Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

2 Fevereiro 2001

A Igreja católica celebra hoje o Dia do Consagrado. Não, não confundam com o Dia do Namorado. É simplesmente o Dia do Consagrado. Melhor seria que fosse o dia das namoradas e dos namorados, e que as mulheres consagradas e os homens consagrados da Igreja católica, também se pudessem sentir incluídos nessa iniciativa. Mas não é nada disso. Embora o Dia do Namorado já exista e se realize, cada ano, neste mesmo mês de Fevereiro, não só não é uma iniciativa da Igreja católica, como nem sequer foi já assumido por ela. Menos ainda, pode ter sido criado, a pensar também nas mulheres consagradas e nos homens consagrados. Uma vez que estas e estes nem sequer podem namorar!...
Por isso, para a Igreja católica, o que há, neste mês de Fevereiro, é simplesmente o "Dia do Consagrado". E como na designação oficial deste dia, não se faz nenhuma alusão à "Consagrada", parece que o dia é mesmo só para homens consagrados, sem contemplar as mulheres consagradas. Pelo menos, a designação oficial não lhes dá qualquer visibilidade. Fala apenas do "Dia do Consagrado", sem cuidar de acrescentar, "e da Consagrada". Muito menos se atreve a referir a consagrada antes do consagrado. Assim: Dia da Consagrada e do Consagrado. O que seria muito mais correcto. E estaria mais conforme a verdade dos factos. Uma vez que, como é sabido, as freiras, na Igreja católica, batem por largo o número dos frades.
Apesar disso, a designação oficial desta iniciativa exclui-as a todas, logo à partida. O que, só por si, diz bem do patriarcalismo ainda imperante nas cúpulas da Igreja católica, às quais nenhuma mulher pode ter acesso, impedidas que estão de, alguma vez, serem sujeito dos sete sacramentos da Igreja. Têm de se ficar, todas elas, pelo máximo de seis, uma vez que o acesso ao sacramento da Ordem (incompreensivelmente, o sacramento que dá poder na Igreja, quando, a ter de haver, na Igreja, membros que se distingam dos demais, uma tal distinção nunca poderá ser o poder sobre os demais, mas apenas o serviço aos demais) está-lhes autoritariamente vedado pela Cúria do Vaticano que, nestas coisas, pretende ser, não só mais papista do que o papa, mas mais deus do que Deus.
Por outro lado, esta designação, "Dia do Consagrado", diz bem, igualmente, do conformismo em que vive a generalidade das freiras, as quais nem sequer reagem a uma formulação nos termos em que esta é feita. E isto, apesar de, nos conventos e institutos femininos, haver hierarquia (também aqui, todas elas se dizem irmãs, mas a verdade é que umas são mais irmãs do que outras, tal como nos conventos e institutos masculinos, os frades são todos irmãos, mas, na verdade, uns são mais irmãos do que outros!), e a respectiva superiora – Madre, Abadessa, Provincial, ou simplesmente Superiora – ser, na actualidade, uma delas, e não um frade, como antigamente, chegou a ser, pelo menos, nalguns casos.
Por aqui se vê que a linguagem inclusiva continua totalmente ausente na Igreja católica (também na sociedade em geral, mas, na Igreja é ainda muito mais grave que as coisas continuem assim, já que a Igreja sempre deveria ser, na História, pioneira em tudo o que diz respeito à dignidade dos seres humanos, em lugar de ser uma espécie de "carro-vassoura", como quase sempre tem sido). E isto, sem que a generalidade dos seus membros mais responsáveis e dos outros pareçam preocupar-se por aí além com isso. Com excepção de algumas católicas que, na sociedade civil, integram já movimentos feministas e, por isso, são capazes de protestar, de quando em vez, contra a ausência da linguagem inclusiva na Igreja, em cujo seio é manifesto que as mulheres são a esmagadora maioria (no aspecto particular da linguagem inclusiva, tenho de reconhecer que a linguagem das celebrações litúrgicas, e do respectivo Missal por onde estas são conduzidas, materializam um desastre pastoral de todo o tamanho!).
Porém, os protestos destas católicas feministas, feitos só de palavras, para mais, ditas quase sempre em surdina e com muita diplomacia, continuam sem produzir quaisquer resultados práticos. Como fica bem claro, até por esta iniciativa, oficialmente designada por "Dia do Consagrado" e não, como deveria ser, caso ela se justificasse, por "Dia da Consagrada e do Consagrado".
Mas, cá por mim, acho que esta iniciativa não tem qualquer razão de ser. Na verdade, por mais voltas que dê à minha cabeça, ainda não consegui perceber por que carga de água há-de haver na nossa Igreja católica o Dia do Consagrado (e da Consagrada). Aliás, tão pouco consigo sequer perceber por que, na nossa Igreja católica, há-de haver mosteiros e conventos, institutos e congregações, de mulheres "consagradas" e de homens "consagrados".
É que, se há coisa que Jesus nunca quis, nem inspirou, foi, é, a existência de instituições destas, uma espécie de haréns e de "casas de passe" de Deus (mas que Deus, senhores religiosos e senhoras religiosas?!), nas quais se amontoam mulheres e homens (hoje, felizmente, cada vez menos, porque rareiam as vocações para um estilo de vida destes, de tão manifesto mau gosto, elas numas casas, eles noutras casas, sem qualquer comunicação entre si), totalmente disponíveis, segundo garantem as respectivas constituições, para, 24 horas sobre 24, louvarem a Deus e ocupar-se das coisas de Deus (mas que Deus, senhores religiosos e senhoras religiosas?, pergunto eu, de novo).
Para uma instituição, como a Igreja católica, que quase não pode ouvir falar em homossexuais, em gays e lésbicas, é difícil compreender como é que ela, entretanto, tem, ao longo dos séculos, consentido e estimulado que milhões e milhões de mulheres e de homens vivam a vida inteira em casas, à parte das outras casas, e casas só de mulheres ou só de homens.
Para quem, como a Igreja católica romana, quase não pode ouvir falar em homossexuais, gays e lésbicas, é de todo insólito que ela tenha condenado milhões e milhões de mulheres "consagradas" a viver, em plena juventude e na idade madura, em ambientes fechados, nalguns casos, de total clausura, propícios ao desenvolvimento de relações lésbicas, no mínimo, de carácter platónico. E o mesmo se diga dos homens "consagrados": Que a Igreja tenha condenado, ao longo dos séculos, milhões e milhões de homens, na idade jovem e madura, a viver em ambientes fechados, propícios ao desenvolvimento de relações gays, no mínimo, platónicas!...
Mas é isto que a Igreja fez e continua hoje a fazer, não só, quando autorizou e autoriza a criação de conventos ou congregações de freiras e de frades, como sobretudo, quando, durante séculos, proclamou, mentirosamente, que um estilo de vida assim, era de qualidade superior à das outras mulheres e ao dos outros homens, que são assalariados, casam, têm filhos e vivem no mundo como toda a outra gente comum, sem quaisquer defesas especiais, sem roupa especial, e sem privilégios de nenhuma espécie.
Para ser franco, o que, desde logo, mais me intriga, em tudo isto, é a própria existência de mulheres ditas consagradas e de homens ditos consagrados, em oposição às outras mulheres e aos outros homens. Como se todos nós, seres humanos, pelo simples facto de o sermos, não fôssemos corpos sagrados e consagrados.
Mas, afinal, que outra coisa revela/proclama, por exemplo, o sacramento do Baptismo, que a Igreja faz tanta questão de celebrar com aquelas e aqueles que lhe dão a sua adesão, senão que todas as mulheres e todos os homens, independentemente, de serem ou não baptizados, são consagrados, e isto, pela simples razão de que são seres humanos criados e amados por Deus, filhas suas e filhos seus?
Infelizmente, esta boa notícia ainda nem sequer é, hoje, percebida pela própria Igreja que baptiza, tanto a Igreja na sua versão católica romana, como a Igreja nas múltiplas versões protestantes tradicionais, como também a Igreja nas mais recentes versões afectas ao chamado novo movimento religioso.
O que, neste particular, vemos por aí, hoje, é que cada uma das versões históricas da Igreja insiste em proclamar que os seres humanos são tanto mais sagrados e garantem tanto mais a sua definitiva salvação, quanto mais derem a sua adesão àquela igreja concreta que se lhes dirige.
Por outro lado, cada igreja concreta reclama-se de ser a única verdadeira, contra as demais. O que leva a posições caricatas de mútua excomunhão, como se uma versão histórica da Igreja tivesse, sozinha, o monopólio da salvação que Deus dá de graça a todos os seres humanos, membros duma Igreja ou não.
Ora, a Boa Notícia que o sacramento do Baptismo revela/proclama a toda a Humanidade – não se pense que é um sacramento para toda a gente receber, apenas algumas mulheres e alguns homens, precisamente, aquelas e aqueles que acolhem o Evangelho ou a Boa Notícia de Deus, proclamado e vivido por Jesus de Nazaré, o Cristo, e aceitam tornar-se discípulas suas e discípulos seus – é esta: todas as mulheres e todos os homens somos amados por Deus e, por isso, somos sagrados e consagrados, e vivemos na História ininterruptamente mergulhados num processo de libertação e de salvação. Por pura Graça de Deus. Independentemente, portanto, dos méritos e deméritos de cada uma e de cada um de nós.
A grande diferença entre os conscientemente baptizados e os demais (poucos são, hoje, os conscientemente baptizados, já que o Baptismo, durante séculos, pelo menos, nos países da Cristandade, nunca chegou a ser opção, mas imposição eclesiástica católica romana a toda a gente que veio a este mundo!) é que os conscientemente baptizados, mulheres e homens, sabem desta Boa Notícia, têm consciência deste Mistério, e, consequentemente, procuram viver e agir em conformidade, na mais perene das alegrias; ao passo que os demais seres humanos, não sabem disso. Mas, consagrados e consagradas, somos todos os seres humanos, mulheres e homens, sem excepção!
Uma outra coisa que, pessoalmente, também me custa a entender, são os três votos, respectivamente, de pobreza, de obediência e de castidade (há ainda quem ache pouco e faça um quarto voto, por exemplo, os jesuítas, que fazem um voto especial de obediência ao Papa de turno!...) que todos os frades e todas as freiras têm de fazer, primeiro, de forma temporária, mas, alguns anos depois, de forma definitiva ou perpétua. "Votos perpétuos", é a designação oficial.
É sabido, a este propósito, quanto as superioras e os superiores dos conventos se esforçam, para que os votos das suas e dos seus confrades passem, depressa, de temporários a perpétuos. Não vá a "vocação à vida consagrada" dumas e doutros perder-se, e os conventos ficarem ainda mais às moscas, do que já estão!...
Pobreza, obediência e castidade, são os três votos que todas as freiras e todos os frades têm de fazer. E que, uma vez feitos de forma perpétua, jamais podem ser desfeitos, a não ser mediante uma especial intervenção do papa de turno (como se o supremo chefe do Estado do Vaticano fosse uma espécie de Deus na terra, com poder absoluto sobre a consciência de cada um dos membros da nossa Igreja católica, com a agravante de que, no caso em referência, o papa acaba por ir muito mais além do que o próprio Deus, uma vez que Deus, ao contrário do papa, jamais interfere nas decisões de consciência das suas filhas e dos seus filhos, a quem sempre faz questão de tratar como pessoas de maioridade, por isso, responsáveis!).
E sabem por que não consigo entender estes três votos? É fácil. É que todas as mulheres e todos os homens, pelo simples facto de o sermos, havemos de ser educados para o SER, mais do que para o TER, para a ENTREGA da vida, mais do que para a sua EGOÍSTA CONSERVAÇÃO, para o SERVIÇO aos outros e às outras, mais do que para o PODER sobre os outros e as outras, para o DESENVOLVIMENTO das nossas potencialidades, mais do que para o seu ATROFIAMENTO, para a COMUNHÃO e o AFECTO sem tabus, mais do que para a SOLIDÃO e a AUTO-REPRESSÃO.
Ora, os votos de pobreza, de obediência e de castidade - tal como têm sido vividos pela generalidade das freiras e dos frades - sempre tiveram, e continuam a ter ainda hoje, algo de redutor, tanto nas mulheres, como nos homens que, um dia, os pronunciaram, com mais ou menos pompa e circunstância. Têm algo de renúncia, imposta de fora, e com um refinamento tal, que as freiras e os frades, com o tempo, acabam por fazer sua essa renúncia e passam a olhá-la como coisa boa, quando, objectivamente, é uma coisa má e, até, causa de diversos males muito concretos, particularmente, ao nível do psíquico de cada pessoa. Por isso, algo objectivamente intolerável.
É preciso que se saiba que é timbre do Cristianismo de Jesus de Nazaré a busca incessante da plenitude, em todas as dimensões da vida, por parte de cada ser humano, mulher e homem, qualquer que seja a cor da sua pele e a sua condição social ou religiosa.
Mas há por aí, infelizmente, e porventura, até muito mais vigoroso, um outro tipo de cristianismo, totalmente estranho ao Cristianismo de Jesus de Nazaré, e que tem tudo a ver com a concepção religiosa e idolátrica de um Deus que se compraz no sacrifício, na privação, no sofrimento, na aniquilação, na flagelação e na morte antes de tempo das pessoas. E que, naturalmente, leva as pessoas que se deixam informar por ele, a buscar o sacrifício, a privar-se dos bens, a buscar o sofrimento pelo sofrimento, a aniquilar-se, a flagelar-se e até a apressar a hora da sua morte com jejuns e cilícios e desleixo de todo o tipo com a própria saúde (entre nós, o caso mais flagrante e mais escandaloso deste tipo de Cristianismo, totalmente estranho ao Cristianismo de Jesus de Nazaré, é o das duas crianças de Fátima, que o Papa João Paulo II, em lugar de denunciar, como coisa demoníaca, acaba de canonizar, como coisa boa, ao beatificar solenemente essas duas crianças, vítimas da chamada senhora de Fátima e da sua diabólica teologia).
Por mim, não tenho dúvidas em reconhecer que os votos de pobreza, de obediência e de castidade que as freiras e os frades fazem, são votos que, desde a origem, têm a marca, não do Cristianismo de Jesus de Nazaré, mas a marca do Cristianismo que lhe é totalmente estranho, e que vê na privação de tudo, no castigo do corpo, na repressão sexual e da própria afectividade, uma virtude, e uma forma concreta de dar glória a Deus.
Quando, afinal, o Cristianismo de Jesus de Nazaré é a via da radical libertação e da universal salvação da Humanidade, que faz da mesa comum, com abundância de boa comida e de boa bebida para todas e todos sem excepção, o sacramento dos sacramentos, ou a Eucaristia. É igualmente a via de libertação e de salvação que não faz acepção de pessoas, entre justas e pecadoras, pelo contrário, a todas acolhe e integra por igual, e, se alguma distinção faz entre elas, não é as pessoas justas que privilegia, mas as que são tidas como pecadoras. Sobretudo, é a via de libertação e de salvação que é capaz de chegar ao ponto de fazer uma festa de arromba com aquele filho mais novo que, um dia, regressa à casa do Pai, muito tempo depois de dela se ter livremente afastado, e depois de ter dado cabo de todos os bens do Pai, em intermináveis farras com mulheres de má fama ou prostitutas (cf. Lucas 15, 30); ao mesmo tempo que - escândalo dos escândalos, para os que se têm na conta de justos – não se ensaia nada em dar uma solene reprimenda ao filho mais velho que nunca saiu de casa do Pai, nunca deu um desgosto ao Pai, nunca cometeu um deslize, sempre cumpriu rigorosamente o que pensava ser a vontade do Pai e, por isso, agora, que o seu irmão chegou, nem sequer está disposto a associar-se à festa de regresso que o Pai – em seu entender, insensatamente – lhe promove. Aliás, nem sequer irmão lhe chama, mas apenas, "Esse teu filho que deu cabo de tudo com meretrizes"!...
Por outro lado, quando eu vejo que os três votos de pobreza, de obediência e de castidade, geralmente levam as pessoas que os fazem, a viver na convicção de que são pessoas mais puras, mais santas, mais próximas de Deus, do que todas as outras, não posso deixar de concluir que são três votos totalmente estranhos ao Cristianismo de Jesus de Nazaré. Como tal, não podem ser via de plena realização humana, mas sim de alienação e de castração humanas.
Na verdade, são três votos que fomentam o farisaísmo e estão na origem do aparecimento de pessoas ao jeito dos fariseus do tempo de Jesus, isto é, que se têm na conta de melhores do que as outras, quando, na verdade, são, muitas delas, pessoas ressequidas, estéreis, sem entranhas de misericórdia, ressentidas, agressivas, autoritárias, incapazes de tolerar a liberdade, a alegria e a festa que vêem nas outras pessoas, quando elas próprias, por amor do seu Deus, têm de viver reprimidas e tristes.
Mais. Esses três votos fomentam um tipo de pessoas que nem sequer podem ouvir ler, como Palavra de Deus, o Cântico dos Cânticos bíblico, só porque este é um livro que ousa cantar, como caminho para Deus, não a auto-castração, em que as freiras e os frades são peritos, mas sim os excessos do amor erótico, livre e não matrimoniado.
Por isso, um poema bíblico assim, é completamente intolerável aos ouvidos de quem, como as freiras e os frades, foi educado, desde criança e em plena adolescência/juventude, para ver no próprio sexo e na vida afectiva responsavelmente vivida e partilhada entre mulheres, entre homens, e entre mulheres e homens, coisas do Diabo, e não aquilo que de mais belo, alguma vez, saiu das mãos de Deus Criador.
A este propósito, quero ainda revelar que, por mais anos que viva, jamais esquecerei aquela conversa que, há alguns anos atrás, em pleno mês de Agosto, mantive à mesa, na casa dos Irmãos de S. João de Deus, em Fátima.
Um pouco como quem não quer a coisa, deixei transparecer aos irmãos presentes, quase todos de idade já avançada, que, muito provavelmente, não eram as freiras e os frades que, com a sua auto-repressão sexual e afectiva, davam mais glória a Deus, mas, sim, as mulheres e os homens que os frades e as freiras costumam ter como pecadores e imorais. E recordava, a propósito, a parábola de Lucas 15, mais conhecida por parábola do "Filho pródigo", e à qual já me referi um pouco atrás, nestas páginas.
Pois bem, a reacção dos irmãos, sobretudo, dos mais velhos, foi tal, que pouco faltou para me insultarem e expulsarem da mesa, ou me deixarem a comer sozinho. "Mas então não vale nada todos estes anos de privação que vivemos, na Ordem Hospitaleira, como irmãos de S. João de Deus? Não vale nada termo-nos privado toda a vida do prazer sexual e do matrimónio?", ousou perguntar, quase apopléctico, um dos irmãos, com o manifesto apoio dos demais
Uma reacção assim não foi nada que eu já não esperasse. Mas, o pior, é que ela traduz uma mentalidade generalizada entre as freiras e os frades de todo o mundo. Por sinal, uma mentalidade desgraçada e causadora de desgraça e de muita frustração nelas e neles.
Mas, para que em mim não restassem quaisquer dúvidas de que as coisas são assim, ainda tive a oportunidade de ouvir, um dos irmãos presentes dizer – na altura, estava destacado em missão nos Açores, mas em gozo de curtas férias em Fátima – "Se as coisas são assim como o padre Mário está a insinuar, por que andei eu a privar-me de todas essas coisas boas, a vida inteira?"
O pior, é que aquele irmão de S. João de Deus disse isto num tom, próprio de quem, de repente, percebeu que, muito provavelmente, tinha vivido toda a sua vida enganado. E que foi frade e fez os três votos, na convicção de que assim era mais perfeito e mais santo do que os seus companheiros de escola, que nunca foram para frade, namoraram, casaram, tiveram filhos. Coisa que ele, na idade em que já se encontra e com as doenças de que padece, já nem sequer pode pensar começar a experimentar!
Uma das minhas afirmações que mais irritou os irmãos de S. João de Deus, naquele almoço, foi eu limitar-me a reproduzir, quase sem comentários, a palavra de Jesus, no Evangelho de Mateus (21, 31b): "Em verdade, em verdade vos digo: Os cobradores de impostos [= publicanos] e as meretrizes [= prostitutas] vão à vossa frente no Reino de Deus". Por outras palavras, Deus agrada-se mais das prostitutas que quantas e quantos se têm na conta de justos e de puros desprezam ou tratam com sobranceria, mesmo quando, porventura, desenvolvem certo trabalho pastoral em favor delas, do que se agrada de todos aqueles eunucos, freiras e frades incluídos, que um certo Cristianismo, totalmente estranho a Jesus de Nazaré, fez tais. Mas quem há aí que se atreva a desmentir-me?!
Felizmente, hoje, nem todas as freiras, nem todos os frades reagem como este grupo de irmãos de S. João de Deus. Mas tenho de reconhecer que a maioria ainda é por aí que vai. E a prova é que, todos os anos, em plena semana de Carnaval, é certo e sabido que freiras e frades de todo o país se reúnem em Fátima, no Centro Pastoral Paulo VI - este ano, não é excepção! – numa semana de reflexão e de estudo, com um certo sabor a retiro.
A iniciativa, marcada para esta data, não é de todo inocente. Bem sei que a justificação avançada é de que se procura aproveitar a semana de férias do Carnaval. Mas, no fundo, há outra motivação para a escolha da data: Enquanto as outras pessoas se entregam, nestes dias de Carnaval, a folias "imorais" e a práticas de todo o tipo que "ofendem Nosso Senhor", as freiras e os frades, ao contrário, preferem "desagravar Nosso Senhor" e fazer retiro.
Só que o Nosso Senhor que as freiras e os frades procuram desagravar, deste modo, não tem nada a ver com Jesus de Nazaré, o Cristo de Deus. Apenas tem tudo a ver com o deus mítico das religiões e dos cultos idolátricos e politeístas que ainda não desapareceram de todo.
Porque o Nosso Senhor que, felizmente, pudemos conhecer em Jesus de Nazaré, é o primeiro a gostar de festas, como a do Carnaval, mesmo dos excessos que nelas se cometem. E do que ele não gosta nada, de certeza, é dos excessos de repressão sexual e outras, de que os conventos sempre estiveram cheios, no passado e que, mesmo no presente, ainda não abandonaram de todo, apesar de um certo ar mais humano que procuram deixar transparecer.
Podem, por isso, compreender quanta alegria me causou uma freira do Instituto das Franciscanas Missionárias de Maria, minha amiga e que só há bem poucos anos conheci, pessoalmente. Aos 72 anos de idade, ainda foi capaz de dar um passo de gigante na sua vida. Depois que conheceu a Comunidade de Cristãos de Base de Macieira da Lixa, em Felgueiras, ainda teve a audácia de iniciar um processo de ex-claustração e já se encontra a viver, como irmã universal, na casa da Comunidade, que é simultaneamente a casa da Laura (presbítera) e dos seus filhos.
O Instituto teve alguma dificuldade em aceitar, mas a Irmã Emília manteve-se firme e deu o passo. Para já, por um ano. E a vida que agora vive, na comunhão directa com os excluídos e as excluídas, como mais uma delas e deles, tem outro sentido, tem outro provir. E também outro paladar. Como que a confirmar que nunca é tarde para se nascer do Alto, do Espírito.
O que me aflige é que sejam ainda tão poucos os casos como o da Emília. Contudo, nunca como agora, a sua vocação franciscana e missionária foi tão bem vivida. Longe da protecção do Instituto. Longe do isolamento institucional. Longe dos templos e dos altares. Longe dos poderosos. Longe duma estrutura autoritária e sem entranhas de misericórdia. Mas próxima, muito próxima, da vida tal e qual ela é, dura e festiva, militante e companheira, a desabrochar todos os dias em ressurreição.
"Dia do Consagrado". Uma péssima designação para uma péssima realidade na nossa Igreja católica. Porém, quando todas as mulheres e todos os homens que, um dia, foram aliciados por outros homens e outras mulheres, formados na escola do Cristianismo estranho ao Cristianismo de Jesus de Nazaré, caírem na conta de que entraram pela via errada da realização dos seres humanos, é de crer que, nesse dia, os conventos e os mosteiros fiquem totalmente às moscas.
Nesse dia, a Humanidade terá dado mais um grande passo no processo da sua libertação para a liberdade. E, em lugar do "Dia do Consagrado", passaremos a ter apenas o Dia das namoradas e dos namorados. Já que este e não aquele, é que está mais conforme ao Deus da Vida que inspirou o mais belo cântico do mundo, que é o poema de amor erótico e livre, que dá pelo nome de Cântico dos Cânticos.

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