Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

11 Março 2001

A hierarquia católica portuguesa continua preocupada. É verdade que tem mais do que motivos para isso. Só é pena que se mostre preocupada com o que não deveria, e encolha os ombros perante o muito que deveria ser objecto das suas verdadeiras preocupações. Imaginem só! O que, neste momento, mais preocupa a hierarquia católica portuguesa, é saber quantas são as pessoas que ainda vão à missa ao Domingo! Quantas mulheres. Quantos homens. E, das e dos que vão, quantas e quantos tomam a hóstia, ou, nas palavras dela, quantas e quantos comungam (como se tomar a hóstia e comungar fossem a mesma coisa. Não é. Longe disso. Tanto assim, que pode tomar-se a hóstia e não comungar Jesus Cristo Crucificado/Ressuscitado. E pode não se tomar a hóstia e comungar Jesus Cristo Ressuscitado/Crucificado!). E a hierarquia católica está tão preocupada com este problema, que volta a promover um inquérito nacional nesse sentido, uma espécie de recenseamento de presenças.
A realização do inquérito ou recenseamento já teve início ontem, nas chamadas missas vespertinas – aquelas que "valem" para cumprir o mandamento da Igreja, que obriga, sob pena de pecado mortal, as pessoas baptizadas catolicamente, a ir à missa todos os domingos e dias santos de guarda (quantos pecados mortais, senhores bispos, se cometem em Portugal e nos demais países do Ocidente, só por continuar em vigor este mandamento da Igreja!... Um mandamento que nunca deveria ter existido e que, a existir, vocês há muito podiam e deviam ter riscado dos catecismos e das listas de pecados a declarar no momento da confissão, nomeadamente, na confissão pela Páscoa da ressurreição) - e concluirá hoje, até ao final do dia.
Nem se pense que uma iniciativa destas se faz enquanto o diabo esfrega um olho (desculpem lá esta alusão ao diabo, a propósito duma iniciativa como esta, por parte da hierarquia da nossa Igreja católica, mas, por estranho que possa parecer, tem muito mais sentido aludir a ele, aqui, do que a Deus, uma vez que Deus - ao contrário do Diabo, que gosta muito - não gosta nada de missas, nem aos dias de semana, quanto mais ao Domingo!). Não, uma iniciativa destas não se faz, não senhor, enquanto o diabo esfrega um olho. Leva o seu tempo de preparação e bastante dinheiro.
A iniciativa mobiliza muita gente, em cada paróquia católica, para lá dos respectivos párocos, muita gente cheia de boa vontade para iniciativas eclesiásticas deste género, ainda que sem vontade alguma para iniciativas bem mais humanas e cristãs, por isso, também bem mais arriscadas e martiriais, como são todas aquelas iniciativas que as discípulas e os discípulos de Jesus Cristo, por vocação, devem sempre assumir, na História, por exemplo, iniciativas que tenham força profética de verdadeiro sal da terra e de verdadeira luz do mundo.
Além disso, a iniciativa representa avultada despesa, uma vez que os impressos têm de ser pagos e são muitas as deslocações para os fazer chegar a tempo a cada local onde habitualmente há missa ao Domingo. E se os impressos não viajam de carro, terão de viajar pelos correios, que também não trabalham de graça.
Mas o pior é que toda esta mobilização, para lá do que tem de espectacularidade, é sempre muito pouco credível, no que respeita aos números finais obtidos, uma vez que todos os intervenientes, mulheres e homens, são da casa, isto é, da Igreja católica, sem ninguém de fora a fiscalizar.
Como é sabido, todas estas acções da Igreja funcionam à base de carolice, de quase total improvisação, do seja-o-que-deus-quiser, e a verdade objectiva de iniciativas como esta, é coisa com que quase ninguém se preocupa, uma vez que mentir e aldrabar por amor de Deus e para dar mais glória a Deus (entenda-se, por amor da hierarquia católica para lhe dar mais força), costuma fazer parte das regras eclesiásticas do jogo, também deste jogo de se saber quantas são as pessoas em Portugal que ainda vão à missa ao Domingo.
Não custa nada e não prejudica ninguém – é o que costumam dizer todas aquelas pessoas católicas que viciam dados objectivos, sempre que, em seu entender, as falcatruas que possam ser consumadas, vão contribuir para uma maior glória de Deus! – fechar os olhos à realidade e, concretamente, no que respeita ao caso em presença, fazer de conta que as pessoas que ontem e hoje estiveram ou vão estar na missa, para preencher o respectivo impresso de presença, são pessoas que todos os outros domingos do ano também o fazem com regularidade. Não é verdade. E os párocos terão de ser os primeiros a reconhecê-lo. Porém, duvido que o façam.
Aliás, como o reconhecerão, se eles próprios são os primeiros a fazer campanha declarada ou em surdina, nas missas que precedem as deste fim de semana, para que as pessoas não faltem, pelo menos, num destes dois dias, em que decorre a operação contabilística de presenças?
Fazem-no, como sempre, na melhor das intenções, uma vez que, no entender deles, é importante mostrar ao respectivo bispo diocesano, que as paróquias que lhes continuam confiadas estão vivas e que nelas tudo corre sobre rodas.
Por outro lado, os párocos sabem que não é nada despiciendo, nem para eles, nem sobretudo, para os bispos da Igreja católica em Portugal, poderem ostentar, na hora de reivindicar privilégios para eles e para o seu eclesiástico império ideológico e financeiro, estatísticas elevadas de participação de católicos e de católicas nas missas de Domingo.
Na verdade, todos eles, duma maneira geral, orgulham-se de ter em cada português/em cada portuguesa, entre cerca de 99 por cento deles e delas, um membro da Igreja católica e um fiel súbdito seu (também neste ponto, há alguma semelhança entre a Igreja católica e o Sport Lisboa e Benfica, que diz ser o clube de todos os portugueses, embora, no clube da Luz, ao contrário do que se passa na Igreja católica, as mulheres continuem muito mais refractárias que os homens, no que respeita a tornar-se sócias e a ir à "missa" futebolística no estádio, enquanto que, na Igreja, as mulheres, não os homens, sempre foram e continuam a ser a grande clientela das paróquias católicas!...).
Infelizmente, e para mal da sociedade portuguesa, os párocos e os bispos não se têm orgulhado em vão de números tão elevados de presença nas missas e noutros actos públicos da Igreja católica. Basta ver, por exemplo, quantos e quais têm sido os ministros dos sucessivos Governos de Portugal que, durante os oito séculos que já ultrapassamos como nação independente – como é sabido, o parto de Portugal, como nação independente, já só foi possível, devido ao decisivo reconhecimento oficial do Papa de então, e teve de ser pago a peso de ouro pelo primeiro rei de Portugal (pelo menos, quatro onças de ouro, quatro!) – conseguiram e conseguem, ainda hoje, ser verdadeiramente eles próprios, e, no caso deste tipo de recenseamentos como o deste fim de semana, quantos e quais têm conseguido e vão continuar a conseguir manter-se, saudavelmente, indiferentes, perante os números apurados, que tanto os párocos, como os bispos, fazem questão de exibir, sempre que isso lhes convém?
É ou não verdade que, se os bispos portugueses, a partir deste fim de semana, puderem garantir que, apesar dos ventos contrários da crescente secularização e da invasão de novos movimentos religiosos, continuam a ter todos os domingos - e uma semana passa num instante! – dois milhões, ou três milhões, ou quatro milhões de pessoas a "ouvir missa inteira", em alguma das inúmeras igrejas ou capelas católicas, espalhadas por esse Portugal além, tanto no continente, como nas Regiões Autónomas, esse facto, só por si, será tido em conta, até inconscientemente, pelos membros do Governo, quando os respectivos ministros decidirem aprovar leis incómodas e tomar certas medidas estruturais de fundo?! Quantos ministros (e mesmo deputados da nação) e quais, se atreverão a agir em consciência, sem terem estes números em consideração? Aliás, não é ainda frequente vê-los quase todos a meter o rabo entre as pernas, como cães submissos ao dono, sempre que a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) dá um espirro, fala um pouco mais grosso, ou simplesmente franze o sobrolho?
Com esses números nas mãos – e quanto mais elevados eles forem melhor, mesmo que não correspondam totalmente à verdade dos factos! – a hierarquia da Igreja católica terá sempre um argumento de peso que nenhum partido político e nenhuma outra organização do país terão para apresentar. E é este: se nós, bispos católicos portugueses, quisermos, em dois ou três domingos seguidos, podemos muito bem fazer chegar a milhões de pessoas o nosso ponto de vista sobre esta ou aquela medida governamental. E, se for caso disso, podemos virar contra ela o grosso da população portuguesa! (Precisamente, a maioria da população portuguesa que não costuma ler jornais, nem livros; que não costuma andar informada; que nunca chegou a ser baptizada pelo fogo espiritual e libertador da Modernidade; tão pouco, alguma vez, foi verdadeiramente evangelizada por Jesus de Nazaré, o Cristo!).
Mas há mais. Se a este argumento de peso, que são os números de presenças nas missas de Domingo, juntarmos também os jornais regionais, quase todos controlados ou até propriedade do clero católico, os boletins paroquiais, as folhas avulso, regularmente, distribuídas às famílias, nas paróquias; e, sobretudo, se a tudo isto juntarmos a toda poderosa Rádio Renascença, mais o ídolo senhora de Fátima com o respectivo santuário, logo teremos de concluir que os bispos e os párocos, apesar de serem numericamente poucos, e de jamais serem democraticamente eleitos pelos membros de cada Igreja local ou de cada paróquia – é uma vergonha para nós, católicas e católicos, mas é assim que continuam as coisas, neste início do século XXI e do terceiro milénio – possuem, realmente, um poder que faz tremer o mais pintado ministro de um governo em Portugal, por mais maçónico e ateu que esse ministro se confesse. Assim como faz tremer qualquer presidente da República, por mais laico e agnóstico ou ateu que ele faça questão de dizer que é.
É por isso que, apesar de vivermos, como, felizmente, vivemos, num Estado laico e numa sociedade plural, no que respeita a religiões e a credos, a crentes e a não-crentes, a verdade é que não há ministro e presidente da República que se prezem, ateus confessos que sejam, que não façam tudo para poderem aparecer, numa ou noutra missa, nomeadamente, quando a ela estiver a presidir um bispo, e haja grande cobertura informativa garantida.
A verdade é que podem ser todos muito agnósticos e ateus, mas, na hora de angariar votos, são capazes, muitos deles, de descer aos infernos duma missa católica – o ritual é tão da idade média, os textos do missal continuam ainda tão marcados pelo velho latim, e a disposição da assembleia é tão piramidal, que as missas que por aí se fazem, são, efectivamente, uma descida aos infernos do mau gosto musical/coral, do mau gosto da acção dramático-teatral e do mau gosto da oratória, para além de serem também uma descida aos infernos da rotina, do autoritarismo clerical, do improviso, do anti-convívio, e do que há de mais sinistro e mais absurdo, à luz da Fé cristã – de modo que, com essa sua presença, se possível, bem mediatizada, poderem angariar mais votos, ou mais autoridade, junto de certas franjas da população, precisamente, aquelas franjas da população que têm tanto de católico, como de olhos fechados para o essencial da vida e da organização da sociedade, essencial esse que, como se sabe, costuma ser sempre invisível aos olhares mais superficiais e ingénuos.
É por isso que esta iniciativa da hierarquia católica de querer saber, de forma mais actualizada, quantas portuguesas e quantos portugueses ontem e hoje foram e vão à missa (ela, depois, irá dizer que esse número mantém-se o mesmo, durante todo o ano e todos os anos, até à próxima consulta), só aparentemente é uma iniciativa de mero interesse eclesiástico.
O verdadeiro interesse da iniciativa é, sobretudo, político. Ou a Igreja católica não funcionasse, no nosso país, como uma espécie de partido político católico, quase sempre no poder (neste momento, tem no Governo um católico como primeiro ministro e, antes de António Guterres, já teve, como chefe do Governo, num longo período de dez anos, Cavaco Silva, um outro católico de missa dominical!).
Claro, que a Igreja católica não é um partido político. Todos sabemos que não é. Mas funciona como se fosse. E isso é que conta. Porque há por aí partidos políticos que o são de forma assumida e oficial, mas na prática é como se o não fossem. Ao passo que a Igreja católica nem sequer precisa de se oficializar como partido político. Basta-lhe funcionar como se o fosse. Ela sabe que continua a funcionar e a pesar, como se fosse o maior partido português. Aquele que tem estado no poder, praticamente, desde a fundação da nacionalidade, quando então a organização da sociedade era exactamente assim, por esta ordem, Clero, Nobreza e Povo. Hoje, as coisas já não são exactamente assim, mas a Igreja católica sempre soube adaptar-se aos novos tempos e a verdade é que mantém-se de pedra e cal no poder, mesmo quando finge que está na oposição.
É certo que houve alguns períodos, na nossa História de oito séculos, infelizmente, poucos e muito curtos no tempo, em que a Igreja católica foi arredada do poder em Portugal. Mas nunca a sociedade portuguesa pôde gozar de estabilidade, enquanto o trono e o altar – o poder, na sua dupla expressão - não voltaram a constituir a união de facto, de antes, uma união com tudo de perversidade, de mancebia e de concubinato.
(As uniões de facto, de que hoje tanto se fala, mesmo as uniões de facto entre homossexuais e lésbicas, são uniões abençoadas por Deus, sempre que a força que as constitui é o amor entre as pessoas que lhes dão corpo. Ao contrário, a histórica união de facto entre o trono e o altar é sempre uma união perversa e causa de perversão social. Daí a Ordem dominante que essa união constitui e impõe às pessoas e às populações, ser sempre uma tremenda desordem, em que tudo está invertido, os valores são falsos valores e a mentira passa por verdade).
Entretanto, a História portuguesa recente mostra, à saciedade, que, quando a união de facto entre o trono e o altar chegou a ser momentaneamente rompida, sempre tem havido membros influentes da Igreja católica que entram de imediato em acção e nem sequer olham aos meios a utilizar, para conseguirem que essa união seja rapidamente restabelecida. É o que nos mostra, por exemplo, o curto período entre a implantação da República, em 1910, e a instauração do Estado Novo, em 1926, em que a hierarquia católica esteve efectivamente arredada do poder.
Para alcançarem os seus objectivos, alguns membros mais influentes do clero chegaram ao cúmulo de inventar aparições de nossas senhoras em serras d’aires e quejandas e, depois, através de perversas idolatrias e de diabólicas mentiras como as que nesses locais são sucessivamente promovidas até à náusea, conseguiram convencer as populações mais ou menos analfabetas e fortemente amedrontadas e domesticadas, que o diabo não são eles e os seus cultos de mentira, mas sim os ateus e os agnósticos, e até certas cristãs e certos cristãos, mesmo católicos, como eu e outras e outros que tais, que, para fúria deles, já não vamos nem nas suas missas sem Eucaristia, nem nos seus sermões sem profecia, como, de resto, o próprio Deus também nunca foi nem irá.
O pior é que, enquanto as populações acreditarem em todas essas patranhas, e se deixarem influenciar por elas e, até, as financiarem com os seus parcos recursos, a hierarquia da Igreja católica estará de pedra e cal no poder no nosso país. E os políticos profissionais, que queiram fazer carreira e chegar a sentar-se nalguma das principais cadeiras do poder, têm de ir sempre ao beija-mão da hierarquia católica, ou nos palácios episcopais onde ela principescamente vive, ou nas respectivas igrejas-catedrais, onde cada hierarca tem a sua cátedra - em tudo idêntica às cátedras dos escribas e fariseus do tempo de Jesus de Nazaré, as quais ele tanto denunciou e combateu (cf. por exemplo, todo o capítulo 23 do Evangelho de Mateus) - a partir da qual, todos e cada um deles pregam doutrinas que mais parecem fábulas, à mistura com vagos apelos moralistas à caridade e à oração, como se Deus alguma vez carecesse dessas coisas para viver no mais íntimo de cada uma e de cada um de nós, crentes ou ateus.
Infelizmente, ninguém, da nossa praça, parece ter-se apercebido da importância política do recenseamento à missa dominical, promovido pela hierarquia católica, e que ontem e hoje se concretiza por tudo quanto é igreja ou capela católica do país.
Tanto pior para a sociedade portuguesa. Porque se nem os que se têm por guias da sociedade se dão conta do alcance político desta iniciativa, aparentemente, esvaziada de objectivos políticos e exclusivamente eclesiástica, mas, de facto, muito mais política do que eclesiástica, então, muito mais dificilmente se aperceberão disso as populações em geral.
Aliás, as populações em geral estão, praticamente, impossibilitadas de ver todo o alcance político desta iniciativa dos bispos católicos, e doutras iniciativas do género, uma vez que elas próprias ainda vivem sob o seu domínio religioso, lá, nalguma das inúmeras paróquias católicas que por aí há, em cujo território residem e em cuja igreja paroquial, até por força da tradição/opressão herdada dos antepassados, continuam a baptizar os filhos que lhes nascem, a matriculá-los na catequese, a acompanhá-los na primeira comunhão e na chamada profissão de fé, no Crisma, no casamento canónico, e mesmo no funeral que, só muito raramente, é que não é católico!...
Precisamos, por isso, de acordar. Não para restaurar velhos e estéreis anticlericalismos, mas para darmos sérios e inteligentes passos na nossa autonomia e na nossa cidadania, quer como indivíduos, quer como sociedade, quer como Estado.
Precisamos de acordar. E de exigir que a política seja coisa de todos e não só de alguns. Muito menos, seja coisa de alguns privilegiados, encapotados de hierarquia católica que, depois, na hora das grandes decisões governamentais e legislativas, reivindicam e conseguem Concordatas, canais de televisão e tempo de antena gratuito em canais do Estado, escolas e universidades católicas, isenções fiscais, subsídios de muitos milhares de contos a fundo perdido, subsídios a IPSS por eles controladas, pagamento de ordenados a membros da instituição, que vão ensinar nas escolas públicas a moral católica e a religião católica, e tantos, tantos outros privilégios que, no seu conjunto, são um insulto à maioria da população portuguesa, condenada a ter de viver dum baixíssimo salário mínimo nacional, dum corruptor e adormecedor rendimento mínimo garantido, de reformas e pensões que são uma indignidade para quem as dá e para quem as recebe. E que, depois, para poder continuar a suportar, resignada e conformada, tanta injustiça e tanta indignidade, lá tem de ir a Fátima a pé, rastejar publicamente diante do ídolo que é a imagem da mítica senhora lá do sítio (a verdadeira senhora de Fátima, claro, não é a imagem cega, surda e muda, mas sim a hierarquia católica que está por trás dela a mexer os cordelinhos e a receber o ouro e as ofertas em dinheiro, em quantidades tão avultadas, e todas isentas de IVA, que dão que pensar), na ilusão de que esse ídolo lhe vai valer. Não vai. Só a devora. Como devorou as três crianças de Ourém que, em 1917, tiveram o azar de dizer que viram uma senhora vestida de branco, sobre uma das muitas azinheiras da serra d’Aire, e que ela lhes falou a pedir que erguessem lá uma capela católica (mais uma!...), quando, bem vistas as coisas, quem lhes falou foram os padres que liam pela diabólica cartilha da "Missão Abreviada", e que aterrorizaram o país com as suas pregações e as suas pacóvias dramatizações. Dramatizações essas, que as populações, na sua ingenuidade e ignorância, depressa interpretaram como aparições vindas do céu!
É urgente acordar. Para recuperamos a nossa independência interior, a independência de consciência, que nos tem faltado, nestes oito séculos que já levamos como nação politicamente independente. Para deixarmos de ser pessoas e sociedade em estado de menoridade, diante da toda poderosa hierarquia católica. E também para deixarmos para trás, definitivamente, a idade média que, até hoje, tem continuado a afectar a maior parte de nós, mesmo os que se dizem ateus (o exemplo do actual presidente da República, Jorge Sampaio, agnóstico e laico publicamente assumido, mas que não perde uma missa católica, sempre que isso lhe pode trazer dividendos políticos, é dramaticamente eloquente). Só assim, poderemos entrar no século XXI e no terceiro milénio, definitivamente libertos dos clérigos e da hierarquia católica (presbíteros e bispos da Igreja de Jesus Cristo são, felizmente, outra coisa bem distinta), e poderemos ser, finalmente, nós próprios, livres, autónomos, sujeitos, responsáveis, numa palavra, mulheres e homens sem medos, sem complexos de inferioridade ou de superioridade, visceralmente fraternos/sororais, solidários, companheiros, amigos.
Deixem, pois, as missas de Domingo para o clero católico que ainda as promove (às da semana já quase ninguém lá vai!). E venham daí, rumo à independência interior, à independência da consciência individual e colectiva! Oito séculos depois da independência política, é mais do que tempo de avançarmos. Avancemos. Com determinação. E muita alegria. O Espírito criador e libertador de Deus, revelado em Jesus de Nazaré, o Cristo, irá connosco. No mais fundo de cada uma e de cada um de nós!

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