Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

14 Janeiro 2001

P1. Hoje, é Domingo. Dia de eleições para a presidência da República. Mas não é sobre isso que me vou debruçar nestas minhas reflexões sobre a Igreja e a sociedade. Até porque hoje é dia de estarmos calados sobre as eleições em que nos vamos envolver. Conforme determina uma lei sem pés nem cabeça, da República portuguesa. Uma lei que, como tantas outras, nos trata como infantes, como crianças grandes. Que, afinal, é o que ainda somos, na grande maioria. Súbditos, em vez de sujeitos. Assustados, em vez de cidadãos. Dependentes, em vez de autónomos. Obedientes, em vez de responsáveis.
Talvez por isso os sucessivos actos eleitorais, à medida que nos afastamos da libertadora madrugada do 25 de Abril 74, tão grávida de Futuro e de Novo, passaram a ter mais de velório do que de festa. Vamos votar - os e as que vamos - mas como o boi vai para o matadouro. Com o ar de quem cumpre um dever, um doloroso dever. Porque aquilo que fazemos é algo de estranho a nós próprios. É um acto para nos dispensar, durante cinco anos, de múltiplos outros actos nossos. É uma cedência a outros da responsabilidade que deveríamos exercer/viver todos os dias. É uma demissão. E não pode haver festa, lá onde as pessoas se demitem. Onde renunciam a ser elas próprias. Onde deixam, voluntariamente, de ser.
Por mim, resmungo contra este estado de coisas. E, se ainda voto, não me limito a votar. Procuro manter-me atento. E participante. Não sou homem de partido, mas tomo partido todos os dias. Sei o que quero e luto por isso. A Política é algo de essencial na minha vida. É a minha forma de amar o meu próximo. Até porque não há Evangelho jesuânico e cristão sem Política. Ou nós, como cristãs e cristãos, não fôssemos discípulas e discípulos de um Crucificado, a condenação mais tipicamente política da época do Império romano.
Mas não posso deixar de reconhecer que esta democracia representativa que nos impõem, de cima para baixo e para a qual nos querem convencer de que não há alternativa, é uma coisa de mortos, mais do que de vivos. Não subleva. Não entusiasma. Não mobiliza. Não levanta. Não ressuscita. Gera apatia. Indiferença. Abstenção. Em números cada vez mais assustadores, pelo menos, no dizer-comentar de certos fazedores de opinião pública.
A mim, não me assusta por aí além o elevado número da abstenção. Até me alegra. Porque é sinal de que as populações são muito mais hábeis e inteligentes do que os profissionais da política e do que os próprios fazedores de opinião pública. É sinal de que as populações já não vão por aí, por onde os que vivem da política querem que continuemos a ir. As populações podem não saber ainda por onde ir, mas já sabem que não é por aí que querem ir. E não vão. Quando decidem ficar em casa, ou sair em passeio até à beira-mar ou para a montanha, em lugar de ir votar, estão a dizer que esta forma de democracia é boa, mas para alguns se governarem com ela. Não serve para fazer viver na justiça e na comunhão solidária as populações e os povos. Serve apenas para alguns se encherem à custa da maioria da Humanidade, sistematicamente, empobrecida. Não serve para que os povos tenham vida e vida em abundância e de qualidade. Serve apenas para alguns se corromperem e corromperem outros que, depois, lhes ficam fiéis, como cães amestrados. Não serve para promover a cidadania, a liberdade, a responsabilidade, a criatividade, a saúde pública e social. Serve apenas para criar e promover elites, cada vez mais perversas nos privilégios que, despudoradamente, garantem para si próprias e para os seus apaniguados. Não serve para fazer de todos os indivíduos e de todos os povos sem excepção, protagonistas. Serve apenas para criar demagogos, oportunistas que não olham a meios para alcançarem os seus fins. É uma democracia sem povo. Teórica e etimologicamente, democracia é poder do povo, mas na prática dita democrática que por aí está cada vez mais generalizada, o povo nunca chega a ser poder. Nem o poder chega a ser do povo.
Por isso, ou temos a audácia de inventar/criar outros modos de organizar a sociedade que envolvam as pessoas, com todas as suas capacidades, ou acabamos por ter sociedades que mais parecem casas de opressão, como o antigo Egipto dos faraós, ou, pior ainda, necrópoles, onde a vida humana a valer não tem condições de poder acontecer. Nascemos, comemos, crescemos, divertimo-nos e morremos, sem nunca chegarmos a dar conta do tipo de mundo em que tudo isto sucedeu. Tal como os animais, que, por natureza, são incapazes de conceber e de realizar projectos, o mesmo é dizer, incapazes de fazer História.
Felizmente, os povos não são nunca como as elites oportunistas que os governam e se servem deles e lhes reclamam o voto para poderem prosseguir nas suas tropelias e perversidades. Podem suportá-las, durante anos. Anos demais, diga-se. Mas, quando menos se espera, aí estão elas a dar sinal da sua existência e da sua rebeldia. O grito do Ipiranga sobe-lhes das entranhas e a revolução torna-se inevitável. E, com ela, a mudança. A Humanidade não entra, de imediato, no paraíso. Mas é um pequeno passo mais que dá em frente para poder lá chegar. O processo histórico é longo e demorado. Mas irreversível.
Vale a pena apostar nos povos. Não nas elites oportunistas que os sugam e enganam e os (des)governam. De resto, o paraíso por que ansiamos, não fica no futuro, no final da História, muito menos no depois da História, como todas as religiões e certas ideologias de esquerda romântica sempre nos quiseram convencer. O paraíso está já a crescer dentro de nós, aquelas e aqueles de nós que recusamos ser submissos e indiferentes, mortiços e alienados. Aliás, é o paraíso a crescer dentro de nós que nos torna insubmissos, irreverentes, politicamente incorrectos, fecundamente humanos, fraternos/sororais, solidários.
Por isso, para aqueles e aquelas que recusam a alienação e o deixar correr, a luta é quotidiana, tanto como a festa. Uma não vive sem a outra. Mesmo que nos persigam e nos marginalizem, não conseguem roubar-nos a alegria de viver e as razões de combater. Ou não fosse verdade o grito do Poeta, "Por cada flor estrangulada, há milhões de sementes a florir". E são as vidas-flores que garantem futuro ao nosso presente. Por mais medonho, pesado e atribulado que as elites privilegiadas no-lo façam.
Basta que nunca capitulemos. Que nunca deixemos de ser insubmissos. Que nunca nos coloquemos de joelhos ou de cócoras diante do Poder e dos poderosos. E que, se tivermos de morrer às suas mãos, morramos de pé. Como as árvores. A gritar, no silêncio da Verdade que liberta e nos faz viver cada dia como seres humanos, que os poderosos e os ricos, por mais que o sejam, têm pés de barro e, por isso, não têm futuro. Cairão tanto mais depressa, quanto maior for o número de mulheres e de homens que se libertam do medo deles. E os enfrentam com inteligência e imaginação criadora. Sempre com a arma da Verdade e da Ternura.
2. Mas não é das eleições presidenciais e do tipo de democracia que elas simbolizam e materializam, que hoje me proponho reflectir e conversar. Hoje, é Domingo. E, na linguagem litúrgica da Igreja católica a que pertenço, é o 2º Domingo do tempo comum, do Ano C. O que quer dizer que, nos templos católicos de todo o mundo, quem lá for (não sei o que ainda leva tantas pessoas a ir à missa, quando nem Deus lá vai, muito menos está interessado nos louvores que lá são promovidos em sua honra!) escutará uma das narrativas mais conhecidas do Evangelho de João, que dá pelo tradicional nome de "Bodas de Canã", e que é uma das mais belas jóias literárias da literatura mundial, como aliás, todo o Evangelho de que ela faz parte.
Pois bem, estou mesmo a ver a série de disparates que, a propósito desta narrativa evangélica, vão ser, hoje, proferidos por esses templos católicos fora. Não só em Portugal, mas também na Europa e no mundo, onde houver templos católicos abertos ao culto. Disparates que andam a ser repetidos há séculos e séculos, em forma de homilias, de sermões e de catequeses sem o mínimo de exegese e de hermenêutica bíblica que se prezem.
Ora, é para aí que, hoje, quero chamar a atenção. Alertar as minhas concidadãs e os meus concidadãos. Para que não continuemos a ser como um rebanho de ovelhas ou de carneiros, conduzido por pastores que, em lugar de darem a vida pelas pessoas, mais parecem mercenários que vivem à custa delas (cf. João 10, 1-21). E que se servem da mentira para melhor conseguirem os seus sinistros objectivos. Pode não ser uma mentira consciente, em muitos desses pastores, eles próprios, infelizmente, já educados e formados na mentira organizada e estabelecida, da qual, ao longo da vida, nunca se libertaram. Mas, na prática, dá o mesmo resultado. Se, como alerta o Evangelho de João (8, 31-323), só a Verdade liberta, a mentira sempre oprime, cega, castra, aliena e, finalmente, mata.
Não preciso de ir aos templos católicos para saber o que, na generalidade lá está a ser dito, hoje, a propósito das chamadas bodas de Canã. E que muitos canais de televisão e muitas estações de rádio se encarregam de transmitir para muita outra gente que, embora já não ponha os pés nos templos, ainda continua a gostar de ver e ouvir a missa por esses meios. Se calhar, com a ideia de que, assim, já não comete o pecado mortal que a Igreja católica oficialmente ensina que comete, quem não cumprir o primeiro dos seus mandamentos, Ouvir missa inteira aos domingos e dias de festa de guarda!...
Por mim, há muitos anos que deixei de ir à missa aos domingos E não tenho medo do inferno, resultante do "pecado mortal" que o não cumprimento desse mandamento da Igreja implica. Sou padre/presbítero da Igreja católica sem ofício pastoral oficial, mas trabalho pastoral é coisa que, felizmente, não me tem faltado (e esta página na Internet é mais uma prova disso). Porém, à missa, já não vou há muitos anos. Nem aos domingos, nem aos dias de festa de guarda, nem aos dias de semana. Pela simples razão de que a missa que por aí se compra e vende nos templos católicos, transformados, por isso, numa espécie de supermercados de religião, não é, não pode ser, a actualização da ceia do Senhor, muito menos, é a Eucaristia.
Aliás, é preciso que se diga que Jesus não criou a missa. E a única Eucaristia que historicamente realizou foi a da incondicional entrega de toda a sua vida (as expressões, Corpo entregue por vós e Sangue derramado por vós, mais não querem dizer do que toda a sua vida) às Causas da Humanidade, sobretudo, da mais empobrecida, da mais oprimida e da mais excluída. Uma entrega que, no caso dele, chegou ao ponto máximo do amor, que é dar/perder a própria vida por todas e todos nós, suas amigas e seus amigos.
Pelo que sempre se tem ensinado, a propósito da narrativa conhecida como as bodas de Canã, a generalidade das pessoas pensa que houve mesmo um casamento em Canã da Galileia e que o Evangelho de João é uma espécie de reportagem jornalística sobre ele. Depois, como a narrativa coloca, entre as diversas personagens em destaque, a mãe de Jesus (curiosamente, não lhe chama Maria, muito menos virgem Maria) e o próprio Jesus, sempre se tem ensinado que a mãe de Jesus teve decisiva influência em Jesus e que, até, foi graças a ela que Jesus antecipou a sua hora de fazer milagres. E, consequentemente, realizou o primeiro e espectacular milagre de transformar a água em vinho. Daí, a concluir que, ainda hoje, tudo o que quisermos obter de Jesus, o devemos pedir através da sua mãe, foi um passo. Outra conclusão, teologicamente não menos perversa, a que se chegou, é esta: Deus é inacessível, o próprio Jesus é inacessível, mas a mãe de Jesus não. Então, alimentemos a nossa devoção para com ela, e ela se encarregará de fazer chegar os nossos problemas e as nossas aflições ao seu filho Jesus. E como Jesus é incapaz de dizer "não" à sua mãe, é certo e sabido que tudo conseguiremos obter, se formos por este atalho, que é a mãe de Jesus, em lugar de irmos directamente a Jesus. Não falta, por isso, quem, com base nesta doutrina pseudo-teológica, chegue a falar da mãe de Jesus como "medianeira de todas as graças", aquela que, infalivelmente, arranca de Jesus e de Deus, tudo quanto lhe pedirmos!...
Acontece, porém, que a narrativa evangélica de João não é uma reportagem jornalística. Não relata um acontecimento real. É uma parábola. Uma estória. Maravilhosamente concebida e saborosamente contada. Por alguém que conhece profundamente a Bíblia hebraica (o que hoje chamamos, incorrectamente, Antigo Testamento) e com mestria recorre a ela para construir uma narrativa literária, através da qual nos revela e anuncia uma espantosa Boa Notícia ou Evangelho libertador, altamente subversiva, altamente polémica, altamente revolucionária, tanto na época histórica de Jesus, como neste início do século XXI e do terceiro milénio. Assim, a saibamos escutar e interpretar.
Vejam como a narrativa está construída. O autor situa a acção ou intervenção de Jesus, ou seja, o primeiro sinal público que ele dá de si próprio, no sexto dia, precisamente, o dia da criação do ser humano, mulher e homem, tal como essa criação vem descrita no respectivo relato mítico do livro do Génesis. Com isso, quer dizer que este Jesus, que os chefes dos sacerdotes e o Império romano, dentro de algum tempo irão matar como blasfemo, como maldito, como subversivo, é, afinal, o Ser Humano integral, tal como Deus o sonhou, é o Ser Humano por antonomásia, tão humano que, humano assim, só pode ser mesmo Deus a viver entre nós e connosco.
A Mãe de Jesus, a quem Jesus, na narrativa, nunca trata como mãe, mas apenas como "mulher" (ela também nunca trata Jesus como "filho"), não é de modo algum uma das personagens mais importantes. Pelo contrário. Na narrativa, ela faz parte da situação, do status quo reinante, que o autor se propõe descrever e desmascarar.
Dela, diz a narrativa que "estava lá", tal como, depois, irá dizer, mais adiante, que "estavam lá" seis talhas de pedra (símbolo da Lei de Moisés), por sinal, completamente vazias de água, inúteis, portanto. Ou seja, na narrativa, a mãe de Jesus ainda faz parte do sistema judaico, que tinha no Templo de Jerusalém e na Lei de Moisés, interpretada pelas elites religiosas privilegiadas, a sua base mais sólida. Só que, apesar disso, não passava de um sistema em tudo igual ao seu pai, o diabo, que Jesus virá a dizer, mais tarde, que é mentiroso e pai de mentira, e assassino desde o princípio (cf. João 8, 44). Tanto assim, que o irá assassinar a ele, como, ao longo dos séculos, assassinou quase todos os profetas que se lhe opuseram e o desmascararam em nome de Deus, pai-mãe de misericórdia, Deus de vivos e não de mortos, Deus que não quer ser adorado nem em Garizim nem em Jerusalém, mas apenas em espírito e verdade, Deus que vive no mais dentro e no mais fundo da nossa consciência e aí trabalha continuamente, se nós formos como os criados da narrativa, sempre atentos a Ele e sempre prontos a fazermos o que Ele nos disser. Coisa que nem a mãe de Jesus faz (na narrativa, ela representa os judeus, mulheres e homens do tempo de Jesus, que procuravam ser justos e esperavam a vinda do Messias ou Libertador, mas, apesar disso, não o reconhecem logo em Jesus, embora, suspeitem que possa ser ele), muito menos, o chefe de mesa, que, na narrativa, está por todos os chefes da sociedade judaica de então.
Mas a narrativa evangélica de João revela-proclama mais coisas belas e boas. Anuncia, por exemplo, que Jesus e os seus discípulos (provavelmente, mais as discípulas do que os discípulos, só que, na época, era impensável alguém colocar numa narrativa literária as mulheres como protagonistas no processo de criação duma Humanidade outra, nos antípodas da Humanidade feita à imagem e semelhança do Sistema judaico e do Império!) são convidados para as bodas. Se são convidados, quer dizer que não fazem parte da situação que está a ser narrada e desmascarada. Vêm de fora. São de outra condição. Andam animados de outro Espírito ou Sopro. Não se identificam com o sistema judaico da Lei de Moisés e do Templo de Jerusalém, nem com o sistema do Império romano. São portadores do Novo. São alternativa. Por isso, são presença politicamente incorrecta, subversiva, que deixa de sobreaviso os chefes e os leva, por sua vez, a alertar os demais privilegiados do sistema vigente, representados, na narrativa, pelo "noivo".
A narrativa põe, depois, Jesus a dizer à personagem identificada como "a mãe de Jesus", mas a quem ele nunca chama de "mãe", mas de "mulher", uma frase que, se fosse tomada á letra, seria profundamente perturbadora e embaraçosa, e levar-nos-ia a ter de concluir que Jesus foi, no mínimo, grosseiro, com ela: "O que temos nós a ver com isso, mulher? A minha hora ainda não chegou".
Segundo a narrativa, a mãe de Jesus, isto é, as e os judeus que procuravam manter-se fiéis a Javé, dera-se conta de que não havia vinho na boda. E vai dizê-lo a Jesus. Mas não faz nada, para que o vinho apareça. Sente-se impotente. Tão pouco se torna serva, criada, como os criados que a narrativa faz andar por lá a servir, primeiro, em obediência às ordens do chefe de mesa, mas, depois, já a cooperar, clandestinamente, com Jesus. Essa mudança nela só acontecerá mais tarde, já depois da morte/ressurreição de Jesus, quando a sua mãe se tornar, finalmente, discípula do próprio filho, sem dúvida a decisão mais espantosa de Maria de Nazaré, e a única que verdadeiramente a engrandece aos olhos de Deus!
No início da missão pública de Jesus, a sua mãe ainda não passou por essa mudança radical. Neste aspecto, a narrativa não pode ser mais clara. Ela ainda faz parte do Sistema judaico, como as talhas de pedra, símbolo da Lei de Moisés, e não se afasta dele. Ao contrário do que nos têm ensinado as catequeses tradicionais, no início da missão pública de Jesus, a sua mãe ainda faz parte do sistema judaico dominante, embora já reconheça que este sistema não presta para nada, isto é, não tem vinho. Ou seja, é um sistema sem ida e sem festa, sem alegria. É um sistema que oprime e exclui, cega e paralisa as pessoas, e, finalmente, as mata! Por isso, as pessoas, dominadas por ele, são pessoas cegas e coxas, paralíticas e marginalizadas, empobrecidas e excluídas, surdas e mudas, sem participação e sem acção, numa palavra, são pessoas mortas, nas quais a vida nunca chega a ser vivida nas duas dimensões que caracterizam uma vida humana a valer, ou seja, a dimensão da alegria e da festa, e a dimensão do combate e da intervenção criadora e transformadora, simbolizadas pelo vinho da narrativa.
Só os serventes ou criados é que deixaram de obedecer às ordens do chefe de mesa (entenda-se, os chefes do sistema, a começar pelos príncipes dos sacerdotes e pelo Sinédrio), e passaram a cooperar clandestinamente com Jesus na empolgante actividade de libertar os seres humanos doo sistema judaico da Lei, que os mantinha/mantém oprimidos, alienados, mortos.
Mas a narrativa tem também o seu quê de, historicamente, dramático. Depois de pôr Jesus a dizer, Que temos nós a ver com isso, mulher? (ou seja, tu já deverias saber que eu não faço parte deste sistema, nem vim para o manter ou reformar, e, por isso, nem sequer entendo por que é que tu estás assim tão preocupada com ele, pois o que é preciso, imperioso e urgente, é derrubá-lo, libertar definitivamente dele as pessoas), logo o põe a acrescentar, A minha hora ainda não chegou!
Com esta referência à sua "hora", a narrativa está já a sugerir que é por estas e por outras, que é por este sinal e por outros que Jesus irá continuar a dar, ao longo da sua curta, mas interventiva vida, na sociedade judaica, dominada pelo sistema da lei de Moisés e pelo sistema do Templo de Jerusalém, um e outro totalmente manipulados pela casta sacerdotal, pelos doutores da lei e pelo Sinédrio, que o desfecho da sua vida só pode ser um: a morte violenta que irá sofrer. A "hora" de que Jesus fala, neste Evangelho de João, é exactamente a sua morte violenta na cruz, como maldito.
Por aqui se vê que o autor do Evangelho de João, ao conceber e escrever esta narrativa, que ainda hoje é conhecida como "As bodas de Canã", não está a falar, como sempre nos ensinaram e continuam a ensinar, de um casamento real, realizado em Canã da Galileia, para o qual Jesus e os discípulos foram convidados, mas está a falar da sociedade judaica de então, uma sociedade totalmente oprimida e esmagada pelo sistema da lei de Moisés e do Templo de Jerusalém. Uma sociedade onde faltava tudo. Nem sequer "água" havia nas talhas de pedra. Menos ainda havia "vinho", ou seja, misericórdia, ternura, compreensão, tolerância, perdão, amor, alegria, festa.
A lei de Moisés havia-se transformado num sistema de crueldade, a coberto do nome de Deus. Era tudo fachada. Hipocrisia. Sob a capa de lei de Moisés e do Templo e do nome de Deus, os chefes bem se governavam, ao mesmo tempo que esmagavam o povo sem dó nem piedade. Era a crueldade instalada. Tal como agora, neste início do terceiro milénio. A globalização do neoliberalismo e do Mercado é a crueldade instalada em todo o mundo, autêntica máquina de produção de vítimas humanas e de vítimas ambientais.
Mudar a água em vinho, não foi, então, o primeiro milagre que Jesus realizou. É uma forma parabólica e literária de falar do primeiro sinal que Jesus deu de si. Foi como que a apresentação do seu cartão de identidade. Foi um primeiro aviso aos chefes do sistema, estilo, Atenção, chefes, cheguei e, a partir de agora, as coisas nunca mais serão como antes. Acabareis por matar-me, por eu, em vez de estar do vosso lado, não hesitar em vos desmascarar. Mas, nessa vossa assassina decisão, mostrareis à saciedade toda a crueldade e toda a perversidade do sistema que teimais em manter em vigor e de que sois as primeiras vítimas, pois, embora ele vos faça viver rodeados de privilégios, faz igualmente de vós uns monstros, gente sem coração, sem entranhas de misericórdia, robots sem alma, desgraçados e causadores de desgraça, no país e no mundo.
Entretanto, não nos deixemos enganar. Mudar a água em vinho, à letra, é coisa que Jesus nunca fez. Ele não é um fazedor de milagres que alimentem a nossa preguiça e nos dispense de lutar, de combater, de fazer pela vida, de investigar, de desenvolver o conhecimento científico. Nada disso. Mudar a água em vinho é simplesmente uma bela metáfora literária, para, através dela, proclamar que, onde Jesus, o Cristo, chegar, qualquer sistema, como o sistema judaico do tempo dele, que actue como uma máquina de produzir vítimas humanas e outras, tem os dias contados. Será sempre um sistema a desmascarar, a combater com coragem martirial, a derrubar, a destruir. Para que as pessoas e os povos, vítimas dele, abram, finalmente, os olhos, tomem consciência da perversidade dele e se defendam, em lugar de continuarem a cooperar com ele. Passem a cooperar, isso, sim, com o Espírito de Jesus Crucificado/Ressuscitado, até ao seu derrube definitivo, até conseguirmos que todas as pessoas e todos os povos se vejam livres dele, para sempre.
Mudar a água em vinho é, pois, mudar a sociedade, para que ela seja finalmente constituída por pessoas e povos livres, autónomos, responsáveis, protagonistas, alegres, felizes.
Jesus não mudou a água em vinho. Com a sua acção/intervenção e a sua palavra fez com que as pessoas se dessem conta do tipo de sociedade e de sistema em que viviam, na condição de pessoas oprimidas, esmagadas, cegas, alienadas, de consciência ingénua. E se transformassem em pessoas conscientes e livres, criadoras de fraternidade/sororidade e de comunhão, ou seja, se transformassem em irmãos e de irmãs que se amam.
No início, esta acção/intervenção e esta palavra de Jesus, embora dessem logo nas vistas, não lhe trouxeram de imediato a morte. Mas, como ele não desistiu nunca, nem nunca se passou para o bando dos que davam força ao sistema, muito menos, aceitou ser cúmplice e um dos chefes do sistema, acabará por ver chegada a sua "hora", isto é, acabará por ser condenado à morte e executado pelos chefes desse mesmo sistema que ele sempre desmascarou e combateu. Tais chefes não lhe perdoaram, por ele atentar contra os privilégios que o Sistema lhes garantia e, ainda hoje, garante a quem, incondicionalmente, o servir.
Contudo, a sua morte na cruz, longe de ser o fim de tudo, é apresentada pelo autor do Evangelho de João como a grande explosão da vida de Jesus que, por sua vez, faz explodir o templo, simbolizado no véu que se rasga de alto abaixo. É uma explosão/ressurreição que faz ir pelos ares o sistema, embora ele continue aí, ainda hoje, aparentemente, mais forte e cruel do que nunca. Tal como a baleia, ferida de morte que, muitas vezes, ainda consegue matar quem a assim a feriu.
Para o autor do Evangelho de João, a morte violenta que Jesus sofre, é a sua "hora", precisamente, aquela em que Jesus "entrega o Espírito", em que Jesus ressuscita. O que quer dizer que, a partir de então (e já antes, porque para Deus não há ontem nem amanhã, mas apenas hoje), todas as mulheres e todos os homens que, como Jesus, entregam as suas vidas ao serviço da libertação e da transformação da sociedade e do mundo, isto é, transformam a água em vinho, derrubam o sistema e despertam nas pessoas o gosto da libertação para a liberdade, são mulheres e homens em quem anda e actua o Espírito de Deus, o mesmo que andava e actuava em Jesus e que ele, ao ser morto, entregou e deixou. Mulheres e homens assim são, então, outros "Cristos", com muitos nomes, não apenas com o nome de Jesus. São servos de Javé e da Humanidade, como ele sempre foi, não senhores nem chefes. E, como Jesus e em comunhão com ele, estão a contribuir para que o mundo avance na fraternidade/sororidade universal. Dito em palavras do autor do Evangelho de João, estão a transformar a água em vinho!
Desgraçadamente, não será esta boa Notícia que, hoje, quem for aos templos católicos irá escutar da boca dos meus colegas e irmãos padres. Nem mesmo da boda do papa se ouvirá esta Boa Notícia. Como haveria ele de a escutar/dar, se ele é o chefe do sistema eclesiástico que parece ter sucedido ao sistema judaico da lei de Moisés e do Templo de Jerusalém, esse mesmo que, coligado ao Império romano, matou Jesus, precisamente, por ele ir por outra via, a via da libertação para a liberdade e a via da integração de todas as pessoas e de todos os povos, sem excepção, numa única mesa, a mesa universal?
Por isso, deixem-me que grite daqui a toda a gente: Fujam dos templos, enquanto é tempo. Tanto dos católicos, como dos outros. Fujam dos clérigos e dos pastores que, quais mercenários, vos devoram, a pretexto de que vivem para vos pregar a Palavra de Deus! Fujam, antes que eles vos levem couro e cabelo.
Em seu lugar, organizem-se em pequenas comunidades de dois ou três, porque, lá, "Onde houver dois ou três reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles", garante Jesus (Mateus 18, 19-20). Ousemos avançar por esta via, com alegria e espírito de combate, e dispostos a recorrer apenas às armas da Ternura e da Verdade. De modo algum, seremos defraudados. Bem sei que esta é a via de porta estreita, de que fala o Evangelho de Mateus (7, 13-14), ao contrário da outra, do Sistema, que é a via de porta larga. Mas é a única via que nos dignifica e garante futuro ao nosso presente. E que nos faz felizes até mais não! Experimentemos, já.

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