Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

20 Fevereiro 2001

A Igreja que está nos Açores, mais concretamente, em Ponta Delgada, bem pode limpar as mãos à parede. O que, hoje, disseram, para as câmaras de televisão, vizinhos e familiares da menina Ana Sofia, vítima de horrendo e inqualificável crime que lhe roubou a vida, antes dela a poder viver cabalmente (tinha a idade das duas crianças de Fátima, Jacinta e Francisco, que, em 1917, tiveram o azar de dizer que viram nossa senhora e, por isso, acabaram por ser sacrificadas ao sádico deus - pregado pelos padres da chamada Santa Missão de então - que, pelos vistos, precisa de sangue de crianças para poder perdoar aos pecadores!), revela que a Igreja católica, dominante naquela Região Autónoma, como, de resto, em todo o território nacional, não passa duma religião mais, em tudo igual às outras, que leva as pessoas a correr para Deus, em busca de desesperada solução para os problemas, quando as coisas correm mal, mas, de modo algum, consegue que as pessoas vivam habitualmente abertas ao Espírito de Deus e, sobretudo, deixem Deus ser Deus nas suas vidas, de modo que elas sejam, entre nós e connosco, sacramentos vivos dEle, como sucedeu, de forma plenamente exemplar e definitiva, com Jesus de Nazaré, por isso, muito justamente chamado o Cristo de Deus.
Uma das familiares, pessoa já de idade bastante madura, foi ao ponto de dizer que, se lhe dessem para as mãos o assassino da sua neta, era capaz de fazer a ele o mesmo que ele fez a ela. Pior, era capaz de, a frio, o amarrar e, depois, sadicamente, cortar aos bocadinhos, até o ver morrer de dor. E, em seu entender, assim é que se deveria proceder, neste caso. Porque só assim seria feita justiça.
Felizmente, os Tribunais funcionaram e o assassino de Ana Sofia, um jovem açoreano, vizinho da menina, agora com 26 anos, pôde ser presente ao julgamento, devidamente protegido da ira e da fome/sede de vingança dos populares açoreanos, porventura, todos eles baptizados catolicamente, habituais frequentadores da missa ao Domingo, e indubitavelmente devotos e romeiros do Senhor Santo Cristo e do Divino Espírito Santo, as duas festas maiores dos Açores, baptizadas com nomes cristãos, e que a Igreja católica local, quando viu que não as podia combater e neutralizar, acabou por fazer suas, apesar de continuarem a ser, uma e outra, festas tipicamente politeístas e pagãs.
E por que digo eu que a Igreja que está nos Açores bem pode limpar as mãos à parede? É simples. Este trágico acontecimento veio revelar que a Igreja que está nos Açores ainda não evangelizou as populações, apesar de ser a Igreja maioritária, para não dizer, a única, naquela Região Autónoma.
Fossem as populações açoreanas, deste início do terceiro milénio, já tão assumidamente evangelizadas por Jesus, como são tão assumidamente católicas (que bom seria que elas fossem menos católicas romanas e mais cristãs - e outro, muito outro, seria o discurso que hoje fizeram perante as câmaras de televisão.
Em lugar do ódio e da fome/sede de vingança, teriam sido capazes de surpreender o país com o seu discurso de perdão e de reabilitação do jovem seu conterrâneo que cometeu tão horrendo crime. Em lugar do discurso esperado do "olho por olho, dente por dente, vida por vida", ou seja, Mataste? Morres! Violaste? Serás violado!, teríamos sido surpreendidos pelo discurso do amor, até aos inimigos, unido a um forte apelo: que o jovem assassino, em lugar de ser condenado a ter de passar 25 anos numa prisão do continente, seja devidamente observado por especialistas e convenientemente tratado, numa instituição da especialidade, até recuperar totalmente de todos os traumas e de todos os possíveis desvios comportamentais que o levaram a cometer tão horrendo crime.
Sim, porque não se pode aceitar, sem mais, que um jovem saudável e psiquicamente equilibrado conceba e consuma uma série de actos, cada qual o mais inqualificável, como os que o jovem Pedro Simão cometeu, contra a menina Ana Sofia.
Julgá-lo à pressa e quase sumariamente, como hoje se fez nos Açores, e condená-lo, sem apelo nem agravo, à pena máxima que a lei penal portuguesa admite, e, finalmente, metê-lo numa prisão do continente, a cumprir essa mesma pena, é manifestamente insuficiente. E praticamente inútil.
Por um lado, não traz de volta aos amargurados pais, a sua filhinha, Ana Sofia. E, por outro lado, não se vê que possa curar e reabilitar o jovem Pedro Simão. Menos ainda, cura as populações de Ponta Delgada e do país, do mal terrível que é o ódio e a lei de Talião, um e outra, pelos vistos, ainda gravados a fogo, nas suas consciências.
Por isso, tudo o que, hoje, se fez, ao nível institucional, pode até deixar a sensação de que foi feita justiça, mas a verdade é que não nos curou nem cura do mal mortal, que são o ódio e a lei de Talião, que ainda continuam a ser, para mal das nossas sociedades, norma de comportamento, exigência cega e selvagem de comportamento, manifestação de crueldade, travestida de justiça, uma certa fixação na vingança como forma de cultura popular.
Se quisermos ser honestos, temos de reconhecer que toda a forma de vingança é uma postura anti-cultura e anti-humana, é demência colectiva, é uma sibilina forma de condenar os seres humanos a permanecer acorrentados a um certo tipo de comportamentos e de reacções que têm mais de selva e de deficiência/demência, do que de comportamento verdadeiramente humano.
Por isso, disse e repito, a Igreja dos Açores bem pode limpar as mãos à parede. Este trágico acontecimento veio dizer que ela é ainda e sobretudo religião católica, em tudo idêntica às outras religiões, mas está longe de ser Igreja, isto é, aquela comunidade de comunidades de discípulas e de discípulos de Jesus que já se libertaram da lei da selva, que é a lei de Talião, e se abriram ao Amor aos outros seres humanos, ao ponto de amarmos até o inimigo, de fazermos bem a quem nos faz mal, de sempre procurarmos a libertação e a salvação do outro, mulher ou homem, sobretudo, do outro que está perdido, como ser humano, em lugar de, estupidamente, querer que ele morra e, ainda por cima, de forma sádica.
Este horrendo acontecimento veio revelar que a Igreja católica que está nos Açores continua ainda longe de seguir a original via evangélica e libertadora de Jesus e, em seu lugar, estimula os seus membros a continuarem fiéis à tradicional via diabólica e opressora das Religiões. É, por isso, uma Igreja para fazer religião, não é uma Igreja para anunciar e viver, com coragem martirial e lucidez, o Evangelho de Deus que, vai para dois mil anos, pudemos ouvir da boca de Jesus de Nazaré e das primitivas comunidades cristãs, suas discípulas, que, depois, o redigiram em quatro versões distintas e complementares. E, sobretudo, pudemos vê-lo integralmente posto em prática na vida adulta desse mesmo Jesus de Nazaré. Com manifesto escândalo para os chefes da religião oficial de então, que pontificavam, como pequenos deuses incontestados, no Templo de Jerusalém e, por isso mesmo, o mataram.
Como as coisas, à volta deste caso, hoje correram e foram, pormenorizadamente relatadas pelos grandes "media" nacionais, parece que o país pode, agora, prosseguir como antes de todo este pesadelo ter ocorrido. O criminoso foi condenado. E, nos anos mais próximos, permanecerá na cadeia, a não ser que haja um terramoto e a cadeia deixe de existir e o jovem Pedro Simão, juntamente, com os outros presos, sobrevivam e, de repente, se vejam em liberdade. As populações de Angra do Heroísmo podem, também, voltar a dormir descansadas, porque o filho da sua terra que veio a revelar-se perigoso assassino, não atacará, nos anos mais próximos, outras meninas, como a Ana Sofia. Parece, pois, que a paz foi restabelecida nos Açores. E a Igreja católica pode voltar, calmamente, às suas festas pagãs e politeístas, embora sob o nome de festas cristãs!...
É manifesto que estou a dizer isto em tom irónico. E com profunda mágoa. Porque, se sou o primeiro a lamentar e a ficar indignado com o horrendo crime cometido contra a menina Ana Sofia, também fico profundamente preocupado com o défice de Evangelho cristão que é bem manifesto no quotidiano viver das populações católicas do país, em geral, e dos Açores, em especial, e que este trágico acontecimento veio ainda mais pôr a nu.
Ora, que fique claro duma vez por todas: Nem o nosso país, nem nenhum outro país do mundo, precisam da Igreja católica, como uma religião mais, entre as outras. Porque, para que a religião exista e mobilize as populações, não é precisa a Igreja. As populações são, elas próprias, criadoras de religião, sem precisarem da Igreja para nada.
Neste particular, tenho até de reconhecer que o clero católico só tem estorvado as populações, porque elas são naturalmente religiosas e, pelo menos, alguns padres católicos têm, muitas vezes, tentado, e bem, contrariar essa tendência, ao ponto das populações se queixarem que os padres – certos padres mais evangelizados - o que querem é acabar com a religião. E não se enganam. Só que não deveriam ser apenas alguns padres a fazê-lo. Deveria ser toda a Igreja, nas suas múltiplas comunidades. Porque o específico da Igreja, que se reivindica de Jesus, o Cristo, não é promover a religião, nem alimentar a religião das populações, mas anunciar e viver, lúcida e corajosamente, o Evangelho de Deus, anunciado e vivido até ao extremo por Jesus de Nazaré.
Só o Evangelho, não as religiões, é que é a via de libertação para a liberdade das populações que o escutarem e lhe derem a sua adesão. As populações que o escutarem e lhe derem a sua adesão, até da religião se libertam. Assim como se libertam do medo que está na origem de toda e qualquer religião.
Com a permanência da religião na vida das populações, nunca mais elas se libertam do medo. Nem da violência. Nem dos traumas que o medo fatalmente desenvolve. Nem dos crimes que esses mesmos medos e traumas desencadeiam, como expressão de demência humana, assim, de repente e momentaneamente, à rédea solta. Nem do ódio que mata. Nem da fome e sede de vingança. Nem da lei de Talião. Nem das cadeias estatais, uma espécie de ventres de desumanização total daqueles e daquelas que, sem hesitação, rotulamos de criminosos.
É este um círculo vicioso que nunca mais tem fim. E que nos mantém prisioneiros e totalmente indisponíveis para protagonizarmos caminhos outros de humanização, os quais têm todos a ver com a via anunciada e exemplarmente vivida por Jesus de Nazaré, o Ser Humano mais completo que, até hoje, a História conheceu, absolutamente intolerante, como Deus, diante do mal, mas infinitamente misericordioso, também como Deus, diante das pessoas que, porventura, o cometam, certamente, sem nunca chegarem a saber bem por que o fazem e como o fazem!
Ora, ou saltamos, corajosamente, fora deste círculo vicioso, ou permanecemos, não sei quantos séculos mais, prisioneiros da selva e da demência em que hoje estamos acorrentados. Piores do que bichos. Mas sempre com a pretensão de sermos muito cultos e civilizados. E também muito católicos!
Infelizmente, a Igreja não no-la tem proclamado e mostrado, mas a via do Evangelho, anunciado e vivido por Jesus, até ao martírio, é a única via radicalmente libertadora e humanizadora, bem nos antípodas da via da Religião, radicalmente opressora e desumanizadora. Desta via do Evangelho, é que nós, hoje, mais carecemos. E, para a anunciar e viver, a tempo e fora de tempo, é que a Igreja foi e é, historicamente, convocada e congregada pelo Espírito Santo.
No que concerne a este caso dos Açores, e a outros semelhantes, a via do Evangelho não pode ser mais desafiadora e geradora de novos seres e de novas práticas individuais, sociais e institucionais. Basta atentar no que regista, por exemplo, o Evangelho de Mateus (5, 38-48), com grande aplicação também neste caso:
"Ouvistes o que foi dito: Olho por olho e dente por dente. Eu, porém, digo-vos: Não oponhais resistência ao mau. Mas, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. Se alguém quiser pleitear contigo para te tirar a túnica, dá-lhe também a capa. E se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, caminha com ele duas. Dá a quem te pede e não voltes as costas a quem te pedir emprestado.
Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está no Céu, pois Ele faz com que o sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores.
Porque, se amais os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não fazem já isso os publicanos? E, se saudais somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem isso também os pagãos? Portanto, sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste".
Bem sei que este extracto do Evangelho tem sido muito maltratado, ao longo dos séculos. Não só pelos de fora, mas também pelos de dentro da Igreja. Como, de resto, praticamente, todos os relatos bíblicos do Testamento cristão o têm sido. Tem-nos faltado, na Igreja, hermenêutica digna desse nome e, sem ela, acabamos, quase sempre, por fazer da Boa Notícia de Deus que é o Evangelho anunciado e vivido por Jesus, a pior notícia que alguma vez se ouviu na face da Terra.
Mesmo assim, o extracto aqui fica transcrito, tal e qual a Nova Bíblia dos Capuchinhos no-lo apresenta. Logo se vê que se trata de um relato fortemente androcêntrico, escrito em linguagem totalmente masculina, portanto, nada inclusiva. E, se o lermos com os preconceitos que já povoam as consciências das pessoas, a este respeito, somos até capazes de pensar que a via anunciada e vivida por Jesus nos convida a sermos lorpas, anjinhos, impotentes, uns coitados, incapazes de séria e eficaz reacção a quem nos faz mal.
Ora, este extracto do Evangelho de Mateus não é nada disso. Não é um convite a demitirmo-nos como seres humanos, menos ainda, a sermos pessoas que se ficam ao mal que lhes façam. Bem pelo contrário. Este extracto do Evangelho desafia-nos a não suportar o mal, nenhuma espécie de mal, a reagirmos sempre ao mal, sem qualquer transigência ou falso pacifismo. É isto mesmo que nos diz, concretamente, a referência ao gesto de oferecer a outra face. É como quem diz: Jamais te fiques ao mal, nem que, por via disso, te vejas na contingência de apanhares também na outra face, ou, até, de ficares sem face, como aconteceu a Jesus que foi assassinado, por não se ficar nunca ao mal, nomeadamente, ao Mal que se fazia passar por Bem, e como coisa de Deus!
Ao mesmo tempo, este extracto do Evangelho desafia-nos a não responder ao mal com outro mal igual, ou maior. Se o fizermos, a violência torna-se imparável e acabaremos todos destruídos, se não fisicamente, pelo menos, humanamente.
Este extracto do Evangelho abre também um caminho inaudito, ao convidar-nos a combater o mal com todas as nossas forças, nem que, para tanto, tenhamos de apanhar na outra face. Ao mesmo tempo, convida-nos a perdoar às pessoas que, porventura, fizeram o mal, porque, ao fazê-lo, revelaram-se como seres humanos gravemente perdidos, que é urgente libertar, recuperar, curar, salvar.
Entretanto, nesta operação de libertar, recuperar, curar e salvar quem se revela perdido, havemos de ser capazes de pôr toda a nossa inteligência, todo o nosso saber, toda a nossa imaginação e toda a nossa criatividade.
O que, evidentemente, é incompatível com a via da facilidade, do facilitismo, que as nossas sociedades habitualmente seguem e que, neste caso do horrendo crime dos Açores, foi mais uma vez seguida, qual é, julgar o chamado criminoso, condená-lo, rotulá-lo para sempre como tal, metê-lo numa cadeia e seguir adiante, como se nada mais houvesse a fazer. E isto, de geração em geração, e em todos os casos semelhantes que nos venham a surgir.
Mas a via evangélica anunciada e vivida por Jesus não suporta as soluções de facilidade. Como todas as soluções de facilidade, estas são soluções que corrompem. Prostituem. Desumanizam, tanto quem as faz, como quem as sofre. A via evangélica, anunciada e vivida por Jesus, vai sempre pela via da exigência, da criatividade, da obtenção de resultados, no que respeita a desenvolvimento de humanidade, em cada ser humano, de modo que o mal cada vez menos nos possua e, em seu lugar, cresça o Bem que nos há-de fazer bondosos, compassivos, cheios de ternura e de carinho.
Fossem por aqui os nossos comportamentos institucionais, também na aplicação da Justiça, e, provavelmente, o horrendo crime que vitimou a Ana Sofia nem teria ocorrido, porque o jovem Pedro Simão já seria um ser humano outro, capaz de ternura e de carinho, em lugar da violência e do sadismo de que deu provas.
E logo este jovem açoreano se havia de chamar Pedro Simão, precisamente, as duas palavras, embora noutra ordem, do nome de um dos do Grupo dos Doze, Simão Pedro, e todos eles escolhidos pessoalmente por Jesus, como companheiros seus, para a insubstituível missão de Evangelizar os Pobres. A par de um outro grupo, de igual importância, mas quase sempre silenciado e ignorado pela hierarquia machista da Igreja católica, o célebre Grupo das Mulheres, companheiras de Jesus, nessa mesma missão. Simão Pedro terá sido o líder do Grupo dos Doze, enquanto Maria Madalena, a quem o Evangelho de Tomé chama, expressamente, de "companheira de Jesus" liderou, indubitavelmente o Grupo das mulheres.
É bom recordar aqui estes factos evangélicos que tanto pesam, ainda hoje, na Tradição da nossa Igreja católica. E, sobretudo, é bom recordar que o Simão Pedro, do Grupo dos Doze, é o mesmo de quem o Evangelho não se inibe de dizer que traiu Jesus, na hora derradeira. Precisamente, quando Jesus já estava preso nas mãos do representante do Império romano, em Jerusalém. É o mesmo que negou Jesus, por três vezes, isto é, fez o pleno da negação. O que, objectivamente, constitui um gravíssimo crime de lesa-relação, de lesa-confiança e de lesa-companheirismo.
E, no entanto, o que faz Jesus? Vota Simão Pedro ao ostracismo? Condena-o à ignomínia? Tem-no na conta de um irrecuperável traidor? Considera-o um frouxo? Um infiel? Corta com ele e manda-o para a prisão? Não. Olha-o com aquele olhar que só quem ama infinitamente é capaz de ter e, nesse olhar, fá-lo nascer de novo, cura-o da sua dureza de coração, da sua tagarelice, da sua infidelidade e faz da Fé dele, finalmente despertada e consolidada, uma das bases da sua Igreja!...
Fossem assim os nossos comportamentos humanos, hoje. Fossem assim as respostas das populações, face ao mal e aos crimes de que possam ser vítimas. Fosse assim a reacção dos familiares e vizinhos da Ana Sofia, nos Açores. Fosse assim a reacção das instituições da nossa sociedade. E tudo seria diferente, para melhor. Veríamos como, até do mal, se tirava o bem, isto é, até do mal, acabaríamos por sair mais humanos. Em lugar de mais selvagens. É que se uma acção selvagem e hedionda, como a que o jovem Pedro Simão cometeu contra a menina Ana Sofia, não nos desafia a respostas mais humanas, e, em vez disso, nos limitamos a respostas tão selvagens e hediondas, ou ainda mais selvagens e mais hediondas, então, em lugar de nos tornarmos mais humanos, regredimos à selva ou a antes da selva. Ou seja, toda a Humanidade anda para trás, em nós. E perde-se na selva.
Por mim, é pela via do Evangelho anunciado e vivido por Jesus, que procuro ir. E não me tenho sentido nada mal. Pelo contrário, sinto-me a crescer em humanidade, por isso, cada vez mais intolerante diante do mal, mas todo compreensão e perdão, todo acolhimento e braços abertos, para quem, porventura, me ofende. Para que o mal não vença em mim, mas sim o amor, o perdão, a misericórdia.
Penso que, neste início de terceiro milénio, esta é uma boa altura para repensarmos os nossos comportamentos e mudarmos de rumo, mais conforme à via do Evangelho anunciado por Jesus de Nazaré, o Cristo, e exemplarmente vivido por ele, até ao martírio. Se o fizermos, como indivíduos e como sociedade, garantiremos muito mais futuro ao nosso presente. Quem duvida?

Voltar ao menu DIARIO

Início Livros Publicados Textos do Fraternizar Dados Biográficos

e-mail de contacto
© Página criada 20 Fevereiro de 2001