Textos do
Jornal Fraternizar-

Edição nº 144, de Janeiro/Março 2002 (Continuação)

Documento

por José Mª Castillo

O regresso dos fariseus

O «documento» que se segue foi elaborado pelo Jornal Fraternizar, a partir do livro Dios y nuestra felicidad, do eminente teólogo ibérico, José Mª Castillo, editado, estes dias, pela Desclée de Brouwer, de Espanha (ver recensão crítica, nesta mesma edição, p. 29). É por isso um texto da nossa exclusiva responsabilidade. Se adquirirem e lerem o livro - o que vivamente se recomenda - verificarão que se trata apenas de um extracto do oportuníssimo capítulo, «Matar o fariseu» e, mesmo assim, há partes do original que aqui não aparecem, para não tornar demasiado extenso o "documento". Que fique bem claro: a leitura deste extracto não dispensa a leitura integral do capítulo e do livro. Pelo contrário, depois de o lerem, corram a adquirir/ler o livro!

Uma das coisas que mais chamam a atenção na vida e no comportamento de Jesus é o seu reiterado conflito com os fariseus. Isto é de admirar, não só porque os fariseus eram um grupo de homens profundamente religiosos e observantes, mas também porque, a fazer fé em quem redigiu os evangelhos, Jesus não enfrentou com a mesma determinação outros grupos e autoridades do seu tempo, quando, em coerência com os seus próprios princípios, era de esperar que o tivesse feito.

Neste último aspecto, o que mais impressiona, ainda hoje, é o comportamento que Jesus manteve com os romanos. Como sabemos, a pátria de Jesus estava invadida e dominada pela grande potência estrangeira de então, o império romano.

O poder de Roma exercia-se na capital, Jerusalém, e na província mais rica, a Judeia. Também na Samaria. Na Galileia, mandava o rei Herodes que era igualmente vassalo de Roma, mas gozava duma certa liberdade no governo. Em todo o caso quem detinha o poder supremo em Jerusalém era o procurador romano, que, ao mesmo tempo, possuía a responsabilidade sobre as questões militares, judiciais e financeiras, ou seja, a cobrança dos impostos. Isto quer dizer que o povo judeu, naquele tempo, estava sujeito ao poder de Roma. Embora seja bom não esquecer que o exercício da justiça regia-se pela lei judaica, que era administrada pelo Sinédrio composto pelos Sumos Sacerdotes, os anciãos e os doutores da lei ou escribas. Em todo o caso, os romanos é que cobravam e levavam os impostos. Era também a polícia romana que impunha a ordem. Como condenar alguém à morte e executar a sentença era direito exclusivo do procurador romano.

Com as coisas neste pé, é estranho que os evangelhos não aludam a conflitos ou enfrentamentos da parte de Jesus com os romanos, que eram os invasores, os exploradores e, portanto, os que provocariam mais ódios e resistências entre o povo.

É verdade que o Evangelho de Lucas (23, 2) diz que, no processo diante do procurador Pilatos, as autoridades judaicas denunciaram Jesus com esta acusação: "Encontramos este homem a sublevar o povo, a impedir que se pagasse tributo a César e a dizer-se ele próprio o Messias-Rei."

Porém, segundo parece, esta denúncia não passa duma criação literária de Lucas. Embora seja hoje indiscutível que Jesus foi condenado à morte por «sedicioso», o problema está em saber porque é que todos os que detinham autoridade na sociedade de então viram em Jesus um inimigo que, segundo eles, não podia continuar em liberdade.

A resposta a este problema é clara. Não mataram Jesus, porque ele se meteu com o poder político de Roma, como tal. Mataram-no porque, como diz o Apocalipse (1, 3), Jesus foi a "testemunha fiel" do projecto original de Deus, aquele que foi capaz de realizar na terra o reino/reinado de Deus.

Isto pressupunha, naturalmente, pôr-se do lado do povo e não do lado dos poderes que oprimiam o povo. Mas, insisto, nos evangelhos não há indícios de que Jesus tenha alguma vez enfrentado a polícia romana, nem o procurador Pilatos, menos ainda o imperador de Roma.

Mas não acaba aqui o que de invulgar tem o comportamento de Jesus. É sabido que um dos grupos com quem Jesus manteve uma amizade mais estreita, foi precisamente o grupo dos publicanos, que eram os que cobravam os impostos para os romanos. Ou seja, Jesus fez-se amigo dos colaboracionistas com o poder estrangeiro, o poder invasor e opressor do povo.

Por isso, como é natural, havia pessoas que se escandalizavam com as boas relações que Jesus mantinha com aqueles cobradores de impostos (Mc 2, 16; Lc 15, 1-2), os quais seriam considerados como traidores e que cometiam manifestas injustiças, cobrando mais do que era devido. E que viviam – e enriqueciam – com o que cobravam a mais ao povo empobrecido. Isto explica a oposição irreconciliável entre os fariseus e os publicanos.

Outra coisa difícil de entender no comportamento de Jesus, foi a sua relação com os saduceus. Os saduceus formavam um dos dois grupos (o outro grupo era precisamente o dos fariseus) ideológicos e religiosos mais importantes de então.

Do ponto de vista social, os saduceus eram pessoas de classe alta, de maneira que se confundiam com a nobreza sacerdotal e, portanto, constituíam um colectivo de pessoas privilegiadas. Em matéria de religião, eram muito mais liberais que os fariseus. E não acreditavam na ressurreição. Relativamente aos romanos, eram tolerantes e procuravam evitar os conflitos. Há quem os equipare aos epicúreos. Eram pessoas de dinheiro, de boa posição social e de manga larga, no que respeita a problemas de observância religiosa.

O escasso interesse dos evangelhos pelos saduceus, sobretudo, se comparado com a insistência dos mesmos evangelhos no que respeita aos fariseus, levanta algumas perguntas a que é necessário responder.

Por exemplo, será que Jesus não se preocupava por aí além com o tremendo problema político da ocupação estrangeira que o povo judeu sofria? Será que a existência e a doutrina de um partido como o dos saduceus não eram suficientes para tirar o sono a Jesus, quando eram eles os ricos, os melhor situados na sociedade e os que ensinavam uma religião mais tolerante, portanto, menos exigente?

A primeira coisa a responder, é recordar que a razão formal da sentença que levou Jesus à morte, foi uma razão política, como consta do letreiro que encimou a cruz (Jo 19, 19-22). Os acusadores apresentaram Jesus, diante de Pilatos, como um revolucionário político que, com a sua pretensão de realeza messiânica, punha em perigo a autoridade e a legitimidade do governo romano. Portanto, não há dúvida de que Jesus foi considerado um sujeito perigoso para os que ocupavam o poder político.

Quanto ao poder económico, sabemos que Jesus afirmou que é impossível que os ricos entrem no Reino de Deus (Mt 19, 23-24). Disse também, em tom de denúncia e de acusação, que os ricos têm fundadas e sérias razões para não participarem no banquete do Reino (Mt 22, 5; Lc 14, 20). E que o maior perigo deles é o pecado de omissão, já que a «boa vida» que levam os cega, ao ponto de o rico não ser sensível nem mesmo a um dos mortos que viesse do outro mundo avisá-lo do perigo em que vive (Lc 16, 30-31).

Mais ainda. Segundo Jesus, os ricos vivem numa falsa segurança (Lc 12, 3-21). E o que é mais grave, no critério de Jesus, é que os ricos não devem sequer ser convidados a sentar-se à nossa mesa (Lc 14, 2), isto é, nada de compartilhar a vida ou de solidarizar-se com esse tipo de pessoas. Porque, em última instância, os ricos, precisamente, devido à abundância de bens em que vivem, estão em permanente conflito com Deus (Mt 6, 24).

Não esqueçamos que o «rico» no tempo de Jesus não era o equivalente a «pessoa aburguesada» do nosso tempo. Na sociedade de então praticamente não havia classe média. Falar de «ricos», era falar de pessoas que acumulavam fortunas incríveis, até ao extremo de que havia quem não soubesse o número de cidades que possuía ou a quantidade de escravos às suas ordens. Compreende-se, por isso, a extrema dureza que Jesus utilizou nas suas denúncias contra pessoas que viviam assim. A mesma dureza e as mesmas denúncias que, hoje, haveria que empregar contra os cada vez menos privilegiados que acumulam cada vez mais capital.

Como se pode, pois, explicar que Jesus não denunciasse com mais veemência os saduceus, que eram ricos, os amigos dos ricos e os que legitimavam os grupos mais poderosos (sumos sacerdotes e anciãos) do ponto de vista económico e social?

É ainda mais difícil responder a isto, se tivermos em conta que, segundo os relatos dos evangelhos, os enfrentamentos mais frequentes e mais violentos de Jesus foram contra os fariseus.

Ora, nós sabemos que os fariseus eram homens próximos das pessoas simples e que, duma maneira geral, eram pequenos plebeus e pessoas do povo sem formação de escribas, isto é, nem económica nem culturalmente eram pessoas relevantes.

Além disso, parece que a influência religiosa que os fariseus tinham entre o povo era bastante escassa. Nem dominavam nas sinagogas, nem tão pouco tinham influência nas escolas e nos tribunais. O que acentua a impressão de que eram homens do povo, sem outros títulos e credenciais, para lá da sua reconhecida observância religiosa e da respeitabilidade que tudo isso lhes garantia.

É por tudo isto que, pelo menos à primeira vista, se pode falar de um «estranho» comportamento de Jesus. Na verdade, como se explica que Jesus se pusesse do lado dos pobres e denunciasse os ricos, porém, de tal maneira que, ao mesmo tempo, não presta especial atenção àqueles que «religiosamente» legitimavam os ricos, enquanto não hesitou em enfrentar com todo o vigor os fariseus que estavam «religiosamente» mais perto dos pobres e não passavam de simples homens do povo?

Uma coisa é hoje indiscutível: Entre Jesus e os fariseus houve um enfrentamento, basicamente, por duas ordens de razões: Aos fariseus devia parecer especialmente escandaloso o comportamento de Jesus que se caracterizava pelo desprezo dos preceitos da pureza ritual e do pagamento dos impostos religiosos (o dízimo). Como era também intolerável para os fariseus a amizade de Jesus com publicanos e pecadores (Mc 2, 15). Pelo menos, por estes dois motivos, Jesus e os fariseus tiveram de se chocar frontalmente.

Tudo isto vem dizer concretamente que Jesus teve nítida consciência de que, nesta vida, há algo ainda mais perigoso do que o dinheiro e do que a ambição pelo dinheiro. Como também há algo que é ainda mais perigoso do que as ambições políticas e inclusive do que a própria dominação política. O dinheiro e o poder são elementos que, em si mesmos, contêm um enorme perigo para os seres humanos. Porque a ambição de acumular dinheiro e poder é causadora de indizíveis sofrimentos e atropelos aos seres mais indefesos e mais inocentes. Toda a gente sabe que é assim.

Mas ainda assim os dados que ninguém discute acerca da relação de Jesus com os fariseus levam-nos a concluir que aquele judeu singular, que foi Jesus de Nazaré, viu com toda a clareza que, na condição humana, existe um determinante último de todas as ambições e de todos os sofrimentos que nós, homens e mulheres, nos causamos uns aos outros. E parece que, por causa desse «determinante último» de todas as nossas ambições é que Jesus enfrentou com tanta dureza os fariseus. Que «determinante último» é este?

Já disse que no comportamento de Jesus, houve duas coisas que irritaram e escandalizaram os fariseus: a sua liberdade em relação a tudo o que tinha a ver com as observâncias rituais e com o pagamento do dízimo religioso; e também a sua liberdade no trato e na convivência com pessoas de má fama. Isto quer dizer, antes de mais, que o conflito de Jesus com os fariseus teve na sua origem um motivo religioso. Porque era a religião que impunha as normas rituais e os impostos ao povo. Como era a religião que proibia o trato amistoso e solidário com as pessoas de mau porte.

Naturalmente, isto significa que a religião sobrepunha-se à pessoa e impunha-se a cada ser humano de maneira que lhe complicava a vida de muitas formas, ao ponto de torná-la insuportável. Primeiro, porque fazia a pessoa sentir-se culpada por coisas que, hoje, nos parecem totalmente tontas. Segundo, porque socialmente dividia as pessoas em boas e más, de modo que com os «bons» podia-se tratar e conviver, enquanto que com os «maus» devia-se desprezá-los, ou, pelo menos, afastar-se deles.

Ora bem, uma religião que produz estes efeitos, converte a vida num inferno. Porque faz com que as pessoas se sintam mal, quase sempre, por coisas sem importância. E sobretudo, porque envenena a convivência dumas pessoas com as outras, criando divisões, suspeitas, situações violentas, etc. E tudo isso, com um refinamento de hipocrisia que indigna o mais pacífico. Porque, como é lógico, o fariseu nunca dirá nem reconhecerá que maltrata os outros. O fariseu não se cansa de repetir que só quer o bem dos outros.

Por isso não tolera que os outros andem com «más companhias». Nem suporta que deixem de cumprir com as suas sagradas obrigações religiosas. Daí que o fariseu é um «espia de Deus», que te persegue, te julga, te censura, te condena e te denuncia às autoridades competentes. Não se importa nada de passar por denunciante. Mais, cumpre esse «ofício» de denunciante com a convicção de que presta um indispensável serviço à causa de Deus!

Tudo isto é desagradável e causa sofrimento a muitas pessoas. Mas o pior nem é isto. O mais perigoso é que, quando uma pessoa antepõe um «princípio absoluto» (a religião é um desses casos) à vida e à felicidade do ser humano, essa pessoa é capaz de cometer as maiores atrocidades sem qualquer remorso, inclusive, com a convicção de que é isso o que ela tem que fazer. Nisto consiste o enorme perigo que anda dentro do «homem fariseu». Daí a necessidade urgente que todos temos de matar esse «fariseu» que trazemos dentro de nós.

A esta luz, já se compreende que Jesus tinha toda a razão do mundo quando viu claramente que o maior perigo para a humanidade não são os opressores, sem mais, mas os fariseus. Porque os fariseus são não só opressores, mas também indivíduos que fazem sofrer a muitas e muitos, na convicção «religiosa» de que é isso que têm que fazer. Mais ainda. O fariseu oprime onde nenhum opressor deste mundo pode oprimir. Por isso, os evangelhos insistem muito mais no braço de ferro que Jesus manteve com os fariseus do que nas suas possíveis quezílias com os romanos ou com os próprios saduceus.

Na verdade, se todas as pessoas pensarmos bem, logo concluiremos que os poderes deste mundo são perigosos (quem ainda tem dúvidas?). Porém, são muito mais perigosos os poderes do outro mundo, isto é, os poderes que se apresentam como absolutos e intocáveis, independentemente do sujeito concreto que os exerce ser ou não «religioso». Enquanto se sofre com a consciência de que se faz o que se deve fazer, o sofrimento tem, pelo menos, algum sentido. E desse sentido (que pode ter o sofrimento) tiram-se forças para o suportar. O pior que pode ocorrer a alguém é ter que sofrer sem ver qualquer sentido no sofrimento. E, pior ainda, ter que sofrer com o sentimento insuportável que é a culpa, ao ver-se como o responsável do que lhe acontece. Exactamente, é isso que o fariseu consegue junto daquelas pessoas que não têm mais remédio senão conviver com ele.

Este tipo de situações e de indivíduos, como é lógico, costuma ser bastante frequente em ambientes religiosos, entre pessoas que aparecem como insuspeitas e até são admiradas pela sua suposta santidade ou exemplaridade. De certeza, que muitas pessoas não imaginam quanta humilhação e dor se vive nos círculos mais piedosos, lá onde muitos pensam que ninguém «faz mal a uma mosca».

Depois do que fica dito, compreende-se sem dificuldade que toda a vida houve fariseus. E houve sempre fariseus em toda a parte, entre cristãos e não cristãos, entre crentes e não crentes. Mas hoje os fariseus – ninguém os chama mais por esse nome - voltam a estar na moda. Pode-se por isso falar com toda a propriedade do «regresso dos fariseus».

Explico-me. Os anos 60 e 70 do século XX foram anos de impaciência e de consciente urgência de mudar as coisas na sociedade e na Igreja. Foram os tempos das revoltas sociais, dos movimentos contraculturais e duma «geração revolucionária», cuja convicção mais forte, tal como se disse em Maio de 68, era que a revolução é finalmente possível.

Eram os anos de João XXIII e do concílio Vaticano II, de Medellín e da teologia da libertação, dos protestos de Martin Luther King, das convulsões sociais e políticas em África, do nascimento das comunidades eclesiais de base, dos milhares de mártires que deram a sua vida na América Latina, porque acreditavam que se pode construir uma sociedade diferente e um futuro com mais esperança. Naturalmente, em toda aquela agitação havia um substracto de base: a idealização da esquerda radical e também uma injustificada fé nos êxitos dos regimes que assumiram à letra o projecto de semelhante esquerda.

Porém depressa, relativamente depressa, iniciou-se a marcha para «a grande desilusão» E em 1983, G. Lipovetsky publicou o seu livro A era do vazio que descreve precisamente o tempo em que vivemos, marcado pelo desinteresse para com as grandes questões políticas, os problemas de fundo da sociedade, o culto narcisista do Ego, o reino da imagem e da sedução, que configuram a nossa sensibilidade de maneira que o mais determinante, hoje, é o que dá segurança e satisfaz, por mais que as nossas ideias não façam problema, no momento de flirtear com o sofrimento dos povos oprimidos do Terceiro Mundo. Nasceu a pós-modernidade. E com ela o neoconservadorismo. O que mexeu com a nossa cultura, até às raízes. E uma das suas manifestações mais claras foi a «revitalização da religião ao serviço do sistema», isto é, o regresso às virtudes mais nitidamente conservadoras, para que o sistema em que vivemos satisfeitos não corra perigo.

A consequência de tudo isto foi o ressurgir dos fariseus. A história repete-se. Ao fracasso dos profetas, que tiveram o seu melhor momento nos apaixonantes e discutidos anos sessenta e setenta, sucedeu o apogeu dos fariseus. Hoje, quem está em cena são os observantes, os intocáveis e, certamente, os que dizem mal dos profetas, apontados como fracassados e acusados de ter substituído a boa notícia da libertação definitiva, que teve lugar em Cristo, por outras «boas notícias» que só os que se tinham na conta de libertadores dos pobres conseguiram idealizar.

Por tudo isto, nada tem de especial que o centro das preocupações de muitos homens de Igreja volte a ser o pecado individual, analisado até às suas últimas raízes e desligado das suas estruturas mais profundas. Isso é importante. Porém, a verdade é que para muitos homens religiosos de hoje, como para os fariseus do tempo de Jesus, o centro da nossa atenção e da nossa acção já não é o sofrimento humano, por mais que ele, nestes nossos dias, se multiplique, na sua escalada irracional. Regressamos ao tipo de teologia que interessa ao sistema dominante. E ao tipo de Igreja que é cúmplice com os interesses do sistema que se nos impôs. Uma Igreja que pela boca dos seus mais altos responsáveis fala de justiça e de solidariedade, mas que, ao mesmo tempo, põe em cada diocese bispos que não criem problemas ao sistema, uma Igreja que controla teólogos que tentam recuperar os ideais proféticos e utópicos, que apoia e favorece os movimentos mais conservadores e que se cala diante dos escândalos de corrupção política e económica, de que todos os dias nos falam os meios de comunicação social.

Mas será que fracassaram os profetas? Fazer esta pergunta é o mesmo que perguntar: - Jesus de Nazaré fracassou? Todos sabemos que a vida de Jesus terminou, efectivamente, no fracasso total. Abandonado pelo seu povo e pelos discípulos, e desamparado pelo próprio Deus (Mc 15, 34; Mt 27, 46), crucificado entre dois ladrões como o mais perigoso deles, para que serviu aquela sua vida e aquela sua ternura para com os pobres e os que sofrem? Em que mudou a vida daquelas pessoas que, poucos anos depois, acabaram esmagadas pelo Império?

Pouco, muito pouco se pode responder a tão molestas perguntas. E, no entanto, se hoje nos resta algo de esperança, não é certamente pelas refinadas análises das raízes do pecado, da justificação e da graça, que os teólogos de ontem e de hoje elaboraram até ao último detalhe. Tão pouco, os fariseus de ontem e de hoje oferecem muitas luzes de esperança, os quais não têm outra coisa que oferecer, a não ser o silêncio diante da dor do mundo, ou a submissão a tudo o que determinam aqueles que souberam reprimir as suas ânsias de poder.

Por isso, se hoje podemos apelar à esperança, é porque continua a haver mulheres e homens que não se resignam nem se calam diante do sofrimento que esmaga milhões de seres humanos. E estamos certos de que enquanto houver rebeldia diante da dor do mundo, haverá esperança. Não só de que este mundo pode melhorar, mas também de que, para lá da história, a vida vencerá a morte para sempre. Porque a morte de Jesus não foi a última palavra. A palavra definitiva é a VIDA.

Entretanto, convém não esquecer que, duma maneira ou doutra, todos levamos dentro de nós um fariseu. Os fariseus do tempo de Jesus consideravam-se a verdadeira comunidade de Israel, por força das suas aspirações de pureza legal e pela observância da Lei e esforçavam-se por se manter separados do resto do «povo da terra», isto é, separados de todos os que não partilhavam as suas aspirações.

Os indivíduos que pensavam e viviam assim tinham que ser pessoas que se veriam obrigadas a carregar duas cargas muito pesadas. Em primeiro lugar, a tensão constante de quem a todas as horas tem que estar a tentar cumprir os mil detalhes que, segundo o farisaísmo, era preciso observar, para agradar a Deus. Em segundo lugar, separar-se, distanciar-se o mais possível de todos os que não se ajustavam às suas normas e às suas ideias. Tudo isto eram cargas pesadas.

Mas tudo isto tinha a sua «recompensa»: os fariseus tinham-se na conta de serem os bons, os autênticos, os melhores. Embora, para aparecer tão bons e tão autênticos diante do povo, fosse necessário comportar-se como os hipócritas, dando esmola ao toque de trombeta (Mt 6, 2), rezando onde todo o povo os visse como as pessoas mais piedosas do mundo (Mt 6, 5), ou pondo cara de penitentes nos dias destinados ao jejum (Mt 6, 16).

Estas coisas, como é lógico, eram mais do que ridículas. Mas a verdade é que faziam com que o fariseu se «sentisse bem». E aqui está o perigo. Porque toda a gente quer sentir-se bem. Como toda a gente gosta que os outros nos vejam como pessoas respeitáveis, dignas de crédito e estima, exemplares a toda a prova. O desejo de avançar na vida de cara levantada é coisa que satisfaz qualquer pessoa. Além disso, a experiência ensina-nos que entre «pessoas religiosas» e de «boa família» tudo isto é muito frequente.

Porém, é claro, viver desta maneira exige um preço muito elevado. Porque se o ideal do fariseu se toma a sério, aos infelizes que assumirem semelhante ideal não lhes resta outra saída que não seja levarem uma «vida dupla»: diante dos outros, são pessoas exemplares e intocáveis que muitos admiram; mas por dentro, não passam de sepulcros cheios de podridão e de maldade (Mt 23, 23-28).

O cristianismo primitivo teve a firme convicção de que o enfrentamento mais violento que Jesus teve de suportar veio da banda de uns homens a quem a religião perverteu até ao extremo de que, sem se darem conta do que se passava com eles e até na convicção de que eram os perfeitos e os escolhidos de Deus, a verdade é que ficaram para sempre como o modelo da maldade mais refinada e da incapacidade mais radical para entender Jesus e o seu Evangelho. O que, no fundo, equivale a dizer que todos aqueles homens e todos os que hoje seguem pelo mesmo caminho são os inimigos mais directos do Deus da vida. E os agentes mais eficazes para tornar impossível a vida a quem tem a infelicidade de estar sob a sua influência.

Por isso, matar ou não matar o fariseu é questão de vida ou de morte para qualquer ser humano. O que equivale a dizer que quem queira alcançar uma razoável felicidade nesta vida, a primeira coisa que tem que fazer é matar o fariseu que leva dentro de si. Porque, enquanto o não matar, viverá obcecado com mil e uma coisas mais ou menos tontas, em lugar de concentrar toda a sua atenção e todos os seus esforços na única coisa necessária: ser feliz, para fazer felizes os outros, e lutar contra o sofrimento que produz tanta solidão e tanta desgraça.


IV Colóquio de Sociologia decorreu nos dias 13 e 14 de Novembro em Braga

O 3º milénio irá (re)descobrir Jesus

O terceiro milénio irá (re)descobrir Jesus e a sua via original espiritual, não religiosa, a qual, até agora, tem estado escondida aos olhos da Humanidade, inclusive, daquela parcela que tem dado corpo às chamadas Igrejas cristãs. As religiões prosseguirão ainda o seu caminho, paralelamente e em conflito com a via original de Jesus. Pelo que todo o esforço das discípulas e dos discípulos mais conscientes de Jesus há-de ser orientado, não para arrebanhar pessoas para alguma das Igrejas institucionais que estão aí transformadas em religiões, mas para desenterrar e resgatar Jesus e a sua via original, da perversão em que até as Igrejas cristãs se converteram, e proclamar sobre os telhados Jesus e a sua via original. Para que a Humanidade, ainda hoje alienada na doença infantil que são todas as religiões, se liberte delas duma vez por todas e se reveja, finalmente, em Jesus de Nazaré e na sua via espiritual libertadora, consciencializadora, holística, a única que fará dos múltiplos povos do mundo irmãos universais, sem nunca os colonizar e sem tão pouco lhes impor que renunciem às suas próprias culturas.

Foi esta boa notícia que o pe. Mário proclamou, na tarde do dia 14 de Novembro, na Universidade do Minho, em Braga, no decorrer do IV Colóquio de Sociologia, em torno do tema geral, "Sociedade e Religiões". A intervenção do director do Jornal Fraternizar aconteceu durante a última das seis sessões que perfizeram o colóquio, e teve a acompanhá-la as igualmente esclarecidas e desassombradas intervenções do Padre António Fontes, pároco de Vilar de Perdizes, e do sociólogo doutor Carlos Silva, professor da Universidade do Minho e o principal promotor/organizador do Colóquio.

O pe. Mário começou por agradecer o convite da Universidade do Minho. Fê-lo em tom bem humorado. "Obrigado pela audácia em convidarem a participar este padre da Igreja católica, um padre maldito e saudavelmente dissidente, a quem os seus irmãos maiores de fé católica sistematicamente ignoram, têm como totalmente alienado (louco) e, por isso, nunca convidam para nada e só esperam que ele morra, para os deixar finalmente em paz com os seus negócios religiosos e as suas devoções mais ou menos beatas e tontas".

A intervenção que fez, logo a abrir o colóquio, foi escutada com invulgar atenção. Várias vezes foi interrompida com palmas de apoio e de entusiasmo, particularmente, dos jovens estudantes, raparigas e rapazes que frequentam a Universidade do Minho.

Já no período de debate, infelizmente, reduzido, devido ao adiantado da hora, nenhuma voz se ergueu contra a exposição inicial do pe. Mário, apesar do tom radical com que ele a teceu (ver ideias-força, na página ao lado). Talvez porque o tom radical da exposição não é dele, mas do Evangelho que ele procura anunciar, sempre que lhe dão oportunidade. Há surpresa, manifesta surpresa, mas há também abertura e experiência libertadora. Dois inequívocos sinais de que a mensagem anunciada é Evangelho ou Boa Notícia de Deus.

Um dos mais estimulantes comentários à comunicação inicial do pe. Mário, ouvidos já durante o período do debate, veio de um dos presentes na mesa, precisamente, o professor Carlos Silva. Disse ele que se a generalidade dos padres católicos fosse como o padre Mário, talvez ele próprio se viesse a converter à Igreja.

O pe. Mário voltou a surpreender e a ser entusiasticamente aplaudido, quando reagiu assim: Meu caro Carlos Silva, com frontalidade lhe digo: Por nada deste mundo, corra a fazer-se católico. A conversão que indivíduos e povos temos que fazer, não é à Igreja católica ou a uma outra Igreja cristã qualquer. A conversão que indivíduos e povos temos que fazer é a Jesus de Nazaré, o Cristo. Só depois de sermos mulheres e homens do mesmo jeito de Jesus é que descobriremos o valor da comunhão, da comunidade, da koinonia, da Igreja de iguais fraterna/sororal. Quem começa por se converter a uma Igreja, dificilmente chega a Jesus de Nazaré o Cristo. Geralmente, acaba por tornar-se um beato mais, um devoto mais, um santarrão mais, ou não fosse verdade que as Igrejas que hoje temos são estações de serviços religiosos, onde os clientes, mais elas do que eles e mais pessoas de idade do que jovens, vão aviar-se dos múltiplos actos de culto despersonalizantes e politicamente inócuos que lá se vendem a preços mais ou menos especulativos.

Seria já depois de concluído o colóquio que uma estudante que disse ser da paróquia das Antas, no Porto, procurou o pe. Mário, num dos corredores da Universidade, juntamente com um estudante da mesma idade. Ela, escuteira católica na paróquia, mostrou-se radiante com o Evangelho que havia escutado da boca do pe. Mário. Só não entendia por que é que ele, a pensar e a proceder assim, ainda se mantém como padre católico.

"Por mais estranho que possa parecer - confessou-lhe(s) o pe. Mário - a verdade é que eu protagonizo na minha carne um caso de amor com a Igreja católica. Um caso de amor que jamais conhecerá o divórcio. Foi com a Igreja católica que descobri Jesus de Nazaré, o seu projecto libertador do Reino/Reinado de Deus, e o Evangelho ou Boa Notícia que ele é para os pobres. Ela ordenou-me no ministério de presbítero, basicamente, para Evangelizar os pobres. É este ministério que procuro viver, também em proveito dela, para que toda ela acabe também por chegar à mesma descoberta e à mesma experiência libertadora. É por isso que eu não sou contra a Igreja. Mesmo quando a critico, ainda é o amor que me leva a criticá-la. Para que ela deixe de ser Igreja em estado de pecado e de alienação, e se torne Igreja em estado de graça e de verdade, sempre ao lado dos últimos da História, contra todos os sistemas que estão aí activos e a fabricar vítimas humanas aos milhões.

A jovem e o seu acompanhante «seguraram» o pe. Mário, por mais tempo, indiferentes ao adiantado da hora. Com o clima de confiança que se criou, ela foi ainda mais aberta e testemunhou todo o seu mal-estar e o mal-estar do grupo de escuteiros de que é membro na paróquia. Ao que disse, na paróquia ninguém evangeliza os pobres, ninguém anuncia o Evangelho. Tudo são rotinas, tradições, muita religião, muitos baptismos e casamentos cheios de pompa e circunstância, muitas missas por mortos, muitas confissões e comunhões. Mas vida comunitária, vida partilhada, aprofundamento da Palavra de Deus, não se vê nada. O que a deixa completamente às escuras e à deriva.

Ideias-força da intervenção do padre Mário

Todas as religiões são más

1. Todas as religiões são más, incluída a chamada religião católica.

2. Do Deus de Bush livra-nos, Senhor!

3. A Ordem Religiosa, Económica e Política Mundial que temos, está sempre com Deus na boca e gosta de lhe conceder o primeiro lugar. Mas que Deus?

4. O Deus das Religiões (do clero e demais líderes religiosos) e do Poder político (dos políticos) é Deus ou o Diabo? [Extracto de um diálogo teológico de cortar à faca, que o Evangelho de João (8, 38-44) fixou, e que tem como protagonistas Jesus de Nazaré e os fariseus:

Jesus: «Eu comunico o que vi junto do Pai, e vós fazeis o que ouvistes ao vosso pai».

Fariseus: «O nosso pai é Abraão».

Jesus: «Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão. Vós, porém, pretendeis matar-me a mim, um homem que vos comunicou a verdade que recebi de Deus. Isso não fez Abraão! Vós fazeis as obras do vosso pai».

Fariseus: «Nós não nascemos da prostituição (= idolatria). Temos um só pai, que é Deus».

Jesus: «Se Deus fosse vosso pai, ter-me-íeis amor, pois é de Deus que eu saí e vim (...). Vós tendes por pai o diabo e quereis realizar os desejos do vosso pai. Ele foi assassino desde o princípio e não esteve pela verdade, porque nele não há verdade (...) Ele é mentiroso e pai da mentira»].

5. Temos consciência de que a palavra «religião» (deisidaimonía, em grego) quer dizer «medo dos demónios/medo dos deuses»? É claro que os líderes das religiões preferem falar da «religião», a partir do latim religare, que quer dizer «ligar/religar/unir».

6. Quem inventou as Religiões? Seres humanos ilustrados e psiquicamente sadios? Ou seres humanos tolhidos pelo medo? E que dizer da clássica afirmação, com raízes cristãs: «O medo criou os deuses?»

7. Dizer «Deus» é dizer Religião, enquanto actos de culto nos templos? É dizer missas, primeiras comunhões, casamento pela igreja, procissões, ritos, procissões, promessas, senhoras de fátima, s.bento da porta aberta? Ou é dizer Política, enquanto arte de organizar a sociedade para acabar com o sofrimento das pessoas e dos povos e tornar efectiva a felicidade das pessoas e dos povos?

8. A Bíblia contém uma Revelação de Deus, em forma de boa notícia ou Evangelho, que ainda hoje é reprimida e ostracizada pelas hierarquias das diversas igrejas, a começar pela hierarquia da Igreja católica. É esta: O nome «Deus» anda sempre associado a «Política» (não confundir com «poder político» e políticos com sede de poder), nunca se apresenta associado a «Religião». Fixemos, por exemplo, esta afirmação central de Jesus de Nazaré, o Cristo: «Prefiro a misericórdia ao sacrifício» (Mateus 9, 13), o que traduzido em linguagem do século XXI ficará assim: «Do que eu gosto é de Política, não de Religião».

Escandalizo-vos? Por alguma coisa, Jesus de Nazaré não morreu de doença, nem velhinho. Foi assassinado por decisão dos chefes máximos da Religião, do Poder económico e do Poder político nacional e imperial (global).

9. Não precisamos de Religião. Apenas de Espiritualidade. E quanto mais cristã jesuânica ela for, melhor (não confundir com católica).

O 11 de Setembro de 2001 em debate na Universidade católica do Porto, dia 30 de Outubro, já com os bombardeamentos sobre o Afeganistão

Muitos doutores, nenhuma indignação

"O mundo ficou melhor depois do 11 de Setembro de 2001, ou não fosse verdade que Deus muitas vezes escreve direito por linhas tortas". Foram cerca de duas dezenas os convidados, cada qual o mais doutorado, a votar discurso – nem uma mulher para amostra integrou a longa lista! – na Jornada de reflexão e de debate sobre os ataques de 11 de Setembro, promovida no dia 30 de Outubro passado pela Universidade católica do Porto. Nenhum deles se lhes referiu com palavras tão oportunas e avisadas como estas do jornalista Carlos Magno que moderou um dos quatro debates da jornada.

O director-geral da NTV teve o cuidado de classificar aquela sua afirmação, como uma provocação. Mesmo assim, ninguém pegou nela. Resultado, a jornada de reflexão e debate, depois de muito blá-blá, acabou reduzida a uma mão cheia de nada.

A jornada serviu, pelo menos, para os muitos «doutores» (exactamente assim, todos doutores por extenso, à excepção dos quatro jornalistas que moderaram os debates e que o programa oficial apresentou como «dr.», sem mais letras), desde o doutor (padre) Arnaldo de Pinho e o doutor Mário Soares ao doutor Artur Santos Silva e o doutor Diogo Freitas do Amaral, se elogiarem uns aos outros, satisfazerem o seu ego e exibirem alguma erudição, com tanto de estéril como de vaidosa.

Os EUA que, à hora em que decorria a reflexão e o debate, prosseguiam os bárbaros e selváticos bombardeamentos ao Afeganistão, bem podem, por isso, continuar a matar, a roubar e a destruir à vontade as populações pé descalço daquele martirizado país, ou de outro semelhante, que nenhum dos presentes foi (é) capaz de os condenar, muito menos de chamar «assassino» ao presidente Bush, o campeão do terrorismo de Estado, na luta contra o que ele, com ares de laico e obscurantista papa infalível, classifica de «terrorismo internacional».

Em teoria, todos estes doutores portugueses serão contra a pena de morte, mas a verdade é que nenhum deles se mostrou abertamente contra esta pena de morte maciça, executada sob a forma de bombardeamentos diários, assinada e promulgada pelo sinistro presidente norte-americano.

Nem mesmo o doutor Mário Soares, o único que ali se permitiu denunciar o que considerou ser uma grave omissão do papa João Paulo II que, todos os domingos, aparece na Praça de S. Pedro em Roma, a rezar a Deus pela paz (como se a paz dependesse duma decisão de Deus!...), mas, entretanto, ainda não se atreveu, ele próprio, a exigir publicamente aos EUA que cessem os bombardeamentos contra o Afeganistão.

Forçado, na circunstância, pelo insigne jornalista Sena Santos, a clarificar se, com esse seu reparo ao papa, o próprio doutor Mário Soares condenava os bombardeamentos em curso, o antigo presidente da República apressou-se a defender a sua necessidade, pelo menos na presente fase da luta contra o "terrorismo internacional".

Embora se ouvissem algumas vozes críticas, da parte de professores doutores da própria Universidade católica do Porto, especialmente chamados a intervir nesta jornada de reflexão e de debate, a verdade é que nenhuma dessas vozes se traduziu em atitudes concretas, nem sequer num simples gesto simbólico que expressasse legítima indignação perante os bombardeamentos em curso.

Talvez porque o Afeganistão fica lá longe, muito longe da Europa, tem uma população empobrecida, analfabeta e tão politicamente incorrecta, que ousa – imagine-se o desplante! - resistir aos EUA e manter vivo e em segurança, no seu país, aquele que Bush classificou como o "inimigo público n.º 1 dos EUA", Osama bin Laden.

A jornada contou com a presença de muitos estudantes da própria Universidade católica, mas uma presença totalmente passiva, ou de simples apoio logístico.

Debate propriamente dito é que não houve, uma vez que ninguém pode falar em debate, quando os doutores intervenientes se limitam a votar discurso, sem que ninguém os interrompa do princípio ao fim, mesmo quando dizem disparates e tentam justificar o que, pelo menos aos olhos de quem recusa sentar-se à mesa dos privilégios desta perversa Ordem Mundial, é tido como intolerável. Tal foi, por exemplo, o caso do doutor Freitas do Amaral que, na sessão de encerramento, se apresentou confrangedoramente de cócoras diante da política assassina de Bush e a argumentar a favor da sua racionalidade.

Houve quem formulasse uma ou outra pergunta, no curto espaço de tempo destinado a perguntas, mas, mesmo assim, não se pode dizer que tenha havido debate.

Nunca há debate, quando, de um lado, está uma minoria que pensa saber e tem estatuto para ensinar e, do outro lado, está uma maioria que é suposto não saber e, por isso, só tem o direito de fazer perguntas, como quem procura aprender com os doutores. E foi também o que sucedeu aqui.

Jornal Fraternizar deu consigo, a dado passo, a interrogar-se sobre as vantagens de iniciativas deste género, em que a Universidade católica portuguesa ultimamente se tem distinguido, entre as demais.

É assim. Convidam-se os media, faz-se um grande barulho, movimentam-se personalidades, chamam-se uns quantos jornalistas com nome na praça – todos homens, nenhuma mulher (elas podem chorar diante de tanto sofrimento provocado pelas grandes potências e, com isso, afastar as pessoas do frio e racional debate para as encaminhar na direcção do escaldante campo das vítimas!...). Depois, metem-se todos num anfiteatro com uma seleccionada e bem asseada plateia disposta a ouvir e a aplaudir os discursos, sem que, entretanto, nem a Universidade nem algum dos intervenientes ouse mexer, sequer com um dedo, na situação que ali é objecto de reflexão e de debate.

Acabado o dia, acaba também a jornada de reflexão e de debate. Missão cumprida. Regressam todos à sua casa, mais ou menos satisfeitos. Os jornalistas serão os únicos que regressam mais ou menos frustrados, com a sensação de que foram utilizados pela Universidade e pelos doutores, uma vez que o seu maiêutico papel não chegou praticamente a acontecer. E o mais dramático é que, depois de tudo, a situação em causa, apesar da reflexão e do debate, mantém-se inalterada, sem sofrer sequer um beliscão.

Um comportamento assim só pode ter um nome muito feio. Um nome que, nos tempos que correm, ninguém dos grandes media tem coragem de pronunciar, porque é politicamente incorrecto. Chama-se hipocrisia, uma grande hipocrisia.

Mas tudo isto é possível, porque quem vive no mundo dos privilégios, raramente, está disposto a pô-lo em causa. Pelo contrário, defende-o, até inconscientemente, pois, ao fazê-lo, está a defender-se a si próprio.

Mas a hipocrisia é que hoje está mais em alta nos nossos ambientes ocidentais. Basta ver como os nossos intelectuais estão acomodados, domesticados, as nossas universidades são universidades auto-amordaçadas, sem brilhozinho nos olhos, sem causas, insolidárias, incapazes de profecia e de martírio, estéreis vozes do dono, defensoras dos interesses estabelecidos e das multinacionais, escandalosamente distantes das maiorias empobrecidas e ostracizadas, e formadoras de elites sem o mínimo de espiritualidade e de humanidade, apenas de olhos postos nos privilégios e no carreirismo pessoal.

Só mesmo uma Universidade católica como a portuguesa, que alinha invariavelmente pelos privilégios, e não só alinha, até vai no pelotão da frente, a puxar pelas demais universidades, é que pode promover jornadas de reflexão e de debate como esta sobre «os ataques de 11 de Setembro».

Está visto: nestes espaços católicos de ensino superior, todos bacteriologicamente limpos, como convém, é proibido falar de acção e de intervenção. Só de reflexão e de debate. Falar de acção e de intervenção, seria sujar as mãos e o nome. E isso não se pode esperar duma instituição, como a Universidade católica, que existe para servir a causa das grandes multinacionais, não a causa das suas inúmeras vítimas, cujos clamores, à luz do Evangelho de Jesus, têm tudo a ver com a causa da Verdade e da Justiça.

Uma universidade assim jamais se atreverá a fixar a sua atenção, um instante que seja, no que, a propósito deste acontecimento e de outros do género, tem a dizer Jesus de Nazaré, o Crucificado pelo Império, mas a quem Deus no mesmo momento ressuscitou dos mortos. E no que tem a dizer o Espírito Santo, esse mesmo que não é do mundo das grandes potências.

Jornal Fraternizar já não estranha esta postura, porque uma Universidade que aceita ser, estatutariamente católica, nunca mais consegue ser uma universidade visceralmente ilustrada e martirial, como hão-de ser todas as instituições académicas e outras que buscam as causas mais escondidas das coisas e dos acontecimentos que fazem a História.

É inevitavelmente uma universidade que, como a hierarquia da Igreja, da qual tira o nome, vai a reboque dos interesses das multinacionais e da sua ideologia, assim como da sua moral moralista. Por isso, é uma universidade que tem algo de perverso, que funciona sobretudo para manter a verdade cativa na injustiça, não vá acontecer que as vítimas das multinacionais um dia acordem, abram os olhos e se ergam na História como um carro de combate, com o firme propósito de darem corpo a uma Nova Ordem Económica e Política mundial, na qual deixe de ser possível continuar a formar elites privilegiadas e sem entranhas de misericórdia, como aquelas que a Universidade católica continua hoje aí apostada em formar.

Fosse a Universidade católica, que promoveu esta jornada de reflexão e de debate sobre os ataques de 11 de Setembro, capaz de ouvir Jesus e o Espírito Santo e logo estremeceria com as palavras de um e de outro, pois são palavras totalmente nos antípodas das palavras do presidente Bush, assassino, e dos chefes políticos da União Europeia, lacaios dos EUA. Eis:

"Em verdade em verdade vos digo: Eu sou a porta das ovelhas. Todos os que vieram antes de mim eram ladrões e salteadores, mas as ovelhas não lhes prestaram atenção. Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim estará salvo; há-de entrar e sair e achará pastagem. O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância" (Jo 10, 7-10).

Está visto que Jesus, o Cristo, não está nada preocupado em dar-nos uma lição sobre pastores e ovelhas. Com o recurso a essa expressiva linguagem alegórica, Jesus revela-nos coisas muito profundas e verdadeiras sobre a sociedade e sobre o mundo onde vivemos. Concretamente, revela-nos coisas muito profundas e verdadeiras sobre os governantes das nações. E não hesita em denunciar que todos os que vieram antes dele são ladrões, salteadores e assassinos, com economias e políticas ao serviço dos privilégios de alguns e da morte das maiorias.

Temos de reconhecer, a esta luz, que o presidente Bush e a maior parte dos governantes das nações que hoje temos, fazem parte dos "pastores" que vieram antes de Jesus. Estão aí, dois mil anos depois dele ter nascido, mas, no que respeita à qualidade de vida económica e política que defendem e patrocinam, são ainda anteriores a ele, ou seja, continuam a reger-se por critérios económicos e políticos próprios da selva, pré-humanos, piores, muito piores do que a célebre lei de Talião, "Olho por olho, dente por dente". São critérios que têm mais de besta, do que de humano. O que faz deles, chefes das nações, ladrões e assassinos. Só concebem planos para matar, roubar e destruir as populações que deviam defender até darem a vida por elas! E, se nós, populações, não tivermos mãos neles, eles acabarão, até, por destruir o planeta, na sua sanha contra os milhões de vítimas humanas, transformados por eles em «terroristas», sempre que reclamarem, inclusive por meios violentos, vida e vida em abundância, justiça, igualdade, liberdade, paz.

Só uma Universidade cega e surda, como a católica, é que não se apercebe do que está em jogo, nesta guerra da administração Bush contra Osama bin Laden, rotulada por ela e pelos seus grandes media como «guerra contra o terrorismo internacional". E o que é?

Depois de, ultimamente, termos visto as grandes multinacionais do dinheiro fundirem-se e concentrarem-se, de modo a poderem cinicamente ignorar os Estados e os Governos das nações, faltava avançar decididamente para a fusão e a concentração das grandes potências mundiais.

É esta operação que, presentemente, está em curso, sob a bandeira da "guerra contra o terrorismo internacional". Todas as grandes potências correm a colocar-se debaixo dela, para, assim, garantirem uma parte no exercício do poder político global.

Ou a Humanidade acorda e bate o pé a esta operação, como já começou a bater à operação anterior, conduzida pelo G8, ou acabaremos todos a ter de viver como clientes do Mercado Único, sob a dominação total do pensamento único e do politicamente correcto.

Num mundo de economia global, só um poder político global. Um poder contra a Humanidade, mormente, contra aquela minoria outra, saudavelmente rebelde, dissidente, livre, poética e utópica, que recusa sentar-se à mesa do Poder e dos privilégios e prefere comer o pão da Verdade e da Justiça, da Liberdade e do Amor, na companhia dos sem-nada, dos ninguém.

Mesmo que venha a ser rotulada de "terrorista", nem por isso essa minoria deixará de ser, entre as populações do mundo, uma minoria consciente, lúcida, vigilante, insubmissa, não integrada, sempre pronta a chamar a atenção dos povos para os pés de barro que todo o poder, também o poder global, tem. E, sempre que este cai na tentação de crescer como frondosa árvore com pretensões de chegar ao céu, logo lança entre todos os povos do mundo a salutar palavra de ordem de libertação: Derrubem a árvore! (cf. Daniel, capítulos 2 e 4).


A propósito da X Assembleia do Sínodo dos Bispos

Para quando o Sínodo das Comunidades Cristãs?

Decorreu em Roma, durante quase todo o mês de Outubro, a X assembleia geral do Sínodo dos bispos. De Portugal, estiveram dois bispos, em representação da Conferência Episcopal - o cardeal patriarca de Lisboa, José Policarpo, e o arcebispo de Braga, Jorge Urtiga. A temática em reflexão e debate foi assim enunciada: "O bispo, servidor do Evangelho de Jesus Cristo para a esperança do mundo".

No meu entender pessoal, este é um enunciado demasiado pobre, sem ousadia. Centra no bispo o que deve ser de toda a Igreja. Como se o bispo fosse a Igreja. Quando o bispo não passa de um dos membros da Igreja e nem sequer o mais importante. Bem mais importante do que o bispo, na Igreja de Jesus, é cada comunidade cristã reunida em nome de Jesus e a actuar em obediência ao mesmo Espírito que o conduziu a ele.

Só uma concepção acentuadamente elitista e clerical de Igreja nos tem levado a pensar que o bispo é a Igreja. Até se diz por aí que os bispos são os sucessores dos apóstolos. E ninguém, da área da teologia e da eclesiologia, vem denunciar esta linguagem abusiva. Toda a gente se cala, como se a afirmação fosse verdadeira. Não é. É pura mentira.

Para começar, os apóstolos não têm sucessores. Protagonizaram um serviço, no acontecimento da Fé cristã, historicamente, insubstituível, fundamental. Tanto que uma das notas fundamentais da Igreja é ser «apostólica». Mas já não é ser «episcopal».

É por isso um serviço que não tem sucessores. Ninguém mais, senão eles e elas – é verdade, não houve só apóstolos, também houve apóstolas; estas são anteriores àqueles e foi, até, a Fé das apóstolas no Ressuscitado Jesus de Nazaré que abriu o caminho à fé dos apóstolos – viveu ou viverá esse serviço.

Os bispos não são sucessores de ninguém. Nem têm que ser. A Igreja não é uma monarquia, para se falar agora em sucessores. Nem o papa é o vigário de Cristo, pela simples razão de que Cristo é que continua a ser a cabeça da Igreja.

A Igreja pode existir sem papa. Deverá existir sem papa. Mas não pode existir sem Cristo. Como um corpo não pode existir sem cabeça. E a cabeça da Igreja é Cristo. Mais ninguém.

Aliás, o título «papa» nem sequer pode ser dado a um simples ser humano. Porque lá está, bem oportuna e escaldante, a palavra de Jesus, que nunca poderá ser escamoteada: "A ninguém chameis pai sobre a terra, porque um só é o vosso pai". Chamar «papa» (pai) a alguém é um atentado ao Evangelho de Jesus. Tem algo de idolatria. Coloca um simples ser humano na condição de Deus.

O verdadeiro sacramento de Deus no mundo não é a Igreja, muito menos o papa ou os bispos. É o próprio Jesus de Nazaré, o Cristo. A Igreja, no seu todo, é o sacramento de Cristo. Faz memória dele. Aponta para ele. Revela-o. Mas não é ele. Jesus, o Cristo, é sempre mais do que a Igreja. Não se confunde com a Igreja. Pode até estar nos antípodas dela, quando ela, pela sua prática, se afasta da via ou caminho que ele inaugurou e viveu na plenitude.

Por isso, podemos e devemos encontrar Jesus, o Cristo, fora das estruturas da Igreja. Mesmo entre os ateus. Daí a necessidade de resgatar Jesus dos espaços eclesiásticos que tantas vezes o amarfanham e reduzem a pura caricatura.

A X assembleia geral do Sínodo dos bispos vem dizer que ainda andamos muito devagar, na Igreja, em termos de vivência do Evangelho. Ainda são os bispos quem reúne em sínodo. Deveriam ser as comunidades cristãs.

Não vejo por que havemos de separar o bispo das comunidades. Não vejo por que o bispo há-de actuar sem as comunidades. Toda a força da Igreja, todo o seu ser, está na comunidade cristã que reúne em nome de Jesus. Não está no bispo, nem no papa. Tudo o que não for assim na Igreja, não é do Evangelho. É do mundo. É do poder. No caso, do poder eclesiástico.

Mas o atraso na nossa Igreja católica romana é ainda maior, se pensarmos que nem sequer o Sínodo dos bispos é deliberativo. É um órgão apenas consultivo. Quando é que, então, chegaremos a ser verdadeiramente Igreja-comunidade-de-comunidades? Em que estas e não os bispos, muito menos o papa sozinho, sejam a Igreja em acto, em acção, em movimento?

Entramos já no terceiro milénio do Cristianismo, mas no que respeita à vivência do Evangelho, parece que cada vez mais nos afastamos dele, à medida que avançamos no tempo. Deveria ser ao contrário. E seria, se a Igreja sempre tivesse vivido em obediência ao Espírito Santo, aquele mesmo que conduziu Jesus e fez dele o Cristo, o Libertador/Salvador da Humanidade.

Infelizmente, a nossa Igreja meteu-se por outros caminhos. Saiu do Caminho que é Jesus, o Cristo. Trilhou os caminhos do poder. Trocou de Espírito. Em lugar de fazer corpo com o Espírito Santo, fez corpo com o espírito do poder. Oprimiu, quando deveria libertar. Humilhou, quando deveria dignificar. Submeteu a humanidade, quando deveria promover o protagonismo da Humanidade.

Urge regressarmos ao Evangelho. Não ao século primeiro da nossa Era. Mas ao Evangelho. Urge escutá-lo/interpretá-lo/actualizá-lo/re-escrevê-lo/proclamá-lo em categorias sócioculturais e políticas de hoje. Urge voltarmos a fazer hoje o que fizeram as comunidades cristãs do século primeiro, que escreveram o Evangelho em múltiplas versões, conforme as/os destinatários.

Temos obrigação de entender, hoje, Jesus, o Cristo, muito melhor do que as primitivas comunidades cristãs o entenderam há dois mil anos. Temos a nosso favor dois mil anos de Cristianismo, de acção do Espírito Santo.

Mas atenção! Ao longo destes dois mil anos de Cristianismo, o Espírito Santo não actuou exclusivamente na Igreja. Nem sequer principalmente. Actuou na História, através de todas as mulheres e de todos os homens de boa e de má vontade. Porque Ele, até das pedras é capaz de fazer filhas e filhos de Abraão! Jesus de Nazaré é quem no-lo garante. E ele fala com saber de experiência feito.

Dizemos mais. O Espírito Santo, nestes dois mil anos de Cristianismo, actuou sobretudo fora das estruturas da Igreja. Por isso, é sobretudo, fora das estruturas das Igrejas que havemos de procurar o resultado da sua intervenção. Concretamente, nos movimentos libertadores que Ele desencadeou, quase sempre à revelia e até com a explícita condenação das Igrejas, na pessoa dos seus chefes eclesiásticos, com mais de anti-Cristo do que de Cristo.

A X assembleia geral do Sínodo dos bispos continuou a apostar nos bispos. Está mal. Em Igreja, havemos de apostar nas comunidades cristãs. Em todas. Também e sobretudo nas mais insubmissas. Nas mais protestantes. Nas mais rebeldes. Nas mais contestatárias. Nas mais igualitárias. Nas que não discriminam ninguém, muito menos as mulheres. Nas que se organizam como frátrias, mais do que como mátrias. Nas que reconhecem os carismas de cada um dos seus membros, independentemente do sexo, e dão oportunidade de todos eles se manifestarem e actuarem. Nas que acolhem os ministérios não ordenados que o Espírito suscitar e fogem dos ministérios ordenados que o poder eclesiástico lhes tenta impor, para melhor as ter sob o seu controlo.

São as comunidades, não apenas os bispos, que hão-de afirmar-se cada vez mais como servidoras do Evangelho de Jesus, para a esperança do mundo. É uma mudança copernicana que havemos de realizar na nossa concepção de Igreja. Para ficarmos mais conformes ao que Jesus de Nazaré, o Cristo de Deus, sonhou, quando inspirou o aparecimento dela.

O caminho para lá chegarmos não é o que estamos hoje a seguir com iniciativas como a X assembleia do Sínodo dos bispos. O caminho tem de ser outro. Os bispos têm de desaparecer, como poder sobre as Comunidades cristãs, para que estas cresçam.

Comunidades cristãs actuantes, como o fermento na massa, entusiasticamente entregues ao serviço de Evangelizar os pobres, eis o que faz falta. Comunidades com bispos e presbíteros, mulheres e homens, ou mesmo sem bispos e sem presbíteros. Mas sempre comunidades com ministérios. Inclusive, podem ser outros ministérios, a inventar no decurso deste terceiro milénio; não necessariamente os bispos e os presbíteros. De certeza, não os bispos e os presbíteros, como hoje os conhecemos.

Estarão os bispos e os presbíteros (padres) de hoje dispostos a morrer, a desaparecer, para que, em seu lugar, cresçam as comunidades cristãs e estas, por sua vez, dêem à luz os ministérios que a Igreja deste nosso tempo necessita?

Tentar prosseguir, terceiro milénio além, com o modelo de Igreja com que nos deparamos no final do segundo milénio do Cristianismo, é um suicídio. A mudança tem de ser como a de um Novo Começo.

Para chegarmos a ser Igreja-comunidade-de-comunidades, quase tão invisíveis na Humanidade como o fermento na massa, mas tão fecundas, como o grão de trigo que é lançado à terra, morre e dá muito fruto, temos de arrepiar caminho. Temos de deixar os sínodos de bispos. E apostar forte nas comunidades de discípulas e de discípulos de Jesus, cheias de Espírito Santo e de Fé, sem nenhum poder e sem nenhuma riqueza, companheiras incondicionais dos pobres, com os quais partilhamos, não ouro e prata, não dinheiro e subsídios, mas o Evangelho de Jesus e a sua Memória subversiva e perigosa.

Dia 20 de Janeiro 2002, no CREU-Porto

Cristãos pela Paz

Pe. Arlindo animará reflexão

No dia 20 de Janeiro de 2002, realizar-se-á, como é já habitual, um encontro de cristãs e cristãos, promovido pelo Grupo coordenador dos encontros de cristãos. O tema do encontro será "A unidade de Deus e o confronto de religiões num mundo global", propondo-se uma reflexão e um debate organizado em torno dos seguintes pontos: "A pluralidade das religiões: sentido e perspectivas de evolução"; "Confrontos de religiões ou conflitos étnico-sociais?"; "Contributo dos cristãos para a construção da paz".

O encontro terá lugar na cidade do Porto, nas instalações do CREU – Casa dos Padres Jesuítas, na Rua Oliveira Monteiro, devendo iniciar-se pelas 9h30 e prolongar-se até às 17h00. O almoço realiza-se no local, com o farnel que cada um levar para partilhar. Para ajudar a nossa reflexão, contaremos com a presença do Padre Arlindo Magalhães, da Comunidade Cristã da Serra do Pilar, que intervirá no período da manhã.

O encontro é aberto à participação de todos os que quiserem participar, seja qual for a Igreja a que pertençam. Ou mesmo que não pertençam a nenhuma Igreja. Todos, sem excepção, serão bem-vindos.


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