Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

4 Fevereiro 2001

1. Por determinação da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), hoje é o dia da Universidade Católica (UC). Agora, que há dias para tudo, não podia faltar um dedicado à UC. Não tenho nada contra isso, mas já não fico indiferente quanto ao modo como a hierarquia católica celebra o dia da UC. Particularmente, como logo se aproveita para entrar nos bolsos dos muitos católicos portugueses que ainda persistem em frequentar a missa ao Domingo.
É verdade: quem hoje foi à missa, ouviu certamente o padre falar da UC, porventura, até mais dela do que do extracto do Evangelho de Lucas que o Missal Romano destaca para este Domingo. E foi convidado, para não dizer, moralmente, coagido, a dar do seu dinheiro, como se a UC fosse uma espécie de instituição privada de solidariedade social que, para sobreviver, carecesse das esmolas dos respectivos benfeitores!...
Comecei por dizer que não tenho nada contra o facto de hoje ser o dia da UC. Mas, posto a pensar mais e melhor sobre o assunto, verifico que não é bem assim. Tenho algo contra a iniciativa. E não só. Tenho algo contra a existência da UC, como tal.
Ao constituir-se como instituição paralela e concorrencial à Universidade Pública, a UC corporiza, ao lado de outras universidades privadas, uma manifestação mais, do temido poder eclesiástico, alojado, precisamente, lá, onde funciona a cabeça pensante e influente da sociedade portuguesa, e que se destina a garantir a formação de elites privilegiadas, de preferência católicas, que ajudem a perpetuar, no tempo, esse mesmo poder.
Por isso, é uma universidade que se rege, basicamente, pelas mesmas normas que o Sistema dominante faz questão de consagrar como únicas e definitivas, para todas as Universidades do país, às quais fornece o respectivo alvará, na pessoa do respectivo Governo da nação.
Ora, se eu nem sequer sou favorável à existência duma UC, ou seja, duma Universidade confessional, no contexto duma sociedade que, para bem de todos os seus membros, há-de ser cada vez mais civil, autónoma, secular, e independente das Igrejas e das Religiões, tão pouco posso concordar com esta história de obrigar todas as paróquias e capelanias católicas a falarem da UC, neste Domingo, para mais, no decorrer da celebração litúrgica por excelência, a Eucaristia, na qual toda atenção das e dos participantes deverá ser concentrada na escuta/proclamação da Palavra de Deus.
Igualmente, não posso concordar que os bispos portugueses forcem os respectivos párocos, a pedirem dinheiro aos fiéis, para que, desse modo, ajudem a financiar uma instituição que, a meu ver, nem sequer deveria existir. E, a existir, deveria ser, como a palavra "universidade" indica, uma escola verdadeiramente universal, isto é, aberta prioritariamente aos filhos e filhas das famílias mais pobres do nosso país (a única maneira de se ser universal, é partir sempre dos mais pobres e dos últimos de qualquer sociedade) e não, como a UC é, uma escola particularmente vocacionada para acolher os meninos e as meninas de famílias-bem e endinheiradas, que nela buscam uma formação que lhes garanta, amanhã, um bom emprego na sociedade, porventura, um lugar de ministro de um governo ao serviço dos interesses das grandes multinacionais que controlam o mundo.
De modo algum, posso suportar semelhante desfaçatez, por parte da Conferência Episcopal Portuguesa.
Primeiro, cria uma UC, sem previamente consultar, com seriedade, os católicos que não são hierarquia, ou seja, sem consultar, praticamente, toda a Igreja católica que está em Portugal, já que a hierarquia episcopal católica portuguesa não chega a meia centena de católicos, e todos homens celibatários e de idade bem madura!...
Abre, depois, a UC aos filhos e filhas das famílias mais endinheiradas do país. Aos quais e às quais, no decorrer dos respectivos cursos, fornece um tipo de ensino que não só não põe em causa a existência de minorias ricas e de maiorias pobres, na nossa sociedade e no mundo em geral, como, pelo contrário, até se destina a canonizar, ideológica e teologicamente, este tipo de sociedade, manifestamente, perversa; ao mesmo tempo que prepara umas e outros, para, amanhã, terem garantido um lugar ao sol, numa sociedade em que as maiorias empobrecidas nem sequer têm existência reconhecida, já que são excedentárias e, por isso, o melhor é mesmo ignorá-las, até que desapareçam, como malditas, incapazes que são de se impor numa sociedade onde apenas têm lugar os mais fortes, os mais endinheirados e os mais dotados.
Finalmente, determina que o dia 4 de Fevereiro de cada ano, seja o Dia da UC, com a agravante de, ao mesmo tempo, impor que todo este assunto, relacionado com a UC, faça parte duma celebração litúrgica dominical, durante a qual vai ter a oportunidade de, através dos párocos, pedir àquelas e àqueles que ainda não perderam o hábito e a rotina de irem à missa, que lhe dêem do seu dinheiro. Como se a UC fosse pobrezinha e se destinasse a financiar cursos de nível superior às filhas e aos filhos das famílias empobrecidas do país, que, de outra maneira, nunca poderiam ter acesso a uma participação/intervenção qualificada na sociedade que esses mesmos cursos naturalmente proporcionam.
Não, não posso suportar tamanha desfaçatez da CEP. Precisamente, porque entendo que, em Igreja, as coisas têm de processar-se de outra maneira, desde logo, com toda a transparência, verdade, participação nas decisões por parte de todos os seus membros, sem oportunismos de nenhuma espécie. O que, manifestamente, não é o caso em presença.
Só é pena que não se ergam mais vozes, muitas mais vozes, como a minha. Para que a hierarquia da nossa Igreja católica perceba, duma vez por todas, que é Igreja, mas não é a Igreja, que é parcela da Igreja, mas não é a Igreja toda. E perceba, também, que pode muito bem haver Igreja sem hierarquia, isto é, sem poder sagrado, no seu seio, mas não pode haver Igreja sem povo de Deus. Mais. Perceba, finalmente, que uma Igreja, como a nossa Igreja católica romana, que se reclama do nome de Jesus Crucificado/Ressuscitado, há-de ser sempre uma Igreja-comunidade-de-comunidades, um povo com ministérios ou serviços, mas não precisa de ser, não há-de ser nunca, uma hierarquia ou poder sagrado sobre uma multidão de gente amorfa, tratada sempre como menor, e a quem, depois, na hora de pagar as despesas, sempre se apela, para que se chegue à frente com o dinheiro!
Escrevi, acima, que nem sequer concordo com a existência da UC. Procurarei, agora, justificar esta minha postura.
Por mais que me esforce, não consigo descortinar, na criação da UC, por parte da CEP, uma iniciativa inspirada na prática universalmente libertadora e salvadora de Jesus de Nazaré, o Cristo de Deus. O qual, como se sabe, nunca construiu um edifício, uma escola, um templo, uma sinagoga. Em vez disso, entrava nas instituições existentes, tomava a palavra, abria debates que punham tudo em causa. E, mesmo depois que foi expulso das sinagogas, não correu a construir sinagogas alternativas. Passou a falar às pessoas nos montes e nas praias. Até que foi preso, assassinado e sepultado como o grão de trigo. E é assim que ainda hoje continua a dar muito fruto!
Uma Igreja que avança por uma prática como aquela em que nossa Igreja católica é useira e vezeira, é uma Igreja com vocação de empresária, mais do que com vocação de mártir, isto é, de testemunha desarmada entre os demais, aos quais há-de libertadoramente servir, sempre ao jeito maiêutico da parteira, nunca ao jeito opressor do poder.
Ora, quando a Igreja aceita tornar-se empresa, pode vir a acabar num império. E, se hoje, é difícil, para não dizer, impossível que a Igreja católica volte a ser um império, como foi, quando ocupou o lugar do Império romano, já não é de todo impossível que ela seja poder e se relacione com o poder estabelecido e dominante, como parceira e rival, ao mesmo tempo, para, assim, não perder pitada no controlo da sociedade e das pessoas que a constituem.
Por isso, em lugar de ir a correr fundar a UC, a nossa Igreja poderia e deveria ter enveredado por outra via, a via da simplicidade evangélica de Jesus de Nazaré, que não tinha onde reclinar a cabeça; não, evidentemente, no sentido em que muita da catequese eclesiástica entende, de que Jesus não tinha onde cair morto, mas no sentido, muito mais aliciante e militante, de que Jesus optou por fazer da itinerância o seu jeito de ser, de viver e de intervir.
Correr a fundar a UC, juntamente, com outras instituições de carácter educacional e social, é correr a criar grandes estruturas eclesiásticas que, por sua vez, exigem grandes somas de dinheiro, apuradas operações de gestão, pessoal especializado para tarefas complicadas.
Ao mesmo tempo, obriga a Igreja a entrar em negociações e em acordos ou concordatas com o poder de turno, o que é sempre ambíguo e perigoso, para além de tornar cada vez mais inoperacional a realização, dentro da História, da sua insubstituível missão de fundo, que é Evangelizar os pobres.
A experiência mostra, à saciedade, mesmo esta curta experiência da UC em Portugal, que, quando a Igreja entra por aí, está perdida como Igreja, embora cresça cada vez mais como empresa e como império. Só que uma Igreja-empresa/uma Igreja-império é uma Igreja apta para entrar nos jogos do poder de turno, mas nunca chega a ser uma Igreja jesuânica, apta a testemunhar a Verdade, como Jesus testemunhou, até à entrega/perda da própria vida, inclusive, diante do representante do Império romano no seu país, a Judeia.
Transforma-se, por isso, numa Igreja que o poder de turno teme, não porque ela ousa permanecer desarmada perante ele e desmascara, a tempo e fora de tempo, todas as suas decisões económicas e políticas imperialistas, fabricadoras de vítimas humanas e de exclusão em massa, como decisões intrinsecamente perversas, mas porque ela é um poder mais, que pode crescer tanto, que o derrube a ele.
Penso que a nossa Igreja católica teria tudo a ganhar, como Igreja ao serviço do Evangelho da libertação para a liberdade, se, em lugar de optar por criar uma UC, com pólos nas principais cidades do país, tivesse optado por estar, activa e fecundamente, presente nas diversas universidades, tanto públicas como privadas, do nosso país. Através de pessoas de inquestionável competência, de indesmentível verticalidade, de insubornável fidelidade à verdade, e de ecuménica abertura de espírito.
Os debates que desencadeasse, as saudáveis polémicas que levantasse e alimentasse, os alertas que deixasse, as denúncias que fizesse, as arrojadas propostas que formulasse, valeriam, sem dúvida, muito mais do que todos os cursos que, como UC, ela vende às filhas e aos filhos de famílias endinheiradas que a procuram, não com o objectivo de, aí, nascerem de novo e se tornarem mulheres e homens nos antípodas dos seus pais, mas para, aí, obterem mais e melhores meios, que as/os ajudem a reforçar todos os privilégios de família e de clã que, de modo algum, estão dispostos a perder.
Reconheço que a via que proponho e defendo é, sem dúvida, muito difícil e também muito mais discreta. É a via do martírio, do corajoso e lúcido testemunho, que, por vezes, para ser consequente, não pode fugir ao confronto com o poder estabelecido e terá mesmo de assumir formas duélicas. Mas é a única via a seguir por quem busca, não a eficácia, a qualquer preço, mas a fecundidade.
Só uma Igreja que ousa ir por esta via da fecundidade, é que dá muito fruto, na linha da vida de qualidade para todas as pessoas, na linha da liberdade, na linha da responsabilidade, na linha da cidadania. Por sinal, um dos frutos que, neste momento, mais falta faz na sociedade portuguesa.
Mas uma Igreja assim terá, inevitavelmente, sempre à perna o poder das multinacionais e dos respectivos governos, prontos a morder-lhe o calcanhar, sem, contudo, jamais o conseguirem. Porque uma Igreja que avança por esta via, é uma Igreja-sacramento maior de Jesus de Nazaré, o Cristo Crucificado/Ressuscitado. Contra a qual, jamais poder algum/império algum conseguirá derrubá-la. Porque, quanto mais a perseguir e maltratar, mais ela cresce e dá fruto.
Infelizmente, a nossa Igreja católica tem preferido ir pela via do poder e é perita em fazer alianças com o poder de turno, seja de direita ou de esquerda. Como tal, é uma Igreja que consegue dar nas vistas, mas é como o címbalo que tine, é como aquele que dá o seu corpo para ser queimado vivo, mas não comove ninguém, é como aquele dá todos os seus bens aos pobres, mas nada faz para acabar com a pobreza e para que os pobres deixem de ser pobres.
Portanto, é uma Igreja em tudo igual ao sal que perde a força e para nada mais serve do que para ser lançado fora e ser pisado pelos seres humanos. Precisamente, quando mais parece forte e estar aí para durar, mais próximo está o seu desaparecimento. Se não o desaparecimento estrutural, pelo menos, o desaparecimento de influência libertadora e consciencializadora.
Mas não tenhamos ilusões. Os cadáveres também são muito visíveis e pesados, mas são cadáveres. Não só não promovem a vida e vida em abundância, para todas e todos, como até trazem a morte prematura a quantas e quantos vivermos nas suas proximidades, a não ser que nos apressemos a sepultá-los ou a cremá-los. Antes que seja tarde.
Isto mesmo é o que pode estar a acontecer à nossa Igreja católica. Se não arrepia caminho, continuará, certamente, a dar muito nas vistas, como estrutura pesada que é, mas não passa de um cadáver.
Por isso, só quem dela fugir é que se pode salvar de morrer antes de tempo, ou de subviver na intolerável condição de menor e de pagante das despesas que ela, qual louca varrida, não se cansa de multiplicar, na pessoa dos seus membros mais poderosos e privilegiados.
2. Poderia dar por terminado aqui o meu olhar sobre este dia. Mas ficaria gravemente incompleto. E eu cometeria um grave pecado de omissão, na missão de Evangelizar os Pobres que me cumpre viver, como padre/presbítero da Igreja católica. Por isso, prossigo um pouco mais.
Não quero cair na mesma omissão em que muitos colegas meus podem ter caído, neste dia. Limitaram-se a falar da Universidade Católica, procuraram angariar uma boa soma de dinheiro para enviar ao bispo da Diocese - é também uma maneira de ficar bem visto na cúpula do poder eclesiástico e, quem sabe, vir a ser promovido para um outro lugar mais cimeiro na carreira clerical, possivelmente, ser nomeado cónego da Sé Catedral, numa das próximas fornadas de cónegos, ou, menos provável, para o posto de bispo auxiliar duma diocese geograficamente enorme, ainda que, eclesial e evangelicamente, insignificante - e esqueceram-se por completo do Evangelho ou Boa Notícia que o extracto de Lucas 5, 1-11, destacado para este Domingo, contém. E que muito importa acolher e actualizar para o nosso aqui e agora.
Não o fazer, constituiria, da minha parte, para além de um grave pecado de omissão, também a perda duma oportunidade para ajudar a Humanidade a perceber quanto a via de Jesus de Nazaré anda nos antípodas da via que a nossa Igreja católica, em Portugal, nomeadamente, a sua Conferência Episcopal, teima hoje em prosseguir contra o Sopro outro, bem nos antípodas do sopro do império, que é o Espírito Santo de Deus.
Vocês nem imaginam a Boa Notícia que encerra/revela o curto extracto do Evangelho de Lucas destacado para a liturgia deste domingo V do tempo comum. Nem a cúpula da Igreja, na Cúria do Vaticano, responsável pela elaboração e aprovação do Missal Romano, imagina. Se imaginasse, muito provavelmente, não o teria seleccionado.
Tão pouco a CEP escolheria este Domingo para pôr os párocos do nosso país a falar sobre a UC. Porque este extracto encerra/revela uma Boa Notícia para os pobres, mas uma má notícia para os ricos e poderosos, entre os quais, se situam as cúpulas do Vaticano e a generalidade dos hierarcas de cada Igreja local.
Aliás, todo o Evangelho de Jesus é assim: Boa Notícia para os pobres e má notícia para os responsáveis do Sistema económico e político que os fabrica. Esta é, até, uma regra hermenêutica para lermos/interpretarmos todo o Evangelho de Jesus.
Ao apresentar-se como a Boa Notícia de Deus anunciada aos pobres, o Evangelho sempre tem de ser percebido pelos ricos e poderosos que fabricam os pobres, como a Má Notícia que os desmascara e perturba, não porque lhes queira mal, mas porque os quer humanizar, isto é, quer que eles deixem de ser ricos e poderosos, para serem simplesmente seres humanos, irmãos de todos os demais seres humanos, sem exclusão de nenhum.
O Evangelho de Jesus, todo e cada parte, é tão boa notícia, que corremos sério risco de nem darmos por ela. É algo tão fora do estabelecido, tão fora da Ordem dominante e dos seus falsos valores e falsos critérios, que até nos custa a acreditar.
Mas felizes aquelas e aqueles que escutam esta Boa Notícia e se deixam fazer por ela. Não poderão esperar grandes triunfos, no mundo dominado pelo poder do império, mas saborearão alegrias e prazeres que esse mundo dominado pelo império não pode dar, porque não conhece e é completamente incapaz de saborear.
O extracto em causa é sobejamente conhecido, pelo menos, por parte daquelas pessoas, cuja cultura geral ainda chegou a beber nas tradicionais catequeses paroquiais, ditadas por clérigos e seus auxiliares, quando a Igreja católica foi dona e senhora da sociedade, no velho e demoníaco modelo de Cristandade.
Hoje, as novas gerações já crescem distantes dessas catequeses, o que, em si mesmo, não é uma perda a lamentar, a não ser na medida em que elas podem vir a ficar privadas da Boa Notícia que os textos bíblicos e evangélicos contêm e que só se revelam a quem for capaz de os ler e escutar com olhos e ouvidos outros, que não os olhos e os ouvidos dos antigos párocos, que esses eram olhos e ouvidos tão tomados pela Cristandade, que não viam nem ouviam senão o que ela quisesse que eles vissem e ouvissem!
Penso, porém, que a Boa Notícia que estes relatos evangélicos encerram/revelam há-de sempre chegar às novas gerações, por outras vias, extra-paróquias católicas e extra-clero católico, ou o Espírito Santo não fosse surpreendentemente criador e inovador, capaz até de fazer filhos de Abraão, isto é, mulheres e homens novos para um mundo novo, a partir das próprias pedras. Quanto mais, a partir das novas gerações que, hoje, cada vez mais crescem longe da maléfica influência das catequeses dos párocos da velha e cadavérica Cristandade Ocidental.
Antes de mais, abramos os olhos e os ouvidos para a narrativa evangélica de Lucas, tal como ela se nos apresenta traduzida na Nova Bíblia dos Capuchinhos. Diz assim:
Estando junto do lago de Genesaré, e comprimindo-se à volta dele a multidão para escutar a palavra de Deus, Jesus viu duas barcas que se encontravam junto do lago. Os pescadores tinham descido delas e lavavam as redes. Jesus entrou numa das barcas, que era de Simão, pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra e, sentando-se, dali se pôs a ensinar a multidão.
Quando acabou de falar, disse a Simão: Faz-te ao largo; e vós, lançai as redes para a pesca. Simão respondeu: Mestre, trabalhámos durante toda a noite e nada apanhámos; mas, porque tu o dizes, lançarei as redes.
Assim fizeram e apanharam uma grande quantidade de peixe. As redes estavam a romper-se, e eles fizeram sinal aos companheiros que estavam na outra barca, para que os viessem ajudar. Vieram e encheram as duas barcas, a ponto de se irem afundando.
Ao ver isto, Simão [Pedro] caiu aos pés de Jesus, dizendo: Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador. Ele e todos os que com ele estavam encheram-se de espanto por causa da pesca que tinham feito; o mesmo acontecera a Tiago e a João, filhos de Zebedeu e companheiros de Simão.
Jesus disse a Simão: Não tenhas medo; de futuro, serás pescador de homens. E, depois de terem reconduzido as barcas para terra, deixaram tudo e seguiram-no.
A narrativa, tal como costuma ser escutada nas assembleias litúrgicas, mais parece uma inofensiva estória de pescadores da Galileia. Os comentários de quem preside também não costumam ajudar por aí além a perceber a narrativa de outro jeito. De modo que a Boa Notícia que ela encerra/revela fica completamente afogada sob um certo olhar moralista em que costumam ser peritas as cúpulas das Igrejas. Do que resultam, finalmente, vagos apelos à conversão, à mudança de vida, mas tudo sem qualquer convicção, sem garra. Uma verdadeira estopada!
Ora, não se trata, aqui, duma inofensiva estória de pescadores. O autor da narrativa elaborou-a a partir do contexto cultural que os ouvintes, a quem se dirige, têm, e que é o contexto cultural da Bíblia judaica, nomeadamente, a mensagem dos grandes Profetas bíblicos.
Dizer "pescadores", nesse polémico e libertador contexto dos profetas bíblicos, é dizer mais, muito mais, do que simples homens que vivem da pesca. Igualmente, dizer mar, no caso, lago de Genesaré, é dizer mais, muito mais, do que grande quantidade de água, em cujo seio, nascem, crescem e se multiplicam peixes.
Nesse contexto cultural, quando a narrativa se refere a "pescadores" e a "mar", está a falar, sobretudo, de homens guerrilheiros, de pessoas politicamente comprometidas, bem metidas na luta política e social do tempo de Jesus, de pessoas capazes de tudo para expulsarem do seu território, o ocupante romano. Capazes, até, da luta armada, estilo, ETA, do País Basco, no nosso hoje ibérico.
Este é o significado que a designação tem na narrativa de Lucas. A estória, mais do que uma reportagem jornalística, é um relato teológico, através do qual o autor nos mostra os estranhos e surpreendentes gostos de Deus, e como Deus actua, na História, para conseguir levar por diante a Criação dos seres humanos, nesta altura, ainda em curso e muito longe de estar concluída.
Segundo este relato, Deus, em Jesus, não actua sozinho. Escolhe seres humanos, chama seres humanos a cooperar com Ele. E que tipo de seres humanos escolhe/chama? Precisamente, os seres humanos que as cúpulas das Igrejas e das Religiões, assim como as cúpulas responsáveis pela Ordem dominante, geralmente, mais detestam.
Escolhe/chama os inconformados, os resistentes, os afastados do Templo e dos seus estéreis rituais, os que são capazes de arriscar, os que vivem permanentemente no risco, os que não se vergam à Ordem dominante, imposta pela força de exércitos tidos por invencíveis, como, no tempo, eram considerados os exércitos do Império romano, os que não vão no acomodado e conciliador discurso dos sacerdotes que vivem do Templo e da tácita colaboração com o Sistema dominante, os que reagem às injustiças, mesmo com risco da própria vida.
Simão e os companheiros eram homens desta cepa. Organizados. Com um projecto que os galvanizava por inteiro. O extracto evangélico, escutado neste Domingo, não diz isso directamente. Mas di-lo indirectamente. Fala de Simão, como o chefe de um grupo. E isso diz tudo ao ouvinte do Evangelho que, anteriormente, foi informado de que a sogra de Simão estava em casa com febre, um tipo de febre/fogo que a impedia de servir Jesus e de fazer seu o Projecto libertador e salvador de Jesus. Era a febre da violência armada, da luta sem tréguas contra os romanos, que dominava o grupo liderado por Simão.
Pois bem, é este homem, líder reconhecido por muitas e muitos dos seus conterrâneos, que Jesus aborda pessoalmente, escolhe e chama a segui-lo. Não é um mosca morta, sonso, beato, ingénuo, acrítico, subserviente. A narrativa é clara: é para a barca de Simão que Jesus sobe e, daí, depois de se sentar (atitude própria do Mestre daquele tempo) expõe à multidão a sua doutrina, o seu ponto de vista sobre o momento que se vivia no país e no mundo, tanto quanto era possível conhecer um e outro, a partir da Galileia, uma pequena província do norte da Palestina.
Sobre o que Jesus diz/ensina, o relato não nos fornece uma palavra. Nem é preciso. Porque o relato é tecido de tal maneira, que todo ele diz/revela quem é Jesus, qual é o seu projecto e o que pretende dos seus concidadãos e concidadãs.
Em lugar do discurso, o relato avança com uma acção. Não. Não pensemos que Simão voltou à pesca, depois duma noite de trabalho no mar, sem quaisquer resultados. O que o relato revela/proclama é que o projecto que galvaniza Simão e os companheiros que o seguiam, não passa de violência estéril e mais ou menos estúpida. Embora fosse um projecto distinto do dos sacerdotes do Templo de Jerusalém, colaboracionistas do Império (sempre os sacerdotes que pontificam nos grandes templos, sejam sacerdotes das Igrejas, sejam das Religiões, são colaboracionistas do império, isto é, da Ordem dominante e suas privilegiadas elites!), acabava por ser tão estéril quanto o deles; podia provocar muita agitação social, mas não mudava por dentro as pessoas nem a vida; e só dava aso a que o império interviesse cada vez com mais loucura e ódio. Era um projecto que levava, quem o seguisse, a trabalhar toda a noite (a noite faz logo lembrar acções clandestinas e geralmente violentas!), mas nada resultava de todo esse trabalho. Ou seja, frutos de vida, nenhuns.
Simão escuta Jesus, que fala sentado, isto é, como mestre, na barca dele. Estes pormenores querem significar que, entre Jesus e Simão, criou-se uma relação de proximidade, de intimidade. (Só na intimidade é que é possível alguém cair em si, entrar mais em si, ver-se ao espelho da verdade, e mudar o rumo da sua vida).
Graças a esta relação de proximidade e de intimidade, Simão acabou por compreender quanto a via que seguia e que liderava estava distante da via de radical libertação e de salvação, seguida e liderada por Jesus, o filho de Maria e de José.
Em lugar de ficar furioso com Jesus, Simão tem a humildade de quebrar e descer do seu pedestal de líder guerrilheiro e, para surpresa dos companheiros, reconheceu em Jesus o verdadeiro líder, que valia a pena seguir, ao ponto de deixar tudo para o seguir de facto. Não é ainda, da parte de Simão, um reconhecimento totalmente claro, mas é o suficiente para que aquele seja o primeiro dia do resto da sua vida.
O relato revela que o reconhecimento, por parte de Simão não é ainda suficientemente claro, é um reconhecimento que ainda enferma de muita ambiguidade, e, por isso, o levará a entrar, muitas vezes, em confronto com Jesus. E como o revela? Através dum pormenor literário que, geralmente, passa despercebido aos olhos de quem, nesta narrativa, vê apenas uma bucólica estória de pescadores com Jesus.
Curiosamente, também os próprios tradutores da Nova Bíblia dos Capuchinhos parecem estar entre este número de pessoas, porque, pura e simplesmente, suprimiram esse pormenor, na tradução que apresentam.
E onde está esse pormenor tão importante assim, que nos leva a ter de ler todo o Evangelho, com redobrada atenção, pois no texto original, não está nada a mais, nem nada a menos, cada palavra, cada gesto, cada pormenor, têm a sua importância?
Vejam. O autor, ao longo desta curta narrativa, sempre chamou ao líder do grupo pelo nome de Simão. Mas, quando no-lo apresenta a dirigir-se a Jesus, depois de ver o resultado da acção realizada, em pleno dia, sob as ordens e sob a orientação desse mesmo Jesus, já não lhe chama apenas Simão, mas, Simão Pedro. É a primeira vez que o faz. E fá-lo, precisamente, no momento em que Simão, um pouco contrariado e agastado, não pode deixar de reconhecer que Jesus apresenta um tipo de pensamento e de acção radicalmente distinto do dele, e que é um tipo de pensamento e de acção que dá indiscutivelmente muito mais resultado (= peixes em abundância), do que o tipo de pensamento e de acção dele próprio. Não pode, por isso, deixar de render-se a Jesus, mas fá-lo com alguma relutância e não pouco medo.
"Ao ver isto - sublinha a narrativa - Simão Pedro (= Simão Pedra, portanto, Simão casmurro, teimoso, duro, truculento, violento) prostrou-se aos pés de Jesus, dizendo: Afasta-te de mim, Senhor, que sou pecador".
Ao chamar-lhe "Pedra" (= Pedro), precisamente neste momento, o autor do relato está a dar uma indicação aos ouvintes do Evangelho: Atenção, para já, não se fiem muito no Simão, porque ele ainda vai ter que comer muitas rasas de sal, até dar a sua incondicional adesão a Jesus e ao seu Projecto. Mesmo assim, ponham os olhos nele e sigam as suas posições, ao longo de todo o relato evangélico, porque, com ele, melhor poderão chegar a ser, também, discípulas e discípulos de Jesus e dar-lhe a vossa incondicional adesão!
O autor do relato avança, depois, outro pormenor importante, que, infelizmente, também passou despercebido aos tradutores da Nova Bíblia dos Capuchinhos. Põe Jesus - o novo líder que Simão acaba de reconhecer e que, a partir de então, está disposto a seguir até ao ponto de deixar tudo o que, antes, tinha como fundamental para a sua vida pessoal e familiar - a dizer ao até então líder guerrilheiro da zona da Galileia: "Não tenhas medo. Doravante, serás pescador de homens vivos".
Com estas palavras, o relato quer deixar claro que a via da violência armada, embora, objectivamente arriscada, é uma via seguida por pessoas tímidas, assustadas, ainda pouco pessoas, mas que pretendem dar um ar de serem pessoas sem medo, audazes, corajosas. Lá bem no fundo, são pessoas tremendamente medrosas, assustadas, confusas, baralhadas, reprimidas, autoritárias, agressivas, sem entranhas de misericórdia, coração de pedra, e não de carne.
Talvez por isso, é que, ao contrário de Jesus de Nazaré, o Cristo ou o Libertador, que está sentado na barca, em pleno dia, elas quase sempre preferem, na sua acção, a noite, à luz do dia; a guerrilha, ao enfrentamento, olhos nos olhos; as acções clandestinas e os ataques de surpresa, às acções cheias de luz (Eu sou a luz do mundo, diz Jesus, no Evangelho de João), dirigidas, serenamente, à consciência das demais pessoas, para as iluminarem no mais íntimo, as únicas acções, por isso, que podem mudar por dentro e radicalmente as pessoas, pois são acções que abrem os olhos até então fechados das pessoas e fazem-nas ver a realidade sem disfarces e sem véus, o que torna essas acções verdadeiramente revolucionárias, isto é, acções que operam uma real ruptura com o sistema estabelecido e dominante, por isso, acções que marcam novos nascimentos, novos começos, novos seres, mulheres e homens, para sempre indomáveis, incontroláveis, insubmissos, e, ao mesmo tempo, a rebentar de ternura por todos os poros, todos entranhas de misericórdia, mulheres e homens tecidos e vestidos da verdade e do amor, sempre prontos a enfrentar, sem medo, e por isso, desarmados, o poder, todo o poder, mesmo o mais requintado, como é todo o poder religioso, que gosta de se apresentar com a aura de poder sagrado, divino, definitivo, incontestado.
Ao dizer a Simão, "Não, tenhas medo", Jesus revela-lhe que ele, até então, sempre agira sob o medo. Daí, toda a sua agressividade, a sua violência, até a violência armada, a que ele e os do seu partido eram capazes de recorrer. Todos esses comportamentos revelavam um líder assustado, cheio de medo, não uma pessoa radicalmente livre.
O medo, e não a coragem, está sempre na origem e por trás da violência, nomeadamente, da violência armada, seja a violência dos guerrilheiros, seja, sobretudo, a violência do império, ou dos Estados, ao serviço do império. Quer dizer: só os que têm medo são capazes de se armar como Golias para matar indefesos que clamam por Pão, por Justiça, por Liberdade e por Dignidade. Quem, ao contrário, já tiver vencido o medo, é capaz de amar, até dar a própria vida.
O relato dá a entender que Simão, quando renunciou ao seu projecto e reconhece Jesus como o seu líder, ainda não havia entendido Jesus até à medula. Ainda olhava para Jesus como um líder guerrilheiro mais, apenas mais sábio e mais hábil do que ele. Mas guerrilheiro, como ele havia sido até conhecer Jesus. Daí o relato, ao dirigir-se a Simão, sublinhar, por um lado, "Não tenhas medo!"; e, por outro lado, "Farei de ti pescador de homens vivos".
São os dois pratos da balança de quem se dispõe a seguir Jesus: Não ter medo, por isso, ser capaz de viver sempre na transparência, segundo a verdade, e de acordo com a sua consciência, ou convicção. E ser pescador de homens vivos (é mais um pormenor que falta na tradução da Nova Bíblia dos Capuchinhos!), isto é, ser alguém capaz de criar comunidades, não de mulheres e homens mortos, beatos, conformados, resignados, assustados, submissos, subservientes, lambe-botas, carreiristas, violentos, agressivos, duros como pedra (= Pedro), mas sim de mulheres e homens inconformados, sem medo, livres, activamente resistentes, com projecto, prontos a dar a própria vida pelos outros, nunca a tirar a vida de ninguém, seja em que circunstância for.
Mas a Boa Notícia que este extracto do Evangelho de Lucas encerra/revela ainda não se fica por aqui. Ao falar de pescadores que lançam as suas redes e pescam grande quantidade de peixe, o autor remetia, de imediato, os seus ouvintes, para o livro do Profeta Ezequiel (47, 1-10), que fala de pescadores que pescam grande quantidade de peixe em águas de misteriosos rios que tinham a sua nascente no Templo de Jerusalém, e em cujas margens cresciam árvores que, todos os meses, davam suculentos e bons frutos.
Esta referência a Ezequiel não pode ser teologicamente mais subversiva e revolucionária. É que, no tempo em que o autor do Evangelho de Lucas escreve o seu relato e que os primeiros ouvintes escutam a sua leitura, o Templo de Jerusalém já havia sido destruído pelos exércitos do Império romano. Além disso, os ouvintes sabiam que tinha sido o Templo e os chefes dos sacerdotes que nele pontificavam, quem condenou Jesus à morte e entrou em negociações com o representante do Império romano em Jerusalém, para conseguir que Jesus fosse executado como maldito, na cruz. E assim havia sucedido.
Ora, ao tecer a sua narrativa com estes pormenores, o autor do Evangelho está, por um lado, a desmentir o grande profeta Ezequiel, que ainda havia pensado que o Templo de Jerusalém poderia conhecer uma profunda transformação e ser uma espécie de fonte de vida e vida em abundância para todo o povo – ilusão das ilusões! - e, por outro lado, está a dar aos pobres (o Evangelho de Lucas foi escrito, prioritariamente para os pobres, pelo que são eles os seus primeiros ouvintes!) esta espantosa e revolucionária Boa Notícia: Não é o Templo de Jerusalém, não são os sacerdotes, não é a doutrina teológica que um e outros veicularam e veiculam, que liberta e salva os pobres, os oprimidos, os excluídos, os malditos de todos os tempos e de todos os lugares da terra.
O Templo e os sacerdotes que dele vivem e engordam com os cultos a que presidem lá dentro, com exclusividade, mais a doutrina teológica que ensinam aos pobres, só contribuem para aumentar ainda mais a desgraça em que eles vivem. Quem verdadeiramente liberta e salva os pobres é a via vivida e pregada por Jesus, o Crucificado pelo Templo e tido como maldito pelos sacerdotes que lá pontifica(va)m. A única doutrina teológica que liberta e salva é a que sai da boca de Jesus, o único Mestre que nos revela quem e como é Deus.
Deste modo, o autor do relato evangélico está a dizer aos pobres e a todos os que são vítimas neste mundo, seja do Império romano, seja do império das multinacionais, que fujam do Templo de Jerusalém e de todos os templos, onde pontificam sacerdotes que os sugam e enganam com doutrinas humanas que não têm nada a ver com o Deus que se nos revelou definitivamente em Jesus de Nazaré, o Cristo.
Desses lugares, por mais sagrados que quem lá pontifica diga que são, só sai desgraça para os pobres, para as vítimas humanas, mesmo quando quem está a frente deles fornece alimentos e outras ajudas, estilo, conferências de S. Vicente de Paulo. Tais alimentos e ajudas só servem para manter o sistema que fabrica pobres e vítimas, ao mesmo tempo que dá aos ofertantes uma boa imagem.
Os pobres e todas as vítimas é de Jesus, o Cristo, que carecem. É dele que devem abeirar-se. Porque, com ele, definitivamente resgatado do controlo das cúpulas das Igrejas e dos chefes das religiões, os pobres poderão acordar, abrir os olhos, soltar as línguas, mexer-se, organizar-se, autonomizar-se, numa palavra, ser sujeito. E, então, ninguém, nem poder algum poderão desviá-los do processo histórico de libertação em que eles serão os protagonistas, numa revolução não violenta e que só terminará, quando o amor for tudo em todas e todos.

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