Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

22 Janeiro 2001

Acabo de receber uma carta, via e-mail. Vem da Alemanha. Como os problemas que me põe, não são apenas de quem a escreve, mas provavelmente de muita outra gente, decidi transcrevê-la no meu Diário-net, juntamente com a resposta que lhe enviei pela mesma via e-mail. Tenho consciência de que não cometo nenhuma inconfidência, ao divulgar os dois textos aqui. Pelo contrário, poderei estar a prestar um bom serviço a outros homens e mulheres, tão jovens ou já menos jovens do que este português emigrante. Quem ler, dirá da sua justiça. Eis os textos. Primeiro, a carta. Depois, a minha resposta.

1. P. Mário de Oliveira,
Antes de mais espero que esta carta o encontre bem. O meu nome é Sebastião André Viola, tenho 22 anos, sou estudante universitário e escrevo-lhe para agradecer profundamente o seu último livro: "Nem Adão e Eva nem Pecado Original". Também li o anterior, "Fátima nunca mais", que desde já aproveito também para lhe agradecer, o qual já me tinha elucidado que existe realmente uma maneira muito diferente de viver Jesus da maneira que a Igreja Católica apregoa. Simplesmente, dou mais destaque ao ultimo livro, porque foi o que veio em socorro de alguns dos meus maiores anseios. Foi um livro importantíssimo para mim na maneira em que me deixou uma linha de orientação em relação a algumas dúvidas que me vinham assaltando.

É que sempre tive uma educação completamente ateia, por convicção, de ambos os lados da minha família, que fez com que Deus e a Fé nunca fizessem parte do meu quotidiano. Em relação à religião, não foi tanto assim porque sempre tive ideias, e também me sinto bastante próximo de ideais, bastante anticlericais, nomeadamente anti-Igreja, mais concretamente a católica, e as implicações sociais que advêm da sua forte influencia na nossa sociedade.

Tudo isto mudou quando, há cerca de ano e meio, conheci algumas pessoas que me mostraram que afinal existe diferença entre Fé e religião e que se pode viver de acordo com essa Fé. Uma dessas pessoas é, actualmente, a minha namorada, da qual tenho um grande orgulho.

A partir dai, a minha curiosidade em relação a Deus aumentou bastante, a qual mais tarde transformou-se num processo de Procura. Tem sido um processo bastante tortuoso, com muitos altos e baixos, com muitas conversas e discussões que tentei aprofundar o máximo possível, tentando ler os livros certos e também, obviamente, a Bíblia. Isto tudo sem nunca esquecer que a Fé não é um processo cognitivo, mas sim intuitivo, antes de tudo o resto, uma relação de Amor.
Assim foi durante algum tempo, até que, cheguei à conclusão de que tinha, por de lado, as teologias e, por outro lado, concentrar-me no livro que me liga a Deus, ou seja, a Bíblia. Isto porque, como sabemos, a Deus nunca ninguém vai chegar a compreender na totalidade. Procurei compreender até que ponto a Bíblia era realmente a palavra de Deus, como é que e por quem é que foi elaborada, em que contexto religioso, social e cultural. Ou seja, até que ponto era fidedigna.

Para isso li algumas coisas que pensei que me pudessem ajudar, e houve realmente um livro que me elucidou bastante, que se chama "Os Primeiros Cristãos" da Irina Sventsiskaia(?), da editorial Caminho. Só que, ao contrario do seu, é um livro meramente sociológico acerca do Novo Testamento.

Por isso, penso que deve imaginar, como conhecedor profundo da Bíblia, quanto o seu livro foi motivo de alegria para mim. Quanto me elucidou na forma como se pode tirar da Bíblia a mensagem de Deus. Como Ele nos ama a todos por igual e que a Salvação é mesmo para todos.

Mas ao mesmo tempo assaltam-me tantas outras dúvidas sobre as quais gostaria de saber a sua opinião. Por exemplo, agora que consigo perceber qual a importância da Bíblia (a conclusão a que cheguei é que a Bíblia é a História mítica da Revelação de Deus a um povo, e, posteriormente, a toda a Humanidade, mas escrita por pessoas como nós, que, com um adequado conhecimento dos factos históricos que rodearam a sua elaboração, podem fazer a sua correcta interpretação), sinto que para continuar a sua leitura e interpretação, nomeadamente o Antigo Testamento, sem ter o conhecimento dos factos históricos, torna-se um pouco infrutífero e até um pouco difícil. Sinto-me um pouco perdido nesta questão.

Em relação ao Novo Testamento, e relacionado com a conclusão a que cheguei acerca de Bíblia, também tenho curiosidade em saber o que pensa acerca das Cartas, que, para mim, parecem não ter um carácter bíblico, mas sim, um carácter histórico.

E acerca da oração, qual a sua importância? Será que podemos cair no erro de passar demasiado tempo em oração (não é o meu caso!), ou, de lhe dar demasiada importância? É que por mim, que não posso considerar-me crente, mas que estou à Sua procura, sinto que é essencial dar um ultimo passo, para ter uma relação com Ele verdadeiramente frutuosa em todos os aspectos, mas não sei bem com gerir esta questão.

Espero que não leve a mal colocar-lhe estas questões, mas como, de momento, me encontro na Alemanha, a fazer um ano de intercâmbio (programa Erasmus), não tenho muita gente com quem partilhar mais a fundo estas dúvidas, a não ser a Renata (a minha namorada - a qual também me incentivou a escrever-lhe, isto porque temos dúvidas comuns).
Sei que deverão existir livros que poderão responder a algumas das minhas questões (nomeadamente a bibliografia do deu livro), mas resolvi escrever-lhe também para ouvir uma palavra amiga, que para mim significaria bastante.

Talvez não tenha sido muito claro nas minhas questões, mas é que até nas perguntas me sinto confuso!

Gostaria saber também algumas informações acerca do seu jornal, e, se é possível tornar-me assinante.

Agradeço desde já a atenção que me concedeu, sem saber bem como me despedir, porque considero-o um amigo sem que me conheça de lado algum.

Sebastião André Viola

2. Meu caro Sebastião André
Querida Renata
É com muita alegria que aqui estou - um pouco atrasado, do que peço perdão - a conversar convosco sobre a carta que me enviastes.

O livro NEM ADÃO E EVA NEM PECADO ORIGINAL está a esbarrar com um muro de silêncio, pelo menos, em Portugal. Nada que eu já não esperasse, mas que, mesmo assim, me deixa incomodado e com alguma mágoa. Gostava tanto de o verchegar a todas as pessoas, para que elas possam experimentar a libertação de tantos medos ancestrais em que todas e todos fomos educados pelas diversas Igrejas, no que respeita a Deus e à nossa relação com Ele e à relação dEle connosco.

Mas não está nas minhas mãos obrigar as livrarias a vender o livro. Nem obrigar as pessoas a lê-lo. As Igrejas, a começar pelas suas cúpulas, também não se mostram interessadas na divulgação e no aprofundamento do livro. A mensagem que ele contém e divulga é demasiado libertadora para que essas cúpulas se mostrem interessadas nela e na sua divulgação. Pelo contrário, tudo farão para a esconder. E, se possível, desviar da leitura do livro os seus fiéis. Elas sabem que, se as pessoas abrirem os olhos, como aquele homem do Evangelho de João (cap. 9) que nasceu cego - não é um relato histórico, mas uma parábola teológica muito bem conseguida e espantosamente arrojada! - nunca mais poderão contar com a sua subserviência, nem com os seus dízimos, com os quais elas enriquecem e se tornam cada vez mais poderosos e influentes monopólios religiosos.

Cabe, então, a cada pessoa que o leia e se sinta edificada com a sua leitura, divulgá-lo entre os seus conhecidos e amigos. Para que o livro possa fazer o seu percurso e chegar, pouco a pouco, a muito mais gente.

Vamos, pois, a isso, meus caros companheiros!
Quanto às questões que o Sebastião André me coloca, eis um breve contributo, sem pretensões a ser exaustivo.

1. A Bíblia não é um livro, mas uma pequena-grande biblioteca. Como o próprio nome indica, a Bíblia é um conjunto de livros. Basta ver que o nome "Bíblia" é um substantivo plural. Como tal, não pode ser lida de um fôlego, como quem lê um romance. Se são vários livros, cada um deve ser lido, independentemente dos outros, mas, ao mesmo tempo, em relação com os outros. Não é por acaso que o conjunto de todos eles é que faz a Bíblia.

Para termos acesso ao essencial da sua mensagem de libertação, temos de conhecer a época histórica em que cada livro foi escrito. E quais os problemas humanos, económicos, sociais e políticos que o livro quis iluminar. Porque a Palavra de Deus não anda nas nuvens. É sempre uma Palavra encarnada. É por isso que nós, as cristãs e os cristãos, dizemos que Jesus de Nazaré, o Cristo de Deus, é a Palavra de Deus, definitivamente revelada. Ou seja, com Jesus de Nazaré, ficamos definitivamente a saber quem e como é Deus e quem e como é o ser humano. Quem vê Jesus de Nazaré, vê o Pai-Deus, e vê o Ser Humano. Ele é a Palavra de Deus feita carne que acabou crucificado, mas a quem Deus ressuscitou. E que, por isso, está vivo e continua misteriosamente activo entre nós, mediante o seu Espírito, a fazer novas todas as coisas e a guiar-nos para a Verdade total, o mesmo é dizer, para a Liberdade/Responsabilidade total.

Mas os livros da Bíblia foram escritos por homens. Com as limitações que nos são próprias. Por isso, homens situados num determinado contexto e influenciados por ele. Com uma visão historicamente situada e limitada. Com uma determinada ideologia. Homens de carne e osso como nós, hoje. Homens que tomaram partido. Homens que sonharam ver a História avançar em determinada direcção. Que viram Deus em certos sinais dos tempos. E se deixaram conduzir, por entre os acontecimentos históricos, como às apalpadelas.
Por isso, os livros da Bíblia são para ler com cautela e muita inteligência. Por um lado, com a simplicidade das pombas, mas, por outro lado, também com a prudência das serpentes. É o que procurei fazer no livro NEM ADÃO E EVA NEM PECADO ORIGINAL.
Deus nunca é como nós O imaginamos. E se depois tomamos como definitivo o Deus que imaginamos, logo Ele se transforma em ídolo e nos transforma em idólatras.

Para aproveitarmos da leitura dos livros da Bíblia, o ideal é lê-los em grupo ou pequena comunidade, conscientemente reunida em Nome de Jesus. Aí está, também, misteriosamente activo, o Espírito Santo. O mesmo que inspirou os autores dos textos bíblicos a escrevê-los. E será este Espírito de Deus que nos orientará na captação e na interpretação dos livros da Bíblia, para o nosso hoje e aqui.

Jesus de Nazaré deu-nos um critério infalível, para conhecermos a presença-acção do Espírito de Deus no meio de nós e no meio dos acontecimentos de que é feita a História. É o critério da libertação para a liberdade. Por outras palavras, sabemos que a Palavra de Deus nos atingiu, quando nos deixa mais livres para a liberdade.
Quer dizer, sempre que Deus nos fala e é escutado por nós, é para nos deixar mais libertos e mais responsáveis, também mais fraternos/sororais e solidários. Se isto não se verifica, por mais que leiamos ou ouçamos ler os livros da Bíblia e os estudemos, não é Deus quem nos fala, mas um ídolo, criado por nós à nossa imagem e à nossa medida, ou criado pela instituição eclesiástica ou religiosa que manipula a Bíblia para, com ela, fazer das pessoas, seres submissos e obedientes, castrados, dóceis, bons pagantes dos megalómanos projectos empresariais que os respectivos pastores ou chefes concebem e que lhes garantem um ascendente cada vez maior sobre os chamados "fiéis".
Ora, a nossa fidelidade só pode e deve ser fidelidade ao Espírito Santo, esse mesmo que fez de Jesus de Nazaré, o Cristo ou o Libertador, e que quer fazer de cada uma de nós e de cada um de nós outros Cristos, outros libertadores, hoje e aqui.
Folgo por saber que o Sebastião André está a fazer uma aproximação a Deus, depois de ter sido educado no ateísmo. Melhor, que está a dar-se conta de que Deus está a conseguir aproximar-se dele, da sua consciência. "Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei na sua casa, sentar-me-ei à mesa e cearei com ele", isto é, passaremos ambos a viver em intimidade – é isto a espiritualidade cristã - e tudo será novo todos os dias, numa alegria que o mundo do dinheiro e dos poderosos não consegue dar, nem sequer conhece.

Mas, cuidado. A Deus nunca ninguém O viu. O Filho Unigénito, que é Deus e que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer. É, pois, por Jesus que Deus se nos revela e vem até nós. Ou seja, o que sabemos de Deus é por Jesus que o sabemos.
O escândalo maior desta revelação de Deus em Jesus, é ficarmos a saber, por exemplo, que Ele é um Deus que ressuscita Jesus, mas já não evita que ele seja crucificado. Ou seja, é um Deus que não nos substitui na nossa responsabilidade na condução da História. Pelo contrário, é o primeiro a sofrer as consequências das nossas soberanas, mas nem sempre acertadas decisões. Mas também ficamos a saber que Deus é um Deus que nos ressuscita, como ressuscitou Jesus, o que quer dizer que sempre consertará o que nós estragamos. É, por isso, um Deus misteriosamente presente/ausente. Um Deus que se nos revela e que nos escandaliza, porque nunca é como O havíamos imaginado. É um Deus que está connosco, não para nos amedrontar ou controlar, mas para nos tornar cada vez mais libertos para a liberdade, ou seja, mais responsáveis e protagonistas.
Um Deus que nos infantilizasse, seria um ídolo, do qual é preciso fugir a sete pés. E costuma ser muito assim o deus das religiões e dos sistemas religiosos, que os respectivos chefes pensam que dispõem dele a seu bel-prazer. E, quando dispõem dele, não é de Deus que dispõem, mas de um ídolo, feito à medida deles e à medida dos seus mesquinhos interesses corporativos.
No que lhe diz respeito, meu caro Sebastião André, deixe que Deus seja Deus em si, na sua vida. Ele fará de si outro Moisés, outra Maria de Nazaré, outro Jesus. E você cantará como eu gosto de cantar: Quando for grande vou ser/ quero ser outro Jesus/ libertar os oprimidos/ dar a boa nova aos pobres/ integrar os excluídos/ quero ser outro Jesus. E ainda: Quando for grande vou ser/ quero ser como um menino/ convidar p'ra minha mesa/ quem p'lo mundo é desprezado/ acabar com a pobreza/ quero ser como um menino.

Um ídolo faria de si um déspota, um importante, um tirano, um poderoso, um privilegiado. Que é o que os chefes dos sistemas religiosos e outros chefes de outras coisas pretendem ser. Sem se darem conta de que, assim, em lugar de serem seres humanos, são uns monstros!
2. As cartas do Novo Testamento. São documentos muito pessoais, mas recheados de profunda e oportuna reflexão teológica. Algumas delas contêm também muitos usos e costumes da época, transcrição de códigos de comportamentos sociais da altura, que não são para ser seguidos hoje e aqui.

São importantes as cartas autênticas de S. Paulo, o apóstolo que não conheceu Jesus fisicamente, mas que mais se identificou com ele, enquanto Cristo de Deus. São menos importantes, as cartas atribuídas a S. Paulo, mas que não são dele. Também aqui é necessário muito discernimento, porque algumas cartas atribuídas a S. Paulo foram escritas por outros, já depois da morte do apóstolo. Muitas das orientações pastorais que vêm nas cartas do Novo Testamento terão sido oportunas para a época, não para agora, que já estamos no século XXI e no terceiro milénio do Cristianismo.
Precisamos, por isso, que, também hoje, haja cristãs e cristãos que escrevam, sob inspiração do mesmo Espírito Santo que inspirou os autores dos livros do Novo Testamento. Até os Evangelhos canónicos, imprescindíveis para chegarmos à Fé em Jesus crucificado/ressuscitado, carecem de ser actualizados.
O trabalho das comunidades cristãs primitivas precisa de ser continuado, melhor, actualizado pelas comunidades cristãs de hoje. Infelizmente, temo-nos limitado a recorrer às narrativas elaboradas pelas comunidades cristãs primitivas, quando deveríamos ousar ser tão criativos quanto elas. Porque a Fé cristã, ou fala a linguagem de cada tempo e lugar, de cada cultura e de cada povo, ou torna-se obstáculo ao despertar da Fé cristã.
Mas é preciso que se diga que Jesus Cristo não é monopólio de nenhuma Igreja. É de toda a Humanidade. Neste particular, temos mesmo de dizer: é imperioso e urgente resgatar Jesus e o seu Evangelho libertador do monopólio das Igrejas e das religiões, para restituir um e outro à Humanidade, também à grande parcela de ateus que, hoje, a constituem.
Tenho até para mim que os ateus, mulheres e homens, nossos contemporâneos, estão em melhores condições do que muitos católicos e outros cristãos mais ou menos fanáticos e muito religiosos, para entender e dar-se bem com Jesus e com o seu Evangelho do Reino ou Reinado de Deus. Não vão à missa nem ao culto das Igrejas e das Religiões, mas vão às lutas pela dignificação das pessoas, pela transformação do mundo, pela defesa dos direitos humanos, pela implementação duma Terra de justiça e de partilha de bens.
Aliás, o Evangelho de Mateus, capítulo 25, 31-46, não deixa dúvidas: Na hora de Deus, ninguém nos perguntará a quantas missas fomos, quantos terços rezámos, quantas peregrinações fizemos, quantas promessas cumprimos, em quantos cultos participámos. Nessa hora de Deus, o que indagarão de nós é se amamos o próximo, nomeadamente, se ajudamos a criar uma Terra de irmãs e irmãos que se amam, uma Terra onde ninguém fique privado do essencial para viver com dignidade. Por outras palavras, nessa hora de Deus, o que quererão saber de nós é se fomos suficientemente ateus que amaram o próximo.
Porque, se o tivermos feito, fomos seres humanos que também amaram a Deus. O Deus que não vive nos templos feitos pela mão dos seres humanos, mas no mais íntimo de cada ser humano, a começar pelos últimos dos últimos.
Enquanto os muito religiosos sempre esperam encontrar Deus no templo e confundem amor ao próximo com ritos e cultos mais ou menos esteriotipados, os ateus deixam-se encontrar por Deus que lhes sai ao caminho, como um ladrão, na pessoa dos mais injustiçados pelo sistema neoliberal e são sensíveis às suas dores, aos seus clamores e às suas aspirações, ao ponto de se deixarem envolver em arriscadas lutas sociais e políticas, com o objectivo de mudarem radicalmente a actual situação de injustiça, imposta pela Ordem dominante. Neste caso, temos de reconhecer que os ateus também nos evangelizam. Se calhar, muito mais do que muitas Igrejas e muitos dos seus membros.
3. Com isto, já entrei na temática da oração. Mais do que fazer oração, é preciso deixar que a oração nos faça a nós. O Evangelho de Jesus é claro e, ao mesmo tempo, escandaloso, quando adverte que, quando rezarmos, não façamos como os pagãos (afinal, também os pagãos dizem orações!), que pensam que é no dizer muitas palavras, no recitar muitas fórmulas, que são mais ouvidos por Deus. Puro engano.
Também muita gente diz que rezar é falar com Deus. E não se inibem nada em fazer enormes discursos a Deus, para ver se O convencem a fazer o que elas querem. Rezam, para tentar convencer Deus. Em lugar de rezarem para se deixarem convencer por Deus. Mais do que falar com Deus, rezar é escutar Deus, é abrir-se a Deus, é deixar Deus ser Deus em nós.
Não falta igualmente quem faça da oração um meio para pedir a Deus aquilo que, se lhes fosse concedido, faria delas seres egoístas e satisfeitas consigo mesmas, sem quererem saber dos demais para nada. Querem um Deus para elas e o diabo para os demais. A oração seria então um meio para alimentar refinados egoísmos.
Não é por aí que vou, nem ninguém deve ir. A única coisa que podemos pedir a Deus é o Espírito Santo. E mesmo este não precisamos de pedir a Deus, porque Deus é primeiro interessado em no-lo derramar nos nossos corações. Assim nós estejamos pelos ajustes. O que não é fácil. Porque o Espírito Santo tem gostos nos antípodas dos gostos dos senhores deste mundo, dos poderosos e dos ricos. Tem projectos que andam nos antípodas dos projectos dos poderosos e dos ricos.
Rezar, é deixar-se mover e conduzir pelo Espírito Santo. Aliás, para haver verdadeira oração, há-de ser o Espírito Santo a rezar em nós. E, quando isso acontecer, eis que nos descobriremos cada vez mais irmãs e irmãos dos demais, a começar pelos mais empobrecidos, oprimidos e excluídos. Por isso, se com o multiplicar do tempo de oração, não nos tornamos mais irmãs e irmãos dos demais, é caso para alarme. Em vez de orarmos, estamos a falar sozinhos e, nesse caso, talvez seja aconselhável consultar um especialista, porque andaremos a delirar na vida e a viver no reino da fantasia.
4. Quanto ao Jornal FRATERNIZAR. Se quiserem assiná-lo, têm de enviar para cá o vosso endereço completo. Nesta altura, o jornal é trimestral. Poderei enviar-lhes ainda o n.º de Janeiro/Março, logo que saiba o vosso endereço. Depois de o conhecerem, decidirão se querem ser assinantes ou não. Na ficha técnica do Jornal, na última página, vão as condições de assinatura. Basta lê-las.
Termino por hoje. Aguardo o vosso endereço. E deixo-vos o meu abraço de companheiro e de irmão. Um dia, quem sabe, havemos de encontrar-nos cara a cara. E conversar com tempo, à volta da mesma mesa. Numa refeição eucarística, em comunhão com Jesus de Nazaré, o Cristo de Deus que vive connosco até à consumação/plenitude dos tempos.
Vosso, sempre
Padre Mário.

P. S. Dentro de dias, já podereis abrir a página pessoal que estou a preparar na internet. O endereço, já registado, é: www.padremariodalixa.com

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