Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

12 Fevereiro 2001

Este é verdadeiramente o primeiro dia do resto das nossas vidas, como seres humanos. Este é verdadeiramente o primeiro dia do resto da vida da Humanidade. A descodificação do ADN humano, feita pelos cientistas, e cujas conclusões foram hoje divulgadas ao mundo, deveria ter deixado a Humanidade a dançar num pé só. Deveria ter-nos posto a cantar a polifonia jamais cantada, a seis mil milhões de vozes, que tantas são as vozes humanas que, neste momento, se podem fazer ouvir à face da Terra. Deveria ter dado início a uma festa sem fim.
Mas, estranhamente, ninguém festeja, ninguém canta, ninguém dança. Tudo continua cinzento como até agora. E a notícia, a boa e feliz notícia, hoje divulgada ao mundo pelos cientistas, parece ter deixado as pessoas indiferentes, como se nada do que foi divulgado lhes dissesse respeito. Mais. Parece ter deixado alguma perturbação nos habituais fazedores de opinião dos grandes "media", pelo menos, dos portugueses. Todos se mostram bastante preocupados e perturbados. A começar pelos apresentadores dos telejornais. É como se todos tivessem apanhado um soco no estômago. Ou uma martelada na cabeça.
Por trás desta insólita reacção, estarão duas razões. Uma, tem a ver com certa vaidade humana ferida. Andavam os seres humanos – sobretudo, certa elite dos seres humanos - a pensar que eram totalmente distintos dos animais, duma simples minhoca ou dum rato de laboratório. E, de repente, a descodificação do ADN humano vem revelar que não. Vem revelar que, afinal, os nossos genes, em grande parte, são exactamente iguais aos da minhoca e aos do rato. Ora, a vaidade de certa elite dos seres humanos não pode suportar uma revelação destas. E, no mínimo, esse elite, entre a qual se encontram os fazedores de opinião dos grandes "media", fica fatalmente perturbada.
A outra razão tem a ver com a dificuldade em nos assumirmos como responsáveis, perante a História, perante nós próprios e perante os demais - mulheres, homens, povos, natureza e universo.
Então, para que esta responsabilidade não tenha de ser definitivamente assumida, parece que preferimos concluir da descodificação do nosso ADN que, se não somos assim tão diferentes da minhoca e do rato, também não precisamos de assumir uma especial responsabilidade pelos nossos actos, quer perante a História, quer perante nós próprios, quer perante os demais – mulheres, homens, povos, natureza e universo.
Esquecem-se, os habituais fazedores de opinião, dos "media" nacionais e do mundo, que a nossa grandeza, como seres humanos, reside, precisamente, na nossa comunhão com o Universo e com tudo o que nele é ser vivo, seja minhoca, seja rato, seja macaco, seja o outro ser humano como eu, mulher ou homem, negro ou branco, culto ou ignorante, rico ou pobre, crente ou ateu.
É esta comunhão cósmica que nos faz grandes. Nada do que existe no Universo, nos é estranho. Somos feitos de estrelas, de mar, de sal, de ferro, de água. Somos Universo. Microcosmos. Cosmos em semente. De tal modo que, se quisermos saber como é o Universo, basta que conheçamos em pormenor um ser humano, mulher e homem. Todo o Universo está numa mulher e num homem. E uma mulher e um homem são todo o Universo.
Também é desta comum condição que nasce a nossa responsabilidade perante a História, perante nós próprios e perante os demais – mulheres, homens, povos, natureza e universo. Na maravilhosa e misteriosa cadeia da evolução, aparecemos em último lugar, depois de todos os outros seres vivos. Mas como a grande e única síntese de todos. Para que, em nós e por nós, todo o Universo adquira sentido.
Já o pressentíamos. Hoje, porém, com a descodificação do nosso ADN, não podemos ter mais dúvidas que é assim. Somos Universo. Mas não só. Somos Universo que pensa, que reflecte, que é capaz de se auto-observar, de observar o Universo de que somos a ponta final e a síntese. Nenhum outro ser vivo tem esta capacidade. Por isso, nenhum outro tem consciência, nenhum outro tem responsabilidade, a não ser nós próprios - mulheres, homens e povos.
Este é verdadeiramente o primeiro dia do resto das nossas vidas, como seres humanos. Este é verdadeiramente o primeiro dia do resto da vida da Humanidade. É como se, hoje, depois de todos os mil milhões de anos que o Universo já leva e onde a vida, um dia, misteriosamente, irrompeu, nascesse, finalmente, o ser humano. Já existíamos, como seres humanos, é certo, mas não existíamos com a consciência que hoje passamos a ter.
Hoje, sabemos quem somos e como somos. Conhecemos a nossa génese. Hoje, tornamo-nos conscientes de que não somos estranhos à minhoca, e que a minhoca não nos é estranha. Hoje, tornamo-nos conscientes de que partilhamos com o rato a maior parte dos nossos genes.
Somos minhocas e ratos, mas, igualmente, muito mais do que minhocas e ratos. Somos, se quisermos dizê-lo assim, minhocas e ratos que pensam, que amam, que sonham, que projectam, que descobrem sentido no que empreendem, que geram utopias, como quem gera filhas e filhos, e que pelas utopias é que vão, é que vamos.
Mais, muito mais. Somos minhocas e ratos que acabam de descodificar o próprio ADN e, por isso, ao mesmo tempo que nos descobrimos tão próximos das minhocas e dos ratos, propriamente ditos, também descobrimos que estamos infinitamente distantes das minhocas e dos ratos.
Mais, muito mais. Somos minhocas e ratos, mas com capacidade de olhar para trás, de nos darmos conta do processo evolutivo da Criação ainda em curso, de situarmos, nela, o nosso próprio aparecimento, no tempo, e de estremecermos de comoção, ao compreendermos, finalmente, que tudo foi pensado para nós, que tudo o que nos precedeu foi orientado para tornar possível o nosso próprio aparecimento. E que, agora, tudo está nas nossas mãos, à mercê das nossas decisões, tanto para o bem, como para o mal.
Mais, muito mais. Somos minhocas e ratos que se dão conta de que há, no Universo, uma misteriosa Presença-Acção que o faz ser e nos faz ser, uma Presença-Acção mais íntima a nós que nós próprias e nós próprios, uma Presença-Acção que é a nossa própria respiração, que nos empurra e conduz, que nos faz próximos de tudo o que mexe, de tudo o que vive, que nos faz abraçar e beijar, acolher e cooperar, nos faz silêncio e palavra, poesia e profecia, nos faz comunhão e tensão, numa palavra, nos faz seres humanos responsáveis, isto é, seres habilitados a responder, nomeadamente, à grande e iniludível Pergunta, geradora de novos mundos e de novos futuros, constituídos na fraternidade/sororidade, "Onde está o teu irmão/onde está a tua irmã?, O que fizeste da tua irmã/o que fizeste do teu irmão?".
Hoje é verdadeiramente o primeiro dia do resto das nossas vidas, como seres humanos. Hoje, é verdadeiramente o primeiro dia do resto da vida da Humanidade. Coisa estranha é que nem mesmo o papa, que tanto gosta de viajar pelo mundo e de pronunciar-se sobre tudo e sobre nada, como se lhe pertencesse o direito à última palavra, exultou de contentamento, dançou, exortou as mulheres e os homens, crentes e não crentes, a exultar e a dançar. Nada.
E como o papa, também os bispos católicos e protestantes, que presidem às respectivas Igrejas locais, mantiveram-se calados e não dançaram, como se a divulgação das conclusões da descodificação do ADN humano não trouxesse nada de novo. Igualmente, os chefes das Religiões, em todo o mundo, ficaram calados e não dançaram.
É, no mínimo, estranho. Na verdade, se, alguma vez, nestes 20 séculos de cristianismo, houve motivos para celebrar, para "Te Deum", para fazer Eucaristia, para dançarmos em Acção de Graças, sem dúvida que a descodificação do ADN humano, hoje divulgada, foi, é, o maior e o mais convincente de todos. E, no entanto, nem Te Deum, nem Eucaristia!...
Parece que nem as cúpulas das Igrejas e das Religiões estão a gostar nada do que o Espírito de Deus anda por aí a fazer com os cientistas, totalmente à revelia delas. Sobretudo, até contra o parecer e a vontade delas.
Talvez as cúpulas das Igrejas e das Religiões percebam que, por este andar, haverá cada vez menos lugar para as suas charlatanices; para os seus contos do vigário; para os seus moralismos beatos; para os seus discursos terroristas; para os seus mafiosos negócios, à custa do santo Nome de Deus; para os seus cultos e ritos sem profecia e sem libertação para a liberdade; para os seus privilégios de casta; para as suas loucas fantasias que os levam, cada manhã, a verem-se ao espelho e logo pensarem que são uma espécie de deus na terra, com plenos poderes sobre a consciência das pessoas e dos povos; para os sucessivos disparates, em que são useiros e vezeiros, como é, todos os dias, tudo fazerem para arregimentar as pessoas e os povos em torno de grandes santuários e de grandes basílicas, a pretexto de que esses são lugares sagrados, casas de deus, espaços de vida, quando, afinal, não passam de covis de ladrões, casas de alienação e de opressão, espaços de indignidade humana, de prostituição sagrada, de degradante idolatria, nos quais as pessoas são levadas a prostrar-se diante de imagens de senhoras de fátima, são bentinho da porta aberta, senhora do sameiro, senhora da aparecida, senhora de guadalupe, santiago de compostela, e outras do estilo, tudo coisas mortas e, por isso, totalmente incapazes de qualquer coisa de válido, até de um simples mandar tocar um cego.
Este estranho comportamento das privilegiadas cúpulas das Igrejas e das Religiões vem claramente dizer que elas estão fora deste nosso mundo, que vivem num mundo que não é o Universo onde o Espírito de Deus, revelado em Jesus de Nazaré, o Crucificado/Ressuscitado, continuamente trabalha e que, por isso, é também o único templo que Deus habita, a começar pelo mais íntimo de cada ser humano, mulheres e homens, ao mesmo tempo, independentemente, delas e deles serem ateus ou crentes.
E, no entanto, nunca como neste dia, o Nome de Deus foi, é, tão glorificado. A descodificação do ADN humano, hoje divulgada ao mundo pelos cientistas, constitui, no contexto da Fé cristã que me anima e que dá sentido à minha existência e à existência da Humanidade e do Universo, um verdadeiro poema, um verdadeiro hino, um cósmico Aleluia ao Santo Nome de Deus, essa Presença-Acção que nunca ninguém viu nem verá – deixaria de ser Deus, para se tornar um ídolo – mas que hoje se nos revelou como nunca antes o havia feito.
Vejo-O com os olhos que vêem o Invisível e todo eu me desfaço em canto, em poema, em louvor, em acção de graças, em eucaristia. Porque Deus, afinal, não é o terror que os mitos do passado disseram que era e que as cúpulas das Igrejas e das Religiões continuam a dizer que é, criador de infernos e de castigos eternos. Deus é a mais espantosa boa notícia que alguma vez os ouvidos humanos ouviram, que os olhos humanos viram, que a consciência humana pressentiu. É o nosso Grande Companheiro, a nossa Grande Companheira, a nossa Grande Amiga, o nosso Grande Amigo. Tão íntimo a nós, que não podemos vê-lO, apenas pressenti-lO e abrirmo-nos em festa e louvor, também em cooperação e serviço, em resposta incondicional ao seu Projecto, hoje, ainda mais e melhor conhecido, graças à contribuição dos cientistas.
Já o sabia há muito - e a prova é que no ano passado, no símbólico ano 2000, publiquei o livro mais incómodo e perturbador que, alguma vez, foi publicado em língua portuguesa, NEM ADÃO E EVA, NEM PECADO ORIGINAL – que Deus nunca foi o que as cúpulas das Igrejas e das Religiões têm dito que é, em mentirosas catequeses, como a do Catecismo Católico, do papa João Paulo II, e, sobretudo, em práticas pastorais que anatematizam e excluem pessoas, quando não até as queimam em fogueiras públicas, só porque, salutarmente, não vão no seu blá-blá-blá, mais ou menos moralista e terrorista.
Hoje, os cientistas vêm confirmá-lo, ao divulgarem as conclusões da descodificação do ADN humano. Deus, o Nunca-Nomeado, porque dele tudo provém e em quem e por quem tudo subsiste, o Sempre Ausente, porque ininterrupta Presença-Acção, em quem nos experimentamos misteriosamente acolhidos, mas nunca manietados, o Sempre Invisível, porque sempre Espírito-Sopro, em quem tudo se move e, por isso, tudo vive, mesmo quando temos de passar pela morte, é, a partir de hoje, ainda mais o Deus-connosco, o Emanuel, a nossa respiração e o nosso sentido, o Alfa e o Ómega, o Princípio e o Fim, e também o Durante, ou seja, o misterioso Acompanhante que nos liberta e faz crescer.
Se já eram caricatos os mitos da Criação, do Adão e Eva, do Paraíso perdido, do Pecado original, a partir de hoje, são-no ainda muito mais. Com eles, as cúpulas das Igrejas e das Religiões têm mantido as pessoas e os povos na condição de menores, de tolhidos, de assustados, de castigados, de acorrentados. Certamente, para melhor nos terem na mão, totalmente à sua mercê, como paus mandados de suas excelências reverendíssimas.
Hoje, todo esse mítico e infantil mundo ruiu. Felizmente. Para bem da Humanidade. E para glória de Deus. Não fomos criados menores, para andarmos aí como joguetes, à mercê de deuses e de demónios, de serpentes e de elites todo-poderosas. Fomos criados criadores, à imagem de Deus Criador, cada vez mais mulheres e homens com Deus dentro, quase a ombrear com Deus, sem que Ele, alguma vez, tenha ciúme do nosso crescer e do nosso desenvolver-se sempre mais, pois que é, nesse nosso crescer e desenvolver-se sempre mais, que reside a sua glória, uma vez que é Ele mesmo quem, ininterrupta e misteriosamente, está a puxar por nós, nos está a chamar e a estimular para sermos cada vez mais criadoras e criadores com Ele, parceiras e parceiros nesta aventura, mulheres e homens que chegam à maioridade, por isso, livres, autónomos, responsáveis.
Hoje, é verdadeiramente o primeiro dia do resto das nossas vidas, como seres humanos. Hoje, é verdadeiramente o primeiro dia do resto da vida da Humanidade. Hoje, é verdadeiramente, o sexto dia da Criação, aquele em que o velho relato mítico das origens, situa a criação do ser humano, mulher e homem, ao mesmo tempo. Cantemos e exultemos sem fim. Aleluia!

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