Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

4 de Janeiro 2001

O Jubileu 2000, que rendeu muitos milhões aos cofres do Vaticano e aos cofres de cada uma das dioceses de Portugal, com destaque maior para a diocese de Leiria-Fátima, tem, hoje, neste dia 4 de Janeiro, em Lisboa, mais propriamente, na Igreja de São Vicente de Fora, e a poucas horas de fechar definitivamente as suas portas até ao próximo, em 2025 (isto, se ainda houver coragem de convocar um próximo, depois do fiasco, ao nível de mudanças estruturais na Igreja e na sociedade, que este foi!...), um dos seus momentos mais altos de hipocrisia eclesiástica e política.
O patriarca de Lisboa - nunca mais acontece um consistório, no Vaticano, para o nosso homem ser promovido a cardeal e a capital do país passar a ter um dignitário eclesiástico católico à altura?! - não esteve com meias medidas e decidiu promover o jubileu dos governantes, dos parlamentares e dos políticos.
Não, não foi coisa de arromba, não senhor. Talvez porque a grande maioria dos políticos ainda teve um assomo de coragem e declinou o convite do patriarca. Mesmo assim, o templo não esteve completamente às moscas.
Entre os que disseram sim, houve até conhecidos deputados do PCP que fizeram questão de não faltar. Por uma questão de cortesia, justificam-se eles. Mas a gente percebe. Se há deus e diabo, sempre é melhor estar de bem com um e com outro. Mesmo que se seja ateu, por princípio. Não vá o diabo tecê-las. Como quem diz, não vá o poder eclesiástico tecê-las, ou seja, aborrecer-se com os comunistas portugueses e fazer das suas. Ou o clero católico, embora em vias de extinção, não continue ainda, e por alguns anos mais, a gozar de forte influência sobre certo tipo de populações, nomeadamente, do interior e do Norte do país. Por isso, o melhor é estar sempre de bem com ele, para não sofrer desagradáveis surpresas.
O patriarca anfitrião é que esteve longe do seu melhor e do que legitimamente seria de esperar dele. Então não é que não foi capaz de se apresentar à porta do templo, como anfitrião, a cumprimentar e a receber os cumprimentos dos seus convidados? Nisto, foi muito patriarca eclesiástico, e nada humano. Foi muito poder católico, sisudo, distante, frio, e nada companheiro, amigo e irmão.
Além disso, quando dá oficialmente início á cerimónia religiosa do jubileu (é melhor chamar-lhe assim, do que chamar-lhe celebração litúrgica, porque esta é outra coisa totalmente distinta), nem sequer foi capaz de olhar nos olhos os convidados presentes no templo e dizer-lhes uma simpática palavra de boas-vindas. Entrou no templo, devidamente, fardado (perdão, paramentado), com aquelas vestes talares que vêm do tempo dos imperadores romanos e seus cortesãos, dos quais os bispos são directos sucessores, pelo menos, ao nível das vestes, mas não só, e foi sentar-se no lugar da presidência, sem dizer água-vai a ninguém.
O ritual católico assim determina. E nem o patriarca de Lisboa, nesta altura, também presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), deve quebrá-lo. E ele assim fez, para exemplo de todos os demais clérigos hierarquicamente inferiores (é verdade, até na Igreja, há hierarquias, uns sobre os outros, uns a mandar nos outros, apesar do Evangelho de Mateus - 23, 8 - exigir das discípulas e dos discípulos de Jesus, também aos bispos e padres, "A ninguém chameis mestre, pois um só é o vosso mestre, Cristo, e vós sois todos irmãos"!).
Só que, com uma postura assim, lá se foi o jubileu por água abaixo. Porque uma Igreja que não é capaz de ir além do seu próprio ritual, e fazer-se próxima dos seres humanos, quaisquer que eles sejam, é uma Igreja desumana, anti-cristã, é a própria negação histórica do sacramento de Jesus Cristo que vocacionalmente sempre deve ser.
É verdade que, mais lá para a frente, no decorrer da cerimónia religiosa, o patriarca falou e disse da sua justiça. Mas teria sido muito mais interessante que também tivesse ouvido os presentes. Que, em vez de comunicar do alto da sua cátedra eclesiástica, como o mestre a quem cabe o direito de dizer a última palavra, o patriarca conversasse com simplicidade, como cidadão e cristão, sem qualquer pose de superioridade. E, mais interessante ainda, seria vê-lo a não se limitar a ditar conselhos e apelos - "Sede profetas de um mundo novo", foi um dos apelos que fez - mas vê-lo também disposto a ouvir conselhos e apelos, da parte dos seus convidados.
De resto, como pode o patriarca de Lisboa pedir aos governantes, parlamentares e políticos portugueses que sejam profetas de um mundo novo, quando a Igreja de que ele é bispo, anda manifestamente arredada dos caminhos da profecia e prefere os caminhos dos templos e dos cultos, à mistura com os caminhos das IPSS's e respectiva caridadezinha, prefere os caminhos dos acordos ou concordatas com o Estado português, que lhe garantem privilégios, numa palavra, prefere os caminhos do poder aos do martírio?
Por isso, tenho para mim que a hipocrisia não podia ter sido maior. Tanto da parte do patriarca, como da parte dos governantes, parlamentares e políticos. Foi um beija-mão que não dignifica, nem a Igreja católica que o promoveu, nem os governantes, parlamentares e políticos que, hoje, acederam em ir até à igreja de São Vicente de Fora, em Lisboa.
O jubileu não merece comportamentos destes. É uma iniciativa bíblico-eclesial séria demais, para ser utilizada deste jeito. Na verdade, não importa que os governantes, os parlamentares e os políticos reaprendam o caminho do templo que a maioria, felizmente, já desaprendeu. Importa, sim, é que ousem ser o que dizem ser. Numa postura, todos os dias, criativa, imaginativa e consequente, própria de quem ousa resistir ao demoníaco e totalitário poder económico das grandes multinacionais, cada vez mais concentradas, para que ele deixe de continuar aí impunemente a fazer vítimas humanas em série, como se as coisas não pudessem ser de outra maneira. Porque podem e devem ser de outra maneira.
Só que, para que as coisas sejam de outra maneira, os governantes, parlamentares e políticos portugueses e do resto do mundo têm de ser governantes, parlamentares e políticos de outra maneira. E, em lugar de irem ao mediático jubileu promovido pelo patriarca de Lisboa, disponham-se a amar os respectivos povos, até darem a vida por eles. Às mãos dos donos das grandes multinacionais, que não lhes perdoarão, se eles forem governantes, parlamentares e políticos desta fibra.

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