Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

11 Janeiro 2001

1. Pode dizer-se que a Igreja católica entrou da pior maneira na campanha eleitoral para a presidência da República. Primeiro, foi o Patriarca de Lisboa e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, que confidenciou a destacado elemento do Partido Socialista, que o Dr. Sampaio não precisava de se cansar muito, durante a campanha eleitoral, porque já tinha garantida a sua reeleição. Depois, foi o pároco de Valpaços (terão sido muitos mais, mas este acabou por ser notícia em alguns jornais), que aproveitou o facto de ter a igreja paroquial cheia e disparatou, de alto abaixo, num estilo arruaceiro e moralmente impróprio para adultos de todas as idades, contra o dr. Sampaio, ainda presidente da República e candidato a reeleição, porque, Valha-nos deus, vive com uma mulher ilegítima, não é católico, é laico, não crê em Deus, aprovou a lei do aborto, e mais parece o rei Herodes do tempo de Jesus infante, que também vivia com uma mulher ilegítima e mandou matar todos os meninos de Belém.
Não sei como se pode chegar tão longe e tão baixo. Mas é assim que estão as coisas. A frase do Patriarca pode ser interpretada como um daqueles apartes, mais ou menos, anedóticos, que até as grandes personalidades se permitem, sobretudo, quando os holofotes das televisões não estão por perto. Só que, no caso, não estava por perto nenhum desses holofotes, mas estava uma destacada dirigente do Partido Socialista, que, para além de achar graça à piada e de se rir muito com o Patriarca, não se esqueceu de, logo a seguir, dar com língua nos dentes ou, como também sói dizer-se, não perdeu a oportunidade de pôr a boca no trombone e anunciar para tudo quanto era jornalista presente ouvir, o que o Patriarca lhe havia confidenciado ao ouvido, em tom mais ou menos chocarreiro.
Claro, que vieram oficiais desmentidos, da banda do Patriarca e não faltaram os públicos pedidos de desculpa, da banda da proeminente figura do PS. Mas nem uns nem outros foram suficientes para apagar o que estava dito e feito.
De sinal contrário, mas igualmente, perversa, é a postura do pároco de Valpaços que, pelos vistos, já é useiro e vezeiro, nestas alturas de campanhas eleitorais. Que querem? Tem um fraquinho pelo PSD e pelo dr. Cavaco Silva, e não perde pitada. Numa outra campanha eleitoral, em que o dr. Cavaco também era figurante e parte directamente interessada, chegou a pedir para ele uma salva de palmas na missa, à qual ele, como muito católico que diz ser, não deixou de ir, mesmo em campanha eleitoral. Ou, nestas coisas, uma missinha não ajudasse a recolher mais votos nas urnas, pelo menos, em certas zonas do país...
Pois não é que os paroquianos presentes na missa, não só não se indignaram com os dislates do pároco, mas foram na onda laranja e lá bateram as palmas ao dr. Cavaco?
Pobre Igreja, quando é servida por tais membros. Mais lhe valia fechar as portas, porque, ao menos, não poluía as consciências das populações.
Uma Igreja assim é exactamente o contrário do que, historicamente, está chamada a ser. Deveria ser o sal da terra e a luz do mundo, e torna-se uma espécie de lixeira moralista, sem qualquer credibilidade, e uma escola de despudorado obscurantismo.
Mas deixem lá. A Humanidade do terceiro milénio saberá dar a devida resposta a um modelo de Igreja assim. Só que, ao virar-lhe as costas, corre o risco de virar também as costas ao Evangelho e a Jesus, o Cristo ou Libertador do mundo. E aí, sim, haveria motivos para grande preocupação. Porque se a Humanidade do terceiro milénio pode muito bem passar sem este modelo de Igreja católica romana, já não pode passar sem a arte de ser e de viver de Jesus de Nazaré. Por isso, o meu apelo: Fujam duma Igreja obscurantista e avessa à Modernidade, mas abram-se de par em par a Jesus e à Boa Notícia que ele é para todos os seres humanos e povos. Sobretudo, abram-se de par em par ao Espírito que historicamente o animou e o levou a ser Homem-para-os-demais, até à doação integral da própria vida, como Pão que se dá a comer e como Vinho que se dá a beber. Até chegarmos a ser mulheres e homens do mesmo jeito, organizados em pequenas e discretas comunidades, terceiro milénio além!
2. Mas já que se está em maré de eleições, será oportuno reflectir um pouco sobre o facto, até porque, dentro de algum tempo, estaremos de novo envolvidos noutras eleições, autárquicas, primeiro, legislativas, depois.
A Política tem de passar por uma profundíssima transformação. Isto já não vai lá mais assim. Os políticos que temos, estão esgotados, cansados, sem Espírito. Fartam-se de dizer mal uns dos outros, e todos querem o mesmo: chegar ao topo da pirâmide do Poder, em lugar de serem os campeões do serviço ao próximo, da forma mais desinteressada possível, de modo que não haja mais pirâmide de Poder para ninguém.
Se é perverso criar uma Igreja para ganhar dinheiro e influência, na área do poder - sabemos que, ultimamente, não tem faltado que tenha ido por aqui! - não é menos perverso fundar um Partido político ou aderir a um já existente, para, com isso, obter proveito pessoal e familiar.
O interesse egoísta, traduzido em amor ao dinheiro e ao poder, corrompe as coisas mais santas e as causas mais nobres. Ai das populações e dos povos, que são governados por políticos animados deste perverso fermento. São como cegos que guiam os respectivos países para o precipício. Mesmo que, porventura, cheguem a proporcionar um maior aumento de bem-estar material, para uma significativa parte delas e deles.
A Política é, tem de ser, a arte de sonhar e organizar a cidade e a vida das populações e dos povos. Para que todas e todos sejamos felizes. Não pode, por isso, ser deixada nas mãos de uns quantos espertalhões que a isso se dedicam. A pretexto de que querem servir o seu país, quando, na verdade, o que pretendem é servir-se.
A Política tem, por isso, de passar a ser assunto de todas as populações e de todos os povos. É assunto demasiado sério e importante, para ser deixado nas mãos de alguns, por mais generosos que pareçam ser. Ou somos todos políticos e encontramos maneiras práticas de o fazer, no dia a dia, ou depressa estamos entregues à bicharada. Mas depois não nos queixemos. Quando o voto significa delegar em outrém o poder que eu próprio deveria exercer, no dia a dia, estamos perante a morte da Política. Porque delegar em outrém o que eu próprio deverei assumir todos os dias, é a mesma coisa que renunciar a ser eu próprio. Ora, a minha morte política é a pior morte. Porque, embora eu continue a respirar e a andar, a verdade é que deixo de ter o controlo da situação e são levado.
A Política tem de ser o ar que as populações e os povos respiram. E o Pão que comem todos os dias. E o Vinho que bebem. Com ela, somos. Sem ela, desaparecemos, voltamos ao Nada. Com ela, crescemos e realizamo-nos como seres humanos participativos e criadores, festivos. Sem ela, o nosso viver é um pesadelo, um castigo, um fardo. Melhor fora nem ter nascido.
Gosto de dizer que o terceiro milénio será feminino, ou não será. Posso acrescentar, agora, mais este dado complementar: O terceiro milénio será político, ou não será. Mas à dimensão da Humanidade, no seu todo. A começar pelas mulheres, a metade do Céu e da Terra que tem sido sistematicamente ostracizada e, por isso, o mundo está tão estragado como se vê a olho nu e se cheira em todo o lado.
É, por isso, uma vergonha que a primeira grande acção política do terceiro milénio, em Portugal - a eleição para a presidência da República - tenha tido como protagonistas apenas homens. Nenhuma mulher se preparou a tempo e se meteu, com seriedade, neste combate. É uma vergonha. E uma desgraça. Deste modo, a Política transforma-se num crime de lesa-Humanidade. Por acção e omissão.
Antes de ser assunto de homens, a Política tem de ser assunto de mulheres. Também de homens. Mas nunca de homens sem as mulheres. E não basta que as mulheres apareçam ao lado dos respectivos maridos, como verbo de encher. Têm de ser protagonistas, lado a lado com eles, tanto ou mais do que eles. Porque nelas o feminino está muito mais desenvolvido. E de feminino é que o mundo de hoje mais carece para chegar a ser um mundo cada vez mais humano e solidário.
Alerta, pois. Não basta termos entrado no terceiro milénio. É preciso entrarmos com posturas outras, com comportamentos outros. É preciso que estejamos nele de corpo inteiro, com toda a alma e com todo o coração. De contrário, em lugar da revolução que se impõe, ficaremos apenas pela simples evolução na continuidade. Com meia dúzia a decidir nas nossas costas, ao mesmo tempo que nos entretêm ininterruptamente, para nunca chegarmos a dar-nos conta de que não passamos de um rebanho bem domesticado.
Terceiro milénio, vida nova. Para tanto, ousemos fazer da Política assunto de todas e de todos. Num jeito novo, que havemos ainda de descobrir. Ou a Política não fosse a mais nobre das artes, aquela que está vocacionada a fazer felizes as pessoas, as populações e os povos. Em comunhão com a Natureza, o nosso corpo maior, sem o qual não podemos sequer sobreviver.

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