Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

19 Março 2001

Volto à homilia que o Bispo do Porto proferiu, no passado dia 11 deste mês de Março, durante a celebração eucarística a que presidiu nas paróquias de Sardoura e Raiva, as duas freguesias do concelho de Castelo de Paiva mais violentamente atingidas pela inominável tragédia de Entre-os-Rios.
Por toda ela perpassa uma teologia, que convém olhar criticamente, porque não me parece verdadeiramente cristã, isto é, libertadora, nem totalmente jesuânica.
Creio bem que Jesus de Nazaré, o crucificado que está vivo e que caminha misteriosamente connosco pelos caminhos de Emaús, que são todos os caminhos da nossa vida - não só da vida dos crentes, mulheres e homens, mas também da vida do resto da Humanidade, incluída aquela imensa minoria que hoje se assume publicamente como ateia ou agnóstica - dificilmente, se poderá rever nesta teologia que, pelos vistos, continua na cabeça e na vida de D. Armindo Lopes Coelho e a marcar o sentido do seu viver, nomeadamente, o seu viver pastoral como primeiro responsável da Igreja de Deus que está no Porto.
Ao fazê-lo neste dia, que o comércio e a publicidade consagram como o Dia do Pai, esta minha reflexão fica ainda melhor enquadrada, uma vez que os bispos da nossa Igreja católica gostam de ser olhados como os nossos "pais na Fé".
Não são. Ninguém o é, a não ser o próprio Espírito Criador de Deus, mas eles gostam de pensar que são e fazem questão de proceder pastoralmente como se fossem. Tanto assim, que, quando estão fisicamente presentes, logo têm de assumir a presidência em tudo, até da mais singela sessão paroquial, no interior da mais remota aldeia. E têm de ter a última palavra em tudo, como se neles se realizasse também, e não apenas em Jesus, o Cristo, a plenitude de todos os dons do Espírito, para não dizer, já, a plenitude da divindade.
Aliás, em cada Igreja local ou diocese, há apenas uma casa que leva o nome oficial de sé catedral, entenda-se, sede com cátedra, para doutrinar. E essa é a casa ou igreja do bispo. O que quer dizer que só o bispo tem direito a sentar-se nela e daí ensinar os demais, como se, nestas coisas da Fé e costumes, à excepção dos bispos católicos, todas as demais pessoas, crentes e não-crentes, fôssemos ignorantes, por isso, alunos deles e não companheiros e irmãos/companheiras e irmãs. Sobretudo, como se, nestas coisas da Fé cristã, os pobres e os ignorantes segundo o mundo e segundo todas as Universidades católicas, não fossem, no alegre e feliz dizer de Jesus (cf. Lucas 10, 21-24), os maiores mestres. Se não pela eloquência do seu verbo, que a não têm, e quase nem verbo têm, sim pela eloquência do seu silêncio, que tem muito do eloquente silêncio de Deus.
Na ocasião, o bispo foi o primeiro a reconhecer, logo a abrir a sua homilia, que aquela celebração, pelas circunstâncias em que acontecia, não era uma celebração qualquer. A assembleia congregada incluía, para lá de pessoas crentes, pessoas não-crentes, algumas delas com responsabilidades políticas nacionais e locais de primeiro plano e que entenderam seu dever integrar-se na celebração, por razões de solidariedade com as populações em luto e em lágrimas (ou por razões de oportunismo político, já que aparecer ao lado do bispo católico do Porto, ainda dá prestígio aos detentores de cargos políticos, por mais ateus que digam ser?!).
O facto, assumido logo de início pelo Bispo do Porto, levanta uma questão pastoral de fundo, que a Igreja nunca tem querido debater e aprofundar. E que é esta: Será eclesialmente correcto celebrar a Eucaristia, sempre e em todas as circunstâncias? A Eucaristia – actualização da Memória perigosa que é Jesus de Nazaré, o Cristo, e comunhão pessoal e existencial com o seu Projecto alternativo à Ordem mundial vigente – pode e deve acontecer sempre, quaisquer que sejam as circunstâncias? Pode a Igreja fazer da Eucaristia, pau para toda a colher? A Eucaristia terá de acontecer, por exemplo, por ocasião dos funerais, nomeadamente, dos funerais dos cadáveres de pessoas que foram importantes, chefes de estado e de governo, comendadores e monsenhores, fadistas e actores famosos, bispos e padres, cardeais e papas, Salazares e Pinochets? A que propósito? Não é um abuso, por parte da Igreja, fazer a Eucaristia por tudo e por nada? Não é condenar a Eucaristia a puro acto cívico-social-político, e reduzi-la a um acto social fúnebre sem mais? Proceder assim, não é banalizar, pior, esvaziar por completo, a Memória perigosa que é Jesus de Nazaré, o Cristo?
O Bispo sabia – a homilia que pronunciou já vinha escrita de casa e refere-se expressamente a isso – que ia encontrar uma assembleia heterogénea, feita de crentes populares, esmagados pela inominável tragédia da queda da Ponte que arrastou para a morte antes de tempo muitos dos seus familiares e vizinhos, e de representantes do Estado, alguns dos quais assumidamente não-crentes, de jornalistas, de outras e outros profissionais da comunicação social, e mesmo de possíveis turistas da dor alheia, que sempre os há por aí.
O Bispo sabia e, mesmo assim, não se pôs o problema de, em vez de ir lá presidir a uma formal e esteriotipada celebração Eucarística, ir lá, mas para se integrar numa assembleia macroecuménica de crentes e de não-crentes, uma assembleia de seres humanos, sem mais, durante a qual todos pudessem ter voz, todos pudessem dizer como viam a tragédia, o que ela lhes grita e lhes exige, em termos de qualidade e de postura de vida, a partir de agora.
Numa assembleia assim, o silêncio poderia e deveria ter também o seu longo tempo, não, evidentemente, um silêncio feito de nada, de vazio, de tosses e de respirações ou de choros mais ou menos contidos, sim aquele fecundo Silêncio-que-fala-e-que-grita-e-que-nos-desafia-a-sermos-mulheres-e-homens-de-outro-calibre-bem-mais-humano.
Um ou outro poema – por exemplo, da nossa grande Sofia de Mello Breyner - declamado por quem tem o carisma de dar vida e voz à Poesia que todos trazemos dentro, mas que nem todos sabemos escrever e dar à luz, poderia ajudar a encher de indizíveis apelos esse silêncio e dar-lhe força e utopia.
Uma melodia, cantada ou tocada, ou singelamente reproduzida em CD, não aquele pesado e cavernoso Requiem de Mozart – pesado era já o ambiente da assembleia – mas, por exemplo, um bom pedaço das Quatro Estações de Vivaldi, talvez, a Primavera, também se enquadrava numa assembleia assim e, quem sabe, consolava e fazia as pessoas sair do ambiente de rigoroso e negro inverno interior a que, agora, parece que as querem condenar para o resto das suas vidas.
E, por que não, igualmente, um extracto do Evangelho de Jesus? Ele não é propriedade das Igrejas, ainda que lhes esteja especialmente confiado, mas tão só para elas o proclamarem, a tempo e fora de tempo, a todas as nações. Por isso, pode muito bem e até deve ser escutado também por ateus e agnósticos. Por que não, por exemplo, um extracto do monumento teológico que é o Evangelho de João, concretamente, o capítulo 11, mais conhecido - por sinal, erradamente - como o relato da ressurreição/reanimação do cadáver de Lázaro, quando o que ele é, é a dramatização teológica mais politicamente subversiva e mais provocadora que, alguma vez, a literatura mundial conseguiu produzir?
Quem sabe, até, se, naquele ambiente macroecuménico que ali se respirava, não seriam precisamente os ateus e os agnósticos, juntamente, com os populares que não frequentaram nunca a Universidade católica, e, por isso, também não aprenderam as parvoíces eruditas que por lá se costumam ensinar a propósito deste subversivo e perigosíssimo relato de João - basta dizer que, por o ter historicamente protagonizado, sem quaisquer concessões aos privilegiados da Ordem estabelecida do seu tempo e país, Jesus de Nazaré foi condenado à morte por eles e logo executado na cruz - quem melhor seria capaz de captar o que nessa dramatização teológica se esconde/revela de Boa Notícia libertadora de Deus para a Humanidade, a começar pela mais empobrecida e mais sofrida, a mais oprimida e condenada a permanecer nos túmulos, como morta e sepultada, toda uma vida?
Se, entretanto, o Bispo do Porto, nem chegasse a ter oportunidade de dizer a homilia que previamente havia preparado, que mal haveria nisso? Não é muito mais importante fazer falar e ouvir do que falar? Não é muito mais fecundo fazer falar os mudos, do que falar aos mudos? Não é muito mais cristão - entenda-se, libertador - despertar consciências adormecidas e alienadas, do que obrigá-las a ouvir discursos autoritários, de cima para baixo, que, depois, ainda as deixam mais esmagadas e amedrontadas? Não é muito mais humano ser/agir como a parteira, junto de quem sofre e chora e jaz como morto por força da intensidade da dor sempre absurda, para que quem assim se encontra, mulher ou homem, passe quanto antes a ver os acontecimentos, no caso concreto, aquela inominável tragédia, com outros olhos, e logo desperte, se levante, saia para fora do túmulo em que pretendem fazê-lo/fazê-la viver, numa palavra, ressuscite, se liberte de todas as amarras e se ponha resolutamente em marcha, com toda a sua dignidade pessoal verdadeiramente recuperada, capaz, por isso, de recusar toda a caridadezinha, toda a compaixão dos abutres que, em horas como estas, sempre se aproximam com hipócritas e compungidas lágrimas de crocodilo?
O Bispo do Porto poderia ter pensado em tudo isto. E poderia ter avançado por uma acção deste género, em lugar da missa. Até porque teve tempo mais do que suficiente, uma vez que a sua deslocação àquelas freguesias do concelho de Castelo de Paiva, para presidir à missa, só se verificou uma semana depois da inominável tragédia ter ocorrido.
Não teve essa audácia, nem essa criatividade pastoral, o Bispo do Porto. Não teve essa liberdade eclesial. Sinal de que, como Bispo da Igreja que está no Porto, vive ainda enclausurado na prisão dos cânones do Código do Direito Canónico – um longo e obtuso enunciado de regras eclesiásticas totalmente intragável e indigno da liberdade própria das filhas e dos filhos de Deus – e do Missal Romano, bem como do Ritual Romano dos Defuntos.
Nisso é ainda muito pouco bispo. Ou nada bispo. É ainda muito funcionário eclesiástico, o maior na diocese, quando, se fosse bispo ungido pelo Espírito Santo, sempre surpreenderia agradavelmente a Igreja a que preside e a Humanidade de que faz parte, ainda que sempre perturbaria o Sistema eclesiástico e os demais representantes da Ordem mundial dominante.
Depressa, seria também repreendido pelo Núncio apostólico que está em Lisboa, como fiscal da Cúria Romana, para impedir que a liberdade seja acontecimento contínuo e fecundo na Igreja que está em Portugal. E, caso prosseguisse por essa via da liberdade e da criatividade, muito provavelmente, ficaria, a breve trecho, sem a diocese, ainda que ficasse para sempre na memória da Humanidade sofrida e oprimida, como alguém do mesmo Espírito de Jesus de Nazaré, que, como ele, a havia compreendido e amado com entranhas de misericórdia, a única forma evangélica e cristã de cumprir toda a Lei!
A esta altura do mês, já todas e todos sabemos que o Bispo do Porto optou por cumprir o que manda o Missal Romano. E foi lá presidir à Missa, para crentes e não-crentes. Uma missa em tudo igual às outras que, nesse domingo, foram celebradas em milhares de templos católicos, em todo o mundo. Apenas a homilia do bispo foi diferente (às vezes, sou tentado a perguntar: por que é que o clero católico há-de impor às pessoas o ritual duma missa, do princípio ao fim, por sinal, sempre o mesmo, e não se limita a ler as leituras bíblicas e a fazer a homilia? Será que continua convencido de que, ao fazer tudo o mais que faz, consegue comover Deus e torná-lo mais favorável à Humanidade?! O pior é que, se calhar, o clero até está convencido de que sim!...).
Pois bem, o que o Bispo preparou em casa para dizer, como homilia da missa, a uma assembleia tão heterogénea, como aquela, e que, depois, chegou lá e disse, é o que me proponho agora analisar, no clima e no uso da liberdade dos filhos e das filhas de Deus.
Por sinal, uma prática muito pouco habitual na nossa Igreja, onde as pessoas parecem educadas para obedecer, para ouvir e calar, para executar, ou, simplesmente, afastar-se, quando não estão de acordo. Por isso, uma prática que pode surpreender, tão arredia tem andado do nosso dia a dia eclesial. Quando deveria ser o habitual, se a Igreja fosse como deveria, comunidade de comunidades, em que todos os membros, mulheres e homens, têm voz e vez, são pessoas, com possibilidades até de dissentirem dos que têm o ministério de a ela presidir.
Ao ler o texto integral, fico com a sensação de que o Bispo foi demasiado formal, distante, dissertou sobre a tragédia, mas não terá tocado o coração das pessoas.
As palavras com que teceu a homilia são palavras exclusivamente dele. E eu gostava de as sentir como palavras inspiradas pelo Espírito Santo. Por isso, duvido que, tanto o agnóstico presidente da República, Jorge Sampaio, como o católico Presidente do Governo, António Guterres, tenham sido edificados por estas palavras do Bispo. Duvido que tenham sido evangelizados, isto é, que tenham captado nas palavras do Bispo do Porto, a Boa Notícia de Deus que os chama a ser homens públicos de outro jeito, para que sejam muito mais homens realizados e felizes, que é o que nos interessa e o que interessa a Deus, quando nos fala. Porque se não é para nos deixar mais humanos e mais felizes, então para que nos falaria Deus?
Duvido igualmente que as populações católicas de Castelo de Paiva – por sinal, na versão mais tradicional/deísta que o Catolicismo português e ocidental ainda tem - que ouviram as palavras do Bispo, e que, na ocasião, estavam literalmente esmagadas pela dor, tenham experimentado o que, por exemplo, Maria e Marta, irmãs de Lázaro, experimentaram, quando Jesus interveio na casa delas, melhor, na primitiva comunidade delas – elas, e não ele, é que presidiam à Comunidade cristã que reunia naquela casa de Betânia!... – e fez sair do túmulo em que, a partir de determinada altura, o irmão e companheiro delas se deixou sepultar vivo, provavelmente, o túmulo de algum lugar privilegiado e bem remunerado dentro da Ordem dominante, onde quem aceitava ir para lá, depressa deixava de ser um ser humano, para passar a ser uma espécie de cadáver em progressiva decomposição, até cheirar mal e incomodar toda a sociedade. (Não costumam ser assim, verdadeiros cadáveres politicamente correctos, mas a cheirar mal, os altos funcionários cumpridores e obedientes do Sistema dominante, que complicam a vida a toda a gente, a começar pelas pessoas mais humildes, mais pobres e mais marginalizadas?).
As palavras do Bispo soaram aos ouvidos de todas as pessoas ali congregadas, como palavras que vinham de muito longe do coração, não brotavam dos porões da dor humana, sempre intolerável e sem sentido. Apontaram para distâncias que não são as do quotidiano das pessoas e, por isso, podem ter deixado tudo na mesma, o que significa, podem ter deixado as pessoas numa situação interior ainda pior do que antes.
É que não basta ser Bispo do Diocese, como se é gerente duma empresa, no caso, duma empresa eclesiástica. É preciso ser Bispo com Espírito Santo. E ser Bispo com Espírito Santo é mais, muito mais, do que limitar-se, depois, a cumprir o que a Cúria Romana e o Núncio apostólico no respectivo país querem que se cumpra. O Espírito é como o Vento, ouve-se a sua voz, mas nem a Cúria Romana sabe de onde vem nem para onde vai. O quer dizer que não se dá nada a jeito com ambientes como os da Cúria Romana, nem com orientações como as que de lá emanam, reproduzidas por um processo de clonagem, por isso, todas iguais, apesar de destinarem às mais diversas dioceses do mundo católico.
Mas aterremos ainda mais no texto da homilia do Bispo do Porto. Vejam só este início, tão distante e frio. Começou assim: "Reunimo-nos em princípio como comunidade de pessoas crentes para celebrarmos a fé que professamos, sob a forma de Eucaristia, segundo a disciplina e prática da Igreja a que pertencemos".
Nenhuma referência ao Espírito Santo. Em vez disso e desde logo, a explicita referência à disciplina da Igreja. E à sua prática disciplinada, que está longe de ser uma prática liberta e libertadora. A própria referência "à fé que professamos", mais parece uma alusão à doutrina da Igreja católica, à catequese tradicional, bebida pelas pessoas na infância. Não perpassa nessa referência à fé, nada do Sopro daquele Espírito criador e libertador, que os diversos relatos de Pentecostes, contidos no segundo volume do Evangelho de Lucas, mais conhecido por Actos dos Apóstolos, nos transmitem como permanente Memória subversiva e provocadora, por isso, nada disciplinada, muito menos, canónica!
É nesta mesma linha de puro cérebro, onde toda a emoção parece proibida, que a homilia do Bispo do Porto avança, após ter citado o Vaticano II, precisamente, a abertura da Gaudium et Spes, que, ao contrário da homilia do bispo, começa logo por falar das alegrias e das esperanças, das tristezas e das angústias dos seres humanos de hoje, especialmente dos pobres e dos que sofrem (o texto conciliar refere, expressamente, "homens de hoje", não "seres humanos"; esqueceu-se de referir também as mulheres de hoje; por isso, aqui preferi escrever "seres humanos", em lugar de "homens de hoje", como faz o Bispo, em citação literal).
Concretamente, diz a homilia do Bispo do Porto, no tom de quem aproveita para dar uma lição do que deve fazer a igreja, em lugar de ser simplesmente Igreja, ali e naquele instante de tanta dor:
"A Palavra de Deus, cujo anúncio e difusão constitui a missão principal da Igreja, diz respeito a uma vida que não acaba, refere-se aos vivos e aos mortos, estabelece ligação entre o Aquém e o Além. E a Igreja, como Comunidade dos que acreditam na Palavra de Deus, tem por isso uma dimensão escatológica, é peregrina neste mundo e neste tempo, e compreende aqueles que, mortos fisicamente e libertos do exílio desta vida (cf. 2Cor 5, 6), se encontraram com Deus e O contemplam definitivamente. Segundo a fé da Igreja, os crentes, mortos ou vivos, continuam a ser condiscípulos ou discípulos do mesmo Mestre e constituem uma só comunidade em comunhão espiritual. Recebidos na pátria celeste, os que morreram intercedem por nós junto de Deus com o crédito das obras que realizaram na Terra, enquanto nós, os que ainda peregrinamos no tempo, por eles e na memória deles dirigimos preces e oferecemos os nossos sacrifícios ao Senhor."
É este tipo de teologia que está aqui bem patente nestas palavras do Bispo do Porto, que me perturba. E me faz estar aqui a reagir e a dissentir. Como seu companheiro de caminhada, e como seu irmão na Fé. Mas certamente com outra espiritualidade, ou seja, com outra experiência de Deus vivo na minha vida quotidiana, que me faz ser e viver de outro jeito, quase nos antípodas dele, ainda que dentro da mesma Igreja católica.
A teologia que subjaz a estas palavras da homilia do Bispo parece aquela velha teologia da Idade Média que o Seminário da Sé do Porto ensinava, quando eu por lá passei, entre 1958-1962, nos quatro anos do Curso Teológico. E que já então ouvi, também da boca do actual Bispo do Porto, na altura, porventura, o nosso mais jovem professor de Teologia Dogmática, recém chegado de Roma.
Ora, como sabemos, desde então para cá, já passou muita água por debaixo das pontes. E muitas tragédias, como a de Entre-os-Rios sucederam e até maiores. E a velha teologia da Idade Média, mais Teodiceia do que Teologia cristã, não resistiu e foi também por água abaixo. Paz aos seus enfadonhos e tremendos tratados!
Permanecer nessa teologia, neste início do século XXI e do terceiro milénio, é como ser um fóssil, porventura, tratado com muita deferência e protocolar reverência, mas nada mais do que isso. Acabada a função litúrgica protocolar, fechada a porta do templo, e cada qual começar a preparar-se para rumar em direcção à sua vida e às suas responsabilidades, não terão faltado, de certeza, jocosos e demolidores comentários ao que disse o Bispo, estilo, Mas, afinal, o que pretendia o bispo com aquele arrazoado todo? O que será isso do Além e do Aquém, para mais escrito com maiúsculas? O que é isso de dimensão escatológica, que, pelos vistos, a Igreja, enquanto Comunidade dos crentes tem e que o resto da Humanidade não tem? E aquela referência ao "crédito das obras" que os crentes realizaram na terra, o que quererá dizer? Será que Deus é o grande banqueiro da Humanidade, e quem dele se aproximar, depois de morrer, se não tiver crédito no seu celestial Banco, está perdido para sempre? Ou o Bispo referia-se àquele tipo de crédito, que só os ricos e poderosos, os instruídos e as grandes personalidades do Estado e da Igreja, dos Tribunais e das Universidades, costumam usufruir, e que os pobres e os analfabetos, as prostitutas e os drogados, as/os portadores de sida e os homossexuais/as lésbicas não usufruem e de maneira alguma podem chegar a usufruir?
Bem sei que estou a caricaturar. Mas é para que melhor se veja até onde pode levar um tipo de teologia assim, dita numa linguagem fria e cerebral, de compêndio, como esta que o bispo do Porto utilizou nesta sua homilia, com a agravante de a proferir no contexto daquela inominável catástrofe que aconteceu em Castelo de Paiva, mas que afectou todo o nosso país, e não só.
Ora, é preciso que se diga com toda a frontalidade, ainda que também com todo o escândalo que isso possa causar: Não há Aquém e Além. Não há Terra e Céu. Não há Terra como lugar de peregrinação e de exílio, e Céu, como morada permanente e pátria definitiva. Não temos, por isso, que ser libertos do exílio desta vida, para nos encontrarmos definitivamente com Deus. Não há pátria celeste onde havemos de ser recebidos por Deus (como os grandes deste mundo costumam ser recebidos pelo Papa, uma espécie de representante oficial de Deus na Terra!), e onde os que morreram intercedem por nós junto de Deus com o crédito das obras que realizaram na Terra. Não intercedem. Pela simples razão de que, se o fizessem, essa actividade constituiria uma injúria ao santo Nome de Deus. Na verdade, faríamos de Deus um tirano que só se voltaria para nós, seres humanos, depois de muito pressionado pela contínua intercessão de quantas e de quantos já morreram e tinham ido para junto dele, para interceder por nós! Nada disso. E o Bispo do Porto tem obrigação de saber que nada disso pode ser verdade.
Toda esta linguagem cheira a Idade Média, é de um tempo em que a Ciência e a Modernidade ainda eram olhadas como obra do Diabo e, por isso, os seus cultores condenados à fogueira (certamente, para mais depressa serem libertos do exílio desta vida e viajarem também até junto de Deus a interceder pelos que os haviam queimado nas fogueiras da Santa Inquisição!...). Toda esta linguagem cheira a dualismo que tresanda e, como tal, não tem uma ponta de Cristianismo, de Fé jesuânica, ainda que as comunidades cristãs primitivas que escrevem e testemunham sobre Jesus de Nazaré, o Cristo, tenham tido necessidade de, aqui e ali, recorrerem também a ela, até porque, na altura, nem sequer dispunham de outra linguagem para se fazerem entender pelas pessoas suas contemporâneas.
Mas hoje, essa linguagem, em lugar de comunicar a Boa Notícia de Deus, só a esconde. E quem a ouve pode, pura e simplesmente, acabar por deitar fora a Boa Notícia de Deus, juntamente com a linguagem em que ela lhe está a ser anunciada!. É o que pode ter acontecido, também aqui, com esta homilia do Bispo. Com a agravante de ter sido o Bispo da Igreja que está no Porto, que fez uso solene dela!...
Disse e repito. Não há Aquém e Além. Nem as pessoas que morrem vão de viagem para a pátria celeste, para se encontrarem com Deus (então Deus não é Deus-coonosco, como proclama, por exemplo, do Evangelho de Mateus? E não é Deus que vem ao nosso encontro? E, se chegamos a pensar Deus, não é porque somos encontrados por Ele, a cada instante?). Nem se libertam do exílio desta vida, para irem interceder por nós junto de Deus, que ainda cá ficamos acorrentados, à espera de sermos também libertados do exílio desta vida.
Uma teologia assim não é cristã. É platónica e dualista. Separa a Terra do Céu. E coloca Deus lá longe, inacessível, tão distante do mundo, que este é uma espécie de degredo e de exílio sem Deus.
O Bispo do Porto, em lugar de evangelizar os pobres, de anunciar a Boa Notícia libertadora de Deus, no coração da inominável tragédia de Entre-os-Rios, foi lá, com toda a sua autoridade, reproduzir a teologia do Paganismo e dos cultos politeístas que ainda permanecem – uma e outros – no inconsciente colectivo da Humanidade não evangelizada e não ilustrada. Uma teologia que Jesus, com a sua prática radicalmente desalienadora e libertadora, e com a sua Sabedoria, classificou como Mentira, Diabo, fonte de Opressão e de Morte, da qual, por isso, fugiu a sete pés, e tudo fez e faz (hoje, pelo seu Espírito), para dela nos libertar a todas e todos, e nos curar. Por isso, Jesus é o nosso Senhor e o nosso Mestre, a nossa Paz, é o Evangelho vivo de Deus, é o Paradigma do ser Humano, é o Ser Humano integral, com o qual todas e todos nos havemos de parecer e ser. Ainda não somos, mas vamos a caminho. E cada dia que passa, está mais próximo esse Natal/Páscoa da Humanidade, quando Deus for tudo em todas e em todos.
Repito. Não há Aquém e Além. Há um só Mundo para nós, seres humanos. Este que habitamos. Como há uma só História. Esta que vivemos e realizamos. Até a chamada dimensão escatológica a que se refere o Bispo na sua homilia, não pode ser entendida como uma realidade distinta desta que vivemos todos os dias, uma realidade para o após morte, para o após História. Não há o Agora e o Depois. Há o Agora. Há a Realidade que somos. Mas que não se esgota no que vemos e conhecemos. Digamos que o melhor dela ainda continua invisível aos olhos e aos sentidos. Mas não há outra Realidade, outra vida, distinta desta. É esta que se torna outra e que ainda não vemos, mas que também já é esta que vemos. A nós pertence abrirmo-nos, desde já, a todas as dimensões da única Realidade, em que somos e existimos. E quando a Morte acontecer, como ela é sempre morte com Ressurreição, por pura graça e por pura iniciativa criadora de Deus, que é Deus de Vivos e não de Mortos, então ficaremos, certamente, habilitadas e habilitados, tanto crentes como não-crentes – aliás, a Fé desaparece nesse instante - a ver todas aquelas dimensões da única Realidade que antes não conseguimos ver. Mas todas essas dimensões já estão presentes, como a árvore já está toda na semente. De modo que podemos dizer que a Realidade é sempre mais do aquilo que vemos. Pelo que o Visível é, de algum modo, sacramento do Invisível. Nada será acrescentado. Nós é que seremos transformados, transfigurados e passaremos a ver e a usufruir o que já éramos, mas que ainda não podíamos ver e experimentar. Não há um escatológico, depois da História. O escatológico ou é dentro da História, ou não é. O escatológico é esta História grávida de Deus, em contínuas dores de parto, no dizer de S. Paulo, na Carta aos Romanos (cf. capítulo 8). Por isso não há Além e Aquém. Há o Aqui e nós nele. Mas um Aqui que é mais, muito mais, do que o que os meus sentidos dizem. E ao que eu me deverei abrir, ininterruptamente, numa relação de amor e de diálogo inenarrável tal, com o Espírito de Deus – é isso a Espiritualidade - que, quando a Morte chegar, ela possa ser captada por mim, como a última e definitiva Transfiguração/Ressurreição do meu ser, e não como o final do meu ser, com a inevitável volta ao nada.
A esta luz, não faz qualquer sentido falar do crédito das obras que realizamos na Terra, como uma mais-valia para que as pessoas que nos precedem na morte, possam interceder junto de Deus por nós. Deus é puro Dom, é Pura Graça, é Puro Amor, é Pura Criação. É Ele que nos cria e continuamente recria e salva. Aliás, criar é, já, sinónimo de libertar e de salvar. Basta que nos abramos ao Espírito de Deus e deixemos Deus ser Deus em nós. E o resto virá por acréscimo. As nossas boas obras, se realizadas com o objectivo de atrair os favores de Deus, só atrapalham. Porque retiram toda a força à Graça. Então, seríamos salvos por nós próprios, por nós próprias, não por pura Graça. Nesse caso, para quê a Eucaristia? Para quê a Acção de Graças contínua em que havemos de viver, mais do que fazer, como rito? As obras, se quisermos falar delas, só mesmo aquelas que Deus faz em nós e connosco. Mas nada mais do que isso.
"Fez em mim grandes coisas o Santo", canta a donzela Maria, do Evangelho de Lucas, a mulher que, depois da morte/ressurreição de Jesus, seu filho carnal, se abriu, finalmente a ele e deixou que o Espírito de Deus fizesse também nela e com ela o que tinha podido fazer com o filho dela, Jesus de Nazaré. Fez em mim grandes coisas o Santo, o completamente Outro, isto é, o Deus vivo e criador que o deus-Dinheiro e o deus-Poder não podem tolerar e sempre tentarão matá-lO, nos múltiplos sacramentos humanos vivos que lhes apareçam pela frente, como, paradigmaticamente, fizeram com Jesus de Nazaré, sem dúvida, o maior e o mais absoluto Sacramento de Deus vivo, que a Humanidade alguma vez conheceu e conhecerá.
Por outro lado, também não temos, como refere o Bispo do Porto na sua homilia, por que dirigir as nossas preces e oferecer os nossos sacrifícios ao Senhor pelas/pelos que morreram e, na memória deles e delas. Por que haveríamos de o fazer? Então não é verdade o que diz a Carta aos Romanos, que, quando oramos, é o Espírito de Deus que ora em nós com gemidos inenarráveis? Acaso oramos por nossa iniciativa? E, se oramos por nossa iniciativa, como quem tenta virar Deus para o nosso lado, a fim de dar força e êxito aos nossos projectozitos, mais ou menos mesquinhos e egoístas, em lugar de nos abrirmos ao Projecto de Deus, ainda se poderá chamar oração, a essa actividade? Não estaremos a falar sozinhos e para um deus que imaginamos e inventamos à medida dos nossos sonhos e das nossa ambições? Mas um deus assim tem alguma coisa a ver com o Deus Santo, o Totalmente Outro, puro Dom, pura Graça, puro Amor, Pura Criação, em quem somos, nos movemos e existimos (Actos 17, 28) e que – maravilha das maravilhas, mistério dos mistérios – é mais íntimo a nós do que nós próprios, mulheres e homens, crentes e não-crentes, indistintamente?
Fosse tecida com esta Teologia cristã, entenda-se, libertadora, e a homilia do Bispo do Porto teria tido certamente outro impacto não só nas pessoas fisicamente presentes, mas em todo o povo português. Os profissionais da Comunicação Social não deixariam de se fazer eco da Boa Notícia proclamada, até pela dimensão de escândalo e de loucura que todo o Evangelho de Deus ou toda a Boa Notícia de Deus inevitavelmente tem, para quem habitualmente vive integrado na Ordem mundial dominante, segue religiosamente os seus falsos valores e adopta os comportamentos considerados politicamente correctos que os seus chefes impõem.
Não foi por aqui a homilia do Bispo do Porto. Por isso, o que mais terá impressionado os profissionais da comunicação social terá sido o ar carregado do Bispo, o tom severo das suas palavras, as censuras que fez em várias direcções, sem que alguma vez olhasse para si próprio e para os pecados de omissão da Igreja que está no Porto, e também nas terras de Castelo de Paiva.
Numa inominável tragédia como esta de Entre-os-Rios, mais do que apontar bodes expiatórios, temos todas e todos de assumir, com humildade, com grande simpatia recíproca, com grande companheirismo e toda a ternura do mundo, as nossas debilidades pessoais e colectivas, as nossas distracções, os nossos descuidos, os nossos egoísmos, as nossas demissões, e, no caso dos crentes católicos, as nossas tentações de corrermos mais depressa para a igreja, para Fátima, para os santuários dos santos e das santas e para as missas pelos mortos, do que nos dispomos a correr para junto do próximo em aflição e para a acção política séria e consequente, esse novo nome do amor ao próximo que, hoje, já não é apenas quem vive perto de nós, é toda a Humanidade. E até o próprio Universo!

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