Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

27 Maio 2001

Nem de propósito. Hoje, que é o Dia Mundial das Comunicações Sociais, as celebrações litúrgicas católicas estiverem longe do seu melhor, no que respeita ao anúncio da Palavra para o hoje e aqui da Humanidade. Pelo menos, a julgar por aquelas poucas que têm mais visibilidade no país, quer através da rádio, quer através da televisão.
Comunicação na Igreja é coisa que nunca acontece, nas chamadas assembleias litúrgicas do Domingo. Lá, onde só quem preside é que tem a palavra, como se pode falar de comunicação? Mas é isto que acontece sistematicamente. E, então, nas missas de Domingo, difundidas pela rádio ou pela televisão, ainda mais esta falta de comunicação é notória.
A assembleia entra muda e sai calada. Eu sei que, no decorrer da cerimónia litúrgica – escrevi "cerimónia" intencionalmente, porque é isso que se passa, não é uma celebração que acontece – as pessoas emitem sons e tomam uma ou outra atitude. Mas não dizem nada de pessoal e de original. Nem fazem nada de criativo e de surpreendente.
Limitam-se a reproduzir o que está previsto no ritual. Exactamente o contrário da comunicação. Nesta, nunca se sabe o que vai ser dito. É sempre surpresa, tal como cada ser humano a valer é sempre surpreendente.
Mas como havia a Igreja, nomeadamente a católica, de promover a comunicação, se a sua hierarquia não sabe lidar com pessoas, só com súbditos, não aprecia a liberdade, só a obediência, desconhece a real dignidade de cada ser humano, só a subserviência? Uma Igreja que avance pela comunicação, que estimule e promova a comunicação, é, tem de ser, uma Igreja outra, nos antípodas da que hoje conhecemos.
Evidentemente, que eu teria só motivos para me alegrar, se isso acontecesse. Mas com uma hierarquia à frente da Igreja, tudo nela é piramidal, nada pode ser comunitário, muito menos igualitário. Por isso, comunicar, é impensável. Comunicar é próprio de pessoas livres e iguais. O que não se verifica na Igreja, tal como ela, desde há séculos se apresenta, e ainda hoje é.
No querer do papa João Paulo II, o Dia Mundial das Comunicações Sociais, deste ano 2001, tem como palavra de ordem, "Anunciai-o de cima dos telhados" (Mt 10, 27). Mas este anúncio foi o que hoje menos se viu e ouviu, nas liturgias católicas.
Os padres que presidiram, perderam-se na linguagem mais ou menos mítica e falaram de Jesus, o Cristo – os que falaram - mas como se ele fosse o primeiro astronauta da História. Com recurso a uma linguagem datada, a das narrativas do Novo Testamento. Não foram capazes de falar de Jesus, o Cristo, com a linguagem deste início do século XXI e do terceiro milénio. Nisso, são muito pouco ou nada criativos, pouco ou nada contemporâneos. São de hoje, no dizer do bilhete de identidade. Mas, na linguagem que utilizam, são de há quase dois mil anos.
De modo que, em Dia Mundial de Comunicações Sociais, insistir na linguagem mítica que estava muito em voga nos países do Império romano, do século I da nossa era, nomeadamente, entre os povos de cultura helénica, é um tremendo desastre. Melhor seria que os padres estivessem calados. Porque a linguagem de então, transplantada para o nosso aqui e agora, não diz nada às pessoas que, felizmente, já começam a nascer e que crescem fora da influência do velho campanário católico e das velhas catequeses paroquiais. Insistir nela, só baralha as pessoas que se encontram nessa nova situação. Não será, por isso, de estranhar que elas fiquem indiferentes ao que dizem os padres e os bispos.
Só que, com isso, também Jesus, o Cristo, acaba por ficar fora das preocupações das pessoas. Não chega a fazer parte das suas vidas. Torna-se alguém que não lhes interessa. Como se fosse mais um padre ou um bispo. Por isso, mais do que dispensável nas vidas delas. E isto é que me aflige.
Quem ouviu as homilias deste Domingo, mesmo de padres tidos como dos melhor preparados em exegese bíblica e que presidem a comunidades cristãs com alguma preocupação de qualidade, ouviu falar de Jesus, mas com recurso a uma linguagem sem pés nem cabeça, pelo menos, para hoje. Disseram, concretamente, que ele, primeiro, desceu do céu e, depois, no termo da sua vida, subiu ao céu.
Uma linguagem assim está mesmo a sugerir que Jesus é um astronauta. Por sinal, ainda inultrapassável, uma vez que, até hoje, nenhum astronauta conseguiu repetir a proeza miticamente atribuída a Jesus. Todos eles sobem ao céu e descem do céu, mas no interior duma máquina. Eles próprios, em corpo e alma, nem sobem nem descem, não descem nem sobem. Tamanha proeza só Jesus, o Cristo, a teria protagonizado. Isto, se tomássemos a sério as homilias dos padres, nas missas deste Domingo sete, da Páscoa.
É manifesto que, com uma linguagem assim sobre Jesus de Nazaré, o Crucificado pelo Templo e pelo Império do seu tempo, as pessoas deste início do século XXI só podem rir-se. Ou encolher os ombros. E pensar que os padres não estão bons da cabeça. Em consequência, viram costas e vão para outra!
A verdade, porém, é que o mundo de hoje anda cheio de fome e de sede de Jesus, do seu projecto, do seu ser/viver. Como não o encontra a ele, mesmo naquelas Igrejas que ainda falam dele, mas numa linguagem mítica e totalmente desfasada da nossa cultura, o mundo humano acaba por ser um mundo à deriva, que corre atrás de deuses e de deusas, numa fúria consumista de coisas e de religiões, a qual, se não for travada a tempo, acabará por fazer da maior parte de nós, coisas, verdadeiras estátuas de sal, como da mulher de Lot, diz a Bíblia que se tornou. Ou não fosse verdade que acabamos sempre por ser aquilo que comemos.
Jesus, no dizer quase escabroso do Evangelho de João, insistiu com as mulheres e os homens seus contemporâneos, acerca da necessidade que elas e eles tinham de comer a carne dele e beber o seu sangue. Não estava, evidentemente, a convidá-los a ser antropófagos, menos ainda, teófagos. Estava a convidá-los a serem mulheres e homens da mesma qualidade, do mesmo jeito dele, e a viverem segundo a sua arte de viver. Estava a convidá-los a identificar-se com ele. A ser/viver segundo uma dinâmica outra, de sentido oposto à dinâmica da Ordem Mundial dominante, que transforma as pessoas em coisas, em objectos, em súbditos, em subservientes.
Por ser verdade que acabamos sempre por ser aquilo que comemos, é que Jesus insiste tanto em que é preciso comermos a sua carne e bebermos o seu sangue. Para, assim, acabarmos por ser mulheres e homens como ele, mulheres e homens daquela qualidade que os sistemas dominantes não gostam nada, e que até matam – hoje, lançam ao desprezo - quem se atreve a ir por aí.
A sofreguidão com que hoje a maior parte das pessoas vive, o frenesim e o corre-corre e a superficialidade com que tentam encher o vazio, que é o seu ser/viver quotidiano, mostram à saciedade que elas não estão nada bem. O vazio das pessoas tem de ser preenchido, seja com o que for.
As pessoas precisam, pelo menos, de ter a sensação de que enchem o vazio que as aflige e tortura. Só que cada vez estão mais vazias. Porque enchem o seu vazio de coisas, como se a sua fome e a sua sede fossem de coisas. Não são. São fome e sede de ser. E isso as grandes superfícies comerciais e o Mercado Total não vendem.
O Ser não se presta a ser mercadoria, como o Ter se presta. O Ser não é de vender/comprar. Tem de rebentar no mais fundo e no mais dentro da consciência de cada pessoa, como a água duma fonte. E é aqui que Jesus de Nazaré, o Cristo, tem uma palavra a dizer, e uma palavra insubstituível. Melhor, Jesus, o Cristo, é a Palavra insubstituível. Porque é a Palavra com Espírito Santo. É o Verbo com Sopro outro, que nos cura de raiz, nos salva de raiz. Ele é a Comunicação-que-nos-faz-comunicadores, que nos faz seres-em-comunicação-e-em-comunhão. Não nos fala de fora para dentro. Não faz comunicados, como o poder faz, como a hierarquia faz. Ele é a Palavra com Espírito Santo, é o Verbo com Sopro criador e libertador. Como tal, é a Palavra que, finalmente, rebenta em nós, que nos faz nascer como pessoas-fonte, pessoas-dom, pessoas-que-se-entregam-aos-demais-seres-humanos. E quanto mais as pessoas se entregam, gratuitamente, não como mercadoria, como hoje tanto se vê suceder, quanto mais as pessoas se dão, quanto mais as pessoas comunicam, quanto mais as pessoas se partilham, mais são. Tal como a fonte que é tanto mais, quanto mais se desfaz em água, sem nada exigir em troca ao transeunte que dela bebe e prossegue o seu caminho.
É preciso que se diga, duma vez por todas, que Jesus de Nazaré não desceu do céu, como um meteorito de Deus. Nem subiu ao céu, como um astronauta. Nenhum ser humano desce(u) do céu. E Jesus é ser humano, em tudo igual a nós. Excepto no pecado, acrescentou logo o apóstolo Paulo (mas, atenção, é o mesmo Paulo quem diz que Jesus, embora não conhecesse pecado, "fez-se pecado" por nós, connosco). Jesus é judeu, nascido de mulher, ainda na feliz expressão do mesmo apóstolo Paulo. Como tal, Jesus não desceu do céu. Nem subiu ao céu. Desde a sua Morte/Ressurreição, vive para sempre semeado na História. É Emanuel, Deus-connosco.
É esta Boa Notícia que a velha linguagem mítica de subir e de descer, quer significar. Por que havemos, então, de insistir nessa linguagem, em lugar de a traduzirmos para a nossa linguagem de hoje? Não é para as mulheres e para os homens de hoje, nossos contemporâneos, que estamos a falar? Não é para elas e para eles que havemos de anunciar Jesus de cima dos telhados?
"Estarei convosco todos os dias até ao fim", isto é, sempre, garante Jesus. Com o recurso ao subir e ao descer, a Igreja do século I, pretendia dizer que Jesus é o ser humano com o Espírito Santo, como tal, é desta Humanidade, mas não é desta Ordem mundial dominante, hoje, a Ordem Mundial das multinacionais e do Mercado total. É o ser humano a valer, em quem, finalmente, pudemos ver como há-de ser todo o ser humano que se preze. E em quem pudemos ver como é Deus, Aquele Deus Vivo e criador que acompanha a Humanidade e caminha com ela nos caminhos de Emaús que são todos os nossos caminhos, feitos de encontros e desencontros, de astres e desastres, de festa e de cruz, de êxitos e fiascos, de aplausos e de exclusões.
Não nos venham, pois, dizer que Jesus subiu ao céu, no termo da sua vida histórica. E que está para voltar um dia destes, como tanto insistem em dizer os novos movimentos religiosos, por sinal, sem qualquer originalidade, apenas com muito fundamentalismo, já que limitam-se a reproduzir a linguagem mítica e apocalíptica utilizada pelas comunidades cristãs do século I.
Jesus, o Crucificado pelo Templo e pelo Império do seu tempo, é o Ser Humano, simplesmente. Paradigma do que deve ser todo e qualquer ser humano, mulher e homem. Toda a linguagem mítica e apocalíptica, a que as comunidades cristãs primitivas recorreram, mais não quis dizer do que isto. Como não somos, nem desse tempo, nem dessa cultura, temos alguma dificuldade em entender essas expressões. Reproduzi-las, hoje, à letra, será catastrófico. Mas é o que insistem em fazer esses novos movimentos religiosos e a própria Igreja católica, quando os textos litúrgicos vão por aí.
Sosseguem! Jesus não está para vir segunda vez. Pela simples razão de que nunca nos deixou! O Credo católico também o diz. E acrescenta, de imediato, que ele há-de vir para julgar os vivos e os mortos. Quem isto diz e quem isto ouve, logo pensa em prémios e castigos. Há-de vir para premiar quem se comportou bem e castigar quem se comportou mal. Como se Deus, alguma vez, fosse Deus de castigos ou de prémios. Não fosse Deus, simplesmente, pura Graça, puro Dom.
Deus é sempre Deus de salvação, de reabilitação, de criação de seres à sua imagem e semelhança. Mais. É criador de filhas suas e de filhos seus. Nunca é Deus de castigos nem de perdição. Deus é sempre Boa Notícia, a melhor Boa Notícia, para os seres humanos. De modo que, se alguma Igreja invoca o Nome de Deus para aterrorizar as pessoas, está a blasfemar e a usar o Nome de Deus para fins que o Nome de Deus não comporta.
Jesus não está para vir de novo à terra. Ele é o Emanuel. Para sempre. É Aquele que é/vive/respira em cada uma e cada um de nós. Só é preciso que cada uma/cada um de nós dê pela sua misteriosa Presença. E se abra ao seu Espírito, ao seu Sopro, que, gratuitamente, nos habita.
A Igreja, se não nos dá esta Boa Notícia, não é Igreja cristã. Por mais que se diga. Muito menos é jesuánica. Por mais que fale no nome de Jesus. Os seus responsáveis conseguem converter o nome de Jesus num ídolo, num diabo, com que, depois, amedrontam as pessoas, para melhor lhe poderem assaltar a carteira e a conta bancária, e apoderarem-se de todos os seus bens e da própria vida delas.
É importante perceber que Jesus, o Cristo, vive no mais dentro e no mais fundo da nossa consciência, mediante o seu Espírito. Para que todas e cada uma de nós/todos e cada um de nós sejamos aqueles seres originais que estamos vocacionados a ser. Não meros macacos de imitação. Não clones de ninguém. Mas nós próprias. Nós próprios. Únicas. Únicos.
Jesus, o Cristo, não está no céu. Está na terra. Não está fora da História. Está na História. É um dos nossos. Para sempre. E numa actividade ininterrupta. Não no estilo frenético e consumista. Sim, na dimensão do ser. Está a trabalhar para levar à plenitude a Criação que um dia se iniciou e continua em curso. Porque ainda não somos o que seremos. Enquanto durar a História, nunca somos o que seremos. Somos pessoas continuamente a fazer-se, em transformação. Numa Páscoa/Passagem permanente, que é também criação permanente. Que não conhece limite. Até sermos mulheres e homens à imagem e semelhança de Deus.
Mentem-nos, quando nos dizem que Jesus está para vir, de novo, à terra. Brincam connosco. Enganam-nos. Procedem assim, porque não nos querem felizes, numa felicidade sem ocaso. Querem-nos subjugados, assustados, escravizados. Totalmente à mercê de quem assim nos fala. Totalmente à mercê de minorias espertalhonas, religiosas ou não, que têm por pai o diabo, a Mentira, que faz escravos. Quando, afinal, estamos chamadas e chamados à liberdade, a qual só se alcança mediante a Verdade.
A Igreja tem de aprender a falar para o século XXI e para o terceiro milénio. Sob pena de ficar fora de um de outro. As comunidades cristãs primitivas souberam fazê-lo. Eram inicialmente judaicas e foram capazes de traduzir a Boa Notícia de Deus, que é Jesus de Nazaré, o Cristo, em linguagem que as populações de formação helénica entenderam.
Os relatos evangélicos, por exemplo, são uma ousada criação das comunidades cristãs primitivas. As pessoas, na sua esmagadora maioria, ainda hoje não sabem – ninguém lhes diz e elas também não fazem qualquer esforço por investigar e saber – que, por exemplo, os quatro Evangelhos, atribuídos a Mateus, Marcos, Lucas e João, quase não têm uma palavra saída da boca de Jesus, filho de Maria e de José. Os discursos que lá encontramos, são postos na boca de Jesus, mas na verdade são discursos criados pelas escolas teológicas das comunidades cristãs que estão por trás de cada um dos Evangelhos. E não quaisquer discursos. Mas discursos concebidos para iluminar e ajudar a resolver os problemas concretos com que essas mesmas comunidades, na altura, se debatiam.
Não se pense que um procedimento destes é uma traição a Jesus de Nazaré, o Cristo. Pelo contrário, é até a única maneira de se lhe ser fiel. Precisamente, porque Jesus, o Cristo, não é apenas de Ontem. É também de Hoje. E de Sempre.
Ficar a repetir, até à náusea, os textos do Novo Testamento, em lugar de, em cada geração, ousarmos dizer, na nossa língua e na nossa cultura, a Boa Notícia de Deus, que é Jesus de Nazaré, o Cristo, isso, sim, é que é traição. Infelizmente, é o que, como Igreja, temos feito, ao longo destes vinte séculos de Cristianismo.
A Cúria Romana e as Congregações romanas, a começar pela da Fé, são, neste particular, verdadeiros monstros. Não só não vivem à escuta do que o Espírito de Jesus, o Cristo, está continuamente a dizer à Igreja e à Humanidade, no seu todo, como até impedem e perseguem quem, dentro da sua limitação e da sua fragilidade, procura fazê-lo, como resposta aos problemas do seu tempo e país. O mesmo se diga das Cúrias episcopais, com os seus bispos-senhores-feudais e os seus cónegos, cada qual o mais preguiçoso e o mais instalado na rotina dos dias. A criatividade nunca foi o forte desta gente. Só a repetição, a rotina. Do Novo, fogem a sete pés. Há muito, que perderam a pedalada e limitam-se a gerir os negócios correntes da respectiva Cúria. Enquanto o mundo, como muito oportunamente escreve o poeta, pula e avança, como bola colorida entre as mãos de uma criança. São homens cansados, que passam a vida a ver navios. Não vão nos navios. Menos ainda, criam navios para irem neles. Passam a vida a olhar para o céu. Não são capazes de olhar para a Terra. E de sujar as mãos. Citam-se uns aos outros, numa fidelidade ao instituído. Não têm a audácia de ser criadores.
"Está escrito que o Messias – o Cristo - haveria de sofrer e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia". Isto disseram as comunidades cristãs primitivas, quando, depois de terem perdido de vista Jesus de Nazaré, a quem o Templo e o Império, coligados, mataram na cruz, caíram na conta de que ele, afinal, não só não era o blasfemo e o subversivo que eles diziam que era, como até era o Cristo de Deus. E, nessa condição de Cristo de Deus, vivia para sempre com elas e entre elas, bem como no mais íntimo de toda e qualquer pessoa que vem a este mundo.
É esta tomada de consciência que faz das comunidades cristãs primitivas, missionárias, apostólicas, em estado de missão, enviadas. Temos andado a pensar, até hoje – as catequeses eclesiásticas a isso nos têm levado – que as comunidades cristãs primitivas eram apostólicas, porque foram fundadas pelos apóstolos, ou porque mantiveram contacto com os apóstolos. Não nos têm dito – mas isso é que é decisivo – que as comunidades cristãs primitivas são apostólicas, porque caíram na conta de que aquele Jesus que o Templo e o Império, coligados, mataram na cruz, afinal, está vivo. Mais. Vive para sempre com elas e entre elas, bem como no mais íntimo de cada ser humano, mulher ou homem, crente ou ateu.
É esta tomada de consciência, é esta nova visão da realidade, que os simples olhos carnais não vêem, e os ouvidos não ouvem, mas que é captável a quem vê o Invisível e ouve o Inaudível – as vítimas da História e o seu clamor fazem parte dessa realidade mais real, que quem vive instalado em algum dos sistemas da Ordem Mundial dominante, habitualmente, não vê nem ouve - que faz das comunidades cristãs primitivas, comunidades apostólicas, em estado de missão, enviadas ao resto do mundo.
Nunca mais elas puderam ficar paradas, imóveis, a repetir até à náusea, as mesmas coisas, os mesmos ritos, no interior do Templo de Jerusalém, esse Templo que, escandalosamente, se revelou assassino, por isso, mentira pegada, mentira institucionalizada, sempre a coberto do santo Nome de Deus!
Saíram dele duma vez por todas e foram anunciar ao mundo a mais espantosa Boa Notícia de Deus, que é Jesus de Nazaré, o Cristo. Esta Boa Notícia tinha de ser gritada de cima dos telhados, não imposta pela força a ninguém. Se, entretanto, calha de ser escutada e acolhida, mudará por completo o ser/viver das pessoas que a escutam e acolhem, e mudará a face da terra, como uma nova e reiterada criação.
É esta tomada de consciência de que Jesus de Nazaré, morto pelo Templo e pelo Império, coligados, é o Cristo de Deus, que faz com que as comunidades cristãs primitivas se tornem apostólicas, enviadas, missionárias, itinerantes.
O culto que elas passam a prestar a Deus não tem mais que ver com estéreis ritos nos templos, em que todas as religiões são peritas, e que só prejudicam a Humanidade. Tem que ver com a arriscada e martirial missão de Evangelizar os pobres, anunciar Jesus de Nazaré crucificado pelo Templo e pelo Império, como o Cristo de Deus. O qual, desde a sua Ressurreição, vive no mais íntimo de cada pessoa, como o Verbo com Espírito Santo, esse Sopro criador e libertador que está nos antípodas do sopro domesticador e opressor que, a todo o momento, se respira dentro da Ordem Mundial dominante e nos sistemas em que ela se materializa, até nos sistemas religiosos e eclesiásticos. Dentro da qual cada uma e cada um de nós nasceu, mas de onde temos de sair, como num êxodo ou numa Páscoa sem regresso, se quisermos chegar a ser pessoas livres e sororais/fraternas.
Foram heróicos esses tempos das comunidades cristãs primitivas, todas elas apostólicas, ou seja, em estado de missão, enviadas ao resto do mundo, verdadeiros arautos da Boa Notícia de Deus, que elas viram e ouviram em Jesus de Nazaré, o Cristo. Elas tinham necessidade de sair pelo mundo, a testemunhar/partilhar essa descoberta, essa nova visão da realidade, que mudou radicalmente o ser/viver de quantas e de quantos as constituíam.
Todas as pessoas do mundo, em cada tempo e lugar, precisa(va)m de saber que o Templo – qualquer templo – jamais foi ou será lugar de encontro com Deus, como mentirosamente, dizem todas as religiões. Tão pouco é casa de Deus. O Templo é casa de Mentira, é casa do Diabo. Por isso, é casa de opressão, é casa que mata as pessoas, nomeadamente, a sua originalidade, a sua criatividade, a sua singularidade, a sua liberdade.
Todas as pessoas do mundo, em cada tempo e lugar, precisa(va)m de saber que o Templo, qualquer templo, não liberta. Domestica. Não tira o medo às pessoas. Incute-o e alimenta-o nas pessoas que o frequentarem. Não torna as pessoas criadoras. Torna-as repetidoras. E, coligado com o Império, o Templo é o grande canonizador da Ordem Mundial dominante, que está aí empenhada em transformar as pessoas em coisas, as pessoas vivas em mortas, as pessoas criadoras, em consumidoras.
Esta Boa Notícia correu veloz pelos povos do Império. E o Império estremeceu e assustou-se. Perseguiu as comunidades cristãs que a proclamavam e que a testemunhavam no seu novo jeito de ser/viver como mulheres e homens sororais/fraternais, em autênticas e surpreendentes comunidades de vida, de bens e de afectos. O Império tudo fez para acabar com as Comunidades cristãs. Só que, quanto mais as perseguia, mais elas cresciam e mais a Boa Notícia de Deus que é Jesus, o Cristo, atingia as pessoas e as transformava radicalmente.
Foi então que o Império decidiu mudar de estratégia. Mentirosamente, aliou-se às comunidades cristãs e fez-lhes propostas objectivamente indecentes, desonestas, obscenas, idolátricas, mas, habilmente, escondidas por trás de privilégios sem conta, a conceder, nomeadamente, aos seus líderes, até então perseguidos e martirizados.
As comunidades deixaram-se seduzir. Pensavam que se lhes abriam todas as portas à missão de anunciar Jesus, o Cristo, como a Boa Notícia de Deus. E, praticamente, todas elas se fecharam. Elas próprias, de comunidades apostólicas que eram, transformaram-se em religião oficial e única do Império. Regressaram ao Templo. Ocuparam as basílicas das outras religiões, entretanto, proibidas pelo Império. Construíram outras ainda maiores e mais luxuosas. Numa palavra, regressaram ao antes de Jesus de Nazaré, o Cristo. Voltaram à Mentira. E é praticamente aí que ainda hoje estamos.
É certo que o Concílio Vaticano II (1960-1965) deu o alarme e levantou-se contra esta traição. A Ordem Mundial dominante voltou a assustar-se. Sentiu-se de novo ameaçada. De repente, a Igreja católica estava na rampa de lançamento para se tornar de novo Igreja apostólica, o grande arauto da Boa Notícia de Deus, que é Jesus de Nazaré, o Cristo.
As comunidades cristãs de base surgiram um pouco por toda a parte, com destaque, nos países empobrecidos da América Latina e da África. E, com elas, a teologia da libertação. Como no princípio, com as comunidades cristãs primitivas, também as comunidades cristãs de base, nascidas do Vaticano II, eram servidas por escolas teológicas que tomaram consciência de que, afinal, o Espírito de Jesus, o Cristo, não está no Templo nem no Império, muito menos, na coligação de ambos.
Aconteceu a revolução, outra vez. A Humanidade mais empobrecida e oprimida nasceu de novo, do Alto. A Utopia regressou. Pudemos, por uns anos, ver a Nova Criação em marcha. Cantámos e dançámos. Só que o Império estava à espreita. E depressa arranjou maneira de tudo matar, roubar e destruir. Até a Utopia!
A Cúria Romana, por seu lado, não hesitou em aliar-se ao Império. Como poder ditatorial e absoluto que é, agiu rapidamente e em força, sempre em coligação com o Império. Perseguiu e excomungou as comunidades cristãs de base e a sua Teologia libertadora. Restaurou o Templo. Sempre de mãos dadas com o Império. As viagens papais foram decisivas na consecução deste objectivo.
O Império também nunca mais parou. E, como nunca disse ateu – tem, entretanto, o cuidado de não se dizer deísta e idólatra, que é o que ele é - fez nascer inúmeros movimentos religiosos novos, cada qual o mais alienador e perverso, que, depois, exportou para os países onde a Teologia da libertação e as comunidades cristãs de base estavam a protagonizar uma Nova Criação e um Novo Começo.
Por outro lado, como é mentiroso e assassino, conseguiu que as populações empobrecidas e oprimidas fossem de novo enganadas, assassinadas, roubadas e destruídas. E a prova é que nunca, como nos últimos anos do século XX, os massacres de populações católicas camponesas e empobrecidas tinham ido tão longe.
É neste ponto que, hoje, estamos, como Humanidade. Por isso, esta é, outra vez, a hora do poder das trevas. A hora do Templo e do Império coligados. A hora de matar, roubar e destruir as populações e os povos. A hora da Mentira institucionalizada. A hora da Ordem Mundial dominante.
Mas é também a hora das e dos Mártires. É incontável o seu número. Todos os milhões de excluídas e de excluídos, que não têm lugar na mesa dos privilégios, onde se sentam as hierarquias eclesiásticas e religiosas e os representantes do Império e das suas multinacionais assassinas.
A Igreja deveria dizer-nos estas coisas. Não diz. Está calada. Como cão mudo. Adormecida. Alienada. Perdida nos ritos e nos formulários litúrgicos, mais do que parvos, cujas orações papagueadas são um insulto ao santo Nome de Deus.
Pensam os seus responsáveis que o destinatário dos seus cultos parvos e das suas orações papagueadas é Deus. Não é. O destinatário dessas orações papagueadas só pode ser o Deus da Ordem Mundial dominante, o Deus do Templo e do Império coligados entre si. Como tal, um ídolo cego, surdo, mudo, e sem entranhas de misericórdia. Em tudo semelhante àquele Deus que os sacerdotes do tempo do profeta Elias, cultuavam, a partir da farta mesa do rei Acab e da rainha Jezabel. Por isso, um Deus monstro, que se alimenta de gente, e que exige sacrifícios às populações já, de si, condenadas a um viver tão sacrificado. Uma besta, que aterroriza e oprime as populações. Um vampiro que mata as populações, para lhes chupar o sangue.
Ou a Igreja se arrepende, se converte, se desvincula definitivamente do Império e deixa o Templo, ou não passará, a breve trecho, duma seita religiosa mais, com uma diferença em relação às outras seitas, para pior: é a que tem mais súbditos!
Infelizmente, as liturgias dominicais, tais como continuam a fazer-se por aí, não nos dizem que esteja para breve esta conversão da Igreja. Mas a Deus nada é impossível. O Espírito trabalha continuamente a Humanidade. E o que poderá suceder é que, perante a não conversão da Igreja, o Espírito se afaste definitivamente dela. E suscite filhas e filhos de Abraão, das próprias pedras!
Parece-me que é mais isto que está já a acontecer. Também com pessoas que, embora, oficialmente, continuem no interior da Igreja católica, estão a deixar-se fazer pelo Espírito de Jesus, o Cristo. Por isso, já não seguem o Sopro da Cúria Romana ou das múltiplas Cúrias episcopais, na medida em que estas estão feitas com o Poder de turno, com o Império, e persistem em gastar o melhor das suas energias na manutenção do culto no Templo. A partir do qual pontificam. Como se ele fosse casa de Deus, casa de Liberdade, quando, desde a Morte/Ressurreição de Jesus de Nazaré, o Cristo, ficou claro para sempre que o Templo é casa de Mentira, casa de Opressão, assassino. Detentor duma doutrina que mata, rouba e destrói a vida e a dignidade das populações que caiam na asneira de o frequentar.
A Humanidade está a afastar-se, progressivamente e em ritmo acelerado, da Igreja. Não do Espírito de Jesus, o Cristo. Por isso, embora esta seja a hora das trevas, é também a Hora do Espírito de Jesus, o Cristo. As dores são muitas e violentas. Mas são dores como de parto.
O Futuro não será da Ordem Mundial dominante. Não será do Templo e do Império. Será do Espírito de Jesus, o Cristo, a Boa Notícia de Deus que tem de continuar a ser anunciada de cima dos telhados. Não só os tradicionais telhados das casas de família. Também os novos telhados da internet e dos grandes "media". Nem que seja por infiltração. Como quem aproveita um momento de distracção dos donos das multinacionais do sector. É preciso, por isso, estarmos preparados para os grandes combates que se aproximam. Porque a História ainda mal começou. Acreditem! E arregacem as mangas. Com esperança e alegria sem fim.

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