Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

2 Maio 2001

O primeiro 1º de Maio do século XXI congregou muita gente nas manifestações sindicais de Lisboa e do Porto. Mas está longe de ter sido uma manifestação de luta e de combate, salutarmente incómoda e fecunda. Teve todo o ar de quem se limita a cumprir o calendário. Tal como acontece com a celebração anual da Páscoa, por parte das Igrejas. As Igrejas, habitualmente, não têm nada para celebrar, mas não deixam de cumprir o calendário.
As duas centrais sindicais portuguesas estão como as Igrejas no mundo: separadas, esgotadas, instaladas na rotina, sempre com os mesmos dirigentes à frente, anos e anos a fio, a repetir os mesmos slogans, os mesmos rituais, as mesmas frases feitas, os mesmos ataques ao Governo, numa palavra, a mesma cassete.
Os Poderes, nomeadamente, o poder económico e político, aceitam estas e outras manifestações semelhantes, com a mesma bonomia com que as populações deste século XXI continuam a aceitar os ranchos folclóricos nas suas tradicionais e cíclicas festas populares, todas sem imaginação e sem criatividade.
Manifestações sindicais, assim, até contribuem para enfeitar o Sistema. Dão-lhe aquele ar de aparente democracia e de liberdade, de que ele tanto carece, para melhor se perpetuar contra a Humanidade.
É caso para dizer: Com Sindicatos e Centrais sindicais assim, os Poderes não têm nada a temer. Têm tudo a ganhar. E, se forem hábeis – infelizmente, não há Poder que se preze, que não seja hábil! – são eles até os primeiros a fundar e a financiar Sindicatos e Centrais sindicais assim.
Ao ver como as coisas, ultimamente, funcionam, ao nível sindical, no nosso país e na generalidade dos outros países da Europa, dou comigo a pensar que até parece que não há multinacionais. Até parece que só há Governos. Até parece que as multinacionais não são fábricas de produção de vítimas humanas e a causa-mor da nossa desgraça nacional e mundial.
Elas estão em todo o lado, como dantes se dizia de Deus que estava em toda a parte. Elas assaltam-nos. Elas agridem-nos. Elas roubam-nos. Elas condenam-nos ao desemprego, à pobreza e à miséria. Elas matam-nos. Elas destroem-nos e destroem a Natureza. Mas os Sindicatos e as Centrais sindicais não querem saber. Só se viram contra os respectivos Governos. Como se os governos dos países de um mundo como o nosso, totalmente dominado pelas multinacionais, alguma vez pudessem tomar decisões contra os interesses delas. Como se todos eles não governassem segundo políticas impostas ou, pelo menos, toleradas por elas.
Vivo crescentemente preocupado com este estado de coisas. Enquanto os Sindicatos e as Centrais sindicais teimarem num tipo de sindicalismo de trazer por casa, próprio do tempo em que a economia e a política dependiam do Governo de turno, em cada país, não vamos a lado nenhum.
As multinacionais podem muito bem prosseguir nos seus crimes de lesa-Humanidade, autênticos genocídios, porque as manifestações do 1º de Maio e outras, não é a elas que denunciam. Não é contra elas que apontam o dedo. Muito menos erguem contra elas a força dos empobrecidos e oprimidos, dos ninguéns. Por isso, os donos das multinacionais podem continuar a esfregar as mãos de contentes e dizerem uns para os outros, Deixemos para lá, que os cães ladram e a caravana passa.
Ou acordamos, já, para a nova realidade do mundo de hoje, e ousamos uma nova prática sindical, estilo David contra Golias, em que a funda do frágil David projecte a sua certeira pedra contra o ponto fraco das multinacionais, ou é melhor estarmos quietos e calados. Não inactivos. Mas à escuta. Até que se faça luz dentro de nós e nos ergamos como um exército nacional, continental e mundial de libertação, capaz de contribuir positivamente para a criação de alternativas credíveis às genocidas práticas das multinacionais. Um exército que aglutine não só trabalhadoras e trabalhadores, mas também desempregadas e desempregados, mulheres e homens sem abrigo, emigrantes e imigrantes, toxicodependentes, doentes em listas de espera, numa palavra, todas as pessoas e todos os povos que sofrem na carne as consequências das multinacionais e dos seus governos.
Insisto. Ou somos capazes de ir directamente, com inteligência e sabedoria, às causas dos males, ou, com todo o nosso barulho nas ruas, só contribuímos para gerar ainda mais confusão nas populações, com manifesto proveito, para as multinacionais. Não é verdade que a confusão é o contrário do discernimento?
Desta vez, não estive em nenhuma das manifestações promovidas pelas duas Centrais Sindicais portuguesas. A minha agenda pessoal dizia que se realizava, neste mesmo dia, a reunião anual do meu Curso do Seminário. Como não quis faltar a esta confraternização, tive de faltar à do 1º de Maio. É certo que ainda poderia ter abreviado a presença na reunião de Curso e correr para a manifestação do Porto. Mas não só não senti vontade, como aceitei correr para outro lado, concretamente, para Macieira da Lixa.
Fui participar e animar um encontro, promovido pela Comunidade cristã de base daquela freguesia do Concelho de Felgueiras, em casa duma família, das mais pobres e marginalizadas do Lugar da Maçorra. É uma família numerosa, onde os problemas, cada qual o mais aflitivo e esmagador, são muito mais numerosos do que os membros que a constituem.
A mãe, a senhora Guida, é viúva; um dos filhos tem andado perdido na droga e está, neste momento, a tentar sair dela, num estabelecimento em Braga; um outro, com 23 anos, sofre, há uns tempos, duma doença que lhe afecta os ossos, provoca-lhe horríveis dores e obriga-o a andar de canadianas. O mais dramático do caso é que, ou se consegue, sem mais delongas, que o Dino - é este o nome do jovem - seja internado e operado, no Hospital de S. João, no Porto, ou ele corre sério risco de ficar condenado o resto da vida a uma cadeira de rodas.
Chegámos lá casa, cerca das 9 horas da noite, sem qualquer aviso prévio. A família apenas sabia que haveríamos de aparecer, uma destas noites. Mesmo assim, fomos acolhidos, na pobreza das instalações, como se nos esperassem àquela hora. A comprovar, uma vez mais, que os pobres, inconformados com as situações de sofrimento que se abatem sobre as suas vidas e tudo fazem para lhes pôr termo – são estes os pobres com Espírito Santo, de que nos fala Jesus, nas Bem-aventuranças do Evangelho de Mateus! – pertencem ao número daquelas pessoas que Deus ama e com quem especialmente sempre conta, para levar por diante o processo de Criação, iniciada, há 15 mil milhões de anos, com o chamado big-bang.
Na ocasião, estavam apenas a mãe e três das suas quatro filhas ainda solteiras (há mais filhas e filhos, mas já estão casados). O Dino estava num café próximo. A própria mãe foi a correr por ele. E, surpreendentemente, ele não se fez rogado. Deixou o futebol que estava a ver na televisão e veio estar connosco.
O encontro nunca mais será esquecido por nenhuma e por nenhum de nós que tivemos a graça de nele participar, quer as pessoas da Comunidade, quer as pessoas da casa.
A salinha, de tão exígua e baixa, mal deu para nos acolher a todas e todos. Mas, sem sabermos bem como, depressa se tornou um cenáculo, em tudo semelhante àquele onde, no dizer teológico dos Evangelhos, aconteceu a Última Ceia de Jesus, com as discípulas e os discípulos, e, onde, tempos depois, teve lugar o 1º Pentecostes cristão, coroamento do Acontecimento dos acontecimentos, que é a Páscoa de Jesus de Nazaré, o Cristo.
A mesinha redonda, que fazia de centro da sala, depressa se tornou o centro simbólico do encontro-celebração, quando, pouco depois, colocámos sobre ela o Pão, uma regueifa, que sempre costumo comprar, todas as vezes que vou a Macieira da Lixa, numa padaria de Paredes, situada à beira da estrada. Dispensámos o vinho, hoje, sinal de desgraça, de desavenças familiares e de muitas lágrimas, em tantas casas do nosso país e do mundo, quando bebido em excesso, até à embriaguês.
O Pão, símbolo da Vida que carece de ser alimentada e da comunhão humana e fraterna/sororal que sempre havemos de realizar entre nós, para garantir que um e outra não faltem em nenhuma casa da terra, tornou-se sacramento do Corpo e Sangue de Cristo, esse mesmo que, há dois mil anos, a Humanidade pôde integralmente conhecer e reconhecer em Jesus de Nazaré, o Crucificado pelos Poderes, mas a quem Deus deu razão, ao ressuscitá-lo dos mortos.
Cantámos, apesar da família estar de pesado luto recente. Fizemo-lo como quem se deixa possuir pelo Espírito de Deus e, por isso, espanta a tristeza que, qual demónio, nos tolhe os movimentos e nem sequer nos deixa pensar, muito menos, encontrar saídas libertadoras para as situações que nos esmagam. Escutámos a Palavra/Boa Notícia, que liberta e ressuscita. Fomos por ela ao 1º volume do Evangelho de Lucas 7, 11-17, onde se relata a situação do povo oprimido e empobrecido, através do caso paradigmático duma mulher viúva, da cidade de Naim, a quem, para cúmulo, acabara de morrer o único filho. Sobretudo, registámos as palavras de ordem de Jesus, dirigidas, quer à mulher viúva e mãe, que acabara de perder o único filho, "Não chores!", quer ao filho dela, já defunto, que seguia no caixão, "Jovem, eu te ordeno: Levanta-te!". Sentimo-las como palavras de salvação, para todos os tempos e lugares. Também para nós, naquele momento e ali em casa do Dino, da sua mãe e das suas irmãs. Olhámo-nos nos olhos, como membros da mesma família, sorrimos e dissemo-nos dispostas e dispostos a tudo fazer, para que, naquela casa, nas nossas casas e nas nossas vidas, estas palavras de ordem de Jesus continuem a ser escutadas e realizadas.
A Laura, na sua qualidade de presbítera da Comunidade, partiu sacramentalmente o Pão comigo, ao mesmo tempo que proclamou a Boa Notícia de que este Pão Partido em Memória de Jesus, é o Pão que nos une, nos alimenta para a luta, nos empurra para práticas novas de libertação e de transformação das situações inumanas, a começar pelas que ali estavam/estão à vista de todas e de todos nós.
Todas e todos comemos desse Pão. Com alegria. E algumas lágrimas de emoção, à mistura. Ficámos misteriosamente um só corpo no Corpo de Cristo. Assumimos compromissos concretos de luta. Beijámo-nos com invulgar carinho. Numa comunhão espiritual que há-de dar os seus frutos de vida e de ressurreição.
Quando, depois, pelas 23 horas, regressei à casa de S. Pedro da Cova, em Gondomar, caí verdadeiramente na conta de que, embora não tivesse ido à manifestação do 1º de Maio, tinha-o celebrado da melhor maneira. Pois, como Jesus, continuo a entregar o meu corpo e sangue (= a minha vida) pela libertação de todas e de todos, numa Eucaristia a sério, em que já não é apenas Jesus quem se entrega, mas eu próprio com ele, por ele e nele. E cantei com Jesus, "Bendigo-te, ó Mãe/Pai, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos hábeis e as revelaste aos pequeninos" (Lc 10, 21).

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