Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

6 Abril 2001

Como é vulgarmente sabido, Judas Iscariotes, um dos Doze Apóstolos, vendeu Jesus, o Cristo, seu mestre. O facto há-de ser lido e interpretado, não em chave jornalística-histórica, como sempre nos disseram, sim em chave teológica.
(Nesta chave teológica, Judas, mais do que uma pessoa em concreto, representa o sistema judaico, o Judaísmo, bem como os "judaísmos" de todos os tempos e lugares, que têm, como verdade, apenas a sua verdade interesseira e dominadora, e, por isso, não suportam nunca, no seu reino, a presença da Verdade gratuita e desarmada que liberta. E, porque a não suportam, tudo fazem para a erradicar da face do seu reino. Ao mesmo tempo que tudo fazem, também, para erradicar da face do seu reino, todas aquelas pessoas que, nas suas vidas, visceralmente, livres, sororais/fraternas, solidárias, comprometidas, combativas, martiriais, duélicas, procuram ser singelamente fiéis a essa mesma Verdade gratuita e desarmada que liberta. Deste modo, esses "judaísmos" podem prosseguir com muito mais facilidade, sem grandes custos e sem opositores politicamente incorrectos, sempre indesejáveis e incómodos, a sua institucional prática quotidiana de enganar as populações, de lhes mentir, de reinar sobre elas, sempre ao jeito de quem as domina e oprime, nunca no jeito de quem as serve de forma desinteressada e libertadora).
Como também é vulgarmente sabido, Judas Iscariotes vendeu Jesus, o Cristo, por baixo preço, mais ou menos o que então se pagava por um escravo em bom estado. Ao todo, uns trinta dinheiros (também esta cifra monetária, referida nos Evangelhos, há-de ser lida e interpretada no sentido teológico e não jornalístico-histórico. Ou seja: todo o ser humano, mulher ou homem, que, como Jesus de Nazaré, não pactue nunca com o poder vigente, sempre discriminatório, jamais terá cotação na sua Bolsa de valores, cuja Ordem dominante é, invariavelmente, constituída por privilegiados, uma minoria de homens e de mulheres, e por desfavorecidos, uma multidão incontável de mulheres e de homens. No douto entender dos dirigentes dessa Ordem dominante, tanto laicos como clérigos, quem teima ser/viver assim, não passa de um reles, em tudo semelhante a um escravo sem direitos. Como tal, há-de ser tratado; entenda-se, desprezado).
Como é ainda vulgarmente sabido, Judas Iscariotes vendeu Jesus, o Cristo, aos sumos sacerdotes de Jerusalém, que não podiam com ele, uma vez que ele não ia à missa deles, ao culto deles, nem comungava da sua perversa e idolátrica teologia, muito menos, a reproduzia e a ensinava ao povo. Pelo contrário, tudo fazia para afastar o povo dessa teologia e desses sumos sacerdotes, bem como de todos aqueles ambientes religiosos e políticos, onde eles eram reis e senhores, sem a mais pequena contestação.
Tudo isto sucedeu, como também é sabido, vai para 2000 anos, na terra de Jesus de Nazaré, o Cristo. Mas a verdade é que nunca mais este gesto de alta traição e de sujo negócio de Judas Iscariotes, deixou de andar gravado a ferro e fogo na memória popular ocidental e, ainda hoje, permanece nela invulgarmente vivo. E a prova é que as pessoas sempre se lhe referem, quando alguém, na sua vida de relação com as demais, assume comportamentos idênticos aos evangelicamente atribuídos a Judas Iscariotes.
Foi precisamente o que me aconteceu a mim, quando, anteontem, li, no PÚBLICO, uma notícia sobre Gondomar, inserida no Caderno Local Porto/Norte.
O título, a duas colunas e quatro linhas, "Valentim / distribui / 35 mil contos / pelas paróquias", para mais, sob uma fotografia legendada a três colunas, que mostrava os respectivos figurantes e protagonistas do evento, obrigava à leitura, pelo menos, qualquer dos residentes no concelho de Gondomar. E foi o que fiz.
Li a notícia com atenção e fiquei estarrecido com tamanho despudor, com tamanha falta de dignidade, com tamanha falta de bom senso, com tamanho concubinato político-eclesiástico, com tamanha ingenuidade por parte dos 13 párocos das 14 paróquias do concelho de Gondomar, com tamanha demagogia política e autárquica, com tamanho cinismo do presidente do Município laranja que, depois de ter recorrido à bem mediatizada oferta de utensílios domésticos a alguns munícipes em situação de pobreza imerecida, para assim conquistar votos e vencer as eleições, agora não hesita em recorrer a processos como este, para tentar ter os párocos na mão, como mansos cordeiros, porventura, até os ter a fazer campanha eleitoral nos respectivos templos, em prol dele, um presidente tão bom, tão santo, tão amigo da Igreja e dos pobres!!!
Para cúmulo da ironia, o evento logo haveria de ocorrer, nestes primeiros dias de Abril, quando a Igreja católica, a que pertencem os referidos párocos de Gondomar, está totalmente concentrada na celebração litúrgica da Páscoa de calendário, onde o caso de Judas Iscariotes, um dos Doze, a trair e a vender Jesus, o Cristo, vem necessariamente à baila.
Esta coincidência bem poderia ter funcionado em todos os párocos, ou, pelo menos, em alguns deles, como um verdadeiro alarme. O comportamento atribuído a Judas, por todos os relatos evangélicos da Paixão de Jesus, poderia ter aflorado à memória deles e levá-los a interrogar-se se não estariam, 2000 anos depois, a reproduzir o mesmo gesto, agora, já não em sacrossanto entendimento com os sumos sacerdotes do judaísmo, mas com aquele que, institucionalmente, lhes faz as vezes, neste concelho da área metropolitana do Porto e, como eles, procura manter as populações sob o seu controlo e sob a sua nefasta influência ideológica, onde não entram nem a total transparência, nem a total isenção, nem a total igualdade de tratamento entre todos os cidadãos, mulheres e homens. E onde nada se faz sem interesse político-partidário, sem o descarado ou mascarado objectivo de angariar votos, de assegurar continuidade ao poder discricionário e absoluto, numa palavra, sem o objectivo de manter o status quo, que tem tanto de mediático, quanto de demagógico, tanto de fanfarrão, quanto de cínico, tanto de oportunista, quanto de prepotente.
Nenhum dos párocos de Gondomar teve esse assomo de dignidade, de bom senso, de lucidez, de coluna vertebral erecta, que teria levado, no mínimo, quem assim fosse e procedesse, a recusar entrar nesta jogada com tanto de mediático, como de repugnante. Aliás, a própria legenda, sob a foto da notícia, é deveras eloquente e expressiva. E também vergonhosa para todos os párocos em causa. Reza assim: "Queremos agradecer as palavras sinceras do presidente, disseram os párocos".
E que "palavras sinceras" foram essas, que o Major Valentim disse aos subservientes e reverentes párocos, sentados diante dele, como dóceis meninos da catequese paroquial, e com aquele enlevado e cândido ar de quem escuta uma lição de pastoral e de política, pronunciada pelo novo messias ou cristo que, desde há alguns anos a esta parte, está à frente dos destinos do concelho de Gondomar e que alguns gondomarenses, entre o caçoeiro e o sério, gostam de apelidar de S. Valentim?
(É verdade que o Major presidente, que reside na cidade do Porto, não na cidade de Gondomar, e que, para além da presidência da Câmara de Gondomar, ainda está à frente de outros inúmeros cargos, cada qual o mais mediático e o mais influente, sempre pode dizer que, se está neste lugar, é em resultado de eleições locais oficialmente livres e democráticas. Mas só os cegos que não queiram ver, e os surdos que não queiram ouvir tudo o que, respectivamente, se faz e diz, antes e durante as campanhas eleitorais, é que podem afirmar que eleições, como as que têm decorrido em Gondomar e na generalidade do país, são verdadeiramente livres e democráticas).
Como, pessoalmente, não estive na sessão, socorro-me do trabalho que a minha camarada de profissão, Luísa Pinto, assina no Caderno local do PÚBLICO, do dia 4 de Abril 2001, para poder divulgar, aqui, o que disse o Major aos párocos de Gondomar. Leiam, que é digno de antologia.
"Eu cá não mudo. Já sou velho para mudar e não sou como alguns, que têm medo de assumi-lo: de uma forma desinibida, e sem complexos, a Câmara de Gondomar aplaude o trabalho das comissões fabriqueiras e vê nas paróquias um excelente parceiro social".
O Major não podia dizer mais e melhor, se pretendia passar a mão pelo pêlo dos párocos presentes e, na pessoa deles, pelos paroquianos católicos do concelho de Gondomar. Nisso, ele dá cartas. Quem há, no nosso país, que o não reconheça?
Mas a verdade é que, ao entrar por aí, o Major meteu logo a pata na poça (é uma forma popular e literária de dizer. Bem sabemos que o Major não tem patas, sim pés. E também não havia, na sala onde ele falava, nenhuma poça. Essas, e muitas, estão por quase todas as estradas das freguesias do concelho, repetidas vezes tapadas, como quem deita remendos de asfalto, mas pouco depois, de novo, abertas e cada vez mais largas e mais fundas. Mesmo assim, está visto que os proprietários de veículos auto continuam a ter de pagar o imposto de circulação, quando, afinal, ainda deveriam ser indemnizados pelos estragos de toda a ordem que sofrem as suas viaturas, por circularem em estradas em tão mau estado!).
Na verdade, ouvir um presidente de Câmara elogiar as comissões fabriqueiras das paróquias católicas é obra. Só mesmo de um Major presidente. Como pode ele elogiar indiscriminadamente as comissões fabriqueiras das paróquias católicas, quando se sabe que todas elas, se efectivamente funcionam (há paróquias, onde a comissão fabriqueira se resume ao próprio pároco, nada mais!), têm de andar a toque de caixa do respectivo presidente nato, que é invariavelmente o pároco de turno, por sinal, um funcionário do sistema eclesiástico católico, nomeado pelo Bispo da Diocese (outro funcionário superior do mesmo sistema eclesiástico e que, tal como o pároco, também não é eleito pela Igreja local, mas é imposto à força pelo papa/chefe de Estado do Vaticano, que o nomeia, sem que a respectiva Igreja local alguma vez seja sequer sabedora dos critérios que terão presidido a essa nomeação!) e que o mantém em funções, só enquanto ele der públicas provas de bem cumprir as normas canónicas em vigor?!.
Mas o que é que o Major presidente terá dito mais, aos párocos totalmente rendidos a seus pés, à espera do cheque que ele haveria de assinar e entregar a cada um deles, sob a forma de um Contrato-Programa de Desenvolvimento de Apoio Social? (por acaso, haverá aí alguém tão ingénua/tão ingénuo, que não saiba o que se esconde por trás de nomenklatura tão pomposa, como esta?!). Ora, leiam com atenção:
"Temos uma relação muito franca com a Igreja, porque temos a mesma missão: melhorar a vida dos gondomarenses. Nós a tentar melhorar a qualidade de vida dos cidadãos, e a Igreja a dar o apoio psicológico, a palavra amiga que, às vezes, mata mais a miséria do que os bens materiais".
Não se ficou por aqui o Major presidente. Aproveitou o ensejo para explicar aos seus párocos, qual o destino que eles deverão dar ao dinheiro que ele próprio lhes ia entregar, em mão, como se todos eles, de repente, se tivessem convertido numa nova espécie de funcionários da Câmara Municipal de Gondomar ("Temos a mesma missão, nós e vós", não foi o que, do alto do seu saber político e pastoral, disse, atrevidamente, o Major presidente, sem que nenhum dos párocos presentes o contradissesse ou corrigisse?).
Neste ponto, o Major foi peremptório e deixou claro que o dinheiro disponibilizado não era para fazer obras, "daquelas que se vêem", como por exemplo, estradas e jardins-de-infância, que essas são obras da competência da autarquia (talvez, por isso, as populações do concelho continuem ainda tão carenciadas). O dinheiro que o Major presidente fez questão de depositar nas mãos dos seus párocos é, exclusivamente, para eles prestarem assistência "aos mais necessitados".
Não se ficou por aqui o Major presidente sobre o destino a dar ao dinheiro, por parte dos párocos. Voltou por isso à carga, num esforço de quem procura ser bem concreto, para que os párocos não ficassem com dúvidas. Ora vejam.
"Este dinheiro é para apoiar as famílias carenciadas que muitas vezes vivem numa miséria envergonhada, e não têm mesmo a coragem de se abeirar das entidades competentes. Mas vocês, padres (cá está, mais uma vez, o mestre a falar como quem sabe o que devem fazer os padres à frente das paróquias!), conhecendo melhor os vossos paroquianos, têm possibilidade de lhes melhorar alguns aspectos".
Prosseguiu depois o Major presidente, num estranho tom de humildade que, na sua boca, tem fatalmente o som do cinismo e da demagogia: "Não são quantias muito substanciais e foram contabilizadas de acordo com o número de habitantes de cada paróquia, mas sempre dá para comprar um medicamento, ajudar a pagar uma renda ou uma peça de vestuário".
E os párocos de Gondomar como reagiram a todo este teatro/discurso do Major presidente? Pelo que conta a minha camarada de profissão, Luísa Pinto, os párocos de Gondomar reagiram da mais vergonhosa maneira. É mesmo de vómitos.
O pároco de Baguim do Monte foi o primeiro a levantar-se, a assinar o Contrato-Programa e a receber o cheque. Talvez porque a ordem alfabética assim ditou. A sua paróquia começa pela letra B, e o nome dele começa pela letra A, de António Borges.
Mais parecia um recruta diante do Major presidente que havia acabado de dar sobejas provas de grande saber político e pastoral!!! Por isso, o pároco, cerimonioso, falou no tom subserviente do funcionário subalterno diante do chefe. E utilizou o plural, como quem falava em nome de todos: "Queremos agradecer as palavras sinceras do presidente e o reconhecimento do nosso trabalho e das necessidades das populações".
Mas o pior, em termos de vergonha humana e eclesial, ainda estava para vir. E foi protagonizado pelo pároco de S. Pedro da Cova, Padre Mendes, de seu nome, já sobejamente conhecido no concelho, por ser unha e carne com o Major presidente e com todas as suas iniciativas.
Primeiro, interrompeu o colega de Baguim do Monte, com uma "boca" que diz tudo sobre a sua falta de isenção político-partidária, no exercício do ministério eclesial em que está investido. Assim: "Diz isso também aos paroquianos!". Depois, sobre o que ele próprio irá fazer com o dinheiro, agora recebido das mãos do seu Major presidente, foi tão categórico, quanto subserviente: "Quando um paroquiano (pelos vistos, esqueceu as paroquianas...) me vier pedir dinheiro para os antidiabólicos (sic), eu aviso: não sou eu que dou, é a câmara".
O Major presidente agradece, naturalmente, tamanha cooperação dos seus párocos. E terá ficado a pensar, por baixo duma sarcástica e cínica gargalhada, que, com funcionários eclesiásticos municipais assim, tão subservientes e sabujos, não será preciso muito mais trabalho para ganhar todas as eleições livres e democráticas que venham aí, a começar já pelas próximas autárquicas.
Os párocos católicos do concelho de Gondomar é que, no decorrer das cerimónias da Páscoa, a que, por estes dias, terão de presidir, quando voltarem a encarar com a figura evangélica de Judas Iscariotes, um dos Doze, que traiu Jesus, o Cristo, por trinta dinheiros, talvez se recordem, então, que, também eles, por uma verba quase tão irrisória como aquela, vergonhosamente, se demitiram do ministério profético de Evangelizar os pobres, que lhes cabe por inteiro viver, com risco até da própria vida.
Mas o pior é que, provavelmente, nenhum deles, mesmo depois de reconhecer esta traição à sua missão presbiteral e eclesial, terá coragem para ser consequente como Judas Iscariotes foi. E se, com estas minhas palavras, de modo algum pretendo sugerir que todos os párocos do concelho de Gondomar corram a enforcar-se numa árvore, como diz o Evangelho que Judas fez, depois da traição, já me atrevo a sugerir que se arrependam do que fizeram e, daqui em diante, tenham coragem de enforcar e de fazer rebentar pelo meio o vergonhoso concubinato entre o Major presidente e eles, párocos católicos, que a teatral assinatura deste Contrato-Programa tão paradigmaticamente simboliza.
Para que, assim, as populações do concelho de Gondomar, que, um dia, lhes foram pastoralmente confiadas, possam finalmente conhecer a Verdade que liberta, e cheguem a viver a liberdade responsável que a Verdade sempre faz nascer e desenvolver em quem se deixa fazer por ela.
Deste modo, ainda poderemos continuar a acreditar que todos os majores presidentes do nosso país e do mundo terão os dias contados. Em seu lugar, florescerão populações definitivamente libertas do medo, populações de olhos bem abertos, populações conscientes, autónomas, senhoras dos próprios destinos, e com posturas cheias de dignidade que jamais tolerarão caridadezinha de nenhuma espécie, seja a caridadezinha dos laicos ricos, seja a caridadezinha dos clérigos que comem com eles e os abençoam! Em nome de Deus. Não, evidentemente, o Deus de Jesus, o Cristo Crucificado/Ressuscitado. Sim o deus-Diabo, visceralmente, mentiroso e assassino.

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