Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

16 Fevereiro 2001

Voltei a receber carta e-mail do Sebastião André e da Renata. Ainda não nos conhecemos cara a cara. Mas a intimidade e a comunhão crescem entre nós a olhos vistos. Desta vez, quem escreve a carta e-mail é a Renata. A mensagem tem, por isso, um toque mais feminino. E muito de testemunho pessoal.
Li a carta e-mail com toda a ternura. E dei a resposta, também por e-mail. Porque tanto a carta escrita pela Renata, como a minha resposta podem interessar a outras pessoas, da mesma idade, e não só, tomo a liberdade de a colocar no meu diário-net. Estou convencido que nem a Renata, nem o Sebastião André se molestam com isso. Aliás, nunca, por mim, as leitoras e os leitores deste meu diário-net saberão quem são, em concreto, estes dois jovens que passaram a encontrar-se comigo e com quem eu passei a encontrar-me, nas surpreendentes estradas virtuais. Bendito seja Deus, Pai/Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, que assim nos conduz para a comunhão cada vez mais alargada e sem fronteiras. Onde os poderes eclesiásticos e os outros cada vez têm menos oportunidade de se fazerem sentir. Seguem os textos. Primeiro, a carta da Renata. Depois, a minha resposta. Ninguém deixe de ler.
1. Padre Mário,
O André pediu-me que fosse eu a redigir este e-mail para si, não só porque ele
não tem neste momento tanta facilidade em verificar o e-mail, como por saber
que também tenho muito interesse em colocar-lhe algumas questões. Peço
desculpa se o estamos a colocar numa posição quase de nosso líder espiritual
sem lhe termos perguntado se estaria interessado. Gostaria de já lhe ter
respondido antes para saber o quanto apreciamos o tempo que nos dispensou na
sua mensagem e tudo o que ela continha. De facto, a sua ajuda, através dos
livros que escreveu, e agora deste contacto um pouco mais directo, tem sido
preciosa para nós.
Como o André referiu, a minha relação com Cristo tem um carácter fundamental
na minha vida desde há pouco menos de três anos. Ao contrário dele, eu tive
uma educação católica que cedo deixou de fazer sentido para mim. Mantive um
certo respeito e talvez temeridade relativamente à instituição que é a
igreja, mas comecei por recusar-me a fazer a comunhão solene e, embora
mantendo mais ou menos presente a ideia de Deus, esta foi desde sempre vaga,
muito pouco real e muito pouco presente. Nunca soube lidar com esse Deus que
nem sabia se existia, que os meus pais também não pareciam saber muito bem
já que se intitulam "não praticantes" - conceito que me é um pouco
desagradável!, e só os meus avós pareciam sentir algo diferente mas que não
me parecia dotado de uma base lógica.
Quando tomei consciência da realidade de Deus, sobretudo na pessoa de Jesus,
foi por meio de membros da igreja Baptista com os quais fiz grandes
amizades. Com a certeza de que Deus existe e de que quero viver segundo a
vontade dEle que é o exemplo de Jesus, muitas coisas novas surgiram e
entraram entretanto em grande conflito.
Quando comecei a namorar com o André, ele foi-me ensinando a viver a minha
fé no mundo obrigando-me a confrontá-los cada vez mais. Digamos que eu era
tão alheada dos problemas do mundo, das muitas forças políticas que nos
governam, dos diferentes interesses económicos e não só... enfim, da vontade
de ter uma participação activa e esclarecida na realidade para além de fazer
o bem individual, que eu julgava ser o fundamental da vida cristã; eu era
então tão alheada a tudo isto como ele a Deus e a Cristo como Filho!
Não é fácil conquistar a confiança do André, não é fácil fazê-lo "baixar os
braços" e sobretudo com os cristãos ele tinha quase uma revolta que é até
compreensível. O Padre Mário conseguiu fazê-lo dizer "Se eu for um cristão,
é um cristão assim que quero ser!". Como deve calcular isso encheu-me de
alegria e ainda enche por realmente me aperceber que ele está cada vez mais
perto e já me tem ensinado tanto...
Há um ano atrás vim para os Açores fazer um estágio de investigação em aves
marinhas (estudei biologia) que me obrigou a um certo isolamento. Eu estava
entusiasmadíssima por achar que a solidão me iria permitir ter mais tempo
para Deus e isso iria fortalecer a minha relação com Ele. Não se passou nada
assim, senti-me muito afastada e mais do que nunca percebi a importância de
uma comunidade com quem partilhar e discutir a nossa fé. Senti quase
desilusão: "afinal Deus não se basta a si próprio?". Senti uma desesperada
necessidade de conversar sobre Ele por tempos infinitos mas comecei a não
saber em quem confiar. A minha melhor amiga é então Baptista, tenho contacto
com Jesuítas do centro universitário de Coimbra, os meus pais continuam no
mesmo impasse do não "praticantismo", os meus avós têm uma fé muito
verdadeira e até revolucionária mas, ao mesmo tempo, resignada, o André
confia quase unicamente sem si na medida em que se identifica com todas as
suas ideias e sente uma quase revolta por tudo o resto que passa na igreja
Católica... parece que, infelizmente, tudo se confronta.
É verdade que não consigo compreender porque não levantam a voz, por exemplo
contra Fátima, todos os Padres ou membros da igreja que tenham obrigação de
estar informados, mas custa-me acreditar que todos o façam deliberadamente
com o intuito de escravizar, sobretudo se até os conheço e sinto que tantas
vezes o Espírito me fala nas suas palavras... poderão então eles acreditar
em Fátima? Mas como é isso possível? Porque insistem a aconselhar-nos a
conversar com Maria? Respondeu-me um que era do mesmo modo que conversámos
com qualquer outro morto que nos seja querido ou exemplar!... fico sem saber
o que pensar, o que dizer, coloco tudo em questão... o que ganha um Jesuíta
que vive num centro universitário tendo feito inclusivamente um voto de
pobreza, em mentir-me? Parece não fazer sentido nenhum, mas sinceramente não
sei que explicação dar.
Em relação à Bíblia, também sempre me levantou muitas questões. Fazem todo o sentido as suas palavras em relação a esta obra, mas também me intriga ou
até mesmo chateia que alguém para ter acesso à verdadeira mensagem
libertadora tenha que ser dotado de uma cultura de certo nível a fim de ser
capaz de estudar devidamente os textos, e ainda inteligência para os
interpretar. Não deveria qualquer pessoa ser capaz de atingir a plenitude da
mensagem sem qualquer pré-requisito desse género?
Tenho consciência que escrevi um texto cheio de palavras e com poucas
ideias, até talvez com pouca coerência. Nem sei explicar bem as questões que
me vão surgindo, mas confesso que preciso de desabafar, de começar a colocar
muita coisa em ordem, de distinguir o fundamental do supérfluo na igreja e
sobretudo na forma de viver de acordo com Deus.
Sinto uma chamada tão grande que talvez nem consiga rezar calmamente ouvindo a Deus, como o Padre Mário disse.
Sei que amo o André (não vou dizer muito, nem mesmo, nem a sério, nem tanto,
porque embora seja tentador, o facto é que amo só, como nunca amei). Ao
mesmo tempo parece quase que este amor se confronta com aquele que
supostamente devia sentir por Jesus. Parece também que canalizá-lo desta
forma para o André é roubá-lo ao resto das outras pessoas que se foram
habituando, ou não, ao meu amor. Sei que a nossa relação é saudável, que nos
faz bem, nos preenche a ambos... atrever-me-ia mesmo a dizer que é
abençoada! Na linha daquilo que o Padre Mário escreveu num dos seus diários
na internet, não precisámos de nenhum padre para sermos já casados (embora
espere vir a celebrar isso), mas é por vezes complicado conjugar tudo isto
com uma consagração completa a Deus da qual sinto necessidade, embora Ele
ainda tenha muito que me moldar no sentido da entrega que é necessária.
Enfim, peço desculpa por este extenso texto que é tão sincero como
egocêntrico e não tinha, à partida, outro intendo senão o de lhe agradecer e
congratular por tudo o que tem feito e deixar-lhe as nossas moradas para
podermos conhecer o seu famoso "Fraternizar".
Também espero muito que um dia nos possamos encontrar. Tenho grande respeito por si.
Ficamos à espera de notícias mas compreendemos as prioridades que tiver. Não
sei a quantos e-mails por dia tem que responder. Pela minha parte digo-lhe que
o meu passatempo favorito não é definitivamente estar em frente ao
computador, compreendo que o seu possa também não ser pelo que não se
preocupe se sua resposta não for tão breve como gostaríamos.
Temos procurado divulgar o seu livro o mais possível, embora admito que por
vezes receio que determinadas pessoas não estejam mesmo preparadas par o
aceitar (nomeadamente a minha melhor amiga mesmo sendo ela a quem devo muita da minha consciência de Deus). De qualquer forma numa das livrarias onde
comprei um exemplar disseram-me que tinha tido muita procura e imensa gente
ia especificamente procurar esse livro. Há pequenas sementes que dão frutos
grandiosos...

Um beijo e um abraço, respectivamente,
Renata e André

2. Querida Renata
É bom, muito bom, poder voltar ao contacto convosco, desta vez, através da Renata. O nosso diálogo alarga-se e só temos a aproveitar com isso. Depois de ter escutado-acolhido o Sebastião André, chegou a vez de escutar-acolher a Renata. Cada pessoa tem a sua história. A vossa, ainda mal começa, mas já contém experiências que nos dizem muito. Por isso, ainda bem que, desta vez, é a Renata quem escreve e fala directamente de si própria. Vou procurar dialogar o que li do seu e-mail, de modo especial, aqueles aspectos que a Renata apresenta como problema.
Pelo que me diz, nasceu católica. Demasiado católica. O que quer dizer, pouco ou nada protestante, pouco ou nada dissidente. Nasceu católica, mas melhor seria que tivesse nascido, simplesmente. E que, um dia, depois de educada, também para a possibilidade de se abrir à Fé cristã, se tivesse tornado católica, mas com muito de protestante. E, até, com muito de dissidente. Nascer católico, ou católica, é um acidente, com sabor a desastre. É começar a vida com um desastre. Porque um catolicismo em que se nasce, não presta. Só pode ser mesmo um catolicismo de trazer por casa e pelas sacristias. Um catolicismo sem Cristianismo. Por isso, um catolicismo sem Jesus de Nazaré, mais romano do que jesuânico. Um catolicismo que, em lugar de fazer das pessoas sentinelas da cidade, cidades situadas no alto dos montes, sal da terra e fermento na massa - tudo imagens bíblicas, que indicam pessoas activas e, politicamente, intervenientes - faz delas pessoas domesticadas, conformadas, resignadas, sem causas, quando muito, disponíveis para zeladoras de altar, para catequistas de crianças, para integrar grupos corais que actuam em missas sem Eucaristia e, sobretudo, sem profecia, ou pessoas, simplesmente, sentadas a fazer crochet, à espera que os dias passem e venha a morte que as há-de levar para um céu que elas nunca fizeram nada para que fosse realidade, apenas esperam receber directamente das mãos de Deus. Como se Deus fosse uma entidade que nos substitui e dispensa os nossos serviços e o nosso empenhamento social e político.
Há três anos, Renata encontrou Sebastião André. O namoro que então ambos iniciastes, veio alterar tudo. E Renata que nasceu católica começou a ficar baralhada. Sebastião André era quase o seu oposto, tinha nascido ateu, o que também não é o ideal, para se nascer, mas sempre é melhor do que nascer católico. Só que o ateísmo do Sebastião André estava mais próximo, muito mais próximo da prática libertadora e martirialmente comprometida de Jesus de Nazaré, a quem as suas discípulas e os seus discípulos da primeira hora, surpreendentemente, chamaram o Cristo, ou o Libertador. Digo surpreendentemente, porque, para o poderem fazer, tiveram de romper com o seu contexto familiar e social, inclusive, com o contexto religioso e teológico do seu povo, no qual, como se sabe, pontificavam, os todo-poderosos príncipes dos sacerdotes, escudaddos numa certa Teologia oficial que considerou "maldito" esse mesmo Jesus. Aliás, não havia ele profanado o Templo de Jerusalém? Não havia dito, alto e bom som, que aquela não era a casa de Deus no meio do seu povo, mas um covil de ladrões? Não havia expulsado de lá os comerciantes e derrubado as suas mesas? Não havia destruído, pelo menos, simbolicamente, o Templo? E não dizia a própria Lei de Moisés, então, indiscutível para qualquer judeu com brio, que era "maldito" todo aquele que morresse pendurado num madeiro? E crucificado, às ordens do príncipes dos sacerdotes, do Sinédrio e do representante do Império Romano, Pôncio Pilatos, foi como Jesus de Nazaré acabou a sua vida histórica!
Com o desenrolar do namoro, Renata que havia nascido católica, começou a virar protestante e dissidente, também por influência duma amiga, da Igreja Baptista. Mas, ainda assim, muito pouco protestante e muito pouco dissidente. Fosse ela muito protestante e muito dissidente, e certamente nem a sua amiga a reconheceria. Ou, então, seria a sua amiga que acabaria por ser lançada pela porta fora da sua Igreja Baptista, porque, hoje, as próprias Igrejas protestantes são-no muito pouco. Pelo menos, em Portugal, onde continuam condenadas ao estatuto de Igrejas minoritárias e com ciúmes dos suculentos pratos de lentilhas - pelos vistos, com a Lei da Lberdade Religiosa que está para entrar em vigor, entre nós, já são admitidas também a alguns pratos de lentilhas! - que a sua irmã, a Igreja católica, recebe do Estado português, desde os tristes e tenebrosos tempos de Salazar, esse mesmo que a senhora de Fátima, através da sua "vidente" ainda viva, reconheceu como outro Cristo, ou Enviado de Deus, para salvar a nossa pátria da Maçonaria, primeiro, e, depois, do Comunismo ateu; esse mesmo Salazar que, em 1940, assinou a Concordata com o chefe de Estado do Vaticano, por sinal, a mesma pessoa que, para escândalo meu e de todas as pessoas honestas e de boa fé, é, simultaneamente, o Bispo da Igreja de Roma e papa da Igreja católica; esse mesmo Salazar que, mais tarde, desencadeou a Guerra Colonial em África e conseguiu que o Bispo de Roma e papa da Igreja católica concedesse ao nosso país um Serviço especial de Capelães Militares, com bispo castrense, no posto de general, e tudo, para, assim, dar a essa criminosa Guerra Colonial todo o ar de Cruzada ou de Guerra Santa, não já contra os infiéis, como as Cruzadas de outrora, mas contra o Comunismo ateu! (O Capitalismo das multinacionais, continua aí cada vez mais agressivo e idolátrico, a devorar, sem dó nem piedade, milhões e milhões de vítimas humanas, mas a senhora de Fátima não diz uma palavra de condenação contra ele; pelo contrário, para ele, só tem palavras de bênção!...)
Com o namoro em marcha, Sebastião André passou a questionar Renata e o catolicismo em que ela havia nascido. Ele, no seu ateísmo assumido, não podia compreender uma fé, como a dela, que levava as pessoas a viver de costas voltadas para o mundo, para os problemas de todo o tipo com que a Humanidade, nomeadamente, a esmagadora maioria da Humanidade, se vê confrontada todos os dias. Uma fé assim só tinha o nome de fé, mas era pura alienação, droga, doença, infantilismo. Renata ouvia o seu namorado e não podia deixar de concordar com ele. Mas mais baralhada ficou. Até porque, na casa dos pais, o catolicismo que aí se respira, é um catolicismo não praticante. Imaginem o caricato da situação. Já foi mau Renata ter nascido católica. Pior, foi crescer num ambiente familiar de catolicismo não praticante. Melhor, muito melhor, é o ambiente que Renata respira, agora, junto do namorado ateu. Tudo, aí, é muito mais saudável. Exigente, muito exigente, mesmo, mas profundamente saudável. Daí que o amor entre ambos cresceu e cimentou-se.
Até que apareci eu, na vida de ambos. O Vento ou o Sopro, que é outro nome do Espírito Santo, fez com que nos encontrássemos, nas estradas da internet, a comprovar que a realidade virtual não é tão virtual assim. E, hoje, a situação vivida por ambos adquiriu outro sentido, outro paladar. E havemos de levar longe esta comunhão a três, para bem da Humanidade. Também, para bem de nós próprios, evidentemente, ou nós não fôssemos também Humanidade.
Quero dizer-lhe, Renata, da minha alegria por você ter encontrado o jovem Sebastião André. O ateísmo dele é já incipiente Fé cristã, adesão-comunhão a Jesus de Nazaré, o Cristo. Mais, muito mais, do que o catolicismo em que você, Renata, nasceu. Pode não ser ainda - e, pelos vistos, não é -adesão-comunhão à Igreja católica romana, mas também não faz mal. Se calhar, até é melhor assim. Na medida em que a Igreja católica, de que eu e a Renata fazemos parte, está de tal modo arredada do Vento ou Sopro que é o Espírito Santo, que para se estar nela, de forma saudável, é preciso muita lucidez, muita coragem, muita audácia. De contrário, caímos no barranco, para onde, fatalmente, nos guiam os nossos chefes eclesiásticos, cegos que andam pelo poder e pelos privilégios, e embotadas que andam as suas mentes pelos suculentos pratos de lentilhas, que o Poder político de turno, em cada país do Ocidente católico, continua a garantir-lhes, para, em troca, poder receber deles a indispensável bênção.
Entretanto, não sou só eu quem gosta mais do ateísmo do Sebastião André, que o leva a viver atento ao quotidiano do nosso mundo, às suas dores e lutas, sempre pronto a intervir, na medida das suas possibilidades individuais, para o transformar. Também o próprio Deus que se nos revelou, definitivamente, em Jesus de Nazaré, gosta dum ateísmo assim. Aliás, dum ateísmo assim, foram acusados, não só o próprio Jesus de Nazaré (não propriamente de ateísmo, mas de blasfémia, o que, no contexto dele, era coisa ainda mais grave do que ser acusado de ateísmo), mas também as suas discípulas e os seus discípulos da primeira e da segunda gerações cristãs. É que Deus, pelo menos, como Jesus no-lO deu a conhecer, não é um Deus metido nos templos, mas metido no mais íntimo de cada mulher e de cada homem, também dos ateus, mulheres e homens. E é um Deus que vive aí, continuamente a trabalhar, inclusive aos sábados e domingos, para que a criação, ainda em curso, não páre, prossiga o seu rumo, por entre gemidos de dor e de prazer, por entre sofrimentos muitos e também muita festa.
É verdade, Renata. Deus, ao contrário do que nos ensinam as cúpulas da nossa Igreja católica e as cúpulas das outras Igrejas e das Religiões, não gosta nada de religião. Tem nojo dos cultos que lhe são promovidos regularmente nos templos, sempre a mesma coisa. Vomita as festas que são promovidas em sua honra. Do que Deus verdadeiramente gosta, é de Política, de muita e coerente Actividade política, daquela que tem por objectivo controlar e submeter os interesses económicos das multinacionais às necessidades e às legítimas aspirações das pessoas e dos povos. Do que Deus gosta, é de ver mulheres e homens a serrem cada vez mais sujeito, cada vez mais protagonistas, cada vez mais autónomos dos clérigos de todo o tipo, tanto, dos clérigos laicos, como dos clérigos religiosos e eclesiásticos. Do que Deus gosta é que as pessoas e os povos sejamos cada vez mais conscientes, cada vez mais elas próprias e eles próprios, cada vez mais livres, cada vez mais responsáveis. E isto só se consegue com muita entrega de nós próprios/de nós próprias às Causas da Humanidade, a partir, evidentemente, da mais empobrecida e oprimida.
Recordo-lhe que o próprio Jesus, no testemunhar do Evangelho de Marcos (1, 14-15), na sua missão histórica, nunca se preocupou directamente com anunciar Deus ao mundo. Com o que ele se preocupou, foi com anunciar, como já próximo e entre nós, o Reino de Deus. A diferença é substancial. Não existe Deus sem Mundo, sem Reino, sem Projecto, sem Criação. Deus, pelo menos, para as e os que nos identificamos como discípulas e discípulos de Jesus, é sempre o Deus do Reino, o Deus empenhado na criação do Reino para os pobres e, a partir dos pobres, para todas as pessoas. Por isso, é o Deus essencialmente político, não, é claro, à corrupta maneira dos políticos profissionais das nossas praças, mas à martirial maneira de Jesus, o Rei que acabou crucificado, porque jamais aceitou sentar-se à mesa do Poder de turno, que existe aí para garantir ao Dinheiro todas as facilidades, de modo que ele possa continuar, impunemente, a produzir vítimas e a alimentar-se de vítimas e, ainda por cima, ser idolatrado por (quase) toda a gente.
Como compreenderá, tudo teria sido diferente, nestes dois mil anos de Cristianismo, se as Igrejas tivessem sido fiéis a Jesus e ao seu Evangelho. Infelizmente, as Igrejas preferiram aliar-se ao Poder de turno e comer à sua lauta mesa. Depois, quando muito, e como quem tenta salvar a honra do convento, apressam-se, de tempos a tempos, a distribuir pelos milhões e milhões de vítimas do Poder (e delas próprias, enquanto cúmplices do Poder), algumas das migalhas que caem daquela perversa mesa, onde se banqueteiam todos os privilegiados. Mas não há-de ser sempre assim. Na Renata e no Sebastião André, vejo já os alicerces duma Igreja outra, bem mais discreta e bem mais fecunda, sem templos nem altares, mas muito mergulhada na vida da Humanidade mais sofrida e mais excluída, numa acção que há-de ter tudo de parteira que acompanha e liberta, e nada de paternalismo e de caridadezinha que alienam e domesticam.
A senhora de Fátima. A carta da Renata não a esquece e mostra-se escandalizada pelo facto dos padres católicos, nomeadamente, os párocos, continuarem a alimentar esse culto, manifestamente, alienador das pessoas e das populações. Também eu me escandalizo, mas não estranho por aí além. Sei que os meus colegas padres, nomeadamente, os párocos, ao renunciarem a ser pastores-profetas, no meio dos povos que lhes foram confiados, acabam por ser lobos, disfarçados de cordeiro, que vivem à custa dos povos, tratados por eles como rebanhos.
Ora, a senhora de Fátima presta-se às mil maravilhas para que esta empresa religioso-comercial possa seguir em frente, com êxito garantido. Ela é uma senhora cega, surda e muda. E os párocos católicos não dispõem de outro modelo tão eficaz, como este, para poderem oferecer aos paroquianos que frequentam as suas rotineiras e enjoativas missas. Aos párocos interessa que todos os paroquianos se pareçam com a senhora de Fátima. Isto é, que, como ela, também eles sejam cegos, surdos e mudos. Se o forem - e, infelizmente, têm-no sido e, quando deixam de o ser, logo deixam de ser paroquianos! - a vida corre sobre rodas para os párocos. Porque nunca verão contestado o poder discricionário de que dispõem na Igreja. Nunca encontrarão pela frente assembleias litúrgicas que tomem a palavra e anunciem o Evangelho libertador de Jesus. E, também, nunca serão incomodados pelos gritos de dor e de exclusão da Humanidade, uma vez que paroquianos surdos jamais escutarão esses gritos, menos ainda, se farão porta-vozes deles nas missas e noutros encontros paroquiais.
Por outro lado, Renata, a senhora de Fátima rende muito dinheiro à Igreja. Como poderiam os párocos desfazer-se dela? Ela tem tudo a ver com a grande Deusa Ártemis dos efésios, de que nos fala o Livro dos Actos, 19, 23-40. Como ela, a senhora de Fátima é a grande deusa do catolicismo português e ocidental, com pretensões a ser a grande deusa do catolicismo universal. Só que se trata de um catolicismo nos antípodas do Cristianismo de Jesus. E tem tudo a ver com os cultos idolátricos anteriores ao Cristianismo, os quais, por esse meio, perduram vivos no nosso tempo. Por isso, digo: a senhora de Fátima é a imagem da deusa que, quanto mais culto recebe na Igreja católica, mais a destrói por dentro. Porque o inimigo público número um do Cristianismo e da Igreja de Jesus, não são as Religiões tradicionais, de que os povos ainda se não libertaram de vez. O inimigo público número um do Cristianismo e da Igreja (da Fé cristã que vivemos em Igreja) é a idolatria. E intrinsecamente idolátrico é o culto que a Igreja católica tem prestado e continua a prestar à senhora de Fátima.
Não, Renata, não confunda Maria, a mãe de Jesus, com a senhora de Fátima. Não cometa esse atentado a Maria. Isso fazem os maiorais da nossa Igreja católica, papa João Paulo II, bispos e párocos. Maria é nossa irmã na Fé, é nossa companheira na Fé cristã. Teve sérias dificuldades em aderir a Jesus (não é fácil uma mãe tornar-se discípula do próprio filho!), mas, felizmente, chegou lá e tornou-se, até, discípula exemplar para as gerações futuras. Havemos de aprender com ela a sermos cristãs e cristãos, hoje, neste início do Terceiro Milénio. Mas havemos, igualmente, de tentar ir além dela. Porque o Espírito Santo assim o quer. E, se formos mais além dela, ela sentir-se-á muito honrada!
Falar com Maria? Rezar a Maria? Não é preciso. Nem se deve. Se, quando orarmos, deixarmos que seja o Espírito Santo a orar em nós (cf. Romanos 8, 26), nunca nos veremos a falar com Maria, a rezar a Maria. Ela é uma criatura humana, em tudo igual a nós. Nem o título de mãe de Jesus representa qualquer mais-valia para ela. A sua grandeza consiste em ela ter conseguido passar de mãe carnal de Jesus, a discípula de Jesus crucificado/ressuscitado. Não havemos de falar directamente com ela (corremos o risco de apenas estarmos a falar sozinhos). Se, pelo contrário, sempre deixarmos que seja Deus a falar a nós (orar é isto!), e, sobretudo, se sempre deixarmos que Deus seja Deus em nós, então estaremos também sempre em viva e real comunhão com Maria. É por Deus que chegamos a Maria. Não é por Maria que chegamos a Deus. Todas as catequeses católicas que insistem há séculos, em ensinar-nos o contrário, são catequeses que têm por pai o Diabo, isto é, têm por pai a Mentira (cf. João 8, 44). E, por isso, são catequese opressoras, não libertadoras.
Não se espante por aí além, ao ver que os párocos católicos e os bispos, a começar pelo de Roma, o nosso papa, dão assim tanta importância a Maria. Primeiro, confundem-na com a grande Deusa Mãe, dos cultos politeístas que ainda não morreram de todo. Em segundo lugar, como são homens condenados ao celibato e foram educados para sublimar a sexualidade reprimida, já que não podem olhar e tocar o corpo duma mulher de carne e osso, tocam e olham e dizem "piropos" à imagem cega, surda e muda da senhora de Fátima, que eles, para cúmulo - ignorância das ignorâncias! - confundem com Maria, mãe de Jesus! Fossem os párocos e os bispos livres de casar, quando assim o entendessem, antes ou depois da ordenação, ou livres de viver o amor de forma responsável, mesmo sem a figura do contrato que é o casamento, e depressa a senhora de Fátima perderia o privilegiado lugar que ocupa na Igreja católica. E, mesmo que o mantivesse - as populações que nasceram católicas, e que nunca foram verdadeiramente evangelizadas ainda não dispensam o culto à imagem da grande Deusa Mãe - jamais a senhora de Fátima seria confundida com Maria, mãe de Jesus. Porque, nessa altura, os párocos e os bispos católicos seriam os primeiros a denunciar esta confusão e jamais se prestariam a alimentar aquele culto idolátrico, como, até agora, o têm feito. Para mal da Igreja católica, deles e das populações não ilustradas e não evangelizadas.
Finalmente, uma breve palavra sobre o vosso namoro. Digo breve, porque, pelas vossas cartas, constato, com alegria, que o vosso namoro tem substância, tem projecto, tem Causas. Não viveis fechados sobre vós próprios, num perverso egoísmo a dois, hoje, infelizmente, muito frequente, particularmente, nos namorados que se assumem como católicos, ou mesmo de outras Igrejas. Buscam a sua felicidade, andam à volta dos próprios umbigos e os outros e as outras que se lixem!
Não tenha medo de parar no Sebastião André. Pelo que leio nas vossas cartas, esse perigo está, para já afastado. A inquietação - é outro nome do Espírito Santo - rebenta dentro de vós e não vos deixa adormecer sobre os louros já conseguidos. Sabeis que a vida é essencialmente Projecto. Por isso, está toda à nossa frente, para ser vivida. Não está no nosso passado. Vivereis, cada dia, abertos ao Futuro, ao dia de amanhã, sempre novo e sempre desafiador.
Fico com a impressão, ao ler-vos, que já tereis compreendido que amar não é olhar um para o outro, como dois enamorados sem mundo, mas olhar ambos na mesma direcção, concretamente, para o mundo que em que estais inseridos e que vai muito para além de vós.
Por mim, gosto de colocar as coisas assim: Dizei-me qual é o vosso Projecto, como namorados, e dir-vos-ei como é o vosso namoro. E que futuro vos espera.
A este propósito, permito-me remeter-vos para o meu livro, "No princípio, era o Amor". É um livro, em forma romanceada, que, a partir de dois casos reais que acompanhei de perto, tenta dizer como é o Amor a valer, nos antípodas do egoísmo a dois. Claro que é um livro fortemente datado, mas, lido com esta advertência, ainda pode ajudar-vos a perceber o Amor e o Namoro duma forma libertadora.
Não queira, querida Renata, o Sebastião André para si. Quanto mais o amar, mais se lhe dará e mais o dará ao mundo. Será até esta constante doação que garante futuro ao vosso presente. No dia em que você quiser o Sebastião André para si, perde-o definitivamente. Pode não o perder fisicamente, mas perde-o no que ele tem de melhor e que, hoje, tanto a atrai. Porque teria conseguido transformá-lo num ser acorrentado, doméstico e domesticado. E, como compreenderá, nada pior para um homem ou para uma mulher, do que ser acorrentado, doméstico e domesticado.
Estou certo que o próprio Sebastião André não consentirá que a vossa vida a dois rume nesta direcção. Tão pouco a Renata. Muito menos o Espírito Santo que vos habita e que está a fazer de vós um casal disposto a amar-se e a amar o Mundo, até dardes a vossa vida por ele. Como fez Jesus, o Ser Humano por antonomásia, em quem temos sempre os olhos, pois não nos foi dado outro Nome, no qual e com o qual possamos ser salvos, isto é, no qual e com o qual possamos chegar a ser verdadeiramente humanos.
Termino. Um beijo com toda a ternura fraternal. Abraço-vos, Renata e Sebastião André.
Vosso, sempre
Mário (padre católico e jornalista)

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