Textos do
Jornal Fraternizar-

Edição nº 145, de Abril/junho 2002 (Continuação)

Texto de Manuel António Pina (na apresentação do livro do Pe. Mário, Que fazer com esta Igreja?)

1. Devo dizer que foi com preocupação que aceitei o encargo de estar aqui para "apresentar" este livro do Padre Mário. Primeiro, porque uma tal "apresentação" sempre haverá de ser ociosa, de tal modo a voz que neste livro clama é hoje, em Portugal, um lugar único e idêntico de denúncia solidária, de coragem e de fidelidade, e de tal modo a coerência dessa incansável e generosa voz é hoje, para muitos de nós, crentes e não crentes, a própria voz viva da mensagem libertadora do Cristo. Depois, porque o título do livro ("Que fazer com esta Igreja?") me parecia – a mim, que não o tinha lido ainda – ameaçadoramente desinteressante, pois que a Igreja, "esta" Igreja, é coisa que de todo em todo não me interessa senão como exemplo maior do perverso poder da hipocrisia, mesmo quando ingénua ou bem intencionada.

Não sou cristão. Não professo nenhuma Religião (escrevo a palavra com maiúscula). Acho, no entanto, que sou religioso de uma religião (com letra minúscula) sem deus, radicalmente racional, assente no sentimento profundo de que, enquanto ser, sou essencialmente re-ligação. Re-ligação com todas as existências, vivas e não-vivas (e a biologia demonstra quão incertas são as fronteiras da vida), humanas e não-humanas, o que implica a diferença fundamental de cada ser individual e a vivência solidária de tal diferença; e sobretudo o amor, não só ao próximo e ao semelhante, mas também, o difícil amor ao distante e ao distinto. Uma re-ligação (uma religião) assim, ecuménica e ecológica, não se pratica, vive-se; e não precisa de um deus, a não ser um deus-palavra capaz de dar nome provisório ao elementar e ao inominável, aí, onde nenhuma palavra alcança. Como escreveu o taoista, "chamo-lhe Tao porque não sei o seu nome"; ou, como terá respondido o deus de Moisés, "eu sou aquele que é".

Que me poderia, pois, preocupar a questão "Que fazer com esta Igreja?"? Mas li o livro do Padre Mário e descobri-me, súbita e emocionadamente, partilhando textos escritos por alguém que se proclama fiel de uma intransigente e libertadora "Igreja una santa católica e apostólica", por isso mesmo inimiga de todo o poder eclesiástico e absoluto que "oprime, explora, vitima, infantiliza, reprime e mata as pessoas e os povos". De tal forma esses textos tocam matérias fundamentais.

No fim da leitura destas crónicas, alguém que, como eu (se tenho, e acho que não, que rotular-me em relação ao problema religioso), poderia dizer-se hesitantemente entre o agnosticismo e o ateísmo, seria até capaz de interrogar-se: "Se esta é a mensagem do Cristo, e se estas as suas consequências, serei então eu cristão? Provavelmente, prosseguiria interrogando-me, serei até mais do que isso, pois que o meu amor e a minha fidelidade procuram, se calhar, ir mais além ainda dos homens e dos povos, ao emocionado encontro de todas as existências."

Felizmente, a pergunta não tem qualquer importância nem carece de resposta... Só a refiro para sublinhar como estas crónicas e as questões que elas põem me parecem implicar profundamente tanto crentes como não crentes, cristãos como não cristãos.

2. Conheci o Padre Mário há muitos anos, num tribunal plenário. Eu era um jovem jornalista e ele estava sentado diante de três juizes, acusado – fui-o descobrindo aos poucos – de ser voz da mensagem do Cristo junto dos mais pobres e de, por ele, falar em nome dos humilhados e ofendidos. A certa altura, durante um intervalo do julgamento, o Padre Mário levantou-se e saiu. Já não me lembro se foi levado pelos guardas prisionais para o calabouço de S. João Novo, aguardando o reinício da audiência, ou se se ausentou por outro motivo. Mas lembro-me de algo que guardo na memória como um involuntário símbolo: no banco dos réus ficara o exemplar dos Evangelhos que o acompanhava durante todas as sessões do julgamento. Os Evangelhos no banco dos réus!

Os tempos eram de silêncio e de opressão e a notícia que dei desse acontecimento foi cortada pela Censura. Mas comentei muitas vezes o sucedido e, no meu espírito e na minha razão, o julgamento que eu nitidamente percebia naquela sala de tribunal era o dos acusadores e dos julgadores a serem julgados por aquele livro! E o Padre Mário era a testemunha dele.

Incorruptível testemunha de acusação no processo dos Evangelhos contra os que falam ambiguamente em seu nome e os que os invocam em vão, é o que o Padre Mário continua hoje a ser. Contra o escândalo repetido de uma Igreja dos ricos e dos poderosos, e a mais rica e poderosa de entre eles, que, ao longo de dezasseis séculos, acumulou em dinheiro e influência quanto perdeu em misericórdia e fidelidade.

Neste livro, o Padre Mário toma de novo nas mãos e na consciência o chicote bíblico para vergastar os vendilhões e limpar deles a Igreja libertadora e comunitária do Cristo histórico. Reuniu aqui duas dezenas e meia de crónicas publicadas entre Janeiro e Abril deste ano de 2001, na sua página pessoal na Internet que reflectem sobre acontecimentos concretos, sejam uma nota pastoral dos bispos, sejam uma notícia de jornal, uma homilia do bispo do Porto ou a tragédia de Entre-os-Rios, o funeral de uma amiga ou a descodificação do ADN, ou então se reportam a intervenções em conferências e debates. Em todos estes textos, na sua linguagem profética, frequentemente rude, sempre intransigente, o Padre Mário assume sem ambiguidade, com ampla e profunda sustentação teológica (o texto sobre o episódio bíblico da mulher adúltera é, mesmo para um leigo como eu, estimulantemente profundo), a radicalidade libertadora de Jesus e a sua "perigosa memória", contra o fariseísmo moralista das chefias religiosas e do seu subserviente clero.

Textos de denúncia mas também de esperança, pois que transportam vivamente neles a Boa Notícia evangélica, estas crónicas vão, pois, muito mais longe do que os estreitos limites que poderiam ser os de uma "questão interna" da Igreja de Roma, para alcançarem nas principais questões políticas, sociais, existenciais, que hoje condicionam a nossa vida comum, em Portugal como no Mundo.

"O que fazer com esta Igreja?" torna-se, assim, não apenas uma pergunta a que só os católicos tenham que dar resposta, mas algo que envolve tanto crentes como não crentes. E que essa resposta seja a resposta evangélica – lançá-la fora e ser pisada pelos homens (Mateus 5, 13) – não pode deixar de nos implicar profundamente a todos, enquanto comunidade de homens partilhando um mesmo tempo e um mesmo lugar.

Parafraseando Pessoa, julgar, julgue quem ler.


Dois textos de Frei Betto (Brasil)

1. Páscoa: o Dom da vida

Celebrar a Páscoa é reafirmar a nossa fé na ressurreição de Cristo e na própria ressurreição de todos os nossos projectos de justiça. No entanto, sabemos que a morte é a única coisa certa na vida. A postura que temos diante da morte traduz o sentido que damos à vida. Outrora, a morte incorporava-se ao nosso quotidiano: morria-se em casa, cercado de parentes e amigos. Em Minas, havia velório com pão de queijo e cachaça, carpideiras, missa de corpo presente e despedidas no cemitério. Em suma, celebrava-se o rito de passagem.
Hoje, o enterro tornou-se mais um produto de consumo. Morre-se clandestinamente, num leito anónimo de hospital ou nas gavetas de um necrotério, como se o falecido fosse uma presença tão incómoda quanto um gato numa loja de cristais. Não há choro nem vela, nem fita amarela.

Em tudo, há começo, meio e fim. No entanto, nossa racionalidade, tão equipada de conceitos, esvai-se nos limites da vida. Só a fé tem algo a dizer a respeito desta fatalidade. Se Cristo não houvesse ressuscitado, afirma são Paulo, nossa fé seria vã. Mas a vitória da vida sobre a morte arranca da injustiça o troféu da última palavra. No ocaso da existência - lá onde toda palavra humana é inútil alquimia - Deus irrompe como um teimoso posseiro. E, como no amor, não há nada a dizer, só desfrutar.

Na América Latina, morre-se antes do tempo. De cada 1.000 crianças brasileiras nascidas vivas, 36 morrem antes de completar um ano.Aqui, a morte não é uma possibilidade remota. Ela nutre o sistema económico. Sem privar milhares de brasileiros de possibilidades reais de vida, não seria possível entregar aos credores internacionais 2 mil milhões de dólares por mês! Tira-se tudo isso dos minguados salários dos trabalhadores, através de cirurgias assassinas eufemisticamente denominadas "ajustes estruturais ou fiscais". Mata-se à prestação, lenta e cruelmente, como se o direito à vida fosse um luxo.

A morte é, pois, uma questão política, assim como a esperança, centrada no mistério pascal, move a nossa luta pela vida, dom maior de Deus. O Brasil detém o vergonhoso título de campeão mundial de acidentes de trabalho (1 milhão por ano) e de trânsito (50 mil mortos por ano). Ora, a ressurreição de Cristo não significa apenas que do outro lado desta vida encontraremos a inefável comunhão de Amor. Diz respeito também à vida nesta Terra. "Vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância" (João, 10, 10). Não haverá vida em abundância senão pela via das mediações políticas, como a distribuição de renda, a reforma agrária e o investimento em educação e saúde.

2. Escola solidária

A minha escola não é uma instituição destinada a formar, apenas, profissionais qualificados para o mercado de trabalho. Em seus pressupostos éticos e em sua metodologia pedagógica, procura formar cidadãos, e não consumidores; homens e mulheres altruístas, e não egocêntricos; pessoas abertas ao contexto social em que vivem, e não voltadas para o próprio umbigo.

A transmissão do património cultural está indissociavelmente vinculada à formação do carácter, segundo valores que nem sempre coincidem com os que regem a ideologia da competitividade a qualquer preço. Adopta-se o primado da solidariedade. É uma escola cujos alunos editam um jornal; conhecem a vida familiar dos funcionários e procuram ajudá-los, como no reforço escolar de seus filhos; asseguram, em cada classe, uma bolsa-escola a um jovem empobrecido, graças a recursos de suas próprias famílias.

Minha escola é um centro conectado à comunidade circundante, de modo a reduzir a distância entre texto e contexto, saber e compromisso social, e introduz no currículo, como tema transversal, a cultura e a prática do voluntariado. É, portanto, uma Escola Solidária, que participa de campanhas de combate à fome, à Sida, ao dengue etc. No inverno, recolhe agasalhos e os distribui aos desabrigados e, na época do Natal, colecta tudo aquilo que muitas pessoas guardam em casa sem fazer uso e, graças à venda daqueles produtos a preços módicos, ajuda o centro comunitário do bairro.

Não se restringe, porém, ao mero assistencialismo. Debate, entre professores, alunos, pais e funcionários, as causas dos problemas sociais; convida políticos de diferentes partidos para palestras; forma a consciência crítica; mantém contacto com movimentos populares e ONGs vinculados aos excluídos; conhece as conexões que unem a conjuntura nacional à internacional. Organiza eventos ecuménicos com representantes de todas as denominações religiosas, favorecendo aos alunos uma boa formação quanto às espiritualidades vivenciadas pelo povo brasileiro.

Voltada à formação de cidadãos conscientes e participativos, a Escola Solidária empenha-se, a começar pelas populações empobrecidas que lhe são vizinhas, na alfabetização de adultos; incentiva os alunos a ler para idosos e enfermos, em asilos e hospitais; promove jogos e actividades desportivas com crianças carentes; oferece à comunidade serviços como horta e farmácia comunitárias; primeiros socorros; educação sexual, etc.

É também uma Ecoescola Solidária, que ensina a preservar o meio ambiente, reciclar o lixo, economizar água e energia, promovendo excursões e campanhas contra todas as formas de poluição,da tóxica à sonora. Cada um de nossos alunos adoptou uma árvore do bairro, mantendo-a sob cuidados e vigilância.

Ela jamais fica fechada um período do dia e, nos fins de semana, abre suas instalações para festas cívicas e religiosas; eventos comemorativos; gincanas educativas; actividades desportivas; cursos de formação para a cidadania; oficinas semi-profissionalizantes, como costura, culinária, chaveiro, bombeiro, cabeleireiro, manicura, massagens terapêuticas, fitoterapia etc.

Forma os estudantes para situações de emergência, estabelecendo parcerias com instituições como a Defesa Civil, de modo a torná-los aptos a prestar acções solidárias em caso de enchentes, incêndios, seca prolongada, endemias (dengue) etc.

Nas férias e nos feriados, promove visitas de estudantes e professores a áreas carentes do município (favelas) e do país (Vale do Jequitinhonha, semi-árido do Nordeste, assentamentos agrícolas etc), desenvolvendo ali mutirões voluntários de educação para a cidadania, através de filmes, apresentações teatrais, vídeos, minicursos de primeiros socorros, higiene no lar, saúde, hábitos alimentares, direitos do consumidor, da criança e do adolescente etc.

Onde fica essa escola que suscita, nos jovens, iniciativas altruístas e voluntárias? Ora, por enquanto, tem endereço em minhas utopias pedagógicas. Mas tudo indica que se transformará em realidade, pois no dia 15 de março último, a ONG "Faça Parte", monitorada por Milú Villela, acaba de fazer o lançamento, na Assembleia Legislativa de São Paulo, do projecto Jovem Voluntário, Escola Solidária.


Documento

Bispos para o século XXI

Por J. I. González Faus (Teólogo ibérico)

Escrevi há já algum tempo que o velho problema sobre "o Jesus histórico e o Cristo da fé" estava a dar lugar a outro problema sobre "a comunidade histórica e a Igreja da fé". Não é exactamente um problema novo, nem tão contundente, nas suas origens, como o anterior. Mas é possível afirmar – do mesmo modo que para o caso do Jesus histórico, que beneficiamos de uns mínimos muito importantes e com bastante garantia histórica que ajudaram a purificar a nossa imagem de Jesus – que também no caso da Igreja se verificam determinados consensos que podem ajudar a purificar a nossa fé e o nosso sentido eclesial, como devem ajudar a própria Igreja a purificar-se e a ser mais Igreja de Jesus.

Esta observação parece-me fundamental a propósito do tema que me foi sugerido, embora este diga respeito só aos bispos e não à totalidade da Igreja.

Diz-se que o Vaticano II foi o concílio do episcopado. Mas isto só parece ser verdade no que se refere à afirmação da colegialidade episcopal (quase inédita na prática) e como contraponto a um Vaticano I, qualificado como concílio do papado.

Está, pois, pendente uma reflexão sobre a natureza histórica do episcopado, que deve fazer-se no seio de outra visão mais ampla sobre a constituição histórica da Igreja, e servir de base à reflexão teológica. Por isso, principiarei esta reflexão com um breve resumo dessa visão, feito em forma de tese.

I. Tese sobre a constituição da Igreja

A. Origem e natureza da Igreja

1. A Igreja fundamenta-se em Jesus, mas nasce da páscoa e é fundada por ela. No Jesus histórico não há qualquer intenção de fundar uma Igreja. Portanto, dificilmente pode haver instruções ou prescrições dadas aos apóstolos sobre as estruturas da Igreja.

2. Não se pode equiparar o reino de Deus com a Igreja. Esta seria uma das heresias mais frequentes e mais prejudiciais para a eclesiologia.

3. A Igreja está sob a Palavra de Deus. Embora a leitura da Bíblia seja comunitária, isto não quer dizer que a comunidade, e menos ainda os seus representantes sozinhos, estejam acima da Palavra; o que têm é de ser obedientes a ela.

Esta dupla afirmação pode ser fonte de conflitos. Porém, seria heterodoxo fugir desses conflitos, à custa de ignorar um dos dois membros da afirmação.

4. A Igreja é comunidade dos chamados à fé. É simplesmente herético crer que a Igreja se identifica com "o papa e os bispos" como poder sagrado, de modo que o chamado "povo de Deus" seja apenas um campo necessário para o exercício desse poder. A Igreja é o povo crente, o qual precisa de uns "ministérios" para o seu viver como povo de Deus (cf. LG 2).

5. Mas a Igreja tão-pouco é uma instituição universal da qual as chamadas igrejas locais sejam apenas "uma pequena parte": cada igreja local é, simultaneamente, "a Igreja católica" ("a Igreja de Deus que está em..."). E o verdadeiro sentido universal da palavra Igreja é o duma comunhão de Igrejas.

B. Estruturação da Igreja

6. A eclesiologia do Novo Testamento é enormemente plural. Embora em tempos históricos de crise possa ser necessário reforçar a unidade, seria contrário ao Novo Testamento institucionalizar uma única visão da Igreja, com sacrifício da pluralidade.

7. O que decide sobre o carácter cristão de uma Igreja é que as suas estruturas favoreçam a igualdade, a fraternidade e "a eminente dignidade dos pobres", com base na experiência do Deus de Jesus. "Quando isto se não verifica, é a comunidade cristã que sofre, mesmo que não se verifique a falta de nenhuma estrutura eclesiológica" (Estrada, Para entender como surgiu a Igreja, p. 81).

8. Os ministérios eclesiais estão presentes em todo o Novo Testamento. Mas a sua estrutura é enormemente imprecisa e contingente. Nos Evangelhos não há alusão directa aos diversos ministérios, porque estes não provêm de Jesus. O que se subentende nos Evangelhos é que aqueles ministérios que então começavam a nascer, se assemelhem a Jesus e se desenvolvam em consonância com ele.

9. A partir do século II, a Igreja precisou de se institucionalizar, devido ao seu crescimento. Como não tinha modelos, recorreu umas vezes a imitar a estrutura da sociedade civil romana, e outras vezes, a recuperar instituições ou normas do Antigo Testamento (é então, quando se generaliza a terminologia "sacerdotal", inexistente ao princípio). Este duplo processo é muito compreensível; mas não é obrigatório, nem está isento de perigos para a Igreja que vem a seguir. O seu maior perigo, no dizer de Karen Torjesen, é que "o conceito de direcção passou da esfera do ministério à do governo" (Quando as mulheres eram sacerdotes, Córdoba, 1996, p. 150).

10. No processo de institucionalização da Igreja foi desaparecendo a presença de carismáticos e de profetas, que tinha sido muito viva na Igreja primitiva. Ao estruturar-se assim, os "ministérios" vão-se convertendo em "cargos" e vão acumulando funções que, nas origens, estavam muito diversificadas.

11. A evolução dos ministérios acaba muito depressa por ficar a marcar passo na tríade bispo-presbítero-diácono que, nas origens, era de fronteiras bastantes imprecisas. O que em caso algum existe é "um plano estabelecido de antemão e muito menos umas directrizes dadas por Jesus" (Estrada, idem, p. 179).

12. Na Igreja do Novo Testamento, a presidência da eucaristia e o chamado "poder de consagração" não aparecem vinculados à ordenação e à imposição de mãos. Inácio de Antioquia requer, para que a eucaristia seja válida, a autorização (não a "ordenação") do bispo (Smirn. 8, 1). Isso parece dever-se à concepção, hoje perdida, de que numa eucaristia válida (bebaia, em terminologia de santo Inácio), o presidente não é o único que consagra, mas todo o povo que o rodeia consagra e oferece com ele.

Na Igreja imediatamente a seguir, ainda perdura algo disto, nos chamados "confessores". Inclusive, alguns deles foram eleitos como bispos sem que nunca se fale duma ordenação presbiteral prévia. E há até o caso de Calixto que chegou a papa. Esta regra mantém-se nos cânones de Hipólito (336-340) (cf. Estrada, idem, p. 143). O primeiro de quem consta que, depois de ter sido eleito bispo de Roma como diácono, se fez ordenar antes de presbítero, foi Gregório VII, já no século XI.

Neste âmbito, não tem qualquer sentido argumentar que Jesus "não ordenou mulheres", uma vez que ele tão-pouco ordenou homens. Para o tema do ministério feminino seria mais pertinente perguntar se o Ressuscitado elegeu mulheres como testemunhas da sua ressurreição. Este aspecto é que é indispensável para poder entrar agora no ministério dos bispos.

3. Sobre o ministério episcopal

13. Para falar com estrita propriedade histórica, temos que dizer que os bispos não são "sucessores" dos apóstolos. Teologicamente, pode falar-se duma espécie de analogia ou correspondência dinâmica, que permite usar esse título num sentido válido, mas mais amplo.

14. A este propósito, convém dizer que, "segundo santo Ireneu, os presbíteros têm também a sucessão apostólica" (Estrada, idem, p. 183). A ideia de certa igualdade inicial entre bispos e presbíteros arrasta-se no mínimo até santo Isidoro de Sevilha, no século VII (Estrada, idem, p. 188).

15. Uma vez estruturados, há dois elementos inseparáveis que devem considerar-se essenciais, tanto no episcopado como no presbiterado. São eles: a) a entrada no colégio (episcopal ou presbiteral) e b) o vínculo a uma Igreja particular. Isto é, colegialidade e localidade.

16. Na Igreja primitiva não é concebível nem uma eucaristia celebrada sem comunidade, nem um bispo sem Igreja e que não exerce como pastor. A actual figura canónica dos bispos in partibus (sem diocese) é uma ruptura com a melhor tradição eclesial (à qual hipocritamente se presta homenagem com essa designação apenas nominal). E o que se disse até aqui sobre o ministério episcopal, carece de outro âmbito de referência, que provém daquele que é o primus episcoporum [primeiro dos bispos]: o bispo de Roma.

4. Sobre o ministério de Pedro

17. Pedro morreu mártir em Roma, mas nunca foi bispo de Roma. Além disso, é muito provável historicamente que a Igreja de Roma foi governada durante bastantes anos por um colégio de presbíteros (como facilmente se adivinha na chamada Carta de Clemente), e que a sucessão episcopal não surja em Roma até meados do século II.

18. O vigário de Pedro pode ter, como bispo de Roma e como patriarca de ocidente, umas atribuições geograficamente limitadas que não tem como papa. A Igreja universal não é uma diocese do papa, nem o Estado do papa.

19. A designação dos bispos durante todo o primeiro milénio e parte do segundo não foi competência dos papas, mas das igrejas locais (ou circunvizinhas). As formas concretas variaram, mas o princípio, como tal, considerava-se vontade de Deus e direito apostólico. Os primeiros desvios deste procedimento ficaram a dever-se a situações excepcionais, para evitar a intervenção dos reis e senhores feudais. E mais tarde (na época de Avinhão), a motivos muito pouco nobres. Finalmente, em Trento, generalizou-se a prática actual que deve continuar a ser olhada como "excepcional".

20. Pode-se, pois, dizer que a Igreja tem uma estrutura ministerial (apostólica) por obediência ao exemplo de Jesus e dos seus. Mas a configuração concreta dessa estrutura é criação da Igreja e não de Jesus. E criou-se, como resposta aos "sinais dos tempos".

Boa prova disto mesmo pode ser a fundamentação do papado que o cardeal Bellarmino dava no século XVII e que não argumenta a partir da vontade de Jesus ou da obediência à Escritura, mas de que Deus quer para a sua Igreja o melhor; e a melhor forma de estruturar uma sociedade (segundo Bellarmino) é a monarquia.

21. Neste contexto, o pecado da Igreja pode consistir muitas vezes em que tudo aquilo que é fruto duma evolução histórica compreensível (que umas vezes será obra do Espírito e outras também do pecado), ela pretende depois convertê-lo em resultado duma vontade de Jesus historicamente expressa. Deste modo, a Igreja torna-se refém do seu passado e fica incapaz de responder às exigências da evangelização, com a agravante de ainda converter Deus em responsável pela sua própria preguiça.

II. Bispos para o século XXI

Se isto é assim, permite-nos concluir que a Igreja, no momento de estruturar o seu ministério mais constitutivo para uma nova etapa da história, na qual o cristianismo vai ser minoritário e onde os estados são laicos e ela não pode contar já com apoios sociológicos nem políticos, deve sentir-se numa situação semelhante à da primitiva Igreja. Com a mesma liberdade e com a mesma chamada à criatividade responsável e à eficácia apostólica e evangelizadora.

Com todo o respeito e sem mais autoridade que a da verdade que possa dizer, penso que isto implicaria pelo menos quatro aspectos que se espera ver nos bispos do século XXI: que sejam bispos; que sejam evangelizadores; que sejam criadores de comunidade; e que sejam colégio.

1. Que os bispos sejam bispos

Ao dizer que "sejam bispos", queremos devolver à palavra toda a dignidade que ela tem na melhor tradição da Igreja, por seu vínculo teológico com o grupo dos Doze. Que sejam bispos significa, portanto, que não sejam meros peões movidos pela cúria romana. Que se cumpra deveras o ensinamento do Vaticano II: "Os bispos não devem ser considerados como vigários do romano pontífice" (LG 27).

S. Bernardo já avisava Eugénio III de que uma Igreja que fosse apenas "cabeça e dedos" seria "um monstro", em vez de ser o corpo de Cristo. Como explicaram os bispos alemães do século XIX, na sua carta a Bismarck sobre o Vaticano I, "o papa é bispo de Roma, não de Colónia ou de Breslau" (DS 3113), nem de S. Paulo. E o próprio Vaticano I assinala como constitutivo do ministério de Pedro o "afirmar, robustecer, e reivindicar" o poder dos bispos (DS 3061). Mas não se pode afirmar que a situação tenha melhorado muito, desde a época de S. Bernardo.

Na actual estrutura da Igreja há algo que impede os bispos de actuar missionariamente como enviados, e os obriga a actuar como funcionários. Desse "algo", dá-se conta provavelmente a confissão de um bispo de Espanha, quando lhe perguntaram por quê as intervenções dos bispos na televisão eram tão pouco estimulantes: "Devo reconhecer – confessou o bispo – que quando falamos na televisão não estamos a pensar nos telespectadores, mas no núncio".

Não creio que seja preciso acrescentar que a cúria romana não foi fundada por Jesus Cristo. E que ela, tal como os cardeais e os núncios, é um dos elementos mais contingentes da estrutura eclesial. A sua configuração há-de depender da sua eficácia evangelizadora e do seu serviço à colegialidade episcopal, que são dois princípios eclesiológicos muito superiores a ela.

Fique claro que estou a falar da cúria e não da sede romana. No século XXI, será fundamental que a cúria não interfira nas relações entre Pedro e o colégio apostólico, impedindo assim a verdadeira colegialidade. Impor, por exemplo, a quantos vão ser consagrados bispos, um juramento prévio de que não falarão nunca publicamente contra o celibato ministerial ou a favor do sacerdócio das mulheres, seria (se é que isso se faz) um abuso de autoridade que, de resto, não geraria nenhuma verdadeira obrigação. Tal abuso de autoridade seria ainda mais reprovável, se depois se pretende utilizá-lo como mostra de que se verifica um verdadeiro consenso na Igreja sobre essas matérias.

2. Que os bispos sejam apóstolos

Penso que, na actual situação eclesial, volta a ganhar um significado e uma importância novos a transposição que faz o evangelista Mateus da parábola jesuânica da ovelha perdida, aplicando-a aos ministros da Igreja. Mas haveria que acrescentar que hoje já não se trata de "uma" ovelha contra noventa e nove, mas de noventa contra dez...

Se a Igreja deve continuar fiel à sua missão evangelizadora, não pode continuar a deixar ir (e a condenar) todas "as ovelhas perdidas da casa do Pai" (Mt 15, 24), enquanto acarinha (e se deixa acarinhar) pelo pequeno rebanho de quantos se consideram fiéis. Dito sem parábola, isto significa que os bispos do século XXI deverão ser homens de fronteira e não homens de barreiras. A Igreja do século XXI precisará de muitos mais "paulos" do que de "timóteos". Já R. Brown sublinhou com feliz ironia que com os critérios das cartas pastorais do N. T. (que são os únicos que parecem constituir a eclesiologia católica), Paulo nunca poderia ser designado bispo.

Isso implicará, em minha opinião, o esforço por liderar comunidades alternativas que possam ser vistas como sinais ("sacramentos") de salvação, como "sal da terra" e como "luz dos povos". Digo "alternativas", porque nelas se procura viver "a eminente dignidade dos pobres na Igreja" (Bossuet), frente à eminente dignidade dos ricos, dos poderosos e das estrelas, que vivem no mundo envolvente. Alternativas, não meramente pela doutrina que nelas se ensina, mas também pelas "virtudes" com que vivem os seus membros, entendendo "virtudes" não em sentido ascético, mas no sentido etimológico de "forças" (virtutes).

Nesse contexto, os bispos não serão tanto "guardiães de um depósito", quanto "testemunhas duma boa notícia". E essa boa notícia é, em curta síntese, "o amor de Deus que se manifestou em Jesus Cristo" (Rom 8, 39) e o desmascaramento do pecado deste mundo, que precisa de crucificar inocentes e profetas para continuar a manter "o seu posto e a sua casta" (cf. Jo 11, 48).

Tudo isto os bispos do século XXI terão de fazer, sem nenhum poder, mas também sem nenhuma ingenuidade: apenas a partir da condição do enviado, ou seja, "como ovelhas no meio de lobos" (Mt 10, 16). Terão de ser simples como as pombas e, ao mesmo tempo, sagazes como as serpentes. Para tanto, relacionar-se-ão o mínimo possível com os grandes deste mundo (se é que há aqui um mínimo possível). E se tiverem de presidir a alguma cerimónia religiosa, funeral ou sacramento, serão normalmente as dos presos e as dos sem-abrigo, não as dos poderosos da terra. Tão-pouco pretenderão montar grandes estruturas próprias, a pretexto de evangelizar. Porque essas estruturas milionárias acabam por exigir preços e regras de jogo contrários ao evangelho. Terão de perguntar-se, séria e razoavelmente, o que significa hoje tudo aquilo de ser enviados "sem cajado, sem alforge, sem pão nem prata, nem duas túnicas" (Lc 9, 3). Sem pretender que a inviável simplicidade desses conselhos os torne totalmente inadequados no meio duma sociedade tão complexa como a nossa, mas sim como quem busca, para lá da impossível literalidade, o significado evangélico que tinham aqueles conselhos dados por Jesus aos que ele enviava.

3. Que os bispos sejam "criadores de comunidade"

Como se sabe, o termo grego epi-skopos não designa nenhum tipo de poder sagrado, mas uma simples tarefa de "supervisor" da comunidade. Antes de serem responsáveis da ortodoxia, os bispos são responsáveis da comunhão: porque nas igrejas cristãs não há lugar para nenhuma verdade à margem do amor (Ef 4, 15), o qual é a verdade mais profunda de Deus e do ser humano. Podia-se traduzir hoje essa supervisão, definindo os bispos como "construtores de comunidade": responsáveis, desde dentro, dessas comunidades que acabámos de descrever como alternativas e missionárias. Comunidades onde se vai fazendo "carne" uma capacidade intuitiva para encontrar Deus em todas as coisas e não apenas (nem principalmente) nos aspectos ou momentos "religiosos" da vida. Comunidades que, desde essa sintonia com Deus, sejam capazes de suportar a difícil diferença e pluralidade de todos os grupos humanos, sem a converter de maneira mecânica em motivo de dissensões, de exclusões, nem de confrontos.

A história da Igreja primitiva é, neste ponto, exemplar. A Igreja conheceu desde os seus começos a pluralidade e a ameaça de divisão. Apesar do seu tom edificante, Lucas não pôde deixar de reconhecer que as altercações e as discussões não foram leves (At 15, 2). Mas naquela Igreja pesava mais a oração de Jesus pela unidade, do que a idólatra fixação na própria verdade.

O exemplo durou pouco tempo. Mas, procurando aprender dele para o amanhã, deveríamos dizer que os bispos do século XXI terão de ter a obsessão por "criar verdadeira comunidade", em lugar de fazer triunfar uma determinada linha, entre outras possíveis e legítimas, na Igreja.

Um dos pecados da Igreja romana é que foi invalidando o sábio conselho de Agostinho ("unidade no necessário, liberdade no duvidoso e caridade em tudo"), porque desde o momento em que se perde o sentido "da única coisa necessária" (Lc 10, 42), tudo se torna necessário e tudo fica justificado para levar por diante essa falsa necessidade do próprio egotismo.

A comunidade só se cria desde dentro, não desde fora dela. A já famosa exclamação de Agostinho "sou cristão convosco", ou a da primeira carta de Pedro ("co-presbítero convosco") ajudariam a impedir que os bispos apareçam diante da sociedade (e diante da própria Igreja) como uma espécie de "objectos sagrados não identificados", nos quais já deixou de se cumprir aquele soberbo jogo de palavras, também de santo Agostinho, de presidir para aproveitar (praesint ut prossint). E para aproveitar à comunidade a que presidem, não a outros interesses de política eclesial, exteriores a ela, por muito respeitáveis que possam ser.

Como tendência geral, estes homens criadores de comunidade terão surgido da Igreja a que presidem, embora esta tendência não possa converter-se em lei, num mundo tão em mudança e tão plural como o nosso. Isto facilitaria a devolução às igrejas locais da sua participação na designação dos bispos.

J. M. Tillard acaba de escrever que "o lento desaparecimento da eleição [dos bispos] pelo povo e depois por um grupo do clero local, é uma ferida que se causou à verdade eclesial da diakonía".

Infelizmente, houve núncios que causaram grande dano às igrejas, quer pelos bispos que nomearam, quer pelos conselhos que lhes deram. O resultado foi que, em lugar de criar comunidades, afastaram a muitos. Em lugar de semear esperança, semearam mais decepção; em lugar de evangelizar, impuseram uma política eclesiástica contingente.

Por isso não será demais recordar as palavras do cardeal de Guisa, no concílio de Trento: "de joelhos daria ao nosso santo padre o conselho urgente de se livrar desta carga [de designar ele os bispos]; assim correria menos perigo a salvação da sua alma, pois com frequência não se faz boa eleição para as igrejas. Assim ele não teria de dar contas disso".

Como consequência do que acaba de ser dito, estes bispos criadores de comunidade serão em geral – e segundo a melhor tradição teológica – homens "casados" com as suas igrejas, ligados a elas com um vínculo que seja sacramento do amor de Cristo à Igreja. Não estarão nas suas igrejas "de passagem" e a olhá-las como meros degraus para subirem na sua carreira.

Santo Agostinho não precisou de sair da sua minúscula diocese para ter a maior influência na Igreja e na sociedade do seu tempo. Não aspirou nunca a chegar a Milão (onde havia conhecido e admirado Ambrósio), nem calculou os passos que dava e os compromissos que contraía, não fossem eles impedir a sua subida na carreira. Pelo contrário, com todos os seus defeitos (que os teve como todo o ser humano) conheceu as suas ovelhas e estas conheceram-no (Jo 10, 14). Amou-as e foi amado por elas. Nisto continua a ser hoje um exemplo muito válido para o futuro, como alguns outros a quem a fidelidade ao seu ministério os converteu hoje em bispos "marginais" aos olhos do mundo eclesiástico, mas talvez também em bons pastores aos olhos misteriosos e subversivos de Deus.

4. Que os bispos sejam "colégio"

Na Igreja dá-se uma estranha relação entre localidade e universalidade que, a concretizar-se neste tempo, poderia talvez ser um grande sinal para um mundo dividido e retalhado pela luta entre localismos e universalismos. A Igreja local não é uma parte da Igreja católica: é toda ela "a Igreja católica", na medida em que for Igreja em plenitude (cat-holou). A Igreja universal não é a soma de todas as igrejas locais, mas a comunhão de todas elas. Esta estranha relação provém da configuração eucarística da Igreja: as espécies consagradas numa eucaristia particular não são "uma fracção" do corpo de Cristo que há-de somar com outras partes, mas são sem mais "o corpo de Cristo".

E esta relação reflecte-se na figura do bispo, em quem não se devem separar as duas características antes enunciadas de localidade e universalidade. Por ser cabeça ou representante da sua Igreja, o bispo é membro do colégio episcopal. E vice-versa. Daí a célebre frase antitética de S. Cipriano: "há um só episcopado e dele participa cada bispo por inteiro" (in solidum pars tenetur).

O Vaticano II, o concílio da colegialidade, ensinou o carácter sacramental da consagração episcopal. Este carácter de "plenitude do sacramento da ordem" (LG 21) não o tem a consagração do vigário de Pedro. Por isso escreve um comentarista: "só em conexão com a sacramentalidade adquire o seu pleno sentido a ideia da colegialidade". Isto quer dizer que a primazia de Pedro não pertence ao âmbito da colegialidade, mas, por assim dizer, ao terreno funcional. E por isso significa também que o ministério petrino não pode ser uma entidade "exterior" ao colégio episcopal (e haverá que especular como se reparte com ele a primazia), mas nasce e faz parte do colégio episcopal. É enquanto membro do colégio, como deve exercer a sua missão primacial, não anulando o colégio.

Pode ser oportuno evocar aqui uma imagem eclesiológica muito antiga e frequente ao longo da história, qual é a da "sinfonia" ou "polifonia". E que já santo Inácio de Antioquia, no século II, a intuía, com repetidas alusões à sinfonia das cordas duma cítara (cf. Ef 4, 1). O reconhecimento do primado de Pedro não pode converter a Igreja num "a solo" sem vozes ou num violino com uma única corda, mesmo que esta se chame prima [primeira]

Isto deveria ter consequências palpáveis na Igreja do século XXI. No passado sínodo europeu, o cardeal Martini falou disso, numa declaração que foi desautorizada por vários membros da cúria romana que provavelmente desconhecem aquelas palavras de Francisco Vitoria, escritas no século XVI: "desde que os papas começaram a ter medo dos concílios, por causa das novas opiniões dos doutores, a Igreja ficou sem concílio e assim continuará, para desgraça e ruína da religião".

Martini, como se lembrarão, evitou cuidadosamente a palavra "concílio" e falou apenas de "um instrumento colegial mais pleno e autorizado". O decisivo aqui é a alusão à colegialidade. Nas actuais dimensões da Igreja, os concílios podem resultar entidades de tal magnitude (e de tais despesas!), que não seja possível pensar neles como formas habituais de funcionamento da colegialidade. Bastaria em vez disso dar poder deliberativo ao sínodo de bispos (uma instituição que suscitou esperanças depois do Vaticano II e que parece estar a converter-se num organismo só com vida vegetativa). Mas haveria que fazê-lo de tal maneira que a designação dos participantes nesse sínodo ficasse nas mãos das conferências episcopais - ainda que não uma simples lei de maiorias excluentes - mas de tal modo que pudessem estar aí representadas todas as tendências que convivem na Igreja.

Não penso que seja tarefa deste escrito entrar em concretizações jurídicas ou canónicas. Cabe-lhe antes apontar princípios teológicos. Sobre essas concretizações, já sugeri algo (não tudo) noutro lugar e para aí me remeto.

Agora, ao concluir, parece-me melhor evocar agradecidamente alguns nomes daqueles que, na minha modesta opinião, souberam antecipar já algo do que aqui se sugere. Limitando-me apenas aos já falecidos, surgem-me nomes como Oscar Romero, Pironio, Angelleli, Hélder Câmara, Proaño, Lercaro, Hume e, no meu país, o cardeal Tarancón, juntamente com outros ainda vivos, e para quem as coisas não são hoje nada fáceis.

A todos eles, uma saudação reconhecida e, por todos eles, graças ao Senhor.


Igreja/Sociedade

E o Bispo correu com ele!

Os media da Europa anunciaram o escândalo e a vergonha. Mas a hierarquia da Igreja católica fez orelhas moucas. Nem sequer percebe que cada vez está mais condenada a ter de ficar a falar sozinha. Como uma instituição de loucos. O pior é que ela pensa que esta condenação é o preço a pagar pela sua fidelidade. E de fidelidade se trata, efectivamente. Só que é uma fidelidade à letra do Código de Direito Canónico, não ao Evangelho ou Boa Notícia de Deus revelada e anunciada em Jesus de Nazaré, o Cristo. Daí a desgraça que se abate sobre a Igreja. Porque quando a lei canónica vale mais do que as pessoas; quando, em nome da lei canónica, se marginalizam pessoas de carne e osso, já não há Igreja de Jesus. Apenas sinagoga, essa mesma que perseguiu Jesus e acabou por conseguir, juntamente com o Templo e o Império de turno coligados, dar-lhe a morte na cruz.

Eis o escândalo! E a vergonha. Mas o escândalo/a vergonha não é o facto do padre José Mantero, pároco de Valverde del Caminho, na diocese de Huelva (Espanha) ter admitido à Revista "Cero", do seu país, que é homossexual e que, nessa condição, se apaixonou por um rapaz que, ultimamente, se cruzou na sua vida. O escândalo/a vergonha é o facto do bispo da diocese, ao ser sabedor da situação, ter corrido de imediato com ele da paróquia e ter-lhe suspendido o exercício do ministério presbiteral. É aqui que residem o escândalo e a vergonha.

O bispo pode invocar - como de facto invocou - o cânone 1395, do Código de Direito Canónico, para sustentar a sua decisão. Na verdade, aí está escrito: "O clérigo concubinário (...) e o clérigo que permanecer com escândalo em outro pecado grave externo contra o sexto mandamento do Decálogo, seja punido com suspensão, e se perseverar no delito depois de admoestado, podem ser-lhe acrescentadas gradualmente outras penas até à demissão do estado clerical."

Mas o que teria sido notícia - melhor, boa notícia e uma boa notícia que surpreenderia o mundo - era se, em vez destas medidas canónicas, tivéssemos podido ver o Bispo de Huelva colocar-se de imediato ao lado do Padre José Mantero, contra o Código de Direito Canónico. E isto, pela simples razão de que, em Igreja, a última instância, no que respeita aos comportamentos morais, é a consciência da pessoa adulta e não a letra da lei, por mais perfeita que esta possa ser considerada.

No Cristianismo de Jesus - pelos vistos, há um outro Cristianismo, diametralmente oposto ao de Jesus, a que podemos chamar com toda a propriedade Cristianismo da hierarquia católica! - a pessoa de carne e osso está sempre primeiro do que a lei. Não é a pessoa para a lei, mas a lei para a pessoa. A lei é para a pessoa apenas como um pedagogo. Mas quando a pessoa se torna adulta, o pedagogo deixa de ter razão de ser. O que passa, então, a ser decisivo é a pessoa e a sua consciência.

S. Paulo vai ainda mais longe e chega a afirmar que se alguém toma decisões contra a sua consciência, só para assim não faltar ao respeito à lei moral obectiva que está aí, intependente da pessoa, comete pecado e nega a essência da Fé cristã. Porque automaticamente faz-se escravo da lei. Quando, a Fé cristã fez dele um ser humano liberto para a liberdade!

"Sou gay, sou sacerdote e quero continuar a sê-lo, pois amo profundamente o sacerdócio e a Igreja", disse, já depois de ter sido compulsivamente afastado da paróquia, o Pe.José Mantero. São palavras com força bastante para partir as próprias pedras. Só não partem o coração do Bispo de Huelva, nem de nenhum bispo da Igreja católica de Espanha (e do resto do mundo?). Porque, pelos vistos, os corações deles são ainda mais duros do que as próprias pedras! E é isto que dói. Sermos conduzidos na Igreja por uns "pastores" a quem o demoníaco sistema eclesiástico, que, habilmente, se faz passar por Igreja, roubou a capacidade de se comover, de ser solidario e, sobretudo, de reconhecer que as pessoas valem mais do que as leis canónicas e, por isso, em caso de conflito entre uma lei canónica e uma pessoa, é aquela que deve ser sacrificada , nunca esta!


Minha querida Aninhas Fernandes

Por Padre Mário

Não fui ao funeral do teu cadáver. Ia para escrever, simplesmente: Não fui ao teu funeral. Mas logo me dei conta do disparate que é essa afirmação (pelo facto de ser a usual, nestas circunstâncias, nem por isso deixa de ser uma afirmação disparatada, pelo menos, ao nível da Fé cristã católica na Ressurreição, que é aquele nível em que pessoalmente procuro viver todos os dias) e por isso de imediato me auto-corrigi e escrevi: Não fui ao funeral do teu cadáver. Assim é que sempre se deverá dizer/escrever. Porque ninguém pode fazer o funeral de outrém já ressuscitado. E essa é para sempre, minha querida Amiga Aninhas Fernandes, a tua condição, agora que a morte te tornou invisível aos nossos olhos. Aos ressuscitados, mulheres e homens, ninguém pode fazer o funeral. Menos ainda, sepultá-los no cemitério, ou cremá-los, como agora começa a ser uso, também entre nós (quem de nós teria coragem de sepultar ou cremar um ente querido?!). A única coisa que podemos e devemos fazer, com cremação ou não, é o funeral do cadáver ou restos mortais de alguém que, por pura graça de Deus, passou (Páscoa!) à definitiva condição de ressuscitado ou de vivente, no mesmo instante em que morreu. E que, ao contrário do que, ainda hoje, insistem em dizer/ensinar todas as Igrejas cristãs e as Religiões em geral, é uma graça ou intervenção que Deus sempre faz acontecer no momento da morte de todas as suas filhas e de todos os seus filhos, mesmo daquelas e daqueles que nós, nos nossos estúpidos e redutores critérios moralistas/farisaicos, ainda persistimos em rotular de pecadoras e de pecadores e, consequentemente, até achamos muito bem que, como castigo, possam ficar mortos para sempre, ou então que Deus os ressuscite, sim, mas para de imediato os condenar ao inferno eterno!...

(A verdade – e esta é sem dúvida a mais espantosa Boa Notícia, ou o mais espantoso Evangelho que Jesus de Nazaré nos anunciou/comunicou e por causa do qual foi crucificado – é que Deus não só não condena ninguém ao inferno, muito menos, ao inferno eterno. Deus, do que é capaz, e só Ele é capaz, é de nos salvar a todas e a todos. A começar, precisamente, por aqueles e aquelas que as Igrejas e as Religiões em geral têm como mais perdidos. E, se alguma coisa Deus condena à destruição/morte total, nunca é um filho seu, uma filha sua, apenas todos esses Sistemas perversos que, na nossa ignorância e demência, criamos e mantemos, e com os quais desfiguramos e fazemos perder, neste mundo, muitos irmãos nossos e muitas irmãs nossas que Ele, Deus de vivos e não de mortos, felizmente, sempre recriará/salvará, se não for antes, no decisivo instante da morte/ressurreição de cada um de nós/de cada uma de nós)

Em vez de me associar ao funeral católico do teu cadáver, presidido, como é habitual, pelo respectivo pároco, no caso, o pároco de Macieira da Lixa, a freguesia onde sempre viveste como mulher casada, primeiro, e viúva, depois (ainda não percebi porque é que há-de ser o pároco católico a presidir aos funerais, e não hão-de ser as amigas/os amigos e os familiares da pessoa que morre/ressuscita a protagonizarem esse evento e a darem público testemunho do que representou para a Humanidade a vida histórica dessa pessoa), preferi deslocar-me, discretamente, da parte da manhã desse mesmo dia 30 de Janeiro de 2002, à casa que foi tua. E que, quando aí fui o vosso pároco, nos opressivos anos do fascismo e da Pide/DGS, tu e os teus tivestes a audácia – e que audácia! – de abrir e de pôr à disposição de quantas e de quantos constituíam convosco o Lugar de Crestins, para que, dentro dela, pudesse acontecer a Igreja-comunidade-cristã-de-base que, já então, e na esteira do Concílio Vaticano II, eu procurava que viesse a substituir o feudal modelo paroquial de Igreja.

Sabia que encontraria aí o teu cadáver. E, sobretudo, que encontraria aí algumas das tuas filhas e outros familiares teus, juntamente com alguns vizinhos e vizinhas, que sempre se chegam em momentos destes. E assim aconteceu. Sabia também que te encontraria aí, já ressuscitada, por isso, intensa e activamente presente, não para nos assustares como se foras um fantasma, mas para nos animares, confortares e ergueres, a fim de rapidamente passarmos (= páscoa!) do luto e da dor, das lágrimas e do desconforto em que o acontecimento morte sempre nos deixa, para o "terceiro dia", isto é, aquele momento em que os olhos da nossa consciência, finalmente, se abrem e começamos a ver o invisível, no caso, começamos a ver-te mulher-connosco-e-entre-nós, do mesmo jeito que Deus é Deus-connosco-e-entre-nós.

Pelo caminho, estacionei a carrinha do Jornal Fraternizar em que habitualmente me desloco, junto duma conhecida padaria nas proximidades de Paredes, e adquiri um pão grande, mais conhecido por "regueifa", que levei comigo para fazer dele e com ele sacramento eucarístico não ritualizado, junto do teu cadáver. Na altura, ainda não sabia bem o que em concreto iria fazer, mas confiei no Espírito Santo que sempre ilumina e guia a quantas e quantos, como eu, indigno presbítero da Igreja, recusamos o papel de funcionários da religião e nos abrimos ao Novo que Ele faz acontecer de modo surpreendente e, porventura, chocante, provocador, subversivo, mas também sempre incrivelmente fecundo.

Prossegui viagem, sempre acompanhado por ti, já ressuscitada, e nesta comunhão contigo e com o Deus que te ressuscitou e fez de ti definitivamente sua filha incorruptível, a viver para sempre dentro dEle (com a morte que te aconteceu, quase de repente, já os anos te pesavam, passaste da condição de mulher-que-vivia-com-Deus-dentro, à condição de mulher-que-vive-para-sempre-dentro-de-Deus, tal como sucede ao rio que, no fim da sua marcha, desagua na imensidão do mar!), passei progressivamente a perceber quais os passos seguintes que iria protagonizar naquela que havia sido a tua casa e que agora era, por algumas horas, apenas a depositária do teu cadáver.

À chegada, não me dirigi logo para junto do teu cadáver. Procurei de imediato as tuas filhas e restantes familiares e vizinhas e vizinhos presentes. Abracei e beijei cada uma e cada um. Um abraço com o meu corpo todo. Bem apertado. Sem tabus. Próprio de quem ama. E, por isso, próprio de quem quis partilhar/receber vida e esperança. E alegria. Sobretudo, próprio de quem quis ajudar a despertar/ressuscitar as nossas consciências, de algum modo, feridas de morte com o facto da tua morte. Demorei-me mais no abraço a cada uma das tuas filhas, compreensivelmente abatidas, naquela hora. Para que em todos nós se abrissem, quanto antes, os olhos da consciência, os únicos que conseguem ver o invisível e que, infelizmente, na maior parte das pessoas, se mantêm sempre fechados até ao momento em que morremos/ressuscitamos.

Convidei depois as pessoas a acompanhar-me até junto do teu cadáver. Para aí fazermos o que o Espírito Santo quisesse. Todas deixaram o espaço em que as encontrei e vieram comigo. Foi um pequeno Êxodo que realizaram. Mas decisivo. Saíram da escuridão do luto e da morte, em que se encontravam e ficaram de pé, comigo, junto do teu cadáver. Disponíveis para escutarmos/acolhermos o Evangelho ou Boa Notícia que o Espírito haveria de fazer acontecer.

O que os nossos olhos contemplam – comecei por lhes dizer, em tom de intimidade e de confidência – já não é mais a Aninhas Fernandes. É apenas o seu cadáver. A Aninhas já é para sempre corpo ressuscitado, por isso, invisível aos nossos olhos. E é como ressuscitada que ela também está aqui connosco. À espera que demos por ela. E logo troquemos o luto pela festa.

Mostrei-lhes, depois, o Pão que havia levado comigo e que, até esse momento, mantive escondido dentro do saco de papel em que o transportei. E disse-lhes: Trouxe comigo este Pão grande. Não trouxe flores. Trouxe este Pão que adquiri numa padaria, pelo caminho, já a pensar neste momento. Vamos parti-lo e comê-lo, aqui, junto do cadáver da Aninhas, depois de escutarmos um trecho do Evangelho de Mateus, o evangelista que, durante o presente ano litúrgico, a nossa Igreja mais escuta.

Li, então, a primeira parte do capítulo V, mais conhecido por "Sermão do Monte", onde se proclama: Felizes aquelas e aqueles que escolhem ser pobres, porque têm a Deus por rei. São perseguidos, ostracizados, caluniados, por não fazerem parte do Sistema, mas a verdade é que são vidas como as suas que andam carregadas de futuro e continuam a dar sentido ao hoje e aqui do nosso mundo.

Disse-lhes, depois, que tu, minha querida Amiga, Aninhas Fernandes, foi também assim que foste e viveste. Sempre tiveste a audácia de ser mulher-para-os-demais, viva presença de paz, corpo solidário, por isso, bem nos antípodas, por exemplo, do presidente Bush, dos EUA que, no mesmo dia da tua morte/ressurreição, proferiu um discurso, urbi et orbi, sobre o estado da União, e que mais pareceu uma declaração de guerra norte-americana contra o resto do mundo,o que faz dele o rosto mais mediático do Sistema que é assassino e genocida, mentiroso e pai de mentira, gerador, por isso, de morte, de opressão e de medo.

Peguei no Pão. Parti-o e disse: Convido-vos a comer deste Pão Partido em memória de Jesus, o Cristo Crucificado/Ressuscitado. Como todo o viver de Jesus, do qual é o sacramento maior, este é o Pão da Vida, contra a morte. Vamos comer dele para nos erguermos ressuscitados desta morte, de modo que a Vida possa continuar a contar connosco, pois são ainda muitos os combates que nos esperam. Até que o mundo seja um mundo com Deus por rei. Tomai e comei. Enxugai as lágrimas. Deixai o luto. E, para começar, acolhei com alegria quem, hoje à tarde, vier participar no funeral do cadáver da Aninhas Fernandes. Dizei-lhes que ela já ressuscitou e que aqui já só se encontra o seu cadáver, que, naturalmente, ireis sepultar no cemitério da freguesia.

Assim se fez. Todas e todos comemos daquele Pão Partido, ali mesmo ao lado do teu cadáver. E ficámos com forças para cantar um cântico que também tu ouviste cantar, numa remota Páscoa da década de setenta, quando, pela primeira vez, na paróquia de Macieira da Lixa, o tradicional Compasso foi substituído por um convívio/lanche partilhado, junto da igreja local. Quem já não se recordava da letra, cantou com o coração. "Ter um amigo é bom / vê-lo partir faz sofrer", começámos por proclamar. Mas, a concluir, já proclamávamos bem alto: "Voltou a mim a saudade / foi-se embora o meu amigo / mas eu passei a ter asas / só por o ter conhecido".

Sorrimos uns para os outros. Contigo, ressuscitada, para sempre entre nós. E, antes de me afastar, para regressar à casa da Associação Padre Maximino, onde resido, em S. Pedro da Cova, ainda tive tempo para te agradecer, diante de todas e de todos, por teres sido para mim, à tua maneira, um pouco minha "mãe na Fé", isto é, alguém que me ajudou e ajuda a ser fiel ao Evangelho da libertação para a liberdade. Por isso, bendita sejas, minha querida Amiga, Aninhas Fernandes. Para sempre!

Padre Mário.


Aborto: Deixem-se de hipocrisias, mudem a lei!...

Primeiro, foi o Julgamento das 17 mulheres da Maia. Agora, são ameaças de novos julgamentos, em outras zonas do país. Os tribunais têm-se mostrado mais ou menos brandos nas sentenças que pronunciam, mas a verdade é que as mulheres que têm o azar de serem acusadas de prática de aborto vêem de imediato as suas vidas vergonhosamente devassadas por estranhos, e quase todos homens. Para não falar já da tortura psicológica a que elas são sujeitas. Só mesmo uma sociedade retrogodamente machista é capaz de "proezas" destas, que nos envergonham a todos.

Jornal Fraternizar esteve e está, desde a primeira hora, solidário com as mulheres que um dia se viram obrigadas a ter de recorrer ao aborto clandestino e que tiveram, depois, o azar de ser apanhadas nas malhas da Lei. Nunca as condenaremos. O que sempre condenaremos é a actual lei portuguesa, que leva representantes de instituições do Estado a condenar tais mulheres a verdadeiros calvários sem remissão.

À sociedade em geral e aos senhores deputados em especial, reclamamos/exigimos que ponham fim a este pesadelo e a esta vergonha. Os senhores deputados são os principais responsáveis, uma vez que têm a faca e o queijo na mão. Inclusive, já tiveram a lei de despenalização do aborto aprovada e deixaram que uns dois ou três senhores mais papistas do que o papa, fizessem orelhas moucas e exigissem que a lei acabada de aprovar - legitimamente, diga-se - fosse submetida a referendo. O facto teve foros de escândalo, mas foi por diante, sem que os deputados se importassem por aí além. O referendo lá aconteceu, mas a maioria da população nem sequer se deu ao trabalho de ir votar, o que fez com que o resultado obtido não tivesse força de lei. O processo deveria ter regressado ao princípio e a lei anteriormente aprovada pelo Parlamento deveria ter sido, finalmente, publicada, para entrar de imediato em vigor. Nada disto aconteceu. Todos meteram o rabo entre as pernas, como cães assustados. E o resultado aí está bem à vista, para nossa vergonha.

Agora, para cúmulo, todos dizem que as mulheres não devem ser condenadas por abortarem, mas a verdade é que não têm a coragem de fazer publicar a lei que foi aprovada pelo Parlamento. E na sua hipocrisia, alguns voltam a falar em referendo. Enquanto outros nem sequer podem ouvir falar em tal. O que faz crer que as mulheres portuguesas, ao contrário das suas companheiras da União Europeia, continuarão sujeitas à ignomínia dos tribunais. Senhores deputados, assumam-se! Publiquem a lei que um dia aprovaram. Sejam cidadãos de corpo inteiro!


4.º Encontro de Leitoras e Leitores do Jornal Fraternizar

O Grupo promotor do 4.º Encontro de Leitoras e de Leitores do Jornal Fraternizar marcou o último domingo deste mês de Abril, dia 28, de 2002, para esse fim. E sugere para debate, um tema manifestamente actual e polémico: "Contra as religiões / Pela Espiritualidade". O Encontro decorre a partir das 9h30, na sede da Associação Padre Maximino, em S. Pedro da Cova Gondomar.

O almoço/Eucaristia resultará da Partilha dos alimentos que cada uma/cada um previamente confeccionar e trouxer.

De igual modo, o debate do tema proposto ficará a cargo de todas e de todos nós.

Preparem-se bem e sejam sucintos, alegres, entusiastas. Apareçam em força! É bom partilhar!

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