Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

4 Abril 2001

"Quem o inimigo poupa, nas mãos lhe morre". O ditado é popular e visceralmente anti-evangélico. Mas permanece deveras entranhado no inconsciente colectivo das populações, sobretudo das que se têm na conta de muito católicas e de muito devotas da senhora ou deusa de Fátima, como é o caso de grande parte da população católica portuguesa. Na sua formulação, o ditado é bem o que se pode chamar um anti-kerigma do Evangelho de Jesus de Nazaré.
Enquanto o kerigma do Evangelho de Jesus de Nazaré, a este respeito, diz, textualmente, "Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, abençoai os que vos amaldiçoam, rezai pelos que vos caluniam" (Lucas 6, 27-28), este ditado popular não hesita em sugerir uma prática totalmente oposta, quando proclama, peremptório, que devemos matar o inimigo, antes que ele nos mate a nós. Pois que outra conclusão não se pode tirar da afirmação, "Quem o inimigo poupa, nas mãos lhe morre".
O mais surpreendente, porém – para não dizer, o mais chocante – é que quem acaba de recordar e reproduzir este ancestral provérbio popular, visceralmente anti-evangélico, é um padre católico, para cúmulo, com públicas responsabilidades institucionais, na diocese de Viseu.
Invoca ele este provérbio, para sugerir o que, em seu entender, a sociedade portuguesa deverá imediatamente fazer para combater com eficiência certos comportamentos desviantes de alguns grupos de adolescentes, raparigas e rapazes, que ultimamente têm surgido na sociedade portuguesa. E, quando se esperava ver este padre católico ser, publicamente, desautorizado pelo respectivo Bispo da diocese, por sinal, um antigo frade franciscano, o que se viu foi o contrário. O Bispo veio a terreiro, sim, mas para produzir idênticas afirmações às do seu próximo cooperador.
Não tive ainda acesso ao último número de "Igreja Visiense", o órgão de comunicação oficial da Diocese de Viseu, nem pude, por isso, ler na íntegra o seu Editorial, assinado pelo padre José Fernandes Vieira, presidente do Secretariado diocesano das comunicações sociais.
Mas os excertos que li ontem no PÚBLICO e tudo o que, no dia anterior, ouvi, a este propósito, da boca do próprio Bispo de Viseu, nos telejornais nacionais, já me bastam para eu me indignar e protestar com toda a veemência, por este eclesiástico atentado ao Evangelho de Jesus, por parte de quem, um dia, foi ungido para Evangelizar os pobres, e continua, como eu próprio, a fazer parte da Igreja católica, cuja missão pastoral, toda ela, se resume apenas a isto: Evangelizar os pobres.
A minha indignação e o meu protesto são tanto mais veementes, quanto as afirmações do Editorial de "Igreja Visiense", nas quais se inclui aquele provérbio popular, têm na mira os adolescentes, raparigas e rapazes, não só da Diocese de Viseu, mas também de todo o nosso país.
O próprio padre José Fernandes Vieira tem consciência do disparate anti-evangélico que assina naquele famigerado Editorial (são palavras textuais dele: "Quem o inimigo poupa, nas mãos lhe morre. Não vamos agora discutir se será muito evangélica esta asserção. Mas é [...] prudente e mesmo indispensável acautelar o futuro").
Contudo, não só não se apressa a recuar e a escrever outra coisa mais conforme ao Evangelho de Jesus, o mesmo é dizer, mais conforme à Verdade que liberta, como, pelo contrário, até se apressa a reforçar ainda mais todo o seu ódio aos adolescentes, raparigas e rapazes, que, alguma vez, já lhe terão feito a vida negra, ou terão feito a vida negra a amigas e amigos dele, porventura, tão vip’s quanto ele, ou mesmo mais vip’s do que ele, e em defesa de quem ele resolveu sair, intempestivamente, a terreiro, neste seu furioso Editorial.
Para o padre José Fernandes Vieira, até parece que deixou de haver adolescentes em Portugal. O que há, agora, são "numerosos gangs juvenis que vão à solta, invadindo o nosso país; assaltam de noite e de dia, roubam, estragam, inutilizam, insultam, agridem". E tudo isto, sem que os governantes levantem uma palha contra eles, muito menos se atrevam a alterar a legislação em vigor, que impede os Tribunais de actuar e de condenar quem tem menos de 16 anos de idade.
É neste contexto que o padre recorre àquele ditado popular, em lugar de recorrer ao Espírito de Deus que respira e sopra, com força libertadora, no Evangelho de Jesus. E, quando, num manifesto rebate de consciência, de repente, cai em si e se recorda, como num pesadelo, desse mesmo Evangelho – "não vamos agora discutir se será muito evangélica esta asserção" - logo o silencia e o manda às urtigas, como quem publicamente abjura do seu ministério pastoral fundamental, que é Evangelizar os pobres, também, portanto, Evangelizar os adolescentes.
Com esta sua pública postura, o padre José Fernandes Vieira nem sequer se dá conta de que está a mandar às urtigas toda a Igreja católica de que ele é membro qualificado, bem como toda a acção pastoral dessa mesma Igreja, ao longo dos últimos anos, nomeadamente, as inúmeras catequeses que ela promove e ensina, as pregações que faz, as aulas de moral que o Estado português paga para ela dar nas escolas públicas - precisamente, aos adolescentes, raparigas e rapazes - as homilias que os párocos pronunciam aos domingos, os grupos de adolescentes que as paróquias ainda conseguem arregimentar à sua volta, as comunhões solenes e os crismas que celebram com adolescentes, estes últimos, os crismas, até sob a solene e pomposa presidência dos bispos.
Temos de concluir que, afinal, toda essa acção pastoral da Igreja católica não tem conseguido qualquer resultado visível, junto dos adolescentes, raparigas e rapazes. Tem sido uma acção completamente estéril, inútil, sem fruto. Puro ruído. Pura agitação. Cana agitada pelo vento. Ou tem mesmo contribuído, de tão vazia e moralista que é, para o aparecimento desses "numerosos gangs", de que fala este Editorial da publicação, "Igreja Visiense".
Por outro lado, na sua sanha contra os adolescentes e os actuais governantes do país, o padre José Fernandes Vieira mostra-se totalmente incapaz de qualquer autocrítica pessoal e institucional e não hesita em garantir que todo o tipo de problemas que os adolescentes levantam, se resolveriam com uma simples alteração à lei vigente.
Neste aspecto, até parece um sósia do demagogo deputado Paulo Portas, do PP, que, como é sabido, também resolve todos os problemas sociais do país, nomeadamente, os da (in)segurança das populações, com mais polícia nas ruas, género, um ou dois polícias por cada cidadão.
Para este padre da Igreja visiense, as coisas são tão simples quanto isto: Os adolescentes, raparigas e rapazes, com menos de 16 anos, portam-se mal? Fazem desmandos a qualquer hora do dia e da noite? Pois bem, a culpa é toda deles e dos governantes que nem sequer têm coragem para alterar a lei em vigor. Uma lei que é tão má, tão má, que não permite que ninguém seja preso, julgado e condenado, antes dos 16 anos.
Bastará, por isso, segundo o padre visiense, alterar a lei vigente e baixar dos 16 para os 14 anos, a idade a partir da qual alguém possa ser julgado e condenado em Tribunal, para que os problemas com os adolescentes fiquem prontamente sanados! (por este andar, também o actual Primeiro Ministro, António Guterres, deverá alterar a sua mais recente proposta para entusiasmar os adolescentes pela política. Em lugar de propor que se passe a poder votar a partir dos 16 anos, é melhor que proponha a partir dos 14 anos, para que, assim, os adolescentes, raparigas e rapazes, não só passem a poder ser condenados mais cedo pelos Tribunais, mas também passem a poder votar mais cedo nos diversos actos eleitorais do país!).
Ou seja, para o padre José Fernandes Vieira, basta que Portugal siga o exemplo dos Estados Unidos da América (digam lá, senhores, se Deus, alguma vez, pode deixar de estar com o Poder norte-americano, mai-las suas multinacionais de sucesso, as suas escolas de crime organizado, as suas fábricas de armamento sofisticado e o seu sistema económico neoliberal, cujo êxito está aí bem à vista em todo o planeta, nomeadamente, nos milhões e milhões de pobres que conseguiu produzir e continua a conseguir, por sinal com requintes de cínica perfeição, bem como nos irreparáveis estragos ambientais, sem conta nem medida, que de modo algum está disposto a deixar de praticar?!...).
Por outras palavras, basta que os governantes do nosso país procedam como os dos Estados Unidos e decretem, quanto antes, que a adolescência acabou, ou que alguém só pode ser adolescente até aos 14 anos. A partir dessa idade, qualquer rapariga e qualquer rapaz pode e deve ser tratado como adulto, por isso, pode e deve ser detido, julgado, condenado e preso, sempre que revele comportamentos que incomodem pessoas vip’s, como o padre José Fernandes Vieira, de Viseu e o seu Bispo, mai-las suas amigas e os seus amigos, tanto ou ainda mais vip’s do que eles!
É evidente que é com grande sentido de humor que isto escrevo. Mas o pior é que tudo isto é profundamente lamentável. E uma vergonha, nomeadamente, para a Igreja católica que está em Portugal. Sobretudo, vale como um tiro mortal no Evangelho de Jesus que, assim, é atirado às urtigas, como palavra de museu, que não interessa para nada, sempre que, como sociedade, estivermos a braços com graves problemas concretos que urge resolver, de forma digna e humana!
Daí a razão de ser deste meu protesto e desta minha indignação. Aproveito, igualmente, para deixar bem claro qual a minha posição a propósito.
Para mim, que sempre tenho vivido em contacto com a realidade mais real, nas periferias e não nos centros, próximo dos pobres e marginalizados, e não nos templos e altares, cobertos com finas toalhas de linho, e servidos por cálices de ouro e de prata; para mim, que gosto de partir e de repartir do meu pão com os que não têm lugar nas imaculadas mesas eucarísticas, uma coisa é clara: Uma Igreja que assim se posiciona e fala, como o padre José Fernandes Vieira e o Bispo de Viseu, é uma Igreja que – ela, sim - tem ser lançada às urtigas. Como o sal que perdeu a força e para nada mais serve do que ser pisada pelos seres humanos, já que nem para a esterqueira serve.
É que os nossos adolescentes, raparigas e rapazes, incluídos "os numerosos gangs" de que fala o padre visiense, jamais podem ser olhados como inimigos a abater – "Quem o inimigo poupa, nas mãos lhe morre" – sempre têm de ser olhados como vítimas de certas economias, de certas políticas e de certas instituições, Igrejas incluídas, sem entranhas de misericórdia, de ternura e de carinho. Não há adolescentes maus. Há raparigas e rapazes vítimas. Que urge acolher, escutar, dar-lhes todo o tempo e toda a atenção do mundo. E que urge apoiar com instituições que as e os despertem para a cidadania e para os valores da vida a promover e a salvaguardar, mesmo com risco da nossa própria vida.
Ousemos ir por aqui com as nossas adolescentes/com os nossos adolescentes de hoje, e veremos como o século XXI será ocasião de Novos Começos e de Novas Formas de se ser adulto e também de se ser adolescente.

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