Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

6 Janeiro 2001

Os jornais de hoje falam de certos católicos e católicas portugueses que vão casar pela Igreja em Espanha, para não perderem certas regalias financeiras e fugirem ao fisco. A prática é protagonizada sobretudo por jovens estudantes e por viúvas e viúvos. Assim, os que enveredam por esta solução continuam solteiros ou viúvos, perante a lei portuguesa, mas, perante a Igreja católica, passam a estar canonicamente casados. Ou seja, com esta prática, o Estado português sai defraudado nos impostos que tem em vigor, mas os católicos portugueses casados canonicamente em Espanha deixam de viver numa situação que o direito canónico classifica de mancebia e de pecado grave.
O surpreendente em tudo isto é que os bispos portugueses não só sabem do que se passa, como até consentem, pois os católicos portugueses, candidatos a casar pela Igreja em Espanha, só podem consumar o seu acto, depois de obterem - e pagarem! - a respectiva autorização do bispo da respectiva diocese, na qual está integrada a paróquia em que residem.
O episódio é caricato, mas carregado de simbolismo. Diz bem do tipo de cristianismo e de Igreja que se vive por essas paróquias fora. E de como os bispos concebem o seu ofício pastoral. Tudo se reduz a caucionar habilidades e fugas ao fisco e aos impostos. Com a bênção da santa madre igreja! Talvez porque o bispo português que autoriza o casamento canónico em Espanha não perde nada financeiramente. Os nubentes, se querem a respectiva autorização episcopal, primeiro pagam e depois lá a levam para apresentar ao pároco da Igreja de Espanha.
É assim que andam as coisas, na nossa Igreja católica, na Península Ibérica. Bem nos antípodas do Evangelho. E das primitivas comunidades cristãs que viveram e testemunharam a Boa Notícia que foi e é a prática e a palavra, a arte de viver, de Jesus de Nazaré, o Crucificado sob Pôncio Pilatos, conluiado com os príncipes dos sacerdotes do templo de Jerusalém de então, os quais, como se sabe, para poderem consumar o seu crime, não hesitaram em comprar por uns execráveis trinta dinheiros a sua traiçoeira entrega!
Em tudo isto, não sei o que mais lamentar: se a fuga aos impostos e aos deveres cívicos, por parte dos jovens estudantes e dos viúvos e viúvas que pretendem casar (reconheço que a lei portuguesa pode não ser objectivamente justa, mas, nesse caso, combata-se contra ela, até a mudar naqueles aspectos que ela tem de iníquo), ou a consciência infantilmente moralista que, pelos vistos, ainda subsiste em quem assim procede e que leva as pessoas em causa a recorrer a esta habilidade.
Na verdade o que impede duas pessoas que se amam e pretendem constituir-se em matrimónio, que o façam? Então os católicos e as católicas não sabem que quem faz o sacramento do matrimónio são os próprios nubentes e não o padre-pároco que é chamado a presidir ao acto? Não sabem que, se avançarem em consciência, nessa união matrimonial, mesmo sem a presidência do pároco, ficam efectivamente casados, uma vez que quem "faz" o sacramento do matrimónio são eles e não o pároco? Não sabem que as coisas, na Igreja, sempre foram assim, até ao Concílio de Trento, no século XVI, quando a hierarquia eclesiástica decidiu impor como condição "sine qua non" a presidência do pároco de um dos nubentes, para, desse modo poder declarar não válidos os casamentos em consciência de muitos padres?
Mas o mais aflitivo é ver que os nossos estudantes e viúvas e viúvos que recorrem ao estratagema de casar em Espanha, o fazem para ficarem de bem com a sua consciência. Quer dizer: não ficam mal na sua consciência por fugirem ao cumprimento da lei portuguesa e não fazerem nada pela sua alteração naqueles aspectos que lhes parecem injustos, mas ficam de consciência perturbada se viverem matrimonialmente sem, antes, terem declarado o seu amor perante um padre católico, pároco, nem que seja do país vizinho, o qual, antes, nunca tinham visto mais gordo!... Mas então o que vivem como amor matrimonial é pecado, enquanto não tiverem a "autorização" de um pároco católico, e deixa de o ser, quando essa autorização foi conseguida, geralmente, a troco de dinheiro?
Por favor, jovens estudantes e viúvas e viúvos portugueses que quereis casar. Percam o medo do inferno e avancem na vivência do vosso amor matrimonial, sem cuidar, previamente, em obter a autorização de um pároco. Sejam adultos e responsáveis. Porque quem faz o sacramento do matrimónio sois vós, não o pároco, muito menos, o dinheiro que ele geralmente vos obriga a pagar em troca da sua presença-presidência. Uni-vos, responsavelmente, sem a presença do pároco e sabei que o amor matrimonial que viverdes, dia e noite, é que vos salvará. E jamais chameis pecado ao amor que vos uniu e mantém unidos. Procurai, isso sim, que a vossa união seja sempre um acontecimento a favor da Humanidade, isto é, que muitas e muitos beneficiem da vossa união matrimonial e não apenas vós. Porque o egoísmo a dois nunca é amor. Será sempre uma perversão, mesmo que tenha sido inaugurada sob a presidência de um pároco católico, português ou espanhol, tanto monta.

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