Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

10 Maio 2001

Chegou-me hoje pelo correio uma carta duma ex-católica de Felgueiras. Há dez anos, aderiu a uma Igreja evangélica ou protestante. Não me conhece pessoalmente. Mas tem-me visto em algumas intervenções na televisão. E, ultimamente, tem tido acesso ao Jornal FRATERNIZAR. Quer até tornar-se assinante. "Devo confessar – escreve – que concordo com aquilo que tenho lido e ouvido". E acrescenta esta coisa surpreendente: "Se todos os padres fossem como o senhor, e, se o catolicismo fosse realmente como deveria ser, com certeza que eu não teria sentido a necessidade de mudar. No fundo, o motivo da minha mudança foi de uma busca mais profunda e real de Jesus, esse mesmo que nunca consegui encontrar na religião católica, por ela ser como é, por seguir padrões que nos afastam de Cristo, em vez de nos aproximar dele".
A carta que me endereça não é só para me dizer estas coisas. Já não era pouco. Fosse só isto e já era bastante para nos fazer pensar. É tremendo que as pessoas tenham fome de Jesus, o Cristo, e não encontrem na nossa Igreja católica maneira de a saciar.
Em lugar de encontrarem Jesus de Nazaré, o Crucificado pelos três Poderes do mundo – o Poder económico, o Poder político e o Poder religioso – mas a quem Deus ressuscitou dos mortos e, por isso, a quem deu razão e reconheceu como o seu Filho bem amado, as pessoas encontram, na Igreja católica, clérigos e outros eclesiásticos, quase sempre mal humorados e apressados, encontram ritos sacramentais para fotógrafo fixar, missas rotineiras e a despachar, devoções a tudo quanto é santo e santa, altares com imagens de santas e de santos, cada qual a mais tosca e a mais parva, devoções, novenas, vias-sacras, rezas de terços, fórmulas para saber de cor e repetir até à exaustão, actos de piedade, procissões de velas à noite, com a luz pública momentaneamente desligada, cerimónias sem alegria, ambientes pesados, espaços ditos sagrados, onde é proibido conversar e partilhar a vida.
A Palavra de Deus também por lá anda, mas acaba por ser afogada no meio de toda esta selva de coisas secundárias e mais ou menos alienantes. As homilias de Domingo falam de Jesus – as que falam, porque muitas delas são para falar das obras da igreja e do centro social paroquial, do dinheiro que é preciso dar, das obras que têm de ser feitas e das missas pelos mortos a rezar/vender, ao longo dos dias da semana – mas não chegam a empolgar a assembleia, condenada a ser eternamente ouvinte, sem possibilidade de dar o seu próprio testemunho.
O tom moralista e piegas da generalidade das homilias é de arrepiar e de pôr os cabelos em pé. Por isso, embora pronunciem o nome de Jesus, aliam-no a conteúdos que estão nos antípodas da Boa Notícia que ele é para a Humanidade, tanto a de hoje, como a de ontem, como a de amanhã e de sempre. De modo que, se calhar, era até melhor que não se dissesse nada, apenas houvesse um prolongado tempo de silêncio, depois de proclamados/ouvidos os respectivos textos bíblicos.
Enquanto a assembleia for impedida de o ser, de ter voz e vez, de testemunhar Jesus na vida de cada um dos seus membros, mulheres e homens; enquanto a palavra for só do padre/bispo que preside, ou do leigo/leiga que faz de padre; enquanto não for uma assembleia-que-ouve-e-que-fala, toda ela aberta ao Espírito Santo e animada por Ele, será impossível que alguém que lá entre, chegue a "ver" e a encontrar-se com Jesus Ressuscitado.
A palavra proclamada só faz nascer do Alto e liberta, se for Espírito e vida. Se for ruído, som, letra, enunciado de normas, em lugar de libertar, oprime, assusta, mata. A julgar pela aragem, é este desastre que anda a ser cometido por essas paróquias católicas além. As excepções, que as há, só confirmam a regra.
Ter de o reconhecer, aqui, é uma dor de alma para mim. Mas não vale a pena enterrar a cabeça na areia. Oxalá as nossas paróquias católicas se reconheçam neste retrato e se convertam. Porque, se elas existem, estão organizadas e trabalham, sem proporcionar às pessoas o encontro efectivo e afectivo com Jesus Ressuscitado, então será melhor que fechem as portas e se transformem num supermercado mais.
Embora seja verdade que ninguém vive só de pão, sempre é melhor encontrar pão, do que ritos e devoções mais ou menos parvos. E, quem sabe se do Pão comprado, não se chega a Jesus Ressuscitado. Foi ao Partir o Pão, que o casal de Emaús "viu" Jesus. Bem sei que não foi ao Vender/Comprar o Pão, como sucede nos supermercados.
Mas o Pão comprado, se, depois, for Expropriado e Partido e Partilhado, já nos põe no caminho certo para o encontro com Jesus Ressuscitado. Com ritos e devoções mais ou menos parvos, é que nunca lá chegaremos.
Com as coisas assim, não estranho nada que esta senhora de Felgueiras tenha trocado a Igreja católica por uma Igreja protestante. Eu, até hoje, não o fiz. Nem farei. Em lugar de deixar a Igreja católica, no seio da qual despertei para a Fé em Jesus, o Cristo, e ir a correr fazer-me protestante, prefiro manter-me nela e ser, dentro dela, um católico muito protestante. É a minha forma de a amar e de lhe ser reconhecido. Mas compreendo que haja quem, sem esta capacidade de ser protestante dentro da Igreja católica, prefira tornar-se protestante fora da Igreja católica e dentro de uma Igreja assumidamente protestante.
Muitas outras pessoas, ditas católicas, fazem outra coisa muito diferente e, se calhar, bem mais negativa: deixam a Igreja católica e caem na indiferença total. Ficam-se por um vago catolicismo de fachada, de tradição, ou, simplesmente, de não-praticante, como agora está cada vez mais na moda. Melhor fora que ingressassem numa outra Igreja cristã, como quem deseja encontrar válidas razões para a Esperança e para o Serviço libertador aos demais, a partir dos mais pobres.
Mas, se a nova Igreja escolhida por alguém é, assumidamente protestante, bom será que quem vai da católica para ela, não deixe o protesto à porta. Seja mesmo protestante. Não vá acontecer que tenha aderido a uma Igreja que, de protestante, só tem o nome.
O que é um facto incontestado, quando essa Igreja, na realidade, mais não pretende do que apoderar-se do dinheiro das pessoas que a integram. E boca calada, se tais pessoas tropeçam em situações que justamente merecem ser criticadas, como são certas posições de alguns pastores, que é um tal "venha a nós o vosso dinheiro", que eu até sufoco, só de ouvir dizer, quanto mais, se visse com os meus próprios olhos e com a minha cumplicidade!
Mas a carta que hoje recebi traz um propósito muito concreto. Avança um rol de "dúvidas" que, no dizer da sua autora, lhe têm surgido, ao ler o que eu tenho publicado. Essas dúvidas – diz a senhora de Felgueiras que me escreve - "põem em causa aquilo que tenho aprendido nestes últimos anos como evangélica".
Como são escritos meus que lhe têm suscitado as dúvidas, é a mim que ela se dirige para ser esclarecida. Poderia também dirigir-se à sua Igreja, e partilhar as dúvidas nas assembleias que lá realizam. Mas, se calhar, as assembleias serão para outros fins, e não haverá suficiente espaço para ela e outras pessoas como ela partilharem as suas dúvidas.
Se for este o caso, é mau sinal. Porque então essa é uma Igreja muito pouco protestante. Será sobretudo fundamentalista. Mais do que querer pessoas críticas e libertas para a liberdade, quererá pessoas catequizadas, à imagem e semelhança do pastor que está à frente dela. E isso é pecar contra o Espírito Santo.
Eis o rol das dúvidas que a carta adianta: "O diabo existe? As pessoas podem de facto ficar possessas e serem libertas no nome de Jesus, como ele ensinou? Podem as pessoas doentes serem curadas, também no nome de Jesus, também como ele ensinou? (Mateus 10, 1; 8; Marcos 16, 17-18. Diz no seu jornal, num comentário acerca do livro "Jesus e Belzebu", que não existiram casos de pessoas endemoninhadas. Então, e os versículos 28 e 29 em diante, do capítulo 8 de Mateus, entre outros?). É bíblico dar o dízimo a Deus, ou seja, 10% dos nossos rendimentos? (Malaquias 3, 10). Até que ponto podem os Homens falar em nome de Deus, dizendo-se mensageiros de Deus, usando a Bíblia para fundamentar suas doutrinas ou doutrinas de Deus? Estarei eu a pecar por ter estas dúvidas? O Inferno existe de facto, ou é ficção?"
Eu disse que era um rol de dúvidas. A autora da carta também o reconhece, quando, a seguir, acrescenta: "São tantas dúvidas! É confuso, quando alguém quer acreditar em Cristo, fazer dele nosso Senhor e Salvador, e ver tantas divergências acerca da sua doutrina. Devo confessar que não concordo com tudo na minha religião, mas gostava de ver fundamentada a minha discordância. É por isso que tomei a liberdade de lhe escrever esta carta".
Mas não ficam por aqui as dúvidas da senhora que me escreve de Felgueiras: "Defina-me, por favor, o seu conceito de «estar cheio do Espírito Santo». Não sei se sabe, mas nós, os evangélicos, acreditamos que um dos sinais da presença do Espírito Santo nas nossas vidas, é o de falar línguas estranhas. Assim como aconteceu em Actos dos Apóstolos, quando os primeiros discípulos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar línguas estranhas".
Antes de dar por terminada a sua carta, a senhora que me escreve de Felgueiras, avança mais uma dúvida: "Só para finalizar, e acho que é a dúvida que persiste na mente dos jovens (é bom esclarecer, a propósito, que a autora da carta diz ter 28 anos) que acreditam em Deus: é pecado ter relações sexuais antes do casamento? E, atenção, que aqui não englobo a promiscuidade, a luxúria, etc. Refiro-me a duas pessoas que se amam de facto. Na minha religião é um pecado capital, é atentar contra o templo do Espírito Santo. Gostava de saber a sua opinião sobre o assunto".
Que hei-de responder a este rol de dúvidas? Não deixa de me surpreender que sejam questões como estas que afligem uma ex-católica que, desde há dez anos, ingressou numa Igreja protestante.
Surpreende-me, sobretudo, que ela, enquanto protestante, já não tenha superado essas dúvidas. É caso para perguntar o que fazem os pastores da Igreja, que pregação é a deles e à volta de que questões a pregação deles anda, para que uma pessoa, depois de dez anos de pertença, ainda se apresente com dúvidas como estas que aqui me expõe na sua carta.
Então, tanto estudo da Bíblia, tanta pregação, tantos cultos, ainda não deram para que as pessoas que integram a Igreja em causa sejam mais esclarecidas? Não será que a Bíblia estará a ser muito utilizada, mas para fins lucrativos, portanto, para fins desonestos e perversos?
1. Não vou responder taco a taco às dúvidas da minha interlocutora. Prefiro seguir outro método. E começo pela questão do dízimo, fundamentada, como a própria carta tem o cuidado de o explicitar, numa citação do profeta Malaquias.
Não deixa de ser elucidativo que os pastores de certas Igrejas ditas protestantes, nomeadamente, as mais recentes e de proveniência brasileira ou norte-americana, falem tanto do dízimo e da obrigação que cada membro da Igreja tem de entregar todos os meses à Igreja – entenda-se, ao pastor da Igreja – dez por cento do salário, ou dos rendimentos.
Como eles não encontram nada nos relatos evangélicos que justifique essa prática, recorrem aos textos do Primeiro Testamento, no caso, ao profeta Malaquias. E, ao que sei, não são nada meigos, nem tolerantes. O modo como falam do dízimo é tão fundamentalista, que faz lembrar o comportamento intolerante e cruel dos fariseus do tempo de Jesus, relativamente à chamada Lei do descanso sabático.
Tamanha insistência, da parte dos pastores, traz água no bico. E só pessoas não evangelizadas e assustadas podem deixar-se levar pela pregação deles. E, cada mês, chova ou faça sol, lá fazem chegar às mãos dos pastores, os dez por cento, a que eles dizem ter direito.
A ser assim, como dizem e insistem os pastores das novas Igrejas evangélicas, hoje, muito em moda, entre as populações de tradição católica, só pergunto: Por que é que esses pastores não decidem cumprir e fazer cumprir tudo o que está escrito nos livros do Primeiro Testamento da Bíblia? Por que não restauram, por exemplo, os sacrifícios cruentos de animais nos seus cultos, dos quais fala, inclusive, o próprio profeta Malaquias? Por que não usam aquelas vestes e não cumprem todas aquelas normas de que fala o livro do Levítico? Todas essas normas deixaram de ser Palavra de Deus, só as palavras referentes ao pagamento dos dízimos é que não? E, no caso do profeta Malaquias, se dão tanta importância ao versículo 10 do capítulo 3 – "Pagai integralmente os dízimos ao tesouro do templo, para que haja alimento em minha casa..." – por que não dão a mesma importância a todo o livro, inclusive, ao que o Livro diz sobre os sacerdotes/pastores? Por que destacam essa afirmação do seu contexto? Sobretudo, por que não dão um passo mais, e não perguntam qual a Boa Notícia de Jesus a este respeito?
Eu sei que alguns pastores, na sua febre de obterem os dízimos de todas as pessoas que se inscrevem na Igreja da qual eles são os pastores, se lhes perguntarmos sobre a prática de Jesus, a este respeito, eles logo adiantam que, até Jesus pagou o imposto devido ao Templo de Jerusalém e fez com que Pedro também pagasse.
Só que o relato evangélico que refere este episódio é marcadamente humorístico e satírico, mas os pastores, de tão fundamentalistas que são, nem se dão conta disso. Tomam-no logo a sério e não se dão conta do ridículo em que caem.
Na verdade, se todos os membros da Igreja dos pastores fizessem como o relato evangélico diz que Jesus fez, isto é, fossem ao mar lançar o anzol, na esperança de encontrarem na boca do primeiro peixe que apanhassem, a moeda com que deveriam pagar o dízimo, cada mês, bem que esses pastores das Igrejas poderiam morrer à fome. Porque os peixes, além de serem raros os que mordem o anzol, nenhum deles traz moedas na boca. E que, ocasionalmente, um deles trouxesse, de modo algum essa moeda corresponderia aos dez por cento dos rendimentos, que os pastores exigem das pessoas, sob pena de deixarem de fazer parte da Igreja!
Com isto, creio já ter respondido à questão do dízimo que a senhora de Felgueiras me põe na sua carta. Mas tenho de acrescentar algo ainda mais demolidor. A afirmação do profeta Malaquias faz referência ao dízimo para o tesouro do templo. Ora, é esse tesouro que Jesus, no final da sua missão de Evangelizar os pobres, atacou em cheio, de chicote em punho, quando viu que os responsáveis por ele, para mais e mais engordarem, até aceitavam a última moedinha de que dispunha uma viúva pobre. Aí, Jesus não se conteve mais, e das cordas fez chicote, derrubou mesas e expulsou os comerciantes do templo. Ao mesmo tempo que fez suas as palavras proféticas de Jeremias: "A minha casa é casa de oração, mas vós fizestes dela covil de ladrões". Ou seja, Jesus não tem dúvidas: Se até as viúvas pobres são levadas pelos sacerdotes/pastores que estão à frente dos templos, a desfazer-se da última moedinha que têm para comer, em favor do tesouro desses mesmos templos, então, Deus não está mais aí. Só mesmo o deus Dinheiro é que pode lá estar!
Entretanto, uma coisa estranho eu, no comportamento dos pastores que insistem tanto no pagamento dos dízimos: É que nunca digam às pessoas que Jesus jamais exigiu o dízimo a quem o quis seguir. Pelo contrário, nas instruções pastorais que dá aos seus enviados, lá está, bem explícita, esta: "Daí de graça o que de graça recebestes" (Mateus 10, 8).
É verdade que o Evangelho de Lucas (8, 1-3) fala do grupo de mulheres discípulas, lideradas por Maria Madalena, que acompanham Jesus desde a Galileia até à sua morte na cruz e serão, depois, as primeiras testemunhas da sua Ressurreição. E sublinha que elas serviam Jesus e o grupo dele com os seus próprios bens, coisa que o grupo de discípulos homens nunca chegou a fazer, até à morte de Jesus! Mas não fala nunca em dízimo. O que diz é que elas os serviam com os bens. Livremente.
De resto, quem de nós, cristãs e cristãos, é capaz de imaginar Jesus a falar sobre dízimos e pagamento dos dízimos, como, hoje, os pastores das novas Igrejas protestantes falam, ou, até, como fala o livro do profeta Malaquias?
O que eu sei é que Jesus é muito capaz de nos desafiar a darmos não só a décima parte dos bens, mas todos os nossos bens, como sucedeu com aquele homem rico que estava muito preocupado com alcançar a vida eterna, sem cuidar que a vida efémera já estivesse minimamente garantida para a esmagadora maioria das pessoas do seu país e do mundo.
Mas, atenção, Jesus jamais diz para alguém dar todos os seus bens ao templo de Jerusalém, menos ainda, ao tesouro do templo. Tão pouco diz para dar todos os bens aos sacerdotes ou pastores. Ou a ele, Jesus. Ou a Deus. O que Jesus diz é bem diferente.
Diz aos ricos que dêem todos os bens aos pobres, certamente, para que a vida efémera destes últimos seja garantida e, com isso, a vida eterna de todas as mulheres e de todos os homens, também!
No meu entender, seguir por outro caminho, é trair o Evangelho. É fazer negócio com o Nome de Deus, com o Nome de Jesus, com a Palavra de Deus. E isso é uma blasfémia sem nome! Uma blasfémia que as Igrejas cometem, umas mais, outras menos. Por mais argumentos que inventem para justificar as suas práticas. Com isso, as Igrejas mostram, à semelhança do Templo de Jerusalém, do tempo de Jesus, que têm por Deus o Dinheiro, não o Deus que em Jesus de Nazaré se nos revelou todo Misericórdia e Perdão, sem que tenhamos de pagar nada em troca.
São, por isso, Igrejas idólatras, quando deveriam ser Igrejas mártires, alegremente dispostas a dar-se e a dar o que têm e o que não têm, para que a vida cresça nas irmãs e nos irmãos, a partir dos mais pobres, independentemente, de fazerem parte ou não das suas estruturas. Em lugar de serem Igrejas que fazem crescer a sua conta bancária, o número de edifícios, e outros sinais exteriores de riqueza, o que as torna verdadeiramente obscenas.
2. O diabo existe? Há pessoas que ficam possessas? Há pessoas que deixam de estar possessas, ao simples nome de Jesus? E pessoas doentes que se curam, ao simples nome de Jesus?
Devo dizer que não vou em nada do que por aí se diz e faz, nas novas Igrejas protestantes. Tudo é charlatanice. Injúria ao nome de Deus e de Jesus. Oportunismo. Exploração da ignorância das pessoas, dos medos em que elas vivem e da insegurança de toda a ordem que as afecta e perturba.
Se quisesse ser agressivo, diria que o diabo existe e os pastores/clérigos e outras pessoas, que se reclamam de poderes para o expulsar do corpo das pessoas, são o melhor exemplo disso. Essas pessoas, enquanto assim procedem, é que são o diabo em acção. Mas não quero ser agressivo. Quero avançar com serenidade e com bom senso. E também com bom humor.
A Bíblia fala muito de diabo, de demónio, de espíritos malignos. Mas é preciso que se saiba que a linguagem é mítica. Não é científica, nem histórica. O mal existe no mundo. Como não pode ser atribuído a Deus, atribuiu-se ao diabo. Só que, duma maneira ou de outra, seria sempre Deus o responsável pelo mal. Uma vez que Deus é que criou o diabo. E deixa que ele faça das dele.
Os Evangelhos sinópticos chegam a afirmar que até Jesus foi tentado pelo diabo. Por três vezes. E são vários os relatos que falam de pessoas, das quais Jesus expulsa o diabo. Em que ficamos? Não vou, evidentemente, dissertar exaustivamente sobre este assunto, aqui. Estou a tentar responder a uma carta. Não estou a elaborar um tratado sobre o diabo. Por isso, procurarei ser breve e directo.
Sempre que padres e pastores se prestam a exorcizar certas pessoas, prestam um mau serviço, mesmo que, num ou noutro caso concreto, as pessoas, depois do exorcismo, se sintam bem. Porque a "cura" só se conseguiu por auto-sugestão. A pessoa estava convencida de que tinha o diabo no corpo e que ele só sai, se alguém, que ela reconhece com poder para isso, fizer alguma coisa para lho tirar. No seu esquema cultural as coisas funcionam assim: Este mal de que eu padeço é obra do diabo e só um padre ou um pastor tem poderes para mo tirar. Basta, então, aparecer alguém vestido de padre ou de pastor, fazer, diante dela, todas aquelas coisas que a pessoa em causa deseja ver fazer e o diabo lá se vai.
Então o diabo existe? Nada disso. O que existe é ideia do diabo. Mas essa é criação nossa, é criação da cultura popular primitiva que ainda persiste, em muitas pessoas, apesar de já levarmos mais de 200 anos de Modernidade e de acabarmos de entrar no século XXI e no terceiro milénio do Cristianismo. É que, infelizmente, ao nível do inconsciente, as populações continuam, na sua maioria, em tudo como os povos primitivos. Não são populações ilustradas nem evangelizadas.
O diabo não existe. O que existe é a ideia de diabo, que as próprias comunidades cristãs primitivas que escreveram os Evangelhos utilizam, no seu tempo e no seu contexto cultural, até para se fazerem entender. Nesse tempo, todas as doenças para as quais não havia explicação científica, nomeadamente, as doenças do foro psíquico, eram atribuídas ao diabo. Por isso, se se queria dizer que Jesus libertava as pessoas, tinha de se dizer que Jesus expulsara delas o diabo. Mas o que vale, como Boa Notícia, é que Jesus libertava as pessoas. O resto é linguagem cultural da época, válida para a época, mas não para todas as épocas, muito menos, para a nossa época.
A este propósito, é deveras expressivo o que diz o Evangelho de Lucas (8, 1b-3), acerca do grupo de discípulas, lideradas por Maria Madalena: "Acompanhavam-no os Doze e algumas mulheres, que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demónios; Joana, mulher de Cuza, administrador de Herodes; Susana e muitas outras que os serviam com os seus bens".
Até hoje, nenhuma Igreja entendeu correctamente esta Boa Notícia. Todas pensam e dizem que as mulheres eram piores do que os homens, concretamente, os Doze. E, do grupo das mulheres, a pior de todas era Maria Madalena.
Ora, nada mais falso. O relato diz exactamente o contrário. Põe em contraste o grupo dos Doze, constituído por homens e liderado por Pedro, e o grupo de mulheres, liderado por Maria Madalena. E só estas é que já estão na condição de verdadeiras discípulas, porque já se haviam libertado de todas as amarras, de todos os preconceitos, de todos os medos, de todas as ideias erradas, de todas as falsas ideologias. E reconheciam Jesus como o Cristo, o Libertador. E a prova é que "acompanhavam-no" e "serviam-nos com os seus bens". Ao contrário deles, que não são ainda capazes de servir e partilhar. Só sonham em dominar e possuir! Isto é, continuam possessos dos demónios.
Mas o texto sublinha, acerca de Maria Madalena, que dela haviam saído sete demónios. As Igrejas têm-nos levado a pensar muito mal dela, quando o que aqui se diz, com esta linguagem mítica da época, é a melhor Boa Notícia que alguma vez se disse duma mulher: Diz-se que Maria Madalena era a única mulher totalmente liberta (o número sete, ligado a demónios, indica a totalidade das forças de alienação e de opressão que, geralmente, dominam e controlam as pessoas. Pois bem, no dizer do relato de Lucas, todas essas forças haviam saído já de Maria Madalena e, por isso, ela era a única que já se encontrava plenamente liberta, a única que está em condições de ser companheira de Jesus, a única que irá com ele até ao fim, sem jamais o trair, a única que, mesmo depois dele ter sido crucificado, morto e sepultado pelos três Poderes de então, irá dar-se conta de que ele é o Vivente, o Ressuscitado. E é, até, sobre esta fé de Maria Madalena que se edifica a Igreja!...
Entre as forças de alienação e de opressão que, no tempo e no país de Jesus, mais oprimiam as pessoas e as populações, sobressaía a ideologia religiosa do farisaísmo sobre a Lei de Moisés, veiculada pela Sinagoga e pelo Templo de Jerusalém. Contra ela, ergue-se Jesus, para que as pessoas e as populações sejam libertadas. Porque ele o fez até ao fim, foi crucificado. Mas foi também por isso que as discípulas e os discípulos dele o reconheceram, depois da Ressurreição, como o Cristo, o Messias, o Libertador!
De todos os textos evangélicos mais polémicos sobre este combate de Jesus contra a ideologia religiosa do farisaísmo, sobressai o relato de João, capítulo 8, 34-59. Jesus chega ao extremo de acusar os seus opositores, que se reclamavam de terem Abraão e Deus por pai, de que têm por pai, o diabo: "Vós tendes por pai o diabo, e quereis realizar os desejos do vosso pai. Ele foi assassino desde o princípio, e não esteve pela verdade, porque nele não há verdade. Quando fala mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai de mentira".
Tenho para mim que esta passagem do Evangelho de João deveria ser esculpida à entrada de todas as igrejas e de todos os templos ou locais onde as Igrejas costumam reunir-se. Como alerta. Para que, sobretudo, os seus dirigentes não venham a reproduzir este crime das classes dirigentes do tempo e do país de Jesus.
Todos eles, hoje, se reclamam de Deus e de Cristo, como os dirigentes do tempo e do país de Jesus se reclamavam, mas, se, efectivamente, não ajudam a libertar as pessoas que as integram, pelo contrário, as mantêm no medo, na alienação, na opressão e, ainda por cima, lhes cobram o dízimo e outras ofertas, não são de Deus nem têm Deus por Mãe/Pai, mas o diabo! Porque, com todas as coisas que realizam e com as doutrinas que pregam, mais não fazem do que roubar, matar e destruir as pessoas e as populações. São lobos com pele de pastor. Dos quais é preciso fugir a sete pés. E, se for caso disso, alertar a polícia, para que venham a ser detidos e deixem de continuar a enganar as pessoas e as populações não iluminadas nem evangelizadas.
Ainda a este propósito, quero dar mais uma achega: Mais do que falar de demónio e/ou de diabo, havemos de falar de demoníaco e de diabólico. Como criação nossa. Somos nós que temos capacidade de comportamentos demoníacos e diabólicos. Somos seres em formação. Somos ao mesmo tempo "homo sapiens" e "homo demens", isto é, capazes de saber e de loucura, capazes de fazer coisas grandiosas, tanto no bem como no mal. Tanto podemos amar até dar a vida, como odiar até tirar a vida. Tudo depende do projecto que dá sentido ao nosso ser/viver. Tudo depende da opção de fundo do nosso ser/viver.
Jesus tornou-se o homem-para-os-demais, isto é, o homem cheio do Espírito Santo, quando, num mundo com vítimas humanas, decidiu pôr-se do lado destas contra tudo o que as produzia. Esta opção – o Evangelho situa-a na altura do seu baptismo no Jordão, por João Baptista - fez com que Deus reconhecesse Jesus como o seu Filho bem amado. E logo o apresenta como modelo, como exemplo de ser humano, a todas e todos nós.
O que muita gente nem sequer sonha é que até os deuses que, nos nossos medos, somos capazes de criar/imaginar, e a religião que logo nos metemos a praticar para tentar pôr a nosso favor esses mesmos deuses que imaginamos com poderes sobre nós, também fazem parte do demoníaco.
É por isso que o Deus Vivo, que se nos revela em Jesus Crucificado/Ressuscitado, não gosta de religião. Nem de templos. Nem de cultos. Nem de sacerdotes. Nem de pastores que enriquecem à custa da ignorância das pessoas e das populações. É sempre Deus-connosco, habita o mais íntimo de cada uma e de cada um de nós, para fazer de nós mulheres e homens à sua imagem e semelhança, outros Cristo!
Mas do demoníaco e do diabólico, também fazem parte os sistemas que criamos e que não têm como objectivo único a promoção da vida de qualidade para todas as pessoas. Nomeadamente, os sistemas económicos e políticos corporativos, intrinsecamente egoístas e perversos, que buscam apenas o bem-estar de alguns quantos privilegiados.
Estão nesta categoria as multinacionais do nosso tempo, verdadeiras fábricas de produção de vítimas humanas, por isso, a representação maior do anti-Cristo, neste início do século XXI. E que as Igrejas cristãs deverão denunciar/combater com coragem martirial, em lugar de abençoar, como quase sempre fazem, na pessoa dos seus dirigentes maiores. Como que a dizerem, sem querer, que o Deus deles, afinal, não é o Deus Vivo, mas o deus-Dinheiro.
Também aqui, é preciso muita atenção. E não nos deixarmos impressionar com certos cultos, onde o nome de Deus é muito invocado. Porque pode ser o deus-Demónio, o deus-Diabo, ou, em terminologia não mítica, o deus-Dinheiro! Alerta, pois, e muito discernimento!
3. O inferno. Existe ou é ficção? Bem sei que o Testamento cristão fala de inferno com alguma frequência. Pelo menos, as nossas traduções em português. Mas o que logo imaginamos, quando pronunciamos a palavra "inferno" é mil vezes pior do que o que essa palavra objectivamente quer dizer. E isto, devido às catequeses terroristas que, durante séculos, os eclesiásticos ministraram às populações.
O inferno existe, como criação nossa, não como criação de Deus. Deus trabalha para destruir, desfazer, descriar todos os infernos que nós criamos. Ou Deus não fosse o Amor em acção, criador de vida e vida em abundância e vida de qualidade para todas e todos. Neste particular, a minha alegria maior é perceber, no ser/viver de Jesus de Nazaré, que esta é uma aposta definitivamente ganha por Deus. Se não for antes, pelo menos, quando chegar a sua Hora. Aliás, é já isso que está a acontecer, também ao longo da História, porque a Hora de Deus não é depois da hora humana. É simultânea. Numa dimensão invisível aos nossos olhos, mas muito mais real do que a dimensão que os nossos olhos e os nossos restantes sentidos conseguem captar.
De modo que o que nos espera, à medida que a História avança e, com ela, o processo de criação dos seres humanos, até nos tornarmos mulheres e homens como Jesus de Nazaré, não é o inferno (os infernos que nós criamos não são eternos; são efémeros, como toda a obra nossa). O que nos espera é a Ressurreição, é a vida em plenitude. Por pura graça de Deus. Não pelos nossos méritos.
Por isso, mostraremos ser pessoas avisadas, se, desde já, tudo fizermos para cooperar com Deus Criador de bem-estar e de felicidade e, em lugar de criarmos infernos para Ele destruir, criarmos bem-estar e felicidade para todos os seres humanos, sem excepção.
4. O que é estar cheio de Espírito Santo? A esta questão, responderei em poucas palavras. É sermos mulheres e homens como Jesus de Nazaré, o Homem por antonomásia cheio do Espírito Santo.
Numa sociedade, como a nossa, que produz vítimas humanas aos milhões, é ousar colocarmo-nos do lado das vítimas. Com todas as consequências. Não apenas por palavras, mas com todo o nosso ser/viver.
É trabalharmos, com inteligência e criatividade, para acabar com as causas, os mecanismos e os sistemas que produzem vítimas humanas. É sermos libertadoramente solidárias/solidários com as vítimas. É relacionarmo-nos com elas, como a parteira se relaciona com a mulher que está para dar à luz. É tirarmos da cruz os crucificados que os nossos sistemas económicos, políticos e religiosos lá colocaram. Mais. É acabarmos com as cruzes e com os sistemas que as criam. Para que nunca mais haja crucificadas e crucificados. Por isso, é comprometermo-nos na militância política, mas naquela militância política que, em lugar de buscar o Poder e os privilégios que ele garante a quem o serve, busca a libertação das vítimas humanas e dos seus fabricadores, para que cada vez mais haja seres humanos, simplesmente, a viver em comunhão.
A senhora que me escreve de Felgueiras, pergunta, concretamente, se falar línguas estranhas, é um sinal da presença do Espírito Santo. Na prática de Jesus de Nazaré, testemunhada pelos Evangelhos, isso não se passa. Jesus, o Homem cheio do Espírito Santo, nunca é apresentado a falar línguas estranhas.
Igualmente, Estêvão, o primeiro cristão mártir, de quem nos fala pormenorizadamente o livro Actos dos Apóstolos, também não fala línguas estranhas. O mesmo se diga de Barnabé, de quem o mesmo livro dos Actos sublinha que "era um homem cheio do Espírito Santo e de fé".
Na Comunidade cristã de Corinto, o fenómeno de falar línguas estranhas apresenta-se, mas Paulo, nas suas cartas, não se mostra demasiado entusiasmado com isso. Pelo contrário. Até censura essa manifestação, como uma prática que não edifica quem entrar na assembleia. Paulo vai mais longe e diz, no capítulo 13 da primeira Carta aos Coríntios, que uma pessoa pode falar todas as línguas (estranhas), mas se não tiver amor, nada é!
Por isso, mulheres e homens cheios do Espírito Santo são aquelas e aqueles que, como Jesus, actuam sob a sua influência, melhor, deixam que o Espírito Santo ou de Deus seja activo nelas.
O sinal inequívoco de que alguém actua sob a influência do Espírito ou Sopro de Deus, é ver os frutos que a sua presença, a sua palavra e a sua intervenção produzem nos demais seres humanos. Se são frutos de libertação para a liberdade, se promovem a autonomia e o protagonismo das pessoas, é sinal de que o Espírito de Deus está aí. Foi assim com Jesus de Nazaré. "Se eu expulso os demónios – isto é, se eu liberto as pessoas e elas passam a ser elas próprias, capazes de dirigirem os próprios destinos – então é sinal de que chegou a vós o Reino de Deus".
Falar línguas estranhas, só por si, não prova nada, sobre a presença do Espírito Santo. Pode até ser um sintoma de desequilíbrio mental. Que eu saiba, é uma actividade que não edifica ninguém. Quando muito, gera confusão e algum espanto, porventura, admiração. Mas não faz ninguém mudar a sua vida, não faz ninguém tornar-se mulher/homem-para-os-demais.
De resto, se alguém fala línguas estranhas e não há ninguém capaz de interpretar correctamente o que está a ser dito, que interessa esse falar? Do Espírito Santo, diz o livro dos Actos dos Apóstolos, que faz falar línguas. Mas acrescenta um dado fundamental: É que quem ouve falar essas línguas, entende na própria língua a mensagem que está a ser dita.
Se não há este escutar e entender na nossa própria língua o que outra pessoa está a falar, como se pode dizer que essa pessoa está a falar uma língua estranha sob a influência do Espírito Santo? Que Espírito é esse, que quem ouve não é edificado, não ouve na sua própria língua e, como tal, não consegue tirar qualquer proveito do que ouve? Pelo que, já em seu tempo, disse o próprio S. Paulo a este respeito, também a mim não me parece que seja o Espírito Santo, esse mesmo que falou e actuou ininterruptamente em Jesus de Nazaré e fez dele o Cristo de Deus.
5. Mensageiros de Deus. Será que existem? A verdade é que a Deus nunca ninguém O viu. Vemos seres humanos. Alguns reclamam-se de mensageiros de Deus. Mas será que a criatura humana alguma vez pode ser mensageira do Criador?
Sabemos como as coisas, quando entram por aqui, podem tornar-se perversas. Desde logo, porque, mensageiros de Deus, sempre se consideraram os detentores do poder. Reis e faraós, sempre se tiveram na conta de representantes de Deus na terra, de ungidos de Deus, enviados de Deus.
Também na Bíblia do Primeiro Testamento, as coisas são apresentadas assim. O que foi motivo de muita perversidade, por parte da casa real de David/Salomão (cf. o meu livro, Nem Adão e Eva, nem Pecado Original, Campo das Letras, Porto, 2000). De tal maneira que muitos dos maiores crimes contra a Humanidade foram praticados em nome de Deus e por parte daqueles que se apresentavam como representantes de Deus!
Havemos, por isso, de estar vigilantes. Para não embarcarmos em situações feitas e acabarmos a canonizar o que é intolerável.
Como regra geral, podemos enunciar esta: os detentores do poder, inclusive do poder religioso, nunca são representantes de Deus, mensageiros de Deus. Pela simples razão de que Deus nunca utiliza a linguagem do poder para se revelar. De Deus só conhecemos o que pudemos ver e ouvir em Jesus de Nazaré que, para escândalo nosso, acabou crucificado. Em Jesus crucificado, é manifesto que Deus nunca se nos revela no poder que oprime, explora, excomunga e mata. Nem em quem o exerce desse jeito.
Se quisermos falar em mensageiros humanos de Deus, logo havemos de pensar nas vítimas do mundo e da História. Em todas e em todos os excomungados. Nos pobres. Nas excluídas e nos excluídos. Em todas e em todos os que não têm lugar nas hospedarias deste mundo. Nem nas Igrejas.
Eu sei que os dirigentes das Igrejas gostam de se apresentar como mensageiros de Deus. Porém, muitas vezes, são a sua negação. O seu contrário. Usam o nome de Deus para proveito próprio. E isso é blasfémia.
Outrora, todos os profetas que se diziam tais, mas, entretanto, não se afastavam da mesa do rei, eram falsos profetas. Falavam em nome de Deus, mas só diziam mentiras e anunciavam horrores contra os que conspiravam contra o rei, por amor das suas vítimas. Mas estas é que eram e são, os mais expressivos mensageiros de Deus.
"Quem vos ouve, a mim ouve, quem vos despreza, a mim despreza". São palavras que o Evangelho atribui a Jesus e que ele as terá dito ao grupo dos Doze. E que os dirigentes das Igrejas gostam de repetir, como se elas tivessem sido ditas a eles também. Não foram.
Porém, se os dirigentes das Igrejas cristãs pensam que, com essas palavras, Jesus está a fortalecer o poder que eles já dispõem sobre os outros membros, enganam-se redondamente. Porque Jesus nunca pensa em termos de poder. Apenas em termos de serviço. E de serviço dinamicamente libertador. Como o serviço da parteira. Que ajuda a mulher a dar à luz. Nunca substitui a mulher que está para dar à luz.
Aquelas palavras atribuídas a Jesus não apontam um privilégio, a ser usufruído pelos dirigentes das Igrejas. Apontam uma responsabilidade. Indicam que quem vier a ser escolhido para presidir à comunidade cristã, há-de viver sempre em sintonia com o Espírito Santo que, historicamente, nos fala a partir de baixo, das vítimas, nunca das cúpulas, dos verdugos e carrascos.
De outro modo, o que disserem, não é de Deus, mas do poder. E só pode merecer a nossa resistência, o nosso repúdio. Aí, haveremos de dizer como os apóstolos Pedro e João disseram aos chefes dos sacerdotes do Sinédrio de Jerusalém, que se tinham na conta de mensageiros e representantes de Deus: Mais vale obedecer a Deus do que aos homens!
Numa Igreja em concreto, que pessoas poderão ser olhadas como mensageiros de Deus? Os pastores? Os padres? Os bispos? Não! A assembleia dos fiéis, as mulheres e os homens comuns, que são a base da Igreja. Deus está sempre na base. Nunca nas cúpulas. Os pastores, os padres e os bispos, também podem ser olhados como mensageiros de Deus, na medida em que resistem aos privilégios e fazem do ministério, não uma honra e um poder, mas um serviço libertador, e quanto mais gratuito melhor! Se se arrogam algum privilégio, um "mais" sobre a assembleia das e dos fiéis, está logo o caldo entornado. Não são mensageiros de Deus, mas a sua negação. Tornam-se, em certa medida, ídolos, que exigem a adoração por parte das e dos fiéis! Alerta, pois!
6. Finalmente, as relações sexuais antes do casamento. Se a Igreja da senhora que me escreve de Felgueiras, classifica de "pecado capital" as relações sexuais antes do matrimónio, mesmo entre duas pessoas que se amam, então desconhece o belíssimo poema bíblico, intitulado "Cântico dos Cânticos". E está em contradição com a revelação de Deus que este livro contém.
Ora, este livro fala-nos duma relação de amor intensamente erótico entre uma mulher e um homem, que nem sequer eram casados. Nessa relação, assim, não matrimoniada, o Espírito Santo que inspirou o livro está a revelar-nos como é o amor de Deus. Um amor totalmente gratuito.
Como é que então um amor, que é apresentado pela Palavra de Deus contida na Bíblia, como o sacramento do amor de Deus pela Humanidade, pode ser "pecado capital"?
Infelizmente, não é só a Igreja desta senhora que me escreve de Felgueiras que pensa assim e se atreve a classificar, desta maneira moralista e perversa, os comportamentos sexuais das pessoas adultas e responsáveis. Também a Igreja católica a que pertenço faz o mesmo. E as outras Igrejas não andarão longe destas mesmas posições.
Ao procederem assim, mostram que são Igrejas farisaicas. Não são Igrejas cristãs. Condenam o que deveriam abençoar. De resto, que diferença faz a relação sexual entre duas pessoas adultas e responsáveis que se amam e que, mesmo antes de casar, a realizam, livre e responsavelmente, como expressão intensa desse seu amor, e uma outra em tudo igual a esta, mas depois consumada só depois de tais pessoas se terem casado? Como é que a mesma acção, antes do casamento é "pecado capital" e, depois do casamento, é graça, é bem?
Classificar as acções humanas desta maneira, não revela, da parte de quem o faz, uma enorme vontade de dominar e de controlar as pessoas e as sociedades?
Mas, se consentirmos que os dirigentes das Igrejas classifiquem assim as acções que, como adultos e responsáveis, decidimos realizar, sempre no respeito pela nossa própria consciência, não estamos a abdicar de sermos pessoas livres e responsáveis? Submeter-se a tais dirigentes, não é tornar-se escravo deles, dos seus critérios moralistas? Não estamos, com isso, a desistir da nossa condição de cristãs e de cristãos, isto é, de pessoas que Jesus, o Cristo, libertou para a liberdade? (cf. toda a Carta aos Gálatas)
Minha querida Natália. Obrigado por me ter escrito. E por me dar a oportunidade de partilhar consigo estes pontos de vista. A resposta acabou por sair extensa. Mas não será cansativa. Dar-me-ei por feliz, se estas palavras contribuírem para a sua libertação e para a tornar mulher responsável, capaz de decidir por si, no respeito pela sua própria consciência, em lugar de decidir no respeito pela consciência do pastor da sua Igreja.
Vá em frente. E, se vier a sentir dificuldades, por ser uma mulher liberta para a liberdade, experimente criar uma pequena Comunidade cristã de base, com outras mulheres e outros homens com fome de liberdade e vontade de entregarem as suas vidas pela vida do mundo. Com simplicidade, escutem juntos a Palavra de Deus. Dialoguem-na, como quem procura deixar-se "apanhar" e "fazer" pela Boa Notícia que nela anda escondida e que sempre anda escondida aos grandes e aos espertos, pastores e clérigos incluídos, mas sempre se revela aos pequeninos, mulheres e homens, indistintamente. Cantem e dancem a festa da liberdade experimentada e vivida. Partilhem o Pão e vejam nele não só o Corpo de Cristo que se entregou pela libertação da Humanidade, mas também o vosso próprio corpo que se entrega hoje pela mesma Humanidade. Ao mesmo tempo, desdobrem-se em serviço libertador às vítimas destes mundo. Crescerão, então, em ternura e constituir-se-ão num pequeno sinal – sacramento - de Deus no meio do mundo, como uma cidade situada no alto de um monte! (cf. Mateus 5, 14).
A partir de agora, estou consigo. Como companheiro e irmão. De olhos postos em Jesus Crucificado/Ressuscitado, o Senhor e o Mestre que nunca nos domestica, sempre nos liberta para a liberdade. Sem jamais nos exigir o dízimo todos os meses. Ainda que nos desperte para nos darmos por inteiro aos pobres. Como expressão máxima de amor ao próximo.
Um beijo de comunhão.

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