Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

23 Janeiro 2001

A tradição de cantar as Janeiras está a morrer. Como estão a morrer as aldeias do nosso país, principalmente, as do interior, transformadas cada vez mais em desertos de pessoas idosas, onde não riem nem brincam crianças, carregadas de futuro e, por isso, anunciadoras de madrugadas por chegar. Mas esta morte anunciada ainda não ocorreu, felizmente, na freguesia de Macieira da Lixa, no concelho de Felgueiras. Nem ocorrerá, pelo menos, enquanto nela viver a Comunidade de Cristãos de Base e a Associação "As Formigas de Macieira", que lhe serve de suporte legal. E mais. Se chegar a ser construído, como espero e faço por isso, o Barracão de Cultura, no campo que a presbítera da Comunidade, Laurinha, de seu nome, fez questão de oferecer para esse fim, é bem provável que a tradição de cantar as Janeiras tão cedo não morra naquela freguesia.
Uma característica especial tem o Cantar das Janeiras em Macieira da Lixa, no que concerne à iniciativa conjunta da Comunidade dos Cristãos de Base e da Associação "As Formigas de Macieira". É que tanto uma como outra não se limitam a reproduzir músicas e letras dos antepassados, como fazem os ranchos folclóricos, essa espécie de museus-soldadinhos-de-chumbo que cantam e dançam, mas, quais cassetes, se limitam a reproduzir o que os nossos antepassados criaram. Não! As Janeiras em Macieira da Lixa aparecem, cada ano, com uma nova letra, veículo de uma nova mensagem. E as próprias músicas que se cantam (e às vezes se dançam) são também bastante variadas.
Da minha parte, sempre que posso, junto-me às companheiras e aos companheiros da Comunidade e da Associação, e lá saio com elas e com eles a cantar as Janeiras. É uma experiência única. De alegria e festa inexcedíveis.
Fazemo-lo como quem saboreia e, por isso, não pode deixar de anunciar, a Boa Nova ou o Evangelho de Deus para o tempo que aí vem, no qual todas as pessoas conscientes e todos os povos havemos de ser verdadeiros protagonistas.
Este ano, numa das noites em que me juntei às companheiras e aos companheiros, para cantarmos/dançarmos as Janeiras, dois momentos houve que me marcaram de modo especial. Um, foi numa casa situada nas proximidades da Casa da Comunidade. Qual não foi o meu espanto, quando, ao chegarmos, logo a porta se nos abriu e demos de caras com o actual Pároco de Macieira da Lixa, precisamente, o quarto pároco que a freguesia conhece, depois que o Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, me tirou, sem mais, a paróquia, no mesmo dia em que foi sabedor que a Pide me havia prendido pela segunda vez, incomodada pela pregação sem paliativos do Evangelho da libertação, da justiça e da paz, que eu, cada Domingo, procurava lá anunciar aos pobres.
Quando ouvi dizer, Olha ali o senhor abade, logo corri com o olhar todos os que estavam sentados à mesa (era hora de jantar) e não me enganei, quando me virei para um rosto que me olhava, entre o perplexo e o sorridente, e perguntei, És tu o novo pároco? E, perante o aceno afirmativo de cabeça e o sorriso já rasgado dele, não me contive e acrescentei, Ó rapaz (ele é tão novo em anos, que a expressão saiu-me espontânea), dá cá um abraço! E o jovem pároco, felizmente, não se fez rogado. Levantou-se de imediato e caímos nos braços um do outro, coisa que nunca foi possível acontecer, durante os dez anos em que lá esteve o seu imediato antecessor.
Fiquei muito feliz com este inesperado encontro. E deixei bem transparecer toda a minha alegria. A comunhão humana e eclesial, de que este abraço se tornou o sacramento, sempre foi e será o ventre que nos humaniza a todas e a todos. E mais humano foi também como me senti, nessa hora.
O outro momento que me marcou, nessa mesma noite, é de natureza totalmente distinta. E já não me fez dançar, mas chorar invisíveis lágrimas, aquelas que mais doem e deixam cicatrizes na alma.
Cantávamos as Janeiras, junto à porta duma família operária, com mais de proletário do que de operário, e qual não foi o meu espanto e a minha dor, quando a porta se abriu e dou com os olhos na mulher do casal mais novo (tiveram de ficar a viver em casa dos pais, por não terem meios suficientes para adquirir casa própria!) a coser sapatos, áquela hora da noite de Domingo!...
Foi como se toda a exploração das multinacionais do mundo desabasse inteira sobre mim (e ainda dizem que há em Portugal um Ministério da Justiça e que há Tribunais!...). De repente, toda a exploração que as multinacionais praticam impunemente, estava ali estampada naquele corpo de mulher a coser sapatos em sua casa, já noite adiantada, de um Domingo...
A experiência deixou-me quase sem fala, num silêncio feito de sofrida comunhão com aquela mulher e sua família. Também de esperançada determinação para continuar o meu combate sem tréguas, qual David contra o Golias contra a exploração e a exclusão. Para que continue a ganhar corpo uma Terra outra, de fraternidade/sororidade solidária, felizmente, já em progressiva criação dentro da História, em muitos corpos e movimentos, animados de um Espírito nos antípodas do das multinacionais.
Não resisto a reproduzir aqui os versos que, neste mês, temos andado a cantar pelas portas. Atentem na mensagem. E digam lá se ela não vale como um kerigma evangélico para este início do terceiro milénio.
Dirão alguns que é tudo utopia. E, ao dizerem-no, encolhem os ombros e passam adiante, como quem quer significar que um tal Evangelho nunca chegará a ser realidade.
Quem assim reage desconhece que a utopia é mais real do que aquilo que temos por realidade, apenas é invisível aos olhos, como, de resto, tudo o que hoje anda aí carregado de eternidade é sempre invisível aos olhos de todas as minorias privilegiadas do Dinheiro e do Poder, de todo o poder, também do poder religioso e eclesiástico.
Cuidem-se, por isso, todos os parvos endinheirados e poderosos que, hoje, se riem da utopia. Cuidem-se, porque sem eles jamais saberem como, é a utopia que ajuda a manter vivas e em tensão todas as suas vítimas. Cuidem-se, porque, quando menos esperarem, a utopia entra-lhes pela sua estúpida vida dentro, como topia. Ou não fosse verdade que pela utopia é que vamos, por mais que os impérios pretendam o contrário. Aliás, quanto mais os impérios perseguem a utopia, mais ela se torna topia. Ou também não fosse verdade que as flores mais carregadas de futuro, são precisamente as flores pisadas e estranguladas pelos impérios.
Ora leiam e, se forem capazes de inventar uma música, cantem com a Comunidade dos Cristãos de Base de Macieira da Lixa e a sua Associação, estas Janeiras 2001:
Coro
É de paz e de alegria
esta nossa saudação
damo-vos as boas-festas
do fundo do coração
"Formigas de Macieira"
e também Comunidade
a tudo estamos dispostos
p’ra servir a Humanidade
1. Neste terceiro milénio
que ora está a começar
as mulheres e os pobres
vão finalmente reinar
Vão finalmente reinar
criar um mundo de iguais
em que todos os humanos
passam do TER ao SER mais
2. Neste terceiro milénio
o mundo será diferente
a riqueza produzida
chega às mãos de toda a gente
Chega às mãos de toda a gente
como manda a lei do Amor
na comunhão que faremos
pomos fim a toda a dor
À despedida
Aceitamos a oferta
que nos acabais de dar
com ela estais a dizer
que também quereis amar
Que também quereis amar
que dais valor à Ternura
por isso juntos faremos
o Barracão de Cultura
"Neste terceiro milénio, as mulheres e os pobres vão finalmente reinar", proclama a primeira parte das Janeiras 2001. E a segunda parte não lhe fica atrás em ousadia: "Neste terceiro milénio, a riqueza produzida chega às mãos de toda a gente".
Tanto uma afirmação como outra podem muito bem ser assumidas como o kerigma do Evangelho a anunciar e a viver, ao longo dos próximos mil anos, pelas Igrejas que se têm na conta de discípulas de Jesus de Nazaré.
A esta distância, ninguém, hoje, pode atrever-se a dizer como será o mundo no início do quarto milénio do Cristianismo. Mas por mim, não hesito em juntar-me à Comunidade dos Cristãos de base de Macieira da Lixa e à respectiva Associação, para proclamar que o terceiro milénio avançará, indubitavelmente nesta direcção.
E por que o digo com tanta convicção e certeza? Porque, a meu ver, esta é a única direcção que garante futuro ao nosso presente. Na verdade, ou a Humanidade segue este rumo, e tem futuro, ou mantém-se estupidamente no rumo que hoje leva, e não haverá início do quarto milénio para ninguém.
Tenho a certeza de que é por aqui que avançaremos, apesar das minorias privilegiadas de hoje. Até as mulheres e os homens que hoje as constituem hão-de chegar, finalmente, a compreender que, se quiserem ter futuro, têm de aceitar, elas também, nascer do Alto, do Espírito do Deus vivo, o mesmo é dizer, têm de deixar de ser minorias privilegiadas, para serem simplesmente seres humanos, em tudo iguais aos outros.
E o Sopro ou Espírito Santo, por obra e graça de quem as minorias privilegiadas hão-de nascer de novo, há-de chegar até elas, levado pelas suas próprias vítimas, hoje, a quase totalidade da Humanidade. Ou não fosse verdade que as vítimas das minorias privilegiadas, ao levantar-se como exército em linha de batalha, contra a exclusão e a fome, contra a indignidade e a opressão que sofrem na carne, não só se libertam, como, ao mesmo tempo, libertam as minorias que, enquanto existirem, ajudam a manter de pé o sistema que as produz a elas e às suas vítimas.
Os meios com que as vítimas das minorias farão esta revolução libertadora, ainda ninguém sabe. A História diz-nos que uma tal PÁSCOA dificilmente acontecerá sem violência e sem dores. E não admira que assim seja. Não é verdade que até o sempre espantoso nascimento duma criança acontece no meio de dores, chamadas, por isso, dores de parto? Mas benditas dores, essas, das quais nascerá uma Ordem mundial outra, bem mais humana, fraterna/sororal e solidária do que a actual, ainda mais selvagem do que a própria selva!
É esta a imparável força da utopia. Por mais obstáculos que lhe levantem, ninguém conseguirá detê-la. Assim como ninguém detém a força de um rio, nem a força do Vento, também ninguém poderá deter a força da Utopia.
Por isso, estou feliz, neste início do terceiro milénio. O mundo novo que já cresce por dentro deste velho mundo de desigualdade e de desumanidade, de refinada exploração e de discriminação, será um mundo em que as mulheres e os pobres assumirão, finalmente, o seu lugar na economia e na política, na sociedade e nas Igrejas. E hão-de ser elas e eles, em conjunto, que darão à luz uma terra outra, em que a riqueza produzida chegará às mãos de toda a gente, como manda a lei do Amor.
Digam lá se, com Janeiras assim, não apetece cantar e dançar. E se haverá aí quem possa deter-nos, nesta festa e neste combate. Nada nem ninguém.
Entretanto, é preciso, imperioso e urgente, que as mulheres e os pobres deste início do terceiro milénio oiçam este kerigma evangélico, mudem radicalmente de postura - é o que Jesus de Nazaré designa por "conversão" ("metanoia", em grego) - e creiam na Boa Notícia que ele é.
Então, em lugar de continuarem aí, resignadas e conformadas/resignados e conformados, como o pobre Lázaro, da parábola lucana, à espera das migalhas que caem da mesa dos ricos e poderosos – as minorias privilegiadas nem isso fazem a bem, só o fazem, se a tanto forem obrigadas pela força! – eis que ousarão organizar-se e assumir a primeira linha de combate sem tréguas contra a actual Ordem mundial intrinsecamente perversa. Ao mesmo tempo, progressiva e perseverantemente, hão-de chegar a assumir a primeira linha na condução da economia e da política, para que a História passe, finalmente, a ser vivida como a grande oportunidade de salvação para todas as mulheres e para todos os homens, bem como para todos os povos, sem exclusão de ninguém nem de nenhum.

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