgs) e permaneceu longe do país, até que Deus lhe comunicou que podia regressar sem perigo, porque "já morreram todos os que tentavam matar-te" (Ex 4, 19). "Já morreram os que tentavam matar o menino" escreve, por sua vez, Mt 2, 20 acerca de Jesus menino. "Então Moisés pegou na sua mulher e nos filhos e regressou ao Egipto" (Ex 4, 20). "Levanta-te, toma o menino e sua mãe e vai para a terra de Israel, porque morreram os que atentavam contra a vida do menino. Levantando-se, ele tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egipto" refere, por sua vez, Mt 2, 20-21, acerca de Jesus menino. É, pois, manifesto que Mateus utiliza os acontecimentos de Ex 1, 15 sgs e Ex 4, 19 sgs para construir um novo acontecimento com que tece o seu relato teológico sobre Jesus. E faz isto porquê e para quê? Apenas por razões teológicas, concretamente, para levar os directos destinatários do seu Evangelho a concluírem que Jesus é o novo Moisés! Só que, neste caso, a comparação de Jesus com Moisés até é inadequada, uma vez que Jesus, ao contrário de Moisés, nunca matou ninguém! Mas nem esta discrepância fundamental entre ambos afligiu o evangelista. Entretanto, do rei Herodes temos notícia de muitos dos seus crimes, mas entre eles não se encontra o do assassinato de meninos de Belém. Atribuir-lhe este crime é uma calúnia cristã. De resto, este crime seria desnecessário, pois todos os habitantes de Belém deveriam saber qual a casa e qual o menino (haveria 20 a 30 meninos nessa altura) que tinham sido objecto duma espectacular visita isto, se os pormenores do relato fossem factos históricos quer duma estrela, quer duma caravana de magos do Oriente!!! Mas se quiséssemos interpretar à letra e como relato histórico o assassinato de meninos de Belém por Herodes, então teríamos que perguntar porque é que Deus salvou o seu próprio Filho, mediante os avisos de um anjo em sonhos a José e já não se importou nada que morressem sem qualquer aviso meninos inocentes de outros pais e mães! Esta será certamente uma pergunta não cristã. Porque no séc. V, o papa Leão Magno, por exemplo, consegue ver em todo este relato teológico do assassinato dos meninos de Belém o seu lado positivo: Através dele diz Deus conferiu aos meninos assassinados "a dignidade de mártires (Sermão 31)!!! Magos Quanto aos magos e à sua visita a Belém, a Igreja encarregou-se de fazer deles uma das fábulas centrais do Catolicismo, uma espécie de teologia gráfica com ilustrações. E muita gente ainda hoje vê nesta familiar imagem do tempo de Natal com as suas fantasias de presépio, reis magos, boi e jumento e no centro de tudo o casal e o encantador menino de cabelo ondulado o fundamental do Cristianismo. Se no princípio, nem sequer se sabia quantos eram os magos que tinham vindo do Oriente, esta lacuna depressa foi ultrapassada. A partir das ofertas que eles teriam feito ao menino ouro, incenso e mirra concluiu-se que seriam três. Foram três os magos, diz Orígenes, no século III. E o papa Leão Magno (séc. V) vai pelo mesmo número, nos seus Sermões sobre a Epifania. Quem pela primeira vez converteu os magos em reis foi o bispo de Arles, a Roma gaulesa do séc. VI. No século VIII, foram-lhes atribuídos nomes: Gaspar, Belchior e Baltazar. E idades: jovem, homem maduro e ancião. E garante-se, neste mesmo século VIII que os três provinham de outros tantos continentes: Europa, Ásia e África! Mas tudo isto é fantasia pura, não tem nada de verdade histórica!... |
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| Igreja/Sociedade XXII Congresso de Teologia de Madrid Uma globalização outra em alternativa à do Império Perante o império da globalização neoliberal hoje tão furiosamente triunfante na História, esqueçam tudo o que sabem sobre os habituais modos de fazer política e de fazer Igreja, inclusive, esqueçam as chamadas comunidades eclesiais de base, os partidos políticos e os sindicatos tradicionais, o associativismo em geral, e tudo o que sabem sobre todos os outros modos de intervir na sociedade. Todo esse saber acumulado ao longo de séculos é hoje praticamente inútil, se não mesmo contraproducente, para levarmos por diante, com fecundidade, o martirial combate contra o império da globalização neoliberal. Temos, como Humanidade, de nascer de novo, de outro Sopro, de outro Espírito, de outro Vento nascer do Alto, isto é, de fora do Sistema vigente, como desde há dois mil anos nos anda a dizer Jesus de Nazaré, o Cristo para podermos garantir futuro ao nosso presente. O "demónio" da globalização neoliberal e a sua "Ordem Mundial" não se expulsam com os velhos métodos reformistas, nem mesmo com os velhos métodos revolucionários. Temos de consentir que se apodere de nós outro Vento, outro Sopro, outro Espírito, que nos faça mulheres e homens novos, sujeitos criadores duma globalização outra, tecida pelos fios da libertação para a liberdade, da solidariedade libertadora e não benfeitora ou assistencialista, da fraternidade/sororidade universal, da inteligente e efectiva partilha dos bens como um direito inalienável das pessoas e dos povos, e do indispensável protagonismo económico, social, cultural, eclesial e político das pessoas e dos povos, a começar pelos povos hoje mais empobrecidos e oprimidos, aí completamente à margem da História. Esta é a principal conclusão a que chegou o Jornal Fraternizar, no termo do XXII Congresso de Teologia de Madrid, realizado entre os dias 5 e 8 de Setembro último, no anfiteatro das Comissiones Obreras do Estado espanhol. Jornal Fraternizar escutou-a, a partir do muito que foi dito nas múltiplas intervenções do Congresso, mas sobretudo a partir do muito que não chegou a ser lá explicitamente dito. "Cristianismo e globalização" foi o tema em debate. Intervenientes visíveis foram múltiplos, quase todos "prata da casa", com destaque para o teólogo Juan José Tamayo-Acosta, sem dúvida o mais credenciado de todos. De fora do Estado espanhol, foi saudavelmente perturbadora a voz de África, na pessoa do teólogo congolês, Jean Paul Ilunga ("Vocês, europeus, continuam a comer-nos, mesmo quando dizem que vêm ajudar-nos!"), e a voz da América Latina, na pessoa do Bispo emérito de Chiapas, Samuel Ruiz, que proferiu a conferência de encerramento. Contudo, foi notória para o Jornal Fraternizar a ausência de um "peso-pesado" internacional, que mais se tenha dedicado ultimamente à investigação na área da teologia/economia. Tão grave ausência empobreceu manifestamente o Congresso e só serviu, pelos menos indirectamente, para reforçar ainda mais o império da globalização neoliberal, que assim não foi ali suficientemente desmascarado e escalpelizado em toda a sua crueldade, como deveria ter sido. Carlos Taibo, da Universidade Autónoma de Madrid, trouxe ao Congresso o seu testemunho militante e a consequente reflexão pessoal sobre "Os movimentos da resistência global". Com a sua intervenção, o Congresso percebeu que um dos caminhos que hoje cristãs e cristãos evangelizados e demais mulheres e homens politicamente esclarecidos e conscientes havemos de ousar percorrer em conjunto, sem mais delongas, é engrossar as fileiras dos Movimentos incorrectamente chamados antiglobalização, e cujos primeiros intervenientes têm arriscado a própria vida nas anuais cimeiras dos G-7 ou G-8, lá nas diferentes cidades onde eles se têm reunido. É imperioso e urgente que juntemos os nossos corpos e as nossas vozes a todos os corpos e a todas as vozes da primeira hora para, em número cada vez maior, gritarmos aos que se têm na conta de senhores do mundo, que eles, afinal, não passam de uns monstros em forma humana e, como tal, terão que ser derrubados e abatidos dos seus tronos, juntamente com os seus necrófilos projectos neoliberais. Até agora, as Igrejas cristãs e os partidos políticos tradicionais têm ficado à margem destes Movimentos, mas eles cada vez mais se afirmam e, sem que ninguém saiba bem como, tornam-se imparável "bola de neve" que bem pode acabar por forçar uma substancial mudança de rumo (= metanóia, em grego) no mundo da Economia, da Política, das Igrejas e da Sociedade em geral. Ninguém o disse explicitamente, mas o Jornal Fraternizar acabou a reconhecer nestes Movimentos anti-G-7 ou G-8 o "dedo" do Espírito de Deus, esse mesmo que habitou plenamente Jesus de Nazaré e fez dele o Cristo, e que desde o início da Criação, nunca mais deixou de estar fecundamente presente e actuante na História. Para que este nosso mundo, governado e dirigido por minorias cheias de poder e de privilégios, passe (=Páscoa) do inferno que continua a ser para as as maiorias empobrecidas e oprimidas da sociedade, a casa comum, servida por uma única mesa também comum, na qual se sentam, em radical igualdade, todas as mulheres e todos os homens que um dia nele nascemos. Outros caminhos alternativos aos do Império da globalização neoliberal haverá que inventar e percorrer, para o travar com eficácia, neutra lizá-lo e, finalmente, derrubá-lo. Por mais que ele pareça invencível, é, como todos os impérios do passado e ainda mais do que todos eles, um império com pés de barro. Só mesmo pessoas e povos assustados, como parecem ser hoje as maiorias empobrecidas e oprimidas do mundo; e políticos aburguesados e acomodados, como manifestamente são hoje os dirigentes das nações e os seus parceiros das diversas oposições partidárias; e responsáveis de Igrejas mais ou menos amordaçados e mercenários, como são hoje os que se fazem passar por pastores do povo, tanto os das velhas Igrejas como os das novas, é que se deixam impressionar e enfraquecer pela arrogância que o império neoliberal utiliza como arma de arremesso contra a Humanidade e contra a própria Natureza. E logo se atiram sobre o prato de lentilhas com que esse mesmo império habilmente tenta comprar a cumplicidade de quase todos eles. É por isso que urge nascer de novo, nascer do Alto, nascer de fora do Império, isto é, urge nascer das Vítimas do Império. Aliás, são elas quem, uma vez evangelizadas, mais depressa se hão-de dar conta dos pés de barro do Império neoliberal. É certo que as vítimas do Império não dispõem de meios à altura para lhe fazer frente. Mas também nem precisam. Basta que elas, sabiamente, ousem virar o feitiço contra o feiticeiro e, em menos de três tempos, o Império e a sua arrogância cairão. Sobre os seus escombros, havemos de erguer uma globalização outra, onde tudo, até o Dinheiro, passa a estar ao serviço da vida e vida em abundância e de qualidade para todas as pessoas e para todos os povos sem excepção. Nem digam que é mera utopia esta possibilidade. Mas se quiserem dizer que é utopia, então logo acrescentem: É uma utopia que havemos de tornar topia, isto é, realização histórica. O que não podemos é manter-nos aí cheios de medo, e corrermos a refugiar-nos nos templos da religião, tanto os tradicionais como os novos das "seitas", ou nos grandes centros comerciais das multinacionais que estão apostados em transformar-nos em coisas que consomem tudo o que encontram pela frente, nem que seja veneno disfarçado de comida, e mentira disfarçada de publicidade, ou a refugiar-nos nos tolos e ocos enredos das telenovelas que, surpreendentemente, até o que havia por aí de melhor no campo dos actores nacionais e internacionais, acabaram por conseguir cooptar para seus cúmplices. Entretanto, temos que estar prevenidos contra a mais crassa mentira do império da globalização neoliberal, uma mentira que ele proclama como verdade dogmática e definitiva, quando repete até à náusea de que não há alternativa para a sua globalização, uma vez que, com ela, chegamos já ao fim da História. Não deveremos estranhar que o império minta, porque mentir é o que ele mais e melhor sabe fazer. O que já é de estranhar é que as pessoas e os povos aceitem como verdade dogmática e última essa sua mentira. A História não chegou ao fim. A bem dizer, a História ainda nem sequer começou. Ela só começa, quando for derrubado o último império e a Humanidade, finalmente, aparecer como a protagonista em todos os campos do ser/fazer/saber. Até lá, o que temos, não é ainda a História, mas a selva, que se caracteriza pelo domínio do mais forte sobre o mais fraco, onde os Caim de carne e osso matam os Abel de carne e osso, onde se erguem sucessivas e cada vez mais arrogantes Torre de Babel, que, depois, o Espírito Santo de Deus tem que derrubar, sempre que encontra alguém, ateu que seja, que com Ele coopere. Mas atenção! Mais do que corrermos a criar novas organizações e novas estruturas, em substituição das velhas que já não servem, (ainda há quem insista em mantê-las de pé), deixemo-nos, de preferência, "tocar" pelo Sopro que vem de fora do império da globalização neoliberal, ou seja, do miserabilíssimo submundo das suas vítimas, hoje, a esmagadora maioria da Humanidade. Tornemo-nos "movimento" e "missão". Privilegiemos a relação viva, o contacto directo e afectivo. Tornemo-nos companheiras e companheiros de vida, com todos os bens em comum, e sempre de olhos postos na globalização outra, verdadeiramente humana, que já está a vir e que carece de quem lhe ofereça os seus corpos para que ela ganhe corpo na História. Ao mesmo tempo, nunca deixemos de saborear o gozo e a alegria do Espírito de Deus, de modo a mandarmos constantemente para os "porcos" do império da globalização neoliberal, os "demónios" da tristeza e da amargura, para que ele mais depressa se afunde no abismo e desapareça. Depois, com a simplicidade e bom-humor dos que escolhem ser pobres ("Felizes os que escolhem ser pobres", anda a proclamar, desde há dois mil anos, Jesus de Nazaré, o Cristo), partilhemos umas com as outras e uns com os outros, a Palavra e o Pão, mas sempre como quem resiste ao império da globalização neoliberal, e anuncia, já misteriosamente presente, a globalização outra que está aí a vir e que tem o "dedo" do Espírito de Deus. Até que ela seja realidade histórica para todas as pessoas e para todos os povos do mundo. E para toda a Natureza. |
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| Ainda o XXII Congresso de Teologia de Madrid É urgente transformar o mundo! intervenção (resumida) do teólogo Juan José Tamayo-Acosta "A teologia cristã não se move no horizonte da razão pura, mas da razão prática, e encontra-se sob o primado da ética. Podemos dizer que a ética não é um simples apêndice ou uma simples aplicação prática da teologia sistemática. Trata-se do horizonte global da actividade teológica. Isso leva-me a considerar a ética como teologia primeira. «Reflexão crítica da praxis histórica à luz da Palavra», eis como Gustavo Gutiérrez define a Teologia da libertação, de que é um dos criadores e um dos principais representantes. E que tipo de ética é a do cristianismo? Quais as suas principais características? Avanço aqui um resumo." 1. Ética da libertação. A ética do cristianismo, no horizonte do seguimento de Jesus, procura a lbertação das diferentes opressões e escravidões a que se vêem submetidos os grupos e as pessoas mais desfavorecidos. Identifica-se com os pobres e opta por eles. O pobre não se reduz a simples categoria económica. É pessoa com um rosto que me pro-voca e com uma voz que me grita: Tenho fome! Escutar o seu grito e agir libertadoramente para o atender, eis a ética cristã (cf. Is 1, 17; Lc 4, 16-21; Mt 25, 31-46). O imperativo ético é: Liberta o pobre e o oprimido! Trata-se de um imperativo categórico absoluto. Obriga a toda a gente. Sempre. Sem nenhuma excepção. 2. Ética da justiça. A injustiça é uma constante na história. É estrutural. Planificada pelo Sistema. A violência institucionalizada é a violência primeira, originária. A ideia de justiça está no centro da mensagem de Jesus: Procurai primeiro o reinado de Deus e a sua justiça e o resto virá por acréscimo. Mas a ideia que Jesus tem de justiça vai em direcção contrária à dos escribas e fariseus hipócritas, aos quais acusa de "pagarem o dízimo da hortelã, do funcho e do cominho", e desprezarem "o mais importante da Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade" (Mt 23, 23). O imperativo ético é: Actua com justiça e entrega-te por inteiro à construção duma ordem internacional justa. 3. Ética da gratuidade. No nosso tempo, impera a cultura do lucro, do dinheio, da riqueza acumulada para benefício próprio. A cultura do negócio que é a negação do ócio. Da razão instrumental, que converte tudo em meio, inclusive os seres humanos. Tudo é venal, nada é gratuito. Em Jesus de Nazaré, é manifesta uma ética alternativa a esta: a ética da gratuidade. Exige aos discípulos, enviados em missão, que dêem de graça o que de graça receberam. E o imperativo ético é: Sé generoso. Dá-te. Tudo o que tens de mais vital recebeste-lo de graça: a vida, o ar que respiras, a natureza, os outros homens e as outras mulheres. 4. Ética da compaixão. A história humana está semeada de vítimas. Estas remetem-nos para a existência de verdugos/carrascos. As vítimas constituem o grande relato macabro do nosso tempo. O actual fenómeno da globalização neoliberal propõe-se criar um mundo feliz a nível planetário, mas o que está a conseguir é aprofundar ainda mais as desigualdades entre ricos e pobres e aumentar o número das vítimas. Não tem entranhas de misericórdia para com as vítimas. Nem pode ter, já que é ele quem as cria. Noutra direcção vai Jesus e o seu Evangelho. "Misericórdia quero, não sacrifícios, conhecimento de Deus, mais do que holocaustos", Mateus põe por duas vezes estas palavas do profeta Oseias na boca de Jesus. E o melhor exemplo da prática da misericórdia é a parábola do Samaritano (Lc 10, 29-37). O imperativo ético pode formular-se assim: Tem entranhas de misericórdia para com as pessoas e os povos que sofrem. 5. Ética da alteridade. Há hoje uma tendência muito generalizada para marcar as diferenças entre as pessoas e criar fronteiras entre elas e entre os diferentes povos e culturas. Os outros são estranhos, estrangeiros, quando não até inimigos, perturbadores da ordem, invasores, ocupantes, competidores. E se os acolhemos, exige-se-lhes que renunciem à sua cultura e se integrem na nossa. E é porque precisamos deles, porque fazem trabalhos que não queremos fazer e pelos quais não pagamos o justo salário. Algumas leis de estrangeiros são mais leis de controlo do território do que de acolhimento. Muito outra é a ética da alteridade, da proximidade. Implica respeito da diferença, comunicação inter-étnica, diálogo inter-cultural e sobretudo reconhecimento efectivo do outro, enquanto tal. O imperativo ético é: Reconhece, acolhe e respeita o outro, a outra, como diferentes. A diferença enriquece! 6. Ética da solidariedade. Vivemos instalados em nacionalismos éticos que limitam e reduzem os laços de solidariedade apenas aos membros da mesma "tribo", às pessoas da mesma profissão, aos camaradas da mesma classe, aos companheiros do mesmo partido, aos fiéis do mesmo credo, aos membros da mesma família. Ora, a universalidade é condição necessária para tornar válido um projecto ético. E a solidariedade é a virtude ou força que activa a universalidade e vertebra o projecto ético. Frente à estreiteza de horizontes do judaísmo e de importantes sectores judeus que se consideravam o povo eleito e excluíam os não-judeus da salvação de Deus, Jesus de Nazaré abre o caminho do universalismo ético. Como? Anunciou a universalidade da salvação, realizou práticas libertadoras indiscriminadamente e abriu as portas do Reino de Deus aos não-judeus. O imperativo ético é: Sê cidadão do mundo. Trabalha por um mundo onde caibam todos os mundos! 7. Ética comunitária fraternal-sororal inclusiva. Apesar dos evidentes avanços na emancipação das mulheres, impera ainda na sociedade uma ética patriarcal que considera os valores masculinos como critério ético universalmente válido. Não poucas Igrejas cristãs, com destaque para a católica romana, levaram ao extremo esta exclusão das mulheres, ao não as reconhecer como sujeitos morais e ao mantê-las à margem dos ministérios eclesiais, da tomada de decisões e do exercício de responsabilidades públicas. Na prática de Jesus de Nazaré encontramos bases sólidas para fundamentar uma ética inclusiva de mulheres e de homens e uma sociedade de iguais, no respeito pelas diferenças. Ele atreveu-se a isso, apesar de viver numa cultura androcêntrica. Mulheres integram o seu Movimento desde o princípio, em paralelo com homens e têm um papel fundamental na sua expansão, fora das fronteiras de Israel. Foram mulheres as primeiras testemunhas da ressurreição de Jesus, a experiência fundante da Igreja cristã. O imperativo ético é: Colabora na construção duma comunidade de iguais (não clónicos!), sem discriminações de género e com respeito pelas diferenças. 8. Ética da paz. As religiões foram e continuam a ser fontes de violência. Muitas das guerras da história foram classificadas como "guerras de religião". O mesmo sucedeu com o cristianismo. A cruz e a espada andaram juntas em muitas iniciativas missionárias. Jesus, porém, vai por outra via. No Sermão do Monte, declara bem-aventurados os que "trabalham pela paz" (Mt 5, 9). Deixa-nos a sua paz como testamento (Jo 14, 27). E quando envia os discípulos, diz-lhes que a sua saudação seja de paz. Hoje, o Ocidente continua a ser beligerante contra os que se opõem à sua hegemonia. E alguns dos seus dirigentes apelam a Deus para, desse modo, melhor afirmarem o seu poder e domínio. Sabemos que a paz é inseparável da justiça. Justiça e paz beijam-se. Por isso o trabalho pela paz tem que ser acompanhado da luta pela justiça e da luta contra a pobreza. O imperativo ético não pode ser o agostiniano: "Se queres a paz, prepara a guerra", mas o evangélico: Se queres a paz, trabalha pela paz e pela justiça! 9. Ética da vida. A defesa da vida está na base de todos os códigos éticos, religiosos ou laicos. Mas a vida na sua integridade, não só a vida da alma, a vida eterna, ou a vida espiritual. Também a vida de todos os seres humanos, e até da natureza. Mas hoje a vida dos seres humanos está mais ameaçada que nunca pelas guerras, pela fome, pela má nutrição, pelo exílio, pelas migrações em condições infra-humanas, pel exclusão social, pelos massacres contra minorias étnicas. No cristianismo, a base da defesa da vida encontra-se no próprio Deus que se apresenta como Deus de vida frente aos ídolos de morte (Mt 12, 27). Estes são hoje o grande desafio a que o cristianismo tem que responder e que é muito mais grave e urgente que o do ateísmo. Para Jesus, o dever de salvar a vida prevalece sobre o preceito do sábado! O imperativo ético é: Defende a vida de todo o ser humano. Vive e ajuda a viver! Ética do serviço, como crítica e alternativa à ética autocrática do poder. Jesus é severíssimo com os homens do poder. E exige que não entrem no seu Movimento: "Sabeis como aqueles que são considerados governantes das nações fazem sentir a sua autoridade sobre elas, e como os grandes exercem o seu poder. Não deve ser assim entre vós. Quem quiser ser grande entre vós, faça-se vosso servo." (Mc 10, 42-43). Estas palavras reflectem a postura de Jesus diante dos poderosos. A Herodes, Jesus chega a chamar-lhe "raposa". Rejeita o messianismo davídico, na linha do poder. Só aceita o do Servo sofredor de Iavé, dos Cânticos de Isaías. O imperativo ético só pode ser: Liberta o pobre e o oprimido. Evita os poderosos e denuncia suas prepotências. Renuncia à violência. Aposta na violência da ternura libertadora para mudar a sociedade. 11. Ética da conflitualidade. O conflito é inerente à ética de Jesus. A sua vida não decorre num ambiente de harmonia, mas de conflitualidade. Jesus não foge do conflito. Assume-o e por vezes até o provoca: com as autoridades religiosas judaicas; com o poder político; com o poder económico; com a teologia oficial; com a família; com a sociedade patriarcal; e até com Deus! O imperativo ético é: Rebela-te! Não te adaptes à situação injusta. A quem te bater numa das faces, apresenta também a outra, isto é, não te fiques nunca perante o prepotente, o injusto, o fabricador de vítimas! 12. Ética da incompatibilidade entre Deus e o Dinheiro. No cristianismo de Jesus, a incompatibilidade é entre Deus e o Dinheiro, não entre Deus e o sexo, ou entre Deus e a felicidade e o prazer, como é, por exemplo, para a generalidade da hierarquia da Igreja católica romana. Jesus é claro: "Não podeis servir a dois senhores. Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro" (= Mammona). E Jesus não se fica pela incompatibilidade no terreno dos princípios. Concretiza-a num estilo de vida pobre, desprendido, itinerante, desinstalado, sem residência fixa e sem posses, tanto dele, como de quem o acompanha. Infelizmente, as Igrejas não fazem sua esta incompatibilidade, nem nos princípios, nem no estilo de vida. A opção pela racionalidade económica substituiu a opção pelos pobres. A acumulação substituiu o compartilhar. O imperativo ético é: Partilha a vida e os bens. Não acumules! Para uma globalização inclusiva onde caibamos todas e todos. Na actual conjuntura, o Cristianismo de Jesus pode animar um processo de globalização igualitária, alternativo ao processo de globalização neoliberal que gera múltiplas desigualdades. O Cristianismo é uma via ou caminho universal. Mas a sua universalidade não tem nada a ver nem com a uniformidade que as diversas Igrejas pretendem estabelecer; nem com a imposição das suas crenças aos povos do mundo, numa edição corrigida e aumentada da cristandade medieval; nem com o pensamento único; nem com o todo poderoso imperialismo. Tem que ver com a defesa da universalização dos direitos humanos, da justiça e da igualdade, a partir da opção pelos mais desfavorecidos. A universalidade do Cristianismo deve traduzir-se numa globalização da solidariedade, a partir de baixo, e que inclua quantas e quantos a globalização neoliberal exclui. Para tanto, as cristãs e os cristãos havemos de participar nos diferentes foruns de solidariedade, com iniciativas tendentes à consecução duma autêntica fraternidade/sororidade. Se em 1989, os movimentos cristãos contribuíram eficazmente para derrubar o Muro de Berlim, que separava e opunha o Leste do Oeste, hoje podem contribuir para derrubar um muro ainda mais alto: o que separa o Sul do Norte, os pobres dos ricos. Precisamente, pelo seu carácter universal e universalista, o cristianismo pode ajudar a mundializar as lutas sociais e políticas. Para tanto, tem de levar para elas os seus ideais emancipatórios e de partilha da vida e dos bens. E globalizar a esperança! Apesar das dificuldades que opõem os organismos internacionais que controlam de maneira totalitária a globalização, a alternativa é possível, é nessária e é urgente. O cristianismo tem de renunciar ao fatalismo que o caracterizou durante séculos. Está chamado a assumir a palavra de ordem do Forum Internacional de Alternativas: "É tempo de dar outro rumo à História!" |
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Mensagem final do XXII Congresso de Teologia de Madrid A Igreja meteu as palavras de Jesus no frigorífico 1. Sofremos uma globalização exclusivamente económica, de carácter predominantemente financeiro e especulativo, marcadamente oligopolítica, carente de elementos éticos, educativos, jurídicos, políticos e sociais, que seriam próprios de um liberalismo autenticamente humano e democrático. 2. O resultado deste sistema (pretensamente científico) é que metade da humanidade debate-se entre uma pobreza muito severa e uma extrema miséria. Ao mesmo tempo que os 20 por cento mais ricos da população mundial tem rendimentos 74 vezes superiores aos dos vinte por cento mais pobres, e sem que se registem medidas redistributivas eficazes por parte dos mais favorecidos. 3. No fundo desta horrenda situação, que é o caldo de cultivo da insegurança e do terrorismo que afectam o mundo, está o desequilíbrio entre a enorme e crescente potência científica e técnica dos "meios" e o empobrecimento paulatino da sabedoria dos "fins". É o reinado do "pensamento débil", que tende a assenhorear-se do mundo. 4. Os movimentos contrários ao actual modelo de globalização acentuam a primazia da solidariedade humana, do respeito pela natureza e da ajuda com carácter de urgência aos mais necessitados. Cremos, como eles, que estes são os valores humanos fundamentais, que não são exclusivos de Jesus de Nazaré, mas dos quais ele é uma testemunha de primeira categoria. 5. Jesus disse que "não se pode servir a dois senhores. Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro". Mas as Igrejas cristãs (particularmente a Igreja católica romana), mantêm estas palavras de Jesus no frigorífico. No desenvolvimento das Igrejas cristãs há um factor que as impede de romper a sua ligação com as estruturas do capitalismo moderno: o seu elevado grau de institucionalização. Embora interiormente distantes do sistema que faz cada vez mais pobres os pobres e cada vez mais ricos os ricos, estas Igrejas estão ligadas ao sistema no plano institucional e portanto têm que ter a boca fechada. Para estar em condições de poderem levar a sua mensagem têm que deixar de falar! É o círculo vicioso que caracteriza esta situação. 6. Nestes graves momentos da história humana (hoje, 8 de Setembro de 2002) é impressionante reler um texto profético da Bíblia, escrito provavelmente no século III antes de JC (trata-se duma das passagens mais tardias do Livro de Isaías): "Confiai sempre no Senhor, porque o Senhor é a rocha perene: abateu os habitantes das alturas e a cidade soberba; humilhou-a, derrubou-a por terra, reduziu-a a pó. Ela é calcada pelos pés dos humildes, pelos pés dos pobres" (Is 26, 4-6). |
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| Comentário à margem Fazer memória de Jesus Também os Congressos de Teologia de Madrid, apesar de serem tão incómodos para os bispos católicos do Estado espanhol (ainda não houve um que se atrevesse a passar por lá como companheiro e irmão!), fazem questão de promover uma "Celebração da Eucaristia" de encerramento, a que juntam uma "Colecta de Solidariedade". Porém, a celebração, por mais que se diga que é feita em memória de Jesus, é em tudo semelhante às "Missas" presididas pelos bispos/padres católicos de Espanha, de Portugal e de qualquer outra parte do mundo. É verdade que há um grupo que previamente a prepara e que os cânticos têm ritmos latino-americanos e letras mais comprometidas. Mas não consegue ir além de um rito celebrativo mais. Quase sempre barulhento e agitado. É pena. Porque fazer memória de Jesus tem que ser outra coisa bem distinta. Cumpre-nos descobrir, em cada tempo e lugar, toda a sua originalidade/novidade e toda a sua força. E atrevermo-nos a ser os protagonistas como Jesus historicamente foi. É sempre uma dor de alma constatar que, afinal, continuamos a não ir mais além dos sacerdotes do tempo do profeta Elias (mais de oito séculos antes de JC). Juntamo-nos todas e todos num local, erguemos uma mesa-altar, colocamos uma toalha em cima, tocamos uns instrumentos, pomos um sacerdote quanto mais credenciado melhor (as mulheres têm de ficar distantes!...) a presidir e, depois, pomo-nos todas e todos a pedir a Deus que resolva os problemas do nosso mundo, que dê paz a Israel e à Palestina, que acabe com a fome em África e noutros países do Sul, que desarme os poderosos do mundo, que arranje maneira de acabar com a poluição que nos asfixia e mata, que cure os doentes de cancro e de sida, que ponha fim à pobreza imerecida em que jazem as grandes maiorias da Humanidade. No final, estamos todas e todos muito contentes, abraçamo-nos e beijamo-nos e vamos sossegados para nossas casas. Fizemos de conta. E Deus também. E é bem feito. Só escusávamos de dizer que nos reunimos em nome e em memória de Jesus! Não é verdade. Se fosse, ousaríamos ser mulheres e homens como ele, que deu o corpo ao manifesto, para que os problemas do mundo se resolvessem. Não pediu a Deus que o fizesse. Deixou o Espírito de Deus agir nele, com ele e por ele. Sempre! É o que nos falta a nós! |
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Livros do trimestre Nesta local, e no espaço de seis páginas impressas, faz-se a recensão de 24 livros, enviados pelas respectivas Editoras. Remetemos para essas páginas as pessoas interessadas. Última página S.O.S. do Director do Jornal Fraternizar Num dos primeiros dias depois das últimas férias, o Jorge, tesoureiro da Associação Padre Maximino veio ter comigo e disse com a preocupação estampada no rosto: Sabes que a nossa conta no Banco está quase "careca"? Não sabia. Mas fiquei a saber. E aqui estou a passar a informação às leitoras e aos leitores. A explicação é fácil de encontrar: A grande maioria das pessoas que continuam a gostar de receber o Jornal em sua casa, infelizmente, "esquecem-se" (um bem-haja a quantas e quantos não se têm esquecido e partilham connosco algum do seu dinheiro!) de que temos de pagar à tipografia, de que temos de pagar na íntegra os portes de correio e de que não incluímos nas nossas páginas qualquer espécie de publicidade paga. Enquanto beneficiámos de PORTE-PAGO - o que aconteceu durante mais de doze anos consecutivos - a situação equilibrou-se. Mas, desde que o perdemos, tudo passou a correr por nossa conta. Daí este meu S.O.S. Primeiro, a quem se tem "esquecido" de que fazer e manter o Jornal tem os seus custos. Elevados, por sinal. Depois, a todas e todos os outros que o recebem e lêem. Sem a vossa regular partilha de bens, o Fraternizar terá de deixar de aparecer. Cântico (para ser cantado com a música do filme "Titanic": Cremos em vós, ó Deus) 1. Dizes que crês em Deus dizes que crês mas em que Deus tu crês se logo enriqueces? Só crê em Ti, ó Deus quem usa os seus bens p’ra pôr fim à pobreza e às suas causas. 2. Dizes não crer em Deus dizes não crer mas em que Deus não crês se logo enriqueces? Feliz de quem, ó Deus consegue ser ateu também do deus-Dinheiro que nos mata a alma 3. Não faltas nunca à missa não faltas nunca o Papa também não e é sempre papa! Quem Te agrada, ó Deus não é quem vai à missa é quem entrega a vida p’la vida do mundo 4. És da Comunidade dizes que és mas guardas só p’r’ós teus todos os teus bens Feliz de quem, ó Deus Partilha os seus bens ao jeito de Jesus como fez Maria 5. Trabalhas para os pobres a vida inteira os pobres ficam pobres mas tu enriqueces!... Feliz de quem, ó Deus recusa a "caridade" pratica o Amor que gera igualdade 6. Mais do que creres em Deus mais do que creres crês que Deus crê em ti e que te ama Com gente assim, ó Deus é que podes contar não se servem de Ti servem-Te nos pobres 7. Voltaste à Fé em Deus é o que apregoas mas és toda de Fátima e da sua senhora! Com Fé assim, ó Deus só podemos chorar idolatria é e alienação 8. Confessas ser cristão confessas ser mas vives ao teu jeito não ao de Jesus Só Te agrada, ó Deus quem faz crescer teu Reino quem mobiliza os pobres contra a pobreza 9. Quem diz que ama a Deus quem diz que ama mas não ama os irmãos é um mentiroso Quem não ama, ó Deus os irmãos a quem vê não pode amar-Te a Ti a quem não vê 10. A dor e o sofrimento dos inocentes fazem descrer em Deus mas injustamente Quem como Tu, ó Deus combate a dor e o mal conTigo até a Morte é Ressurreição! Magusto Fraternizar dia 26 de Outubro no Café Alexandre Castanhas e poesia é o que o grupo promotor do 5º encontro de leitoras e de leitores do Jornal Fraternizar sugere a todos os companheiros e companheiras para o próximo dia 26 de Outubro à noite. O evento terá lugar no Café Sargento, do nosso companheiro Alexandre, que fica na Estrada 222 (Estrada de Avintes), mesmo no cruzamento que dá para Sandim e para Crestuma. Não se demore, venha daí!... Não nos falte a sua afável companhia. Para mais informações contactar pelos telefones: 227651614 Alexandre 964393443 Gracinda. |
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© Página criada 9 Outubro de 2002 |
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