Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

28 Fevereiro 2001

Ontem foi o dia de Carnaval. E, hoje, é o dia de Quarta-feira de cinzas. Entre um e outro, qual será o dia que Deus prefere? Tenho para mim, que Deus gosta mais, muito mais, do dia de Carnaval, do que do dia de Quarta-feira de cinzas, apesar deste ser iniciativa da Igreja.
O Carnaval não só não é iniciativa da Igreja católica romana, como também teve sempre contra ele a Igreja católica romana que, por estas alturas, sempre promove (hoje, de maneira muito mais restrita e discreta), nas paróquias mais cumpridoras, a chamada devoção das "Quarenta horas", ou seja, quarenta horas de adoração contínua ao Santíssimo Sacramento, como "desagravo" pelos pecados cometidos nesse dia e nos dias imediatamente anteriores, o maior dos quais será, certamente, a própria existência do Carnaval, causa e ocasião de todos os outros pecados!
Já a Quarta-feira de cinzas, pura iniciativa da Igreja católica romana, na sequência e imitação/reprodução de velhos ritos religiosos destrutivos da pessoa humana, em que todos os cultos politeístas e idolátricos sempre foram e são férteis (basta ver o que faz, hoje, por exemplo, em termos de vítimas humanas, o culto idolátrico ao deus Dinheiro, que as multinacionais não se cansam de promover, em todo o mundo!), para além de assinalar o início da chamada Quaresma, é bem um dia nos antípodas do dia de Carnaval.
Deus, por isso, não pode gostar nada da Quarta-feira de cinzas. Só pode gostar do Carnaval, com todos os excessos de que ele se veste e se despe, todos os anos. E, se alguma coisa Deus poderá lamentar, é que o Carnaval não aconteça todos os dias, pelo menos, que o seu espírito, festivo e alegre, não anime as nossas vidas e as nossas sociedades humanas, todos os dias.
Mas como é que Deus poderia gostar mais do dia de hoje, Quarta-feira de cinzas, do que do dia de ontem, Carnaval? Não é Ele o Deus da Alegria e da Festa? Não é Ele o Deus da Vida e dos Vivos? Não é Ele o Deus da Plenitude e da Abundância? Não é Ele o Deus do Excesso e da Ressurreição?
Ora, se ontem foi o dia da Folia e do Erotismo sem barreiras, hoje, por determinação da nossa Igreja católica romana, é o dia da Tristeza e do Sacrifício. Se ontem foi o dia da expansão da vida humana, hoje, é o dia da repressão da vida humana. Se ontem, as pessoas foram águias e puderam voar até à exaustão, hoje, não passam de galinhas de capoeira, condenadas a olhar para o chão, com a cabeça coberta de cinza. Se ontem os corpos humanos se mostraram nus e esbeltos, numa proclamação sem tabus da beleza erótica e da vida chamada à ressurreição, hoje são corpos sobre cujas cabeças, os clérigos – são, felizmente, cada vez menos os seres humanos que ainda se prestam a esse papel à frente das paróquias – depositam ritualmente cinza, ao mesmo tempo que dizem, "Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás-de tornar" (as mulheres, pelos vistos, não são tidas nem achadas, não são sequer nomeadas e, por isso, parece que poderiam e deveriam continuar o Carnaval sem qualquer interrupção; mas, por mais estranho que isso seja, a verdade é que são as mulheres quem, hoje, ainda mais corre a receber a cinza e a escutar estas absurdas palavras que o texto do Ritual católico se "esqueceu" de endereçar também a elas!). Ou seja, se ontem tudo nos dizia que a vida humana é bela e é para ser vivida até à exaustão, hoje, tudo nos diz que a vida humana não presta para nada e, por isso, o melhor é mesmo renunciar a crescer em idade, em estatura, em sabedoria e em graça - coisa que Jesus de Nazaré nunca fez, antes pelo contrário (cf. Lucas 2) - para apenas crescermos em derrota e em fracasso, até que a morte nos reduza a pó, a cinza, a nada.
Está visto que, com as coisas assim, Deus só pode gostar do Carnaval e detestar o dia de hoje, Quarta-feira de cinzas, bem como a quaresma que com ela se inicia. Por sinal, a humanidade, cada vez mais liberta da nefasta influência do clero católico e da sua ideologia moralista, também gosta mais do Carnaval, do que da Quarta-feira de cinzas.
Até nisto, verifica-se que a Humanidade sintoniza mais com Deus, do que os próprios clérigos e toda a hierarquia da Igreja católica. E a prova, irrefutável, é que, se ontem (e já nos dias imediatamente anteriores), as populações encheram as ruas com os seus trajes carnavalescos e correram, em multidão multicor e folgazã, aos tradicionais locais onde desfilam os cortejos do Carnaval, hoje, já não correm aos sombrios e antiquados templos paroquiais, por um pouco de cinza que os respectivos párocos prepararam para depositar nas cabeças das pessoas, que ainda vão nas suas pastorais, no decorrer duma cerimónia litúrgica(!?) de requintado mau gosto, tétrica e completamente esvaziada do Evangelho ou Boa Notícia de Jesus, por isso, uma espécie de jogo armadilhado, destinado a acorrentar ainda mais as populações ao demónio da tristeza e do medo, para que elas desistam definitivamente de toda a alegre e empenhada actividade política transformadora da vida e do mundo.
Sim, é do Carnaval que Deus gosta. Não, da Quarta-feira de cinzas. Nem da Quaresma, a que este dia dá oficialmente início. Entretanto, vejam lá como as coisas são. A Igreja, que deveria ser a primeira a despertar toda a Humanidade para a vida em plenitude e para a festa, deixa essa evangélica missão nas mãos das chamadas Escolas de Samba e outras colectividades de cultura e recreio. E faz ainda pior. Não só se recusa a despertar toda a Humanidade para a vida em plenitude e para a festa, como também tudo fez e ainda faz para tentar impedir que certas instituições seculares assumam essa missão.
Tanto assim, que se, hoje, ainda há Carnaval, é graças à teimosia da sociedade civil que nunca capitulou perante o poder clerical e eclesiástico, mesmo naqueles tenebrosos séculos da Cristandade Ocidental, quando a Igreja católica foi dona e senhora das pessoas e das suas consciências. E manteve as populações subjugadas pelo medo do pecado e do inferno, duas criaturas que o poder eclesiástico foi capaz de imaginar e produzir, para, com elas, estragar sistematicamente a vida dos seres humanos, vida essa que Deus, destruidor que é de todo o tipo de pecados e de todo o tipo de infernos, sempre quis que fosse plenamente alegre, realizada, feliz.
Só mesmo uma Igreja que, depois da derrocada do Império romano, se transformou em poder eclesiástico e em império religioso-católico, é que foi e é capaz de sentir sádico prazer em reprimir as pessoas que a integram e as populações em geral. E em castigá-las com cilícios. Com jejuns. Com abstinências. Com longas listas de pecados, cada qual o mais grave e o mais feio, a ter de confessar, de joelhos, aos pés de um clérigo que se deixou, ingenuamente, convencer de que Deus delegou nele o poder de perdoar pecados. Mas não só. Também com a sádica repressão dos corpos. E com feitura e aplicação de leis paranóicas, como a lei do celibato obrigatório (outra coisa, muito outra, é o celibato por livre opção de cada pessoa). E, sobretudo, com a criação de mosteiros e de conventos, onde, ao longo dos séculos, encerrou/encurralou/imolou/sacrificou milhões e milhões de mulheres e de homens, depois de as e de os convencer de que, quanto mais reprimissem os seus naturais desejos e salutares apetites, sobretudo, os sexuais, mais e mais subiriam até às alturas de Deus e, por isso, mais e mais mulheres e homens de Deus seriam, no meio de um mundo perdido e eternamente condenado, porque inteiramente mergulhado no pecado do prazer, a começar pelo pecado do prazer sexual. E o pior é que estas mulheres e estes homens, assim desviadamente educados, deixaram-se convencer de que as coisas eram mesmo assim, e foi exactamente isso que acabaram por fazer. Consequentemente, tornaram-se numa espécie de permanente anti-Carnaval, ao vivo, com os seus corpos vestidos da cabeça aos pés, com roupas propositadamente mal confeccionadas, de tecidos grosseirões, pesados, negros como a noite, corpos tristes, macilentos, mal alimentados, mal dormidos, castigados com toda a espécie de penitências e de torturas, mas sempre convencidos de que, por isso mesmo, eram (são) as autênticas esposas e os autênticos esposos de Deus, numa promiscuidade oral e escrita, que faz agoniar quem ouve e lê certos textos produzidos por elas e por eles, mas, oficialmente, classificados pela instituição eclesiástica como textos reveladores de alta mística e de alta santidade!...
Mas a verdade é que Deus - e ao contrário do que sempre nos disseram as tradicionais catequeses eclesiásticas e a prática pastoral das paróquias e dos conventos de frades e de freiras - do que verdadeiramente gosta, é do Carnaval e não da Quarta-feira de cinzas, muito menos da Quaresma que com ela se inicia.
Entretanto, se assim é – e quem há aí que, com base no Evangelho de Jesus, se atreva a dizer que assim não é?! – então, tudo quanto a Cristandade Ocidental, ao longo dos séculos, ensinou e promoveu, os santos e as santas que fabricou - mediante a repressão e as penitências, as privações e as condenações de todo o prazer, mediante os votos de pobreza, de obediência e de castidade, entendidos, não à luz da prática libertadora e festiva de Jesus de Nazaré, o Cristo, mas à luz da ideologia sacrificialista dos cultos politeístas e idolátricos em honra de deusas e de deuses que sempre se alimentam de gente e se sentem honrados com o esmagamento dos seres humanos - não tem, nunca teve, qualquer sentido e qualquer valor, diante de Deus, deste Deus que gosta do Carnaval e não da Quarta-feira de cinzas e da Quaresma.
Mais. Se assim é, e é de facto, então, tudo isso que a Igreja católica tanto valorizou, são falsos valores, são manifestações concretas duma cultura desumanizada, repressiva, anti-humana, duma falsa cultura, duma cultura que tem tudo a ver com o culto dos deuses e das deusas do Paganismo politeísta e idolátrico, nada tem a ver com Jesus de Nazaré e com o Deus que se nos revelou definitivamente na sua prática de vida e na sua palavra, uma e outra, radicalmente libertadoras e promotoras da vida humana em plenitude e em abundância. E, igualmente, nada tem a ver com cultura verdadeiramente humana e humanizadora.
Porém, que ninguém se assuste com o que acabo de afirmar. Pelo contrário, ousemos, isso sim, olhar com olhos críticos e libertos para todo o passado da Humanidade, com incidência maior, para os últimos dezasseis séculos do Ocidente, que foram séculos de Cristandade. Porque na medida em que esse foi um passado informado pela nefasta influência da Cristandade Ocidental, só pode ser um passado deformado, desfigurado, desviado, cheio de feridas e de cicatrizes, como uma árvore que cresceu torta, mas por força da repressão e da opressão que, de fora, se abateu sobre ela.
Por isso, é um passado de que urge libertar-nos quanto antes, para ousarmos começar de novo, segundo outro Espírito, o de Deus Vivo, que quer que nós, seres humanos, mulheres e homens indiscriminadamente e em radical igualdade, vivamos, e vivamos em abundância, cresçamos em idade, em estatura, em sabedoria e em graça, em liberdade e em dignidade, em autonomia e em responsabilidade, até atingirmos a plena dimensão do ser humano por antonomásia, que é Jesus de Nazaré, o Cristo de Deus.
Volto a repetir. Que ninguém se assuste com o que acabo de afirmar. Porque é com Jesus de Nazaré – só depois, é claro, de o termos devidamente resgatado das mãos de certos e influentes clérigos e da sacrílega manipulação que a Cristandade Ocidental sempre fez dele e do seu Nome - que havemos de aprender a ser e a viver como seres humanos, como novos seres humanos, alternativos aos seres humanos que a Cristandade Ocidental fez à sua própria imagem e semelhança, por isso, seres humanos autistas, opressores, violentos, violadores, agressivos, dominadores, déspotas, conquistadores, exploradores, tiranos, muito religiosos, com o nome de Deus sempre na boca ("Valha-me Deus", "Se Deus quiser"), com o nome da deusa sempre na boca ("Valha-me nossa senhora", "Nossa senhora te guarde"), mas nunca no coração e na prática de vida de todos os dias.
É verdade. Neste início do terceiro milénio, temos, como Humanidade, de nascer do Alto, do Espírito Santo, tal como Jesus de Nazaré paradigmaticamente nasceu (só soubemos essa Boa Notícia, a partir do momento em que algumas das suas discípulas e alguns dos seus discípulos, inopinadamente, experimentaram, nas suas vidas desanimadas e sem rumo, a presença de Jesus ressuscitado, de resto, uma experiência pessoal que – e este é um dado historicamente irrefutável - mudou radicalmente o ser e o viver de umas e de outros. Tal como, ainda hoje, continua a mudar o ser e o viver daquelas mulheres e daqueles homens que, um dia, nas suas vidas adultas, inopinadamente, também experimentaram essa mesma presença de Jesus ressuscitado).
Tem de ser este Espírito outro, a tomar conta de nós, a morar em nós, mesmo naquelas e naqueles de nós que se digam ateus. Para que também passemos a ser mulheres e homens outros, nos antípodas dos seres humanos que a Cristandade Ocidental formou e plasmou, totalmente avessos ao Carnaval e a ter de gostar da Quarta-feira de cinzas e da Quaresma.
Na medida em que este Espírito outro, tomar conta de nós, morar em nós, nasceremos do Alto e passaremos a ser mulheres e homens outros, constitutivamente festivos, fraternos/sororais, acolhedores, libertos para a liberdade, autónomos, responsáveis, protagonistas, sujeitos, cooperantes, solidários, intervenientes, criadores, com Causas que digam respeito a todas as pessoas e a todos os povos e ao próprio Universo, lucidamente espirituais, amigos, companheiros, capazes de valorizar tanto os prazeres, como os deveres, salutarmente eróticos, sensuais, com ternura e com afectos, sempre prontos a repartir com as outras pessoas o que temos e, mais do que isso, sempre prontos a darmo-nos gratuitamente às pessoas, até darmos a nossa própria vida pela vida do mundo.
É profundamente exigente, esta via que, assim, sem mais aquelas, aqui acabo de apontar/propor? Sem dúvida. Mas creiam que é a única via profundamente libertadora e humanizadora da Humanidade. E também a única que garante sabor e incontida alegria ao nosso ser e ao nosso viver.
Aliás, há, já, pelo menos, dois mil anos, que a Humanidade deveria andar a percorrer regularmente esta via. Mas foi criminosamente desviada dela. Por acção da Igreja, ou, pelo menos, com a cumplicidade da Igreja, particularmente, quando esta aceitou integrar o Império romano e, de imediato, se transformou em Cristandade Ocidental, em Igreja católica romana.
Mas é a Igreja, enquanto comunidade de comunidades – foi para um modelo de Igreja assim que o Concílio Vaticano II, felizmente, apontou - que, enquanto durar a História, está chamada a dar a conhecer ao mundo esta via, e a vivê-la paradigmaticamente entre os seus membros, no clima das pequenas comunidades cristãs e jesuânicas de base, ao mesmo tempo que, com coragem martirial, sempre deverá denunciar a outra via, que tem por pai o Diabo, e, por isso, por mais que, habilmente, se disfarce de religião, de muita religião, também e sobretudo, de religião católica, é a via que torna os seres humanos totalmente impermeáveis à força da Verdade que liberta e à força do Amor que faz novas todas as coisas, como tal, é a via que faz seres humanos só no aspecto exterior, porque, dramaticamente, desumanos no seu ser e no seu agir.
É claro que esta via – exigente via – que aqui e agora aponto/proponho, não é invenção minha. Vem directamente do Espírito Santo de Deus e ganhou plena e integral expressão no corpo histórico de Jesus de Nazaré, o filho biológico de Maria e de José, mas teologicamente apresentado, nos relatos evangélicos de Mateus e de Lucas, como o filho de Maria Virgem e do Espírito Santo. Uma forma literária e teológica de tentar dizer o humanamente indizível, ou seja, que o ser humano, Jesus de Nazaré, nascido de Maria e de José, é, simultaneamente, o Cristo de Deus, o mesmo que – escândalo dos escândalos, loucura das loucuras - foi condenado à morte, como um maldito, pelos príncipes dos sacerdotes e pelo Sinédrio do seu tempo e país, e executado na cruz, fora da cidade de Jerusalém, sob o poder de Pôncio Pilatos, na altura, procurador do Império romano, na Palestina.
Sem Jesus de Nazaré, o Crucificado que Deus ressuscitou, nunca esta via teria sido, plena e integralmente revelada, plena e integralmente conhecida e, plena e integralmente experimentada. Jesus de Nazaré foi o primeiro que a viveu, plena e integralmente. E também o primeiro que a revelou, plena e integralmente, e o primeiro que a deu a conhecer, plena e integralmente. Daí a importância decisiva, determinante, de Jesus, para toda a Humanidade, crente e não crente. E que levou as suas discípulas e os seus discípulos a confessar/proclamar, desde muito cedo, e com toda a razão, que Jesus de Nazaré é o Cristo, o Filho de Deus, o Deus-entre-nós-e-connosco, o Emanuel, o Libertador e o Salvador.
Na verdade, mais nenhum outro ser humano, antes de Jesus de Nazaré e depois de Jesus de Nazaré, alguma vez se atreveu ou atreverá a dizer de si mesmo, o que Jesus diz de si mesmo: - Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida; Eu sou a Ressurreição e a Vida; Eu sou a Porta; Eu sou a Luz do mundo, quem me segue não anda nas trevas; Filipe, quem me vê, vê o Pai, por isso, como é que dizes: mostra-nos o Pai?
Entretanto, tenho a certeza de que, ao fazer aqui todas estas afirmações, estou a escandalizar muita gente, crente católica e protestante, e não crente, nomeadamente, muita gente que, hoje, faz do ateísmo uma filosofia de vida.
Por isso, alertei e volto a alertar que é preciso, imperioso e urgente, resgatar Jesus de Nazaré do controlo de certos clérigos católicos influentes e, também, de certos pastores dos chamados Novos Movimentos Religiosos que, hoje, proliferam por tudo quanto é sítio, especialmente, lá, onde medram e crescem a miséria, a degradação humana, a toxicodependência, o desemprego, o desespero, e todo o tipo de vida humana que mais parece um beco sem saída.
Na verdade, têm sido este tipo de clérigos, eclesiásticos ou laicos, e este tipo de pastores das novas religiões, com insaciável fome e sede de privilégios e dispostos a tudo para os garantir e aumentar cada vez mais, que se apoderaram de Jesus e, depois de fazerem dele uma caricatura, muito mais feia do que a mais feia máscara de Carnaval, não têm quaisquer escrúpulos em manipular o seu santo Nome, em seu exclusivo proveito e em proveito da respectiva corporação.
Jesus de Nazaré, porém, não é nada do que, concretamente, ao longo dos últimos dezasseis séculos, fizeram dele, no Ocidente. É, por isso, preciso, imperioso e urgente redescobrir, hoje, Jesus e o seu Projecto. Para nos tornarmos, neste início do terceiro milénio, mulheres e homens ao seu jeito e segundo o seu Espírito. Mas, é claro, ao jeito do Jesus de Nazaré autêntico, não do forjado por esses clérigos e pastores sedentos de privilégios, à sombra do qual têm iniquamente vivido e medrado, como pequenos deuses todo-poderosos e temidos.
Mas, atenção! Quando dizemos que o Nome de Jesus é santo, de modo algum queremos dizer que é beato, que está confinado aos templos, que está necessariamente associado a padres, a bispos, a pastores de novas igrejas, a rezas, a missas, a comunhões solenes de crianças, a certos ritos litúrgicos, como o baptismo, o casamento pela igreja, o funeral católico. Nada disso. Isso foi o que sacrilegamente fizeram e fazem dele todos esses clérigos e pastores das novas igrejas, com insaciável fome e sede de privilégios.
Quando dizemos que o Nome de Jesus é santo, queremos dizer que é diferente de tudo o que até então tínhamos por valor absoluto, divino, até, por Deus. Queremos dizer, concretamente, que é o único Nome que não faz parte do Sistema dominante e da Ordem mundial dominante (por isso, é que tanto aquele, como esta, na pessoa dos seus chefes de turno - os ricos, os poderosos e os religiosos - não só não o reconheceram, como também o mataram fora da cidade, como maldito. Se ele fizesse parte do Sistema dominante e da Ordem mundial dominante, ter-se-ia aliado aos chefes de turno do seu tempo e país, e estes, em lugar de o matarem, tê-lo-iam convertido no seu deus principal, ou mesmo único. Por sinal, foi isto mesmo que acabou por suceder, nomeadamente, a partir do século IV, quando os chefes do Sistema dominante e da Ordem mundial dominante de então, diabolicamente, decidiram integrar o Nome de Jesus e fazer dele o Nome maior do seu Sistema e da sua Ordem, mas só depois de, habilmente, o esvaziarem de todo o conteúdo radicalmente alternativo e libertador que só o Nome de Jesus contém e diz).
Mas não é apenas isto que queremos dizer, quando dizemos que o Nome de Jesus é santo. Quando dizemos que o Nome de Jesus é santo, queremos dizer que ele é o único Nome que corresponde exactamente à pessoa que o leva e que a pessoa que o leva é exactamente o que o Nome indica e significa, isto é, Nome e Pessoa nomeada, são uma e a mesma realidade. Queremos dizer, por isso, que o Nome de Jesus é o único Nome verdadeiro, que não engana, que não mente, que podemos confiar nele até ao fim, sem que alguma vez nos experimentemos defraudados. Numa palavra, quando dizemos que o Nome de Jesus é santo, queremos dizer que ele é o único Nome no qual todos os seres humanos, mulheres e homens, podemos ser salvos, não no sentido paternalista e infantilista, de que Jesus nos substitui, mas no sentido maiêutico e libertador de que Jesus é o Caminho que, se for percorrido por nós sem desvios e até ao fim, nos faz ser verdadeiras mulheres e verdadeiros homens em plenitude.
Resgatar Jesus do domínio e do controlo de certos e influentes clérigos e dos pastores das novas igrejas, é voltar ao genuíno Jesus das narrativas evangélicas, mas com uma chave de leitura/interpretação outra, que não a chave moralista/religiosa/corporativa desses mesmos clérigos e pastores das novas igrejas.
Entretanto, uma tal volta ao genuíno Jesus das narrativas evangélicas, só resulta em cheio, se for vivida no clima solto e amadurecido, livre e responsável, duma pequena comunidade cristã e jesuânica de base, reunida em Nome de Jesus Ressuscitado e em nome da Humanidade mais empobrecida e mais sofrida.
Nos grandes templos e nas grandes basílicas, onde continuam a pontificar o papa-chefe-de-Estado, os bispos-empresários-das-dioceses, ou mesmo os párocos-pequenos-reis-das-freguesias, esta viagem ao genuíno Jesus das narrativas evangélicas é completamente impensável. Como é impensável, no ambiente de qualquer "assembleia" das novas igrejas, à frente da qual pontificam pastores, que se pelam por dinheiro, ainda mais do que o Diabo por almas, e cuja formação teológica e de hermenêutica bíblica é nenhuma, melhor, é exclusivamente aquela que lhes meteram na cabeça e que se destina exclusivamente a levar as pessoas a despojar-se, primeiro, de toda a sua consciência crítica, depois, de todo o seu dinheiro, e, finalmente, de toda a sua dignidade humana.
No clima solto e amadurecido, livre e responsável, duma pequena comunidade cristã e jesuânica de base (Igreja é este vivo acontecimento misteriosamente convocado e conduzido pelo Espírito Santo: duas ou três pessoas, discretamente, reunidas em Nome de Jesus Crucificado/Ressuscitado), as narrativas evangélicas, assim como as narrativas bíblicas do Primeiro Testamento, deixam de ser apenas letra que atrapalha, aprisiona, assusta e mata as pessoas, para passarem a ser, essencialmente, Espírito, Sopro, Vento, Inspiração, Ímpeto Criador e libertador, que desperta, ergue, consciencializa, solta, liberta, cura e ressuscita as pessoas. É num clima assim, que Jesus, bem como a sua prática e a sua palavra, voltam a revelar-se a nós, em toda a sua surpreendente originalidade e em todo o seu escândalo, como sucedeu há quase dois mil anos, nas Sinagogas da Galileia, primeiro, e, depois, nas planícies, nos montes, nas praias, nos banquetes, nas bodas realizadas em muitas das casas da Galileia e da Judeia. Mas, agora, eis que se revelam na nossa própria língua, na nossa cultura, nos nossos contextos económicos, sociais, políticos e religioso-eclesiásticos. O que faz desses momentos, verdadeiros partos, verdadeiras transfigurações no Monte Tabor, verdadeiras Revoluções, o mesmo é dizer, Novos Começos, concretamente, para as pessoas que lhes dão corpo sem reservas e sem medo.
É numa comunidade cristã e jesuânica de base assim, que depressa nos apercebemos que Deus, tal como se nos revela em Jesus de Nazaré, o Cristo, do que verdadeiramente gosta é do Carnaval, não da Quarta-feira de cinzas e da quaresma. Do que verdadeiramente gosta é de viver e de fazer viver a todas e a todos. Por isso, não vai em jejuns, nem em abstinências, nem cilícios, nem em sacrifícios, nem em penitências mais ou menos esotéricas. Do que Ele verdadeiramente gosta é de misericórdia, de acção política que consciencialize e liberte as pessoas e as sociedades, não de religião, não de sacrifício. Do que Ele verdadeiramente gosta é de corpos bem alimentados - que tanto estão prontos a vibrar e a festejar, também na dimensão erótica que todas as festas humanas, quando não reprimidas, contêm, como estão igualmente prontos a comprometer-se até ao sangue em Causas concretas das quais resulte benefício para toda a Humanidade - não de corpos sujeitos a forçados jejuns, castigados com cilícios, tristes, reprimidos, como pretendem a Quarta-feira de cinzas e a quaresma.
Surpreendem-se com este meu dizer? Então escutem o que regista, por exemplo, o relato evangélico de Lucas (7, 31-35) acerca de Jesus e da sua prática, por volta do ano trinta (hoje, estamos no ano 2001) e depois digam-me se é ou não verdade o que aqui hoje escrevo, de que Deus do que verdadeiramente gosta é do Carnaval, com todos os seus excessos, até com os seus pecados, e não gosta nada da Quarta-feira de cinzas e da quaresma que ela inicia, muito menos de todas aquelas tradicionais virtudes que, durante ela, as pessoas católicas, tristes e amortalhadas, possam praticar. Diz assim o relato de Lucas:
"A quem, pois, compararei as pessoas desta geração? A quem são semelhantes? Assemelham-se a crianças que, sentadas na praça, se interpelam umas às outras, dizendo: Tocámos flauta para vós, e não dançastes! Entoámos lamentações, e não chorastes".
Veio João Baptista [o mestre da via do rigorismo e da penitência, que vivia no Deserto, cobria-se de peles e alimentava-se de gafanhotos], que não come pão nem bebe vinho, e dizeis: Está possesso do demónio! Veio o Filho do Homem [o próprio Jesus], que come bem e bebe melhor, e dizeis: Aí está um glutão e bebedor de vinho, amigo de cobradores de impostos [publicanos] e de outra gente de má fama [pecadores e prostitutas]! Mas a sabedoria foi justificada por todos os seus filhos."
Quarta-feira de cinzas e quaresma? A nossa Igreja católica romana bem pode continuar a forçar as populações a aderir à sua pastoral sado-masoquista, a qual atinge o seu clímax, o seu ponto culminante, nestas semanas que antecedem a Páscoa. E bem pode continuar, sem a mais leve perturbação,a fazer orelhas moucas a tudo isto que eu aqui escrevo e digo, com humor e amor. Assim como pode continuar, imperturbável, a congregar, em seu redor, muitas pessoas, nomeadamente, aquelas que ainda se não atreveram a libertar-se do medo e, por isso, até se sentem bem com as práticas litúrgicas sado-masoquistas que a nossa Igreja católica romana lhes sugere, melhor, lhes ordena, sob pena de pecado mortal.
Mas, no meio de tudo isto, uma coisa eu sei. E é esta: Quem, de certeza, não está presente em nenhuma das múltiplas acções dessa pastoral sado-masoquista, é Deus, esse mesmo Deus que nos deu Jesus ("glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e de outra gente de má fama") e, com ele, proclamou este Evangelho ou Boa Notícia a toda a Humanidade: Ousai ser mulheres e homens como este meu Filho muito amado, ousai ser mulheres e homens do mesmo jeito dele, e segundo aquele mesmo Espírito outro que plenamente o habitou, desde a sua concepção no ventre de Maria, sua mãe. E, na festa e na acção militante sem fim que passará, então, a ser o vosso viver, só não me vereis ao vosso lado, porque Eu sou a própria Festa e a própria Acção militante, que vos transforma e recria continuamente, e, em vós e convosco, transforma e recria continuamente a vida do mundo!

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