Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

18 Junho 2001

Uma espiritualidade do prazer, foi uma das propostas que apresentei, no trabalho de grupos, durante o oitavo encontro de cristãs e de cristãos, que teve lugar este fim de semana de 16 e 17 de Junho, em Albergaria, mais propriamente, na Casa Diocesana de Aveiro. A proposta, como era de prever, não foi sequer considerada no plenário que se seguiu ao trabalho de grupos. No entanto, creio que é uma proposta que urge agarrar e desenvolver, em lugar de ficarmos, como Igrejas cristãs, a lamuriar-nos contra a Europa deste início do século XXI, e a acusá-la, como fazia uma folha A4 dactilografada, com algumas pistas para o trabalho de grupos, distribuída entre os participantes do Encontro, de que é uma Europa que procura cada vez mais o "prazer sem limites". Falar duma espiritualidade do prazer, é afirmar, logo de entrada, que o prazer é bom. E que há-de ser fomentado e vivido pelas pessoas e pelos povos, como o jeito humano de sermos pessoas e povos.
Reconheço que, actualmente, há algum desequilíbrio neste campo. Mas não me aflijo por aí além. Nem entro em pânico. Nem saio por aí a vomitar cobras e lagartos contra a Europa (e o mundo), só porque as pessoas e os povos hoje valorizam tanto o prazer, que quase esquecem a militância e os combates pela transformação da sociedade.
Acho, até, inevitável que assim seja. Ou não fosse verdade que somos herdeiros de séculos e séculos de repressão e de autoflagelação, de sadomasoquismo católico, imposto pelo respectivo clero, em nome duma certa imagem de Deus que pode ter tudo a ver, melhor, tem tudo a ver, com o deus da senhora de Fátima e os ancestrais deuses de todos os outros cultos politeístas, mas não tem nada a ver com o Deus definitivamente revelado em Jesus de Nazaré, o Cristo.
É claro que a temática do encontro não foi propriamente sobre o prazer que a Europa de hoje parece procurar sem limites. Foi sobre a Europa. E, concretamente, tentou responder à problemática, "Como passar duma Europa fortaleza a uma Europa sem fronteiras?". Uma problemática que poderia e poderá muito bem ser formulada nestoutros termos, "Como passar duma Europa reprimida e castrada a uma Europa liberta e festiva, constituída na comunhão e na solidariedade com o resto do mundo?"
Daí a importância duma espiritualidade do prazer. Porque pelo prazer é que vamos. Pelo prazer é que somos. A repressão que, durante séculos e séculos, nos impuseram, quando o clero católico foi rei e senhor, não só na Europa, mas também no resto do mundo até onde esse mesmo clero conseguiu alargar a sua nefasta influência, é que está na origem da Europa fortaleza, que hoje parece querer vingar entre nós. Mas que não vingará. Os povos que a constituem e os restantes povos do mundo não consentirão.
Pessoas e populações reprimidas, são, habitualmente, pessoas e populações azedas, fechadas sobre si próprias, tristes, desconfiadas, solitárias, isoladas, metidas em casas que mais parecem celas, prisões ou túmulos. São pessoas e populações que concebem o mundo como um grande convento, um grande mosteiro, uma espécie de Convento da Trapa à escala mundial, em que as mulheres e os homens são levados a comportar-se como monjas e monges trapistas. Em que o valor maior a promover e a cultivar é a privação de tudo o que é bom e belo, em que o corpo é tratado como inimigo da alma, e o prazer, todo o tipo de prazer, a começar, naturalmente, pelo prazer sexual, é olhado como desvio, como perigo, como pecado.
Santo Agostinho, no século IV, está na origem duma visão assim totalmente anti-cristã e anti-evangélica da vida. Em que todo o prazer, a começar pelo prazer sexual, tinha de ser reprimido. E a privação era a virtude maior a cultivar. Neste particular, Santo Agostinho é uma espécie de anti-Cristo, um antípoda de Jesus de Nazaré, que passou grande parte da sua curta vida de missão pública, à mesa, a comer-beber-conviver-conversar-comungar com todo o tipo de pessoas então excluídas.
É por isso que eu nunca pude entender como é que fizeram de Santo Agostinho um santo canonizado. Pode lá ser modelo de vida para alguém, um homem, como ele, que é capaz de suportar todo o sofrimento, mas é incapaz de saborear qualquer tipo de prazer? (O mesmo se tem de dizer das duas crianças vítimas da chamada senhora de Fátima, que o Papa João Paulo II, recentemente, beatificou. Uma beatificação que, a esta luz e à luz do Evangelho de Jesus, tem todo o sabor a blasfémia).
Há, ainda hoje, quem considere Santo Agostinho uma espécie de pai da cidade de Deus no meio de nós. Só que o Deus de Agostinho de Hipona não é o Deus de Jesus. É o Deus da repressão e do castigo, da autoflagelação, da privação, da dor, do sofrimento, do esmagamento do ser humano. É o Deus criador do inferno eterno, até para crianças inocentes que tenham a desgraça de morrer sem o baptismo católico, o mesmo é dizer, com o pecado original.
(A própria expressão, "pecado original", foi inventada por Santo Agostinho e, no entender dele, é um pecado cometido pelo mítico casal Adão e Eva, que, depois, é transmitido a todas e a todos os seus descendentes, através da relação sexual e, sobretudo, do prazer sexual!...).
Daí a espiritualidade agostiniana ser uma espiritualidade não cristã, não jesuánica. Uma espiritualidade que faz dos seres humanos uns estranhos neste mundo, uma espécie de estrangeiros na própria casa, sempre a sonhar com o após-morte, com o além.
Em lugar de ajudar as pessoas e os povos a descobrirem todas as dimensões da vida humana, também as invisíveis, como a Ressurreição, por exemplo, sempre muito mais reais do que as visíveis, a espiritualidade que se alimenta da repressão, nem das coisas visíveis desfruta e tira partido. Para uma espiritualidade que se alimenta da repressão, a vida vale tanto mais, quanto mais for um vale de lágrimas, um tempo de tortura, uma prisão, e quanto pior, melhor.
Só uma espiritualidade do prazer desenvolve seres humanos, mulheres e homens, felizes, em paz consigo mesmos, abertos aos demais e à Natureza que nos cerca. A espiritualidade do prazer é uma espiritualidade da plenitude, da realização integral e total das pessoas e dos povos. É uma espiritualidade que combate o sofrimento e as causas do sofrimento, em lugar de se resignar a ele.
Por isso, é uma espiritualidade que chama as pessoas e os povos ao protagonismo histórico, à dimensão de sujeitos criadores e sempre inovadores, de olhos postos no futuro, ainda que com os pés bem assentes no chão do passado e do presente. É uma espiritualidade que torna as pessoas e os povos inquietos, inconformados, sempre em busca do ainda não conhecido, do ainda não realizado, do ainda não saboreado.
Ao mesmo tempo que leva as pessoas e os povos a saborear a vida presente, a espiritualidade do prazer leva também essas mesmas pessoas e esses mesmos povos a abrir-se ao Novo que aí vem e já anda, como em semente, no que agora saboreamos. É, por isso, uma espiritualidade que jamais pára no conhecido. Jamais se instala. Vive ao jeito de quem peregrina e se extasia com o que há-de vir, mais do que com o que já ontem se saboreou.
Não gosto da expressão, "prazer sem limites", escrita na folha A4 distribuída no encontro para "ajudar" ao trabalho de grupos. Sobretudo, se se recorre a ela, como parece ter sido o caso deste encontro de Albergaria, para classificar, negativamente, a Europa e os europeus, mulheres e homens, que a constituímos.
Quem utiliza esta expressão (moralista) pretende impor limites ao prazer. Como se houvesse limites ao que é bom e ao que é belo. Como se o bom e o belo, de tão bom e de tão belo, acabassem por se tornar coisa má.
É muito estranho que quem assim se pronuncia – são geralmente clérigos ou mulheres e homens clericalizados, que vivem sob a influência daqueles e da sua ideologia moralista – não se mostre seriamente preocupado, mas é com o sofrimento sem limites que milhões e milhões de seres humanos, da Europa e do mundo, conhecem, hoje, na própria carne.
Muito pelo contrário. Tais pessoas são até capazes de inventar uma masoquista espiritualidade do sofrimento. Ao ponto de terem inventado, por exemplo, que sofrer é bom, porque assim, com o sofrimento, contribuímos para a redenção do mundo. Ou, dito com palavras de S. Paulo, por sinal muito mal interpretado, sofrer é bom, porque quem sofre, completa na sua carne o que falta à Paixão de Cristo!... (Vejam lá até onde pode chegar a esquizofrenia eclesiástica!...)
Por mim, entendo que havemos de falar e insurgir-nos, sempre e sem desfalecimento, não contra o prazer sem limites, mas sim contra o sofrimento sem limites que pessoas, populações e povos conhecem na carne todos os dias, como se a vida humana na terra fosse um inferno.
Para tanto, uma espiritualidade do prazer habilita-nos a sermos mulheres e homens militantes contra o sofrimento, em nós e nos outros à nossa volta, ou mesmo lá longe, geograficamente. Porque se apreciamos tanto o prazer e a vida feita de prazer e de beleza, não poderemos suportar o sofrimento próprio e alheio. E havemos de erguer-nos contra ele, lá onde quer que ele se mostre. Uma espiritualidade do prazer jamais se conformará diante do sofrimento de alguém. Sempre se há-de insurgir contra ele. E contra as causas que o provocam. Tanto as causas próximas e directas, como as causas remotas e indirectas.
A esta luz, acho que os cientistas, que o são com preocupações humanistas, têm de ser mulheres e homens que dão ao prazer todo o valor. Só quem gosta muito da vida e da vida plenamente realizada, é capaz de se entregar, com prazer, horas e horas a fio, dias e anos a fio, toda uma vida, a tentar descobrir como se pode minorar o sofrimento humano, como se pode chegar a uma humanidade sem males, sem sofrimento.
Não há limites para o prazer. Só para o sofrimento humano. Bem sei que há quem entenda o prazer duma forma alienante. Estupidificante. Como se o prazer fosse mais, valesse mais, do que as pessoas e os povos. Como se o prazer fosse um deus, ao qual eu me sacrifico. Uma espiritualidade do prazer centra-se nas pessoas e nos povos. Elas e eles é que são o valor maior. O prazer é para elas e para eles. E elas e eles são para tornar mais prazenteira a vida de todos os seres humanos.
Por isso, entendo que não há prazer verdadeiramente humano que não seja, ao mesmo tempo, luta renhida contra o sofrimento próprio e em todos os seres humanos que connosco habitam o planeta. Uma espiritualidade do prazer concretiza-se em vidas militantes contra sistemas que produzem vítimas humanas aos milhões, contra sistemas que produzem sofrimento sem conta nem medida, que geram overdoses de alienação.
Prazer humano, é sempre incompatível com alienação humana. Só rima com militância por mais prazer para todas e todos. Só rima com constante militância pela libertação das pessoas e dos povos de todo o tipo de sofrimento e de privação que padeçam. Só rima com luta contra a pobreza, enquanto privação do indispensável para ser/viver, e contra a riqueza concentrada e acumulada nas mãos de poucos, para que seja possível o desenvolvimento duma sociedade sem ricos nem pobres, uma sociedade de pessoas humanas, todas iguais e todas diferentes, capazes, por isso, de sermos pessoas constituídas na comunhão e na solidariedade.
Quando o Evangelho de Jesus, nomeadamente, nas versões de Mateus e de Lucas, proclama, por exemplo, "Felizes os pobres", não está a canonizar a pobreza, nem os pobres. Seria canonizar a privação dos bens, mesmo daquele mínimo de bens materiais absolutamente indispensáveis para alguém poder ser. Proclama-os felizes, não por serem pobres, por sofrerem a privação dos bens indispensáveis à vida integralmente humana, que sempre será feita de prazer e de beleza. Proclama-os felizes, porque deles é o Reino/Reinado de Deus. Isto é, porque tanto quanto de Deus depende, todos eles deixarão de ser pobres, para serem pessoas constituídas em dignidade e em bem-estar, pessoas em plenitude. Ser pobre é sempre um mal. Como ser rico também é. Ambas são situações de desumanidade e de monstruosidade. Nem pobre nem rico. Pessoas em comunhão, pessoas com o indispensável para serem pessoas plenamente desenvolvidas, sororais/fraternas e solidárias, eis o que Deus quer.
Infelizmente, o oitavo encontro de cristãs e de cristãos não foi por aqui. Como não tem ido por aqui nenhuma das espiritualidades que, através dos séculos, têm animado as pessoas e os povos. Nomeadamente, as espiritualidades que têm por trás delas, mentes de clérigos e outros eclesiásticos, mulheres e homens. Concretamente, todas as fundadoras e todos os fundadores de ordens religiosas, congregações e institutos religiosos, de frades e de freiras, com mais ou menos clausura, são responsáveis por espiritualidades masoquistas, de sofrimento, de autocastigo, de autoflagelação, de autoprivação.
Ainda está para nascer quem proponha e viva uma espiritualidade do prazer e, com isso, desencadeie um movimento que aglutine pessoas e povos, em todo o mundo. Melhor, houve uma vez, na História da Humanidade, um ser humano assim, Jesus de Nazaré, mas a esse logo o mataram no patíbulo da cruz, como o homem das dores.
As pessoas e os povos, de tão massacrados que foram, durante séculos, com pregações anti-evangélicas e anti-jesuánicas, continuam ainda predispostos a correr para locais e ambientes, onde se sofre, onde se exibem sofrimentos incríveis, onde o discurso oficial valoriza o sofrimento, mais do que para locais e ambientes onde se valoriza a vida, a dignidade, o prazer sem limites, a festa, a comunhão, a realização integral de cada ser humano e de cada povo.
O caso de Fátima, em Portugal, é paradigmático. Se, desde 1917, a mensagem atribuída à senhora de Fátima falasse em prazer sem limites e em vida e vida em abundância para todas as pessoas e todos os povos, ninguém diria que essa mensagem provinha de Deus. O que fez com que as multidões passassem, desde a primeira hora, a correr para Fátima, foi a mensagem atribuída à senhora lá do sítio e divulgada pela Lúcia, entretanto, tornada freira de clausura à força, falar de sofrimento, de penitência, de oração.
"Estais dispostas a sacrificar-vos, a aceitar todo o sofrimento que Deus houver por bem enviar-vos, para a conversão dos pecadores?", dizem que perguntou a senhora de Fátima às crianças. E elas, catequizadas pelo clero que, por sua vez, frequentava a catequese do livro "Missão Abreviada" e não a catequese de Jesus de Nazaré, o Cristo, responderam, "Estamos!".
O mais chocante é que, até eu levantar, publicamente, todo este tipo de problemática contra Fátima e a sua senhora ou deusa, parece que ninguém se escandalizou, nem mesmo com o facto de duas das três crianças das chamadas aparições, precisamente, as mais novinhas, terem morrido, poucos meses depois, no meio dum mar de dores e de sofrimento, na sacrílega convicção de que assim agradavam a Deus e contribuíam para que alguns pecadores não caíssem no inferno.
"Oração e penitência", são as duas palavras-chave da chamada mensagem de Fátima. Por sinal, duas palavras que não têm nada a ver com o Evangelho de Jesus. Os clérigos católicos insistem em dizer que têm tudo a ver com o Evangelho. Mas mentem, porque são duas palavras que não têm nada a ver com ele.
O Evangelho de Jesus é a Boa Notícia de Deus de que o sofrimento não tem sentido. É a boa notícia de que Deus não gosta do sofrimento, não promove o sofrimento, pelo contrário, está apostado em acabar com o sofrimento humano e o sofrimento da própria natureza. O objectivo último de Deus, na criação, é um mundo sem sofrimento, onde não haja mais lágrimas, nem pranto, nem dor, nem morte! Ou seja, tanto quanto dependa de Deus, ninguém sofrerá nunca. Se alguém sofre, nunca é por vontade de Deus.
O sofrimento é um anti-valor. Só pode ser combatido, lá onde se manifestar. Não tem que ser promovido. Sempre tem que ser combatido. Com todas as forças e por todos os meios. Nem que, para o combater e o destruir, as pessoas e os povos tenham de passar por ele, como preço a pagar. Foi o que sucedeu com Jesus de Nazaré.
Mas não se pense que esse preço a pagar é a Deus que se paga. De modo algum! Há um preço a pagar, quase sempre em sofrimento, para acabar com o sofrimento, mas porque há, continua a haver, aí, quem esteja e continue a estar interessado na manutenção e no desenvolvimento do sofrimento das pessoas e dos povos. Há aí poderosas e diabólicas centrais de produção de sofrimento humano, que jamais perdoam que apareça alguém que lhes faça frente, que as desmascare, que diga que elas são demoníacas e diabólicas, quando elas fazem tudo para passar por divinas.
Entre estas centrais de produção de sofrimento humano, estão, em primeiro lugar, hoje, as multinacionais e o sistema económico neoliberal que as sustenta. Estão, igualmente, a ideologia e uma certa teologia idolátrica que justificam tanto essas multinacionais, como esse sistema económico neoliberal que as sustenta.
Fátima, em Portugal, com a sua senhora cega, surda e muda, faz parte dessas centrais criadoras de sofrimento. A ideologia e a teologia que Fátima veicula vão nessa direcção. Apontam às pessoas e aos povos o sofrimento como caminho para Deus.
Por isso, eu digo, sem hesitação, que Fátima é o altar do mundo do anti-Criatianismo, do anti-Evangelho de Jesus de Nazaré, o Cristo, da anti-Fé cristã jesuánica. Tem por pai/mãe o diabo, o Dragão do Apocalipse. E a imagem da senhora é bem a besta-mor apocalíptica, de que fala o livro da Revelação ou Apocalipse, no capítulo 13, e à qual são atribuídos milagres e outras fenómenos que tais, mas para mais e melhor impressionar as pessoas e as populações e acabar por fazer delas escravas, pessoas e populações espoliadas da sua dignidade e do seu dinheiro. Em prol do tesouro do santuário, cada vez mais gordo e mais monstruoso.
Tivesse ido por aqui, o oitavo encontro de cristãs e de cristãos, em Albergaria, concretamente, pelo aprofundamento duma espiritualidade do prazer e da beleza, a promover e a cultivar na Europa e no mundo do século XXI e do terceiro milénio, e tudo teria sido diferente do que foi. Assim, foi um encontro pesado, chato, cansativo, repetitivo. Fora os dois momentos de trabalho de grupos, em que as pessoas que se inscreveram e participaram no encontro, puderam ter a palavra e ser elas próprias, bem afirmativas, tudo o mais no encontro foi o costume, foi simplesmente mais do mesmo.
Ainda não percebi lá muito bem por que é que, a este tipo de encontros de cristãs e de cristãs, que, felizmente, já nos não revemos no modelo paroquial de Igreja e andamos à busca duma outra maneira de sermos Igreja, dentro da Igreja instituição, tem sempre de ir alguém que, em princípio, não se inscreve para participar, mas é especialmente convidado para ir falar aos demais. Já me custa a entender que alguém seja especialmente convidado para ir, como perita ou perito, animar o debate e o encontro, como tal. Muito mais me custa a aceitar que alguém seja especialmente convidado para ir falar/fazer conferências aos demais. Como quem vai lá dar lições a ignorantes. Como se todas e todos os que nos inscrevemos no encontro, fôssemos uma espécie de folha em branco, onde um especialista vai escrever/gravar o que ainda não sabíamos.
Com posturas destas, o encontro de cristãs e de cristãos nunca pode ir longe e fundo. Com o tempo, acaba até por se tornar enfadonho, pesado, uma verdadeira estopada. Não liberta ninguém. Oprime toda a gente. Porque é mais do mesmo. Quando deveria ser ventre onde ganham corpo alternativas libertadoras e sororais/fraternas, é mais do mesmo.
Mas, de mais do mesmo, estamos nós fartas e fartos. Para isso, para termos mais do mesmo, basta continuar a frequentar as paróquias, as dioceses. Lá encontramos párocos e bispos que falam sozinhos, que se ouvem a si mesmos, que se comportam como se fossem os donos da verdade e tivessem por sua conta o Espírito Santo.
Tenho pena que seja isto que, ultimamente, está a suceder nestes encontros de cristãs e de cristãos. No início, as coisas ainda tentaram ir por outra via, mais libertadora e de mais trabalho de cada participante. Infelizmente, essa pedagogia não vingou.
Era uma via mais trabalhosa, puxava mais por cada uma e por cada um de nós. E nunca se sabia bem aonde poderia acabar por levar. É certo que havia momentos de alguma ou muita tensão, de conflitos, de polémico debate. Mas havia igualmente verdadeiras explosões de alegria, aquela alegria que o Novo sempre faz rebentar na gente.
No encontro deste ano, as coisas, neste aspecto, não podiam ter corrido pior. O convidado, um padre dominicano perito em ONGs, falou, falou, falou, sobre a Europa. Mesmo no tempo que era suposto ser de debate, falou, falou, falou. Não ouviu, ouviu, ouviu. O que teria sido muito mais fecundo.
Depois de muito falar, falar, falar, lá perguntava se alguém tinha alguma coisa a acrescentar ou a questionar. Mas ninguém tinha, porque já estávamos atolados de palavras, esmagados por tanta erudição, por tantos dados, por tantos conhecimentos. Esmagados, mas não libertadas e libertados.
Para cúmulo, o orador nem sequer se esqueceu de "vender o seu peixe", isto é, de divulgar tudo sobre a ONG de que é um dos fundadores e, neste momento, director executivo. Até os resultados dos dois trabalhos de grupo acabaram por não chegar verdadeiramente aos plenários que se lhes seguiram, porque os porta-vozes só o foram para ele e não para todas as companheiras e todos os companheiros participantes no encontro.
Era suposto que o convidado ouvisse os porta-vozes e, depois, fizesse uma síntese no plenário e logo abrisse o debate entre as pessoas participantes. Não o fez. Nem no primeiro, nem no último. Limitou-se a tecer mais e mais considerações, a propósito do que tinha ouvido dos porta-vozes.
Senti-me frustrado num encontro assim. Não me senti tratado como pessoa. Apenas como objecto, como coisa, como recipiente passivo, onde outro tentou depositar o seu saber. Quando, qualquer de nós, mulher ou homem, para sermos verdadeiramente nós próprias e nós próprios, temos de ser criadoras e criadores, temos de ser desafiados a dar o que há de melhor em nós.
Em lugar de troca de saberes, houve um que impôs o seu saber aos demais. Deveria ter sido, junto de nós e connosco, como uma parteira junto da mulher grávida. Foi professor, mestre. Deste modo, ficamos todas e todos mais pesados, com mais saberes acumulados, mas também mais inactivos, mais oprimidos, mais esmagados.
Ora, com pessoas esmagadas, não se pode constituir um exército de libertação. Não se organizam acções militantes. As pessoas psicologicamente pesadas são mais mortas do que vivas. Ficam sem aquele brilhozinho nos olhos, que só costuma acontecer nas pessoas que passam por processos de libertação e de consciencialização, de verdadeira participação. Nas pessoas sujeito!
Talvez por isso, as pessoas, no final do encontro, estavam todas com ar cansado, abatido. Sem manifestações efusivas entre si. O plenário final, para balanço, arrastou-se por quase duas longas horas. E não foi capaz de dizer/produzir praticamente nada. De deliberar coisa nenhuma. Apenas adiou para outra oportunidade a tomada de decisões que deveriam ter sido tomadas naquela hora.
E já nem falo da Missa, a correr, feita para cumprir programa, antes do almoço de Domingo. Naquele clima de não participação, de não criatividade, de não debate, de total passividade, era previsível que a Missa fosse um mero ritual. Por isso, nem sequer apareci. Preferi vir para a portaria da Casa, onde encontrei mais uns três companheiros que, sem eu saber, tinham optado pela mesma atitude. E permanecemos ali à conversa, até que a Missa ritualizada – uma acção esteriotipada, por isso, sem Espírito Santo – acabasse, e se desse início ao almoço.
Para surpresa nossa, veio juntar-se a nós, a dada altura, uma companheira que não suportou mais o ritual litúrgico, presidido por um clérigo (até nestes encontros, a celebração eucarística é sempre mais do mesmo, em lugar de ousarmos dar corpo aos desafios e às provocações que o Espírito de Deus sempre lança e faz, assim Ele tenha quem lhe dê ouvidos e acolhimento).
O que mais me espanta é que, depois de tudo isto, ainda haja quem se lamente por não haver nestes encontros de cristãs e de cristãos, pessoas mais novas, jovens, casais entre os 30 e os 40 anos. Como poderão ser atraídos para ambientes tão pesados, tão indolentes, tão sem fogo, tão preguiçosos, tão deixa-correr, tão vazios de militância, tão sem paixão, tão sem garra, tão sem chispa, tão mais do mesmo? Para mais do mesmo, na Igreja, bastam as paróquias que temos e as dioceses. Aqui, ou ousamos novos caminhos, na vivência da Fé cristã, ou o futuro escapa-se-nos das mãos como a água por entre os dedos.
Urge um Novo Começo. Em que seja proibida a rotina e a preguiça. Com indolentes e preguiçosos, o Espírito criador não vai a lado nenhum. Em tais casos, o Espírito prefere trabalhar com as pedras, fazer das pedras filhas e filhos de Abraão, pessoas que, independentemente, da idade, ousam caminhos ainda não andados.
Precisamos de regressar ao Evangelho de Jesus e o Espírito Santo. Porque é do Evangelho de Jesus e do Espírito Santo, que as pessoas e os povos têm fome e sede. Todas as outras coisas, as pessoas e os povos podem encontrá-las noutras instituições. O Evangelho de Jesus e o Espírito Santo, só na Igreja-comunidade-de-comunidades poderemos encontrá-los, de forma consciente. Essa é a sua especificidade, a especificidade das cristãs e dos cristãos jesuánicos.
Mas para regressarmos ao Evangelho de Jesus e ao Espírito Santo, precisamos, primeiro, de resgatar um e outro do controlo do clero. De todo o clero. A começar pelo alto clero da Cúria romana e a acabar no baixo clero das paróquias católicas. Precisamos de renunciar ao Poder dos Poderosos (a começar pela hierarquia eclesiástica), à Riqueza dos Ricos (a começar pelas multinacionais), à Religião do Templo (a começar pela idolátrica senhora de Fátima). Precisamos de regressar à Utopia do Reino/Reinado de Deus, anunciado aos pobres e vivido até ao extremo da doação da própria vida, por Jesus de Nazaré, o Crucificado/Ressuscitado. Precisamos de redescobrir toda a frescura do primeiro amor, que só o Espírito Santo sabe fazer rebentar em nos, até nos corpos mais ressequidos e encarquilhados. Precisamos de redescobrir e ter como nosso único mestre, Jesus de Nazaré, o Crucificado/Ressuscitado, e ver nele o Caminho, a Verdade e a Vida, o ser humano por antonomásia, em quem o Espírito Santo realizou tudo o que quis. Precisamos de tomar consciência de que, fora dele e do seu Espírito, tudo é ilusão, mentira e morte. Mesmo que sejam tradições e práticas eclesiásticas, já com muitos anos, séculos, até.
Se queremos verdadeiros encontros de cristãs e de cristãos, pois ousemos fazê-los. Nós. Aquelas cristãs e aqueles cristãos que nos inscrevermos, já com a disposição de, antes, durante e depois dele, darmos o melhor de nós próprias e de nós próprios. Sem ficarmos preguiçosamente à espera que venha um iluminado ou uma iluminada, expressamente convidado, para nos substituir no esforço criativo que nos cabe a nós fazer.
Ou somos os protagonistas de cada encontro, ou ele não passará duma sessão onde se fornece mais do mesmo. Ou inventamos/criamos cada encontro, ou ele é uma estopada que não agrada a ninguém, muito menos, aos jovens e a todas as outras pessoas com fome e sede do Novo, do Invisível, do ainda não conhecido, do ainda não experimentado. Para mais do mesmo, não vale a pena sairmos de casa.
Apostemos nas potencialidades de cada uma/de cada um de nós. Ousemos reconhecer os dons e os carismas que o Espírito faz rebentar em cada uma/cada um de nós. Mesmo e sobretudo, nas e nos que têm menos estudos académicos. Também nas e nos que os têm, mas que já cresceram tanto em sabedoria, dom do Espírito Santo, que agora consideram esses estudos como esterco. E por isso vivem abertas e abertos ao Novo.
Alegremo-nos com esses dons e esses carismas, e com as pessoas em quem eles sobressaem. Em vez de ficarmos com ciúmes, com invejas, ou, o que é mil vezes pior, com despeito e ar de gozo. Se não acreditamos umas nas outras/uns nos outros, como podemos avançar para um encontro sororal/fraternal?
Com pessoas assim, despeitadas e competitivas, só se pode avançar para sessões onde se fornece mais do mesmo. E onde quem ousar ser espiritualmente irreverente, insubmisso, criador, protagonizar o Novo, é ridicularizado, ostracizado, tratado como tolo, marginalizado, elemento perturbador, pessoa não-grata, não bem-vinda.
Evangelizar os pobres, eis o que sempre havemos de viver/fazer, como cristãs e cristãos, como mulheres e homens que um dia foram tocados pelo Espírito que fez de Jesus de Nazaré o Cristo, mas o Cristo crucificado pelos homens do Templo, do Dinheiro e do Império, verdadeiros fabricadores de pobres e de pobreza, de vítimas humanas e até duma certa imagem de Deus que tem tudo de vampiro que suga o sangue dos pobres.
Ousemos, na nossa fragilidade e pequenez, dar corpo, em cada geração, a alternativas libertadoras e humanizadoras. Ousemos ser outras e outros Cristo, mulheres e homens nos antípodas dos poderosos, dos ricos e dos chefes eclesiásticos e religiosos.
Ousemos criar uma dinâmica sororal/fraterna entre um encontro e outro. Só assim, será possível que, cada ano e em cada novo encontro, haja novas caras, novas presenças. E não será sequer preciso andar por aí a pedir às pessoas para virem participar. Bastará que elas constatem a nossa alegria e o nosso jeito outro, de sermos e de vivermos.
Ao verem como somos e vivemos, cheias/cheios de Espírito Santo, na alegria e na entrega gratuita, nos combates libertadores e solidários, serão elas que nos perguntarão se podem juntar-se a nós, para partilharem do mesmo Acontecimento de libertação e de salvação, onde tudo é sempre Novo, nunca mais do mesmo!


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