Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

19 Maio 2001

O Boavista tornou-se ontem, a uma jornada do fim, campeão da Primeira Liga de Futebol, ao vencer por 3-0, no seu campo, o Desportivo das Aves. É campeão por mérito próprio e demérito dos restantes clubes, nomeadamente, dos chamados "três grandes", que o são, sobretudo, nos gastos sem conta, na compra de jogadores por muitos milhões, no incumprimento dos seus deveres sócio-fiscais e nos projectos megalómanos em que se envolvem, sem que ninguém - nem sequer os jornais da especialidade - saia a ter mão nos seus dirigentes, nomeadamente, através da firme denúncia feita com oportunidade e sensatez.
Mas quem viu e ouviu, via tv, as primeiras reacções e as primeiras palavras do presidente do Clube, João Loureiro, filho e sucessor do Major Valentim Loureiro - o dos milagres da multiplicação dos electrodomésticos na casa de algumas famílias pobres, por ocasião das campanhas eleitorais para as autarquias - terá ficado com a convicção de que o Boavista conquistou, pela primeira vez, na sua história, o título de campeão nacional de futebol, graças a uma especial ajuda de Deus.
Eis os factos que suportam esta convicção: 1. quando o Boavista meteu o primeiro golo, o seu presidente – nesse jogo, as câmaras da tv tiveram-no obsessivamente na mira e ele sabia disso – logo se benzeu, beijou um dedo da própria mão que fez o gesto de auto-bênção, ao mesmo tempo que os olhos dele se ergueram em direcção ao céu, numa postura, tradicionalmente, interpretada como de inequívoco agradecimento a Deus. 2. Quando acabou o jogo, o mesmo presidente foi entrevistado em directo pela tv e saiu-se, despudoradamente, com esta tirada: "Primeiro, quero agradecer a Deus este título!" Referiu, depois, duas mulheres que estavam a seu lado, às quais estendeu o mesmo agradecimento: a própria mulher e a mãe, cada qual a mais ufana, por tão exemplar marido e filho, respectivamente.
Vi e ouvi tudo isto. E fiquei profundamente incomodado e indignado. E aqui estou a dar conta desta minha incomodidade e desta minha indignação. Tanta invocação do nome de Deus, cheira-me a esturro.
Alguma coisa me diz que, quando alguém invoca assim o nome de Deus, ao ponto de fazer dele uma espécie de troféu de valor acrescentado, em seu próprio proveito, está a pretender que esse santo Nome sirva de manto para tapar algo de intolerável.
Não é por acaso que os Dez Mandamentos da Lei de Deus, atribuídos a Moisés, ordenam, de forma solene e inequívoca, "Não invocarás o Nome de Deus em vão". E Jesus de Nazaré adverte, no final do Sermão do Monte, "Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino do Céu, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está no Céu" (Mateus 7, 21).
Nesta sua postura, com o seu quê de teatral e de hipócrita, João Loureiro é bem filho de quem é, o Major Valentim Loureiro. Também este insiste em invocar o nome de Deus, a propósito de tudo e de nada. Sobretudo, insiste em mostrar publicamente que se relaciona muito bem com os párocos do concelho, de cujo município é o presidente. E não só com os párocos. Também com o actual Bispo da Diocese do Porto, de quem se diz abertamente amigo.
Não creio que o Major Valentim Loureiro tome estas atitudes por acaso. Político sabido como é, não dá ponto sem nó. O Major sabe que, aparecer publicamente bem relacionado com o clero católico do concelho e com o Bispo da Diocese, é como aparecer, aos olhos das respectivas populações, bem relacionado com Deus. Por isso, usa e abusa desta fórmula, para obter dividendos políticos. O que faz desse uso do nome de Deus, uma blasfémia e uma obscenidade sem nome
Pelos vistos, o filho dele e seu sucessor à frente dos destinos do Boavista, já tem a mesma escola do pai e, como sai aos seus, não degenera. A prova é que soube aproveitar o directo televisivo para dizer ao país, dentro de fronteiras e fora de fronteiras, que, como o seu pai, é um homem familiarizado com Deus, por isso, um homem acima de toda e qualquer suspeita. Não o disse assim, com estas palavras. Mas o facto de, na hora da vitória, não se ter esquecido de agradecer, de imediato e perante as câmaras, o título a Deus, isso vale simbolicamente como tal.
Ao mesmo tempo, João Loureiro deixou nas pessoas a impressão de que, pelo menos, nesta altura do campeonato, Deus é do Boavista. E, se Deus é do Boavista, este é invencível e, enquanto clube, é um clube acima de toda e qualquer suspeita. Pelo que ele, João Loureiro, seu presidente, só pode ser um dos bafejados eleitos de Deus.
Para mim, estas posturas públicas têm algo de obsceno, que me deram e ainda dão um arrepio na espinha. Não sei como é que os responsáveis maiores das Igrejas vêem estes factos. Provavelmente, até se alegrarão, ao verem os grandes do mundo reconhecerem Deus e referir-se a Ele publicamente, sem vergonha. Mas para mim, posturas como esta de João Loureiro e do seu pai, são uma obscenidade. E deixam-me profundamente incomodado e indignado.
Esta postura do presidente do Boavista campeão pode não ser nada de especial. Pode ser apenas uma manifestação pública de idiota beatice. Em consequência duma catequese familiar e católica, totalmente deísta, que terá recebido em criança e da qual ainda se não libertou.
Mas o tom em que o fez e a visível preocupação com que o fez, pareceu-me ser parte duma hábil estratégia, como quem soube aproveitar o momento para lançar mão duma arma simbólica e esgrimi-la com oportunidade. Ou para afastar possíveis suspeitas e insinuações de bastidores, ou para abrir caminhos a outros voos pessoais, no próximo futuro. Nunca ninguém invoca o nome de Deus, em circunstâncias como estas, sem ter algum objectivo em vista. Falta saber qual é, no caso em questão.
Por mim, não sei, nem tenciono correr a investigar. Mas que o facto me perturbou e muito, não nego. Não conheço pessoalmente João Loureiro. Só o conheço da televisão e dos jornais. Mas esta inesperada reacção diz-me muito. Negativamente. Se não for uma manifestação de idiota beatice, poderá ser caso para desconfiar e sair a investigar, por parte de quem de direito e dos jornais da especialidade.
É sempre obsceno que alguém se lembre de invocar o nome de Deus, em momentos de vitória. Porque, se o nome de Deus anda associado a vitórias clubísticas e a outras vitórias, que o são em detrimento de outras pessoas, então o nome de Deus só pode ser blasfemado pelos empobrecidos e pelos vencidos deste mundo, que nunca têm vitórias para agradecer. A ser assim, os perdedores da História – quase sempre, os mais justos e honestos entre os seres humanos - nunca poderiam pensar e pronunciar o nome de Deus. A não ser para o blasfemar.
Devo confessar que, pessoalmente, até gostei de ver o Boavista como campeão. Para que os êxitos não sejam sempre dos grandes, dos endinheirados, dos poderosos. Mas fiquei completamente indignado, quando vi o presidente do clube naqueles propósitos. Com isso, perdeu de imediato a minha simpatia, a minha admiração, o meu aplauso.
Quem se comporta deste modo, na hora da vitória, perde em toda a linha. Porque não se dignificou a si mesmo, como ser humano. Nem, no caso em questão, dignificou o clube, do qual é o presidente. Tão pouco dignificou o trabalho e o esforço dos atletas e da equipa técnica. Ao atribuir a vitória a Deus, todo o trabalho realizado por tanta gente, ficou automaticamente desvalorizado. E isto é intolerável. Tem um sabor a blasfémia.
Desenganem-se os que pensam que Deus tem ciúmes dos nossos êxitos. E que, por isso, se sentem na obrigação de se diminuírem diante dEle, para que Ele cresça. Um Deus que precisa que a criatura se diminua diante dEle, para que Ele cresça, é um Deus para deitar fora. Seria um rival da criatura. Esta fará muito bem se se rebelar contra ele. E se declarar ateia.
Deus só tem sentido para a criatura, se progressivamente se diminui, para que ela progressivamente cresça. Se é capaz de desaparecer, para que ela apareça. Se é Graça, não imposição. Se se sente glorificado, ao ver a criatura crescer em capacidade, em maturidade, em responsabilidade, em protagonismo, em autonomia e em independência, também em relação a ele. Se se sente honrado, quando a criatura passa progressivamente da posição de joelhos diante dEle, para a posição de estar de pé diante dEle. A posição de joelhos é posição de quem vive ainda dominado pelo medo. Não é própria de pessoas livres, libertas para a liberdade. Não é própria de filhas e de filhos. É própria de escravas e de escravos. Não é própria de pessoas de Fé cristã jesuánica. É própria de pessoas religiosas, por isso, com medo de Deus.
Há uma forma de agradecer, que é reveladora de ausência de espinha dorsal. Quem o faz, perde a dignidade pessoal. Ora, é impossível que Deus se possa sentir honrado com esse tipo de agradecimento. Infelizmente, foi este tipo de agradecimento que me pareceu ressaltar das palavras de João Loureiro.
Quando se esperava que ele reconhecesse o mérito e a audácia dos atletas do Boavista que, semana após semana, com invulgar esforço e dedicação, venceram, um a um, todos os obstáculos que tinham pela frente - quando outros jogadores, noutros clubes maiores e com salários tão chorudos, que são um insulto e uma agressão a quem trabalha numa fábrica e, no final do mês, traz para casa ainda menos do que o salário mínimo nacional, não foram capazes de nada de semelhante - foi deprimente ver e ouvir o presidente do clube campeão, dizer, "Primeiro, quero agradecer a Deus este título".
De repente, os atletas e toda a equipa técnica foram esquecidos pelo presidente do clube. Precisamente, os que trabalharam. Os que se esforçaram. Os que transpiraram. Todos estes, nem sequer tiveram direito a ser referidos, ao menos, em segundo lugar. Nessa posição, ficaram duas mulheres, a mulher de João Loureiro e a sua mãe. Só faltou a João Loureiro, agradecer também à Pátria, para que a tenebrosa trilogia-base do fascismo, Deus, Pátria e Família, voltasse ao de cima.
Mas até a Pátria foi, de certo modo, invocada, naquele momento de glória, quando o presidente do Boavista, progrediu, via tv, no seu discurso previamente estudado, e teve o cuidado de sublinhar que aquela vitória não era contra ninguém. Com isto, quis, de algum modo, dizer, que é uma vitória de Portugal, ou seja, da Pátria!
Em meu entender, o nome de Deus foi blasfemado por João Loureiro, quando ele, aparentemente, mais pretendia glorificá-lO. Deus não foi honrado. Não foi glorificado. E por quê? Porque a glória de Deus é que o valor de cada ser humano, a dignidade de cada ser humano, o esforço de cada ser humano, sejam reconhecidos.
Os seres humanos, cada ser humano, são os que nós vemos. A Deus nunca ninguém O viu. Nem verá. Se não reconhecemos os seres humanos que vemos e, em vez disso, corremos a agradecer a Deus que não vemos, o nosso agradecimento é mentira, é hipocrisia, é jogada de mau gosto, tem algo de perverso.
Invocar o nome de Deus, no lugar dos seres humanos, é uma blasfémia. Porque Deus é o primeiro a tudo fazer para que os seres humanos sejam e sejam em plenitude. Essa é a infinita alegria de Deus. Essa é a sua glória.
Infelizmente, o comportamento de João Loureiro não é caso único. Todos os grandes deste mundo, ou aspirantes a grandes deste mundo, gostam de proceder assim. Falam muito em Deus, apropriam-se do nome de Deus, mas não se pense que é por amor de Deus que o fazem. É apenas por amor de si próprios. Chama-se a isso servir-se do nome de Deus para fazer carreira, para subir na consideração dos demais.
Os grandes deste mundo ou aspirantes a grandes deste mundo imaginam que Deus é o maior, o mais poderoso, o eterno vencedor. Tomam-nO como o exemplo maior para eles. Porque também eles querem ser como Deus, querem ser Deus. Não sabem que Deus é o Crucificado, como se viu, paradigmaticamente, em Jesus de Nazaré. E crucificado pelos grandes. Em nome de Deus. Do Deus dos grandes!
Recordam-se dele e agradecem-lhe, na hora da vitória, mas como quem se recorda de si próprio e como quem diz a si próprio que essa vitória é apenas um degrau na íngreme escada do poder e do prestígio, até chegar ao topo da pirâmide, ou, pelo menos, aproximar-se desse topo.
Não é que Deus verdadeiramente interesse aos grandes deste mundo, ou aos aspirantes a grandes. O que verdadeiramente lhes interessa é subir, é tornar-se grandes, é tornar-se invencíveis. Numa palavra, o que lhes interessa é ser igual a Deus, é ser Deus! Para que, amanhã, as outras pessoas se curvem diante deles, reconhecem o seu poder, se prostrem de joelhos diante deles, como eles, quando ainda não eram Deus, o fizeram em relação a Ele.
É por isso que é tão importante que as populações do nosso país e de qualquer país do mundo, sejam populações avisadas, ilustradas, esclarecidas, evangelizadas. Quando o forem, veremos que os grandes deste mundo ou aspirantes a grandes, abandonarão essa estratégia feita de mentira, que é a Religião. Deixarão de falar em Deus. Porque, com populações avisadas, ilustradas, esclarecidas, evangelizadas, quem mais falar em Deus e mais se (pre)ocupar com Deus, menos vale.
Para populações avisadas, ilustradas, esclarecidas e evangelizadas, as pessoas que mais valem são aquelas que vêem nas outras pessoas, a começar pelas últimas e menores, irmãs e irmãos, a quem devem amar e servir libertadoramente.
Só que, quando a Humanidade chegar aí, já nem lugar haverá para os grandes deste mundo, nem para aspirantes a grandes. Só haverá lugar para irmãs e irmãos. Numa comunhão sem fronteiras, tanto de bens, como de vida. No meio duma criação finalmente humana. Bem nos antípodas da selva que ainda é hoje o nosso mundo.
Suspeito que, ao escrever tudo isto, estarei a escandalizar muitas pessoas. Especialmente, católicas. Não estranho. Não pretendo escandalizar, mas será inevitável. Aliás, Evangelizar os pobres é sempre provocar escândalo. Porque as Igrejas quase não o têm feito nunca. Ficam-se pelos cultos religiosos. Não praticam o culto de Evangelizar os pobres, que foi o único que Jesus praticou. E, na peugada dele, o Apóstolo Paulo.
Estamos habituados a ouvir falar muito em Deus e a pensar que quem anda com o nome de Deus na boca é uma pessoa acima de toda a suspeita. Pode não ser. Geralmente, não é. Desconhecemos que, por exemplo, Jesus de Nazaré, o ser humano por antonomásia, quase nunca falou em Deus. Do que Jesus falou, uma e outra vez, quase de forma obsessiva, foi do Reino de Deus, não de Deus. O que é uma coisa completamente distinta.
É que a Deus nunca ninguém O viu. O que vemos é o mundo e, nele, as outras pessoas. Como podemos então falar de Deus, sem cair logo na idolatria? Como podemos falar de Deus, sem que esse Deus sobre quem falamos, não seja logo um ídolo que imaginamos, que criamos à nossa imagem e semelhança, à nossa medida, à medida das nossas ambições e dos nossos sonhos mais ou menos megalómanos?
Do que havemos de falar e com o que nos devemos (pre)ocupar é com o mundo, com o universo. E, particularmente, com a Humanidade, a partir da mais empobrecida e oprimida. Porque é este e esta que vemos. E, se pretendemos chegar a Deus, sem passar pela Humanidade, o Deus que adoramos e cultuamos, é um ídolo, imaginado por nós, com o qual pretendemos fazer carreira e tirar dividendos.
Esta teologia não é nova. Tem, pelo menos, dois mil anos. É o cerne do Cristianismo jesuánico. Infelizmente, perdeu-se, ao longo dos séculos, com a progressiva transformação do Cristianismo em Catolicismo romano, mais deísta e pagão-idolátrico, do que jesuánico.
Quem melhor sintetizou e proclamou esta teologia cristã jesuánica, foram as comunidades cristãs do Discípulo Amado. A 1ª Carta de João é, neste aspecto, inexcedível. Situa-se bem nos antípodas da teologia deísta e idolátrica em que as Igrejas gostam de seguir. E que a referida postura do presidente do Boavista, João Loureiro, tão expressivamente materializou. E as Igrejas gostam dessa teologia deísta e idolátrica, porque é a única que lhes convém, na medida em que as suas cúpulas, quase sempre, fazem parte dos grandes deste mundo, ou são aspirantes a grandes.
Vejam só o que proclama essa belíssima 1ª Carta de João (capítulo 4): "Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo aquele que ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus. Aquele que não ama [o seu irmão] não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor. (...)
A Deus nunca ninguém O viu; se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu amor chegou à perfeição em nós. Damos conta de que permanecemos nEle e Ele em nós, por nos ter feito participar do seu Espírito. (...)
Se alguém disser, «Eu amo a Deus», mas não amar o seu irmão, esse é um mentiroso; pois aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê."
Que me desculpe o presidente do Boavista, João Loureiro. Mas, como cristão da Igreja católica, chamado ao ministério presbiteral de Evangelizar os pobres, não posso aprovar o seu gesto.
O nome de Deus, meu caro João Loureiro, foi blasfemado na sua boca. Não foi honrado. Digo-lho daqui, com firmeza e ternura. Se, no futuro, quiser honrar o nome de Deus, sem o blasfemar, comece por calar publicamente o seu santo Nome. Sobretudo, na hora da vitória. Porque Deus não é Deus das vitórias, nem dos vencedores. É Deus dos vencidos. Para os erguer, até fazer deles suas filhas e seus filhos, prontos a darem a própria vida pela vida do mundo. Para que este passe, progressivamente, de selvagem a humano, de humano a sororal/fraterno. Sem vencidos, nem vencedores. Um mundo de irmãs e de irmãos, simplesmente!

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