Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

25 Fevereiro 2001

Eu li, mas nem queria acreditar no que li. Esfreguei os olhos, como quem procura apurar melhor a visão, e voltei a ler. E lá estavam, preto no branco, sob o título, "Obrigado pela possibilidade do Baptismo", afirmações blasfematórias e sacrílegas, como se fossem afirmações muito piedosas e teologicamente exemplares. Fazem parte de um texto que aqui transcrevo, de seguida:
"A Graça é gratuita, mas a cerimónia não. Pelo Baptismo, Deus abre a porta à Graça de lés a lés, mesmo na Arménia, mas a alegria por este dom do céu custa dinheiro. Assim o exige a tradição. Também Maria e José, aquando da Apresentação de Jesus no Templo, tiveram que oferecer «em sacrifício, conforme o prescrito na Lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos» (Lucas 2, 24). Na Arménia, não há dinheiro nem para pombas, e neste país, que foi um dos primeiros a ser cristianizado, muita gente não tem meios para pagar uma cerimónia baptismal. No entanto, sem celebração, não há baptismo, e, por isso, muitas crianças não são baptizadas. Mas o Padre Mouradian não se conformou. Primeiro, houve a perseguição pelos Turcos, depois, a opressão pelos soviéticos e, após os soviéticos, a pura e dura luta pela vida nos campos, agravada ainda pelos tremores de terra e a seca. O Padre Mouradian recorreu à Ajuda à Igreja que Sofre, pedindo-lhe o dinheiro necessário para uma celebração baptismal comum a sete aldeias da região de Ashotsk, no norte da Arménia. Deus quer essas crianças, quer de novo comunidades de cristãos baptizados na Arménia, quer voltar a habitar na alma e no coração dessa gente. Assim argumentou este missionário oriundo do Líbano, e a Ajuda à Igreja que Sofre atribuiu-lhe cerca de 1.000.000 Escudos para esta festa de alegria no Senhor. O Padre Mikael Mouradian agradece de todo o coração. Hoje, nas sete aldeias, preparam-se para o baptismo 600 fiéis, sobretudo crianças, que rezam por nós. Se algumas centenas de entre vós pudesse enviar o preço de dois pombinhos, o Padre Mouradian poderia ir em seguida às aldeias vizinhas..."
O texto vem na última página do "BOLETIM – Ajuda à Igreja que Sofre", n.º 1, Janeiro 2001. A transcrição é integral. Para que melhor nos possamos aperceber dos disparates teológicos e pastorais que a notícia veicula.
Mas se pensam que alguém, ao nível da hierarquia da Igreja católica, se aflige com esta prática e com este tipo de missão e de missionário, estão muito enganados. Na nossa Igreja católica romana, ninguém se aflige. Pelo contrário, até apoiam.
Basta dizer que a Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) é uma Organização Pública Universal Dependente da Santa Sé. E que tem todas as bênçãos do Papa e do Vaticano, um e outro, certamente, reconhecidos pelo feroz anti-comunismo primário que ela sempre revelou até à queda do Muro de Berlim e que, ainda hoje, se mantém no subconsciente dos responsáveis, por mais operações de cosmética que a Organização faça. E, se dúvidas houvesse, a notícia desta iniciativa bastava para as desfazer.
Mas debrucemo-nos sobre o texto em causa. Analisemos teologicamente o que ele diz. Concluiremos que a concepção de missão que norteia o Padre Mouradian e que, duma maneira geral, norteou e ainda hoje norteia os missionários ocidentais, inclusive, os missionários e as missionárias portugueses, é uma concepção não só totalmente estranha ao Evangelho, como também totalmente nos antípodas do Evangelho de Deus que Jesus nos anunciou e que protagonizou entre nós, na sua qualidade de o Cristo de Deus. Como tal, não só não deverá ser apoiada, como deverá, até, ser denunciada e interrompida. Missão assim, melhor será que não haja nenhuma. As populações e os povos ganharão mais com a sua falta, do que ganham com a sua concretização.
É o que se pode chamar uma missão capitalista e favorecedora do capitalismo, esse sistema que, por mais água benta que os papas e os bispos e os patrões ditos católicos lancem sobre ele, jamais conseguirão que ele deixe de ser um sistema que tem por pai o Diabo, pois, como ele, é mentiroso, pai de mentira, assassino e homicida desde o princípio. É o anti-Deus em acção. Princípio de todo o mal que existe no mundo. Princípio gerador duma dinâmica de açambarcamento, não de partilha, duma dinâmica de acumulação, não de comunhão, duma dinâmica egoísta, não altruísta, duma dinâmica só-para-mim, não para-todas-e-todos, duma dinâmica corporativa, não cooperativa, duma dinâmica discriminatória, não integradora, numa palavra, duma dinâmica de morte, não de vida.
Enquanto o Espírito ou Ruah de Deus é criador de filhas e de filhos, isto é, faz dos seres humanos irmãos e irmãs entre si, o capitalismo é um sistema que, onde imperar – e hoje, qual Diabo disfarçado de Deus, impera, praticamente, em todo o mundo – desfraterniza/dessororiza os seres humanos, põem-nos uns contra os outros, faz com que uns comam os outros, cava abismos intransponíveis entre eles e, por isso, é um sistema gerador de minorias ricas e poderosas e de maiorias empobrecidas e excluídas, ao mesmo tempo que, habilmente, fomenta religiões de todo o tipo, entre as populações e os povos, como ópio e ilusão de felicidade, a conseguir, sempre no além, após a morte, ou numa próxima futura geração, que nunca chega.
Pois bem, é para um sistema assim que o tipo de missão do Padre Mouradian aponta, e que a AIS já começou a ajudar, com o envio de cerca de mil contos, para que ele possa baptizar cerca de 600 crianças de sete aldeias da Arménia. Uma missão que ela pretende continuar a ajudar, caso as pessoas que recebem o Boletim da AIS se disponham a enviar, na volta do correio, os seus donativos, quanto mais chorudos, melhor, para esse fim. O Padre Mouradian poderá, então, passar a outras aldeias da Arménia e garantir a "cerimónia do baptismo" a mais crianças.
Curiosamente, no seu texto de propaganda, a própria AIS, com o apoio do Vaticano, começa por reconhecer, e bem, que "a Graça é gratuita". Porém, tem o cuidado de acrescentar de imediato, na mesma frase: "mas a cerimónia não". E, para que as pessoas entendam bem o que se pretende, logo esclarece: "Pelo baptismo, Deus abre a porta à graça de lés a lés, mesmo na Arménia, mas a alegria por este dom do céu custa dinheiro". Ou seja, a Graça é de graça, porque é dom de Deus. Mas a cerimónia do baptismo, que o padre há-de realizar para, pelo menos, no entender dele e da AIS, a Graça chegar, por esse meio, à "alma" e ao "coração" das crianças, já não pode ser de graça, tem de custar dinheiro. Porque já não é obra de Deus, é obra da Igreja, não só duma Igreja estabelecida, mas também duma Igreja em missão, seja na Arménia, seja em qualquer outra parte do mundo.
Com todo este arrazoado, de pretensa solicitude missionária e pastoral, o que se está a incutir nas pessoas e nas populações, no caso, nas pessoas e nas populações das aldeias da Arménia (e, é claro, nas pessoas que recebem e lêem o Boletim da AIS), é o sistema capitalista puro, é a ideologia capitalista pura, a pretexto da cerimónia do sacramento do baptismo. E, por isso, nada mais diabólico, nada mais mentiroso, nada mais mortífero, para o presente e para o futuro da Arménia, como do mundo.
É preciso que se saiba que, em Igreja cristã, seja católica ou protestante, quem diz sacramento, diz sinal de graça, ou vida de Deus já comunicada às pessoas e aos povos. Não graça ou vida de Deus ainda a comunicar, por esse meio, às pessoas e aos povos, mas Graça ou vida de Deus já comunicada, já presente e actuante nas pessoas e nos povos, em todas as pessoas e em todos os povos.
Infelizmente, não é assim que o Padre Mouradian, da Arménia, vê as coisas. Provavelmente, nem a Igreja que o enviou em missão para aquele país, e que, ao longo dos séculos, tem sucessivamente enviado missionários e missionárias, para os chamados "países de missão", vê assim as coisas. Tão pouco, a AIS, que já se dispôs a apoiá-lo. E que, agora, com base nesse pretexto, nos aparece aqui, neste número do seu Boletim, a lançar o anzol à vasta rede de benfeitores e dadores que ela já dispõe, em múltiplos países do mundo, para que se cheguem è frente, com mais e mais dinheiro. Numa sucessão de sucessivas ofertas, que fazem da AIS uma enorme empresa financeira, abençoada pelo Vaticano, certamente, um dos primeiros beneficiários da sua conta bancária, supostamente choruda.
(Pertence à AIS provar que a sua conta bancária não é choruda, que ela é uma Organização pobre e que, embora movimente enormes quantidades de dinheiro, não é uma empresa financeira. De resto, a AIS nem sequer poderá argumentar, sem mais, que os seus fins são evangelicamente bons, para daí concluir que toda ela é boa. Tem de provar que os seus fins são evangelicamente bons. Só que, pelo teor das diversas campanhas já realizadas, ao longo dos anos, e por aquelas que ela tem actualmente em curso, é difícil convencer as pessoas que os fins são evangelicamente bons. O caso presente, do Padre Mouradian, embora envolva uma importância em dinheiro, quase insignificante, é ideologicamente eloquente. Parece uma iniciativa, objectivamente, boa, mas está, evangélica e teologicamente, envenenada. O Deus a que se refere, não é o Deus que se nos revelou definitivamente em Jesus de Nazaré. É o deus Dinheiro, sem o qual, nem sequer a Graça pode chegar às pessoas e aos povos! É, por isso, um falso deus que, diabolicamente, se coloca no lugar de Deus. É um deus que diz, Queres receber a Graça? Então chega-te à frente com dinheiro. E, se não tens dinheiro, inventa maneira de o conseguires. Nem que seja, através dum apelo endereçado à AIS, essa Organização Pública Universal Dependente da Santa Sé, apelo que ela de imediato atendeu – já dispõe de verbas para isso! – ao mesmo tempo que cada vez mais ganha fama de benfeitora, e passa a dispor de um pretexto mais, para poder lançar nova campanha de recolha de fundos entre os seus inúmeros dadores e benfeitores, espalhados pelo mundo).
Pouca gente sabe – a teologia cristã não é, infelizmente, o forte na vida das pessoas que se confessam católicas em Portugal e nos restantes países que cresceram à sombra da Cristandade ocidental – que o sacramento do Baptismo não é para dar/conferir a Graça ou vida de Deus às pessoas que o recebem.
No entanto, para mal de todas e de todos nós, foi isso que, durante séculos, pelo menos, nos últimos quatro, desde o Concílio de Trento, as catequeses católicas oficiais, a começar pelos Seminários Maiores e, mais recentemente, pelas Universidades católicas, ensinaram e, ao que parece, ainda ensinam. Em concreto, ensinam que cada sacramento é um sinal eficaz que dá/confere a graça, ex opere operato, isto é, por si próprio, independentemente, da disposição das pessoas que o recebem.
Ensinou-se, igualmente (ainda se ensina!) que cada sacramento é o meio através do qual Deus dá/confere a sua Graça às pessoas, de harmonia com a necessidade que elas têm, nos sucessivos momentos cruciais da sua vida individual, entre o nascer (Baptismo), e o morrer (Santa Unção, a celebrar, quando a morte já se anuncia, ou está iminente).
De modo que, se alguma pessoa fica privada, por exemplo, do Baptismo, fica também privada da Graça ou vida de Deus, concretamente, não chega a tornar-se filha ou filho de Deus e, se calha de morrer sem baptismo, põe seriamente em risco a sua salvação eterna.
Esta doutrina, apesar de não ter qualquer fundamento evangélico, e, por isso, ser uma doutrina, teologicamente mentirosa, foi ensinada, durante séculos. E ainda hoje persiste na consciência de muito boa gente católica e mesmo não católica, mas educada, na infância, em ambientes de influência católica.
Aliás, é uma doutrina assim, sem qualquer fundamento evangélico e, por isso, teologicamente mentirosa, que esteve na base de todo o movimento missionário católico, especialmente, a partir do século das chamadas "descobertas e conquistas", com missionários portugueses e castelhanos a avançarem para os povos acabados de "descobrir" e de conquistar pela força e pela violência das armas. Um Francisco Xavier, por exemplo, que baptizava de manhã à noite, até que o braço lhe caía de cansaço, de tanto se levantar sobre a cabeça de cada indígena, para deixar cair a água que o lavava do pecado original(?) e fazia dele mais um filho/uma filha de Deus, agiu sempre de acordo com esta convicção.
No seu fervor missionário, Francisco Xavier não foi capaz de ver que, a ser verdade o que lhe haviam metido na cabeça, desde menino assustado e que, pelos vistos, depois, nunca mais lhe saiu, então, Deus seria, não a Boa Notícia que efectivamente é, e que Jesus de Nazaré, o Verbo que se fez carne, revelou, duma vez por todas, mas sim um monstro. E por quê? Pela simples razão de que, por um lado, apresentava-se como um Deus libertador e salvador das pessoas e dos povos, mas, depois, condicionava a concessão da libertação e da salvação das pessoas e dos povos a um meio, o sacramento do Baptismo, que só a Igreja (católica) tinha a faculdade de vender e de administrar (dantes, era este o verbo utilizado e não o verbo celebrar, como passou a ser, depois do Vaticano II, embora, ainda hoje, o dinheiro continue a ser indispensável para pagar a celebração!...). Ora, onde a Igreja católica não chegasse e a quem ela, porventura, negasse o sacramento do Baptismo, ou a quem faltasse o dinheiro para pagar a "cerimónia" ou celebração, também não chegava a libertação e a salvação de Deus.
Por isso, também hoje, na Arménia, onde trabalha o Padre Mouradian, se ele não fizer "a cerimónia do Baptismo", as crianças que vivem naquelas sete aldeias que pastoralmente lhe estão confiadas, ficam privadas da Graça ou vida de Deus, o mesmo é dizer, não se libertam nem se salvam nunca!...
Mas, com o Padre Mouradian e com a AIS, as coisas são ainda, infelizmente, mais perversas e monstruosas. Porque, pelo que diz o texto do Boletim da AIS, a cerimónia do sacramento do Baptismo não será realizada, se não houver dinheiro para a pagar ao "zeloso" e "apostólico" padre missionário católico que lá vive e que é o único que está credenciado para o fazer!... E, sem cerimónia do Baptismo, a Graça que é de graça, não é conferida – pelo menos, é isso que, logicamente, se subentende do texto - às crianças daquelas aldeias da Arménia.
Tudo isto é de vómitos. Mas é assim que está escrito. Ainda se se dissesse que, na Arménia, vive um padre missionário que precisa de ser ajudado financeiramente, para sobreviver, e se fizesse um apelo às pessoas nesse sentido, dado tratar-se de um país pobre e o padre em causa dedicar-se a tempo integral à missão, ainda poderia ser tolerável (por sinal, uma posição que o missionário dos missionários, Paulo de Tarso, por exemplo, não aceitou, e, por isso, sempre fez questão de subsidiar, com o trabalho das próprias mãos, a missão, não de baptizar, mas de anunciar o Evangelho, precisamente, para não ficar pesado a ninguém e para poder usufruir da radical liberdade desse mesmo Evangelho!).
Mas não. A campanha diz expressamente que o dinheiro é para pagar a "cerimónia do Baptismo", sem a qual não há Baptismo para ninguém, uma vez que, embora a Graça seja gratuita, não o é a cerimónia através da qual essa Graça é conferida!...
Depois, há ainda, no texto do Boletim da AIS, aquela alusão ao argumento da "tradição". O texto é atrevidamente basfematório, quando escreve: "Assim o exige a tradição". E logo acrescenta um facto evangélico, sem entender minimamente o alcance teológico que o Evangelho de Lucas que o relata, lhe atribui, pelo contrário, até distorce por completo esse alcance teológico, para forçar a narrativa a justificar a campanha em curso: "Também Maria e José, aquando da Apresentação de Jesus no Templo, tiveram que oferecer «em sacrifício, conforme o prescrito na Lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos» (Lucas 2, 24)".
Não se pode ser mais asqueroso. É com manipulações destas e outras ainda piores que também a Igreja Universal do Reino de Deus e todas as novas Igrejas que por aí hoje proliferam, ganham fortunas, ao fim de poucos anos de actividade
(os respectivos fundadores descobriram que poderiam ganhar muito mais dinheiro com a fundação duma Igreja, do que com a fundação dum Banco, uma vez que as populações desesperadas pela miséria e pela desorientação em que o capitalismo neoliberal das multinacionais as deixa, invariavelmente, correm para os pastores que lhes falam de um deus que recompensa cem por um quem lhe der tudo o que tem, nem que seja o pouco sangue anémico que lhe corre nas veias! Além disso, esses mesmos pastores sabem que, nem que seja pouco, o dinheiro dos "fiéis" desesperados, mesmo assim, vale a pena manter esse discurso, porque, como o dinheiro das "ofertas" nunca é escriturado nem contabilizado, serve às mil maravilhas de óptimo telhado para eles cobrirem a obtenção de fabulosas fortunas, mediante o recurso à lavagem de dinheiro e a outros negócios sujos, que os Governos dos países onde essas igrejas estão implantadas nunca chegarão a descobrir. Pelo contrário, ainda são até capazes de ajudar a financiar essas novas igrejas, mediante a concessão de certas regalias, como, por exemplo, a isenção de certos impostos!...).
O mais grave é que o texto do Boletim da AIS que, ao que parece, reproduz a mentalidade do Padre Mouradian, distorce completamente o alcance profético-teológico do relato, de Lucas, quando este faz alusão ao episódio da apresentação de Jesus no Templo de Jerusalém e leva-o a dizer o contrário do que ele diz.
Para o Evangelho de Lucas, trata-se de denunciar/derrubar uma tradição judaica, atribuída a Moisés, e não de a canonizar.
No dizer/proclamar do relato, eis que acabara de nascer o Libertador que haveria de libertar todo o povo, não só os israelitas, mas toda a Humanidade, respectivamente, da prepotência dos sacerdotes do Templo de Jerusalém e dos templos em geral, bem como do negócio que eles sempre fizeram e continuam a fazer à custa do santo Nome de Deus. Acabara de nascer o Libertador que haveria de varrer de vez da face da terra todo esse negócio religioso, sugador dos pobres, e toda a falsa teologia – verdadeira idolatria – em que ele se apoia.
Portanto, a referência à "tradição" e, concretamente, à cerimónia de apresentação de Jesus no Templo, em lugar de justificar e fundamentar o pagamento da cerimónia do Baptismo, como pretende o Boletim da AIS, faz precisamente o contrário: denuncia abertamente o negócio sujo que se possa fazer à volta da celebração desse sacramento, por parte da Igreja.
Afinal, aquele menino, sobre o qual o velho Simeão e a profetisa Ana dizem coisas inacreditáveis – o importante do relato é esta proclamação do casal de velhos que, inopinadamente, assumem, ali, o papel de profetas, e não a cerimónia propriamente dita de apresentação de Jesus no Templo (cerimónia vazia, rotineira, esteriotipada, que, evidentemente, nunca seria notícia!) – é, nem mais nem menos do que o Messias, o Libertador, aquele que veio pôr fim, até, ao Templo de Jerusalém e a todos os outros templos, quanto mais às cerimónias ritualizadas e esteriotipadas que lá se faziam e fazem, e pelas quais invariavelmente se cobrava e cobra dinheiro às pessoas, pobres que sejam!
Com este menino, que os sacerdotes do templo acolhem sem saberem quem ele é – os sacerdotes de todos os tempos só sabem das rotinas que fazem dentro do seu espaço e, graças às quais vivem e enriquecem! – mas que os não-sacerdotes, por sinal, um velho e uma velha, de imediato, reconhecem como o Messias ou Enviado de Deus, o templo nunca mais terá qualquer valor salvífico, assim como as cerimónias religiosas que lá têm lugar.
Tudo isso que lá se faz, no dizer/proclamar do relato de Lucas, é até estorvo para a libertação e para a salvação das pessoas. Tem por isso tem de desaparecer. E, se sempre há quem persista em manter abertos esses locais e, porventura, até abra outros do género, nem que seja em garagens ou em antigos cinemas, então, o que resta às pessoas de bom senso e já evangelizadas/iluminadas pelo Evangelho de Jesus, é fugir de todos esses locais, como se diz que o Diabo foge da cruz! Porque nesses locais não se realiza a salvação de ninguém, apenas a exploração de toda a gente, juntamente, com a manipulação, a alienação, a dominação.
O relato de Lucas, a que se refere o texto do Boletim da AIS, está a proclamar/gritar que aquele menino, quando for grande, irá viver até ao sangue a Missão de Evangelizar os pobres, de libertar os oprimidos, de integrar os excluídos, de acabar com as prisões, numa palavra, dá início a um tempo novo de salvação gratuita de Deus, sem mais necessidade de intermediários, nem de templos, nem de igrejas, nem de sacerdotes, nem de pastores, pois esse novo tempo é um tempo em que Deus se comunica directamente com cada ser humano, mulher ou homem e com cada povo, qualquer que seja a cor da sua pele ou a sua cultura!
(Mas atenção! Embora a Humanidade só soubesse desse tempo novo, na altura em que Jesus dá início à sua Missão, na Sinagoga de Nazaré, quando ele, como senhor e mestre, abre o rolo do Profeta Isaías e lê o respectivo texto - não tal e qual ele está escrito, mas com a destemida audácia de omitir aquela referência à "vingança" de Deus, que ainda constava no discurso do velho profeta, omissão essa que desencadeou entre os ouvintes da Sinagoga uma verdadeira fúria de morte contra Jesus - a verdade é que esse tempo novo é todo o tempo do Universo e da Humanidade, pois é o "Hoje" permanente de Deus. Como tal, inclui todos os seres humanos de todos os tempos e lugares, desde o início da criação até ao final da História, antes de mais, aqueles seres humanos que os dirigentes religiosos tinham e têm como inveterados pecadores e, portanto, como eternamente perdidos!...).
Pois bem, é aqui, neste Evangelho ou Boa Notícia de Deus, que entra e adquire importância a Igreja que se reclama do nome de Jesus de Nazaré, o Cristo. E é aqui que entram os chamados sacramentos que essa mesma Igreja celebra.
Não. A Igreja não existe para dar/conferir a salvação de Deus às pessoas que a integram. Essa foi uma diabólica doutrina falsamente teológica que, durante séculos, foi pregada aos povos do mundo e que, em síntese, dizia esta coisa aberrante: "Fora da Igreja [católica romana] não há salvação".
(Hoje, neste início do século XXI e do terceiro milénio, ainda há por aí novas igrejas que vêm com este mesmo discurso aberrante, nomeadamente, as Testemunhas de Jeová, que dizem que quem não fizer parte da respectiva Congregação ficará excluído da salvação, da Nova Terra apocalíptica que está para chegar – só que nunca mais chega e as Testemunhas têm de estar sempre a corrigir a data da sua chegada! – reservada exclusivamente para quem aderir à organização e passar a pagar a respectiva taxa...).
Sim. A Igreja existe para ser o sacramento da salvação que Deus efectivamente dá/confere, por pura graça, com ou sem baptismo, a toda a criatura, a todos os seres humanos, mulheres e homens indiscriminadamente, e a todos os povos.
Tanto ser sacramento (Igreja), como celebrar um sacramento, não é, pois, dar/conferir a Graça, dar/conferir a vida de Deus. É proclamar, a tempo e fora de tempo, que a Salvação que Deus dá/confere, por pura graça, a todas as pessoas e a todos os povos, é já saborosa e misteriosa realidade em todas as pessoas e em todos os povos. Isto é, todas as pessoas, pelo simples facto de o serem, são concebidas e nascem em estado de salvação, o mesmo é dizer, com Deus dentro, com a vida de Deus nelas, no mais íntimo de cada uma delas.
O sacramento do Baptismo e todos os restantes sacramentos da Igreja (o número sete não limita a sete os sacramentos, indica, sim, a totalidade dos sacramentos), não são para dar/conferir a Graça ou vida de Deus, pois ela já habita cada pessoa desde o momento da sua concepção. Os sacramentos são para revelar (= tirar o véu) e proclamar, com ênfase, esta Boa Notícia, que corre o risco de ficar ignorada nas pessoas. E, daí, o seu quotidiano viver acabar por ser, tantas vezes, uma desgraça pegada e um desgraçar pegado da vida dos demais seres humanos. Quando poderia e deveria ser uma festa sem fim e sem par, em comunhão com todos os outros seres humanos.
É aqui que reside toda importância da Igreja e dos sacramentos que ela é chamada a celebrar. Sem ela e sem eles, as pessoas correm o risco de não tomarem nunca consciência de que são pessoas em estado de salvação, de que são pessoas com Deus dentro, de que são filhas e filhos de Deus, desde a sua concepção, de que são amadas por Deus, numa palavra, de que Deus as habita no mais íntimo delas e que desde aí continuamente as trabalha, para que cada uma delas venha a ser Cristo, mulher ou homem, tanto faz, como Jesus de Nazaré foi.
Basta um simples olhar para o que, habitualmente, se faz por essas paróquias católicas fora, tanto em Portugal, como nos restantes países de maioria católica do mundo, para logo percebermos que ainda não é nada disto que, hoje, se faz e se proclama. Tudo continua como dantes, como se não tivesse havido o Concílio Vaticano II. E como se o Espírito de Deus não andasse por aí a fazer novas todas as coisas, se já não com a cooperação de cada uma das Igrejas locais, sim com a cooperação de muitos ateus, mulheres e homens, que Deus ama, e que, por sua vez, amam a Justiça e buscam, com todas as forças, uma Terra outra que tenha a Verdade por alicerce, a justiça por alimento, a liberdade por ar que se respira e a fraternidade/sororidade por mesa comum.
As igrejas paroquiais católicas, aliás, no prolongamento da Sinagoga e do Templo de Jerusalém – o Vaticano, por exemplo, com todo o império das suas luxuosas e imponentes basílicas, o que é senão o prolongamento da velha Sinagoga e do velho Templo de Jerusalém, as duas instituições judaicas da época que perseguiram e crucificaram Jesus – asfixiam as pessoas que as frequentam, com a rotina das suas cerimónias e dos seus ritos sem vida.
A Boa Notícia de Deus, que Jesus de Nazaré, o Verbo de Deus feito carne, nos trouxe, é coisa que as igrejas paroquiais católicas continuam a ser incapazes de proclamar. Por isso, terá de ganhar corpo a Igreja comunidade de comunidades, discreta como o fermento na massa e como o sal na comida.
Em lugar de missas e de sacramentos ritualizados, sem Espírito e sem profecia, a Igreja, comunidade de comunidades, celebrará, ininterruptamente, a indestrutível alegria de saber que Deus vive no mais íntimo de cada ser humano, ateu que seja, mulher ou homem, indiscriminadamente, e no mais íntimo de cada povo. E, por isso, em lugar de ser uma Igreja com a obsessão de ir a correr levar Deus aos outros seres humanos e aos povos, procura viver entre uns e outros, como parteira, isto é, como quem, discretamente, os ajuda a tomar consciência da Presença/Acção dEle nas suas vidas. E esta consciência, quando despertar a sério nos seres humanos e nos povos, mudará as vidas deles e eles, por sua vez, mudarão o mundo.
Só que uma Igreja assim, comunidade de comunidades, onde tudo é de todos, segundo a necessidade de cada qual, é uma Igreja nos antípodas da que o Padre Mouradian está empenhado em congregar na Arménia, com cerimónias de Baptismo a crianças, pagas a dinheiro.
Para o Padre Mouradian e para a AIS que o apoia, o determinante, não é Deus que já vive e trabalha em cada ser humano, desde o primeiro instante da sua concepção, ou conceição. O determinante é o dinheiro com que se poderá pagar a cerimónia do Baptismo, mediante a qual a Graça, finalmente, chega às pessoas que se submetem a esse ritual, vendido, em exclusivo, pela Igreja católica (as outras Igrejas cristãs também baptizam, mas, para os católicos romanos mais fanáticos, é um baptismo sem valor, pelo que, Baptismo a sério, só mesmo o que a Igreja católica administra/celebra, melhor, vende!).
Antes disso suceder, a Graça não chega às pessoas e elas vivem sem Deus! Por outras palavras, ou as pessoas arranjam dinheiro e também recebem a Graça e se salvam, ou ficam para sempre privadas da Graça, o mesmo é dizer, da salvação!
Por isso, volto a dizer que, nesta concepção de Igreja, o determinante é o dinheiro. Quem tem dinheiro, salva-se, quem não tem já está condenado. Aliás, nesta concepção de Igreja, não ter dinheiro é sinal ou sacramento de que não se tem Deus, porque aquelas pessoas que têm Deus, a vida corre-lhes bem e são sempre bem sucedidas. Assim se pensava no tempo de Jesus de Nazaré. E ainda se pensa hoje. Ser pobre, não ter dinheiro, nem sequer para pagar a cerimónia do Baptismo dos filhos e das filhas, é sinal de que se é pecador. Porque a quem a vida corre bem e lá onde o dinheiro abunda, é sinal de que Deus está presente com a sua bênção. Pecadores, são os pobres, os que não têm onde cair mortos, nem dinheiro para pagar uma simples cerimónia de Baptismo. Boas pessoas, pessoas dignas, são os ricos, que podem pagar todos os sacramentos, fazer de cada um deles uma festa de arromba e, ainda por cima, garantem, com as suas avultadas ofertas, a existência duma Organização Pública Universal Dependente da Santa Sé, como é a AIS, uma organização financeira que movimenta verbas de se lhe tirar o chapéu e ajuda a manter um modelo de Igreja intrinsecamente perverso, segundo o qual, as pessoas, para se salvarem, têm de ter dinheiro para pagar a salvação que Deus até dá de graça, e que, pelos vistos, esse modelo perverso de Igreja não dá, mas vende!
Só que uma Igreja assim, é o capitalismo-lobo disfarçado de Igreja-cordeiro, para melhor poder comer os pobres que têm o azar de ser baptizados por ela. Por isso, quem ainda puder, que fuja desta Igreja, quanto antes.

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