Textos do
Jornal Fraternizar-

Edição nº 146, de Julho/Setembro 2002 (Continuação)

Documento

EM MEMÓRIA DELAS

«O LIVRO DA RADICAL IGUALDADE»

chamou-lhe a escritora Fina d’Armada

Foram duas as sessões de lançamento do livro EM MEMÓRIA DELAS. Livro de Mulheres. Uma no Porto (Loja fnac, no NorteShopping) e outra em Lisboa (Livraria Ler Devagar). Foram dois inesquecíveis momentos de festa e de sororidade/fraternidade vivida. Só quem participou pode testemunhar. No Porto, a apresentação esteve a cargo da escritora Fina d´Ármada. Em Lisboa, foi Isabel do Carmo, médica e conhecida militante revolucionária, a protagonizar esse serviço. Desses momentos, Jornal Fraternizar apresenta, de seguida, o texto que Fina d´Ármada previamente escreveu para dizer na ocasião. Apresenta, depois, os dois textos que o padre Mário escreveu e disse, respectivamente, no Porto e em Lisboa. Como a dra. Isabel do Carmo falou sem texto previamente escrito, não nos é possível reproduzir aqui as suas palavras.

Fina d’Armada:

Escreveu Marguerite Yourcenar, uma mulher pois então, no seu livro Arquivos do Norte:

“Em todas as épocas há pessoas que não pensam como toda a gente, quer dizer, que não pensam como as que não pensam”.

Estas palavras parecem ter sido escritas para o autor do livro que hoje aqui nos trouxe – Em Memória delas. Livro de Mulheres. Também ele não pensa como aqueles e aquelas que não pensam. Ele pensa de novo. Ele pensa diferente. E é muito difícil pensar de outra maneira no seio de uma comunidade gigantesca que pensa toda da mesma forma. É preciso ter uma coragem de lobo, de fera. E sentir-se a energia em todos os poros de que se nasceu com uma missão.

Também poderíamos intitular esta obra como “O livro da Radical Igualdade” (expressão do autor), pois é a igualdade de todos os seres humanos levada às últimas consequências, sobretudo a igualdade entre mulheres e homens em todas as esferas, a verdadeira personagem deste livro. “Rasgue-se a Bíblia, mas não se discriminem as mulheres”, é um dos títulos dos seus textos teológicos.

O padre Mário foi catequizado como todos nós, mais do que a maioria de todos nós, num seminário, a adorar um deus “miticamente concebido como projecção do chefe masculino” (palavras suas, p. 258). Deus que privilegia os homens, que considera as mulheres o pecado, a tentação do demónio. Eva foi a causadora dos humanos serem expulsos do paraíso, a terem de ganhar o pão com o suor do rosto, assim me ensinaram. A mulher era indigna, disseram-no todos os sábios da Igreja, os que falavam e julgavam em nome de Jesus na Terra, indigna de se casar com um sacerdote. O matrimónio, que a Igreja considera um sacramento, era uma instituição (ainda o é em muitos lados) entre dois seres desiguais, em que um manda e o outro obedece em todos os actos da vida em comum, mesmo na cama.

Pelas suas origens, não deve ter sido fácil estudar para o padre Mário. Mas estudar foi uma promoção na sua vida. Se não tivesse estudado, não teria oferecido à Humanidade uma série de livros. A maioria aproveita essa promoção, fornecida pelo estudo, e sobe de classe. Esquece os seus iguais e torna-se membro de um sistema em que uns são privilegiados e outros vão ficando em escalões mais baixos. O extraordinário neste padre é que ele nunca esqueceu que era filho da Ti Maria do Grilo e aproveitou o estudo, não para pensar como o ensinaram a pensar, as “a não pensar como os que não pensam”.

Para além de ser uma honra para mim apresentar um livro sobre Mulheres do meu tempo e do meu país, é também interessante pensar como a vida é carregada de diversidade. Tal como o padre Mário também nasci numa aldeia. Tal como o padre Mário também quis ser padre quando fosse grande. Já tenho contado isto, porque foi um facto que me marcou e repito-o aqui porque tem a ver com este livro.

Estava eu num recreio na escola primária, recreio só de meninas (porque nesse tempo havia o apartheid de sexos no ensino), quando decidimos brincar à rodinha do “giroflé, giroflá”. Quando me calhou a vez de estar no meio da roda, as meninas em redor cantavam: “E que ofício lhe dareis, giroflé, giroflá, e que ofício lhe dareis, giroflé, giroflá”. Outras respondiam: “O ofício de costureira, giroflé, giroflá”... Aí eu fiz parar a roda e gritei: “Eu não quero ser costureira, quero ser padre”. Foi uma gargalhada geral. As minhas companheiras sabiam e aceitavam o que eu desconhecia: “Não podes, disse uma, és mulher”. “Isso era antigamente – gritava eu cheia de raiva e completamente fora da realidade – agora já se pode”. Elas continuaram a rir e o recreio acabou. Quando cheguei a casa fui tirar a limpo com a minha mãe que me mostrou como era o organigrama do mundo. Eram homens os padres, os membros da Junta, o regedor, o médico... A minha mãe, como era feminista sem nunca ter ouvido tal palavra, aconselhou-me a estudar para que nunca viesse a precisar de viver à custa de nenhum homem, nem do Estado. E “reza a Nossa Senhora”, nunca me lembro de me aconselhar a rezar a Nosso Senhor.

O padre Mário foi em relação a mim um menino privilegiado, porque nasceu homem e pôde ser padre. Mas não se sente feliz com esse privilégio, por isso escreveu este livro.

É difícil imaginar o que sente uma menina dum meio religioso (na minha casa rezava-se o terço à noite à lareira) quando descobre que Deus, que para ela devia tratar todos por igual e ser justo, afinal é um carrasco injusto. Acho que o clero nunca pensou nisso e nas feridas que abre. Eu nunca mais fui a mesma. Acho que foi nesse dia que se gerou a semente da futura feminista. É que nem sempre tomamos a atitude do padre Mário que distingue Deus da hierarquia da Igreja, revolta-se contra a última e continua apóstolo de Jesus. Na minha cabeça, Deus, padres, Igreja é tudo a mesma coisa – uma religião que não é para mim, uma religião de homens e para homens. Que me exclui, que me empurra para a margem, para fora.

Estava eu posta em sossego, estávamos todos postos em sossego, Igreja e sociedade com tudo estabelecido, Deus masculino reinando nos céus, hierarquia masculina reinando na Igreja, homens reinando no mundo, embora cada dia as mulheres ataquem e derrubem suas muralhas, quando o padre Mário ergue a sua voz. Tem-na erguido muitas vezes, desde que é padre. No tempo do Estado Novo, no espaço da Guerra Colonial, nas freguesias onde paroquiou, no Jornal que dirige, na TV, nas rádios, nos livros que escreve. O padre Mário é um homem que incomoda porque não pensa como os que não pensam. Ele fala, diz e escreve coisas que desassossegam, que causam assombro e di-lo de uma maneira que irradia felicidade.

Olhemos para o padre Mário. E digam lá se ele não é um homem feliz. Está sempre bem disposto, irradia alegria por todos os poros. Apesar de marginalizado por uma religião fundada por marginalizados e marginalizadas, ele ri sempre. Ele deve ter-se encontrado, deve ter descoberto a sua missão na Terra. Ele é feliz, não consegue odiar, caminha, repete a sua mensagem como se tivesse dentro de si um sol, como se o Deus, tal como ele o interpreta, fosse fonte de pleno contentamento.

Além disso, no final de cada texto, mesmo que fale de desgraças, de discriminações e humilhações, da morte, de enterros, há sempre uma alegria que transvasa. Por exemplo, é extraordinariamente bonita a imagem que compara o enterro de uma pessoa a um corpo semeado num campo principal ou corpo semeado na Humanidade. Há sempre uma palavra de esperança, de libertação, de ruptura, de que vale a pena a vida ser vivida em liberdade e com autonomia. Nos textos do padre Mário, cada momento é o princípio do resto de cada vida. Os seus textos são hinos à vida e à alegria.

Esta obra Em Memória delas, compõe-se de quatro livros, como poderão ver no índice: “Rostos”, “Estórias”, “Crónicas Exemplares” e “Textos Teológicos”. O primeiro consta de biografias de mulheres pouco comuns, que dificilmente seriam escolhidas como personagens por outros autores. O segundo, “Estórias”, é um monumento literário; aí o autor mostra-nos que afinal ele não escreve por escrever, também tem talento. São textos dignos de figurar nas selectas dos melhores autores portugueses. No terceiro, “Crónicas Exemplares”, além de estarem bem escritos, são textos que nos levam a meditar. Destaco as freiras, por exemplo.

“As freiras. O exemplo mais acabado da mulher reprimida. Eclesial e socialmente, a mulher impedida de ser. Esmagada por mitos e tabus. (...) Cujos corpos desconhecem a vibração da ternura mais alegre e andam distantes da comunhão do amor com outros corpos. Cujos corpos conservam como apêndice, sem interesse, um útero, um sexo e uns seios”.

Para além do estilo, da arte de escrever que o padre Mário demonstra neste livro mais do que nos livros anteriores, podemos analisar esta obra ainda em duas vertentes: a da linguagem e a da mensagem.

Comecemos pela linguagem. Sabendo que a nossa língua e todas as línguas são masculinizadas, ou seja, “homem” dizem que também significa mulher, companheiro inclui companheira, alunos inclui alunas, etc, o padre Mário já há anos que encontrou maneiras de usar as palavras de uma maneira que estabeleça a mais possível igualdade entre termos masculinos e femininos. Foi curiosamente na Universidade de Coimbra, em 1995, num congresso entre universidades europeias, em que participei, que ouvi falar na linguagem do Jornal Fraternizar, dirigido por padre Mário. Aí, num relatório internacional, apontava-se esse jornal como um bom exemplo no uso das palavras.

Ele diz, por exemplo, “fraternais/sororais”. Assim, quando nós dizemos que queremos um mundo mais fraterno, estamos a dizer que queremos um mundo em que sejamos irmãos. Parece tudo dito. Mas não está. Porque também queremos um mundo em que as mulheres sejam irmãs e por isso o padre Mário usa o termo sororal que vem de “soror”, irmã, geralmente aplicado entre as freiras. Escreve “o amigo/a amiga”, “a companheira/o companheiro”, “Confiou sempre em Deus como um menino/uma menina confia em sua mãe”. Considera Deus nossa Mãe/nosso Pai universal. “Somos filhas e filhos do Mar, não apenas da Terra e do Vento”, escreve. Quer dizer, as modernas teorias de uso da linguagem que preocupam as escolas e universidades europeias, já o padre Mário demonstrou como se pode fazer em concreto.

Quanto ao segundo ponto – a mensagem – aí é o forte deste livro. E qual é a mensagem deste calhamaço de 372 páginas, sem desenhos para divertir os olhos?

Bem, penso que cada um de nós faz uma leitura do que lê conforme as suas vivências. Uns textos dirão mais a uns que a outros e outras. Depois de ler tudo e meditar, creio que o cerne deste livro, a semente, está na mensagem de que não pode haver Igreja sem as mulheres. Não tem futuro sem elas. Elas hoje ainda são as melhores clientes, mas há muitas, como aqui a Fina, que acham que já é capaz de ser tarde demais. O autor defende que não pode haver Humanidade sem o Feminino. Que o homem será mais homem quando deixar de ser macho. Que as mulheres têm direito ao prazer, ao trabalho, à liberdade, a todos os bens do mundo.

A Igreja, que é o seu reino, instituição da qual se nega a sair porque acha que esse é o seu lugar para a renovar e a aproximar do espírito inicial da boa nova de Cristo, terá que aceitar as mulheres ou morre. Para ele, discriminar as mulheres é mais do que uma injustiça, é um pecado. “Ou lhe pomos cobro, já, ou arriscamo-nos a desaparecer da História, como Igreja católica romana.”

Foi possível durante dois milénios, em que as mulheres foram, segundo o padre Mário e segundo nós todos e todas, creio, “clientes subservientes das religiões”, numa “postura colectiva que foi o maior pecado histórico das mulheres”. Durante dois milénios, ou melhor, desde o século IV, em que a Igreja se tornou poder (e em Portugal durou até à República declaradamente e mesmo veladamente até hoje), as mulheres foram humilhadas pelas Igrejas e aceitantes dessa humilhação. Fizeram delas apenas as mulheres da limpeza dos templos, as zeladoras dos altares que os enfeitam com flores e fazem as toalhas, lavam-nas e passam-nas a ferro.

Sentindo ou não que Deus era coisa de homens, o certo é que as mulheres foram aceitando a sua situação como vontade de Deus. A sociedade civil era assim, tudo o mesmo, não havia saída.

O problema surgiu a partir do século XIX e XX, quando as mulheres tiveram acesso à escola. Começaram a ter outra visão do mundo. O poder civil acabou por lhes dar direitos políticos e cívicos. E mesmo que hoje ainda a igualdade não seja completa na sociedade, pelo menos vislumbra-se. Há esperança. Mas dentro da Igreja não há esperança alguma. Por isso muitas mulheres já desistiram da Igreja e foram tratar de outra vida. Se sentem vontade de rezar, fazem-no a uma Nossa Senhora qualquer que, mal por mal, sempre é mulher como elas. Apesar, claro, como também se diz no livro que agora folheamos, a Nossa Senhora ter sido fabricada para oprimir também as mulheres da Terra. Ela foi concebida sem pecado original e nós todas nascemos duma relação sexual que, mesmo que fosse misturada com amor, pelos vistos é sempre pecado. Já dizia Simone de Beauvoir em O Segundo Sexo, que “o Cristianismo condenou o Filho de Deus a uma morte ignominiosa, mas poupou-lhe a mácula do nascimento”. Maria teve um parto sem dor, ela é bendita entre as mulheres e nós todas somos malditas a ponto de não podermos ser sacerdotes.

É claro que não adianta mudar de religião ou aderir às seitas. Veja-se o programa religioso da RTP2, intitulado A Fé dos Homens. Li algures que era um programa de 17 Igrejas! Dezassete! E todas falam da Fé dos Homens, esquecendo a Fé das Mulheres, embora elas sejam a maioria nas igrejas de todos os credos!

Para acabar, direi que o livro do padre Mário se aproxima da teologia feminista. É uma teologia que interpreta os textos sagrados com outra visão, em que as mulheres são não marginalizadas. Aproveitam o que há de melhor nos livros bíblicos e com esse melhor tentam fazer renascer o cristianismo sem exclusões. É essa a missão deste sacerdote que tem um coração do tamanho do planeta – renovar o cristianismo, dar ao mundo um Evangelho novo. Enterrar o antigo que foi factor de discriminação entre homens e mulheres e entre privilegiados e pobres. E com os pobres e as mulheres e todos os desprezados do planeta, em “radical igualdade”, construir um mundo novo, uma religião nova, onde todas e todos encontrem a felicidade.

“É a hora”, diz ele. “É a hora, Mulheres do Terceiro Milénio! É a hora, Homens do Terceiro Milénio! A nossa hora! Derrubemos os muros que houver para derrubar. Abramos as portas que houver para abrir. Demos os passos que houver para dar. Inventemos o Futuro Humano que houver para inventar. É a nossa hora!”

É curioso que este apelo, esta espécie de solução final, a única capaz de salvar e aproveitar o que resta da palavra de Jesus, venha de alguém de quem a hierarquia da Igreja oficial não gosta. O padre Mário podia ter ido à sua vida, ele é um homem dotado de muitas capacidades, até da capacidade de bem escrever, não precisa da Igreja para nada, sobrevive bem sem ela. Mas teima em permanecer dentro, porque não desistiu, não abandonou Jesus, não o traiu. E daí, de dentro da instituição, com um pé dentro e outro fora, estende a mão a toda a gente. Neste livro, não há limites entre os seres humanos. Em nenhum livro encontrei esta igualdade tão radical e conheço muitos até escritos por mulheres. Estas 372 páginas são um só grito, uma espécie de grito de libertação, de grito de Ipiranga – Igualdade ou morte! Mulheres em igualdade na Igreja, com acesso ao sacerdócio e fim do celibato do clero, ou fim da Igreja.

Esperemos que este grito seja ouvido. E ouvido a tempo. Que comece por ser lido. Vale a pena perder umas horas, porque as mulheres são metade do azul do Céu, metade do verde da Terra. As mulheres valem a pena. Tal como este livro.


Pe. Mário, na fnac Matosinhos

Como Jesus de Nazaré, também eu nasci de mulher, uma mulher histórica, de carne e osso, de nome Maria, no caso, a Ti Maria do Grilo, quase iletrada que, desde criança, aprendeu a servir em casa de ricos proprietários e que à noite, depois de consumadas as lides do dia, ainda deitava o rabo do olho para os cadernos e os livros dos filhos dos senhores e assim, sem nunca chegar a ir à escola, conseguiu aprender a conhecer as letras e a ler, embora já não chegasse a aprender a escrever.

Como Jesus de Nazaré, também eu nasci de mulher, uma mulher oprimida, escravizada, moura de trabalho, ela própria pobre não só por condição, mas também por opção, que cresceu à margem do Sistema, marcada para mulher-a-dias e jornaleira nos campos de uma outra Maria e senhora dona. Como Jesus de Nazaré, também eu comecei por ser evangelizado por uma mulher (para mais, meu pai, símbolo do poder doméstico e da autoridade, foi emigrante, durante anos e anos em Moçambique e eu não conheci a sua presença física junto de mim, o que me proporcionou crescer na presença do feminino que estava, vigoroso, em minha mãe, e fez de mim um homem com entranhas de feminino, de misericórdia, todo constituído para valorizar a vida, a ternura, os afectos, a doação, a gratuidade, a partilha, a entrega de mim aos demais. E a verdade é que ainda nesta Páscoa de 2002, dei comigo a cantar/dançar entre as companheiras/os companheiros: “Como Jesus também digo / a quem come do meu Pão / tomai, comei é o meu corpo / vamos ser Revolução”; e ainda: “Como Jesus também digo / a quem bebe do meu Chã / tomai, bebei é o meu sangue / vamos ser irmão/irmã”. Ou seja, como Jesus de Nazaré, também eu acabo de perceber, aos 65 anos de idade, que ser homem/ser mulher é ser companheiro/companheira (= comer do mesmo Pão), é viver para fazer viver a muitas e muitos, é amar sem conta nem medida, é puxar pelos outros para que todas e todos sejam, é libertar o que há de mais belo e de melhor dentro de cada uma/de cada um, é dar à luz, sem nunca se tornar pai ou mãe, por isso, é dar à luz não filhos e filhas, mas irmãs e irmãos, é gerar protagonistas, é saber diminuir para que os outros cresçam, é dar a minha vida pela vida, é morrer/ressuscitar para ressuscitar/levantar a muitas e muitos, é ficar para sempre com os demais na comunhão sem distâncias, na igualdade mais radical, na postura de serviço libertador feito de alegria e de festa.

Nasci de mulher. Não só como Jesus de Nazaré. Mas como todas as mulheres e todos os homens. Acontece, porém, que nem todos os nascidos de mulher nos assumimos, depois, como tais, isto é, como nascidos de mulher. E a prova é que, durante séculos e séculos, foram muitos os que até fizeram gala – e ainda hoje fazem! – de serem filhos de Fulano de tal, em vez de serem nascidos de mulher. Porque ser nascido de mulher, e de mulher analfabeta, oprimida, doméstica/domesticada, não abria nem abre as portas do Poder e do carreirismo a ninguém.

A minha felicidade foi nascer de mulher e de mulher pobre e, depois, apesar dos doze anos do seminário que me prepararam para ser outra coisa, nunca mais ter deixado de me reconhecer nesta identidade. O que para muitos seria uma origem a esconder, é para mim título de glória. E talvez seja este facto que justifica este livro Em Memória delas. Livro de Mulheres.

É certamente um livro surpreendente, para ser da autoria de um padre católico. Mas se é surpreendente o livro, mais surpreendente será o seu conteúdo.

Não vou sequer tentar sintetizá-lo aqui. Apenas dizer-vos: O livro está aí! Leiam-no e encontrar-me-ão nas suas páginas. Estou nelas com o meu abraço e o meu beijo, todo ternura e fecundidade, presença companheira, libertadora, amiga, fraterna, ressuscitadora.

Penso que neste livro vai o melhor de mim, o feminino que me faz ser homem-para-os-demais, próximo, sem tabus, sem poder, amigo sem nada exigir em troca, na gratuidade maior que me leva a nem sequer buscar a compreensão de ninguém, nem mesmo dos pobres, ainda que, evidentemente, muito a aprecie, quando ela me é oferecida também gratuitamente.

Como sabem, sou padre da Igreja católica, excluído e marginalizado pela hierarquia androcêntrica, clerical. O que, de modo algum me envergonha (sei muito bem por que me tratam assim) antes me entusiasma, porque me faz ainda mais igual às mulheres que, na Igreja católica, são marginalizadas e excluídas de tudo quanto é lugar de decisão e de responsabilidade na sua condução. Mas quando se trata de encher templos e capelas, zelar altares, enfeitar imagens de santos de caco ou de madeira, lavar e brunir toalhas de altar e ocupar-se de outros serviços menores, como dar catequese a crianças com catecismos que o clero elabora e aprova, ou cantar nas liturgias a que o clero preside, aí já as mulheres são bem-vindas e estão em primeiro plano!

Este livro aparece nos alvores do Terceiro Milénio do Cristianismo e da Igreja. Só por si, vem dizer à Igreja de que sou presbítero ordenado, marginalizado é certo, mas presbítero, que a Igreja dos bispos e do clero celibatário à força, da Cúria e do Papado, dos cardeais e dos leigos clericalizados, ou morre para o machismo e se faz feminina com mulheres activas em todos os ministérios ordenados, desde o diaconado/presbiterado ao episcopado e ao chamado Serviço de Pedro, ou não tem futuro. Porque é a anti-Igreja!...

Pensam que, por exemplo, Angola seria o que foi até hoje, se os líderes da Unita e do Mpla fossem mulheres acentuadamente femininas, ou homens com alma feminina, isto é, com entranhas de misericórdia? Pensam que o Médio Oriente seria o inferno que é, para palestinianos e israelitas civis, se Israel fosse presidido por uma mulher com entranhas de vida e não por um monstro humano que dá pelo nome de Sharon? E pensam que o mundo seria o que hoje é – esta cruel fábrica de produção de vítimas humanas, com os Estados armados até aos dentes e ao serviço do grande Capital e do Lucro – se no lugar do autoritário e terrorista Bush e do misógino Woiytila estivessem mulheres desarmadas, sensíveis à dor e aos gemidos das vítimas, não só das vítimas norte-americanas do 11 de Setembro de 2001, mas também e sobretudo dos milhões de vítimas dos restantes países do mundo, nomeadamente, daqueles que os EUA têm impunemente produzido como se fosse coisa natural e inevitável?

Por isso digo: a Igreja católica (e as outras) será feminina, ou não será. O século XXI e o terceiro milénio serão femininos, ou não serão. O Mundo será feminino, ou não será.

Termino com palavras de gratidão:

- À Fina d’Armada, companheira nas lutas pelos direitos das Mulheres, nomeadamente, pela despenalização do aborto, como aconteceu recentemente na Maia, durante o vergonhoso julgamento a que foram submetidas 17 mulheres. E pela sua presença participativa, manifestamente emocionada e emocionante, nesta sessão. Se ela gostou tanto do livro, todas as mulheres gostarão.

- Às companheiras/aos companheiros responsáveis da FNAC que disponibilizaram este espaço para a presente sessão e, nestes dias, fazem do meu livro “vedeta” nos seus escaparates, dentro do aprazível espaço de cultura que é esta loja.

- Às companheiras/aos companheiros que vieram e estão presentes nesta sessão. E que, como a Maria, irmã de Marta, do Evangelho de Lucas, já perceberam que nem só de pão e de trabalho vive o ser humano, mas também de Palavra, de relação, de encontro, de sorriso, de afecto, de ternura e daquelas sãs cumplicidades que só mesmo a amizade e a gratuidade sabem criar e alimentar. Ou seja, já perceberam que nem só de Pão e de trabalho vive o ser humano, mas também de toda a Palavra que sai da boca de Deus e da boca de todas as mulheres e de todos os homens que nos amam tais quais nós somos e que nós amamos tais quais eles e elas são.

- Ao grande amigo e companheiro Jorge Araújo e, na pessoa dele, a todas e a todos os que “fazem” a prestigiada Campo das Letras. Depois do Mas à África, senhores, por que lhe dais tantas dores?, Jorge Araújo e a sua Editora têm sabido viver de braços e de portas abertos para me acolher e aos meus originais, com um carinho inexcedível. A todas e a todos o meu bem-haja!


Pe. Mário na Ler Devagar (Lisboa)

Começo com uma boa notícia: A discriminação total de que são vítimas as mulheres na Igreja católica, inclusive as mulheres católicas, é da exclusiva responsabilidade do Sistema eclesiástico e dos seus funcionários-mor, a começar pelo Papa e sua Cúria Romana e os bispos; não é da responsabilidade de Jesus de Nazaré, o Crucificado que ressuscitou! Como tal, é uma situação histórica que constitui um pecado mortal, por parte da Igreja, nomeadamente, da sua hierarquia. Um pecado tanto ou até mais grave do que a hoje hiper-badalada pedofilia de certo clero e contra o qual, estranhamente, a Comunicação Social tem-se estado nas tintas. Mas porque é uma situação criada pelo Sistema eclesiástico e suas cúpulas, quer dizer que é uma situação transitória, que pode acabar, e tem que acabar. Mais: é uma situação que acabará, logo que as mulheres da Terra, com as católicas à frente, quiserem que acabe.

Por isso digo: Nem sei qual é mais pecado, se a discriminação que sofrem as mulheres na Igreja, se a secular apatia e indiferença das mulheres, perante esta discriminação de que são vítimas.

Longe de mim vir aqui condenar as mulheres. Não vou convertê-las em culpadas, em rés, quando elas são as vítimas. O que pretendo é denunciar a situação e proclamar que está nas mãos das mulheres pôr-lhe termo. Já!

Sejamos claros: que a hierarquia católica, toda ela constituída exclusivamente por homens e homens sem mulher, por clérigos condenados ao celibato imposto por lei eclesiástica, discrimine as mulheres e as mantenha afastadas dos ministérios ordenados da Igreja, é um pecado sem perdão que só tem sido possível perpetuar através dos séculos, porque as mulheres assim o têm permitido. Ousem elas passar do estatuto de discriminadas e de submissas clientes do clero, a sujeitos e a protagonistas na Igreja (também na sociedade) e tudo se transformará como por encanto. A actual situação cairá como um baralho de cartas. E se as mulheres não quiserem ir tão longe, basta que façam greve aos cultos nos templos, às missas de Domingo, às catequeses de crianças e aos grupos corais, e os clérigos sem mulher ficarão praticamente sem ninguém a quem poderem pregar, a quem poderem dirigir-governar, a quem poderem dominar. Ficarão todos a falar sozinhos. E serão obrigados, ou a desistir, ou a mudar de postura em relação às mulheres.

Este é, por isso, o meu primeiro apelo às mulheres, com o lançamento deste livro: Tenham dignidade! Façam greve aos templos dominados/controlados por clérigos sem mulher; fujam dos templos e das suas actividades; deixem os clérigos sem mulher a falar sozinhos. E, depois, se quiserem ir bastante mais longe, exijam o fim da existência na Igreja de clérigos sem mulher, para que, em seu lugar, possam surgir os ministérios ordenados na Igreja, protagonizados em radical igualdade, quer por mulheres, quer por homens. Mas primeiro, exijam o fim da existência de clérigos sem mulher; senão, ainda fazem das mulheres clérigas sem homem!

Escandalizo-vos? Oxalá não! Porque, com o que aqui acabo de propor, estaremos a pôr fim a uma vergonhosa situação de discriminação das mulheres na Igreja e essa sim é que é objectivamente escandalosa.

Disse e mantenho que a discriminação de que sofrem as mulheres na Igreja é da exclusiva responsabilidade do Sistema eclesiástico e da sua hierarquia. Não é da responsabilidade de Jesus de Nazaré, o crucificado que ressuscitou. Na verdade, a Memória subversiva de Jesus de Nazaré que é o Evangelho cristão, nas suas quatro versões canónicas, não pode ser mais esclarecedora: Apesar de viver num tempo e num país onde as mulheres não eram consideradas gente (estavam ao nível das coisas, dos animais que o homem possuía...); apesar do testemunho/depoimento delas não valer nada nos tribunais judaicos, Jesus atreve-se a integrá-las no seu movimento libertador e igualitário, sororal/fraternal, em radical igualdade com os homens. E se há alguma discriminação das mulheres, por parte de Jesus, é uma discriminação positiva. As mulheres deram a sua entusiástica adesão a Jesus e ao seu Projecto, muito antes dos homens. É até por isso que se fala pouco das mulheres no Evangelho. O narrador evangélico só se ocupa de alguém, na sua narrativa, até ao momento em que esse alguém, mulher ou homem, adere a Jesus, o reconhece como o libertador (Cristo), o Caminho, a Verdade e a Vida, o ser humano por antonomásia.

Ora, as mulheres estão, logo no começo de tudo na Galileia. Mas como discípulas fiéis de Jesus. Tanto que o seguem e o servem com os seus bens. Ao contrário dos homens, que também estão, desde o princípio, mas apenas como chamados, ainda não como discípulos fiéis de Jesus. Basta ver que, na hora da verdade – a da crucifixão de Jesus no calvário como o maldito de Deus – elas estão lá, enquanto eles todos fogem! E isto, depois de todos o terem traído e negado, nas pessoas, respectivamente, de Judas e de Pedro. Finalmente, elas estão na primeira hora como testemunhas da Ressurreição. De tal modo que, se hoje há Igreja, é graças a elas, à fé delas, com destaque para Maria Madalena!

Daí o meu segundo apelo às mulheres, com o lançamento deste meu livro: Façam de Jesus de Nazaré, o Crucificado/Ressuscitado, o vosso paradigma, o vosso projecto, o centro do vosso afecto. Vivam em total intimidade com ele. Façam como Maria Madalena (atenção! Ela não é a pecadora que o clero tem dito que é; ela é a discípula modelo de Jesus, a apóstola dos apóstolos, cuja relação de intimidade com Jesus é única e paradigmática): Frequentem a intimidade de Jesus; aprendam com ele a ser mulheres; deixem-se libertar por ele de todos os medos, de todos os demónios, de todas as opressões, de todos os moralismos que os clérigos sem mulher e com medo das mulheres insistem em ministrar-vos em verdadeiras overdoses; façam de Jesus, do seu jeito de ser, o vosso modelo, o vosso paradigma; jamais confundam Jesus com os clérigos que falam em seu nome; muito menos, façam dos clérigos o vosso ideal de ser humano. Todos os seus moralismos são farisaicos e só vos oprimem! Aprendam com Jesus a ser mulheres, a ser livres para a liberdade, a dispor de vocês, dos vossos corpos, da vossa sexualidade, dos vossos afectos. Aprendam com Jesus a fazer de vocês e dos vossos corpos um dom para os demais, até à doação/perda da própria vida pela vida do mundo! Acreditem: Com Jesus, só com Jesus, o Libertador (o Cristo) sereis verdadeiramente livres. Responsáveis. Senhoras dos vossos próprios destinos. Presenças alegres e gratuitas, doadas e comprometidas, centradas no que é essencial, que é sempre invisível aos olhos. Fujam dos clérigos a sete pés! Fiquem todo o tempo com Jesus, até serem conhecidas por ele pelo vosso nome. Como Maria Madalena, a discípula paradigma, tanto para mulheres como para homens. Dos clérigos sem mulher, que gostam de se apresentar diante dos demais seres humanos como os únicos que presidem na Igreja, “in persona Christi”, à Eucaristia, como se fossem outros Cristo (é assim que eles gostam de dizer que são, como se Jesus não fosse o Vivente por antonomásia e carecesse de quem o represente), fujam a sete pés. Jamais confundam Jesus, o Libertador, com eles. Apenas quando eles desistirem dessa paranóia clerical e eclesiástica, de serem outros Cristo, e se apresentarem diante dos demais como homens simplesmente, irmãos e companheiros, amigos e iguais, servidores sem quaisquer privilégios e a lutar encarniçadamente contra o Sistema eclesiástico, então podereis acolhê-los, caminhar com eles, em radical igualdade. Antes, não! Fujam sempre, a sete pés!

Deixem que vos diga uma outra boa notícia: Desde há séculos, mais propriamente, desde Santo Agostinho (século IV), que nos andam a dizer que as mulheres são as culpadas da existência do mal no Mundo, que elas são as sedutoras dos homens, que é preciso ter-se cautela com elas, porque elas nos arrastam para o pecado. E fala-se delas como a tentação dos homens! Depois, como fundamento bíblico de tanto disparate, os eclesiásticos sem mulher recorrem a outro disparate maior. As coisas estão assim – dizem – devido a Eva! Ela, no princípio, deixou-se seduzir pela Serpente e, uma vez seduzida, seduziu o homem Adão!

Ora, nada mais falso. Sabem porquê? Pelas simples razão de que Eva nunca existiu como mulher histórica! Eva não passa duma figura mítica. Assim como Adão! No relato do Génesis, Eva é igual a mulher, é todas as mulheres, é a Humanidade em feminino. Mais: representa as mulheres cananeias que seguiam o culto do deus Baal, o deus Serpente, imaginado como o deus da fecundidade. A utilização desta figura mítica no relato bíblico das origens, servia para dar uma lição de catequese às mulheres e aos homens hebreus, recém-chegados do deserto. Uma catequese contra o culto público à Serpente. E que pretendia, não que ficássemos a desconfiar das mulheres, mas do culto a Baal e da religião cananeia, manifestamente idolátrica.

Daí o meu terceiro apelo às mulheres, com o lançamento deste livro: Desconfiem sempre da leitura/interpretação moralista que os clérigos sem mulher têm feito da Bíblia, de toda a Bíblia e até dos Evangelhos canónicos. E da leitura/interpretação que têm feito do próprio Jesus. Eles são os novos doutores da lei, os novos fariseus que com o nome de Jesus e de Deus pretendem manter o seu domínio sobre a Humanidade, nomeadamente, sobre as mulheres, que são as que mais frequentam os santuários onde eles são Poder, autoridade incontestada. Aprendam a ler/interpretar a Bíblia por vós mesmas. Abram-se à leitura feminista e libertadora da Bíblia e à leitura profético-política. E levem por diante a Boa Notícia de Deus, que Jesus de Nazaré é e vive, e por causa do que foi crucificado pelos doutores da lei, pelos fariseus e pelos chefes dos sacerdotes do seu tempo e país. Ousem ser mulheres como Maria de Nazaré: grávidas do Espírito Santo (é feminino; é Ela e não Ele); que seja Ela, a Ruah, que viva em vós e vos conduza. Com Ela sereis livres, protagonistas, libertadoras, irmãs universais, presença fecunda e alegre, que dá toda a oportunidade à vida!

A concluir, faço-vos uma confidência: A mulher que mais marca a minha vida é a Ti Maria do Grilo, minha mãe. Foi ela a minha primeira evangelizadora. Mas tenho recebido muito, ao longo da vida, de muitas outras mulheres. Daí este livro – Em Memória delas. Livro de Mulheres. As mulheres têm-me evangelizado, libertado, humanizado. Nelas encontro o rosto feminino de Deus. As mulheres não são para mim ocasião de pecado, tentação. São Graça! Com elas, abri-me à ternura, ao afecto, ao carinho, à misericórdia, ao serviço libertador, à partilha dos bens e da vida, à comunhão. Com elas, aprendi a fugir do Poder, dos privilégios, da solidão e da auto-castração. Tornei-me progressivamente feminino. E posso proclamar sem receio de me enganar: Um dia, seremos finalmente femininos. Como Deus. Deus não é homem nem mulher. Não tem sexo. Mas é feminino. Com homens femininos e com mulheres femininas, o Mundo será outro. Será outra a Ordem Mundial. Será outra a Economia. Será outra a Política. Será outra a Ciência. Será outra a Tecnologia. Serão outras as Igrejas. Com homens e mulheres femininos, tudo estará finalmente ao serviço da vida e vida em abundância. Sem exclusão de ninguém.

Daqui o meu bem-haja a todas as mulheres, especialmente, às que têm estado na minha vida. E a minha gratidão. Também um pedido: Continuem a “puxar” por mim, para eu ser ainda mais feminino, mais fecundo. E não só por mim. “Puxem” também por todos os homens, clérigos incluídos. Sem excluir o papa e os bispos. Como a mítica Eva, levem-nos todos a comer do fruto proibido: a Liberdade!


Igreja/Sociedade

Cartas ao Papa. 2.as Jornadas promovidas pela Fundação Spes

PARA ATERRORIZAR JÁ BASTA BUSH

“Para nos aterrorizar, já basta o presidente Bush dos Estados Unidos da América. Não se invoque o nome de Deus para isso!” Foi assim que o director do Jornal Fraternizar concluiu a brevíssima interpelação que dirigiu aos teólogos conferencistas, José Jacinto Farias e Frei Bento Domingues, professores, respectivamente, da Universidade Católica Portuguesa e da Universidade Lusíada. Um e outro, juntamente, com José de Azeredo Lopes, da mesma Universidade Católica, intervieram nas Segundas Jornadas sobre o livro Cartas ao Papa, de D. António Ferreira Gomes, promovidas, dia 11 de Maio último, na Casa Diocesana de Vilar, Porto, pela Fundação Spes, a que preside o bispo emérito de Setúbal, D. Manuel Martins.

A interpelação do padre Mário teve em conta o que aqueles dois teólogos haviam dissertado antes respectivamente sobre a carta 11, “Colegialidade episcopal e isenção religiosa” e sobre a carta 13, “Reconciliação e Penitência na missão da Igreja” (ver comunicação integral de Frei Bento imediatamente a seguir).

Para o pe. Mário, o que está em causa é como vamos ser Igreja no Terceiro Milénio. Porque, ou ousamos um Novo Começo, na fidelidade ao Espírito do Ressuscitado, uma espécie de refundação da Igreja, ou esta arrisca-se a desaparecer por completo da vida das pessoas e dos povos, reduzida apenas a museu, ou a instituição decorativa e folclórica, que continuará a servir para enquadrar certas festas de nascimento, certos casamentos e alguns funerais.

A interpelação do nosso director tinha, evidentemente, algo de provocação. Porque pretendia ver até que ponto os teólogos em causa ousavam respostas para além das “institucionais”. Ora, pelo menos, o teólogo Jacinto Farias tomou de imediato uma postura nitidamente à defesa, o que só por si – talvez ele não saiba – é uma postura, não de amor maior à Igreja, mas de amor menor. Na verdade, o que a Igreja carece é de quem a ame, ao ponto de a criticar e de puxar por ela, para que ela jamais se instale na rotina e no tradicional, o mesmo é dizer, na preguiça e nos privilégios. Uma Igreja de frades e de freiras, de clérigos e de leigos, de hierarquia e de súbditos – é ainda a Igreja que temos! – tem tudo a ver com a Idade Média e o Feudalismo, de má memória, e nada tem a ver com o Evangelho de Jesus e o Espírito Santo. Por outro lado, os sacramentos da Igreja, ou são sinais reveladores de que Deus que nos liberta e salva a todas e todos, não católicos incluídos, ou então não passam de meros ritos mágicos que, em lugar de serem celebrados, têm de ser repudiados por toda a gente que se preze!


O PAPA NÃO LIGOU A D. ANTÓNIO

- reconhece o dominicano Bento Domingues

1. A Carta 13 é provocada pelos silêncios dos Lineamenta apresentados pelo Conselho da Secretaria do Sínodo dos Bispos de 1983. Existe também uma Reflexão do Episcopado Português oferecida ao Secretariado do Sínodo.

2. As verdades “esquecidas” nos Lineamenta são apreciadas, sobretudo, à luz de um estudo de 1959: Verdades esquecidas sobre o sacramento da penitência, de K. Rahner (cf. ET II, Madrid 1961, 141-180).

3. Não tem por isso pretensões de abarcar todos os aspectos do “sacramento” e da sua história. Pelo que diz a Carta Apostólica sob a forma de “Motu Proprio”, Misericordia Dei, sobre alguns aspectos da celebração do sacramento da Penitência (7 Abril 2002) e pelo que já dizia a Exortação pós-sinodal, Reconciliatio et Paenitentia, na qual foram recolhidos os frutos da reflexão da Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos (1983), e em várias outras declarações menos solenes (cf. também, Comissão Teológica Internacional, Memória e Reconciliação. A Igreja e as culpas do passado, Rei dos Livros, Lisboa 2000), João Paulo II não ligou nada a esta Carta [de D. António]. E agora agrava a situação, ao afirmar: “Tudo o que estabeleci com a presente Carta apostólica em forma de Motu próprio, ordeno que tenha valor pleno e estável e seja observado a partir deste dia, não obstante qualquer outra disposição em contrário. Aquela, por sua natureza, tem valor inclusive para as venerandas Igrejas Católicas Orientais, de acordo com os respectivos cânones que lhes são próprios”.

4. Tenha-se em conta que as observações de D. António Ferreira Gomes não pretendiam provocar uma alteração imediata da situação que ele ainda observava em 1982. É ele quem o diz: “A respeito pois do tema do Sínodo só tenho a dizer: melhor e mais Penitência, melhor e mais Reconciliação! Pelos meios mais apropriados ao nosso tempo...

Querer-se-á ainda assim sugerir que os Bispos sinodais alterem, por si, a lei da Igreja? Possivelmente não, porque à falta de análise (humilde mas corajosa), a questão não está talvez desde já madura para a ceifa. E que o estivesse, uma decisão dessas não estaria decerto na área de competência dum Sínodo, porque aquilo que foi decretado por um Concílio ecuménico só por outro igual parece dever ser alterado. O que ouso lembrar é que não se perca a ocasião que foi oferecida, de examinar o problema como ele está posto, com toda a franqueza, humildade e coragem. (E não se diga que não há aqui problema; ele aí está, exactamente no sentido grego de pretexto, questão controvertida, obstáculo à marcha ou progresso, cabo a vencer-se ou promontório a subir-se)”.

Além disso, o Bispo está a falar como alguém que já não tem a responsabilidade de uma Diocese. Enquanto a teve nunca falou do assunto, nem sequer aos “íntimos”.

5. Aquilo que o Papa veio agora dizer já estava dito e bem dito no Catecismo da Igreja Católica (1997) – O sacramento da Penitência e da Reconciliação, n.º 1422-1498 – que já recolhe as determinações do novo Ritual, Ordo Paenitentiae (1974) e do Direito Canónico de 1983, n.º 959-1399, embora se apresente como a hermenêutica prática em relação a “qualquer outra disposição em contrário”.

6. Como nunca tive a meu cargo nenhuma Diocese nem paróquia, nem recomendei nem aceitei, quando fui superior de uma casa de formação, que qualquer pessoa se confessasse a mim, ou que tivesse direcção espiritual comigo, também posso fazer as minhas observações, sem qualquer esperança de que contribuam para alterar seja o que for. É apenas o exercício da responsabilidade que a liberdade dos filhos de Deus me exige.

7. A questão da celebração da Penitência está sempre ligada às experiências que tive como penitente e como ministro da Penitência. Como penitente, lembro-me que a maioria dos que comigo fizeram a Comunhão Solene cometemos três sacrilégios: ocultamos pecados “mortais” na confissão, na confissão rectificativa e na comunhão. E depois muitas outras confissões e comunhões por receio de acusar uma série tão espantosa de sacrilégios. Devo dizer que alguns expiaram até às “cinzas” esses sacrilégios. Os que leram o livrinho – Confessai-vos bem – com o medo de morrer naquela noite e ir para o inferno, entraram numa tal “escruplosite” que repetiram confissões atrás de confissões – várias ao dia – para ter a certeza, que nunca chegava, de que finalmente estavam bem confessados. Mas este “bem confessados” exprimia-se mais pelo cansaço dos confessores do que pela paz interior.

8. Quanto ao ministério, foram muitas e muito variadas as situações. Desde abandonar o penitente no confessionário – não havia forma de o convencer que a celebração do sacramento tinha chegado ao fim – até participar na ficção de uma desobriga que não existia – “Ó senhor padre, eu não me quero confessar, não acredito nisto, mas se não vier aqui, a minha mulher não me deixa em paz” – verifiquei as situações mais hilariantes e mais tristes. A mais hilariante e simultaneamente mais triste, era a de um avô para com a neta: “Aproveita aqui a presença do senhor padre para te confessar:”– “Ó vovô, eu ainda me confessei ontem” – “Ah! Não faz mal, S. Luís Gonzaga também se confessava todos os dias”. Mas com bicha ou sem bicha, quantas vezes se tem de ouvir: “Olhe, pergunte”. No caso de se cair em perguntar, pode acontecer muita coisa, desde: “umas vezes sim, outras vezes não”, até ao “Quem julga que eu sou?”. O mais corrente é ouvir: “Olhe, os meus pecados são sempre os mesmos, mas também não é nada de grave”.

9. O mais perturbador é que a confissão funciona para uns como fonte de culpabilização e para outros como de “passa culpas”. Neste ponto, é preciso realmente rever a história da pastoral deste sacramento e ver aquilo que ajuda a celebração da conversão proposta pelo Evangelho e aquilo que é fruto de circunstâncias históricas da cultura, da religião e das práticas da Igreja. Não tomar por definitivo o que a história mostra como próprio de um tempo e de um lugar da vida da Igreja, algo provisório. Creio que este ponto está muito presente na intervenção de D. António. Mas a falta de alternativas concretas e sensatas leva os responsáveis da Igreja a soluções de facilidade ou a voltar à “cama feita”. Uma nova compreensão e uma nova expressão da experiência cristã sempre muito plural, deve recorrer a soluções que respeitem exigências essenciais permanentes, mas através de formas necessariamente provisórias. É sempre muito enganador tentar privilegiar qualquer uma das formas históricas da Igreja. Embora com o concurso de todas elas se deva aprender a encarar o presente, os sinais do nosso tempo.

10. Para além das situações cómicas ou desastradas que uma certa educação religiosa e uma prática pastoral provocaram, há uma realidade: o homem pecador, o processo de conversão ou a recusa de conversão. Quando digo homem pecador e processo de conversão, estou a referir-me ao ser humano em todas as suas relações. A grande questão antropológica e teológica é a dimensão da sacramentalidade: a sacramentalidade cósmica, histórica, religiosa e eclesial. É dentro desse vasto cenário sacramental que é preciso entender a sacramentalidade da Igreja – das Igrejas cristãs – das celebrações da religiosidade popular, das celebrações da liturgia oficial e dos sete sacramentos, e no caso vertente, do sacramento da Penitência e Reconciliação ou outros nomes que lhe queiram dar.

11. O que há de permanente foi bem sintetizado por K. Rahner: “O homem cristão que experimenta o esforço da aspiração moral como um dado iniludível da sua própria existência, sabe sempre que ele – sem que em princípio queira e possa iludir a responsabilidade por essa condição – é o deficiente, o que tem de assumir este encargo, esta responsabilidade e também as suas possibilidades reais. Por conseguinte, o homem cristão é sempre aquele que se deixa envolver pelo amor de Deus e que simultaneamente se reconhece como o pecador, em certo sentido, que uma vez mais não se pode calcular, não se pode medir. E deste modo o cristão é uma vez mais aquele que é conduzido através da história da sua existência. (...) No incompreensível da sua própria liberdade obscura e tenebrosa reconhece-se em todo o mento envolvido pela graça de Deus e tem consciência de que sempre se há-de refugiar nesta graça de Deus. O cristão é sempre aquele que não passa as contas a Deus, mas que a Deus e à sua graça confia todas as contas, todo o esforço moral, toda a prova moral que se lhe imponham e fá-lo com espontaneidade e de novo sem “julgar” toda essa misteriosa realidade. Como cristão é sempre o simul iustus et peccator (simultaneamente justo e pecador). Crê e espera ser o santificado pelo Espírito Santo de Deus; e, como disse o Concílio de Cartago, em tempos de Santo Agostinho (DS 229: + 107) ora humildemente e com toda a verdade: “Perdoa-nos a nossa culpa” (K. Rahner, Curso fundamental sobre la fe, Herder, Barcelona 1979, p. 472).

12. Em termos sacramentais e recorrendo ao teólogo preferido de D. António, diremos: “Os sacramentos, ou seja, o opus operatum, não se distinguem do opus operantis – quer dizer, da acção pessoal, livre, moral e religiosa do homem – pelo facto de que no opus operatum dos sacramentos se produz a graça e de que isto não acontece no opus operantis do homem”. (Nota de BD: Os sacramentos, sob o ponto de vista de signa demonstrativa, isto é, como palavra que traz realmente consigo aquilo que exprime – a autocomunicação gratuita de Deus são simultaneamente acção de Deus e acção do homem numa configuração eclesial).

“Também a acção livre do homem, se estiver isenta de culpa, na presente ordem da salvação, é por seu lado acontecimento da graça pela vontade absoluta que Deus tem de se comunicar a si mesmo. Onde o homem crê, onde o homem espera, onde o homem ama, onde o homem se converte a Deus, onde se afasta da sua culpa, onde assume uma relação interna, positiva, com a sua morte, onde num amor eterno se abre de forma definitiva a outro homem, aí acontece a salvação, aí acontece uma relação dialógica da graça com Deus, dá-se um processo salvífico e um evento da real e mais íntima história da salvação do homem. Por isso o opus operantis e o opus operatum não se distinguem como acção gratuita de Deus, no homem e livre realização meramente humana. Distinguem-se porém como história da salvação do homem que de maneira explícita, oficial e eclesiástica, aparece nos sacramentos e como acção salvífica meramente existencial do homem mediante a graça de Deus. (...)

“Na vida humana tudo é história da salvação, mas nem por isso se pode dizer que tudo seja sacramental neste sentido mais estrito; e no entanto em ambas as esferas, o homem realiza a única relação entre ele, como livre, e o Deus eterno e santo, que se dá ao homem num amor eterno e incalculável” (Op. cit. pp. 492-493).

13. A preocupação exagerada, quer com a celebração “auricular”, quer com as celebrações comunitárias da Penitência, corrigidas dos seus desvios ou defeitos, na minha opinião, as duas consequências mais desastradas são:

a) a desvalorização da Penitência e da Reconciliação não ritual – aquela que se faz de pessoa a pessoa, de grupo a grupo e de todos perante a responsabilidade pela história do mundo e pela criação;

b) a destruição do maior dos sacramentos da penitência e da reconciliação: o sacramento da Eucaristia que, desde o princípio até ao fim, é confissão de pecadores e celebração do perdão, da misericórdia de Deus, de Cristo, da Igreja. Torna não válido o que há de mais válido e mais central e mais poderoso na liturgia cristã. [Por isso digo:] “Perdoai-lhes, Senhor, que não sabem o que fazem!”

14. Fala-se muito da perda do sentido do pecado. Creio que aconteceu o seguinte: de uma religião centrada no pecado, só pecado, que vê pecado por todo o lado, mesmo onde há virtude e muita virtude, passou-se, por reacção consciente ou inconsciente, a uma religião sem pecado. E mais: é a própria noção de pecado que é preciso rever. Para S. Tomás, non enim Deus a nobis offenditur, nisi ex eo quod contra nostrum proprium bonum agimus (Contra Gentiles, III, c. 122). Ou seja: Pecar é estragar. Podemos estragar a nossa vida, podemos estragar a vida dos outros, podemos estragar a Igreja, podemos estragar o universo. Podemos estragar a obra e a imagem de Deus; não podemos estragar a Deus, só indirectamente, ao estragar aquilo que Deus mais ama.

(Nota BD: E há realidades que são estragadas, muitas formas de pecado que exigem penitência, perdão e reconciliação: terrorismo de Estado ou de grupos, nacional ou internacional; violência na televisão e sua relação com os actos de violência nas escolas; comportamento mortal nas estradas; fenómenos de intolerância, xenofobia e racismo; guerras, fabrico e comércio de armamento, assim como todas as formas de corrupção; comportamentos dos representantes da Igreja – Cardeais, Bispos e Padres – que a desfiguram com os seus actos de pedofilia, de abusos sexuais sobre menores e também com a homossexualidade de que são acusados...)

A um grande triunfalismo da Igreja, afirmando-se através do clericalismo e da papolatria, sucede uma humilhação que atinge toda a Igreja como reverso da medalha. É evidente que os meios de comunicação tomam a parte pelo todo, mas o exagero na utilização dos meios de comunicação social para a exaltação do Papa tem agora um triste reverso da medalha.

15. Aconselho uma leitura atenta de Abel Varzim, Procissão dos Passos. Uma vivência no Bairro Alto, Multinova, Lisboa 2002. O Abel Varzim soube alterar a visão que tinha do pecado, da graça e da santidade. A ideologia em torno de Santa Maria Goretti e da pureza desfez-se em contacto com a vida das prostitutas do Bairro Alto. Percebeu que elas nos precedem no Reino de Deus.


A SENHORA DE FÁTIMA É CRIMINOSA

- Testemunho do Pe. Mário sobre a Guerra Colonial, no Centro Social de Soutelo

“A senhora de Fátima é criminosa”. Esta é sem dúvida uma das afirmações mais contundentes que o Padre Mário proferiu, no decorrer da última noite do mês de Abril de 2002, no Centro Social de Soutelo, freguesia do concelho de Gondomar.

Convidaram, quase em cima da hora, o director do Jornal Fraternizar, para testemunhar sobre a sua passagem, como capelão militar à força, pela Guerra Colonial, essa mesma que acabou por fazer explodir o regime de Salazar/Caetano, na inesquecível madrugada do 25 de Abril de 1974.

O seu testemunho integrou-se na sessão de encerramento duma exposição sobre o 25 de Abril que decorreu, durante todo aquele mês, nas instalações do Centro. E foi dado entre algumas canções de resistência e de intervenção que um artista da região executou, ao som da sua viola.

Tudo foi muito informal e fraternal/sororal. Como sempre devem ser as iniciativas, quando se querem com autenticidade. O depoimento do pe. Mário não foi o único. Outros se ouviram, antes e depois do seu, com o seu quê de inesperado, e logo que uma das responsáveis do Centro Social abriu essa possibilidade aos presentes. Houve até quem dissesse um poema que escreveu, entremeado com outro de Ary dos Santos.

Mas foi o testemunho do pe. Mário que mais perturbou as pessoas. Porque fez presente a Guerra Colonial, enquanto crime que o Estado português cometeu contra os povos africanos. Com a cumplicidade e a cooperação da quase totalidade das famílias católicas portuguesas. Um crime que só foi possível graças à nefasta influência da criminosa Senhora de Fátima e dos clérigos católicos que estiveram e continuam a estar por trás dela.

Mesmo assim, ainda houve quem, no final, viesse cumprimentar o nosso director. Entre as várias pessoas que o fizeram, o pe. Mário certamente nunca mais esquecerá o rosto daquela mãe de idade avançada que teve um filho preso político. Ela veio ter com ele, apesar de não ter gostado que ele tivesse dito que a senhora de Fátima é criminosa. Disse-lho na curta conversa quase privada que manteve com ele. Ao que ele respondeu com a convicção do sorriso que tanto o caracteriza: “É criminosa sim, mas não se aflija, porque entre a Senhora de Fátima e Maria, mãe de Jesus, não há nada em comum. Aliás – acrescentou com firmeza – a Senhora de Fátima é tanto mais criminosa, quanto, desde o princípio, se anda a fazer passar por Maria, mãe de Jesus, quando, na verdade, não passa de um ídolo ou duma mítica deusa, que não come nem bebe, não fala, não anda, não chora nem ri e, até para se deslocar, tem de ser carregada por ingénuos devotos, aos quais rouba tudo o que têm, até a dignidade!

Eis aqui, na íntegra, o testemunho que o pe. Mário deu naquela noite. Aceitem-no como uma prova de amor à verdade e um sinal de amor a todas as leitoras e a todos os leitores do Jornal Fraternizar. Depois, se tiverem coragem, dêem-no a ler a outras pessoas, quantas mais melhor. Porque só a verdade nos liberta.

Corria o ano de 1967. Tinha eu 30 anos de idade e cinco anos de padre, quando fui alistado à força para capelão militar. Até aí, tinha já um percurso presbiteral católico algo atribulado. Vejam.

No dia 12 de Agosto de 1962, foi a Missa Nova, em Lourosa, minha terra natal. Ao brinde do almoço de festa, disse aos meus pais: Destes-me a Deus e Deus tomou a sério a vossa oferta. A partir de agora, sou dEle. Não sou mais vosso. Destes-me a Deus, isto é, destes-me aos pobres, à humanidade mais empobrecida e oprimida. Por isso, nunca ireis ter qualquer lucro material comigo. Terem um filho padre não vos vai trazer nada de especial. Nem dinheiro. Nem prestígio. Nem subida na escala social.

Estas minhas palavras foram um escândalo. Mas ficou claro, desde então, como iria ser o meu percurso de padre na Igreja. Não faria carreira eclesiástica!

Em Outubro desse mesmo ano de 1962, tomei posse como coadjutor na Paróquia das Antas, no Porto. Era por um mínimo de dois anos. Mas ainda não tinha terminado um ano e já o pároco (é o mesmo, hoje, todos estes anos depois!...) queria ver-se livre de mim. E o bispo Administrador Apostólico da Diocese fez-lhe a vontade.

Em Outubro de 1963, passei a ser professor de Religião e Moral no então Liceu Alexandre Herculano, no Porto. A casa onde residia, na Rua Barão Nova Sintra, e cuja renda suportava com mais outros dois padres, deveria ser casa de apoio moral e espiritual aos estudantes. Não durou muito esta experiência. Tive de sair da casa e do Liceu, ao fim de dois anos. O Administrador Apostólico da Diocese deu-me outra oportunidade no então Liceu D. Manuel II. Era Outubro de 1965. Tive de alugar sozinho uma casa nas redondezas. Calhou ser uma casa mesmo por cima da Papelaria “B. B.”, na Rua da Boavista.

A casa era para uso de todos os estudantes que quisessem passar por lá. E muitos eram. Até que, dois anos depois, fui chamado ao Paço episcopal e aí ouvi a implacável e inapelável sentença de D. Florentino de Andrade e Silva: “Tem que deixar essa casa!” (Já então constava que a casa era um antro de comunistas, só porque os estudantes faziam lá dentro a experiência da liberdade e se associavam para a defesa dos seus direitos!...). Todos os projectos que tinha em comunhão com os estudantes caíram por terra, nesse instante.

Ao que me garantiu o Aministrador Apostólico, o meu nome já tinha sido enviado para Lisboa e eu iria ser chamado por esses dias, por parte da Academia Militar, para frequentar um Curso intensivo de cinco semanas destinado a capelães militares.

Era Junho/Julho de 1967. Nesse curso da Academia Militar, um dos professores era o próprio Bispo castrense, D. António dos Reis Rodrigues. Ensinava-nos deontologia militar. Ao ouvi-lo, concluí que tudo se podia justificar, até o crime que era a Guerra colonial nas três frentes de África – Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.

No dia 2 de Novembro desse mesmo ano de 1967, desembarquei em Bissau. Encontrei uma cidade ocupada por militares de camuflado e G3 nas mãos. Ia para cumprir uma comissão de dois anos. Mas quatro meses depois de desembarcar do Uíge, já estava a tomar o avião para Lisboa. Fui expulso de capelão militar. Sem prévio julgamento. Era o dia 8 de Março de 1968, dia do meu aniversário.

O que foram aqueles meus quatro meses em Mansoa, uma povoação a 60 quilómetros de Bissau?

Vi o sofrimento humano em massa. Vi a injustiça. Vi a mentira organizada, disfarçada de verdade, de pátria e de amor à pátria. Vi, sobretudo, a hierarquia eclesiástica da minha Igreja amancebada com o Poder da Ditadura e do Colonialismo, a abençoar/canonizar a Guerra Colonial, que deveria denunciar a tempo e fora de tempo!

Ordenado presbítero da Igreja para anunciar o Evangelho aos pobres, a libertação aos cativos e a mandar em liberdade os oprimidos, como é que eu poderia pactuar com semelhante situação?

Ouvi os clamores de África. Ouvi o silêncio gritante de África. Vi a verdade cativa na injustiça. E soltei-a, libertei-a. Experimentei então o que diz Jesus no Evangelho de João – a Verdade nos faz livres. Vi que também faz nascer ódios à nossa volta e fúrias de todo o tipo.

Como é que tudo se precipitou? No dia 1 de Janeiro de 1968 – era, pela primeira vez, o Dia Mundial da Paz – a homilia que proferi para o Batalhão, na igreja da Missão, junto do aquartelamento, foi o escândalo dos escândalos. Pude experimentar nessa ocasião toda a força que tem a Palavra com Espírito, a Palavra feita Verdade. Era a Palavra contra o Poder, contra o Exército, contra a Guerra. Era David contra Golias.

Nessa altura, dei-me conta de que o padre missionário, franciscano e português, já trabalhava na Guiné há mais de 20 anos e nunca lhe havia acontecido nada. Igualmente, o Bispo de Bissau, de origem italiana, conseguia ser bispo sem problemas. A Guerra colonial era olhada por eles como santa, como uma cruzada que os favorecia. Por isso puderam prosseguir nos seus postos e nos seus privilégios e morreram em odor de santidade. Eu fui expulso, apenas quatro meses depois de ter desembarcado em Bissau!

Quando advertido pelo meu comandante – por sinal, católico – de que a homilia do Dia Mundial da Paz continha doutrina subversiva, abertamente contrária à Constituição Portuguesa (defendi nela o direito dos povos africanos à autonomia e independência) não pude deixar de sorrir e respondi: “Então mudem a Constituição portuguesa, que eu não posso mudar o Evangelho!”. Não mudaram por então a Constituição. Preferiram expulsar-me. Mas tiveram de a mudar, depois de Abril de 1974!... E à expulsão sem julgamento prévio, o Bispo castrense ainda juntou mais um dado. Em carta que escreveu ao Bispo Administrador Apostólico do Porto, disse que eu era “um padre irrecuperável”.

Reconheço, entretanto, que depois desta experiência em África, nunca mais fui o mesmo homem. Nunca mais fui o mesmo padre. Nasci de novo. Nasci do Alto. Nasci do Espírito, esse fecundo e libertador Sopro que, como diz o Evangelho de João, sopra onde quer, ouvimos a sua voz, mas não sabemos de onde vem nem para onde vai. Sabemos apenas que não vem do interior do Sistema dominante, nem da Ordem estabelecida, que mantêm a Verdade cativa na injustiça.

Posso hoje dizer que Mansoa foi a minha “Estrada de Damasco”. Caíram-me dos olhos as escamas (ideológicas). Vi o Invisível que se faz visível nos últimos, nos não-gente, nos não-povo. E fiz aliança com Ele neles. Para sempre! Desde então, fiquei a viver fora do Sistema, também e sobretudo, do Sistema eclesiástico (mas não fora da Igreja!).

Ainda fui nomeado pároco – exoneraram-me ao fim de 14 meses! – em Paredes de Viadores. Depois exerci mais nove meses na paróquia de Macieira da Lixa, ao fim dos quais fui preso pela Pide, em Caxias, julgado no Tribunal Plenário do Porto, de onde saí absolvido. Conheci quatro meses de exílio em Madrid, por imposição do Bispo D. António Ferreira Gomes, entretanto regressado à diocese depois de dez anos de exílio imposto por Salazar. Voltei à paróquia de Macieira da Lixa, onde permaneci cerca de dois anos mais. Fui de novo preso pela Pide, em Caxias, julgado no Tribunal Plenário do Porto (33 audiências!). Quando saí em liberdade, em Fevereiro de 1974, pensava que ainda era o pároco de Macieira da Lixa, mas o Bispo D. António teve o cuidado de me informar, nesse mesmo dia, que eu havia perdido a paróquia exactamente no dia em que havia sido preso, segunda vez, pela Pide! E até hoje, nunca mais fui nomeado pela Diocese para qualquer serviço pastoral, a mesma Diocese que me ordenou em 5 de Agosto de 1962!...

Vivo, desde então, fora do Sistema eclesiástico, não, evidentemente, fora da Igreja. E tudo porque o 25 de Abril não aconteceu na Igreja. Nem sequer na generalidade das paróquias. Tudo na Igreja católica continua a ser autocrático, piramidal. As pessoas são objecto da pastoral da Igreja clerical, não são Igreja! A Igreja (melhor, o Sistema eclesiástico) funciona como uma multinacional da religião, com sede em Roma. E quase inamovível. O centralismo romano é total. O poder é de monarquia absoluta. E rege-se por um Código de Direito Canónico que é uma aberração!

Entretanto, vinte oito anos depois, tenho de reconhecer, com muita mágoa, que o 25 de Abril de 1974 não prosseguiu. É comemorado todos os anos, mas não é celebrado. Celebrar significa actualizar. Não temos tido a audácia de fazer todos os anos o 25 de Abril. Limitamo-nos a comemorar o de 1974! E, por isso, hoje, as comemorações quase me dão vómitos, tão distantes estamos do espírito que então vivemos e da revolução que então nos animou e fez!

Também não posso deixar de reconhecer outra coisa. A maldita Senhora de Fátima é que deu cobertura religiosa à Guerra Colonial. Foi devido à sua demoníaca influência que, durante todos aqueles anos, nunca houve, por exemplo, uma revolta popular no nosso país, nem sequer por ocasião dos sucessivos embarques, no cais de Lisboa, de milhares e milhares de militares para a Guerra em África. As populações, em lugar de se erguerem contra a Guerra e contra quem a impunha, corriam para Fátima, rastejavam em Fátima, despojavam-se do seu dinheiro e da sua dignidade em Fátima e deixavam-se anestesiar pelos discursos subservientes, moralistas e pagãos do clero católico que estava e continua a estar por trás da Senhora de Fátima.

Ora, não há Revolução libertadora que vingue em Portugal, enquanto a Senhora de Fátima existir e contar com o público apoio dos bispos e dos demais clérigos católicos. Foi a Senhora de Fátima que fez com que a Revolução de 5 de Outubro de 1910 desaguasse na ditadura do Estado Novo de Salazar. E acabou também por domesticar/digerir a Revolução dos Cravos, uma vez que esta a deixou à rédea solta e nunca teve coragem nem sequer de a beliscar.

Mas só quem não queira ver é que não vê que os caminhos de Fátima não são e nunca serão de libertação. São caminhos de alienação, de degradação e de humilhação humana. Enquanto a senhora de Fátima for “a rainha de Portugal” – que vergonha, senhoras e senhores! – permaneceremos como até agora na cauda da Europa, um Portugal de pequeninos, a viver de subsídios europeus, sem audácia para sermos um povo de criadores e de criadoras. Viveremos, masoquisticamente, a gemer e a chorar num país transformado em vale de lágrimas, em desterro, à espera de um céu que deveríamos edificar aqui, mas que preguiçosamente esperamos que nos caia nas mãos, depois de morrer.

Triste sina esta de um país que confunde Fé em Deus com religião idolátrica e que não há maneira de perceber que a Fé em Deus exige como mínimo um mundo sem pobreza e sem pobres. Porque como máximo, exige um mundo de comunhão de bens e de vida, de radical igualdade, de liberdade e de paz.


Idolatria fatimista “ataca” em Macieira da Lixa e conta com a bênção do pároco

E AGORA, SENHOR BISPO?

Um proprietário da freguesia ofereceu o terreno, pelos vistos, na esperança de, em troca, garantir para ele um lugarzinho no céu; uma médica, que recentemente construiu uma moradia na freguesia, comprou a um santeiro a imagem do ídolo senhora de Fátima e ofereceu-a; a Comissão de Festas de S. Roque do ano de 2001 entregou todo o dinheiro que lhe sobejou; outras pessoas com posses materiais chegaram-se também à frente com o dinheiro que ainda faltava - e a obra lá está, agora, como um espantalho, na curva da estrada, mesmo junto ao edifício-sede da Junta de Freguesia de Macieira da Lixa. Uma glória para esta terra? Não! Uma vergonha de todo o tamanho que, estranhamente, contou, no dia da inauguração, em Maio último, com a presença e a intervenção da presidente da Câmara Municipal de Felgueiras, a presença do anterior presidente da Junta de Freguesia de Macieira da Lixa, a presença e a intervenção do actual pároco, e muito povo. Esse mesmo povo que, quando, finalmente, abrir os olhos e se der conta de que está a ser enganado e manipulado por certas minorias locais, que deveriam ser as primeiras a esclarecê-lo, irá arrancar a imagem do ídolo fatimista do seu pedestal e levá-la à casa da médica que a ofereceu, para que ela faça dela o que quiser, ao mesmo tempo que irá exigir da autarquia local que a via pública volte a ficar como estava antes.

O episódio nem sequer seria notícia no Jornal Fraternizar, de tanto que ultimamente começa a estar na moda, em certas aldeias menos evangelizadas do interior do nosso país, erguer nichos destes em honra do ídolo fatimista e de outras imagens de míticas deusas do velho Paganismo que ainda não morreu de todo.

Mas em Macieira da Lixa, uma paróquia com história na luta contra a idolatria fatimista, ainda antes do 25 de Abril de 1974, este episódio não pode passar em claro. Nesta freguesia do concelho de Felgueiras, o episódio tem foros de afronta e de provocação, e constitui uma humilhação e um escândalo.

Numa outra aldeia, onde a população nunca chegou a ver outra coisa, nem teve a graça de ser evangelizada, ainda se poderá tolerar e deixar para lá. Mas em Macieira da Lixa, não. E lá porque o povo da freguesia foi apanhado mais ou menos de surpresa, não se pense que agora só lhe resta engolir em seco e calar. Não! O povo tem de agir. E exigir que a sua terra ande para diante, em desenvolvimento cultural, sem quaisquer cedências a idolatrias fatimistas ou outras, que são outras tantas formas de tentar mantê-lo oprimido e domesticado.

Efectivamente, já em 1970, e a propósito do chamado mês de Maio, foi proclamado, no templo paroquial, o Evangelho de Jesus que desmascara toda a idolatria, sem esquecer, evidentemente, a idolatria fatimista que se mantém entre o nosso povo, a coberto do nome de Maria, mãe de Jesus, como se entre esta e a imagem da senhora de Fátima houvesse total identidade. Não há. Já nessa altura, ficou claro que a senhora de Fátima não é Maria de Nazaré. E que o culto que lhe é promovido em Fátima e noutros locais do país e do mundo, não passa de um culto à imagem de um ídolo, concebida e fabricada por um santeiro de Braga, a qual, como todas as imagens fabricadas pela mão humana, não come nem bebe, não anda nem fala, não chora nem ri, não é capaz de se compadecer nem de se emocionar (cf. Toda a Carta de Jeremias aos exilados, em Baruc 6). Como tal, é um culto que não enobrece quem o frequenta e financia, pois é um culto sem cultura, que só serve para manter no obscurantismo e na miséria, na opressão e no vale de lágrimas quem se deixa ir por ele. Ao contrário da Fé cristã e jesuânica, que sempre enobrece, promove e dignifica quem se deixa fazer por ela.

“A senhora de Fátima (que já não é Maria!) - ouviu-se pregar em Maio de 1970, no templo paroquial de Macieira da Lixa - tem sido aquela que mais tem levado o Povo a viver resignado na sua situação, porque em vez de o levar a lutar contra o mal e a criar condições de justiça..., tem-no levado a aguentar as injustiças e as desumanidades por que tem passado... ficando-se em peregrinações a Fátima, rezando terços pelo caminho e cantando cânticos alusivos...”

Aliás, é manifesto aos olhos de toda a gente que um deus/uma deusa, que carece que os humanos cuidem dele/dela, lhe limpem o pó, tratem das suas roupas, gastem tempo com ele/com ela, lhe dêem dinheiro, levantem templos e altares em sua honra, numa palavra, se ocupem regularmente com ele/com ela, só pode ser um ídolo, inferior a qualquer de nós, seres humanos. Nunca é o Deus Vivo. O Deus Vivo, ao contrário do ídolo, é quem se ocupa da gente, habita connosco, faz-se um de nós, bate-nos constantemente à porta, na pessoa de quem conhece a exclusão, a indignidade, a miséria, a fome, a injustiça, o abandono, a discriminação. O Deus Vivo faz-nos viver/amar/lutar, numa palavra, faz-nos ser irmãs/irmãos universais. E, finalmente, ressuscita-nos, quando a morte nos acontecer na caminhada!

“As esmolas que aqui se depositarem - alerta a tabuleta sobre a ranhura do cofre de pedra, plantado em lugar bem visível - revertem a favor da conservação deste local, e também para missas pelas almas a quem Deus chamou”.

Tinha que ser. Não há local de idolatria religiosa que não tenha caixa de esmolas ou cofres à prova de roubo (a imagem do ídolo nem sequer é capaz de se defender dos ladrões, como é que há-de defender as pessoas nas suas necessidades e aflições?!). E por isso este local de idolatria não foge à regra! Mas então a deusa nem sequer é capaz de cuidar da sua casa? Têm que ser as pessoas a fazê-lo? E o que é isso de “missas pelas almas a quem Deus chamou”? E que Deus é esse que exige missas, e missas pagas a bom preço, em troca da salvação? Ainda é o Deus vivo que se nos revelou em Jesus de Nazaré, como a Mãe nossa/o Pai nosso, e como o Amor fiel que nos liberta e salva gratuitamente?

Por tudo isto, Jornal Fraternizar não pode deixar de ficar escandalizado, ao constatar que o actual pároco de Macieira da Lixa, em lugar de se demarcar inequivocamente desta iniciativa idolátrica, em nome da Fé cristã e do Evangelho de libertação para a liberdade que Jesus nos anunciou e viveu entre nós e connosco, está com ela e até se prepara para ser o beneficiário do dinheiro que as pessoas depositarem naquele cofre. Mais. Com a frontalidade que o caracteriza, Jornal Fraternizar dirige-se publicamente a ele e pergunta com toda a ternura e vigor: Como é que tu, irmão e companheiro de caminhada, caíste nesta armadilha e ajudaste a erguer este tropeço ao povo a quem, como bom pastor, deverias defender até dar a vida por ele? Como é que, neste início do século XXI, ainda és capaz de confundir a imagem da senhora de Fátima com Maria, mãe de Jesus? E como é que vais conseguir rezar missas a troco de dinheiro, como se Deus fosse um comerciante que vende a salvação, em lugar de a dar de graça?

Entretanto, como este episódio tem todas estas implicações teológicas e materializa uma pastoral nos antípodas do Evangelho, Jornal Fraternizar vai mais longe e pergunta ao Bispo da Diocese: E agora senhor Bispo?


Por ocasião do 13 de Maio último, o DN solicitou ao director do Jornal Fraternizar um curto texto sobre Fátima. Eis o que o Pe. Mário escreveu

MENTIRA E CRIME

Mentira e crime. As chamadas aparições de Fátima são a grande mentira e o grande crime da hierarquia da Igreja católica portuguesa do século XX. À qual veio, estranhamente, juntar-se, já na parte final desse mesmo século, o próprio papa João Paulo II, sem dúvida o mais fatimista de todos os papas e também o mais beato e idólatra.

As fotos de João Paulo II, prostrado de joelhos diante da imagem da senhora de Fátima, publicamente idolatrada naquela sua capela que mais parece uma estação de serviço à beira das estradas, correram mundo. Elas são bem o símbolo duma Igreja católica caída na idolatria e convertida em multinacional da religião, herdeira e continuadora das míticas religiões e dos cultos idolátricos do Paganismo que proliferaram no Império romano e que o imperador Constantino e os seus sucessores baniram, para que, em seu lugar, ficasse apenas a religião católica.

Por isso digo: Ou a Igreja católica do século XXI tem coragem para confessar a mentira e o crime que a hierarquia católica portuguesa do século XX fabricou, em 1917 e nos anos seguintes em Fátima, ou está condenada a desaparecer da vida de todos os seres humanos mais esclarecidos e dotados de consciência crítica.

A grande mentira de Fátima é esta: a hierarquia da Igreja católica afirmou e continua a afirmar que a imagem da senhora de Fátima, que não come nem bebe, não ouve nem fala, não chora nem ri, não anda nem se comove, é uma espécie de retrato de Maria de Nazaré, a mãe de Jesus. Não é. É uma reprodução actualizada e bastante tosca das inúmeras imagens da mítica deusa virgem e mãe dos cultos do Paganismo que o Cristianismo do século primeiro tanto combateu e ridicularizou.

O grande crime de Fátima é este: das três crianças que o clero católico das redondezas de Fátima envolveu na encenação das “aparições”, duas apanharam a pneumónica e morreram abandonadas pouco tempo depois (se a senhora de Fátima fizesse milagres e curasse as pessoas doentes que lá vão, não teria começado por curar as pobres crianças Jacinta e Francisco?!), e a mais velha das três, que conseguiu sobreviver, teve de ser enclausurada num convento até ao fim dos seus dias, de modo a poder ser utilizada mais tarde pela hierarquia como “vidente” e “testemunha” de umas aparições que na verdade nunca existiram (os dois volumes da obra As Memórias da Irmã Lúcia são o que há de mais asqueroso em teologia cristã e o exemplo acabado de manipulação clerical sem perdão!).

Mas para além deste grande crime que está na origem de Fátima, há todos os outros crimes que se cometeram, desde 1917 para cá, à sombra da sua senhora. Com destaque para o crime da Guerra Colonial e o crime da perpetuação do regime ditatorial de Salazar, com a sua necrófila Pide, as suas cadeias políticas, o Tarrafal, e os seus Tribunais Plenários. E tudo isto, sem que alguma vez a senhora de Fátima e os seus sacerdotes pusessem a boca no trombone. Pelo contrário, sempre que abriram a boca foi para abençoar o regime e o seu ditador, como um “enviado de Deus”, e para canonizar a Guerra Colonial como uma Cruzada contra o Comunismo ateu!!!


Última Página

CORPO DE DEUS OU IDOLATRIA?

Não fui capaz de me integrar em nenhuma das múltiplas procissões do chamado Corpo de Deus, realizadas no dia para isso determinado pela Igreja católica e que, estranhamente, continua a “dar” feriado obrigatório no nosso país (digo “estranhamente”, porque Portugal, hoje, não é mais, felizmente, um Estado confessional; é um Estado laico, mas, pelos vistos, ainda muito pouco; e, com o actual Governo tão democrata-cristão, pode até, pelo andar da carruagem, deixar de ser laico para voltar a ser oficialmente católico. E lá teremos então o chefe de Estado ou de Governo a decretar que todos os portugueses, elas e eles, são obrigados a ir à missa aos domingos e dias santos de guarda e a participar nalguma das muitas procissões do corpo de deus!...).

Nem sequer me integrei na solene (?) procissão que foi presidida pelo actual Bispo do Porto e que percorreu as ruas do velho burgo que levam da velha igreja da Trindade à velha Sé Catedral. Não quis alinhar naquele folclore religioso, com todos os ingredientes de culto pagão e de pública idolatria, onde os representantes do Poder de turno na cidade fazem questão de aparecer ao lado do Bispo, dos seus cónegos e demais clérigos, todos vestidos a rigor, e dos representantes de todas as associações católicas da Diocese, com os respectivos estandartes desfraldados ao vento, tudo numa grande cumplicidade simbólica que é também uma grande promiscuidade católico-política (os Poderes sempre se entendem uns com os outros, nem que seja para decretar/executar a morte do justo que os denuncia/desmascara a todos eles, como aconteceu paradigmaticamente com Jesus de Nazaré, o Cristo!).

Preferi, nessa mesma tarde, sair de casa e ir ao encontro do vero e real Corpo de Deus, concretamente, nos corpos de um casal, ambos na casa dos oitenta (ela sofreu há anos uma trombose e, desde então, vive acamada e totalmente paralisada, nem sequer come pela sua mão; e ele, de poucas forças, é que ficou a cuidar dela, sozinho, até há poucos dias atrás, em que ambos acabaram por ser internados num Lar), e no corpo sofrido de uma amiga e companheira do Projecto Comunidades cristãs de base, que, desde há vários anos, conhece na carne e na mente toda a crueldade de um cancro incurável que pretende arrastá-la para a fase terminal, num quotidiano de dores, aparentemente, sem sentido, mas ao qual ela continua a erguer uma firme resistência, com todos os contornos duma discreta mas empolgante epopeia!).

Bem sei que Jesus, no fim daquela que foi a sua última ceia, tomou o Pão e disse, “Tomai e comei, isto é o meu corpo”; depois, tomou o cálice com vinho e disse, “Tomai e bebei, isto é o meu sangue”. Mas também sei que o mesmo Jesus, em Mateus 25, 31-46 diz “Tive fome e destes-me de comer (...) estava doente e visitastes-me. Todas as vezes que fizestes isto a um dos meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes”.

Mas uma coisa não consigo perceber: porque é que as Igrejas tomam hoje tão a sério e tão à letra aquelas palavras de Jesus na última ceia, e não a estas. Será porque com aquelas podem ganhar muito dinheiro fácil (com base nelas, têm podido promover overdoses de ritos religiosos, a que chamam missas, todas elas muito bem pagas...), e com estas teriam de passar a promover Economias e Políticas outras que garantam vida e vida em abundância para todas as pessoas e para todos os povos, sem deixar ninguém de fora?

Cá por mim, prefiro continuar a tomar a sério tanto as palavras de Jesus, na ceia, como as de Mt 25. E vejo, até, que ambas se complementam. Porque, afinal, não pode haver verdadeira Eucaristia (= Acção de Graças ao Deus Vivo), sem uma real Partilha dos bens, à escala do Planeta, que garanta a vida em abundância de todas as pessoas e de todos os povos.

Entendo, até, que as Igrejas, ao recusarem ir por aqui, acabaram por cair na alienante via do ritualismo religioso. Ou seja, converteram-se em empresas que fomentam no povo a crendice e a idolatria.


QUE PRETENDE D. ARMINDO COM HOMILIAS ASSIM?

No termo da procissão do Corpo de Deus, o Bispo do Porto proferiu uma homilia. O grosso da sua reflexão foi mais histórica do que teológica. E nessa incursão pela história das procissões do Corpo de Deus no país, limitou-se a apresentar dados objectivos, sem nunca se mostrar interpelado por eles. Até parece sonhar com um regresso à Cristandade, de má memória, quando bispos e reis andavam de mãos dadas, cada qual com a sua corte, à frente duma população domesticada, sem voz nem vez, mas pagante dos luxos de uns e de outros.

Nem sequer lhe estremeceu a voz, ao recordar, por exemplo: “em 1387, D. João I ordenou que a figura de S. Jorge, a cavalo, se integrasse na procissão”; “o Bispo D. Gonçalo de Morais, em 1607, reconhecendo embora a autoridade que lhe não era negada, pedia ao Rei que determinasse como se devia proceder”; “em 1905 [cinco anos antes da República!] uma Portaria do Governo mandava que a procissão do Corpo de Deus fosse considerada como «encargo das Câmaras Municipais», segundo um direito antigo, consagrado em todo o país”.

O Bispo reconhece que “o povo português tem uma profunda e sincera devoção ao Santíssimo Sacramento”, mas não se interroga sobre a qualidade dessa devoção. Nem porque é que tanta devoção se traduz em tanto subdesenvolvimento e em tanta crendice.


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