Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

9 Março 2001

Há depoimentos pessoais de individualidades católicas que são dignos de figurar numa antologia, que poderia intitular-se, mais ou menos, assim: "Saiba como se faz um funcionário eclesiástico-mor". Ou: "Saiba como há-de proceder para chegar a cardeal do Vaticano". Ou: "Saiba como há-de proceder para transformar um ser humano ingénuo num monstro eclesiástico mecanicamente sorridente, satisfeito e agradecido".
É deste calibre o depoimento pessoal de um dos dois novos cardeais portugueses, recentemente escolhidos e investidos pelo papa João Paulo II, o cardeal José Saraiva Martins. Pude lê-lo, há dias, na "VP-Voz Portucalense" (28 de Fevereiro), o semanário oficioso da Diocese do Porto. E não resisto a transcrevê-lo, aqui, na íntegra.
É obrigatório lê-lo. Não para sermos evangelicamente edificados por ele, sim para ficarmos suficientemente informados sobre certos mecanismos eclesiásticos, actualmente, ainda em uso, destinados a destruir por dentro toda a originalidade e todo o espírito de salutar dissidência de um ser humano, que tenha o azar de ser apanhado nessas despersonalizadoras malhas.
O depoimento é assim como um anti-Evangelho de Jesus ao vivo. Enquanto o Evangelho de Jesus testemunha e dá contínua vida ao Ser Humano integral e paradigmático, que é Jesus de Nazaré, o Crucificado/Ressuscitado, e no-lo apresenta como alguém sempre indomável, surpreendente, irreverente, insubmisso, dissidente, livre, combativo, com tanto de fecundamente implacável diante do poder estabelecido e dos poderosos que dele beneficiam, como de companheiro-parteira, cheio de ternura e de força libertadora, junto das suas inúmeras vítimas humanas, o depoimento do novo cardeal português ao serviço da Cúria do Vaticano e do papa João Paulo II apresenta-nos um ser que percorreu o caminho totalmente inverso ao de Jesus de Nazaré. E, hoje, até faz gala de se apresentar publicamente como um ser submisso, completamente à mercê dos interesses da toda-poderosa Cúria do Vaticano e do chefe de Estado do Vaticano, que é – com vergonha o digo – simultaneamente o Bispo de Roma e o responsável pelo "Serviço de Pedro", na Igreja católica de que sou presbítero, ainda que sem qualquer ofício canónico.
Não se descortina, neste depoimento, qualquer resto de espinha dorsal no seu autor. É confrangedor constatar que o seu autor desconhece por completo o que seja a resistência e a insubmissão ao poder eclesiástico. O seu autor tem, por isso, tudo a ver, não com um ser humano a valer e de antes quebrar que torcer, como devem ser todos os seres humanos que se prezam, sim com aqueles bonecos articulados de manifesto mau gosto, destinados a recolher "Esmolas para as Missões", pousados em certos balcões de casas comerciais geridas por católicos, e sempre prontos a abanar a cabeça para a frente, agradecidos e subservientes, todas as vezes que alguém, impressionado com o ar de miserável que esses mesmos bonecos ostentam, deposita na respectiva ranhura, uma ou mais moedas. Quando o que esses bonecos articulados deveriam fazer, era gritar um palavrão de protesto contra o insulto e a indignidade da esmola depositada.
Ao ler, com olhos de ver, o depoimento em causa, e não com aqueles olhos de ingenuidade e de atrofiamento, que qualquer sistema de poder, também o Sistema eclesiástico, tanto aprecia, logo perceberemos como foi possível que as duas crianças de Fátima, alegadamente videntes da senhora lá do sítio, Jacinta e Francisco, tivessem sido tão rapidamente beatificadas pelo Papa João Paulo II. Uma beatificação que este papa oriundo da Polónia fanaticamente católica e anticomunista primária, fez questão de não só patrocinar pessoalmente, como até de impor a toda à Igreja, inclusive, contra o parecer da própria Cúria do Vaticano, para não falar já do parecer totalmente contrário dos melhores teólogos católicos do mundo.
Foi este eclesiástico português que viabilizou toda essa jogada vaticana, certamente, em nome de um certo nacionalismo português salazarento e beato, que nos envergonha, como portuguesas e portugueses, mas na qual o próprio papa, devoto fanático e, por isso, acrítico da senhora ou deusa de Fátima, estava pessoalmente empenhado.
Aliás, foi para a viabilizar, que o papa escolheu este português para presidir à Congregação vaticana da causa dos santos. E o agora cardeal não se fez rogado. Passou por cima de tudo o que era argumento contra a beatificação e declarou que ela poderia e deveria realizar-se, de imediato. O que aconteceu, como é sobejamente sabido, em Maio de 2000, em Fátima, no decorrer duma cerimónia litúrgica que constituiu um atentado à inteligência e à dignidade humanas, transmitido em directo via tv para todo o mundo, e perfez um inominável sacrilégio papal contra o santo Nome de Deus e o santo Nome de Jesus Cristo.
Na altura em que tudo isto ocorreu, eu não conhecia, como, certamente, a maioria das portuguesas e dos portugueses também não, o Prefeito da Congregação vaticana para a causa dos santos. Sabia apenas que era um português, há muitos anos, radicado em Roma e no Vaticano. Sabia, igualmente, que ele havia sido escolhido e nomeado pelo papa João Paulo II, para essa função, precisamente, quando decorria na Congregação para a causa dos santos, o processo de beatificação das duas crianças de Fátima, vítimas mortais das catequeses terroristas dos pregadores da chamada Santa Missão.
Porém, logo desconfiei que a nomeação do eclesiástico português para essa Congregação vaticana, onde estava em jogo a beatificação ou a não beatificação das duas crianças portuguesas, não era de todo inocente e levava toda a água do mundo no bico. Era uma nomeação que tinha todos os ingredientes para ser desonesta. E só um desonesto por amor da Igreja vaticana e por amor de deus-Diabo, mentiroso e pai de mentira, é que aceitaria uma nomeação dessas. O mínimo de bom senso e de isenção impunha que uma tal nomeação nem sequer fosse sugerida. E, no caso de ser concretizada, como efectivamente foi, deveria ter sido de imediato recusada, por parte do eclesiástico português. Até por respeito àquele princípio de isenção que diz, "Ninguém é bom juiz em causa própria".
Porém, surpresa das surpresas, o eclesiástico português não só não recusou o lugar para que foi nomeado pelo papa João Paulo II, como o aceitou com toda a satisfação. E, é claro, como bom eclesiástico atento e reverente, subserviente e bobo, executou tudo o que o seu chefe hierárquico desejava, como se os desejos do seu chefe hierárquico fossem coincidentes com a vontade de Deus e contribuíssem para glorificar o seu Nome!
Perante tamanho exemplo de obediência e de subserviência, o papa João Paulo II só podia ter um gesto à mesma altura. E foi o que fez: no primeiro Consistório que decorreu no Vaticano, depois da beatificação das duas crianças portuguesas mais infelizes da primeira metade do século XX, fez cardeal o seu fiel servidor, e enfiou-lhe o barrete cardinalício na cabeça e o anel cardinalício no dedo. Quase com quem diz: Já que desceste tão baixo na tua dignidade humana, para assim me seres fiel, eu te subo à dignidade e à honra de cardeal e te enfio o barrete e o anel respectivos, para que nunca mais consigas acordar deste pesadelo e leves até ao fim, sempre sorridente e satisfeito, a tua renúncia a ser alguém com espinha dorsal e com vontade própria. Porque, se calha de tu, algum dia, acordares e, finalmente, cais em ti, então, sou eu, papa e chefe de estado do Vaticano, que estou irremediavelmente perdido. Nesse dia, serás bem capaz de pegar no barrete e no anel cardinalícios que eu te enfiei com toda a solenidade, e vais a correr lançá-los ao caixote do lixo, ou à fossa mais mal cheirosa que conheceres. E eu perderei um fiel lacaio sempre sorridente, satisfeito e, ainda por cima, agradecido. Mas o pior nem é isso, embora isso já seja terrível para mim. O pior é se muitos mais eclesiásticos subservientes e lacaios acordarem e correrem a fazer o mesmo. A partir desse dia, nunca mais conseguirei ter ao meu serviço de chefe de Estado do Vaticano e de monarca absoluto da Igreja católica, fiéis lacaios sorridentes, satisfeitos e, ainda por cima, agradecidos. E, então, o que vai ser de mim?
Mas vamos ao integral depoimento do cardeal, tal como ele vem no semanário oficioso da Diocese do Porto. O texto que aparece entre [...], são comentários meus, feitos de humor e amor. Eis:
"Mais que um testemunho, direi o que sinto perante esta situação especial em que a Providência me colocou."
[Providência: sabem o que é? Para o cardeal parece ser outro nome de Deus. Será. Mas que Deus? O que se nos revelou em Jesus? O Deus que se nos revelou em Jesus não tem nada de Providência. Tem tudo de Provocação, de Desafio, de Sopro, de Criação. Faz-nos viver à intempérie. E, nas dificuldades com que topamos, não corre a substituir-nos, incita-nos a inventar maneiras de as superarmos. Aliás, é a única maneira de Deus poder ser Deus-em-nós-e-connosco. Tudo o que não for assim, só serve para gerar infantilismo e abortos humanos!].
"O que senti e o que sinto nesta circunstância, vendo-me escolhido pelo Santo Padre para fazer parte do Colégio Cardinalício, ser alvo de tantas manifestações de simpatia por parte de conhecidos e não só?"
[Diz bem, "Escolhido pelo Santo Padre". Não por Deus. Não pelo Espírito de Deus. Infeliz e idolátrica é a expressão, "Santo Padre". Bem sei que entrou na rotina da linguagem eclesiástica e que agora as pessoas a utilizam como um tique. Tanto pior. Porque é uma linguagem puramente idolátrica. O Bispo de Roma, a quem compete, nesta altura, também o chamado "Serviço de Pedro", na Igreja universal, é um simples homem, em tudo igual aos outros seres humanos, suas irmãs e seus irmãos. Não é um pequeno deus na terra. Nem pai (papa). Nem chefe. E, se ele não toma a iniciativa de proibir o tratamento idolátrico, "Santo Padre", que, ao menos, as suas irmãs católicas e os seus irmãos católicos, recusem recorrer a essa linguagem. Será, só por si, um bom passo e um bom sinal].
"Vem-me vontade de fazer próprias as palavras de Nossa Senhora, salvas as devidas proporções e no respeito da singularidade da sua situação: magnificar o Senhor; mais que exultar, magnificá-lO, porque dignou-se olhar para a modéstia da minha pessoa e operar em mim grandes coisas; coisas que não mereço e que só Ele, que é grande, é protagonista das mesmas e garante, com a sua graça, de que servirão para a sua maior glória e bem do seu Povo, a santa Igreja."
[Aqui, a confusão do novo cardeal português não pode ser maior. O novo cardeal está completamente baralhado, evangélica e teologicamente. O barrete cardinalício baralhou-lhe as ideias. E nem é de estranhar. O Poder, quando sobe à cabeça de um ser humano, mulher ou homem, sempre baralha as ideias. E ele passa a pensar e a dizer disparates que os súbditos têm de tomar por afirmações sensatas e verdadeiras. Vejamos mais de perto.
1. O cardeal compara-se com "Nossa Senhora" e faz suas as palavras dela. Só que o Evangelho de Lucas, que nos presenteia com o belíssimo e revolucionário poema, conhecido por Magnificat, nunca fala em "Nossa Senhora". Fala, sim em Maria, uma donzela desposada com um homem chamado José, residente em Galileia. E não se pense que Nossa Senhora e Maria são a mesma pessoa. Não são. Nunca foram. Maria, a donzela desposada e depois casada com José, mãe carnal de Jesus, é uma mulher de carne e osso, da Galileia, em tudo igual às outras donzelas e mulheres da região. Nossa Senhora (= Nossa Deusa) é, como o nome indica, o título atribuído à mítica deusa-mãe, ou Grande Deusa, objecto de cultos públicos, muito mais concorridos do que aqueles que ela hoje tem, por exemplo, em Fátima, sob a invocação de "Nossa Senhora de Fátima", e que se infiltrou no Cristianismo, quando este se tornou religião católica do Império romano. Portanto, não é uma mulher de carne e osso. Apenas uma figura mítica, sem existência histórica.
2. O cardeal fala como se a donzela Maria, residente em Galileia, fosse a autora do poema. Não é. O poema é uma construção do próprio autor do Evangelho de Lucas, elaborado a partir de outro, muito conhecido entre os primeiros ouvintes do Evangelho, e atribuído pela Bíblia do Primeiro Testamento, a Ana, mãe do Profeta Samuel (1 As 2, 1-10). Trata-se duma narrativa teológica, não histórica ou jornalística, e que só foi possível ser escrita depois que, entre as discípulas e os discípulos de Jesus, despertou a Fé na sua Ressurreição dos mortos. Portanto, Maria nunca disse esse poema, tal e qual. Tão pouco a donzela Maria viu anjo algum. Ao falar em anjo, o autor do relato está a dar uma indicação aos respectivos ouvintes, mulheres e homens, que se trata de um relato não histórico, não jornalístico, mas puramente teológico. O que significa que a donzela Maria e esposa de José foi mãe de Jesus, como qualquer outra mãe, na maior das obscuridades e também na maior das expectativas. Por outro lado, é preciso sublinhar que o poema, embora seja colocado nos lábios dela, não é dela que está a falar, mas de Jesus de Nazaré, o qual, sem deixar de ser filho dela e de José, é também o Filho de Deus entre-nós-e-connosco!
3. As grandes coisas que o novo cardeal diz que o Senhor fez nele, concretamente, a "elevação" ao cardinalato do Vaticano, não são as que Deus fez em Jesus (e, graças a Jesus, também em Maria, sua mãe). Por isso, temos de reconhecer que essas grandes coisas a que o cardeal se refere não podem ter sido feitas por aquele Deus que se nos revelou em Jesus de Nazaré. Só podem ter sido feitas pelo seu inimigo n.º 1, o deus-Poder. As grandes coisas que Deus faz em alguém, como fez em Jesus, vão sempre no sentido diametralmente oposto ao do cardinalato. Culminam no calvário e na cruz! Não, evidentemente, por vontade de Deus, mas por vontade dos poderosos de turno, que não suportam um ser/viver humano, feito de verdade, como o paradigmático ser/viver de Jesus de Nazaré, o Cristo. E como sempre deverá ser o ser/viver das suas discípulas e dos seus discípulos
4. O novo cardeal deveria saber que o Povo de Deus não é "a santa Igreja", muito menos, a Igreja católica romana que acaba de fazer dele um dos seus "príncipes". Povo de Deus é toda a Humanidade, ateus, mulheres e homens, incluídos, e sempre a partir da mais empobrecida e oprimida. Por outro lado, "a santa Igreja" está longe de ser apenas a católica romana. Por isso, meu irmão bispo e concidadão, um bom pedaço mais de dimensão ecuménica e macroecuménica na sua visão da realidade contemporânea, não lhe ficaria nada mal!].
"Há momentos em que o inteiro arco da nossa existência se faz insistentemente presente ao espírito, como um quadro único, a pedir uma razão que o explique e unifique.
Assim foi quando professei na Vida religiosa, quando me ordenei sacerdote, quando recebei a ordenação episcopal e também agora com a nomeação cardinalícia.
Em todos esses momentos, apercebia-me que o fio condutor que me levava a essas etapas, fora sempre a Providência de Deus: foi Ele que urdiu a teia, que teceu a minha vida. E se, depois, os Superiores me acharam apto para assumir determinadas responsabilidades, sinto sinceramente que foi ainda Deus quem, com a sua graça, me ajudou a modelar o feitio e me deu as habilitações que inspiraram a estima e confiança dos mesmos Superiores."
[É tremendo este tipo de discurso cardinalício. É tipicamente um discurso deísta. De um Deus que se confunde com os nossos próprios sonhos de carreirismo eclesiástico, ou outro carreirismo qualquer. Um Deus que faz os ricos ser ricos e que faz saber que a riqueza é o mais inequívoco sinal da sua bênção. Um Deus que faz os pobres ser pobres e que faz saber que a pobreza é castigo dos pecados, se não dos pecados próprios, dos pecados dos antepassados. Um Deus que está por trás e abençoa todo o tipo de subida na escala social deste mundo de poderosos e de vítimas. E nunca está com as vítimas. Um Deus que faz parte do sistema e que é a sua peça fundamental. Um Deus que tem tudo de Diabo. E que, por isso, mantém o sistema eclesiástico e os eclesiásticos que acriticamente o servem e que confundem a vontade dos Superiores (note-se, como o cardeal escreve sempre esta palavra com maiúscula!) com a vontade de Deus. Mais. Um Deus que todo o sistema dominante, também o eclesiástico, não dispensa, porque sem ele não subsiste. Um Deus que se agrada de liturgias de sofrimento e de esmagamento das pessoas e, por isso, as multiplica a todas as horas e em todos os lugares. Um Deus que, vai para dois mil anos, na pessoa dos seus funcionários maiores do Templo de Jerusalém, não reconheceu Jesus de Nazaré, encheu-o de todos os nomes feios, desde samaritano a possesso do diabo, desde agitador político a blasfemo e, depois, ainda não satisfeito, decidiu matá-lo e só descansou quando o matou na cruz, sob o poder de Pôncio Pilatos. Numa palavra, um Deus que é um assassino, como assassina é também a Ordem mundial que o reconhece e lhe presta culto].
"Não me considero melhor dos meus irmãos nem dos coetâneos da minha aldeia beirã, quando os deixei para entrar no seminário dos Padres Claretianos. A perseverança foi também graça do Senhor. Aos meus formadores e, sobretudo, a Deus, devo se fui admitido à Profissão religiosa e, mais tarde, ao Sacerdócio.
Entenderam os Superiores que me especializasse nas doutrinas eclesiásticas para poder ajudar outros candidatos a servir o reino de Deus no sacerdócio ministerial. Mandaram-me pois estudar para Roma, para as Pontifícias Universidades Gregoriana e de São Tomás de Aquino, e a seguir para a Universidade de Lovanium, onde concluí a minha especialização em Teologia Dogmática. Tudo isso me foi pedido pelos Superiores; por sua exclusiva decisão, como é costume na Vida Religiosa. Nada fiz por isso; apenas a minha dedicação ao estudo e às exigências de uma vida consagrada. E foram ainda os Superiores que decidiram sobre a minha maneira de servir a Igreja: a docência no Instituto Claretiano de Roma e na Pontifícia Universidade Urbaniana."
[Sublinho a frase, "Entenderam os Superiores que me especializasse nas doutrinas eclesiásticas...". Pode parecer que é a mesma coisa que, Evangelho de Jesus, que é a mesma coisa que Palavra de Deus, escutada no ser/viver/morrer/ressuscitar de Jesus de Nazaré, nos Sinais dos Tempos e nos dois Testamentos da Bíblia. Mas não é. Doutrinas eclesiásticas são a ideologia do próprio Sistema eclesiástico, que precisa de ser aprofundada pelos candidatos a eclesiásticos, nomeadamente, os candidatos a eclesiásticos do topo da pirâmide, como são os cardeais. Veja-se, por outro lado, como em todo este depoimento, os Superiores sempre fazem o que querem e lhes apetece. O frágil adolescente da aldeia beirã, que um dia deixou a sua terra e caiu na teia do sistema eclesiástico, tecida pelos seus mais destacados e fiéis servidores, nunca mais se encontrou consigo próprio, nunca mais decidiu por ele mesmo, nunca mais teve oportunidade de ser ele próprio. Cresceu em idade, em estatura, em saber, mais do que em sabedoria, em obediência e em subserviência. Só não cresceu em sabedoria, em rebeldia, em dissidência, em humanidade, em originalidade, em responsabilidade pessoal, numa palavra, só não cresceu como ser humano. Como ele próprio reconhece e escreve, neste momento em que a sua carreira eclesiástica atinge o clímax, tudo foi sempre da "exclusiva decisão" dos seus Superiores!...]
"Foi sobretudo a esta última [a Pontifícia Universidade Urbaniana] que dediquei a maior parte do meu trabalho de docente. E foi no exercício desta actividade que me indicaram e me escolheram para Reitor da mesma Universidade. Não entrava nos meus cálculos e nada fiz de especial para desempenhar esse serviço de chefia. Não se concorre para serviços do género. É-nos pedido e, se nos sentimos com forças, aceita-se. Quem tem por hábito contar com a ajuda do Alto não se desorienta; confia. O campo é do Senhor e é para a sua causa que se trabalha.
Na mesma normalidade e disponibilidade, sem cálculos ou especiais programas de vida da nossa parte, a Providência vai-nos abrindo caminhos, oferecendo responsabilidades, que podem deixar-nos perplexos, mas para as quais há a mesma disposição de dom e confiança de sempre.
Foi assim que um belo dia, o Santo Padre me confiou o encargo, deveras delicado e de muita responsabilidade, que é o de Secretário da Congregação para a Educação Católica, o Dicastério da Santa Sé que acompanha um dos sectores mais sensíveis da vida da Igreja, como são os Seminários, as Universidades e Institutos Superiores católicos.
Não foi fácil a nova tarefa, mas a disposição de fundo foi sempre igual: ler a vida com espírito de fé; dar o melhor que se pode e confiar na acção de Deus, que é sempre Ele o protagonista e o verdadeiro Senhor."
[O discurso, aqui, é todo de aparente humildade e cheio de Deus. Só que é o tipo de humildade que o deus-Poder, ou deus-Diabo gosta. E que consiste em que o ser humano se aniquile, se dissolva, desapareça, faça salamaleques, seja cortesão, hipócrita, diga não quando pensa sim, diga sim, quando pensa não, seja diplomata, saiba agradar aos Superiores, faça tudo para cair nas boas graças de quem tem nas mãos os cordelinhos e pode promovê-lo na carreira. É uma humildade que dá toda a oportunidade ao deus-Poder, ao deus-Diabo, em vez de toda a oportunidade ao ser humano, e espera depois ser compensado por ele. O que vem a acontecer, geralmente, quando o súbdito nunca se rebela, nunca discorda, nunca contesta, nunca manifesta opinião contrária à do chefe. No caso, aqui, é manifesto que foi assim que sempre aconteceu e, por isso, o autor do depoimento vai de degrau em degrau, sempre a subir, não a descer, até ao barrete e ao anel cardinalícios. Ora, não é nada assim a humildade jesuânica. Esta é uma humildade martirial e pode levar à cruz, como aconteceu paradigmaticamente com o próprio Jesus de Nazaré. É a humildade feita de verdade, que diz sim, quando é sim e diz não quando é não, mesmo que o chefe de turno não goste e nos sancione por isso. É a humildade de assumir a própria vida e de tomar decisões, com simplicidade e com risco, com audácia, com protagonismo, com responsabilidade, mesmo que se engane e erre. Sem jamais se refugiar sob a capa da obediência e do nome de Deus. É a humildade de ousar ser/viver desarmado perante o Poder e denunciar os seus crimes contra a humanidade, mesmo que com essa postura se perca o lugar, se perca o bom nome, se perca até a vida. Infelizmente, não é nada disto que se respira neste depoimento. Aqui, tudo é bafiento, melífluo, nojento, cortesão, tudo é habilidade, diplomacia. E o nome de Deus aparece com frequência, mas é um deus com mais de Diabo do que de Deus!].
"No mesmo espírito e disposição, aceitei a proposta que, anos depois, me fez o Santo Padre de assumir a chefia da Congregação para as Causas dos Santos, um outro Dicastério que lhe é muito caro. Todos sabem como vem fazendo da proclamação da santidade um dos pontos fortes do programa do seu Pontificado.
É óbvio que o Secretário e Prefeito de Dicastério não actua sozinho. É ajudado por um grupo de oficiais e consultores, especialistas nas matérias. Não posso dizer que perdi o sono com essas responsabilidades, também pelo meu feitio e facilidade de tomar os encargos com naturalidade, contando com a ajuda dos colaboradores e, acima de tudo, com a acção iluminadora do Espírito.
A nomeação cardinalícia não comportou perplexidades de maior, tanto mais que as responsabilidades e actividades, enquanto o Santo Padre for servido, continuarão a ser fundamentalmente as mesmas."
[Confirma-se, pelas palavras do próprio, que a concessão do barrete e do anel cardinalícios foi uma espécie de reconhecimento e de pagamento pelos serviços prestados, no caso da beatificação das duas crianças portuguesas, vítimas da cruel senhora ou deusa de Fátima. O nosso homem foi tão célere no desbloqueamento do processo, que o papa não pôde deixar de recompensar o seu fiel servidor. Sem fiéis servidores assim, como é que o papa poderia fazer "da proclamação da santidade um dos pontos fortes do programa do seu Pontificado", isto é, como é que João Paulo II poderia fazer do seu pontificado uma espécie de fábrica de produção de santos? É, por isso, que quem, na Igreja, ousar pensar por si, ser responsável, ter opinião, discordar do chefe, papa que seja, bispo que seja, pároco que seja, não serve e rapidamente é saneado. O deus-Poder só compensa quem lhe faz todas as vontades. Aos outros – mulheres e homens – arruma com eles e, se for caso disso, mata-os!].
"Não se pode deixar de sentir todavia uma certa confusão por ter sido objecto de uma especial atenção da Providência divina. Reconheço ser uma honra e, antes de mais, uma graça não indiferente, poder colaborar tão estreitamente com o Santo Padre no governo da Igreja."
[É curioso como o Deus do Sistema eclesiástico é, afinal, o anti-Deus. Quem vai por ele, triunfa. Porque ele é o deus-Poder que domina e esmaga os seres humanos. É divino, não humano, como o de Jesus, e, por isso, diviniza os seus principais servidores ou chefes. O Deus de Jesus, ao contrário, é humano e, por isso, humaniza os seres humanos que se lhe abrem e O deixam ser Deus nas suas vidas. Não garante nada a quem o deixa ser Deus nas suas vidas. Nem riqueza, nem prestígio, nem bom nome, nem sucesso. Mais: deixá-lO ser Deus em nós é arriscar-se a ter de enfrentar, armado apenas da Verdade, os representantes do deus-Poder e ser, historicamente, derrubado por eles. Por isso, é tão pequeno o número de mulheres e de homens que se abrem a uma espiritualidade de um Deus assim. É uma espiritualidade de porta estreita, arriscada, martirial, duélica. Já a espiritualidade do deus-Poder (o nosso cardeal também fala "em acção iluminadora do Espírito") é de porta larga, conta sempre com um grande número de pessoas. É uma espiritualidade de sucesso garantido. Sempre à custa, é claro, de muitas vítimas humanas].
"Os cardeais são, por uma tradição milenária, os colaboradores mais próximos do Santo Padre no exercício do seu múnus petrino. A nova situação me vincula a uma maior união e disponibilidade de serviço e de vida ao Sucessor de Pedro. Também neste particular conto com a ajuda da graça de Deus. Mais que uma honra, vejo no cardinalato, um serviço eclesial, e dentro da Igreja todo o serviço se deve processar em espírito de fé.
A graça, que sempre me ajudou, certamente, não me irá faltar de futuro. Deus ma concederá também em atenção à oração que por mim farão os leitores deste meu testemunho, ao menos os que comigo comungam do mesmo espírito de fé.
Bem-haja a todos.
+ José Saraiva Martins".
[Por mim, só espero que este meu apontamento chegue ao conhecimento do Bispo José Saraiva Martins, meu irmão na Igreja católica, e que ele se deixe interpelar por ele no mais fundo da sua consciência. Afinal, é sempre tempo de se nascer do Alto (entenda-se, do Fundo), ou seja, dos empobrecidos e sem roupa para vestir - quanto mais barretes cardinalícios para pôr na cabeça?, ou sem dedos e mesmo sem mãos (entenda-se, sem actividade digna desse nome) - quanto mais anéis cardinalícios? Numa palavra, é sempre tempo de se nascer do Espírito que respira preferencialmente nos que vivem e sofrem nos porões da Humanidade, lá muito fundo, a fazerem de base e de suporte aos alicerces dos grandes palácios, como os do Vaticano, bem como de todas as suas faustosas basílicas. É sempre tempo de se nascer do Espírito. Não do Espírito do Deus deísta, com mais de diabo do que de Deus, mas do Espírito Santo, do Espírito outro, que habitou integralmente Jesus de Nazaré e fez dele o Cristo Crucificado/Ressuscitado. Se isso acontecer, será enorme a minha alegria. E haverá também grande alegria no céu, entenda-se, entre os empobrecidos do mundo. Porque, bem vistas as coisas é aí, e não no Estado do Vaticano, onde Deus que se fez ser humano em Jesus de Nazaré, preferencialmente habita. E lá, onde Deus habita e respira, é sempre o Céu!].

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