Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

11 Abril 2001

Bastou um só homem para pôr os deputados da Assembleia da República em sentido, como se fossem um batalhão de soldadinhos de chumbo, todos perfilados, diante do seu todo poderoso general. Bem sei que o homem a que me refiro não é um homem qualquer. É bispo. Português. Da Igreja católica. Investido nas funções de secretário geral da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP). E bispo auxiliar no Patriarcado de Lisboa.
Pois é. O homem chegou ao Parlamento português, deu as suas ordens, fez-se obedecer, criticou, ralhou, puxou as orelhas aos mais irrequietos e irreverentes, exigiu, e, depois de quatro horas de conversações, à porta fechada, longe, portanto, dos olhos e dos ouvidos críticos dos profissionais da comunicação social (foi também ele quem impôs essa condição, no que foi logo acatado pelos senhores deputados!) - conversações onde nem faltaram as tradicionais ameaças eclesiásticas, estilo, caso seja necessário, nós, bispos portugueses, voltaremos a utilizar os nossos púlpitos e altares católicos contra o Governo e o Estado - lá saiu, finalmente, com todo o ar de triunfo, e também com tudo o que pretendia, na mão.
O episódio aconteceu, ontem, neste quarto mês do século XXI e do Terceiro Milénio, mais de duzentos anos depois da Ilustração e da Modernidade. Não foi, portanto, na já remota Idade Média, de má memória, quando os bispos católicos – nem havia outros por este reino de Portugal - eram poderosos senhores feudais e tinham os reis e todas as demais instâncias de poder na sociedade sob a sua tutela.
Resultado directo desta incursão ou verdadeiro golpe de mão episcopal de D. Tomás Nunes e, na sua pessoa, da CEP: a Lei da Liberdade Religiosa, que estava para ser aprovada, por sinal, já com bastante atraso, pelo Parlamento, volta praticamente à estaca zero, com todos os prejuízos que isso acarreta, especialmente, para todas as outras Igrejas cristãs e confissões religiosas em geral que, desde há muitos anos, actuam no nosso país.
No meu modo de ver, o facto, só por si, materializa uma vergonha sem nome. É um gravíssimo atentado da CEP contra a dignidade do Parlamento e contra a autonomia das instituições democráticas. É também uma inqualificável prepotência por parte da hierarquia da Igreja católica, certamente, tocada/forçada, como simples bola de bilhar, a tomar esta inesperada posição, pelo Núncio apostólico, que é, como se sabe, o representante, em Lisboa, da sinistra Cúria Romana e de "Sua Santidade", o chefe de Estado do Vaticano. E tudo, só porque estas três instâncias católicas – CEP, Cúria Romana e Papa - de modo algum aceitam perder privilégios historicamente adquiridos, nem suportam ver a "sua" Igreja católica ser tratada ao mesmo nível das demais Igrejas cristãs irmãs.
Daí, esta posição de força do secretário geral da CEP, que pode resumir-se assim: Lei de liberdade religiosa, em Portugal, sim, mas só para as outras Igrejas cristãs. Nós, Igreja católica, já temos a Concordata e há-de ser ela, porventura, revista, que irá continuar a garantir todos os privilégios de que temos gozado, desde 1940 para cá, e, se possível, ainda de outros privilégios mais.
Curiosamente, os grandes jornais de hoje referem o sucedido, ontem. Fazem-no com títulos de encher a página. Só que embarcam todos na pecha do costume, ao identificar a posição do bispo D. Tomás Nunes, com todos os bispos católicos portugueses e, pior ainda, com a Igreja católica em Portugal. Ou seja, a posição de um bispo, investido nas funções de secretário geral da CEP, para cúmulo, em manifesta contradição com a posição do presidente dessa mesma CEP, expressa há poucas semanas atrás, em entrevista aos "media", é apresentada pela comunicação social como a posição de todos os bispos católicos portugueses, pior, como a posição de toda a Igreja católica que está em Portugal.
Pessoalmente, não posso concordar com isto. Nem com o golpe de mão do bispo D. Tomás Nunes, nem com a forma como a comunicação social noticia o sucedido. Um bispo é simplesmente um membro da Conferência Episcopal de um determinado país. Não é toda a Conferência Episcopal do país. Muito menos, é toda a Igreja católica que está nesse país, no caso, em Portugal.
Mas o defeito, no modo de noticiar acontecimentos eclesiais, é mais dos bispos, do que dos profissionais da comunicação social. São os bispos quem gosta de se assumir como se fossem eles a Igreja toda, quando, na verdade, são apenas uma parte dela, e a parte mais minoritária e a menos importante.
O facto de serem bispos não lhes dá, não lhes deve dar, mais representatividade eclesial. Porque o que faz a Igreja acontecer, não é o sacramento da Ordem, nem mesmo quando recebido na sua plenitude, como acontece com o Episcopado. O que faz a Igreja acontecer, é o sacramento do Baptismo, que culmina, depois, no sacramento do Crisma.
O sacramento da Ordem, a existir na Igreja (pode haver Igreja de Jesus sem este tipo de sacramento da Ordem que hoje conhecemos e que teremos de continuar a suportar ainda por mais algum tempo, embora não possa existir Igreja de Jesus sem ministérios ou serviços, precisamente, aqueles ministérios ou serviços que o Espírito Santo suscitar; o que não tem nada a ver com o actual processo de escolher e de fazer bispos a granel, segundo as conveniências e os interesses da Cúria Romana), jamais pode obscurecer a Igreja, no seu todo, menos ainda, pode como que fazê-la desaparecer.
Pelo contrário, o sacramento da Ordem há-de revelar que toda a Igreja é ministerial, isto é, que todos os seus membros baptizados e crismados, mulheres e homens, são chamados a servir libertadoramente a humanidade, até darem a vida por ela.
Quem recebe o sacramento da Ordem, não é para si que o recebe, é para os demais que o recebe. Por isso, sempre há-de proceder no sentido de fazer crescer todos os outros membros da Igreja, nunca no sentido de os substituir, por exemplo, falar em nome deles, ou torná-los como que invisíveis. Pelo contrário, na Igreja de Jesus, só se justifica que haja quem receba o sacramento da Ordem, para melhor garantir que todos os baptizados/crismados, tanto mulheres como homens, em radical igualdade e sem qualquer discriminação, sempre terão vez e voz, serão Igreja em plenitude. Nunca há-de ser para os substituir, falar em nome deles, roubar-lhes visibilidade e protagonismo.
Por isso, digo: Os bispos que, actualmente, temos, são os principais responsáveis pela forma como os profissionais da comunicação social falam deles e da Igreja. Uma forma que sempre leva os profissionais da comunicação social a tomar a parte pelo todo.
Mas este procedimento só é possível, porque os próprios bispos foram, e continuam a ser, os primeiros a proceder assim. Ou seja, sempre se consideram a Igreja, não mera parte da Igreja, precisamente, a parte mais minoritária e também a menos importante. Tal como é menos importante quem serve à mesa, do que quem está sentado à mesa.
Ora, na Igreja de Jesus, quem está sentado à mesa, são as pessoas baptizadas/crismadas, não os bispos. Os bispos (o mesmo se diga dos presbíteros e dos diáconos) sempre devem servir as pessoas baptizadas/crismadas. Não ser servidos pelas pessoas baptizadas/crismadas, como, infelizmente, continua a suceder todos os dias, por essas dioceses/paróquias além.
(Convém esclarecer, a este propósito, que, em Igreja cristã, a expressão "estar sentado à mesa", não significa privilégios, não significa ser patrão, ser importante segundo o mundo. Na Igreja de Jesus, falar em pessoas sentadas à mesa, é a mesma coisa que dizer pessoas livres, autónomas, soberanas, responsáveis, capazes, por isso, de pôr e de dispor da sua vida, para a darem aos demais, numa doação que pode ir até à perda da vida pessoal por amor da Humanidade. Aliás, na Igreja de Jesus, jamais há privilégios, segundo o mundo. O único privilégio, e que torna incrivelmente feliz quem crescer até o chegar a protagonizar, é o de alguém chegar a dar a própria vida pela vida Humanidade e do mundo).
O episódio protagonizado ontem pelo bispo D. Tomás Nunes deixa-me indignado. E perturbado. Faço parte da mesma Igreja católica, mas não é assim que a vejo e quero. Nem é assim que a vivo. Este comportamento do bispo D. Tomás Nunes materializa uma forma de ser Igreja católica que eu denuncio e combato. Também por amor dela. Para que ela seja Igreja ao jeito de Jesus. Não seja Igreja ao jeito da sinagoga e do Templo de Jerusalém, da época histórica de Jesus de Nazaré. Ou ao jeito do Imperador Constantino e da sua corte imperial romana.
Tenho consciência de que este meu combate é quase inglório. Aparentemente, inútil. Mesmo assim, prossigo nele com determinação, bom humor, alegria. Não com amargura ou azedume. Afinal, a Igreja católica que, pessoalmente, procuro ser/viver e protagonizar na minha fragilidade de criatura humana, vai, tem de ir, por outro caminho, se quiser ser Igreja de Jesus. E é por esse outro caminho que, pessoalmente, procuro ir, e, por isso, me sinto realizado, feliz.
Não é então de estranhar que eu combata o jeito constantiniano de ser Igreja católica. Faço-o com alegria, sem azedume, com bom humor. Porque já vivo no meu corpo a Igreja católica de outro jeito. Muito mais conforme ao espírito do Concílio Vaticano II.
Tenho pena que os bispos católicos continuem sem se dar conta do jeito jesuânico de ser Igreja e, até, de ser mulher e homem. O quotidiano deles seria muito distinto do que é actualmente. E eles seriam homens muito mais felizes, muito mais saudáveis, muito mais alegres, muito mais seculares, muito mais fraternos, muito mais humanos, muito mais afectivos, muito mais próximos de todos os outros seres humanos, mulheres e homens, indistintamente.
Porque os bispos católicos não são capazes de ir por aí, são homens solitários, vestem de negro, com coleira branca (perdão, com colarinho branco) ao pescoço, anelão no dedo, báculo na mão, mitra na cabeça. Uns fantoches, com mais de figurante de circo, do que seres humanos em tudo iguais aos outros seres humanos.
São gerados pelo poder eclesiástico e para exercer monarquicamente o poder eclesiástico. Por isso, têm por pai o Poder, ou, para recorrer à linguagem mítica que o nosso povo tão bem entende, são homens que têm por pai o Diabo.
Lá, entre eles, vivem todos na convicção de que têm por pai o próprio Deus. Mas o Deus que os criou assim, só pode ser o deus-Diabo, porque o Deus que se nos revelou em Jesus de Nazaré, o Cristo, é totalmente outro, é um Deus excomungado, não excomungador, é um Deus assassinado, não assassino, é um Deus torturado, não torturador, é um Deus crucificado, não crucificador, é um Deus Misericórdia, não Poder sagrado e absoluto, é um Deus que diz, taxativamente, "Entre vós, não há-de ser assim", isto é, entre vós, quem quiser ser o maior, faça-se o mais pequeno; e quem quiser ser o primeiro, faça-se o último de todos, pois também eu estou no meio de vós como aquele que serve.
Os bispos católicos que temos aí no activo e que D. Tomás Nunes tão bem personificou no gesto que ontem protagonizou no Parlamento português, continuam a navegar pelas águas da Idade Média, sem se darem conta de que já entramos no século XXI e no terceiro milénio do Cristianismo.
Significa isto que a Revolução Francesa, com tudo o que trouxe de Modernidade, ainda não passou pelas vidas dos nossos bispos católicos. Por isso, eles são como dinossauros, que resistem no tempo. Fósseis vivos.
Mas também por isso, eles assustam tanto as pessoas, até as crianças, mesmo quando parecem querer sorrir-lhes e querer fazer-lhes uma festa nos cabelos. Igualmente por isso, eles assustam tanto os governantes de um Estado laico, infelizmente, ainda não tão laico quanto seria de desejar. E que logo baixam os olhos e a voz, sempre que os bispos católicos se lhes dirigem como quem tem autoridade dada por Deus!
Não podemos ignorar, a este propósito, que todos, ou quase todos os actuais governantes, quando crianças, foram baptizados por um qualquer pároco, quando adolescentes, foram crismados por um qualquer bispo, e hoje cuidam em ser amigos de párocos e de bispos, até por razões de conveniência e de interesse recíproco.
Entretanto, os bispos católicos podem pensar que o medo que inspiram aos políticos e governantes dum Estado laico é um bom sinal e, por isso, insistem em ir por aí. Enganam-se redondamente. Com isso, estão a cavar a sua própria sepultura e a sepultura da Igreja católica que pensam representar. Porque a História é imparável, não se repete, não volta atrás e o futuro é dos seres humanos mais humanos, não é do poder, muito menos, do poder que se autoproclama de direito divino e, por isso, sagrado e absoluto.
É verdade que, neste momento, esta estratégia episcopal ainda resulta. Sobretudo, porque até o Primeiro Ministro português é assumidamente católico. E, inclusive, faz gala de se deixar guiar por um padre empresário social, seu director espiritual. Mas por pouco tempo mais é que esta estratégia resulta.
A próxima geração de políticos e de governantes, cujas infância e adolescência já puderam decorrer, felizmente, sem directa influência de um qualquer pároco e de um qualquer bispo, será uma geração muito mais laica, pelo menos, tão laica quanto o Estado laico. E, quando essa geração de políticos e de governantes perceber que os bispos católicos insistem nos privilégios, nas regalias, vai, certamente, mandá-los dar uma volta, pois recusarão conversar com quem se apresenta num patamar superior ao da mera condição humana comum.
Por isso, ou os bispos católicos apressam-se a viver no patamar de todos os seres humanos comuns e mortais, ou arriscam-se a ficar a falar sozinhos e a mandar esquisofrenicamente neles próprios.
Por agora, a geração de governantes e de políticos que estão na nossa praça, tanto do partido que está no poder, como dos partidos da oposição, incluído o PCP, ainda não se libertaram de todo da influência do clero, nomeadamente, dos bispos. Mas a próxima geração será já bastante diferente. Os bispos católicos, ou mudam, ou vão ficar a ver navios. Por mais concordatas que assinem hoje, elas deixarão de ter qualquer efeito amanhã, quando os tempos mudarem.
Pela minha parte, só lamento que seja preciso dar tempo ao tempo, para que as coisas avancem para esta meta, para este patamar. Os bispos católicos deveriam ser os primeiros a avançar para aqui.
Avançar para aqui, é deitar ao mar toda essa enorme carga de privilégios que, ao longo dos séculos, os bispos adquiriram? É. Mas é também a única maneira de salvar o essencial. E, na Igreja, o essencial é a total ausência de privilégios, é o serviço libertador e maiêutico que todos os membros, mulheres e homens, hão-de prestar à Humanidade, sem cobrar nada em troca.
Os privilégios que qualquer Concordata salvaguarda só atrapalham, são obstáculo a navegar, roubam energias, são contra-testemunho, asfixiam, roubam credibilidade, são um peso que impede andar, são um bilhete de identidade falsificado, produzido pelo Diabo, para, com isso, deitar a perder a própria Igreja que, estupidamente, aceita dar-se a conhecer através dessa falsa identidade.
O terceiro milénio corre o risco de ser um milénio sem Igreja católica, se esta continuar a insistir nos privilégios e nas concordatas com o Estado, para assim os salvaguardar. Ou ela foge a sete pés do poder, ao mesmo tempo que se mantém distante do Estado laico, e percebe/vive a sua missão ao jeito da parteira, do sal da terra e da luz do mundo, ou torna-se ainda mais dinossauro e fóssil do que já é. Nessa altura, será uma Igreja totalmente inútil.
Um Estado laico não tem que fazer concordatas com a Igreja, com nenhuma Igreja. Basta que seja o que é, um Estado laico. Por sua vez, as Igrejas, se forem jesuânicas e não poder sagrado, monárquico e absoluto, a sonhar com privilégios, saberão igualmente encontrar o seu caminho e o seu modo de viver/agir na sociedade, também ela, cada vez mais laica, secular, autónoma, plural.
Certamente, não será um caminho ou uma via muito diferente do caminho ou da via que Jesus de Nazaré abriu e seguiu e em que se constituiu, como o Cristo, para toda a Humanidade. E, se não é o caminho dos privilégios e do poder, só pode ser o do martírio, não necessariamente cruento, mas martírio, isto é, o caminho do testemunho de vida.
Se, entretanto, as injustiças estruturais crescerem em lugar da justiça; e se a mentira quiser fazer-se passar por Verdade, então as Igrejas cristãs terão um insubstituível serviço a prestar à Humanidade. E terão toda a liberdade para o assumir, porque não andam conluiadas, aliançadas, com o Poder, com o Estado, nem com as multinacionais que cada vez mais o utilizam como lhes dá na real gana. Serão Igrejas resistentes, martiriais, dispostas a ir até à cruz, como Jesus de Nazaré, seu mestre e senhor, o primeiro neste novo jeito de ser mulher e homem, e também de ser Igreja.
A esta luz, tenho de dizer que a intervenção do bispo D. Tomás Nunes no Parlamento português, foi um desastre. O secretário geral da CEP foi dizer aos deputados que os bispos portugueses (e, naturalmente, o chefe de Estado do Vaticano) não estão nada satisfeitos com o rumo que as coisas estão a tomar, a propósito da Lei de Liberdade Religiosa. Para os bispos católicos portugueses, só a Concordata interessa. E não é precisa Lei nenhuma.
Os bispos católicos pensam até que estão a ser muito condescendentes, ao aceitar, sem protesto de maior, que o Estado laico de Portugal prepare e aprove uma Lei de Liberdade Religiosa para as outras Igrejas cristãs, no entender não explicitado deles, umas igrejitas, sem qualquer expressão nacional (nenhuma delas tem, por exemplo, uma senhora ou deusa de Fátima que mobilize tanta gente como a Igreja católica!). É uma concessão que lhes custa, mas que já parecem dispostos a engolir.
Com este seu procedimento, os bispos católicos colocam-se na via dos privilégios, não na da igualdade, menos ainda, na da humildade. Dão o golpe de misericórdia na Igreja de que são bispos. A menos que os outros membros da Igreja, de que eles são bispos, e que nunca foram chamados a escolhê-los para esse serviço, tenham um assomo de consciência eclesial jesuânica e venham dizer publicamente, como eu aqui o estou a fazer, que não se revêem nestas posições da CEP, veiculadas pelo bispo D. Tomás Nunes.
Se tal acontecer, os bispos católicos que só se lembram das católicas e dos católicos não clérigos, quando os privilégios de que desfrutam estão em perigo, irão descobrir que, desta vez, estão sozinhos nesta causa, como tal, são bispos sem Igreja!
Por mim, não tenho dúvidas em dizer que, efectivamente, os bispos católicos portugueses, nesta causa, são bispos sem Igreja. Ou seja, a Igreja católica, se quiser ser Igreja jesuânica, não pode ir por onde os bispos católicos portugueses insistem em ir. E deveria dizê-lo alto e bom som.
Infelizmente, ainda o não fez. Nem é provável que o faça. Porque sempre tem sido uma Igreja domesticada, rebanho de ovelhas sem consciência crítica, sempre prontas a enfeitar os caminhos da sua aldeia e a gritar, Hosana, Bendito o que vem em nome do Senhor, quando o bispo vai lá de visita e aproveita para administrar (celebrar um sacramento é outra coisa) o Crisma a umas quantas e a uns quantos que, depois do bispo se ir embora, nunca mais querem saber da Missão e do compromisso que assumiram perante Deus e a sua própria consciência.
E pensar – ironia das ironias! - que todo este episódio com o bispo D. Tomás Nunes, ocorreu num dos dias da semana que a igreja católica chama "Semana Santa", ou "Semana Maior", precisamente, a Semana em que os textos litúrgicos e as "cerimónias litúrgicas" nos obrigam a olhar para Jesus de Nazaré, o Cristo, que foi preso, julgado, condenado e crucificado, morto e sepultado, graças a uma Concordata celebrada entre os representantes da Igreja do seu tempo e país – os sumos sacerdotes e o Sinédrio – o rei Herodes e o governador Pôncio Pilatos, representante do Império romano em Jerusalém!...
Só mesmo bispos católicos cegos e surdos é que não vêem e não ouvem o que entra pelos olhos e ouvidos dentro. Só mesmo bispos católicos paralisados pelos privilégios, totalmente inábeis para a profecia e para o martírio (= Testemunho) são capazes de enviar um dos seus ao Parlamento português, com as reivindicações que D. Tomás Nunes lá levou.
Um golpe de mão episcopal, como este, será sempre um desastre de todo o tamanho, para a Igreja a que pertencem estes bispos. Mas realizá-lo num dos dias da Semana Santa, atinge as raias do anti-Evangelho.
Até parece que os bispos católicos portugueses, em lugar de se mostrarem dispostos a seguir a via de Jesus de Nazaré, que acabou crucificado às mãos do Poder de turno do seu tempo – também por se ter recusado a fazer concordatas ou alianças com os seus representantes máximos! – mostram-se, hoje, muito mais dispostos a seguir a via de Judas Iscariotes, um dos Doze (de quem, aliás, os bispos católicos gostam de se dizer sucessores!), que fez uma concordata com os chefes dos sacerdotes, concretamente, de lhes entregar Jesus, se estes, em troca, lhe dessem dinheiro, o que veio a verificar-se.
Escrevo isto com lágrimas de dor e de sofrimento. Porque gostaria de escrever outra coisa bem distinta sobre os bispos católicos portugueses. Mas, para o poder fazer, seria necessário que outra, muito outra, fosse a posição deles, em todo este processo da Lei de Liberdade religiosa. Não é. Ainda não é.
Oxalá que o que aqui escrevo com lágrimas sirva para levar à reflexão e à urgente mudança radical dos bispos católicos portugueses. Se assim acontecer, as minhas lágrimas de dor e de sofrimento converter-se-ão em lágrimas de alegria e de festa.

P.S.
Sei que as Igrejas cristãs que actuam em Portugal ficaram indignadas com a posição da CEP, protagonizada pelo bispo D. Tomás Nunes. Ao que parece, não pelos mesmos motivos com que eu fiquei. Ficaram indignadas, porque, deste modo, vêem cada mais distante o dia em que, também elas, poderão usufruir de alguns dos privilégios que a Concordata concede já à Igreja católica em Portugal. No fundo, aspiram a um tratamento igual, ou, pelo menos, aproximado. Não lutam contra os privilégios da Igreja católica. Querem que eles se alarguem até elas também.
Por mim, só posso chorar com esta posição das Igrejas cristãs. Com esta sua posição, dão provas de que são Igrejas ainda muito pouco protestantes. O que deveriam reclamar – e o Evangelho de Jesus só teria a ganhar com isso – é o fim da concordata entre o Estado português e o Estado do Vaticano, da qual sai altamente beneficiada, em termos de privilégios, a Igreja católica que está em Portugal. Deveriam reclamar que a Igreja católica, sua irmã mais velha, rompa unilateralmente com essa Concordata, a qual, para cúmulo, traz a assinatura de Salazar, esse mesmo chefe de Governo fascista que criou a Pide assassina, instaurou a censura, proibiu o direito de associação, de reunião, de livre expressão e, finalmente, arrastou o país, durante treze longos e penosos anos, para a criminosa Guerra Colonial, em três frentes de África.
Não vão ainda por aqui as Igrejas cristãs, ditas evangélicas. Não sei em que Evangelho elas se escoram, para reivindicar o que reivindicam do Estado laico português. Peço-lhes, por isso, que reflictam. E creiam que é sempre tempo para reconhecer o erro, emendar a mão, converter-se e crer no Evangelho ou Boa Notícia de Deus.
Palmas, muitas palmas, se as Igrejas evangélicas ousarem ir por onde Jesus de Nazaré, o Cristo, foi. E, juntamente com as palmas, também toda a minha entusiástica comunhão de irmão cristão católico.

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